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domingo, 27 de janeiro de 2019


Amigos – 21
Um primo com muita história



Primo direito do meu pai, filho da irmã mais velha do meu avô, que casou com um jovem tenente de artilharia. Lembro ainda bem do seu pai. Este, general, aposentado, nos seus oitenta anos, grande bigodão amarelecido do tabaco, almoçava muitas vezes aos domingos em casa do meu avô, seu cunhado. Nós, pequenos, tínhamos que ir dar um beijo àquele velho “tio”, magrinho, que ficava estático sentado numa cadeira, e de lá saíamos cheios de cócegas porque o bigode ou nos entrava nas orelhas ou num olho!
O filho, muito amigo do meu pai, sem irmãos e não se dando bem com a mulher, de quem acabou por se afastar de vez, almoçava muitas vezes em nossa casa, e daí me lembrar bem dele, tranquilo, um pouco sobre o gordo, monóculo, sempre atencioso e muito inteligente.
Dizia a minha mãe que ele só gostava de bifes com batatas fritas, e não comia outra coisa. Nós riamo-nos com isso, mas penso ter descoberto a causa desse problema. Antes dele os pais tiveram primeiro um filho que morreu com 6 anos, quando este apareceu tinha apenas 2, e talvez por isso, tudo o que menino queria, era uma ordem que se cumpria. Deve vir daí essa história de só comer os tais bifes.
Engenheiro químico, trabalhava na altura na Fosforeira Portuguesa, sendo um técnico de tal calibre que me lembro do meu pai contar que a empresa lhe mandava o salário a casa para que ele não permanecesse na fábrica, onde a sua capacidade criativa e genial provocava muita confusão nas mentes mais reles. Mas, quando um fósforo não acendia bem... aqui del-rei... chamem o engenheiro Parreira.
Iam buscá-lo a casa e num instante os fósforos voltavam a acender com perfeição!
Depois que o meu pai nos deixou creio que perdi esse primo de vista.
Até um dia, em Luanda, 1958, cruzo-me na rua, perto da entrada de um hotel, com um senhor de monóculo, acompanhado de outro bem mais jovem, e a ficha caiu! Parei, olhei para trás, vi-os entrar no hotel e fui lá. Estava o mais jovem a deixar o senhor na recepção, mas na dúvida perguntei como se chamava o senhor.
- Engenheiro Henrique Parreira.
Era ele, que eu não via desde criança, há uns 16 anos.
- E o que ele faz aqui?
- Viemos a um Congresso de Pescas. E quando o engenheiro Parreira emite uma opinião, ela é unanimemente acatada e aceite sem mais discussão!
Fui até ao balcão, parei a seu lado, ele olhou para mim e diz:
- Ó Chico! Há quantos anos não te vejo!
Ele, na altura com 61 anos, reconhecer-me logo, tocou-me fundo. Dei-lhe um forte abraço. Perguntou por nós, minha mãe e irmãos, o que eu fazia em Angola, etc., e fui-lhe dizendo que ali vivia há quatro anos e que acabara de nascer o meu terceiro filho.
Vivia em Goa, onde já se notabilizara, tendo escrito “A Pesca no distrito de Goa”, publicado na Revista da Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar / Ministério do Ultramar. - Lisboa, 1956 e estava em Luanda para o Congresso. Foi jantar ou almoçar a nossa casa, simpático como sempre, e quando o fui levar ao hotel, fez questão que passássemos num lugar de onde se via, lá no alto das barrocas da cidade, para os lados do Cacuaco, um edifício grande que estava abandonado.
-Sabes o que aquilo era?
Não fazia ideia. Contou-me então.
Angola quis também uma fábrica de fósforos, bom negócio e ótimo para os impostos, e ele tinha sido quem fizera todos os planos, escolha do equipamento, enfim tudo quanto era necessário, e montou-se naquele armazém que estás vendo ali.
- No dia que estava prevista a inauguração da fábrica chegou um telegrama de Lisboa, proibindo a sua fabricação. E tudo ficou ao abandono.
Era assim que a Metrópole tratava as suas eufemisticamente chamadas de províncias. O lucro e os impostos tinham que ficar em Portugal. Os impostos eram tão chorudos que era proibido usar isqueiro!
Quem quisesse tinha que ter uma licença especial pagando imposto. 40$00 escudos mais 8$00 de selos colados no verso! Uma VERGONHA.


O primo regressou a Goa, de lá mandou um bilhete de Boas Festas e depois soube que tinha descansado poucos meses passados.
Há pouco descobri um magnífico livro, Mar Aberto – Viagens dos Portugueses, de uma historiadora e professora da Universidade de Roma, Luciana Stegagno Picchio, onde relata uma oferta enviada pelos produtores de açúcar da ilha da Madeira, ao Papa Leão X, em 1515, que fez um sucesso imenso, tal a qualidade e a quantidade de doces que lá chegaram intactos!
A autora passa pelas histórias do açúcar na Sicília e na Madeira, para chegar ao que os portugueses fizeram pelo mundo, e nota que, ao escrever sobre Storia dello zucchero siciliano, o investigador Carmelo Trasselli, refere que “todas notícias relativas ao açúcar na Madeira foram recolhidas no estudo de Henrique Gomes de Amorim Parreira, no trabalho História do Açúcar em Portugal.  Um estudo profundo de mais de 300 páginas.
Como era de esperar “parti à caça” desse livro e consegui obtê-lo, em fotocópia, na Sociedade de Geografia de Lisboa. In: Estudos de História da Geografia da Expansão Portuguesa. Vol. VII, tomo I, 1952.
São mais de 300 páginas com um interesse constante.
Nos tempos antigos o único edulcorante que era conhecido na Europa era o mel, a que, em alguns casos se lhe atribuiam virtudes especiais porque, misturado com água e deixado fermentar podia embebedar e assim “transformar” homens em videntes! Assim era muito usado em cerimónias religiosas.
O mel era um produto de valor considerável nas exportações de Portugal e, como ainda hoje, muitíssimo apreciado. Em 1552, segundo uma estatística da época havia vinte mulheres que vendiam mel em Lisboa. Alguns anos mais tarde já alguns comerciantes o vendiam na Rua da Ferraria de Haver o Peso, continuação da chamada Rua da Conceição, atrás da Conceição Velha.
A cana sacarina é originária da Índia Oriental, possivelmente no lado sul do Himalaia das margens do Ganges.
As primeiras notícias que chegam à Europa sobre essa planta foram trazidas por alguns generais de Alexandre Magno, que diziam ter visto uns “bambus que produziam mel servindo também para uma bebida inebriante”! Muito pouco chegava à Europa, por preços exorbitantes e só usado em medicina.
O nome que lhe davam, em sânscrito era “çarkarã” que significa pedrinha, porque o açúcar se apresentava de forma granulosa. Passou ao grego como sákchar ou sákcharon, e ao árabe sukkar, que com o pronome as ficou assuccar.
A cana entrou depois na Arábia e no Egito, e foram os árabes que acabaram por levá-la para a Europa. Pouco tempo depois da Conquista, em 712 já estavam a plantar cana, sobretudo na região de Córdova e no século XI também se produzia açúcar na Sicília.
O açúcar da região de Córdova rapidamente atingiu volume considerável e era exportado para África, constituindo uma elevada fonte de rendimento.
Começaram a adicionar-se especiarias, xaropes e frutas em calda, fazendo-se inúmeros doces. O “Calendário de Córdova” do ano de 961, ensina quais os passos a dar para o cultivo da cana e para a fabricação de doces, dizendo, por exemplo, que “em novembro ainda se fabricam confeitos de pêra, maçã e castanha”.
Da palavra phanita ou phani para o caldo concentrado, com que se faziam os doces, os árabes chamaram-lhe fani, ou al-fani, que acabou, em português o “alfenim”.
Não há um conhecimento exato sobre cultura da cana no Algarve, mas já em 1404 D. João I coutava uns terrenos em Quarteira a favor de João de Palma, genovês, para a sua produção. Também consta que se cultivava nos arredores de Coimbra, conforme escreveu um alemão, Lanckman von Falkenstein, que foi a Portugal para acompanhar a filha de D. Duarte que ia casar com o Imperador Frederico III. Há algumas referências mais, mas somente, pouco depois de descoberta a Ilha da Madeira (cuja data se desconhece) começa a colonização em 1425 e logo o Infante Dom Henrique ali incentivou o plantio de cana.
Dizem uns que mandou vir as canas e técnicos da Sicília, outros “estudiosos” afirmam que não teria sido necessário porque já havia esse conhecimento em Portugal, outros ainda que vieram de Granada ou Valência, ou até do norte de África, de Safim, etc.
A verdade é que num instante a cana sacarina se deu tão bem na Madeira que passou o seu açúcar a ser considerado o melhor de toda a Europa, e que valor mais alto conseguia. Como ao Infante “pertencia” um terço da produção, este não descurava tão importante negócio e numa carta enviada a Gonçalves Zarco, que estava no Funchal, insistia: “E que façam canaviais nas outras povoações”.


