(continuação...)
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
(continuação...)
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
O Sebastião além de pisteiro era um companheirão formidável. Sempre alegre, já avô, tinha mais resistência do que muitos rapazes de vinte anos que lhe passaram por perto.
Consciente, sabia que seguir pacassas feridas dentro da mata era temeridade a evitar. Mas chega sempre o dia em que o inevitável acontece.
Depois de algum tempo de procura, seguindo trilhos já muitas vezes pisados, o encontro com a manada, ainda campo aberto, capim seco mas muito alto, que mal dava para ver as costas das pacassas correndo, o jeep avança e de cima sai um tiro que derruba um dos animais. Quando o carro se aproxima e pára, aquele reúne forças, levanta-se de novo e foge para dentro da mata sem dar tempo a que alguém volte a atirar, porque com o capim alto a visibilidade era quase nula.
No meio do capim alto, era difícil atirar!
- Aiué! Aiué! Não atira, patrão. Não atira, patrão!
Bicho bravo!
- Mulhé, eu moria! Mulhé, eu moria! Quero tudo bêbo! Eu moria mêmo!
Belo exemplar! (talvez 450 a 500 kg) - (foto Sapo)
A maioria destas caçadas acontecia quase sempre nos fins de semana. A região onde o Sebastião morava e que tão bem conhecia, ficava a menos de cem quilometros para norte de Luanda, na chamada faixa costeira. Saía-se da cidade cerca do meio dia de sábado. Uma hora e meia depois atravessava-se o rio Dande, onde perto da foz havia uma fazenda de palmar. Paragem quase obrigatória, nessa fazenda bonita, bem organizada, as ruas ladeadas por laranjeiras que davam o que deviam ser as melhores laranjas do mundo. O administrador deixava que se apanhassem quantas quisessem, o que ajudava a matar a sede durante a caça. Ali ao lado, na foz do rio, um imenso viveiro natural de magníficas ostras. Contratava-se um trabalhador da fazenda para as ir apanhar no domingo de manhã, que no regresso da caça, se levariam para casa.
Normalmente dois sacos cheios delas! Em Paris custariam uma fortuna! Ali uma gratificação ao apanhador que ficava todo contente e nada lhe custara. Tanta coisa boa naquela terra à disposição de quem quisesse!
Pode ser difícil de acreditar mas em Moçâmedes havia uma variedade de mexilhão, que chegava a atingir trinta e mais centímetros de comprimento! A parte comestível parecia um ovo estrelado! Mas era mexilhão! Delicioso. As conchas eram tão bonitas, parte transparente como madrepérola, que se guardavam depois dentro das casas como objeto de decoração. Lindas.
Voltemos à caça.
Mas o Ninocas... hiii! O Ninocas e seu irmão Antoninho! Duas figuras de legenda nas caçadas, sobretudo às pacassas! Todo o fim de semana, fizesse chuva ou sol lá iam estes dois, sempre com alguns agregados, às pacassas! Caçavam bem, mas sobretudo transformavam qualquer caçada no maior, no mais alegre e descontraído acontecimento. Muito bem dispostos, maluquissimos, quando avistavam uma peça de caça corriam com o jeep em qualquer terreno, fosse ele plano, esburacado, pedregoso ou com precipícios! O carro voava, tombava, os passageiros apesar de ficarem com pernas e braços cheios de decorativos hematomas, aquela inesquecíveis marcas arroxeadas, miraculosamente não eram projetados para fora, mas não desistiam nunca da perseguição. Entrava-se com o carro na mata, donde tantas vezes depois se viam em séria dificuldade para o tirarem de lá, rasgavam-se nos espinhos, não só os retos mas aqueles horríveis em unha de gato” que esfacelava as roupas e os braços que apanhasse, mas nada disso tinha mais importância do que caçar!
Outro fim de semana. Saída de Luanda já tarde, num sábado. Desta vez a região da caçada era a caminho do interior lá para os lados de Zenza do Itombe, onde haveria, haveria, uma baixada cheia de caça! Dois jeeps, do Ninocas e do Antoninho, sete malucos dentro, chegam já ao anoitecer perto da tal baixada. Chovia um pouco, e tinha chovido bem durante o dia, mas jeep é jeep e pode sair da estrada. De repente, como sempre acontece nos trópicos, é noite, acende-se o farolim à procura de olhos que brilhem. Nada. Não andaram muito e logo um dos jeeps se atola na lama. Engata os dois diferenciais, marcha reduzida, um pouco atrás, um pouco à frente, o carro vai-se enterrando cada vez mais. Toda aquela área, de baixada, com a chuva que tinha caído nos últimos dias, estava um lamaçal só. Noite escura como breu. O outro jeep, um pouco afastado, é chamado com o foco do farolim. Não pode chegar muito perto para não se atascar também. Passa-se uma corda de um para o outro, experimenta-se rebocar, quebra a corda, e por fim acaba o segundo jeep por ficar de barriga na lama! Os dois imobilizados. Noite, mas cedo ainda.
Única solução: vamos passar aqui a noite e de manhã se vê o que fazer. De repente voltava a chover que Deus a mandava, a única vantagem para deixar os mosquitos quietos. Jeep é coisa desconfortável. Quatro dentro de um e três no outro de onde nem sair podiam para esticar as pernas porque a chuva não parava. Perspectiva para o dia seguinte safarem os carros era fraca, mas naquele momento nada mais podia ser feito.
Ninguém conseguia nem dormitar. O incomodo era mais do que permitia a fraca força humana, sendo ainda preciso considerar que os jeeps tinham capotas mas não tinham janelas!
E assim se passou a noite toda. Quando os primeiros alvores da manhã que se avizinhava permitiu fazer o ponto da situação todos meteram mãos à obra para saírem dali. Corta paus, levanta uma das rodas com o macaco, coloca paus por baixo, levanta outra, repete, e por aí vai! Uma canseira que só o entusiasmo das caçadas consegue aguentar!
Safou-se o primeiro carro e a seguir, com a ajuda deste, o segundo.
