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quinta-feira, 28 de novembro de 2019



Se…

Não, não vou escrever sobre o poema “IF” de Rudyard Kipling.
Mas pus-me a pensar por exemplo ...
- se Caim não tivesse matado Abel? Teria havido alguma diferença? Nem condenado foi, o assassino. Não foi julgado na 1ª, nem 2ª instância. Ficou aguardando os estranhos e covardes “embargos infringentes!”
Mas deixou exemplo importante: ainda hoje muito ladrão e assassino fica à solta, a rir, os polícias americanos surram até matar um negro e depois são absolvidos, no Brasil então... é melhor disfarçar.
Caim deveria ser nomeado patrono dos juízes vendidos.
- se Noé não tivesse existido, nem o tal dilúvio? Porque Deus estaria arrependido de tão mal ter feito o homem, e procurava refazê-lo melhor, decidiu acabar-lhe com a raça... quase.
Conversa fiada, porque ficou tudo na mesma, dilúvios sabe-se que sempre houve e continua a haver em todas partes da Terra, mas melhorar o homem é que nada.
A única coisa que nos ficou foi uma historinha, bonitinha, dum cara legal cheio de bicharada à volta e de uma pomba que lhe levou um pequeno ramo de oliveira. “The rest... is silence!”
Ficámos a saber que há 4 ou 5.000 anos já havia inundações.
Tudo como dantes... no Quartel de Abrantes.
- se Jesus de Nazaré, o Cristo não tivesse dito “Amai-vos uns aos outros”  os homens hoje odiavam e matavam menos ou ainda mais? Amariam ou desprezavam mais os pobres, os desfavorecidos? Juntavam fortunas ainda maiores ou distribuíam pelos incapazes? Ou simplesmente tinham evoluído na mesma? Possivelmente seríamos todos judeus, masdeístas, athonistas. Mas o que é ser, verdadeiramente cristão, qualquer que seja a liturgia seguida?
Foi pena foi ter-se ignorado o Código de Hamurabi. Não sei se lá estava escrito: mente, arranca-se a língua, mas fosse hoje o que haveria de mudos...!
- se Nikolái Alieksándrovich Románov, o Tzar, em vez de andar a filmar a família e a brincar com os filhos, como deveria ser um grande Pai da Rússia, bom governante, não tivesse ouvido o gangster Gregor Rasputin, mas atendido a voz dos mais abandonados e combatido a evolução das ideias marxistas e bolchevistas? Tinha exército e muita gente culta para isso. Se... o tivesse feito teríamos hoje no mundo esta epidemia, infestação esquerdista, que só pensa no poder para mamar à custa de quem se esforça, arrisca e trabalha?
Infestação epidémica que não tem antibiótico que a derrube. E por incrível que pareça com dinheiro inesgotável para continuarem a viver à grande e a virarem cabeças, sobretudo dos jovens.
E quem não for por eles é contra eles, e assim marginalizado.
- se Abraham Lincoln tivesse perdido a Guerra Civil americana? Hoje os EUA seriam talvez duas nações. A metade do norte com os brancos e as indústrias. Ao sul uma imensa maioria de população de origem africana, que entretanto já se teria tornado independente, cheios de petróleo e de barriga cheia de alimentos!
Já a polícia não batia mais nos negros, como continua a fazer ainda hoje.
- se Hitler não fosse louco e não tivesse atacado os judeus e os ciganos? Nem a Rússia, a seguir? Há muito que a Europa seria já uma espécie de União, comandada pelos germânicos.
Tinham cientistas, engenheiros, finanças, agricultura, educação e cultura.
Em 1938 o meu Pai foi em visita de estudo à Holanda, Bélgica e Alemanha, como responsável pelos serviços de Arborização e Jardinagem da Câmara de Lisboa. Regressou com uma enorme admiração pelo que viu na Alemanha: ruas impecáveis de limpas, tudo disciplinado, as árvores e os jardins muitíssimo bem cuidados, os viveiros eram fantásticos, enfim um país com uma civilização marcante, e nenhum sinal de que andava por lá já o louco a preparar a sua destruição.
Tinham tudo que o tal louco deitou a perder. Hoje a Europa tem tudo e está a suicidar-se na mesma.
- se Salazar, que era uma homem culto, aparentemente cristão (formado no seminário), inteligente, tivesse, logo que assumiu o trono de Portugal, olhado para o império português, e reconhecesse em cada cidadão, de cada canto do mundo, um irmão, um ser humano igual a todos, como certamente lhe terão ensinado no seminário ?
E copiado Grande Alexandre, que no seu percurso militar, depois das conquistas ia deixando nos postos de comando gente da própria terra.
Se ele tivesse essa visão logo no início dos anos 30, que só os grandes homens podem ter, como seria a África hoje?
Uma coisa é certa, ter-se-ia evitado um estúpida guerra colonial e as imensas guerras civis que dizimaram depois vários milhões de seres.
E os países que foram colónias teriam continuado a desenvolver-se e seriam hoje, no panorama mundial, conceituados, desenvolvidos, respeitados.
Não como o Brasil, que até hoje é colónia, primeiro dos coronéis fazendeiros, depois de esfaimados e gananciosos políticos, a seguir dos militares cabeçudos que mais viviam nas alturas dos seus galões do que no entendimento da coisa social, e até há pouco da extrema esquerda que socialmente bebe Romanné Conti, que é coisa humilde (no barato vai de 1.000 a 2.000 dólares a garrafa!), para culminar como colónia dum tribunal que se diz superior a tudo e todos, impedindo o seu desenvolvimento, destruindo a moral e a justiça.