Com a produção a crescer muito – por volta de 1455 atingia mais 90 toneladas – e sendo o açúcar da Madeira o que mais valia em toda a Europa. Em 1480, dizia-se, os estrangeiros que trabalhavam na Madeira só com açúcar, “carregaram vinte naus de castelo d’avante e quarenta ou cinquenta outros navios”, em 1455 a produção chegava a cerca de 100 toneladas e em 1498 a exportação total atingia 120.000 arrobas, algo como 1.800 toneladas.
Não tardou que alguns agricultores se especializassem em doces, que faziam enorme sucesso na Europa, chegando a carregar mais de uma nau só com confeitaria, direto para as Flandres.
Vale referir que em 1516 foi enviada ao Papa Leão X uma escultura do Sacro Colégio e todos os cardeais em tamanho natural feitos em alfenim e cobertos com pó dourado, que foi oferta do Terceiro Capitão Donatário do Funchal, D. Simão Gonçalves da Câmara, que fez um sucesso enorme, porque, além da novidade, todos os doces, embalados em caixas de madeira, chegaram a Roma em perfeito estado. O Papa e os cardeais tiveram que praticar um pouco “antropofagia doce”!
Da Madeira o açúcar passou aos Açores, com sucesso fraco, mercê da irregularidade das chuvas, a Cabo Verde onde a secura do clima não permitia grande produção e a pouca que lá se cultivava era praticamente toda destinada a fazer aguardente. Em São Tomé a cultura da cana teve uma razoável expansão, mas em meadas do século XVI foi saqueado pelos piratas franceses, em 1574 os escravos revoltaram-se e queimaram todas as plantações e, mesmo recomeçando, em 1641 Maurício de Nassau, para destruir a indústria portuguesa atacou São Tomé, destruiu 61 engenhos e queimou na capital milhares de caixas de açúcar. A maioria dos colonos decidiu abandonar a ilha e passar-se para o Brasil levando toda a aparelhagem possível, para aqui recomeçarem a trabalhar.
Foi no Brasil que essa cultura atingiu níveis nunca antes imaginados. O clima era muito violento para os europeus, que não aguentavam trabalhar de sol a sol no campo, como nas suas terras de origem, e os indígenas habituados a uma vida de liberdade, não se fixavam nas plantações. A única solução se deve aos homens fortes e adaptados a climas quentes, de África. Foram os escravos que praticamente tudo fizeram nas plantações de cana, e o Brasil, se é o que é hoje deve a sua grandeza ao açúcar e este deve-o aos africanos.
O principal centro de distribuição de açúcar na Europa estava nas Flandres.
Com a coroa de Portugal na cabeça dum inimigo da Holanda, levou os holandeses a assaltarem as regiões de produção, na Bahia e Pernambuco, para se apoderarem, sem intermediários, do comércio, riquíssimo, que já faziam nas Flandres. Por aqui estiveram pilhando o trabalho já estabelecido, durante 24 anos. Tiveram até tempo para conquistar Angola para poderem trazer por menor preço os escravos indispensáveis.
Em Angola e Moçambique só nos finais do século XIX é que se encarou, a sério a exploração da cana, chegando a produzir, no tempo colonial 75.000 toneladas. Durante as guerras civis que a seguir enfrentaram, a produção caiu a quase nada, começando agora a recuperar, mas ainda longe, mesmo com técnicas e capitais novos, de atingir o que tinham há quase meio século.
Moçambique com uma produção atual de 450 mil toneladas, nas quatro empresas que funcionam no país, enquanto Angola, só com uma (montada pela Odebrecht naquelas negociatas... estranhas!) ainda não passou de 45 mil. Em 1894 produzira 774.714 quilos e em 1940 78.000 toneladas.
O Brasil continua a ser o maior produtor de açúcar do mundo, exportando entre 25 a 30 milhões de toneladas por ano. Só o Estado de São Paulo tem cerca de 4,5 milhões de hectares de plantação da cana sacarina.
E é no Brasil que existe a melhor definição para o açúcar:
“É AQUELE PRODUTO QUE QUANDO NÃO SE USA DEIXA O CAFÉ AMARGO!”

Vale muito a pena ler o magnífico trabalho de história, onde se encontram detalhes de imenso interesse, e também seria muito útil para a cultura geral, do Brasil e de Portugal, que alguém escrevesse a história deste grande engenheiro Henrique Gomes de Amorim Parreira (1897-1959)


27-jan-19

sexta-feira, 17 de abril de 2009



Mais outro
Francisco Gomes de Amorim
- meu avô -


Meu avô paterno, e homônimo, tal como seu pai, o poeta, Francisco Gomes de Amorim, após terminados os estudos gerais que lhe teriam permitido ingressar na universidade, face às dificuldades financeiras em que a família vivia – seu pai escritor e quase sempre doente e mais cinco irmãs que naquele tempo não saíam de casa para ir trabalhar – decidiu imigrar para o Brasil. Destino: Santa Maria de Belém do Pará, onde seu pai estivera e deixara amigos, entre ele Agostinho José de Almeida, padrinho do novo imigrante.
No dia em que se despediram, em Lisboa, o pai escreveu-lhe uma carta, linda, que já esteve no antigo site, mas que merece ser relida, não só pelos meus filhos, netos e vindouros, mas por toda a gente, porque encerra uma profunda lição de dignidade. Vai aqui transcrita, respeitando a grafia original.