Acabou a caçada!
Todos mais mortos do que vivos a única coisa que conseguiram caçar foi um belo matabicho em Zenza do Itombe antes de voltarem para casa tão moídos como café para máquina Expresso! Mas foi ótimo. Ninguém se lamentou.
As noites de sábado para domingo eram sempre passadas no maior desconforto, procurando cada qual dormir um pouco dentro do jeep ou no chão, duro e irregular. Impossível. Mas a paixão pela caça tudo justificava e perdoava. Depois do pôr do sol no sábado, normalmente já com alguma peça de caça abatida procedia-se ao seu preparo. Quantas vezes junto à cubata onde vivia o Sebastião e parte da sua família. Esfolava-se o bicho, dividia-se a carne pelos moradores da sanzala, acendia-se o fogo e preparava-se ali um jantar opíparo! Carne de caça, uma delicia, temperada com sal e vinho tinto, e como acompanhamento raras vezes mais do que pão, um pouco de pirão ou umas batatas a murro. À sobremesa as laranjas do Dande. Para beber o mais usual era cerveja ou vinho de garrafão, daquele, do bom, com capacete de gesso, e tudo o que sobrava, e era sempre quantidade apreciável, era reserva do Sebastião, cuja provisão nunca faltava. E ficavam-se horas esquecidas sentados junto ao fogo depois de comer, conversando, ouvindo, contando e repetindo histórias de outras caçadas, estórias e lendas que os pisteiros e até os sobas vinham por vezes compartilhar e contar sob um céu estrelado e tranquilo. Sunguilando. Todos sempre ofereciam as suas cubatas - palhotas de pau a pique - para que lá dentro pernoitassem também os patrões, o que alguns aceitavam, enquanto outros preferiam deitar-se debaixo de alguma árvore, esticados (?) num banco do jeep, ou simplesmente junto ao fogo, dormitando umas escassas horas sob o efeito da ceia e da cerveja, acordando normalmente todos empenados!
Ainda noite, levantar de novo, procurar esticar as pernas, massagear as costas doloridas pela falta do colchão, pescoço meio torcido, passar um pouco de água na cara, reavivar o fogo para preparar um café, e de volta para cima do jeep continuar a caçada.
O nascer do dia nos locais de caça é mais uma imagem que o tempo não apaga.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Um homem especial. O caçador. Que pertence a uma classe à parte dentro da estrutura social em África. Não é qualquer um que é caçador. Quanto mais primitivo o homem mais em harmonia com a natureza ele consegue viver. Respeita e teme as suas forças que em grande parte deste continente ainda se impõem como uma espécie de religião. Mas em África como em qualquer outro lugar do planeta nenhum ser humano hesita em se sobrepor ao que hoje se chama de equilíbrio ecológico, ao ambiente. Basta que a população cresça, que os pastos do gado faltem, que lhe proporcionem qualquer negócio, para ele derrubar a mata, esgotar a terra, e se mudar para zonas mais intocadas. Assim se fez desde sempre, e fizeram-no brancos, amarelos, índios e africanos. Todos sabem que dependem desse equilíbrio, e enquanto as pressões não forem superiores à sua capacidade de resistir, a Mãe Natureza vai sendo mais respeitada. Fora disso...
Um homem "mucubal" no seu ambiente (foto do blog hunakulu)
O bom pisteiro sente no ar a presença da caça.
A cerca de trinta quilometros para norte da cidade de Moçâmedes, hoje Namibe, o nome do deserto, há uma praia, a Baía das Pipas. À sua volta nada mais do que praia, muita praia, quilometros e quilometros de praias intocadas, o mar a poente o deserto no nascente. Ali a corrente de Benguela, ainda muito fresca, o mar riquissimo em peixe, frutos do mar, águas azuis, transparentes. Poluição é palavra desconhecida. Um lugar maravilhoso. Paradisíaco.
Nessa baía se foram estabelecer no princípio deste século XX dois pescadores portugueses acabados de chegar a Angola. Nada, nada havia ao redor. Nem uma cubata, que eles tiveram que construir para morar. Foram pescar e viver disso. Precariamente, em termos econômicos, mas sem que nunca lhes faltasse comida.
Ambos se juntaram, talvez até tivessem casado de papel passado, com mulheres indígenas, uma delas irmã de um soba da região, de quem tanto um quanto o outro tiveram boa dose de filhos. Cinquenta anos depois só um dos casais estava vivo, velhote, uns quantos filhos, sobrinhos e netos à volta. Moravam nessa altura em cinco ou seis casas já de alvenaria. A cidade mais longínqua que tinham conhecido era exatamente Moçâmedes! Uma existência de faina e vida tranquilas.
* Esta fotografia com o velho amigo Alberto Gomes foi encontrada hoje, por um acaso sensacional, no blog princesa-do-namibe!
Um dos filhos, o Alberto, Alberto Gomes, um mulato grande, robusto, coração maior do que ele todo, uma mão enorme forte como uma torquês, simples, muito simpático, sempre sorridente e alegre, sorriso transparente como as águas daquele mar, uma figura humana que não se consegue esquecer.
Podia quem quer que fosse chegar à Baía das Pipas, a qualquer hora do dia ou da noite, que toda a família logo saía de suas casas para ver o que estava acontecendo! Quem os fosse visitar levava normalmente vinho e cerveja, batata, arroz ou algo de mercearia que pudesse complementar o que a natureza e o seu trabalho lhes dava. O deserto, onde às vezes se passa um e dois anos sem chover, junto à orla marítima tem um nível freático muito alto, o que permite manter o ano inteiro uma horta produzindo ótimos e frescos legumes. E aquela gente tinha-a. E muito mais: tinha o mar. Geladeira não havia nem dela muito necessitavam, porque o mar fornecia a qualquer hora tudo o que quisessem. Era só chamar alguns garotos, os sobrinhos, que corriam para a água e passado pouco traziam uma imensa variedade de peixes, camarão, lagosta, mexilhão, e um monte de outros frutos do mar. Imagine-se como eram frescos!
