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segunda-feira, 19 de abril de 2010


MEU  PAI


Para falar de meu pai, JORGE DE LA ROCQUE GOMES DE AMORIM, tenho que começar por seu pai e meu avô Francisco, Gomes de Amorim - o outro avô era também Francisco, mas Frick – que após terminados os seus estudos gerais que lhe teriam permitido ingressar na universidade, face às dificuldades financeiras em que a família vivia – seu pai escritor e quase sempre doente e mais quatro irmãs que naquele tempo não saíam de casa para ir trabalhar – decidiu imigrar para o Brasil. Destino: Santa Maria de Belém do Pará, onde seu pai estivera e deixara amigos, entre ele Agostinho José de Almeida, padrinho do novo imigrante.
No dia em que se despediram, em Lisboa, o pai escreveu-lhe uma carta, bonita. Vale a pena ser lida, não só pelos meus filhos e netos e vindouros, mas por toda a gente, porque encerra uma profunda lição de dignidade. Já foi aqui divulgada em 17.Abril.2009, mas nunca será demais ler essa lição de dignidade e ética.

Meu avô, homem equilibrado e trabalhador, casava, quatorze anos depois da sua chegada, com uma doce criatura, minha avó paraense, Aurélia Da Costa de La Rocque.

Veio o primeiro filho chamou-se Francisco, para continuar a tradição da família, mas ao fim de um mês morria. O clima era difícil e as condições médico sanitárias mais ainda. Veio segundo filho, também Francisco e durou três meses. Os pais ficaram extremamente traumatizados e veio a terceira, filha, Albertina, o nome da sua avó paterna Albertina Teixeira de Melo, que com poucos meses lutava entre a vida e a morte com pneumonias e outras doenças a que os médicos não conseguiam dar solução.

O conselho foi simples: se quer salvar esta filha saia de Belém. Meu avô vendeu o que tinha conseguido juntar e regressou a Portugal. Remédio “santo” já que esta minha tia acabou falecendo nas vésperas de fazer 101 anos!

No ano seguinte nascia em Sintra, com o novo século XX, meu pai, Jorge, que a saúde dos primeiros irmãos, não deixou ser brasileiro, razão porque comecei com a ida do meu avô para o Pará!

Alegre, simpático, formou-se em engenharia silvícola - silvicultura - e desde cedo, o seu bom gosto e extrema sensibilidade, o leva para o planejamento de parques e jardins, sendo nomeado diretor do departamento de Urbanização e Jardinagem da Câmara de Lisboa.

Vivia-se na Europa, nos anos 30, sob a ameaça da expansão do comunismo que, poucos antes provocara a revolução russa. A Espanha estava dividida e logo entrava numa horrorosa guerra civil que dizimou um milhão de irmãos, e Portugal, se o comunismo se instalasse no país vizinho, não teria como escapar de igual sorte.

A ditadura, com Salazar, habituada a perseguições de caráter político e religioso que vinham desde há mais de um século, usava de todos os meios para impedir que isso acontecesse, e entre as medidas tomadas criou uma força paramilitar para atuar em caso da possibilidade da revolução vermelha atingir o país, que se chamou “Legião Portuguesa”, e para a qual entraram, voluntariamente, todos os portugueses que não queriam ver o seu país submetido à violência daquilo a que eufemisticamente se passou a chamar democracia popular, e que não foi mais do que uma violentissima ditadura, haja em vista os muitos milhões que Stalin e Mao Tse Tung assassinaram para impor um regime, que, por antinatural, acabou ruindo.

Meu pai entrou para a Legião, hoje vista em Portugal quase como algo fantasmagórico, brutal, inadmissível! E foi seu entusiasta, porque entendia ele, e muito bem, que se o país corria perigo, todos, todos, teriam que dar o seu contributo para o defender. Naquele tempo, e é necessário que se compreendam sempre “aqueles tempos” com os olhos “daquele tempo” e não com os de hoje, a Legião Portuguesa poderia ter sido chamada a operar como mais tarde trabalharam os membros da Resistência Francesa, contra um invasor, um inimigo. Não foi necessário, felizmente.

Naquela época, que eu ainda apanhei um período longo, todos vivemos sob a ditadura e não para a ditadura. Ainda mais os técnicos!

Entretanto remodelava os jardins de Lisboa, arborizava as ruas e a capital do país ia aparecendo cada vez mais bonita e arrumada.

Um dia, os setes filhos nascidos, morávamos ainda no segundo andar dum prédio na rua Almeida Brandão, à Estrêla, vésperas de Natal, um homem tocou à porta. Homem simples, trabalhador de enxada, a quem meu pai tinha conseguido emprego como jardineiro da Câmara. Roupinha lavada, grande perú vivo debaixo do braço, atraíu a meninada toda para a entrada da casa. Não que um perú fosse novidade, mas um perú, vivinho, “para nós brincarmos” num segundo andar... era um presentão!

Nosso pai apareceu também à porta. Recebeu o simpático aperto daquela mão calejada do trabalho e com o sorriso amável que era parte do seu ser, devolveu o perú ao pobre homem, contra a vontade da infantil assistência que já se antevia em correrias atrás do bichinho pela casa fora.

O homem insistiu. Que era uma lembracinha, que ele mesmo criara o perú, etc.. Não. O perú foi de volta, e não foi necessário explicar aos filhos aquela atitude, que no fundo, todos nós respeitámos e ainda hoje não esquecemos.

Ainda lembro de um dia 21 de Outubro, data da conquista de Lisboa aos mouros, estávamos talvez em 1941. O nosso pai entra em casa, chama os três (ou quatro?) filhos mais velhos, meus irmãos Luis com 12 anos, Helena com 11 e eu quase nos 10. Trazia umas moedas “lindas”, novinhas em folha, rebrilhando, de 2$50 cada. Vinte e cinco tostões, ou antes, “vintecincostões”. Para “comemorar” essa data, ao mais velho deu quatro moedas, a minha irmã duas e a mim... uma só, o que achei uma “injustiça” tanto mais que eu era “homem” e levara menos que minha irmã! E ainda recomendou que não gastássemos tudo de uma vez! Foi o que eu fiz, claro. Naquela mesma tarde comprei um chocolate e... pronto! Naquela tarde, sim, por nesse tempo todos tínhamos aulas de manhã e de tarde. No que respeita a educação e escolas, públicas, esses eram, sim, bons tempos.

