segunda-feira, 9 de julho de 2018


O Dia da Soltura


Todos os dias, por estas terras tropicais de papagaios, há algo a comemorar: o dia da independência, o dia dos professores, dos comerciantes, dos industriários, dos LBTG (héteros não têm dia), de São Jorge, etc., etc., etc.
Pois ontem inaugurou-se, no Brasil mais uma data a fixar e festejar, ninguém sabe ainda se com alegria ou com pancadaria: “O Dia da Soltura”!
Para que não restem equívocos quanto ao significado da palavra, vamos transcrever o que vem no dicionário do muito conceituado Aurélio:
1. Ato ou efeito de soltar alguém que estava preso.
2. Atrevimento, ousadia.
3. Libertinagem, desvergonha.
4. Diarreia, evacuação frequente de fezes abundantes.
Como é do conhecimento mundial, o sapo-barbudo, conhecido como lula (viscoso) foi condenado a doze anos de cadeia, por um colegiado da segunda instância, e lá está, instaladão, numa divisão especial da Polícia Federal, com sala, quarto, banheiro, televisão, telefones (vários), comidinha da boa, lugar onde eu não me importava nada de estar porque as instalações são de luxo e o preço muito em conta: paga o contribuinte.
Mas, não esqueçamos, quem manda ainda (até quando?) neste país é o PT.
O supremo tribunal federal tem, pelo menos, cinco juízes lá colocados pelo tal sapo (um nem advogado tinha sido, e outros, fortes apoiantes e advogados do tal PT), que apoiam leis votadas no cãogreço, não as põem em execução (por exemplo a lei da ficha limpa, um condenado em segunda instância está automaticamente ilegível, a prisão direta após o mesmo julgamento, etc.) além com compadrio existente entre esses milionários da função pública (alguns ganham mais de R$ 100.000/mês, qualquer coisa como € 30.000, fora as mordomias que são execravelmente vergonhosas e acintosas) e advogados e réus.
Então... prendem, soltam, voltam a prender, voltam a soltar.
Mas ontem foi muito mais interessante esse jogo.
Lula condenado a doze anos, já naquela doce e confortável espécie de prisão. Trilhentos advogados, pagos a peso de ouro, ouro roubado pela quadrilha petista, todos os dias inventam qualquer coisa para entrar com um habeas corpus, para o soltarem do paraíso em que se encontra, sem que tenham até agora (note-se bem: até agora!) conseguido.
Ontem um magistrado, isolado, de plantão, que durante vinte anos foi membro e depois advogado do pt e também dos governos do lula e da dilminha, numa canetada só mandou dar soltura ao “patrão”! Deu poucas horas para a polícia executar a liminar.
Os juízes que condenaram o “coitadinho” reagiram: “não pode soltar”. O magistrado petista, um tal signor fal..., raivoso, emite segundo mandato, com todo o atrevimento e ousadia (vidé dicionário) exigindo a soltura em menos de uma hora, ameaçando quem descumprisse a ordem que sua excelença, do alto da sua pesporrência libertinagem e desvergonha (não esqueçam de ver o dicionário), sentindo-se o dono do país, assinara.
Quis, sozinho, derrubar decisões de colegiado judiciário que estão acima dele! Beleza, né?
Por fim teve que intervir o Presidente do Tribunal onde o sapo foi condenado, e deu a ordem final: “Não solta p... nenhuma!”
E encerrou-se assim este vergonhoso capítulo da “justiça”, que mais uma vez veio mostrar que a “justiça”, neste país é o que a cada um interessa fazer.
Podem no entanto tomar nota: a farsa, ou a guerra vai continuar.
Soltaram já os maiores ladrões da res publica que envolve bilhões, mas não quiseram soltar um miserável que há dias roubou já nem sei o que de uma loja, no valor de R$10.
Foi uma diarreia judiciária porque o espertalhão, sabendo que os outros magistrados e a procuradora geral da República estavam de férias, pensou que todo o mundo era bobo e só ele arvorado em dono do país.
E mostrou o quanto o judiciário está desacreditado.
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Mas ontem, dia 8 de julho foi um dia grande, de grande alívio e entusiasmo, quando chegou a notícia que tinham conseguido libertar quatro dos garotos que estavam presos na caverna na Tailândia.
O mundo inteiro aplaudiu, porque vinha sofrendo com o drama daquela gente.
Hoje já libertaram mais quatro.
Isto sim foi uma soltura com dignidade, com o sacrifício de muitos que colaboraram, dando a sua vida para salvar os outros. A esta ousadia não há aplausos suficientes.
Deus é grande.
Mas tem dado muito que pensar este drama vivido por aquela gente simples.
De todo o mundo acorreu socorro pronto a ajudar. De todos os continentes e crenças.
Ninguém perguntou se eram cristãos, muçulmanos, judeus ou budistas. Eram, com toda a simplicidade, um grupo de garotos e o seu treinador que precisavam de que os ajudassem a sair daquela horrível situação.
Através do mundo muitos rezavam, de acordo com a sua crença e religião, pelo bom desfecho do grave problema.
E entretanto uma pergunta, infantil e sem resposta, fica no ar, depois de assistirmos a ver tanta gente se irmanar para uma ação de salvamento, é simples:
- Porque os humanos não se tratam como irmãos, SEMPRE e definitivamente?
Infelizmente a resposta é seca e dura:
- Porque os interesses individuais e gananciosos, SEMPRE falam mais grosso.
Até Moisés teve que subir duas vezes ao alto da montanha para pedir ao Senhor novas Tábuas da Lei, porque as primeiras as quebrou contra o bezerro de ouro.