- se... se...! Poderíamos continuar com os ses... que nunca levaram a lugar algum, e é um modo um tanto idiota de se pensar o mundo.
A solução não é fácil, porque pressupõe sempre a necessidade de um líder para entusiasmar as massas e levá-las a votar com consciência, com ética e civismo, coisa que parece ter desaparecido da face da terra.
Mas será tão difícil encontrar esse líder?
O Brasil conseguiu alguém que levantou a bandeira contra a corrupção, a ladroagem e a desmoralização da sociedade, mas com a mídia, nacional e internacional, ofendida porque toda ela gosta de ser de esquerda, só se fala nos desaires do governo sem uma única palavra para o que de positivo, e difícil se vai fazendo.
Bastaria referir que o Brasil acaba de bater, possivelmente, um recorde mundial, porque nestes primeiros dez meses de governo não consta que alguém tivesse metido a mão nas finanças públicas. E imaginem o barulho que se faria se alguém o tivesse feito!
Então criam inverdades, boatos, levando até o Papa a falar sobre a Amazónia, mas sem uma palavra sobre a Indonésia, Congo e, pior ainda, a sistemática e voraz ganância dos norte-americanos a destruírem milhões de quilómetros quadrados com o petróleo de xisto e outras barbaridades.
Desde o começo da sua descoberta (ou achamento?) o Brasil tem sido alvo de inveja e de tentativas de conquista – franceses, flamengos e ingleses – e não perdoam aos portugueses, na época com meia dúzia de homens, terem deixado, fronteiras fechadas, um dos países com maior riqueza em todo o mundo.
A esquerda, que tudo quer para uso pessoal, não desarma, e onde deita a mão chega o descalabro. Aqui, no Chile com Allende, na Argentina que foi um país maravilhoso, começou a ser destruído com Peron e continua com a gangue Kirchner, por toda a parte o esquerdismo luta para se impor.
Até o pobre e velho Portugal vai às urnas chateado, porque podia aproveitar para ir à praia, e continua a deixar um governo de ruina, onde tanto se rouba – parece que aprendeu com o Brasil – onde o tribunal superior também não quer condenar os comparsas, e assim caminha em alta velocidade para o descalabro porque nem sequer tem os recursos de um Brasil que, arruinado de momento, bem gerido vai ser uma das primeiras potências mundiais.
Portugal que futuro? Spínola escreveu sobre o futuro imediato das colónias. Não foi mais longe do que isso. Mas agora? Aqueles que poderiam, e deveriam, dar-lhe um novo rumo, parece que se limitam a contar no Facebook que este ministro rouba, os presidentes das estatais têm salários exorbitantes, empregos para os amigalhaços e familiares sempre há, e bem pagos, o primeiro ministro dá risada para os problemas porque tem os comunistas a apoiá-lo para também não saírem do bem-bom, e até o Presidente da República com a sua gestão de cara legal, boa praça, deixa o barco correr sem parecer incomodar-se com o rombo que levará o barco a afundar.
Um Presidente da República cujo primeiro ato, com disfarces de ecuménico, realiza uma reunião numa mesquita em vez de convidar os líderes de outras religiões para a Sé de Lisboa, lugar das nossas origens cristãs.
Além disso, segundo conta, naquele lugar terá havido primeiro uma sinagoga, mais tarde uma mesquita para voltar a ser um templo cristão. Nada melhor para unir aí as diferentes religiões.
Porquê escolheu a mesquita? Para atrair mais dinheiro do Aga Khan? Não precisava mendigar. Foi feio.
Portugal: muito boa e barata, ótimos vinhos, aborto legal, o melhor pão do mundo, Lisboa está uma cidade linda, mas... é com isso que vão viver os que escaparem agora ao assassinato nas barrigas da mães?
Com o desmoronar da União Europeia, Portugal, usando palavras de Salazar, ficara orgulhosamente só, como o único país em que a esquerda caviar, mancomunada com o comunismo irá, de chapéu na mão, pedir esmola a um novo Tarik.
Os descendentes de portugueses que agora conseguem obter a cidadania dos antepassados, pensam em Portugal como um Éden, mas logo, desenganados, ou estão de volta ou procuram outro país da EU.
Um dia, que esperamos não tarde muito, o Brasil poderá estar recuperado dos vinte anos de roubalheira e desmoralização.
De qualquer modo eu já por aqui, nem por ali, estarei.
Mas hoje, tudo isto que vejo acontecer, e a ver também como as pessoas deixam correr o marfim, permitindo até que em muitas escolas primárias se imiscuam bandidos travestidos de pessoal do social, para ensinarem às crianças que elas nascem sem sexo (!!!), e que sexo será o que cada um escolher.
Já não tenho filhos, nem netos nessas idades. Mas se tivesse, e na escola de algum deles isso tivesse acontecido... a minha reação seria muito feia. Talvez fosse até preso.
Mas hoje os pais assistem a tudo isso e não se mexem.
Porquê? Será que a raça humana está extinguir-se como os dinossauros?