Com a idéia de comemorar os oitocentos da independência do país e trezentos da libertação da tutela de Espanha, o governo decidiu promover um grande evento, em 1940, a “Exposição do Mundo Português”, tal como hoje se fazem as Expo´s por esse mundo fora.
A II Guerra Mundial rebenta um ano antes, impedindo que essa Exposição tivesse a repercussão que se esperava. Assim mesmo foi um enorme sucesso. Toda a decoração de plantas e jardins ficou a cargo do Eng. Jorge Amorim, que no final, pelo conjunto do seu trabalho aqui e em toda a cidade, foi agraciado com o grau de oficial da Ordem Militar de Cristo.


Reestruturavam-se também sob o comando do maior ministro que Portugal já teve, não o Marquês de Pombal, que fez obra mas enriqueceu e apropriou-se indebitamente de imensissimos bens, juntando uma das maiores fortunas do país, mas o Eng. Duarte Pacheco, o único homem público cuja visão se pode comparar ao também grande rei Dom Diniz. Reestruturavam-se os arredores de Lisboa, e com isto a transformação de morros desertos em parques florestais, como Monsanto. O projeto foi do arquiteto Continelli Telmo e a florestação a cargo de meu pai. Lisboa tem hoje uma cintura verde que, poucos sabem, mas foi começada a plantar em 1938. Sob proposta deste ministro meu pai foi também agraciado com a comenda da Ordem Militar de Santiago da Espada.

Quando ingressou na Câmara de Lisboa era o Eng. Duarte Pacheco o seu Presidente. Foi fácil o entendimento entre dois homens que se respeitavam e nunca deixaram de trabalhar juntos.

Por isso, em Novembro de 1943, lá foram juntos a Vila Viçosa, 150 quilometros de Lisboa, onde se estava a restaurar o Palácio dos Duques de Bragança. No regresso, atrasado como sempre para os seus compromissos, e desta vez para uma reunião de Conselho de Ministros, o carro que os transportava corria, tempo de chuvinha miúda, derrapou, saiu fora da estrada e no acidente morreram ambos.

Não pôde meu pai gozar de todo um trabalho profundo e até original que desenvolvera. Nem os filhos. Muito menos estes puderam aprender com ele. Com 43 anos deixou viúva e sete filhos, o mais novo com apenas ano e meio de idade.

Mas deixou muito mais do que isso: um sentido de respeito, bondade, dignidade e equilíbrio que acabou por nos ajudar a pautar a nossa conduta.



28/05/03

sábado, 18 de março de 2017



19 de Março
Desde que nasci, o dia dos Pais. Dia de São José

Um hino maravilhoso, ao Pai.
Do GRANDE, GRANDE e humilde, por ser GRANDE,
José Craveirinha

AO MEU BELO PAI EX-EMIGRANTE

Pai:
As maternas palavras de signos
Vivem e revivem no meu sangue
E pacientes esperam ainda a época da colheita
Enquanto soltas já são as tuas sentimentais
Sementes de emigrante português
Espezinhadas no passo de marcha
Das patrulhas de sovacos suando
As coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
Sinceridade filial não esqueço
Meu antigo português puro
Que me geraste no ventre de uma tombasana
Eu mais um novo moçambicano
Semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
E seminegro para jamais renegar
Um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

E agora
Para além do meu antigo amigo Jimmy Durante a cantar
E a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha
Subconsciência dos porquês de Buster Keaton sorumbático
Achando que não valia a pena fazer cara alegre
E um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa
Ante os meus sócios Bucha e Estica no 'écran' todo branco
E para sempre no zinco um tap-tap de cacimba no chão
A minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene
Enquanto tua voz serena profecia paternal: - «Zé:
Quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém.»

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
Do luso-arábico Aljezur da tua infância
Mas amar por amor só amo
E somente posso e devo amar
Esta minha bela e única nação do Mundo
Onde minha Mãe nasceu e me gerou
E contigo comungou a terra, meu Pai.
E onde ibéricas heranças de fados e broas
Se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
E teu sangue se moçambicanizou nos torrões
Da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital
Colono tão pobre como desembarcaste em África
Meu belo Pai ex-português.

Pai:
O Zé de cabelos crespos e aloirados
Não sei como ou antes por tua culpa
O «Trinta-diabos» de joelhos esfolados nos mergulhos
À Zamora nas balizas dos estádios descampados
Avançado-centro de «bicicleta» à Leónidas no capim
Mortífera pontaria de fisga na guerra aos galagalas
Embasbacado com as proezas dos leões do Circo Pagel
Nódoas de caju na camisa e nos calções de caqui
Campeão de corridas no xitututo Harley Davidson
Os fundilhos dos calções avermelhados nos montes
Do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores
Para salvar a rapariga Maureen O'Sulivan das mandíbulas
Afiadas dos jacarés do filme de Tarzan Weissemuller
Os bolsos cheios de tingolé da praia
As viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã
Do carro eléctrico e as mangas verdes com sal
Sou eu, Pai, o «Cascabulho» para ti
O Santinho para minha Mãe
Todo maluco de medo das visões alucinantes
De Lon Chaney com muitas caras.

Pai:
Ainda me lembro do teu olhar
E mais humano o tenho agora na lucidez da saudade
Ou teus versos de improviso em loas à vida escuto
E também lágrimas na demência dos silêncios
Em tuas pálpebras revejo nitidamente
Eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos
Dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura
Na dimensão desmedida do meu amor por ti
Meu belo algarvio bem moçambicano!

E choro-te
Chorando-me mais agora que te conheço
A ti, meu Pai, vinte e sete anos e três meses depois
Dos carros na lenta procissão do nosso funeral
Mas só Tu no caixão de funcionário aposentado
Nos limites da vida
E na íris do meu olhar o teu lívido rosto
Ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus
E na minha cabeça de mulatinho os últimos
Afagos da tua mão trémula mas decidida sinto
Naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central.
E revejo os teus longos desejos no dirlim-dirlim da guitarra
Ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza
E nas abafadas noites dos nossos índicos verões
Tua voz greve recitando Guerra Junqueiro ou Antero
E eu ainda Ricardito, Douglas Fairbanks e Tom Mix
Todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan analfabeto
E de tanga na casa de madeira-e-zinco
Da estrada do Zichacha onde eu nasci.