9-jul-18

segunda-feira, 2 de julho de 2018


 

PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 5


Os prolegômenos só servem para uma introduçãozinha. Podia chamar-lhe prefácio, mas o tal de prolegómenos é muito mais... rebuscado!
Foi por acaso que comecei por agrupar alguns amigos por “corporações”, como surgiram na Idade Média a partir do século XII, para regulamentar o processo produtivo artesanal nas cidades. Essas unidades de produção eram marcadas pela hierarquia (mestres, oficiais e aprendizes) e pelo controle da técnica de produção das mercadorias pelo produtor. Em português, são chamadas de mesteirais.
Só falei ainda de “mestres cavaleiros” e mestres... diversos, mas ainda vou agrupar mais alguns mesteirais, “mestres” que na vida me ensinaram a tentar ser melhor pessoa, mesmo que eu não viesse a ser mestre em coisa alguma.
Vou recordar alguns ligados à vida vegetal, agrónomos, silvicultores e regentes agrícolas, que todos, de uma maneira ou outra deixaram a sua marca.

As primeiras palavras lembrando o meu pai que nos deixou quando eu tinha menos de 12 anos. Foi um grande senhor e um grande silvicultor, responsável pela arborização e jardins de Lisboa. Só muito mais tarde vim a entender a profunda diferença entre um silvicultor e um agrónomo, eu que me fiquei por regente agrícola (de que não me arrependo! Não tinha como bancar a continuação dos estudos.)
Silvicultor, regra geral tem a seu cargo a beleza e a conservação da natureza, e nisso o meu pai, de rara sensibilidade, foi admirado pela obra que fez, e que, infelizmente não pôde continuar; ao agrónomo a produção, o alimento, o agro-negócio. O regente, metido no meio dos dois, seguiu pelo lado que a vida lhe foi proporcionando, comigo por exemplo, quase sempre ligado a máquinas.