Depois, acender o fogo, esperar um pouco e deliciar-se com tudo aquilo! Entretanto o Alberto pegava na sanfona tocava uns fa-ri-funs em ritmo misto da terrinha dos velhotes com influencia angolana e saía um bailarico, porque mesmo que os visitantes não fossem de ambos os sexos, o que era raro, tinham como par as filhas, sobrinhas, uma irmã e até os pais, velhotes e engelhados os dois, que sempre davam o seu pé de baile!
A vida naquele canto quase esquecido do mundo era de uma pureza impressionante, e ninguém conseguia dali sair sem lá deixar um pouco do seu coração!
A velhota, talvez com setenta, oitenta anos, ainda se enciumava ao ver o marido dar um pé de dança com alguma jovem visitante! Era uma cena engraçadissima, ternurenta.
A inocência, o carinho e a alegria dessas festas deu como resultado levar a fama do Alberto a expandir-se Angola fora, pelos amigos dos amigos. Todos queriam conhecer essa rara espécie de homem! Chegou um dia ao pessoal da marinha de guerra portuguesa, que patrulhava a costa.
Uma bela manhã com tremendo susto e espanto, aqueles simples moradores assistem cheios de pasmo a um imenso navio de guerra, uma fragata, fundear em frente à baía, coisa absolutamente inédita. Os maiores navios que ali tinham ido eram algumas traineiras de pesca, a pescar ou comprar o peixe ou o marisco que aquela gente apanhava e criava em viveiros. Um navio de guerra foi além dum espanto um temor: o que quereriam?
Do navio sai um bote com dois marinheiros e um sargento, que ao desembarcarem são rodeados por toda a população local, que não devia ultrapassar umas vinte pessoas, entre adultos e crianças.
- Quem é o senhor Alberto?
Alberto, desconfiado, apresentou-se.
- O senhor comandante Navarro manda convidar o senhor para almoçar a bordo.
- A mim??!!!!
O humilde e grande Alberto convidado por um comandante dum navio de guerra para almoçar a bordo, era o máximo que ele nunca tinha esperado que a vida lhe proporcionasse! Correu a casa vestiu uma roupa melhorzinha e seguiu no bote. À chegada ao navio, a cerimonial guarda de honra, apitos, continências e apresentações, que todos queriam conhecê-lo, e o Alberto, grande e humilde, espantado e confuso, sem compreender bem o que lhe estava acontecendo, sempre com o mesmo sorriso aberto, franco.
O comandante, amigo de amigos, quis também conhecê-lo e achou que face à fama do Alberto esta seria a melhor maneira de lhe retribuir a simpatia que ele difundia.
Visita ao navio, surpresa e espanto atrás de espanto e surpresa, que finaliza com o almoço na sala dos oficiais. O Alberto não cabia em si de felicidade. Durante o almoço contou inúmeras peripécias da sua vida simples. Todos se divertiram e saborearam aquela alma.
No fim, o convidado, comovido com tanta honra que pareciam lhe prestar, e prestavam, abre os braços e só consegue exclamar:
- Eu, e os meus oficiais!
Foi a apoteose.
Se ele um dia pudesse ler esta singela homenagem que com muita saudade e respeito também para ele aqui fica...
Mas, lá na Baía das Pipas, se fosse madrugada ou já de tarde aproveitava-se para dar uma volta pelo deserto, que generoso também, sempre fornecia alguma peça de caça para complemento daqueles manjares divinos.
Numa das vezes saíram num Fusca dois dos visitantes e o Alberto que conhecia aqueles trilhos todos como as suas próprias mãos, apesar destas serem enormes! Nesse dia a caça parecia teimar em não aparecer. Uns cinquenta quilometros adentro do deserto encontraram um caçador mucubal, da tribo Cuvale habitante aquela região, que seguia tranquilo o seu caminho, aparentemente sem destino, porque parece que o deserto nunca leva a lugar algum! O deserto parece não ter fim.
Alberto mandou parar o carro e foi consultar aquele homem. Saber se ele tinha visto alguma caça ou se sabia onde encontrá-la. O homem, figura de legenda, pele escura como a noite, rosto sereno de máscara, sempre em silêncio, afastou-se uns vinte metros do carro, esteve quase imóvel por algum tempo, virou ligeiramente a cabeça para um lado, depois para o outro e quando se aproximou de novo, levantou um braço, apontou numa direção e disse secamente, na sua língua:
- Ngongo. As zebras estão ali.
As zebras ninguém iria matar, mas ver valia sempre muito a pena. Meteu-se o carro a caminho, andando com facilidade já que o terreno plano permitia correr a sessenta ou mais por hora. Andados uns quinze minutos, dez ou quinze quilometros, lá estava uma manada de zebras. Uns trinta animais. Exatamente na direção que o caçador mucubal indicara! Como ele o soube? Só ele sabe!
Valia muito a pena ir à caça só para ver o pisteiro conduzir os caçadores. Sempre em silêncio, passo ligeiro, nenhum detalhe por muito ínfimo que fosse escapava à sua atenção.
Muitos homens se ofereciam para acompanhar os caçadores, mas se não fossem pisteiros, a caçada não rendia, e até se chegavam a perder no mato!
Uma classe de gente muito especial.
Aahh! Baía das Pipas! Onde o Alberto guardava religiosamente num pequeno barraco coberto a chapa de zinco um velho Ford A, bem enferrujado com o ar do mar e com mais de 30 anos (isto em 1962 ou 3!). Era o orgulho dele: “o melhor carro para andar no deserto!” Devia ser mesmo. E prosseguia: “é só pôr um pouco de gasolina no depósito que ele pega logo”. Dizem-lhe os amigos visitantes: “Trabalha assim bem? Então vamos tirar do nosso carro que tem bastante”.
Comentário final do Alberto: “Só tem um problema. Falta-lhe a bateria”. Há quanto tempo?
“Bem, a última vez que o pus a trabalhar foi há uns nove anos”!