Lisboa, 2 de Fevereiro de 1878

Meu querido filho

No instante de nos separarmos, talvez para sempre, dou-te n’este papel alguns preceitos, inspirados pelo desejo de arreigar e perpetuar na tua alma o sentimento do dever e o amor da verdade e da justiça. Possam as minhas palavras gravar-se no teu coração e na tua memoria, de modo que sempre se te afigure estar ouvindo a voz affectuosa de teu pae, ida d’além dos mares ou d’além da campa, a levar-te força d’animo, em todas as occasiões graves e solemnes da existencia.
Guarda bem esta carta; e, ainda que a tenhas de cór, relê-a todas as vezes que te achares irresoluto no caminho e que necessites de um amigo que te guie ou console. N’esses momentos supremos eu estarei contigo. Ainda que não me vejas, estas linhas, em que deixo palpitante uma porção de vida, te denunciarão a minha presença. Então comprehenderás, talvez, com quanta commoção as escrevi, e quão grande foi o esforço que fiz para occultar a dor que me causava a tua partida.
Quasi tudo que vou dizer-te é triste! Lembra-te porem de que és homem, e que é preciso seccar as lagrimas quando temos de cumprir deveres. O dever, meu querido filho, envolve um principio absoluto de eterna justiça. Quem falta àquillo a que é moralmente obrigado, perde o direito a que sejam justos com elle todos os que a sua falta prejudica. Quem faz o que deve, não merece louvores; adquire direitos: colloca-se em condições de reciprocidade com os outros membros da família humana.
A nossa qualidade de indivíduos sociais impôe-nos, por tanto, obrigações, das quais deriva naturalmente o nosso bem-estar, a consideração que nos dão os nosso similhantes, e, em resumo, todo o nosso futuro. Lembra-te, pois, sempre de que a honra, a virtude, a firmeza de caracter, o amor do bem, do justo e do verdadeiro tornam o homem invulneravel; e que a consciencia do dever cumprido o tornam invencivel.
Assim que eu desapparecer de entre os vivos, ficas tu sendo o apôio natural de tua mãe e irmãs. Somos pobres: a serie de enfermidades que há dezoito anos nos invadiu a casa, a educação de tuas irmãs e a tua, e tambem o desfavor da fortuna, nunca me permittiram reunir meios sufficientes para garantir a subsistencia futura da familia. Os livros, quadros e mais objetos que possuímos, de pouco valem. Ficarão pois todos os nossos na mais dolorosa situação, se tu não lhes acudires com o necessario, prehenchendo a falta dos meus ordenados e do produto do meu trabalho. Já vês que o teu primeiro dever é ser economico, para que em qualquer tempo não tenhas de chorar a tua imprevidencia, vendo padecer os que mais amas sem lhes poderes valer. E não julgues que fazes favor aos teus, socorrendo-os e amparando-os: não; cumpres apenas um dever. Se, podendo, o não fizeres, incorrerias nas censuras que muitas vezes me tens ouvido fazer aos maus, e perderias a estima das pessoas honestas que te conhecessem. Se alguma vez precisares de modêllos, n’este sentido, imita teu tio Manuel, que tanto tem feito por nós todos; e os dois Almeidas, a quem chamas tambem tios. São três exemplares de irmãos, e de filhos, que nunca deves perder de memoria.
Quaisquer que sejam os encargos que venhas a tomar de futuro, nunca te esqueças de que és o responsavel, depois de mim, pela subsistencia e bem-estar dos entes que lego ao teu affecto e à tua probidade, e que nenhumas obrigações novas te desligam das antigas. Seria indigno de ti discutir ou pôr em dúvida o direito sagrado que teem aquelles que te recommendo ao teu auxilio e proteção. Já te disse que era um dever amparál-os; e o cumprimento do dever nunca se discute, sejam quais forem as circunstancias em que nos collocar a sorte.
Não é por mim, nem por tua mãe e irmãs que vaes ao Brasil procurar fortuna. É pelo teu futuro. Se Deus te ajudar, e tu fizeres da tua parte, poderás alcançar n’aquelle paiz abastança e independencia; e abençoarás um dia a memoria dos que por amor de ti se sacrificaram. Nem eu nem tua pobre mãe estamos em estado de poder chorar, sem que as lagrimas nos custem pedaços de vida... Eu, alem do mais, tinha contado contigo para me auxiliares nos meus trabalhos, e cerrar-me por fim os olhos; tua mãe dilue-se em pranto; e tuas irmãs antes queriam comer toda a vida pão negro do que separar-se de ti.
Bem vês, pois, que não é por nós que deixas a patria; que se fechassemos os ouvidos à voz da razão, para só ouvirmos o coração, tu não partirias. Victima do nosso egoismo, ficarias aqui, quasi ocioso e inutil, vegetando na pobreza, como eu; e na idade madura te queixarias amargamente de quem te condemnára a essa existencia nulla, embora reconhecesses que o tinhamos feito movidos pela mais santa das affeições. Os que ficam são os que se sacrificam. Na tua idade é um prazer mudar de terra. Certamente que hasde tambem padecer com a separação e com as saudades; mas aquem corre mundo nunca faltam distrações e novidades que lhe diminuam e suavisem as magoas da ausencia. Ochalá que sejas feliz, que te guie a providencia, que nunca te esqueças dos meus conselhos, e que possas voltar, em breves annos, com saude e com honestos meios que te ponham ao abrigo da penuria! Só Deus sabe quem vivirá para ver o teu regresso!... Creio na imortalidade da alma e penso que, onde quer que eu esteja, a minha bençam descerá então, como agora, sobre a tua cabeça, se, como espero, voltares digno das lições que te dei.
Para não continuar com reflexões tristes, termino aqui. Recommendando-te, por ultimo, que sejas sempre economico, morigerado, sóbrio, e prudente. Poupa-te em tudo quanto possa prejudicar-te phisica e moralmente; evita os excessos, sejam de que natureza fôr. Respeita os outros, para que te respeitem. Trata a todos com delicadeza e amabilidade, para que sejam teus amigos. Esforça-te com o teu procedimento por fazer esquecer aos naturaes do paiz que és seu hospede; e traze sempre na memoria este preceito do Evangelho: “Nunca faças a outrem o que não quizeres que te façam a ti.”- Encosta-te para tudo aos nossos bons amigos Almeidas; ouve e segue os seus conselhos em tudo; e não dês nenhum passo grave antes de os teres consultado.
Deus te leve em boa hora. Adeus, meu querido filho, adeus. Recebe a bençam de teu affactuoso pae, e a de tua extremosa mãe, que assigna commigo
Francisco Gomes de Amorim
Maria Luiza

Meu avô, homem equilibrado e trabalhador, casava, quatorze anos depois da sua chegada ao Pará, com uma doce criatura, minha avó paraense, Aurélia Da Costa de La Rocque.
Veio o primeiro filho chamou-se Francisco, para continuar a tradição da família, mas ao fim de um mês morria. O clima era difícil e as condições médico sanitárias mais ainda. Veio segundo filho, também Francisco e durou três meses. Os pais ficaram extremamente traumatizados e veio a terceira, filha, Albertina, o nome da avó materna Albertina Teixeira de Melo, que com poucos meses lutava entre a vida e a morte com pneumonias e outras doenças a que os médicos não conseguiam dar solução.O conselho foi simples: se quer salvar esta filha saia de Belém. Meu avô vendeu o que tinha conseguido amealhar em quase vinte e nove anos de trabalho, e regressou a Portugal. Remédio “santo”, já que esta minha tia acabou falecendo nas vésperas de fazer 101 anos, e ainda nasceram mais quatro filhos, sendo um deles, o meu pai, Jorge.
Com oitenta anos, administrador de uma grande empresa em Lisboa, ia e voltava, todos os dias, a pé para o trabalho.
Sempre o primeiro a chegar, impressionava a sua mesa de trabalho: nunca mais do que um papel ou o dossier em que estava ocupado! Parecia não fazer nada, mas foi o melhor administrador que aquela casa teve.
do Brasil, por Francisco G. de Amorim
17.abr.09