segunda-feira, 11 de novembro de 2019



Sempre mais Amigos

Com receio de ter esquecido alguns que, de forma mais ou menos profunda fizeram parte da nossa vida.

Arne - Quando entrei para o Liceu, 1942, logo me entrosei com novos amiguinhos. Lembro muito de um, com quem jogava com tampas das caixas de fósforos, berlindes – bolinhas de gude – ou tampas de cerveja, nos meios fios dos passeios. Sempre na rua! Tinha um problema na fala, que espero tenha corrigido com o tempo, e não conseguia pronunciar os “c”. Com o pai tinha um talho – açougue – nós chamávamos-lhe de o  “Arne”! Criança, como eu, lembro-o sempre bem disposto. Há... quantos anos???

António Maria da Costa Cabral da Costa Macedo – Homónimo de um primo, este como meu irmão, conheci-o em Luanda, capitão, ajudante do Governador Sá Viana Rebelo. Naquele tempo faziam corridas de automóveis dentro da cidade, e o António Maria participava com um MGB. Não sei se ganhava, mas lá estava sempre.
Um dia, numa recepção do governo, onde, por razões que aqui não interessam, eu também compareci, estava ele à entrada a conversar com um sujeito baixinho, que eu logo reconheci. Tinha sido ele que me condenou a pagar uma multa depois de me ter dito que eu tinha toda a razão! Quando o António Maria nos quis apresentar eu disse na cara do tal juiz: “Não aperto a mão a quem me condenou dando-me razão!”
O baixinho continuou com a sua cara de estúpido e depois tive que pedir ao meu amigo que me desculpasse de o ter deixado numa situação, no mínimo, inusitada.

Avô Mata – Em frente da nossa casa na rua Cabral Moncada, em Luanda, havia uma pequena mercearia, pequena, cujo dono era o senhor Mata. Ali comprávamos, quase diariamente alguma coisa. Ele e a mulher, atenciosos, quem costumava lá ir eram os nossos filhos, porque eram recebidos com muita simpatia. Como o homem usava as calças bem acima da cintura, pela proeminente barriga, até hoje, quando alguém aparece assim, ainda nossos filhos se lembram dele a quem chamavam, de “Avô Mata”. E dizem: “Tens as calças à avô Mata”! Não éramos amigos, mas foi uma pessoa simpática que conheci.

Cadete Leite – Chegou a angola, jovem médico, para cumprir o serviço militar e lá se deixou ficar. Quando se instalaram os “Estudos Gerais”, depois Faculdade de Medicina, foi um dos primeiros professores. Um dia, na praia, viu que eu tinha umas veias bem aparentes numa das coxas, varizes, que continuam lindas como nesse tempo, e perguntou-me há quanto tempo tinha aquilo. Desde sempre. Achou estranho e creio que me disse que devia dar as pernas para que fossem estudadas na faculdade. Prometi que as deixava em testamento! Simpático e, creio, bom professor.

Carlos Silva Pereira – e Maria Leonor,  a quem chamavam Chica.
Amigos desde que chegámos a Moçambique, com quem estávamos frequentes vezes. O 25/4 empurrou-os para o Brasil, e quando eu nos primeiros tempos, por aqui andava meio perdido, não posso esquecer que me deram guarida em sua casa, no Rio.  Para sobreviverem, a Chica, fazia doces (pasteis de nata?) e todos os dias, depois de alguma luta para levantar os filhos da cama (!) ia entregar o trabalho numa confeitaria longe de casa. Todos os dias.
Foram para Portugal, o Carlos especializado em câmaras frigoríficas, ainda me chegou a propor um negócio com ele, que não funcionou.
Adoeceu e foi entregando a vida. Via-o bastantes vezes nessa ocasião, até que voltei para o Brasil.


Nos tempos de Lourenço Marques
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Fernando Castelo Branco (Pombeiro) Geólogo (?), engenheiro de petróleos, sempre muito magro, careca como a palma da mão, foi um dos bons amigos que faziam parte de um grande grupo onde havia jantaradas, fadistices e outros encontros. Bem mais tarde, em Portugal quando nos encontrámos, tinha ele um veleiro e queria por força que eu fosse sair com ele. Mas as minhas visitas à “terrinha” eram curtas, e só deu para irmos à doca ver o brinquedo em que raro saía. Amigo de muitos anos, mas, infelizmente, poucas vezes estávamos juntos. Simpatia levada ao ponto mais alto. E da Mariana Pinto Coelho.



Fernando Real – Doutor em geologia, professor na “neófita” Faculdade em Luanda, fui um dia procurá-lo, para lhe pedir alguns conselhos sobre microscópios. Na altura eu trabalhava com a Leitz. Levei-lhe uma porção de catálogos, para que os estudasse e me dissesse o que lhe poderia interessar. Uns dias depois voltei, ele disse o que lhe fazia falta, características, etc. Escrevi para a Leitz, que enviou os detalhes e assim comecei a vender microscópios. Bons anos passados, em Portugal, era Ministro do Ambiente, quando nos encontrámos no Parque do Gerês. Reconheceu-me: “Já me lembro de você, que me levava os catálogos dos microscópios para eu estudar”! Fui eu sim. E aprendi muito! Obrigado.
Recebido lá no Gerês pelos burocratas, não deixou que me afastasse e sempre quis ouvir a minha opinião sobre os trabalhos projetados. Como quase só conversava comigo, as autoridades ficaram obrigadas a convidarem-me para o almoço ao Ministro, e sentaram-me bem na frente dele. Tratava-o por Professor. E disse-lhe que Professor seria sempre, ministro... Dois ou três meses depois foi exonerado!

 Frederico Meunier de MendonçaFreddy. Filho de uma prima direita da minha mulher, bem mais novo do que eu, foi engenheiro de voo, quando os aviões levavam esse técnico a bordo. Quando os engenheiros de bordo foram dispensados, a TAP, deixou esses colaboradores numa situação muito difícil. Foi o suficiente para se deixar ir abaixo e não tardou a descansar. Muito simpático ele e a mulher Isabel. Deixou saudades.