Grande Alberto!
in "Contos Peregrinos a Preto e Branco" de Francisco G. de Amorim, 1998
terça-feira, 4 de agosto de 2009
A conotação ideológica da palavra kilombo, que em kimbunbu significa junta, união, está relacionada com uma das mais importantes instituições políticas do século XVII, em toda a região entre os rios Zaire, Kwango e Kuvo. A sua importância foi especialmente significativa nos antigos estados do Kongo, Matamba, Ndongo e nos estados Ovimbundu do actual Planalto Central angolano, onde provavelmente teve a sua origem.
Segundo Childs, que assinalou a semelhança entre alguns costumes Ovimbundu e os dos "Jaga", kilombo é sinónimo de Kakonda ou Cilombo, nome de um dos principais grupos Ovimbundu. O mesmo autor diz-nos ainda que Cilombo era a designação da "mulher" do herói-civilizador mítico Kakonda, fundador do estado com o mesmo nome. De origem Ovimbundu ou não, esta instituição foi assimilada por muitas forças políticas e militares da África Central ocidental, entre as quais os "Jaga"/Mbangala e os titulares Ngola-a-Kilwanji, tomando-se para a rainha Jinga e também para os Portugueses e para os "Jaga", num instrumento político e de organização militar decisivo.
A importância do kilombo como forma de organização militar, transparece na legenda histórica sobre a origem dos "Jaga" e das suas instituições. Segundo a tradição histórica oral recolhida por Cavazzi, Temba Ndum-ba, heroína-civilizadora, resolveu um dia restaurar as antigas leis do "pai" e dos "antepassados", convencida que a rigorosa observância das mesmas tornaria o seu nome glorioso e temido. Para assegurar o sucesso na guerra, Temba Ndumba impôs a kijila, que em kimbundu quer dizer "proibição" e que consistiu num conjunto de leis proibitivas, que implicavam certos tabus, como por exemplo a abstinência das carnes de porco, de elefante e de serpente. Segundo as leis kijila, os membros do kilombo eram também obrigados ao comprimento de certos rituais de guerra, assim como a observâncias de cariz religioso, estas a cargo do xinguila, especialista adivinho.
Um dos rituais do kilombo, obrigava ao sacrifício de uma criança que devia ser pisada no pilão e reduzida a uma «massa informe», à qual se juntava ervas, raízes e uns pós. A massa de carne humana, depois de fervida e atingir a consistência desejada, era chamada maji-a-osamba, a «pomada milagrosa», com que os homens se deviam untar antes de partirem para a guerra. Acreditava-se que os rituais, em conjunto com a aplicação da maji-a-osamba, conferiam uma invulnerabilidade mágica aos iniciados, que de outra forma estariam expostos às susceptibilidades das forças naturais.
Uma outra lei kijila, que reflecte o cariz de especialização militar do kilombo, consistia na interdição de se criarem crianças dentro dos limites do acampamento, estipulando que os gémeos, que por razões de crença religiosa eram associados ao infortúnio e ao mau presságio, e os diminuídos físicos, fossem, por norma, sacrificados logo após a nascença.
A renovação do grupo era feita através da socialização de jovens prisioneiros que, ao unirem-se com as mulheres do kilombo, se tomavam membros de pleno direito.
O kilombo, como ideologia política, oferecia duas vantagens que, em muitos casos, foram decisivas para que fosse adoptado:
1. Era uma estrutura social em que os seus membros não se relacionavam segundo normas prescritas de parentesco consanguíneo gozando, por essa razão, de uma maior mobilidade social e de uma relativa equidade de estatuto e de oportunidades de promoção. Por essa razão, o kilombo tomou-se numa instituição supra-tribal, capaz de unir e aglomerar indivíduos de diversas origens étnicas.
2. O kilombo era também uma forma de organização militar rígida, apoiada num código moral vocacionado para criar guerreiros, conferindo, aos grupos que o adoptavam, um comportamento que muitas vezes se traduziu numa capacidade bélica superior.
A adopção do kilombo esteve ligada a grupos fraccionários, como foi o caso dos Kinguri, ou a chefes ambiciosos com projectos hegemónicos que, por insuficiente número de seguidores, não reuniam as condições objectivas para a realização dos seus projectos. Este foi o caso de Ngola-a-Mbandi, da rainha Jinga e dos Portugueses. Também os Kinguri, que aparentemente deixaram a Lunda sob pressão política e militar dos Luba, adoptaram as leis kijila do kilombo, como uma solução para os problemas de desintegração e divisão que emergiram quando ainda estavam submetidos à ideologia inerente ao título Kinguri. A sul do rio Kwanza surgiram alguns grupos de guerreiros chefiados por titulares kilombo, que incluíam títulos subordinados Lunda, Kinguri e Makota, denominados Mbangala, "Jaga"/Mbangala ou somente por "Jaga".
Um chefe em apuros, ou movido pela ambição, podia adoptar a organização do kilombo, ou/e reivindicar legitimidade à posse de um título que descendesse de um chefe kilombo.
Cerca de 1626-1627 a rainha Jinga, quando cercada pêlos exércitos de Ngola-a-Ari e dos seus aliados Portugueses, estabeleceu uma aliança com Kaza Ka Ngola, que detinha posições kilombo. "Casando" com "ele", a rainha Jinga adquiriu um título kilombo, tembanza, "primeira mulher", que lhe conferiu a legitimidade que porventura lhe faltava para preparar o maji-a-osamba. A apropriação desta posição kilombo por parte de Jinga, poderá explicar a forte influência que ela parece ter exercido ocasionalmente sobre alguns titulares, nomeadamente os "Jaga" Kalandula e Kabuku Ka Ndonga, entre 1640 e 1650.