quarta-feira, 21 de agosto de 2019


AMIGOS – 34

1946 – Estava eu, após um desaire liceal, talvez há um mês ou pouco mais, a começar nova vida na Escola de Regentes Agrícolas, em Évora, quando, uma tarde, vi chegar uma elegante charrete, com um senhor a conduzi-la, coisa que por ali não era hábito ver-se.
O senhor, amigo de alguns professores e sobretudo do diretor, parou em frente da secretaria, cumprimentou os conhecidos e perguntou:
- Está aqui um aluno de nome Amorim?
Recebida a afirmativa mandaram chamar-me, e lá vou eu desconfiado, sem saber o que se passava e não conhecendo o senhor de lado algum.
Quando cheguei perto, vendo que era a mim que ele procurava, pergunta-me:
- Tu és filho do malhado?
Fazia três anos que tinha perdido o meu pai, a ferida aberta, como continua até hoje, não gostei nada do tratamento, e pela minha cara ele logo viu que me tinha chocado. E volta:
- O teu pai não tinha um sinal preto no pescoço, do tamanho de uma moeda?
- Tinha, sim.
- Nós estudámos juntos na Escola Académica, em Lisboa, e era assim que ele era chamado.
Baixei a guarda, e sabia muito bem que o meu pai ali tinha estudado, até porque no último ano da sua vida tínhamos mudado de casa e um nosso vizinho antigo diretor daquela Escola guardava um especial carinho por aquele seu aluno que veio a destacar-se.
Pouca foi a conversa com o cavaleiro, que pede que me autorizem a ir jantar a sua casa.
Grande proprietário agrícola, tinha a sua herdade, a Herdade do Barrocal, a uns 5 ou 6 quilómetros dali. Belíssimas instalações, a casa senhorial quase um palácio, belos cavalos, enfim uma casa rica.
Lá me encaixou em cima da charrete e num instante estávamos em sua casa, onde me aguardava nova surpresa: a senhora dele, muito simpática, logo me diz que tinha andado no mesmo colégio com a minha mãe!
Coincidências raras. Conversámos um pouco, sobretudo muitas perguntas sobre a mãe e os meus irmãos, jantámos numa sala magnificamente arranjada, criado a servir à mesa, uma beleza, e eu por enfim encantado por ter conhecido tão simpático casal.
Um pouco depois do jantar mandou o feitor levar-me de volta, mas de carro.
Estive cinco anos em Évora e não nos vimos muitas vezes porque o casal vivia em Lisboa e raras vezes ia à herdade onde tinha um feitor, antigo, de confiança.
Com alguns colegas, muitas vezes íamos até lá, a pé, claro, por aquelas estradas quase sem trânsito, a estudar, porque além de nos fazer bem ao conhecimento, sempre havia a possibilidade de ver a filha do feitor que, uma vaga lembrança me diz que valia muito a pena! Nunca ninguém se meteu com ela, tudo se limitava a um platônico olhar, e a aproximação das casas não era muito convidativa porque os guardas, uns três ou quatro  magníficos Rafeiros Alentejanos, nos recebiam com latidos poucos amigáveis e uns belos dentes à vista.
Lembro de uma vez que acabámos todos em cima das árvores enquanto não veio alguém da herdade recolher as feras!
Passam os anos. Já fora de estudos saio um dia de casa dos meus avós, que moravam na Praça dos Restauradores, e logo ali em frente uma porção de gente estacada a olhar para um belo carro americano, sem ninguém dentro com a buzina a tocar!
Aproximo-me para ver o que se passava e dou de caras com o meu amigo, o senhor que um dia me levou para jantar em sua casa, no Barrocal. Também parado, a ver o que se passava!
- Senhor Alberto Rosado! Que surpresa. O que faz por aqui?
- Chiiiu! Não digas nada. Foi o meu carro que começou a tocar a buzina sozinho, e como não percebo nada daquilo, saí e fiquei à espera que aparecesse alguém para resolver o assunto. Sabes: há sempre uns curiosos e uns entendidos! Espera um pouco e vais ver.
De fato já esvoaçavam de volta uns “especialistas”! Olharam dentro do carro, abriram o capô, e passado um pouco a buzina calou! Penso que o técnico deva ter arrancado o fio da buzina! Olhou à volta, não sei se para receber aplausos dos mirones ou os agradecimentos do dono, não apareceu ninguém para o felicitar e sumiu, como os outros.
O pessoal todo dispersou, e quando já não tinha ninguém ele diz-me:
- Eu bem te dizia. Agora podemos ir embora. Vem comigo que eu levo-te a casa.
Apesar do pouco contato, foi sempre muito simpático, e um amigo a não esquecer.

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Outro amigo da família, amigo e colega do meu pai, agrónomo, um dos maiores enólogos que Portugal conheceu.
Um dos principais sócios e Presidente da firma José Maria da Fonseca, solteirão, sempre vestido de forma impecável, uma simpatia irradiante.
Foi ele quem criou e lançou nos Estados Unidos o vinho Lancers que durante muito tempo foi o vinho que Portugal mais exportava. E outro grande vinho o tão conhecido e tão amado no Brasil o Periquita.
Desde 1954 que eu fui viver para fora de Portugal, mas raras as vezes que eu passava em Lisboa e não tinha lá à minha espera um caixa do famoso branco “Branco Seco Especial”, que o “tio” António (eu também lhe chamava tio apesar de não ser da minha família) não se esquecia de mandar entregar em casa da minha mãe.

Olhem só e... bebam quando puderem

Um dia chego de Luanda e levava uns 10 kilos daquelas maravilhosas gambas, que, nesse tempo (belos tempos!) amavelmente as hospedeiras do avião guardavam no frigorífico de bordo.
Em casa, à espera de verem o emigrante, irmãos, cunhado, um primo e um tio, abraços e muitas perguntas, entrego à minha mãe o precioso pacote com as gambas.
“Mamãe”, orgulhosa com o presente do filho, lembrou-se de pegar pelos bigodes um dos camarões grandes, e ir exibi-lo toda contente à família presente.
-- Que maravilha. Quero provar um. Eu também... e eu... etc., e a mãe teve a infeliz, ou feliz ideia de pôr as gambas, que viajaram cozidas, numa travessa em cima da mesa e dizer que tinha ali o tal vinho.
Uma festa. As gambas foram-se todas e a dúzia de garrafas do famoso “Branco Seco Especial” acabaram condizendo com o rótulo: secas.
Os parentes... saíram com alguma dificuldade, no tempo em que não havia bafómetros e conseguiram chegar a casa, todos salvos e... com muito sono.
A minha mãe, magnífica cozinheira não chorou a perca dos camarões. No dia seguinte fez uma sopa com as cabeças que ficou de chorar por mais.
O vinho é que tivemos que ir reforçar comprando numa loja perto de casa.
Em 1961 passei três meses na Europa (França e etc.) fazendo cursos e visitas a empresas, e numa das vezes a caminho já não sei de onde tivemos (eu levava a minha mulher) que passar a noite na bonita cidade de Heidelberg, depois de termos percorrido quase 600 quilómetros.
Lembro que atravessamos a ponte (sobre o Neckar?) e escolhemos logo o hotel à entrada da cidade. Hotel antigo (era 1961!!!) muito confortável. Depois de deixar as malas no quarto descemos para jantar.
Não lembro o que terá sido a “papa”, mas lembro que pedi vinho e vinho da região. Mostraram-me a lista dos vinhos, mas para mim era tudo chinês, e como serviam vinho a copo, nuns copos lindos de 25 dl, achei que um copo daria para o jantar, e pedi um com um nome curioso, mais ou menos Barnabé! Não era assim , mas...
Provei. O vinho era uma delícia, obriguei a minha mulher a apreciar o néctar, e depois ainda bebi mais dois copos. Total: o equivalente a uma garrafa de 0,75 !
Estava uma noite agradável, saímos do hotel para dar um giro a pé por aquele centro.
Não tardou que eu sentisse dificuldade a andar. Doíam-me as articulações! Coisa estranha, que atribui a ter feito quase 600 kms. sem parar. Fomo-nos deitar, aquilo passou e nunca mais pensei nisso.
Uns anos depois conversava com o “tio” António, falámos de vinho como é evidente, quando lhe contei esta história.
Ele, grande conhecedor explicou-me o fenómeno. Naquela região o vinho tem não sei já que propriedades (talvez um pouco mais de ácido úrico !?) que afeta as articulações! Quem sabe, sabe.
O vinho era muito bom, mas... se eu lá voltar, o que me parece pouco provável, vou beber menos.
Bom amigo, grande figura, grande enólogo  António Porto Soares Franco.