Cinco dias mais novo do que o meu pai, um outro agrónomo veio um dia a ser como um segundo pai para mim, mostrando-me com a sua calma, que a vida não se podia seguir na fantasia. Numa época em que eu estava a sair dos limites, 1946, fui para Évora, Escola de Regentes Agrícolas, e lá num instante encarreirei, com o olhar complacente dum homem que todos os colegas muito respeitavam e admiravam: o Diretor.
Augusto Blanco Calado de Matos Rosa, alentejano de Alter do Chão, ainda novo herdou do pai algumas terras e findo o liceu pensou que podia ser agricultor. Durou pouco esse sonho e uns cinco anos depois decidiu estudar agronomia.
Ele entrava e o meu pai quase saía já formado, mas ainda houve um ano em que, da mesma idade se conheceram. Pouco.
Nunca durante os cinco anos que passei na ERA fui beneficiado por uma melhoria de desempenho, mas sempre chamado à atenção que não podia ficar para trás, nem ter notas sofríveis. Tudo com uma paciência e uma tranquilidade que acabou por fazer de mim um jovem... quase normal!
Com ele, nesse tempo vivia a mãe, Dona Gertrudes, uma senhora já bem velhotinha, bastante surda, para quem o mundo não saíra do século XIX! Era o filho que comprava tudo quanto ela precisava, e quando a senhora perguntava quanto tinha custado ele sempre dizia um número muito abaixo da realidade. Assim mesmo a senhora, que ainda “vivia” no tempo dos “mirréis” achava sempre tudo caro. Ele ria. Um dia comprou-lhe umas meias e disse que tinham custado talvez dez ou vinte por cento da realidade. Chegam as férias, lá vão os dois passá-las em Alter do Chão e a boa senhora mostra a todas as amigas a maravilha das meias e como tinham sido baratas! Logo todas pediram que quando regressasse a Évora lhes comprassem umas quantas. A tudo o nosso Diretor dizia que sim, até anotava num papel, para mostrar as boas intenções de cumprir com o pedido.
Volta a Évora, deixa passar dois ou três dias e vai dizer à mãe que as meias eram tão baratas que se tinham esgotado num instante!

1970 (?) A sua casa na ERA, ao fundo

Fim de semana em que houvesse festa ou tourada em Évora os alunos faziam fila na porta da casa do diretor para lhe pedirem dinheiro emprestado para irem para a farra. E, além de dar todo o dinheiro que tinha disponível, ainda pedia algum mais a um colega para colaborar com os alunos!
Não conheço nenhuma história em que o diretor de um estabelecimento de ensino, em dias de farra emprestasse aos alunos todo o dinheiro que pudesse!
Um homem GRANDE que deixou muita saudade e muita admiração por todos os que tiveram a oportunidade de o terem conhecido. E ainda lhe devo muito ter ajudado a fazer de mim uma pessoa melhor.

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Em 1954 lá fui eu para Angola. Um amigo de meu pai, também agrónomo, tinha por lá um primo, também agrónomo, e mais velho do que eu uns oito a dez anos, a quem pediu para dar uma olhada no “garoto” que chegava àquelas terras. Foi quando o conheci. Em Nova Lisboa. “Pouco” mais velho do que eu recém chegado a Angola, mostrou-se desde o primeiro momento e pela vida fora sempre o mesmo simples, alegre, afável, prestável, e muito amigo.
As nossas vidas foram-se encontrando ao longo de uns tantos anos em que ambos nos demos àquela terra e, enquanto que ele crescia em sabedoria e conhecimentos, a nossa amizade crescia junto.
Dispensava a mesma atenção e respeito a um duque, ou um importante alto funcionário, ele que conhecia bem a nobreza portuguesa e estava em destacada posição como profissional, internacionalmente reconhecido, assim a um humilde agricultor ou pastor cuanhama.
Sobre o baixo, magrinho, muito magro, o que não o impedia de estar sempre disponível e alegre e de ser gentilíssimo, dedicou-se com profundo interesse a que o próprio respeito pelo Outro a isso o levava, à pesquisa e solução dos problemas de agricultura e pecuária no sul de Angola, nas terras dos ganguelas e dos cuanhamas.
Conheceu intimamente aquele interior, apaixonou-se pela terra e pelas gentes como todos os que tiveram ocasião de ali se demorar um pouco além de visita de turista, acompanhou o grande pintor Neves e Sousa nas suas caçadas de imagens maravilhosamente desenhadas, até que um dia deixou Angola convidado a lecionar em Paris, a seguir nos Estados Unidos e por fim na Universidade de Évora, professor e vice-reitor, sendo um dos fundadores do “Certificado Internacional de Ecologia Humana”,.
Homem simples com um sentido de delicadeza extraordinário, e um profundo respeito por todo o “Outro” teria que ser ele mesmo a cuidar da Ecologia Humana! Já lhe estava “no sangue”. Cativava os alunos pelo interesse da matéria mas muito também pelo seu porte e educação impecável.
Nas horas vagas organizava e presidia a exposições e concursos de cães, sobretudo das esplêndidas raças portuguesas “Rafeiro do Alentejo”, “Serra da Estrela” e “Castro Laboreiro”, por que tinha um carinho todo especial.
Já aposentado e conhecedor que uma doença implacável, que o fazia sofrer, consciente que em pouco tempo seria levado, decidiu aventurar-se a uma viagem até ao Brasil.
Quando lhe quiseram fazer ver que isso era loucura, devido ao seu estado de saúde, respondeu, sorrindo, como sempre, que queria despedir-se de um amigo.
Veio, aqui esteve alguns dias em nossa casa e regressou a Évora, deixando nestes amigos um enorme vazio.
Alguns meses depois, abandonou-nos. Ficou o amargo, o vazio, alguma coisa que talvez se possa chamar Saudade. Mas saudade neste caso é pouco.