Pai:
Afinal tu e minha Mãe não morreram ainda bem
Mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios
O Tarzan agente inglês disfarçado em África
E a Shirley Temple de sofismas nas covinhas da face
E eu também é que mudámos.
E alinhavadas palavras como se fossem versos
Bandos de sécuas ávidas sangrando grãos de sol
No tropical silo de raivas eu deixo nesta canção
Para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços
Agitados nas manhãs de bronze
Chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias
Almas esguias hastes espetadas nas margens das húmidas
Ancas sinuosas dos rios.

E nestes versos te escrevo, meu Pai
Por enquanto escondidos teus póstumos projectos
Mais belos no silêncio e mais fortes na espera
Porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
Ronga-ibérico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza afro-algarvia
Quase revelada nesta carta elegia para ti
Meu resgatado primeiro ex-português
Número UM Craveirinha moçambicano.

JOSÉ CRAVEIRINHA


GLOSSÁRIO XI-RONGA-PORTUGUÊS

GÃ-GALHÃ-GALHÃ - Som onomatopaico dos rodados do carro-eléctrico nos carris.
SÉCUA - Pato; ganso.
TINGOLÉ - Pequeno fruto vermelho, saboroso e farináceo.
TOMBASANA - Rapariga solteira.
ZAMBEZE - Grande rio moçambicano que desagua no Índico.
XITUTUTO - Motocicleta. Onomatopeia do trabalhar da moto.

ZICHACHA - Zilhalha, régulo dos tempos da "pacificação" militar, considerado pels autoridades coloniais como rebelde.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018


Amigos – 16


Em todas as famílias há tios e primos de quem mais gostamos, outros indiferentes como já escrevi. . Hoje “vou aos tios” e até a um primo direito do meu pai.
De todos os tios, quem sempre levou a palma das nossas preferências, quem sempre estava alegre – às vezes com alegria... um tanto enológica – mas sempre um encanto.
Casado com uma irmã do meu pai, não teve filhos, bastante gordo, chegando a pesar 140 quilos, bebia o seu copo, aliás bastantes copos, mas foi o único, para conosco, que após ficarmos sem pai, fomos uma espécie de sobrepeso incómodo para a família, mas ele arranjava sempre uma maneira de nos dar algum dinheirinho, da maneira mais simpática que se pode imaginar.
Aos domingos, quando almoçava toda a família em casa dos avós, assim que ele chagava perguntava:
“Quem pode ir comprar cigarros para mim?” – Em geral ia eu, ou o mais velho dos irmãos, que pouco depois nos deixava também.
Dava-nos ou 10 ou 20 escudos para comprarmos um maço de “Navy Players” que custaria uns 3 ou 4 e o troco era a “nossa fortuna por uns dias.
Eu teria os meus 10 anos fez-me sócio do Belenenses, como ele era, a quem se referia como o “nosso belenensezinho”!
Era sócio, mesmo minoritário, de uma grande empresa de navegação e ao mesmo tempo representante da Peugeot em Portugal (estamos a falar dos anos quarenta!), e o seu trabalho era na estiva, o que o levava diariamente a bordo dos navios que aportavam em Lisboa, quer para carga como para descarga.
Isso dava-lhe a possibilidade de comprar a bordo umas garrafinhas de whisky ou gin por preços baixíssimos, bem como outras coisas que faziam as delícias das senhoras, porque eram sempre novidade.
Um dia trouxe de bordo uma das primeiras manifestações de “futuro” a que eu assisti, e de que já falei: um belo rádio que trabalhava a pilhas!
Com a representação da Peugeot dava-lhe para trocar o carro com alguma frequência e, como naquele tempo a mecânica ainda estava caminhando devagar, volta e meia o carro tinha as suas manias e parava no caminho. Sobretudo entre Sintra e Lisboa, onde sempre passávamos os verões.
O tio, sereno, encostava o carro na berma, abria o capô, olhava para dentro e dizia com ar entendido: “Deve ser alguma coisa! O melhor é chamar o mecânico!” E ali ficávamos na estrada à espera que alguém passasse e fosse chamar o dito mecânico!
Sempre tranquilo, num fim de semana, já noite, íamos a caminho da Praia Grande, onde tinham construído a segunda casa de fim de semana, onde hoje existem prédios. Seguíamos por uma reta a caminho de Colares, tio e tia na frente, eu atrás, mas distraído não reparou que levava os faróis altos, quando um carro vindo de frente encostou porque estava com a luz nos olhos. Ao passarmos por ele, o indivíduo, casca grossa, berrou: “Ó seu cabrão, olhe os faróis!”
Sem se perturbar vira-se para mim e diz: “Ó Chico! Se calhar não baixei os faróis!” É evidente que me fartei de rir.
Mais tarde, já em 1953 era eu que tinha o meu magnífico Triumph Gloria, 1934. Velhotinho, mas uma delícia. A lubrificação da cabeça do motor era feita por um tubo, externo, e um dia de tanto se lhe mexer o dito tubo começou a pingar, pouco, mas por azar em cima do coletor de escape, o que levava a fumaça para dentro do carro.
O magnífico Triumph !


O tio, que sempre saía de casa muito bem lavado, penteado e vestido, levava com aquele fumo todo na cara e só dizia: “Ó Chico! Este carro é ótimo!”
Uma pessoa que todos adorávamos. Já passados os setenta anos teve um grave problema e foi-lhe amputada uma perna. Perdeu o gosto da vida. E acabou indo embora sempre a sofrer.
Meu muito querido tio Chico, Francisco Xavier de Albuquerque d’Orey. Um dia vou chegar mais perto para lhe dizer o quanto, ainda hoje sentimos a sua falta.