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Outro amigo, desses tempos e dessas idades, engenheiro, responsável em Portugal pela famosa fábrica de vidros Saint-Gobin, homem tranquilo, solteirão, muito culto, era uma das pessoas com quem dava gosto conversar. A sua vasta cultura, ligada a uma personalidade simples, tornavam as conversas sempre muito interessantes.
Recordo-o muito de passagem porque só estávamos juntos em poucas das ocasiões que eu ficava em Portugal, mas a família era conhecida, sobretudo uns seus sobrinhos que, no verão, eram nossos vizinhos em Sintra e alguns amigos de infância.
Descendente de português, advogado nascido em Goa, e neto de uma senhora também goesa, brâmane, da estirpe mais alta da Índia, nasceu em Lisboa e por ali fez toda a sua vida.
Uma das curiosas passagens da sua vida deu-se quando aluno de engenharia no Instituto Superior Técnico em Lisboa. Ali teve um professor também se origem goesa mas de estirpe, ou casta inferior, que, respeitando ainda a velha hierarquia indiana, fazia questão de esperar que o aluno brâmane entrasse na aula à frente dele.
Um dia o aluno foi ter com o professor e pediu-lhe por favor para esquecer essas questões de castas. Isso era coisa obsoleta, indigna e nem sequer tinha razão de existir em Portugal. Além disso como professor tinha que tratar todos os alunos do mesmo jeito.
O professor, sempre respeitosamente, acatou “o recado”.
Lembro este amigo, este senhor, com saudade e admiração. Sempre no seu belo Citroen preto, Traction Avant, impecável, a alavanca de marchas no painel, uma delícia de carro.


Chamou-se Guilherme Andersen da Costa, filho do famoso médico Dr. Alfredo da Costa, e só me resta esta foto dele.

Uma imagem contendo homem, pessoa, vestindo, foto

Descrição gerada automaticamente

16/08/2019


segunda-feira, 5 de novembro de 2018




Apresentando um Fascista?
Será Nazista? Ou... ?

O que é um fascista? E um esquerdista? E extrema esquerda? E extrema direta? E ...
Pela luta que tenho travado contra os “ultras-super-intelectuais” portugueses, e até alguns brasileiros, pelo ódio e a cizânia que têm tentado espalhar entre os brasileiros, insurgindo-me contra a baixaria da linguagem reles usada por “mestres”, “doutores” e quejandos, estou a imaginar que já me devem ter rotulado, no mínimo de nazista!
Só para os tranquilizar, informo que ainda uso um nome alemão, Frick, e ainda por coincidência houve um colaborador de Hitler com esse mesmo sobrenome. Esta foi pendurado pelo pescoço, e se eventualmente era parente dos meus antepassados vindos no século XVIII, da Suíça Alemã, eu nada tenho com isso. Tenho é um passaporte prussiano, importantíssimo, que não vale nada, mas tem graça!
O meu curriculum demonstra bem esta minha faceta nazista.
Em 1938, fardado de menino da Mocidade Portuguesa, participei do início da reflorestação do Parque Florestal de Monsanto, em Lisboa, e tenho uma fotografia minha, tirada quando animadamente tentava cavar para plantar uma árvore, e que está assinada pelo Salazar. Olha o fascismo a revelar-se.
Até aos 13 anos de idade fui membro, importantíssimo, da tal MP, onde me deliciava praticando atletismo. Desfilei várias vezes, duas a tocar tambor e uma como estafeta, transmitindo as ordens do comandante para os esquadrões que vinham atrás, cantando e rindo. Como é de supor a família ia à janela para verem passar o grande militar!
Passei um ano no Colégio dos Jesuítas em Santo Tirso, sempre à bordoada com o “prefeito” que tomava conta dos mais novos, e que me deu mais chutos nas canelas, nesse ano, do que todos os outros que levei até hoje.
No ano seguinte voltei ao Liceu Pedro Nunes de onde, dado meu comportamento sossegado... acabei expulso! Briguei com o professor de matemática, que era pior do que um cretino, e com um colega filhinho de mamãe que fazia queixinhas.
Já em Évora para fui onde estudar em 1946, entre 1948 e 1951 participei em mais de uma dúzia de touradas e garraiadas, o que prova, uma vez mais o meu background das “direitas”.
Ah! É verdade, logo a seguir cumpri o serviço militar obrigatório em Cavalaria 7, e gostei do espírito de ordem e hierarquia, se bem que tenha provocado algumas pequenas confusões no quartel, querendo endireitar algo que considerava errado. Não consegui nada, mas tentei. Quase fui preso!
A partir daí fiquei livre para iniciar a minha vida profissional.
Não demorou a minha partida para Angola, na maravilhosa cidade de Benguela, como responsável pelo departamento de máquinas agrícolas de uma grande companhia com sede em Luanda.
Com o meu feito de não aceitar, JAMAIS, ordens erradas, a briga com o meu superior, e meu colega, bem mais velho, que estava na capital, depois de demonstrar que eu estava certo, achei que não podia ali continuar e despedi-me! Com pena, porque gostei dos meus ajudantes, somente dois. Um, o humilde angolano que já não sei se se chamava Joaquim ou António, era uma figura de legenda. Já escrevi sobre ele, mas, para que conste este meu feitio de extremista, vou repetir um pouco: o António foi “nomeado” meu auxiliar pessoal. Quando eu estava fora da cidade, em viagem, ele dormia em minha casa e tomava conta de tudo. E no regresso, normalmente ao fim do dia ou à noite, levava o António, no quadro da minha bicicleta até casa dele. Típico fascista.