José Manuel da Maia e Vale – Bom colega do tempo de Évora. Tranquilo, bom aluno, e apesar de gordo era o melhor nadador de todos nós, que tomávamos banho na grande cisterna da Mitra.
O tanque – cisterna – onde tomávamos banho

Um dia caminhávamos lado a lado pelo campo, num pequeno desnível do lado dele de repente caiu. Levámo-lo para a enfermaria. Ataque epilético. Chegou o verão, férias grandes, proibido de nadar no “seu” Mondego, sentou-se na margem, numas pedras, a pescar. Novo ataque, cai à água e... Ótima pessoa.

Luis Marques Pinto - médico, pediatra, lembro três passagens onde estivemos juntos. A primeira, teria eu uns 16 ou 17 anos, verão, estava em Sintra e consegui um dinheirinho para ir de eléctrico até à Praia das Maçãs, espairecer. Encontrei o Luis, uns oito anos mais do que eu, estava com dois amigos, que não lembro mais quem eram. Chegada a hora do almoço perguntam se eu queria almoçar com eles num pequeno (e ótimo) restaurante que ali havia. Declinei, porque não tinha dinheiro. Só o suficiente para pagar o bilhete de volta. Logo:. Vens almoçar conosco, nosso convidado. Vão mais de 70 anos e não esqueci.
Mais tarde chega a Luanda cumprindo o dever militar. Pediatra, tomava o lugar do António Castro Ferreira quando este se ausentava.
A última vez que o vi, em Lisboa, passei na rua onde ele tinha o consultório e fui lá dar-lhe um abraço. Excelente médico e pessoa.

Manuel Ferreira de Lima – Meu primo, mais velho do que eu uns cinco anos, nossos pais primos direitos, apareceu um dia em Luanda para lançar os Cursos de Cristandade.

Quando o encontrei, antes do primeiro curso, onde eu estive, perguntei o que fazia por ali. Não lembro do que respondeu mas eu quis saber se quem fizesse esse curso e rezasse durante aqueles três dias depois não precisava de rezar mais. Riu, e disse Tu vais lá e tiras as conclusões.

Manuel João Pimentel Teixeira – Angolano de Moçamedes, conheci-o quando cheguei a Luanda depois da travessia do Atlântico, em 2005/6 no “Mussulo”. Como era tratado a bordo por “tio” pelos outros dois navegadores, à chegada a Angola, toda a gente que encontrámos era mais nova do que eu que ali tinha vivido muitos anos e sabia de histórias, e de história, e assim fiquei sendo “tio” os novos amigos. Alguns deles tive depois a alegria de os receber em nossa casa, entre eles o “Pimentel” com quem troquei muita correspondência via e-mail.
Durante a minha estadia em Luanda, em 2007 fez-me uma pequena “caricatura” que, mesmo não muito parecida, foi uma demonstração de amizade.


Quando nos visitou no Rio trouxe um pedaço de rocha de Angola que guardo com carinho. Mais um sobrinho por quem tive muita simpatia.

Manuel Maia do Vale – Irmão do colega acima fui encontrá-lo em Angola, agrónomo. Não foi difícil criar um vínculo, e mais tarde fomos até vizinhos na mesma rua. Ele morava no prédio em frente da nossa casa. Por seu intermédio, e sem ele saber que era eu que estava interessado, fiz um bonito negócio com Angola. Foi sempre muito simpático.

Amigos – “Retardatários!”

Esquecidos mais alguns que voltam à memória.
Lembrei agora de um outro, cowboy muito pirado, um sujeito cheio de graça. O pai, conhecido e respeitado professor universitário, o filho e homónimo que nunca quis saber de estudar. Farra e copos!
Aí alguns anos mais do que eu, apareceu um dia em Évora, para ver se pelo menos fazia o curso de Regente Agrícola, curso que eu estava a terminar.
Já maior de idade era aluno externo e vivia num quarto alugado em Évora, cidade, deslocando-se todos os dias – que não foram muitos – para a Herdade da Mitra assistir às aulas. Foi nesse tempo que o conheci e fizemos uma rápida amizade.
Sempre com uma boa disposição contagiante os que o conheceram ficaram amigos.
Gostava da farra e copos e gastava tudo quanto tinha e não tinha. O pai mandava-lhe dinheiro que nunca chegava para os gastos.
O inverno em Évora é frio. Muito frio. Um dia veio dizer-nos que tinha vendido os cobertores da cama, talvez para uma jantarada ou só beber uns copos. Todos lhe perguntámos: “Com este frio como consegues dormir?” Resposta simples: “Cubro-me com jornais, que aquecem bem, e olhem, o “O Século” é muito mais quente do que o “Diário de Notícias!”
Gargalhada geral.
Nem um ano por ali ficou. Já farto de estudos foi embora, e o pai que o acolhesse, o que fazia, claro.
Poucos anos passados, uma bela manhã, seriam umas 10 horas, ia eu a pé, em Lisboa, entre a Praça dos Restauradores e o Rossio quando vejo vir na minha direção um indivíduo de fraque, chiquérrimo! Não é normal ver gente assim vestida àquela hora, mas... era ele! Demos um bom abraço, e pergunto-lhe se vai para algum casamento tão cedo. Impecável, responde:
“Não! Estou vindo de um casamento... de ontem!”  Rimos conversámos um pouco e cada um seguiu a sua vida. Depois nunca mais o vi.
Este era o meu amigo Rui Mayer.
Infelizmente não tenho nenhuma foto dele.