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A propósito, lembro bem dum irmão deste tio, que já nada era à nossa família, mas que nós tratávamos como tio. Baixinho, igualmente simpático e tranquilo, agrónomo, foi Director do Museu do Ultramar (em Belém).
Um dia apareceu em Angola numa missão técnica que se chamou Missão do Bem-Estar Rural, dedicada ao desenvolvimento da agricultura tradicional de Angola.
É evidente que foi uma alegria tê-lo recebido em Luanda, onde sempre que podíamos, o tínhamos a jantar conosco. Alegre, ótima companhia, decidimos passar a chama-lo de o Tio do Bem-Estar!
Algum tempo depois fomos nós a Portugal e ele fez questão de nos retribuir com um jantar em sua casa, como toda a simpatia que já conhecíamos. Nós éramos os principais convidados, mas ele convidou também um amigo, gente MUITO importante, professor de direito, que foi colocado na nossa mesa.
Falámos sobre Angola, onde nós muito gostávamos de viver, e a certa altura sexa do alto da sua cátedra, teve o desplante de dizer que África era uma... nem digo o quê, e outras coisas parecidas o que muito me chocou, e não deixei depois de comunicar ao anfitrião que, coitado, ficou bastante desolado.
Qual não é o meu imenso espanto quando soube, pouco tempo depois que o sobredito sexa tinha sido nomeado ministro do Ultramar!
Bramei aos céus! Como era possível que um indivíduo que não gostava de África tinha sido nomeado para aquele cargo. Não digo o nome dele. Que descanse em paz... se puder.
Estas e outras para a história de Angola.
Mas lembro com ternura e saudade o tio do Bem-Estar Rural, José Diogo de Albuquerque d’Orey.

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Agora o único irmão homem do meu pai mais novo cinco anos.
Sempre gostou de andar na farra, copos, confusões, algumas idas à polícia por copos ou briguinhas, sem consequências de maior, entrou em medicina e levou tempo a de lá sair. A farra ocupava-lhe muito tempo.
Mas acabou por de lá sair. Casou e foi como médico para a Companhia dos Diamantes de Angola. Médico generalista.
Um dia um capataz deu um tapa na cara de um trabalhador, durante a chamada das presenças, de manhã, e o homem caiu morto! Um problemão. Entrou a polícia, não havia médico legista e ele com outro colega tiveram que fazer a autópsia ao desgraçado para que o capataz não fosse condenado por assassinato. Por estupidez e abuso de autoridade, sim.
Retalharam, durante horas o corpo do defunto, suavam os médicos sem descobrirem a causa mortis. Quando finalmente chegam perto da cabeça encontraram o problema: o infeliz tinha uma das cervicais... “solta”! (o termo técnico será outro, mas...)
Entretanto o tio lembrou-se de fazer alguns comentários pouco abonatórios aos serviços médicos, o que lhe valeu, não lhe renovarem o contrato, que aliás era bem pago.
Como teve a infelicidade de lhe verem lá nascer duas filhas gémeas que não sobreviveram, não se incomodou muito por regressar a Portugal.
E foi trabalhar com o pai, e o irmão, numa fábrica de medicamentos de um “génio” em química; a primeira coisa que fez foi implicar com ele, que se foi embora e a fábrica fechou. Para nossa alegria porque cada vez que a fábrica fazia um medicamento novo, nós, crianças servíamos muito de cobaias.
Morre o seu irmão, meu pai, e o pai deles, já velhote, que comandava a empresa Estabelecimentos Herold, entrega-lhe a administração do departamento agrícola: máquinas, cortiça e produtos químicos.
Teimoso que nem porta empenada e enferrujada, lá foi levando as máquinas agrícolas com algum entusiasmo, sobretudo quando apareceram as ceifeiras-debulhadoras, que no Brasil se chamam colheitadeiras, e que apareceram em Portugal primeiro que qualquer concorrente, por seu intermédio.
Mas entretanto 0 Herold estava sem mais cabeças dirigentes e foi perdendo grande parte do deu património: fábrica de tratamento de cortiças, fábricas de adubos, equipamentos industriais e outros, o que acabou levando a firma a uma difícil situação financeira.
Foi lá que eu comecei a minha vida profissional, mesmo enquanto estudava e cumpria o serviço militar, aproveitando todos os feriados, férias e muitos fins de semana, para trabalhar e assim ter um troco para me movimentar.
Não levou muito tempo em que o relacionamento com este tio se deteriorasse. Teimoso, não admitia discussões, mesmo técnicas, nem sugestões, e assim acabei, dentro da mesma empresa, sócio também, por não ter diálogo com ele. Zanga que praticamente todas as tias acompanharam, tomando o partido do irmão! Foi pena.
Dali sai, casei, fui para Angola, e o Herold, quase falido, foi vendido.
Passaram-se uns dez ou mais anos em que praticamente não tivemos contato, nem com seus filhos, meus primos direitos, sem que deixasse de ter notícias que os meus irmãos me mandavam.
Ficou sem trabalho, mas um amigo influente conseguiu nomeá-lo administrador duma grande companhia, com direito a bom carro, motorista e outras mordomias, e foi também levado a fazer um Curso de Cristandade. Mudou a cabeça, esqueceu a nossa briga, como eu sempre procurara fazer, e numa altura que fui a Lisboa, ele fez questão de me ir esperar ao aeroporto.
E foi dessa vez que me levou direto ao Cartaxo, como lhe pedi, porque ia cheio de saudades de beber um bom “copo de 3” do tradicional tinto daquela região!
E nos poucos dias que passei em Lisboa sempre procurou me acompanhar, e o nosso entendimento estava perfeito. A certa altura, ainda com uns resquícios de teórica autoridade, lembrou-se de comentar uma atitude (infeliz) de uma das minhas irmãs.
Não gostei, e disse-lhe: “Tio! Não acredito que queira atirar a primeira pedra. Agora que ela precisa, mais do que nunca do apoio da família!”
Lembro bem. Comoveu-se. E respondeu-me que estava errado e que eu lhe havia dado uma lição.
“Não dei lição nenhuma. Nós os dois que tivemos os nossos desentendimentos, conhecemo-nos muito bem, e eu sei que não era sua intenção ferir alguém!”
Demos um forte abraço e mantivemos depois, até ao fim um estreito entendimento. Mas deixou-nos cedo, o tio Alberto de La Rocque Gomes de Amorim 