Numa corrida às lebres – 1994 (?)

Eduardo Cruz de Carvalho foi um amigo especial. Magrinho, educadissimo, muito culto, de grande fineza de trato, Neves e Sousa, com o seu espírito alegre e brincalhão, há muitos anos já tinha “encontrado” para ele o melhor nome que o definia, carinhosa e perfeitamente: “O Finecas”.
Amigo, como os que são amigos, e que não se esquecem nunca.

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Quando entrei para o liceu, 1941, fiz por lá umas reguilices que os mais velhos gostaram, e passava parte dos intervalos com alguns do 5º ano (hoje 9°), que tinham mais quatro e cinco anos do que eu. Um deles terminado o liceu deixei de o ver durante uns anos, e só nos viemos a encontrar numas férias em Alter do Chão. Ele já nos 20s, estudante de agronomia, eu com 16 ou 17, ainda na ERA. Foi um encontro especial. Parecia que nunca nos tínhamos separado.
Depois mais uns dez anos, 1958, em Lisboa sou contratado para regressar a Angola e trabalhar na Cuca. Na entrevista, em que fui aprovado, disseram-me que tinham sido admitidos mais dois agrónomos e deram-me o nome deles: António Melícias, que eu desconhecia e hoje é um dos meus queridos irmãos, e o Alfredo Duarte Figueiredo, que eu na ocasião não conseguia ligar o nome à pessoa. Este nome ficou a bater-me na orelha mas a memória estava emperrada. Eu sabia que conhecia e o nome não me saía da cabeça. Dias depois, nas Arcadas do Terreiro do Paço, vejo um sujeito que, atrás de um monte gente caminhava na minha direção, já me tinha avistado e, braço levantado, chamava por mim.
Caíu a ficha! Era o Alfredo.

Um abraço forte, uma alegria imensa de nos termos encontrado, fomos logo comemorar no Martinho da Arcada! Ambos casados, falámos das famílias, do encontro motivado por irmos ambos trabalhar para a Cuca, e foi o renascer duma amizade que passou do tempo de pouco mais do que meninos, para outra mais forte que nos uniu como irmãos.
O Alfredo era a bondade em pessoa. Muito bem nos demos, sempre e enquanto trabalhámos na mesma empresa, de onde eu saí cedo, mas a amizade seguiu, e continua hoje nos filhos.
Em África fizemos algumas viagens de trabalho, juntos. Andámos pelo mato a melhorar a comercialização da cerveja. Não podia ter melhor companhia nem mais facilidade em resolver problemas.
Já em Portugal num dia que lá fui, combinámos almoçar juntos, e ele marcou-me encontro nos Serviços de Agricultura, onde trabalhava, lá nas avenidas novas. Aí vou eu, de Cascais para lá, uma viagenzita, para depois ele me dizer que tinha um restaurante ótimo quase ao lado da estação do trem donde eu tinha saído! Sempre tranquilo, só ele me faria rir.
Foi embora muito cedo. Deixou uma mão cheia de filhos que são sobrinhos queridos. Ele e a mulher deixaram uma saudade sem fim.