domingo, 6 de outubro de 2019




Johannes Carolus – Quem foi lendo todas, ou só umas poucas das recordações de Amigos que escrevi, deve ter notado que foram muitos, quase todos, a quem o eterno descanso chamou e, com a graça de Deus alguns ainda por aqui andam, muitos deles com ótima saúde e quase incontáveis anos de idade. Também devem ter notado que entre eles há os que tiveram uma vida a todos os títulos notável, que marcaram gerações, se dedicaram aos outros, ensinaram, foram grandes mestres, deixaram belas obras e grandes exemplos.
Não vou destacar este ou aquele mas vou terminar esta série de textos pelo indivíduo para quem não consigo encontrar uma palavra que o defina. Eclético? Completo? Talvez.
Se não é fácil escrever uma biografia, fazer um resumo da vida de quem foi uma Grande personalidade é um desafio, que apesar de saber que será sempre pobre, decidi enfrentar.
Conheci este senhor aí por 1950, amigo do meu sogro e irmãos, e diversas vezes o visitei, por isso para escrever este pequeno texto sobre ele pedi a uma grande amiga, em Portugal, que me arranjasse alguns, dos muitos, livros que escreveu.
Nasceu em Ílhavo, em 1899 e faleceu, depois de sofrer com uma doença incurável, em Lisboa em 1961, quando a sua capacidade produtiva ainda teria imenso que nos dar.
Médico, escritor, poeta, pintor, escultor, professor, romancista, até ator, uma extensíssima cultura, conhecia os clássicos europeus, japoneses, árabes, chineses, indianos, publicou alguns livros que traduziu do alemão, italiano, inglês, e de acordo com palavras suas, numa entrevista em 1949, contava

“Aos oito anos, depois do primeiro exame já exprimia as minhas emoções com rimas e desenhos. Aos onze tive meu jornal manuscrito e desenhado, de que ainda existe, em mãos amigas, uma coleção completa. E aos dezasseis abria as primeiras gravuras para o meu jornal impresso de que saíram 4 números. A Medicina veio muito tarde, por desejo de meu Pai. A Medicina e Farmácia era tradição de família. A Arte, foi, pois, sempre o meu destino, a minha mais gostosa obrigação.”

Dizia que a sua vocação era conversar, escrever e desenhar.
Como médico, aproveitando ao máximo as suas faculdades de inteligência, e artísticas, começou a desenvolver uma atividade verdadeiramente febril, e em ambos os setores: medicina e artes.
Pouco a pouco, foi constatando a inutilidade de grande número de conhecimentos, quer em relação à arte de diagnosticar, quer à arte de curar, o que mais tarde revela nas simples e famosas crónicas “É bom poupar a saúde” que publicou no Diário de Notícias, que ainda hoje deveriam ser lidas por muita gente, porque entendia que era fundamental ensinar ao público as normas básicas de higiene. Lembro muito bem dessas crónicas que eram lidas com um prazer duplo: o ensinamento e a graça com que as escrevia.
Foi professor do Instituto de Serviço Social, conferencista, falava na rádio e na televisão, e depois a escrita nos jornais e em livros, sempre visando transmitir cultura e bom senso.
Houve, e sempre há, uns quantos que se julgam atingidos pela ironia dos mais verdadeiros e inteligentes, como ele se apresentava nas suas atitudes. Mentes complexadas. “Para os que sabem tudo e desdenham, passem o volume a outro!”
Dizem que o nosso cérebro tem dois lados: o matemático e o poético ou artista. Raros são os que têm ambos os lados equilibrados, mas raríssimos os que os têm em grande desenvolvimento.
Neste caso temos o autêntico Médico-Artista.
Para se ter uma, muito simples e reduzida, ideia dos seus inúmeros escritos, reproduzo duas pequenas passagens da série de textos “É bom poupar a saúde”:
-  Alimentação de crianças: A banana antigo regalo de sobremesa e merenda, para raros apenas, como certa poesia... Expresso em calorias, o valor alimentar da banana é de 1.012 calorias por quilograma, não contando a casca que não se come, e a sua riqueza em vitaminas B e C coloca-a, se não a par da cenoura, limão, leite, pão e batata, pelo que diz respeito à vitamina B, pelo menos no mesmo grau quanto à vitamina C. Segue aconselhando dar banana às crianças e termina: Ora a primeira condição para alimentar bem uma criança é ter boa alimentação para lhe dar – como diria o amigo (ou a banana)... Banana.
-  Sobre a hipertensão: Quando se diz que um indivíduo tem 12/8 de tensão arterial, o que significa um estado normal, quer dizer que o coração consegue impelir o sangue a uma coluna de 120 milímetros de mercúrio e a 80 no intervalo entre dois batimentos... Quem primeiro mediu a tensão arterial foi um pároco da aldeia do condado de Middelesex, na Inglaterra, o reverendo Stephan Halles (1677-1761) que, ligando à carótida de uma égua um tubo de vidro, verificou a subida do sangue a nove pés e seis polegadas de altura. Quando as paredes dos vasos sanguíneos aparecem alteradas, fibrosas ou atingidas pela esclerose, diminuindo-lhes o calibre, dizem que é isso mesmo a causa da hipertensão, enquanto outros pensam ser justamente por causa dela! ... E enquanto não há mezinha, nem remédio, nem varinha de condão que cure todos os casos de tensão elevada, o melhor é cada um ajustar a vida aos seus meios físicos, em vez de ficar aí a impacientar-se e a deixar-se vencer pelo medo – coisas que só servem para agravar a hipertensão.
Conselhos de educação sanitária. Mais vale prevenir que remediar (dar remédios!) sempre com muita graça e ironia.
Aquilo que publicava, como médico ou simplesmente como romancista ou poeta, assinava Celestino Gomes e as obras de arte, pintadas ou desenhadas, como João Carlos, algumas vezes em latim como Johannes Carolus, como em muitos dos ex-libris em que mostrou ser um dos maiores especialistas de todos os tempos. Basta ver o dele, baseado no que via pintado nos barcos dos pescadores da sua tão querida terra, Ílhavo, e que mostra a sua, sempre, boa disposição