1954 

O outro colaborador era um português aí dos seus 40 anos, magro, baixo, que vivia só e triste sonhando que na União Soviética é que era bom! Anti salazarista até ao tutano. Várias vezes lhe propus pagar-lhe a viagem para a Rússia, só de ida, com uma única condição: estabelecíamos previamente um código de escrita e ele mandava-me postais ilustrados da Praça Vermelha ou de outra maravilha, dizendo se estava satisfeito, se aquilo era o paraíso com que ele sonhava ou... pelo contrário se estava arrependido.
Se fosse o paraíso eu ia ter com ele. Eu não levava muita fé nesse paraíso, mas...
Várias vezes lhe disse que quando quisesse ir eu compraria logo a passagem. Ria, disfarçava, aquilo era muito bom, mas nunca saiu de Benguela. Éramos amigos. (Os comunistas e esquerdistas são assim: falam muito mas não vejo ninguém emigrar para a Venezuela, Cuba ou Coreia do Norte! Enfim, vamos em frente.)
Mais tarde fui trabalhar para as cervejas, a Cuca. Quando assumi a parte comercial reestruturei todo o esquema de salários do meu pessoal que foram substancialmente melhorados. Briguei com os patrões e ganhei. (Deviam ter medo dum nazista!) Uma outra briga, sem nada a ver com dinheiros fez com que eu pedisse demissão da Cuca.  Foi um escândalo. E nessa altura tinha seis filhos. Depois ainda chegaram mais dois. Numa grande empresa com um diretor geral e quatro chefes de serviço (eu, um deles) pedir demissão foi uma bofetada. Pois é, mas eu não levo desaforo para casa, nem do Papa (que jamais o faria!). Só de pobre que sempre precisa de xingar alguém ou alguma coisa para desabafar.
O mesmo fiz em Moçambique, na cervejeira 2M. Essa briga, dos salários, foi mais fácil com o administrador, porque era burro que nem uma tranca, e mais difícil com o pessoal, branco. Estranho, né? Os idiotas, depois de os vestir com fardas novas, impecáveis (nem farda tinham) e que passaram a ter uma confortável melhoria nos seus proventos. Um dia reclamaram. Deram-se mal porque eu não gosto de gente estúpida. Os serventes, moçambicanos, passaram a ter quase 50% a mais de salário, e consideravam-me como um pai... fascista?
Já no Brasil, depois de ter comido o que diabo amassou, e foi amargo, um dia consegui montar uma marcenaria, onde trabalhavam quatro marceneiros. Quando me fartei daquilo, sabem o que aqui o fascista/nazista fez? Ofereceu todas as máquinas aos trabalhadores, um dos quais até hoje é mestre e ainda tem algumas dessas máquinas em bom uso.
Tem mais umas historinhas.
Em outra empresa, quando lá entrei, era hábito o pessoal vender as suas férias. Alguns com 10 anos de casa nunca tinham descansado. Obriguei todo o mundo a sair de férias. Reclamaram de entrada mas quando regressavam ao trabalho vinham agradecer-me. Mas isso são coisas de extremista de... direita! Perigoso.
Eu era o depositário dum relativamente pequeno, mas muito interessante espólio do meu bisavô e homónimo. Valia um bom dinheiro. Mas fascista, extremista, ávido por dinheiro, decidi fazer uma proposta à Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, terra do meu antepassado: se eles assumissem a edição dum livro sobre a biografia do meu bisavô, magnificamente escrito pelo grande jornalista Dr. José Rodrigo Costa Carvalho, porque não sendo esquerdista não encontrava editora que o quisesse fazer, eu ofereceria o espólio para a Biblioteca Municipal. Assim se fez, e fui criticado por não ter vendido! Mas o livro saiu e é uma maravilha.
Mas enriquecer para que? Eu já recebo uma generosa aposentadoria da Segurança Social em Portugal no valor de €271. Por extenso: duzentos e setenta e um Euros. Para que mais? Isto depois de 24 anos de trabalho em Portugal e nas Colónias.
É evidente que, com este tsunami de dinheiro entrando na minha conta, só podia ser fascista.  
Teria MUITO mais para contar.
Só uma pequena explicação porque me pus do lado do Bolsonaro.
Primeiro porque, como os outros 55 milhões de brasileiros, estava mais do que enojado e espoliado com a canalha que durante anos andou a roubar, de forma para lá de absurda, o país, isto é o povo. Depois porque não gosto de mentira, coisa que o PT só soube fazer durante 14 anos. Depois porque continuo a considerar a família a base da sociedade, e jamais aceitaria a ideologia do género que o sr. Hadad quis impor, ele, um adulador das obnóxias e aviltantes ideias de extrema esquerda.
Como consequência só uma alternativa se apresentava, mesmo não sendo enviada pelo Arcanjo Gabriel, e que trazia uma proposta séria: Ordem. Ordem. Respeito pela família. E pela Nação.
Diz o Presidente eleito, Bolsonaro, que bandido, se aparecer com arma na mão, vai levar bala.
Há anos que temos mais de 60.000 assassinatos por anos. Mais mortos do que na guerra da Síria. Então não estamos em guerra? Vamos deixar a pilantrada à solta a fazer o quer? Não, não vamos. Talvez dentro de pouco tempo já possamos sair à rua sem medo de sermos assaltados ou assassinados.
Mas continuar a engolir a barbaridade de escritos de portugas esquerdistas, dói até no estômago. Sobretudo porque eu também sou português, e considero um atrevimento covarde e uma baixaria o linguajar dessa gente.
Pobres de espírito.
E foi assim que cheguei a ser um “extremista, nazista, fascista” e outras coisas mais!
Mas creio que o meu “rótulo”, se há um, seria mais ou menos o seguinte: só aceito a verdade, hombridade, ética, decência, respeito. Para isto a ordem é fundamental.
Se enfrentei touros, e em África animais ainda mais perigosos, não vou enfrentar agora essa corja de covardes? Vou, “até que voz me doa”, como cantava a Maria de Fé. É verdade: até a grande Amália chegou a ser acusada de fascista!
Para terminar vou falar-lhes duma pessoa que conheci muito bem, que muito estimava e admirava, republicano até à medula, do grupo de revolucionários que apoiaram Manuel de Arriaga, anti salazarista a cem por cento, médico e professor de Belas Artes, uma figura ímpar. Casado com a irmã da minha avó materna. Nasceu em 1866 e morreu uns dias depois de fazer 95 anos, tinha eu 30 e por isso tive ocasião de o conhecer bem e ter estado muita vez com ele.


Chamou-se João Barreira. Professor Dr. João Barreira.
Nunca da boca daquele SENHOR ouvi uma palavra reles, ordinária. Comentava o seu desacordo com a política de Salazar, mas com a classe dos homens com letra maiúscula. Correto, educado, inteligente, simpático, cultíssimo.
Não devia ter mais de 1,50 m de altura, mas era grande. Por fora é só embalagem.
Eu ouvia-o, procurava guardar cada uma das suas palavras, sábias, tranquilas, uma fonte de história. Um mestre.
Era um Homem da oposição. Mas se ainda estivesse entre nós se horrorizaria com a baixaria que sai da boca dos que se fingem do contra.
Coitados.