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Só mais umas breves palavras sobre um primo direito do meu pai, a quem chamávamos também de tio.
Oficial da marinha, muito novo participou na I Guerra Mundial, piloto-aviador, fez parte da sua vida por Moçambique onde por três vezes foi Capitão do Porto da Beira. Terminou a carreira como Diretor do Arquivo da Marinha e no posto de Capitão de Mar e Guerra.
Simpático casal, lembro bem dele, cara de Capitão, mas sempre sorridente e amável, com cinco filhos das nossas idades, foi também um escritor das coisas do mar, com dois livros interessantes, ainda hoje consultados:
- Estaleiros Navais, em 2 volumes e um manuscrito inédito;
- História do Navio “Gil Eanes”, o navio hospital que acompanhava os lugres que iam para a Terra-Nova à pesca da bacalhau;
- O Nome de Lisboa nos Navios, um interessante opúsculo, assim como
- O Nome da Guiné nos Navios.
Chamou-se Carlos Gomes de Amorim Loureiro, e hoje a amizade com a descendência continua muito grande. 



4-dez-18



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016



Pai Nosso!


Rezar? Para que? “Senhor, vê se me safas que estou metido numa enrascada! ”
Negociar com o Senhor, é uma vergonha, falta de fé, vigarice.
Mas em vez de rezar, porque não simplesmente meditar? Sempre. Depois do carnaval talvez ainda “mais sempre.”

“Pai Nosso”. Para os crentes – e para os outros! – o primeiro Pai foi o Criador, portanto o Pai de tudo quanto existe, aqui e em todo o Universo. Por muito que a ciência brame, ou tente explicar por fórmulas mágicas de química e física, sem Pai não há filhos!
Se meditarmos, e pensarmos no Pai Nosso, não podemos, jamais, esquecer o outro Pai, o da terra, que nos deu a vida, e o nome. Sem ele não estaríamos por aqui. E só tomamos conhecimento da falta que nos faz quando já não o temos ao nosso lado.
Espera de teus filhos o mesmo que fizeste a teus pais.
Thales de Mileto

“Que estais no céu”. Em qualquer lugar haverá um céu. Eterno e até etimologicamente etéreo. Do mesmo modo para os crentes e não crentes. Lá estará o Criador e, no meu caso e de muitos, o pai terreno. Lado a lado. Sem pressa, nem tempo, porque na eternidade não há tempo. Haverá quando muito o “agora” que não tem princípio nem fim. O sempre. O momento de Paz eterna.

“Santificado seja o Teu nome. Tem que ser. Alguém pode conceber um Pai, Criador que não seja para além de santo? Mesmo sabendo que ele criou os homens e os deixa andarem por aí cometendo as maiores violências, loucuras, muitas vezes usando o seu Santo Nome? Evidente. Destes-lhes o maior dom que Te era possível: a liberdade. Só que os homens não sabem o que fazer com a liberdade. Um dia, talvez, venham a saber. E santificado seja também o nosso pai terreno, mesmo que para alguns não tenha sido o pai ideal. Não foi culpa dele. Alguma coisa lhe faltou na vida para que fosse mais perfeito.
Caminhou nesta terra, sofreu, como todos nós e, com certeza fez o melhor que pôde ou soube.

“Venha a nós o Teu Reino. ” É pedir muito! Querermos aqui na terra, com todos os defeitos que nos são inerentes, um reino celestial, cheio de paz e amor. Bem houve quem nos veio indicar o Caminho, a Verdade e a Vida, com palavras simples que muitos “mestres” têm procurado estudar, interpretar, traduzir e complicar: “Amai-vos uns aos outros! ” Precisa de explicação, de filósofos e/ou teólogos para nos explicarem que temos que nos amarmos? O nosso pai terreno não nos ensinou isso também? Que todos somos uma família e que é “feio” os filhos se zangarem uns com os outros? Zangam-se mais e discutem mais aqueles que, em teoria, deviam somente pregar a simplicidade desta mensagem, que sem dúvida é a única Verdade.
Averróis (Ibn Rushd, Córdova 1126 – Marraquexe 1198) grande figura do conhecimento, filósofo, médico, cadi, muçulmano, recomenda aos dirigentes que condenem as obras dos teólogos por trazerem em si o germe da dissidência e possibilitam todo o tipo de seitas que precipitariam a sociedade no abismo das guerras civis.

“Seja feita a Tua vontade. A vontade do Pai será ver os filhos divididos? Uns podres de ricos e muito perto de metade da população da terra a viver em condições sub-humanas? Outros a fabricarem e venderem armamento para que se matem uns aos outros? A Tua vontade, Pai Criador, poucos, poucos, raros, procuram vivenciá-la, mas a maioria, infelizmente, tapa os ouvidos e os olhos e quer desconhecê-la, negá-la. A Tua Vontade é tão simples! Basta muitas vezes um sorriso, um abraço. Um pão que se dá. E a vontade do meu pai terreno? Será que todos os seus descendentes se esforçam por fazer essa Vontade?

“Assim na terra, como nos céus. ” Se aqui fosse como nos céus, estaríamos no próprio céu, mas todos sabemos que “isto, aqui em baixo” é um verdadeiro inferno.  Tanto que, quando alguém deixa a terra, o que se diz é que esse alguém “finalmente encontrou a paz”. É triste. Podíamos encontrar a paz enquanto por aqui andássemos. O Céu é diferente para cada um. Uma jovem, cega de treze anos pesava treze quilos quando foi recolhida por um padre da Casa do Gaiato. Não conseguia andar. Tempo depois alguém lhe perguntou como seria o Céu para ela; “O Céu – respondeu – deve ser assim como um café bem quentinho! ” Que beleza tem a gente simples e pobre. Não pensam num céu cheio de luxo.