Uma passagem da carta que a rainha Jinga escreveu ao governador Português Sousa Chichorro, datada de 13 de Dezembro de 1655, é bastante elucidativa quanto à circunstancialidade da adopção das leis kijila:
...«dou a minha palavra que, tanto que chegarem os reverendos padres com minha Irmã, tratarei logo de deixar parir e criar as mulheres seus filhos, cousa que até agora não consenti por ser estilo de quilombo, que anda em campo, o que não haverá, havendo paz firme e perpétua, e em poucos anos se tomarão minhas terras a povoar como dantes, porque até agora me não sirvo senão com gente de outras províncias e nações que tenho conquistado, e me obedecem como sua senhora natural com muito amor, e outros por temor».
In "Economia e Sociedade em Angola * Na época da Rainha Jinga * Século XVII", por Adriano Parreira, Editorial Estampa, Lisboa, 1987
Do Brasil, por Francisco G. de Amorim
04 jul 09
quinta-feira, 30 de julho de 2009
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É verdade. Caçava-se muitas vezes de cima de um jeep, e até se atirava com ele a correr pelo mato! Aos saltos. Tudo era fruto do enebriamento e entusiasmo que a caça produzia.
Em Angola chamavam-se aos donos ou diretores de empresas que viviam em Portugal, e que ali se deslocavam em viagem de teórica inspeção, mas sobretudo de passeio e férias, pagas, os inspetores do cacimbo! Cacimbo era a designação genérica da época mais fresca, teoricamente o inverno, mas cacimbo é especificamente a névoa matinal que só aparece naquele período. Uma espécie de orvalho. Em São Paulo é a garoa. Esses tais inspetores de cacimbo normalmente não apareciam em África nos meses mais quentes quando o clima era pesado. Ar condicionado não existia, e sobretudo as noites eram difíceis de suportar. Tudo afinal uma questão de hábito.
Habitual era proporcionar a esses visitantes alguma caçada, sobretudo caça grossa, visto que muitos deles, lá em Portugal caçavam já perdizes, coelhos e pouco mais.
Um deles, um ricaço metido a esperto, Manuel Vinhas, caçador em Portugal, que ia com frequência a Angola, onde se sentia o dono único de uma companhia de cervejas, comprou nos Estados Unidos uma magnifica carabina Winchester .375 Magnum, arma de calibre pesado, muito versátil tanto para antílopes grandes, como para búfalo, elefante e rinoceronte.
Homem influente nos meios industriais, não faltava quem o quisesse convidar para ir à caça. Sentado no banco da frente de um jeep, carabina na mão, lá vai o importante senhor no meio de uma turma de malucos procurar emoções. O primeiro tiro, por cortesia era sempre reservado ao visitante. Chegados à zona da caça, deixa-se a estrada e segue-se por trilhos mais ou menos conhecidos, devagar, todos os olhos disponíveis perscrutando a savana, a orla das matas, o capim alto, à procura de sinais de caça, que podiam ser somente a ponta de um chifre, um daqueles pássaros companheiro inseparável de algumas espécies, e que denunciam a sua posição, um movimento estranho no capim, etc.
Se algo aparecia, o jeep começava a correr direto ao local indicado, e por muito plano que o terreno fosse o carro saltava quase sempre que nem corça. Todos agarrados com unhas e dentes para se segurarem, incluindo o único passageiro que seguia sentado. Quando a caça ficava ao alcance de tiro, e não havia tempo de parar o jeep porque os animais se esconderiam na mata, era então preciso atirar mesmo em andamento no meio daqueles tombos, o que requeria muita prática e perícia. O convidado era intimado a atirar de qualquer jeito para não deixar fugir a presa.
- Agora. Atira. Fogo. Depressa que estão a fugir. Atira. Atira!
Sob esta pressão de todo o grupo, o convidado tentava meter arma à cara, continuava pulando no assento e sem conseguir apontar acabava disparando de qualquer jeito. Desta feita o tiro seguia o seu destino na maioria das vezes ninguém sabia para onde. Outras vezes sabia-se: um desses tiros da 375 atravessou o capô do jeep e saiu por um dos faróis! Grande tiro! Não matou nada, mas no regresso da caçada foi muito comentado e comemorado! O Manuel Vinhas depois desta demonstração um tanto vexatória e pouco venatória, vendeu a arma!
Essa do "Agora. Atira. Já. Não deixes fugir", e outros gritos semelhantes era o que mais berravam os que iam a conduzir, agarrados ao volante, muito mais seguros do que qualquer outro! Os que iam em pé, no jeep ou nas caçambas das carrinhas tinham que se largar para meter a arma à cara, e isso era difícil e perigoso. Mais ainda em cima de uma carrinha Chevrolet aí dos anos cinquenta e tal, sem estrutura de tubos de proteção. Os que iam lá atrás, logo que se deixava a estrada e se começava a andar por picadas e atalhos que não foram feitos para carros, ou mesmo a corta mato, a procurar caça, tinham que se agarrar de qualquer jeito. Se fossem dois, um de cada lado, ainda tinham as janelas das portas, mas se havia um terceiro a segurança ficava complicada.
Daquela vez ia só o condutor, o Antonio Nuno, um conceituado condutor no mato como se verá pelas cenas seguintes, e em cima um caçador, com uma caçadeira de dois canos. Tinham ido dar um passeio e ver se caçavam qualquer coisa. Terra de imbondeiro, regra geral pobre, que um dito comum, em rima, dizia que em Angola não dava dinheiro, capim ralo e pouco mato. Um ou outro muxito. Mas por todo o lugar sempre aparecia o suficiente para não desiludir os tais passeios, e não tardou muito tempo a surgir um bando de Pintadas ou Galinhas de Angola (Numida meleagris). O carro pára o caçador dispara o primeiro e o segundo tiro, caiem duas galinhas e o resto do bando levanta vôo para pousar umas centenas de metros adiante e continuar a correr pelo chão. As duas galinhas abatidas ficaram imóveis em local visível havendo assim hipótese de tentar caçar mais uma ou duas. O caçador abre a arma para voltar a carregá-la e nesse instante, o Antonio Nuno, entusiasmado com a visão do bando a fugir, arranca com o carro, em curva, acelerando para não o perder de vista! O caçador, agarrado unicamente à arma, desprevenido, voa projetado pelo ar e com muita sorte, porque descontraído, cai e rola no chão sem uma beliscadura. O motorista seguiu em perseguição das galinhas! Novamente estas à vista e a boa distância para atirar. Sem parar, porque os animais alertados fugiam, Antonio vendo que não sai nenhum tiro grita de dentro da cabina:
- Atira. Agora. Atira. Depressa. Olha que vão fugir.