04/11/2018

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020



           
A cadeira do “Garrett”
História que começa no sec. xvi ou xvii

Começo por repetir o que escrevi há dez anos, e segue com novas descobertas.
Vou aproveitar e contar a “aventura” de uma cadeira, que envolve um bocado bom de história.
O rei D. Fernando II, marido da D. Maria, também II para não destoar, filha de D. Pedro I e IV (a razão de ser 1º no Brasil e 4º em Portugal tem por base a diferença dos fusos horários entre os dois países, nas épocas do ano em que, oficialmente, no Brasil, o sol nasce três horas depois de Portugal ou de Greenwich), quando o grande poeta Almeida Garrett morreu, terá adquirido a cadeira onde este se sentava para escrever, e querendo homenagear o meu bisavô, o poeta, dramaturgo e o grande biógrafo do Garrett, Francisco Gomes de Amorim (1827-1891) ofereceu-lhe essa cadeira de presente.
E em casa do meu avô tinha lugar de destaque, sempre referida como “a cadeira do Garrett”.
Um dia essa cadeira veio para as minhas mãos, conservado o nome de “batismo” e estimada como sendo verdadeiramente a cadeira do Garrett. Uma cadeira trabalhada, de espaldar, com assento, costas e encostos dos braços estofados, que nos acompanhou para Angola. O estofo, velhinho, entretanto foi-se acabando. Em finais de 1960 comprámos uma bonita seda chinesa, que deveria ter emprestado à dita um ar quase museológico, e mandámo-la para o estofador.
De repente a Cuca decidiu que eu ia para a Europa fazer diversos cursos e estágios, e a cadeira ficou no estofador e marceneiro, que não a aprontou antes de sairmos de Luanda.
Enquanto estávamos na Europa, em Março de 1961, começou o chamado terrorismo, que no primeiro embate afetou profundamente todas as estruturas, tranquilas, estabelecidas em Angola, e o estofador, comigo ausente, sem sequer saber se eu regressaria a Luanda, como aconteceu com muita gente, pendurou a cadeira no vigamento do telhado da marcenaria à espera de...
Logo após o meu regresso, em Julho, a cadeira que padeceu uns quantos meses ali pendurada, perto das telhas, com o calor e umidade do clima, um dia despencou lá do alto, as peças descoladas, pernas para um lado, braços para outro, encosto... etc., e assim foi deixada pelo confuso e desarrumado chão da tal marcenaria. Com a preocupação do salve-se quem puder que era a lei em Luanda naqueles tempos tresmalhados, meia dúzia de paus do que tinha sido uma cadeira, foram totalmente ignorados. Quando fui saber dela, o homem olhou para o telhado, ar de idiota e diz-me:
- Estava ali!
- E agora?
Tudo quanto conseguimos salvar foram estes pés.
Corremos a marcenaria toda, mas nada mais apareceu. Confesso que tive um desgosto grande com o desaparecimento dessa herança.
Mas como não há bem que sempre dure nem mal que não acabe, acabámos esquecendo a dita cadeira.
Há pouco tempo, entre os papéis do espólio do bisavô que só muitos anos depois do desastre cadeirífero me foram entregues, encontrei a descrição pormenorizada da dita cadeira, e como o D. Fernando lha tinha oferecido.
Analisei e rememorei com cuidado a defunta, e conclui que a descrição não coincidia, porque faltavam algumas características importantes, como os braços terminarem em cabeças de leão, quando a nossa tinha os braços simplesmente torneados.
Moral da história: a cadeira que morreu no estofador de Luanda não era a cadeira do Garrett!
Onde andaria? Não sei que sumiço terá levado, muitos, muitos anos antes, até porque nos apontamentos do meu avô, não o bisavô poeta (isto é um tanto confuso porque era tudo Francisco G. de A.), não consta qualquer móvel que tivesse pertencido a Garrett.
Depois de mais pesquisar acabei descobrindo nos mesmos apontamentos do avô, que ele tinha um cadeirão de braços, a que chamava cadeira Farrobo, por ele comprada em Abril de 1912 por 5.690 reis! Terá sido do Conde de Farrobo, o homem que criou o Jardim Zoológico, e que um dia, como acontece a todos... morreu? Os animais do zoológico ficaram entregues a ninguém, o palácio abandonado e as mobílias devem ter-se vendido. Seria esta cadeira dali?  Qui lo sai?
Que a tal cadeira tinha mais cara de Conde de Farrobo do que de Visconde de Almeida Garrett, lá isso tinha!
Foi minorado o desgosto histórico, tranquilizou-se-me o espírito que se sentia comprometido perante o bisavô, mas ficámos na mesma sem uma cadeira. Bonita e com razoável presença, que se estivesse hoje no meu escritório me emprestaria um ar mais austero, quem sabe se até romântico do século já repassado!
Desse romantismo o único detalhe que me resta é a barba que já tenho há mais de quarenta anos!
Nota.- Salvou-se a seda, linda, que ainda hoje jaz, impecável, numa gaveta... sem qualquer serventia! Mas que é bonita, lá isso é.

Rio, 25/09/00

Conforme a data atrás assinalada, e verdadeira, era isso o que eu sabia naquele tempo.
Mas continuando a rebuscar dali e daqui encontrei agora a
História (quase toda) da Cadeira do Garrett

Quando o FGA (bisavô) mandou encadernar o poema
A FLOR DE MARMORE ou AS MAVILHAS DA PENA EM CINTRA
 editado em 1878, encadernou junto uma CARTA FAMILIAR escrita pelo seu amigo ABÍLIO AUGUSTO DA FONSECA PINTO (1831-1893) dedicada ao amigo deste, Doutor José Epiphanio Marques (1831 - 1908) em 1879
Uma pequena passagem na Advertência que FGA à laia de prólogo do seu poema
O encadeamento dos montes, de que se compõe  a serra de Cintra, visto das maiores alturas. Tem o aspecto de um imenso ramalhete irregular. A maioria dos seus cabeçosou picos apresenta a forma de flores pyramidaes, mas nenhuma com tanta similhança como aquele em que foi edificado o palácio real de Cintra.
Assim explica o autor d’este modestíssimo poemeto a razão porque lhe deu o titulo de Flor de Marmore.  
... Seria monstruosa ingratidão calar aqui os motivos que inspiraram a dedicatória d’este humilde poemeto. Por pedido da ilustre e generosa dama, para quem ele foi expressamente escripto, dignou-se Sua Magestade El-Rei o Senhor Dom Fernando brindar o autor com um objeto histórico preciosíssimo...
Na página seguinte:
À  ILLUSTRISSIMA  E  EXCELLENTISSIMA  SENHORA
CONDESSA D’EDLA

A Carta de A.A. da Fonseca Pinto, depois de fazer rasgados elogios ao poeta e ao poema, onde reproduz boa parte dele, termina assim (guardada a ortografia da época!)

Meu amigo.
Tenho-lhe falado de Cintra e dos seus poetas; não digo bem, de alguns dos seus poetas. E citando-lhe A FLOR DE MÁRMORE, produção d’um prezado amigo meu, consinta que lhe explique, nos limites circunscritos d’uma carta, as origens deste poemeto.
Ora ouça a invocação, dirigida a senhora Condessa d’Edla:

Senhora: se os colossos da floresta
Aos céos enviam divinaes perfumes,
Também o agreste cheiro da giesta
Ousa humilde subir aos pés dos Numes. *

Se o sol, que é vida e alma do universo,
Não desdenha aquecer o ínfimo insecto,
A vós do rude bardo implora o verso
Calor e luz de generoso affecto.

Gota d'água levada pelo vento;
Modesto aroma d'uma flor cahida;
Nem tanto valerá meu pensamento;
Mas inspira-o uma alma agradecida.