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje. ” Que pão? Aquele que falta a bilhões de irmãos, que morrem de fome? Ou o pão celestial, o alimento da alma, do espírito, o que nos permitiria suprir com o pão terreno àqueles que tanto necessitam e não conseguem obtê-lo? Que pão estamos a pedir quando nos atrevemos a pronunciar esta frase? Será que quando pedimos para nós, conseguimos pensar que dez por cento da população mundial é a quantidade de deficientes de toda a espécie: cegos, surdos, aleijados, deficientes de nascença? Queremos o pão para nós ou para o ir levar a quem não consegue obtê-lo por seus próprios meios? Talvez aqueles noventa milhões de toneladas de alimento que a Europa joga no lixo durante o ano? Quantos poderiam deixar de ter fome com noventa milhões de toneladas de alimentos?
Dai primeiro o pão a quem tem fome,
Mas não esqueças de lhe dar a mão.

“Perdoai as nossas ofensas. ” Porque nos haveis de perdoar, se ao magoar o Outro estávamos conscientes da ofensa? Tu, Pai Criador, jamais nos ofendeste! Pedimos-Te perdão porque somos covardes, temos medo do futuro incógnito, daquilo a que chamam inferno. Temos medo. Até do Outro temos medo. E porque temos medo é que ofendemos e maltratamos o nosso semelhante, e criamos máquinas mortíferas. É o medo, e por isso somos covardes, fingindo que somos fortes com as nossas ofensa, maus tratos e promoção de desigualdades. As desigualdades sociais como o racismo vêm do medo que as classes de cima têm que dia, os “desclassificados”, se juntem e lhes vão pedir contas. Serás capaz de nos perdoares, Pai?
Porque los pobres no tienen
adonde volver la vista,
la vuelven hacia los cielos
con la esperanza infinita
de encontrar lo que a su hermano
en este mundo le quitan
Violeta Parra – Porque los pobres non tienen

“Assim como nós perdoamos a quem nos ofendeu. ” Mesmo nestas condições, se formos capazes de perdoar aos outros, porque nos hás de perdoar? Primeiro temos que ir pedir perdão a quem ofendemos ou maltratámos, e receber do Outro o perdão, generoso. Então, se o ofendido, aqui na terra, sinceramente nos perdoar, então o Pai poderá, talvez nos perdoar também. Talvez.
Perdoa muitas vezes aos outros, nunca a ti próprio.

“Não nos deixeis cair em tentações. ” Difícil, Pai. Somos fracos e covardes. Tanta coisa à nossa volta para nos fazer cair. Riqueza, poder, glória, sexo, corrupção, desprezo pelo mais fraco, tanta coisa! E será suficiente nos ajoelhamos para pedir perdão? É fácil pedir-te perdão a Ti, Pai. Mas... ajoelhar primeiro para afastar a tentação e depois agradecer-Te porque afinal nos ajudaste a vencer a nossa miserável fraqueza, isso sim. Depois de termos caído em qualquer tentação, abusado do Outro ou da Natureza, é fazer jogo de vigarista.

“E livrai-nos do mal.”  Tens que ser Tu, Pai, a livrar-nos do mal. Nós não somos capazes de viver longe do mal. O mal é tudo o que o nosso ego procura, o que parece dar prazer à vida material. Tal como qualquer pai terreno que está sempre atento para evitar que seus filhos caiam no mal, na maldade.
Pedimos-Te para nos livrares do mal, de todo o mal. É fácil, pedir. Mas o que Te damos em troca? Cuidamos do Outro, da Natureza, de tudo quanto é Belo e foste Tu que criaste? A luz o Sol, todas as criaturas e plantas, toda a maravilha que é a Natureza que nos ofereceste e que estamos a destruir? Esse mal ainda é congénito. Pode ser que um dia...

Pai! Livra-nos do mal.


03/02/2016

domingo, 28 de outubro de 2018


Amigos – 14

Afinal o que é um amigo? Tem uma definição magnífica de Vinícius de Moraes, muito divulgada, e uma simples que diz que “o amigo é quem está contigo, quer estejas rico ou pobre. Mais ainda se estiveres pobre ou doente”.
Estes de quem vou lembrar hoje, teria, um, talvez mais de cento e cinqüenta anos; o outro cento e vinte e um.
Um com a idade do meu avô, outro do meu pai.
Teria eu poucos anos, muito poucos, aí três ou quatro e, quando chegava o verão, uma alergia extremamente incómoda, atacava-me as curvas dos braços e pernas, o que me dava uma tremenda coceira, que acabavam feridas. Para evitar que me coçasse ligavam-me as mãos, formando uma espécie de luvas, e o tratamento, era com um líquido pastoso (creio que uma mistura de oxido de zinco, ácido bórico, enxofre coloidal e talco ???) com que me pincelavam com uma brocha de pintar paredes. Punham-me nu em cima de uma mesa e vá de fazer a criança sofrer! Ardia p’ra caramba!
Secava um pouco as feridas, mas só passava esta maleita quando o verão chegava ao fim.
Os meus pais lá encontraram um médico, que na altura teria talvez uns sessenta anos (isto é bem chutado, mas era bem mais velho do que o meu pai) que passou a cuidar de mim.
Casado, pai de dois filhos já homens, independentes, fora de casa, sem netos, ao fim de algum tempo, mesmo sem me ir visitar como médico, passava lá em casa e pedia aos meus pais que o deixassem levar-me para dormir lá em casa dele. Lá ia, ele e a mulher, de quem não me lembro, tratavam-me como neto, cheio de  atenções e mimos, e no dia seguinte quando saía para o consultório, deixava-me em casa.
Numa dessas vezes parou no caminho, numa loja de brinquedos e comprou talvez um carrinho para me dar. Enquanto ele dentro da loja fazia o pagamento, eu esperava na porta, onde havia um monte de outros brinquedos, coisa pequena, mesmo à mão. Eu era o terceiro filho, e achei que se ele me dava um brinquedo eu poderia muito bem levar alguns mais para os meus irmãos, e passei a mão em dois ou três, certamente com o ar de inocência que essa idade permite, sem sequer os ter escondido.
Entrámos no carro, um belo e grande Renault, deixou-me em casa e à tarde telefonou à minha mãe para perguntar quantos brinquedos eu tinha levado.
-Três ou quatro. Porquê? – O dono da loja disse que eu lhe devia um dinheiro, porque o menino tinha levado mais uns brinquedos!
Quando me perguntaram eu respondi que peguei um para cada irmão. Nada mais simples.
Como é evidente ninguém se zangou comigo, o médico achou a maior graça e foi lá pagar a imensa dívida.
Quando uns bons anos depois fui ao Porto, talvez em 1950, a primeira pessoa que quis visitar foi o meu velho amigo e médico, desta vez ao seu consultório na Avenida dos Aliados. Estava velhote e muito zangado com a Renault, porque toda a sua vida só tivera carros desta marca e por último um lindo Viva Sport, mas que já velho tivera que trocar.