Tiro... nada. Antonio insistia, e como não ouvisse o estrondo da resposta olha pelo vidro traseiro e não vê o caçador. Pára o carro, sai para verificar onde este se tinha metido, e vê a caçamba vazia.
A uns centos de metros, sentado no chão, coberto de terra e pó, espingarda no colo, esperando paciente que o carro voltasse, lá estava o parceiro! Foi uma grande caçada!
Pelo menos cada um tinha uma bela "angola" para levar para casa. Ainda por ali andaram algum tempo sem ver mais nada, quando já no regresso, perto da estrada principal, dão de caras com uma Palanca Vermelha (Hippotragus equinus), um grande macho solitário, cerca de um metro e quarenta de altura, altura sempre medida na espádua, que devia pesar mais de duzentos e cinquenta quilos. Um tiro certeiro, cai o bicho. Espera-se para ver se está mesmo morto, ou se é necessário ainda um tiro de misericórdia, o que não aconteceu.

- Belo animal. Bom tiro.
Abre-se a barriga para retirar as vísceras, que além de melhor ajudar a conservar a carne, é menos lixo que se leva para casa e bem menos peso a carregar. Depois então é só carregá-lo. Aí começou um problema complicado: os dois sozinhos iam ver-se aflitos para colocarem o animal em cima do carro. Além do peso, imenso para dois sujeitos que não eram nenhuns atletas, nessas ocasiões dá a sensação de que estes antílopes, pesados, têm vinte pernas, porque há sempre uma que empanca na carroceria, outra que em vez de subir fica por baixo ou presa no pára-choques, e quando ao fim de um esforço imenso se consegue já ter metade do animal em cima da caçamba, ele escorrega para fora como se estivesse untado de óleo, e cai de novo! Enfim, uma canseira. Mas não se pode desistir. Dessa vez foi uma luta titânica, que deixou os dois tão arruinados que poucas forças sobraram para conduzirem o carro de volta a casa! Mas levaram para eles e para os amigos um monte de carne principesca, que o Paulo, um empregado faz-tudo do Zé Neto, e também um grande pisteiro, foi ajudar a preparar. Esfolar o bicho e cortar a carne, não era para qualquer amador. Precisa de saber.
Noutro local, a Cela, hoje Waku Kungo, Antonio Nuno ao volante dum jeep Land Rover. Sentados no tejadilho, com os pés em cima do capô, dois caçarretas de primeira linha: Miguel Nuno e Manuel Teixeira de Abreu. Um com o farolim, outro com a arma. Dar uma voltinha para ver o que se apanha! Seguem devagar por uma picada na espera de aparecerem uns olhos brilhando na noite, sempre limpa naquela região. De repente o condutor vê, ninguém até hoje soube bem o quê, e estaca de repente. Os dois caçadores voam por cima do carro, estatelam-se no chão, sem ferimentos, e... acabou a caçada! Fica assim quase provado que o Antonio Nuno era um especialista em atirar com os caçadores pelo ar! Na caça era bom ter gente especializada em todas as áreas! Menos nisto.
Um dos mais suis generis dos tais inspetores de cacimbo, homem sereno, amável, companheiro ingénuo e alegre, magro e comprido, dois metros de altura, nariz suficiente, foi o Chico Manolete! Figura especial. Manolete foi a alcunha, apelido no Brasil, que lhe puseram quando ele um dia entrou numa garraiada. Já com alguns copos no buxo, enfrentou bravamente o valente garraio, e tanto sucesso fez que os aficionados que assistiam à corrida acharam que estava parecendo o grande matador espanhol, Manolo Rodriguez, El Manolete, e aplaudiram-no entusiasmados: Olé! Manolete! Ficou o Chico Manolete. Pois este chegou também a sentir o fogo de uma paixoneta por Angola, ao ponto de querer comprar uma fazenda para plantar café! Numa visita relâmpago que fez a esta região, tempo de chuva, o carro galgando subidas com dificuldade e descendo mesmo sem querer aquelas ladeiras barrentas, teve uma noite que dormir na mesma cama com o amigo que o levara. Não havia outra naquela casa simples, de madeira. Era a cama do dono da casa, que a dispensou aos visitantes e possível comprador da sua xitaca, mini fazenda de café. Chico, muito pudico, com medo que durante a noite o amigo tivesse alguma desagradável atitude sonambulista, em sua opinião sempre pouco aconselhável e nada cristã, colocou entre os dois o travesseiro! A cama já era estreita para um. Imagine-se com dois e mais um travesseiro pelo meio! Mas era o jeito!
Este Manolete também participou de algumas caçadas e começou a ficar animadissimo. Num dos fins de semana em que acompanhou uma das várias equipes de malucos da caça presenciou uma cena diferente: em vez de caçarem a tiro, atirando-se em vôo de cima do jeep em andamento, estes caçaram à mão dois filhotes de chacal (Canis adustus?), espécie rara na região onde foram encontrados! Rolaram pelo chão, sujaram-se todos, riram, divertiram-se, e acabaram por levar os filhotes para Luanda, de onde mais tarde foram enviados para um Zoológico em Nova Lisboa, hoje Huambo.
Como nesse dia ainda se caçou um belo javali, carne deliciosa, o nosso Chico Manolete, achou que cada vez que tivesse apetite de carne de caça, era só ir dar uma voltinha, de preferencia à noite quando era mais difícil encontrar fiscais de caça!