Aqui temos a gratidão servindo de musa; o poema é um bilhete perfumado de agradecimento. As aguas de Hippocrene aquecem-se sob o influxo d'um nobre affecto. Seria monstruosa ingratidão, diz o auctor, calar os motivos que inspiraram a dedicatoria d'este humilde  poemeto. Por pedido da illustre e generosa dama, para quem elle foi expressamente escripto, dignou-se sua majestade el-rei o senhor D. Fernando brindar o auctor com um objecto historico, preciosissimo como obra d'arte e como recordação saudosa - a  cadeira  monumental  de seu mestre, o grande poeta Almeida Garrett.
Mas ha melhor ainda; ainda melhor do que o autor, explana numa carta que ha dias recebemos a historia do poemeto e a descripção da cadeira abbacial. É de pessoa  d'elle  muito  conhecida, e a nós ambos muito cara.  D'ella  extractamos  os  períodos seguintes:
“... Esta cadeira abbacial, como a denominava  Garrett,  dizia elle que pertencera a seu tio o bispo D. Frei Alexandre da Sagrada Familia, e ao ultimo ou penultimo abbade do mosteiro de S. Bento, de Lisboa. Adquirindo-a, o poeta restaurou-a e deu-lhe mais grandiosa fórma do que tinha  primitivamente. Gomes de Amorim, em vida de Garrett, teve  sempre especial predilecção pela belleza artística d'este movel e sua commodidade; e apossava-se d'elle de preferencia, quando entrava no escriptorio d'aquelle que foi o seu melhor amigo e mestre,  que  lhe  serviu até de pae.
Antes de cahir de cama, foi nessa cadeira que o immortal auctor do Camões e D. Branca, depois de ter regressado de Belém para a rua de Santa Isabel, casa que hoje mostra o numero 78, suportou as primeiras agonias do doloroso drama com que terminou a sua gloriosa existencia.
“Por morte de Almeida Garrett foi a cadeira comprada em leilão para el-rei D. Fernando. Durante vinte annos sonhou Gomes de Amorim com a posse d'este objecto, tão precioso para as suas recordações e saudades. Ouvimos-lhe dizer que, apezar de pobre, teria feito todos os sacrificios para adquiri-lo, se estivesse noutras mãos. Obte-lo, porém, do rei-artista, sincero admirador de  Garrett, e amador de todas as preciosidades dignas de estima, pareceu-lhe sempre impossível. A Condessa  d'Edla, sabendo  d'estes  desejos, e da enfermidade que o poeta ha longos annos padece, inspirou compadecida a seu marido generoso pensamento de lhe offerecer a cadeira monumental de seu mestre, tornando-se assim a boa fada que realisava uma aspiração, considerada como sonho ou devaneio de poeta. Era isto em janeiro de 1876. D. Fernando foi immediatamente com  a Condessa ao palacio real da Pena, onde estava a cadeira, remetteu a para Lisboa, e brindou com ella a Gomes de Amorim. E quando este foi agradecer-lhe tão valioso mimo, dirigiu-lhe palavras benevolas e delicadas, com o intuito generoso de diminuir a importancia da dadiva, asseverando-lhe que possuía outros objectos do immortal poeta, e que a cadeira a ninguem  devia pertencer com mais direito e justiça do que áquelle que fôra seu discípulo predilecto e amigo dedicado, em cujos  braços expirara o auctor de Fr. Luiz de Sousa.
Só os príncipes, verdadeiramente grandes pelo coração e pela intelligencia, sabem practicar d'estes actos.”
“Desejoso o poeta de mostrar-se reconhecido a este testemunho de consideração e benevolencia, e sabendo quanto D. Fernando ama a sua magnifica residencia da Pena, lembrou-se de celebrar num pequenino poemeto, consagrando-o á Condessa d'Edla, aquella encantadora vivenda”.
“Em quanto a cadeira é toda de páo sancto, estofada de  damasco de seda carmezim, e de alto espaldar, formado por duas grossas columnas, torneadas em espiral, unidas em cima por um bello ornato que representa um barrete de abbade. As costas têm 1 metro e 60 centimetros de altura. A frente é composta de dois formosos leões, de pé, que são de primorosa esculptura, tendo 71 centímetros de altura, com azas que formam uma especie de segundo braço, o que torna o movel commodo e confortavel. A moldura que compõe o assento mede, na frente, 68 centímetros de intervallo entre os peitos dos dois leões. O aspecto geral é elegante e majestoso, e ostenta a apparencia d'um throno. Este movel, verdadeiramente historico e monumental, pertenceu a Garrett por espaço de dezoito annos; vinte annos ao senhor D. Fernando, e há quasi tres que pertence a Gomes de Amorim »
Nunca fui a Cintra, meu amigo; e tenho-lhe escripto d'ella como se fosse de velho conhecimento! Conheço a serra apenas pela fama, o que não é pouco, porque a tradição e a poesia a enfeitam e descrevem de modo que o mesmo é vê-la que ouvir as duas. O Camões imagina-a com as suas naiades escondidas nas fontes, e ainda assim accendendo nas aguas fogo ardente sem lhes valer o asylo contra enredos do amor. O Garrett embrenha-nos por bosques onde o louro inda viceja com a gloria de D. João de Castro, ou sentado no musgo das encostas espairece olhos satisfeitos por larga extensão de plainos. E nós, que ainda juramos sobre taes evangelhos de tão queridos poetas, phantasiamos na mente fontes encantadas e Dodonas venerandos, um eden glorioso, como lhe chama e attesta o poeta inglez.
Não devo por isso adeantar-me mais. Se ainda um dia subir á afamada Cynthia... então... pode ser que lhe escreva nova carta.
O que desejei principalmente foi recommendar-lhe o poemeto de Gomes de Amorim, que é um poeta notavel pela espontaneidade, e prosador muito ameno. Temos d'elle versos, dramas, romances  e  viagens.  Antes  de  conhecer  o  homem,     conhecia o escriptor. Era eu criança, e nas minhas primeiras leituras quasi que aprendia o meu abecedario poetico com poesias d'elle, insertas no Jardim Litterario. Continuei a vê-lo depois noutros jornaes e livros, na Revista Universal, no Panorama, no Archivo Pittoresco, nas Artes e Lettras, e nas ultimas publicações com que tem adornado a nossa litteratura.
Ha annos fui  pela  primeira vez a Lisboa, e na primeira recita a que assisti no theatro de D. Maria II foi o Odio de Raça que me patenteou o merito artistico de Tasso, de Delphina, de Emilia Adelaide e Theodorico, interpretando os magníficos characteres, que estão dispostos com rara habilidade naquelle lindíssimo drama. E é effectivamente no drama que mais se distingue o nosso poeta; o Odio de Raça, o Cedro vermelho e Os herdeiros d'um millionario honram singularmente a litteratura, tanto portugueza como brasileira.
Mas leia o poemeto, meu amigo, e depois me dirá a sua opinião. Desculpe a extensão da minha carta, e creia-me  sempre  seu  devoto, grato e affectuoso,
A .  A.  da  Fonseca Pinto.

Notas finais:
Resumindo um pouco: se a cadeira pertenceu primeiro a um abade, e atendendo a que as Ordens Religiosas foram extintas em 1834, a cadeira seria no mínimo do século XVIII.
Se FGA, bisavô, recebeu a cadeira em 1876, seu filho, meu avô e também homónimo, deve tê-la conhecido e, certamente admirado, uma vez que só em 1877 emigrou para o Brasil.
Quando o poeta morreu, em 1891, meu avô, já com dinheiro, escreveu de imediato às irmãs que nada vendessem. Ele lhes pagaria o que fosse necessário.
Mas... naquele tempo não havia correio de avião, nem e-mails. Como a viúva e uma ainda filha solteira ficaram sem recursos, logo foi feito o leilão da biblioteca (valiosíssima) e de alguns móveis, E nessa voragem famosérrima cadeira do Garrett foi vendida a... quem? Perdeu-se lhe o rastro e nunca mais se soube dela.
Meu avô regressa definitivamente do Brasil a Portugal em 1899. Imagino, talvez sonhe, que ele terá procurado o paradeiro dessa relíquia, mas em vão.
Então em 1912, como está acima, comprou uma cadeira de espaldar que teria pertencido ao Conde de Farrobo, e por graça ou para manter a ideia viva, em sua casa ela passou a ser chamada a cadeira do Garrett.
Estamos a chegar ao fim da HISTÓRIA DE UMA CADEIRA, mas no fundo é a História De Duas Cadeiras.
Se o meu avô não conseguiu a cadeira do Grande Amigo de seu pai, Visconde... comprou a de um Conde!
E o 25 de Abril também com esta acabou!
21/01/2020