Acontece que a Renault, com a guerra, só voltou a fabricar automóveis em 1944, mas fazendo um carrinho minúsculo, aliás ótimo, o 4CV, que não servia para um senhor que teria talvez oitenta anos, e era um homem alto. A Renault não o deixou comprar um carro de outra marca. Enquanto não saiu o novo Fregate, só no fim de 1951, o representante do Porto pôs às ordens dele um carro seu, grande e confortável.
Foi a última que o vi e depois nada mais soube deste senhor, de quem até hoje, guardo na memória a sua simpatia e ternura.
Chamou-se Dr. Vasco Nogueira de Oliveira, e acreditem ou não, ainda hoje me lembro onde ele morava: na Estrada da Circunvalação, e nós na Rua Faria Guimarães!
Descanse em paz, querido amigo. Não tarda que nos voltemos a encontrar!
E eu prometo que não vou “roubar” mais brinquedos.
Esta coisa de memórias de amigos é como quem come pinhões, dumas coisas passa-se a outras.
Já em Lisboa, 1937, tínhamos uma empregada “ótima”, alta, desembaraçada, que se chamava Conceição. Era ela que me pincelava, e eu chorava com a ardência do tratamento. Estava ela um dia a torturar-me quando a minha mãe entra no quarto e vê a sobredita a enfiar-me aquele imenso pincel na boca quando eu chorava!
Mamãe não era para brincadeiras! Deu umas bem assentes chapadas na besta e correu com ela porta fora!
A minha alergia de criança só passou, teria eu uns catorze anos, e até lá em todos os verões era a mesma farra de me pincelarem.
Foi um médico em Sintra que sugeriu fazer um “auto-sangue”: tirar da veia e introduzir intramuscular. Mas foi avisando: essa alergia deve passar, mas outra vai aparecer. Apareceu: a febre dos fenos! Não lembro quantas sessões fiz, acabou a coceira, mas até hoje, só em Portugal, quando chega Maio e Junho, espirro que nem um bode. Nos trópicos...nada.

§          §          §          §

Este outro amigo, que nasceu em Copenhague em 1897, e de quem já referi, muito de passagem no texto Amigos 11, conheci-o em situação professional, e de maneira curiosa.
Apareceu-me um dia na firma Herold, onde eu trabalhava, para apresentar uma série de máquinas agrícola, de pequeno porte e uns quantos aparelhos para uso em laboratórios de controle de sementes e outras agronomices, que me pareceram interessantes, e iriam preencher uma faixa de equipamentos em falta em Portugal para o pequeno agricultor e para laboratórios simples, que muito foram, depois, ajudar os técnicos espalhados pelo país.
A história deste homem, bem alto e forte, na altura nos sessenta anos, filho de um dos maiores engenheiros e empreendedores dinamarqueses, sócio da maior empresa mundial de cimentos, e de engenharia é muito interessante,
Sempre sorridente, bem disposto, alegre, disse-me que não trabalhava na empresa que o pai deixara ao falecer, porque não entendia nada daquilo e então “eles lhe pagavam para ele não ir lá”! O irmão mais velho era o presidente do grupo.
Engenheiro civil, trabalhou com seu pai na FL Smidth até este falecer em 1925, depois foi como autónomo para Paris. Durante a ocupação alemã volta à Dinamarca envolve-se nos serviços de inteligência, e foi um dos fundadores do Conselho de Liberdade da Dinamarca. Obrigado a fugir para a Suécia ali atuou como enviado especial. No fim da guerra foi um dos elementos de reconciliação com a Alemanha Ocidental.
Ficou famoso pela sua atuação na resistência e uma placa simples, como devem ser as grandes homenagens, o recorda em cima da sua campa.
Erling Foss – 1897 – 1982
MEDSTIFTER DANMARKE FRIHEDSRAD
Cofundador do Conselho de Liberdade da Dinamarca