Caçar à noite era proibido, como é de calcular. Mas o entusiasmo por vezes é mais forte do que qualquer lei, ou lógica. O Chico tinha nesse tempo uma carrinha fechada, Austin, amarela, gema de ovo, talvez a única dessa cor em Luanda, o que a identificava a quilometros de distância. Talvez o tipo de carro menos indicado para ir à caça. Mas era o que ele tinha. De vez em quando passava em casa do Francisco, também Chico, seu xará, depois do jantar. Parava o carro na rua, tocava a buzina e sem sair do carro:
- Vamos num instante ali à estrada de Catete apanhar um javali!
- Chico, além de não serem mais horas para caçar, javali nem os olhos dá à noite!
- Então vamos caçar outra coisa!
A caça era muito mais do que um vicio. Era tão bom que mesmo não caçando nada ninguém voltava para casa aborrecido ou arrependido!
Outro visitante, o João Salgado, solteirão ainda, experiente caçador na Europa, como não era diretor ou dono de empresa teve que ficar inspecionando Angola durante seis meses. Tempo mais que suficiente para por ela fatalmente se apaixonar. Várias e profundas foram até as suas paixões, terrestres e aéreas. Angola é assim, todos tinham que se apaixonar por ela e por algo mais. Sobrava paixão naquela terra.
Numa das primeiras caçadas em que participou, equipado com caçadeira calibre 12, dois canos, porque os animais visados eram de pequeno porte, teve o seu momento de glória. Ninocas conduzindo o jeep que corria num terreno irregular, João em pé na traseira no meio de dois companheiros, todos ferozmente agarrados à estrutura tubular que sustenta a capota, sempre retirada e dobrada no fundo do carro, vê aparecerem no alto de uma pequena elevação dois veados! Nome genérico dado às diversas espécies de antílopes de porte médio, até pouco maiores do que uma cabra e mais concretamente aos Golungos (Tragelaphus scriptus) muito bonitos, com cerca de noventa centímetros de altura de espádua e uns sessenta quilos de peso.

Os dois veados recortando-se imóveis numa posição quase desafiante, João sem se largar para não cair, instinto treinado, aponta, sai o primeiro tiro, um veado cai, segundo tiro e o segundo veado cai também.
- Hurraaah! Um duplo aos veados!
Mal tinha acabado de pronunciar este grito de justificada satisfação e glória, chegou a vez do jeep por sua vez cair num buraco e tombar de lado! João, como todos os outros cai também, e fica com os canos da arma, felizmente já descarregada, pressionando-lhe a barriga. Um parceiro por baixo, outro por cima, uma pequena confusão que logo se acalma, todos a quererem levantar-se o mais rápido possível. Num instante estão de pé, cada qual procurando certificar-se que nada mais que uma ou outra pancada ou esfoladela, coisa comum, os tinha atingido. Todos, exceto o João, que continua deitado, a gemer!
- O que foi? Onde te dói? Dá cá a mão que a gente te ajuda a levantar.
Os companheiros preocupados. João levanta-se bem devagar, confere com a mesma lentidão a completa integridade do físico e quando se certifica que nada lhe tinha acontecido, respira fundo.
- Estás ferido?
- Não. Não. Graças a Deus.
- Então porque estavas a gemer?
- Eu estava à rasca naquela posição, os canos da arma enfiados na barriga, sem saber se tinha quebrado alguma coisa, achei melhor começar logo a gemer, para o que desse e viesse!...
Gargalhada geral. Eram uma animação aqueles incidentes!
Foram procurar os dois veados que deveriam estar caídos a vinte ou trinta metros dali. A elevação onde foram vistos dava para uma profunda barreira em desnível, talvez com cinquenta metros de altura, onde por sorte o jeep não caiu porque o tal buraco o segurou primeiro! E os dois veados abatidos num brilhante duplo de mestre? Onde estão? Bem que os procuraram, mas é de crer que eles se assustaram com os tiros, fugiram barreira abaixo, talvez sãos e salvos, e até hoje não consta que tivessem sido encontrados! Um duplo aos veados!
Mais uma aventura de caça que dava muita luta, muito boa disposição no regresso a casa, ao fim do dia, quase sempre com aquela paradinha obrigatória no mesmo bar que ficava a uns dez quilometros de Luanda, no Cacuaco, uma pequena enseada de pescadores. Esse bar, misto de casa comercial, restaurante, etc. era paragem obrigatória para matar a sede e fome, e fechar o dia comentando com tremenda animação aquela e outras caçadas. Os petiscos habituais eram as gambas, um camarão grande de Angola, uma delicia, choquinhos en su tinta, e outras pequenas maravilhas que permitiam que a cerveja ainda melhor corresse pelas gargantas ressequidas.
A cerveja de Angola, naqueles tempos era a Cuca. E, para quem voltasse daquela zona de caça era quase obrigado a ir beber Cuca no Cacuaco. A cacafonia ajudava a divertir os bebedores, atraídos sobretudo pelos petiscos, sem duvida. Quantas vezes se chegava ali ainda de dia, só para lavar a garganta, cheia de pó do mato, e saia-se já noite adentro, bem petiscado e bem bebido. As tais paradinhas! Mas ao chegar a casa ainda havia muito a fazer: dividir e preparar a carne que se trazia, limpar e arrumar as espingardas, e por fim tomar um belo banho!
Como tudo aquilo era bom...
São inúmeras as histórias de caça com os tais visitantes, alegres e caricatas, e não só com estes como com angolanos, mais ou menos devotos uns de Santo Uberto e outros talvez da deusa Samba, a protetora dos caçadores angolanos. E até com caçadores experientes.
A Pacassa (Synceros caffer nanus), um búfalo de relativamente pequeno porte, que deve atingir trezentos quilos de peso, é um animal com uma vitalidade incrível, que defende ferozmente o seu território e a sua vida. Aquilo é o que se chama de um bicho bravo. Em Angola sempre foi considerado o animal que mais acidentes de caça causava, tanto a caçadores como à população rural. Perseguir uma pacassa depois de ferida, sendo obrigação do caçador não abandonar um animal que não possa restabelecer-se rapidamente do ferimento causado pelo tiro, é deveras perigoso. Ela esconde-se, espera o caçador e investe, sobretudo se essa perseguição não começar imediatamente após o tiro. Isso pode acontecer se a caçada se fez ao final da tarde e o animal se refugiou dentro da mata, onde não há possibilidade de entrar sem luz. Então deixa-se para o dia seguinte, o que nenhum caçador nem pisteiro gosta de fazer, mas que se impunha como obrigação.