Ora bamos lá cum Deus – na grafia popular

Um dia perguntaram-lhe: “Porque escreve?” – “ Sei lá porque escrevo! Ponto foi terem-me ensinado a ler e a escrever!  Desde então, suponho, tenho ‘ideias’ literárias!” – “E como escreve?” – “Escrevo onde e quando calha, ponto é que a ocasião e a disposição coincidam.” 
Os livros sempre as capas, e muitos no interior com desenhos seus, vão da medicina ao romance e poesia, tendo começado a publicar em 1920. Abaixo, um para a divulgação das boas práticas de vida, com setenta e um textos publicados no jornal Diário de notícias, edição de 1953, o outro, pequenos romances e aventuras”, edição de 1943.


Sempre muita ironia e uma profunda cultura, escreveu sobre os temas mais variados, leitura de grande sabor e prazer, como no romance Iruchi-Ko que ilustrou. E em muitos outros. Livros seus e de amigos.



Na pintura, apresentou os seus primeiros trabalhos em 1917, com 18 anos. Depois no ano seguinte, e seguinte, e seguinte e por aí fora até pouco antes de falecer. 
Definia os seus trabalhos
“Em cada um dos meus quadros eu procuro, como os antigos, os pormenores, porque todos entram na história que ali se conta. Nenhum dos objetos está ali por estar, mas porque faz parte da história.”
Conheceu a senhora com quem casou num baile em Coimbra, ainda estudante. No dia seguinte, num pedaço de madeira com uns 30 centímetros de altura, esculpiu a figura e cara da noiva com uma perfeição admirável. Esculpiu também a cabeceira da sua cama, já casado e com um filho adolescente, em que a figura central, o Cristo, está ladeado por um pescador, ele, e sua mulher, ambos ajoelhados, enquanto o Cristo tem a mão no ombro da criança. Uma obra de arte, em estilo gótico, de raríssima inspiração.
Gostava de pintar retratos com os retratados em trajes típicos, da sua terra ou do século XIV ou XV, como estes dois auto retratos, um o pescador outro o doutor.



Mas o mais expressivo será este onde se vê o pintor, o médico, o escultor, na parede o quadro da mulher e, para não esquecer, caído no chão, um retrato do filho ainda pequeno. Nada ali aparece por acaso, até a demonstração da sua simplicidade envergando roupa de um trabalhador, e descalço.



Escreveu centenas ou talvez milhares de textos, conferências, romances, poemas, estudos, crónicas médicas, desenhou e pintou outra imensa quantidade de ex-libris e capas de livros, pintou uma “Última Ceia” que está no Seminário dos Olivais em Lisboa, uma obra prima de profundo respeito pela cultura portuguesa.
Cedo demais, uma doença incurável o alcançou, e ele, sendo médico, apesar de ter procurado tratamento em Londres sabia que tinha os dias contados. A mulher, uma senhor muito bonita e muito culta, chorava. E ele:
­“Porque choras? Quem está doente, quem vai morrer sou eu, e não choro.”
Precisava acabar o quadro “A Senhora do Mar”. Faltavam-lhe as forças para chegar às figuras no alto do quadro. Era a mulher que tinha que lhe segurar os braços! Assim mesmo saiu a obra prima; a Nossa Senhora tem a cara da dona Silvina, sua mulher, ele, humilde, como criança estendendo a mão à Senhora do Mar, demonstração da sua Fé e do amor que uniu o casal, à direita o filho, já homem, o avô com a mão no seu ombro. Acima o pai, à direita o sogro capitão da Marinha Mercante, o tio-avô Arcebispo, e os amigos, os poetas Afonso Lopes Vieira, e Américo Cortez Pinto, os pintores Sousa Lopes, Eduardo Malta, Lino António e Guilherme Filipe, o escultor Luis Fernandes, o músico D. José Paes de Almeida, o contista do mar Loureiro Botas.
As Artes, a Poesia, a Família, os Homens do Mar, a Música e aqueles que mais amou.


Já o fim se aproximava, com incrível velocidade:
“O que eu queria, ao menos, era um pouco mais de tempo, para acabar umas coisitas em que tinha pensado. As mãos, só, e um pouco de força para desenhar!”
Em plena agonia final, mal se podendo mexer, mas consciente e sempre estóico, organizou a sua última exposição que não chegou a ver inaugurada.
Pela última vez que se deitou e não mais conseguiu levantar-se, pedia à mulher que lhe levasse papel e as aguarelas. Não parou. Só quando fechou os olhos.
Deixou infindáveis mensagens, na Medicina e nas Artes, mas creio que estes dois pensamentos, poéticos ajudam a ainda melhor o caracterizar 
“Comido o fruto da árvore vedada,
Por castigo de Deus suo o meu pão;
A minha féria é a hora descansada
Em que o que o Senhor me há-de estender a mão...”