Voltemos aos negócios.
O senhor tinha montado uma empresa de exportação de produtos dinamarqueses, que vendia sem um centavo de lucro. Mas viajava por todo o lado, como vendedor e, dos impostos a pagar, que eram bem altos, deduzia todas as despesas da viagem com a firma! Inteligente.
Eu achei que tudo quanto me mostrara se adequava bem à nossa área de trabalho, tanto mais que a Empresa Herold já estava com a corda no pescoço, e apresentei o problema ao diretor, um menino rico que nunca trabalhara, saía no meio da manhã para ir a casa trocar de gravata para almoçar (verdade, verdadinha), a tarde aparecia de fato – terno – diferente, não sabia nada de coisa alguma, nem fazia p. nenhuma, mas tinha um carrão sempre novo. Disse-me com ar imbecil: Isso não vale nada. Não nos vamos meter nessa.
Comprometido com o senhor a tratar do assunto com todo o interesse, envergonhado, escrevi-lhe a contar do “desastre” na empresa. Ele, tranquilo só me disse: Não se preocupe. Faça o que entender.
Não tardou a aparecer uma consulta de preços para uma boa quantidade de equipamento exatamente daquele tipo, para Angola, a distribuir por regiões várias, para auxiliar no aumento de rendimento das populações locais.
Decidi apresentar, individualmente, uma proposta, na altura qualquer coisa como US$35.000. Há sessenta anos era uma grana boa! Ninguém mais apareceu e eu ganhei a concorrência... sem concorrentes.
O meu amigo ficou eufórico lá na Dinamarca, e eu aflito sem saber como lhe abrir o crédito, porque não tinha nem US$1! Este problema acabou por se resolver de forma muito simples. Abri conta no Banco Nacional Ultramarino, com 500$00 que o meu sogro me emprestou (e saquei logo a seguir!), entreguei toda a documentação ao banco, incluindo o recibo para o comprador, e... vapt-vupt, tudo resolvido e eu com uma bela maquia na minha conta!
Logo me interessei pelos outros equipamentos, mas como estava “preso” a horário de trabalho foi com o meu colega e amigo Henrique Godinho (ver Amigos – 11) que começámos a vender em Portugal uma série de outros equipamentos.
Em 1961, quando andei pela Europa, pedi que me dessem uns dias de férias e fui visitar o meu amigo em Copenhague, onde ficámos perto de uma semana. Foi amabilíssimo.
Deu uma volta conosco pela cidade, em meados de Março nevava, mostrou-me a estátua que fizeram em memória do pai, e convidou-nos depois para jantar em sua casa, às seis e meia! Ainda lhe pedi para repetir o horário e ele confirmou: 18h30. Eu nunca tinha jantado tão cedo, mas...
Casado de novo há pouco tempo (1958) um filhotinho que devia estar para chegar, meia hora depois do jantar tinha acabado a conversa! Mas ir deitar às sete da tarde?
Sabendo que eu trabalhava na Cuca, e sendo pessoa muito influente no país perguntou-me se gostaria de visitar a Carlsberg e a sua Fundação. Claro.
De manhã telefona-me e diz que estão à minha espera na fábrica. Das oito da manhã ao meio dia, visitei, com muito gosto, tudo aquilo, e aprendi mais algumas coisas.
À tarde perguntou-me se tinha sido bem recebido e se me tinham convidado para almoçar. Bem recebido, sim, almoço não. Ficou indignado. Telefona ao presidente da Tuborg a contar o “escândalo” da Carlsberg! Um amigo meu, cervejeiro, vem de Angola e não o convidam para almoçar! Logo feito o convite, para o dia seguinte.
Às oito da manhã, um frio do cão, dois diretores da Tuborg na porta da companhia, me aguardavam. Depois da visita e da troca de impressões, fomos almoçar num restaurante da fábrica. Ótimo.
Uma larga travessa circular cheia de peixe e frutos do mar e o indispensável e ótimo pão. Smorrebrod!
Começa o garçom por trazer três belos copos de cerveja e três cálices para bebermos a famosa Akvavit, aquavita, um destilado de origem escandinava. Do latim, aqua vitae, "água da vida'", álcool quase puro! Entre 40 a 50º. A garrafa vem muito gelada, completamente coberta por gelo.
Os “hospedeiros” pegam no cálice, miram todos os parceiros e saúdam: “SKOL”! Aguardente goela abaixo!
Logo que o primeiro copo de cerveja chegou ao fim vêm mais três, e nova dose de akvavit. Eu queria não beber, mas, vá lá, deve ser o último! “Skol!” Goela a queimar. À terceira vez eu neguei a aguardente, mas os dois diretores seguiram alternando a cerveja com a akvavit, e já na segunda parte do almoço, smorrebrod com carnes, só falavam um com o outro. Eu tinha sumido do campo de visão deles! No fim levantaram-se da mesa e eu tive que os seguir e assim foram andando pela rua. Eu atrás. A certa altura houve um que realizou que deviam ter esquecido alguma coisa: eu! Muitos cumprimentos, agradeci muito e os dois muito bem bebidos seguiram a vida deles! Foi sensacional. Valeu muito a pena.
No outro dia o meu amigo Erling convidou-nos para almoçarmos fora da cidade e visitar a sua belíssima casa de campo, numa área onde criavam, à solta, faisões, para depois caçarem.
Ele, com 64 anos, começava a ficar um pouco surdo e distraído, e quando ligava o pisca-pisca do carro ele depois não desligava sozinho! Para resolver o assunto instalou uma campainha para o alertar!  Engenheiro é para isso: inventar!
Talvez em 1964 decidiu fazer-me uma visita a Angola. Foi quando me contou que viajava de graça por todo o mundo! Sabendo-o caçador de faisões decidi levá-lo num fim de semana para caçar uns bichinhos um pouco maiores: pacaças.
Um grupo de caçadores, dois jeeps, lá fomos para as matas do Ambriz (hoje coutada). Ele não quis carabina, emprestei-lhe uma caçadeira. Saltaram duas perdizes, ele matou com "um duplo" e ficou encantado. Um pouco adiante, numa clareira entre a mata, viu uma árvore alta, isolada, e pendente um grande favo de abelhas. Confirmado que era de abelhas, admirou-se, mas mais se admirou quando ao regressarmos ao acampamento, voltou a ver a árvore, mas o favo... tinha desaparecido!
No meio do mato onde não se vê vivalma, quem teria sido? Os “terroristas”! O nosso convidado não queria acreditar! Como é que nós andávamos ali no meio de guerrilheiros com toda a calma? Podiam atacar-nos.      
- Não! Eles não estão interessados em gente que nada tem a ver com o colonialismo. O problema dos guerrilheiros era o sistema e não as pessoas.
Adorou a caçada, já nem sei se caçámos algum bichão grande, e no fim desse ano mandou-me, pelo Natal uma foto dele como filho mais novo, Toke.
Para despedida levei-o ao famoso restaurante Vilela, lá... nos fins da Estrada da Cuca, para comer o que era, na época, o melhor bacalhau do planeta.
Quando encomendei e lhe disse o que íamos comer, bacalhau, code fish, ele fez uma cara estranha e disse-me que era isso que o seu pai lhe dava, de castigo, quando, em menino fazia asneiras!
- Se não gostar pede-se outra coisa. Mas primeiro prova.
Veio o tal famoso bacalhau assado no azeite, com batatas, e o senhor exultou! Ele, alto e forte, apreciou imenso e comeu muito bem!
- Que pena o meu pai não me ter dado este castigo!

Em 1974, depois da revolução dos cravos (!) escreveu-me, preocupado com o que se iria passar nas colónias.
Respondi-lhe, andei uns tempos perdidos na nossa diápora, e foi a última vez que tivemos contato.
Guardo deste amigo uma imagem de muita simpatia, alegre, simples, inteligente, sempre muito atencioso comigo. Um grande homem.
Um abraço etéreo, Erling Christian Foss.

25 out. 18