Horas depois de ferida, se a pacassa não consegue acompanhar a manada, e se isola, o cuidado tem de ser total. O ferimento começou a infeccionar, e o animal sentindo que a vida lhe está a faltar, em vez de fugir do caçador ou de qualquer homem, enfrenta-o bravamente, e com os seus chifres fortes e aguçados pode causar muito dano. E é sempre pior dentro da mata onde o homem quase não tem defesa e o animal lhe pode surgir de repente a meia dúzia de metros correndo direito a ele!
Assim mesmo com um ou outro visitante alguma vez houve que seguir este procedimento.
Ao fim da tarde de um sábado atingiu-se uma pacassa, e ela fugiu para a mata onde procurava proteção. Matas de espinheiras, com espinhos enormes, retos uns e outros talvez piores, curtos mas tipo unha de onça, o que dificulta terrivelmente o andar lá por dentro. Na madrugada seguinte, logo que a luz permitiu a entrada na mata, andando quase de gatas, olhos e ouvidos no alerta máximo, seguindo o rasto deixado pelo animal, lá vão quatro homens, o pisteiro, dois caçadores e o convidado, também com uma arma na mão, mas em segundo plano porque o momento era perigoso, requeria muita loucura e seria covardia expor a isso um novato. A deslocação muito lenta e temerosa, o pisteiro encontrando cada vez mais frescas manchas de sangue a indicar a proximidade do animal ferido. A tensão dos caçadores no máximo, a respiração lenta e silenciosa, o pisteiro atento ao menor indício que o orientasse, passando essas informações, por sinais, ao caçador.
De repente um barulho de galope, ali, a dois passos dos que vão na frente. Adrenalina a mil! Armas à cara, mas pacassa... nada.
Não foi a pacassa. No profundo silêncio da madrugada o levantar vôo duma perdiz a três metros de distância acaba fazendo um barulho tal que os caçadores pensaram e temeram que fosse a pacassa a investir. Passou o susto. Respirou-se fundo. Com um sorriso meio amarelo entreolharam-se, abanando a cabeça com ar de quem diz safámo-nos desta!
Mas faltava um elemento do grupo.
- Onde está o convidado?
Tal foi o susto que largou a arma e subiu na primeira árvore. Um espinheira! Lá estava ele a pouco mais de um metro e meio do chão, verde! Subiu num ápice, mas com tanto espinho, acabou sendo difícil tirá-lo dali! E depois ainda deu trabalho arrancarem-se-lhe os espinhos e passar mercurocromo nos arranhões que sangravam! Acabou a perseguição a pé à pacassa ferida. Foi depois encontrada à saída da mata no lado oposto por onde tinham entrado, e somente a uns dez metros onde a tal perdiz levantara! Sem que alguém a tivesse visto, a pacassa esteve ali mesmo à frente deles, e de certeza a observá-los. Se tivessem avançado um pouco mais a situação poderia ter sido feia.
Um tiro quase de misericórdia, e uma imensa quantidade de carne, deliciosa, a dividir pelo pisteiro e pelos caçadores.
O susto quase sempre vale a pena. Se não termina em tragédia, como muitos, são lições que se tiram e recordações que se levam pela vida fora.
Ninocas trabalhava como vendedor de adubos para uma grande companhia. Um dia recebeu, vindo da metrópole, um novo diretor financeiro, o dr. José Marques. Baixinho, óculos, caçador de coelhos e galinholas e outras miudezas lá na terrinha, assim que chegou a Luanda quis logo ir ver como era uma caçada a sério! O pessoal da companhia, como não podia deixar de ser, recomendou-lhe o Ninocas, como o melhor parceiro que se podia encontrar. E era.
Lá vão os dois, sós, no jeep do Ninocas, este a conduzir, para deixar ao novo diretor a honra e o prazer de matar a sua primeira peça de caça grossa!
Carro no meio do mato, deslocando-se lentamente à procura de algum animal, o dr. Marques em pé agarrado com unhas e dentes à armação do carro e o Ninocas vasculhando toda a área com o seu olhar experiente.
De repente lá estava uma manada. De pacassas, é claro. O Ninocas habituado a meter o pé na tábua assim que avistasse alguma coisa, acelera, o jeep começa a correr, saltando que nem pipoca, com o dr. diretor financeiro apavorado para não cair, procurando arranjar mais mãos e braços para se segurar, sem poder largar a arma que levava.
As pacassas alertadas começam a correr em direção à mata. Ninocas sempre acelerando, grita:
- Ali, na frente, doutor. Ali. Ali.
O jeep corria, saltava, e o dr. não queria nem saber de ver coisa alguma. Ele não era equilibrista de circo e chacoalhava e batia com o peito e braços nos ferros do carro, mas largar-se é que nada.
Ninocas, quando viu que os animais estavam ao alcance de tiro, grita mais ainda:
- Agora, doutor. Atire. Atire, agora.
Qual atira. Segura, só.
- Atire depressa que elas vão fugir. Atire. Agora. Depressa.
Nada. Ultimo apelo desesperado:
- Atira que elas vão fugir.
Nada. Fugiram.
- FILHO DA PUTA, doutor. Perdemos as pacassas!
Pára o jeep, cai em si e dá-se conta da terrível ofensa que acabara de fazer ao seu novo diretor, e quando olha para trás para lhe pedir desculpa vê o homem lívido, grudado à armação do carro. Nem falava. Apavorado.
Sem mais uma palavra voltaram para Luanda.
No dia seguinte, quando se encontraram no trabalho, o doutor já descansado, esqueceram o insulto, riram descontraídos e marcaram nova experiência, mas um pouco mais devagar! E sem palavrões!