Uma noite, já cama, deitados:
- Estás acordada?
- Estou. Precisas de alguma coisa? Ainda não é hora do remédio.
- Está bem, deixa lá isso. Queres ouvir uma poesia que tenho estado a pensar?
- Quero, mas não dormes? Assim não descansas nada.
- Ouve lá isto, tenho muito tempo para descansar, tenho a Eternidade.

Quando de alma em alvoroço
Com uma etiqueta ao pescoço
A hospedeira o levar
E o Guarda lhe perguntar
P’ra onde é que o menino vai,
Ela dirá pelo menino:
- é o filho do senhor Zézinho Celestino
E vai ter com o pai...

23/09/2019

segunda-feira, 16 de setembro de 2019



O Tangapema

Quase trinta anos em África e vinte no Brasil, onde se refugiara depois das independências das colónias portuguesas, já a bater perto dos noventa, mas ainda cheio de saúde, foi viver parte do ano em Portugal onde um filho conseguira alguns bens, entre eles uma razoável propriedade agrícola, onde construiu uma pequena moradia para os pais, ambos vivos.
De qualquer modo precisavam de alguma privacidade, em vez de se sentirem hóspedes em casa do filho, o que pressupõe sempre alguma cerimónia e consequente desconforto e liberdade.
Que fossem para lá viver ao lado dele, sem preocupações com finanças, pessoal para limpar a casa, etc.. De tudo isso o filho se ocuparia.
A propriedade não muros à volta, nem cerca, como praticamente todas são, mas o lugar era bonito, bons ares, uma serra ao longe que lhes enviava ar fresco durante o verão, horta, árvores de fruta, vinha e olival, belas caminhadas pelo sossego dos campos, onde aqui comia um figo, além umas amoras ou outras delícias, de vez em quando via passar correndo um coelho a quem desejava boa sorte, enfim, um fim de vida que se aproximava com descanso e conforto.
Ninguém se preocupava muito com uns assaltos que alguns agricultores na região tinham já sofrido, normalmente de imigrantes ilegais ou estrangeiros, e a vida continuava sem que se pusessem trancas nas portas.
O velho pai fazia questão de ajudar o filho nas suas fainas agrícolas, dentro das fracas forças que ainda lhe restavam, sobretudo na época de provar o vinho, vivia despreocupado, sem deixar de continuar a devorar livros que lhe ocupavam as horas em que necessitava de se sentar e repousar um pouco.
Levantava-se normalmente cedo, assim como se deitava com as galinhas, ou até com os pintainhos, e preparava sozinho a sua refeição matinal, que se compunha duma fruta e alguma aveia, como os cavalos (!) que lhe diziam, ser muito bom para o trato intestinal. Naquela idade todo o cuidado era pouco.
Um belo dia, ainda o sol não raiava, passando uma leve claridade entre os ramos das oliveiras, vê que lhe entram pela cozinha dois indivíduos, mal encarados, com alguma coisa na mão que não percebeu se se tratava de faca ou pistola, vozes de sotaque estranho, roucas, pensando aterrorizar os que lhes aparecessem pela frente, e logo começam a ameaçar.
- Ó velhote vai buscar o dinheiro e as jóias quando não quebramos isto tudo e deixamos-te as tripas de fora.
Raimundo – o seu nome – só pensou na mulher que habitualmente se levantava mais tarde e na pequenina bisneta que dormia também, e ficou desejoso que ambas dormissem ainda mais. Se alguém podia perder a parada seria somente ele.
Tranquilo respondeu:
- Na minha idade já não há mais jóias nem dinheiro. O mais que vos posso dar é um café da manhã, e fingir que nunca aqui vocês vieram. É bom que aceitem.
Os assaltantes, nervosos.
- Deixa de conversa, ó pá. Vamos revistar a casa. Anda, levanta-te. Nós vamos atrás.
Raimundo não gostou da segunda ameaça. Guardava de recordação, pendurado na porta da cozinha, um “tangapema”, arma que os índios da Amazónia usavam nos rituais ao sacrificar um inimigo. Madeira dura como ferro. E um pouco mais dentro de casa outra “arma” ainda mais perigosa, um “javite” africano, peça antiga de muita estimação, mas... ai de quem leve com ela! Abria-o ao meio.
                                                                   
 Tangapema
Javite


Levantou-se, devagar, virou as costas aos bandidos, e pareceu caminhar para o interior da casa, seguido pelos assaltantes.
Discretamente tira a “arma amazónica” do seu lugar e voltando-se, sempre devagar, para trás, um dos bandidos muito perto, acerta-lhe com o tangapema na cabeça que o prostra logo no chão. O outro fica uns momentos petrificado e não tardou a levar a mesma dose.
Sempre com muita calma, o velhote pega numas tiras de pano e cordas, enquanto os agredidos tentavam acordar, sangrando da cabeça, e amarra os dois, pés e mãos pelas costas, sem largar a arma, não fosse o caso de ter que dar mais uma dose em quem necessitasse.
Para que não aparentassem muita ferida vai buscar um frasco de água oxigenada, limpa-lhes as cabeças e ainda lhe deita um pouco de tintura de iodo! Deve ter ardido, mas era para o bem deles!
Depois, pelo telefone chama a GNR e o filho, este que logo acorre assustado, e fica perplexo ao ver o panorama daquela cozinha.
- Dá uma mão aqui.
Amarram melhor os dois, separados, guardam a arma dos assaltantes - um ameaçador e grande facão - dentro dum saco de plástico para guardar as impressões digitais e, com muito esforço, carregam os dois na mala do carro para depositá-los à entrada da quinta.
Passado um pouco chegam a GNR, vê o quadro, insólito, algemam os estúpidos, vêm os estragos nas cabeças de ambos e convocam o “agressor” para um depoimento, o que este recusa, e encenando, de bengala na mão a mostrar mais velhice.
- Foi você que fez isto ou o seu filho.
-Eu.
- ???!!!
- Sou assaltado em casa e vocês querem que eu vá agora contar a história lá no vosso quartel. Não. Não vou. Já não tenho idade para essas coisas. Venham vocês a minha casa que lá eu conto como tudo se passou.
Ali mesmo deu fez uma descrição do que acontecera, deixando os zelosos guardas desconfiados que fosse um velho a fazer aquilo, além do que deveriam ter deixado os dois onde os amarraram em vez de os levarem para fora.
Mas não quiseram mais conversa, foram embora com as duas prendas.
Passado pouco tempo o “agressor” recebe uma intimação do Tribunal Judicial da Comarca de ... , para  ir depor perante o juiz. Aí teve que ir, acompanhado do filho e da mulher, mas sem advogado.
Por mais incrível que pareça era acusado de ter agredido dois indivíduos!!! Passava de vítima a agressor!
Quando o juiz lhe lê o relatório em que ele era acusado de agressão e de não apresentar evidências do assalto, e pede explicações.
Raimundo, a bater nos noventa anos de vida e muita experiência, assume:
- Doutor juiz, excelência, como se usa dizer no Brasil. Imagino que o senhor, com idade para ser meu neto, não deveria gostar de ver entrar às 7 horas da manhã dois bandidos pela sua casa ameaçando-o até de morte. Olhe, senhor doutor juiz, eu também não gostei. E como vi que eles estavam armados, com um imenso facão que imagino esteja, como prova, na posse deste tribunal, que na altura nem distingui se era faca ou pistola, e vendo que a ameaça se estendia até à minha mulher – que está ali, olhe – e mais a pequenina bisneta, que estava em nossa casa, tive que reagir o mais rápido que a minha idade permitiu.
Sabe senhor doutor juiz, eu vivi em África, muitos anos, desde 1950. Andei por todos os caminhos possíveis, incluindo no tempo da guerra. Nunca fui ameaçado, era sempre muito bem recebido pelas povoações locais. Enfrentei perigos de outra ordem, inclusive nos meus quase vinte anos no Brasil onde são assassinadas mais de cinquenta mil pessoas por ano. Tive por duas vezes revolveres apontados para a minha barriga. Nem um só disparou e um dos assaltantes acabou preso. O outro fugiu. Sempre pensei que, quem sabe, um dia, eu teria que me defender, e fui-me sempre mentalizando para saber como reagir se isso acontecesse. Aconteceu agora. E vou-lhe dizer mais. Só não acabei com a vida desses dois vermes porque respeito muito a vida de quem quer que seja. Até dos meus inimigos. Mas ficar quietinho e deixar que roubem e maltratem a família, ainda hoje eu não consinto. Ver dois delinquentes me ameaçarem e à minha família que estava ainda a dormir... Essa não. Só não entendo, excelência, porque sou eu o acusado, e ficarei muito grato se vossa excelência me explicar.
- Interessante a sua explicação, mas o senhor agrediu duas pessoas, e como as retirou do local do crime, não permitiu que os agentes da autoridade pudessem certificar-se do que se tinha passado.
- Mentira, doutor juiz. Eu defendi a minha vida e a dos meus, e pelo que agora se está a passar eu deveria ter dado mais umas mocadas na cabeça dos dois imprestáveis até que eles entregassem a alma do demo! Só me faltava que fossem eles agora as vítimas. Pode vossa excelência me condenar. Mas creia, deveria ser o maior absurdo jurídico deste país.
Porque os agentes da GNR não foram a minha casa conferir? Veriam o sangue no chão, pelo menos. E eu tirei os bandidos de casa porque não queria que a mulher e a pequenita se levantassem e vissem aquele horrendo espetáculo. E os senhores agentes limitaram-se a algemar os bandidos e foram embora. Ainda lhes disse que fossem lá a casa conferir. Havia sangue no chão. Mas não foram.
O juiz engoliu em seco. Chamou o promotor e um dos guardas da GNR, segredaram entre eles. Ninguém sabia o que dizer ao “réu”. Se estava certo ou errado. Por fim sentenciou:
- Levante-se o réu.
Raimundo ficou sentado.
O juiz repetiu, não viu reação e mandou que o oficial de diligências avisasse o réu, que lhe responde:
- Isto é brincadeira? Eu é que sou o réu?
- É melhor o senhor se levantar quando não pode ser considerado um desrespeito ao tribunal.
- Pois eu não me levanto. Não sou réu. Sou a vítima. Podem até me mandar para a prisão.
O juiz percebeu que tinha perdido a partida, e, voz cordial, pediu então:
- O senhor quer fazer o favor de se levantar?
- Pedindo, assim, com todo o prazer.
Levantou-se
­- Parece que efetivamente há aqui um erro, quando a GNR apresenta queixa pelas lesões sofridas pelos dois meliantes. Assim sendo considero o “réu” não só inocente, como injustamente chamado a este tribunal como réu. Encerrada a sessão.
O tribunal inteiro bateu palmas.
Raimundo não sabe se as palmas foram para ele ou para o juiz.
O tangapema, depois de bem lavado, voltou a ser colocado em local estratégico.

14/09/2019