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Os nossos pais amigos de toda a vida. Meninice juntos. Adolescência separados, voltámo-nos a encontrar em Angola. A sua agronomia foi para os petróleos, sempre mais generosos a reembolsar do que saladas ou batatas e eu nas cervejas. É evidente que logo estavam envolvidos naquele magnífico grupo de amigos que nos envolvia em Luanda. O casal, os filhos, com os nossos e, quando calhava, em viagens pelo país, lá estávamos juntos.
Lembro bem uma das vezes, num almoço no Hotel Ruacaná. Nova Lisboa, Huambo. Conversa descontraída, alegre, no final do almoço o criado diz que tem morangos para sobremesa. Ótimo. Pode Trazer.
- Para mim são só três. Três.
Veio o criado um prato “cheio” e no outro uns seis.
- Eu disse três.
Volta o prato para trás e regressa com quatro.
- Três. Três!
O pobre criado pensava que estavam a gozar com ele. Mas não, ele, caturra, só queria mesmo os três morangos, e quando, finalmente o prato chegou com a dose solicitada, agradeceu muito ao criado... que não deve ter feito muito bom juízo daquele cliente!


O António Ravara Belo era assim. Gostava de brincar “a sério” e era uma maneira de se descontrair! Querido amigo do tempo das fraldas!

27/05/2018

quinta-feira, 21 de junho de 2018


Antes de ler este texto, sugiro que leiam um comentário

 ao texto anterior – Amigos -3

 PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 4

Hoje vou apresentar-lhes uma série de “guerreiros”! Todos de Cavalaria. Gente que optou pela vida militar e alguns estiveram envolvidos nas infelizes, indesejáveis e forçadas guerras coloniais, que a falta de diálogo e ignorância fizerem eclodir. E matar muita gente, de ambos os lados, que poderiam ainda hoje estar gozando a vida com a família em serenidade. Mas as guerras são a manifestação primeira, primária, da índole dos homens. Não se entendem pela simples razão porque não querem, pelos interesses pessoais em jogo, pela ganância e vaidade.
Estamos no século XXI e continuam guerras e matanças por todo o mundo, desde a “civilizada” Europa, onde ainda dominam os europeus (até quando?), África, Américas, Ásia, etc.
Os “guerreiros” de hoje, meus amigos de há muitos anos, todos militares, todos gente sensível e de Paz. Alguns já alcançam o Grande Descanso.

Vou começar pelo mais humilde.
Fizemos juntos o serviço militar como sargentos milicianos. Acabou em Agosto de 1952, e se para mim a sensação foi do “dever” cumprido e acabado, para ele, jovem humilde, de família modesta, com poucos recursos, continuar militar foi a solução para não voltar para a terra, lá para as bandas de Ansião e Lousã, onde não conseguiria trabalho decente.
No meio do nosso curso, um dia o oficial de serviço chamou-o. Tinha nas mãos um telegrama para ele, que dizia “Josefa morreu”.
O oficial perguntou se conhecia alguma Josefa. “A minha mãe.” Foi um drama, mas para não lhe dar um choque, diz-lhe que a mãe estava muito mal, e que ele fosse a casa. Deram-lhe uma semana, e lá vai ele, pesaroso, pensando ir encontrar a mãe às portas da morte. Demorou a chegar. Comboio para Pombal, depois autocarro para Figueiró dos Vinhos. O oficial respondeu ao telegrama dizendo que o filho estava a caminho de casa. As irmãs e a mãe ficaram assustadas porque quem tinha morrido fora uma prima velha com o mesmo nome da mãe, e foram esperá-lo à estação com as roupas mais alegres de que dispunham.
O nosso militar, ainda dentro do comboio vê a família toda alegre a acenar-lhe e ficou perturbado. Quando saiu foi recebido com alegria, abraçou a mãe a chorar, e depois gozou uma semana de férias!
No quartel, ele, como eu, vivíamos com uns míseros escudos, e tínhamos uns quantos colegas mais afortunados de quem ficámos também amigos.
Chegou o Natal e houve férias no quartel, Cavalaria 7, em Lisboa, mesmo encostado à residência do Presidente da República, e o nosso amigo estava triste: não tinha dinheiro para ir a casa e ficaria duas semanas “de castigo” no quartel. Quando me contou isso, falei aos colegas, e todos abriram a carteira. Foi para ele uma felicidade, e passou o Natal com a família.
Durante muitos anos deixei de o ver, foi sendo promovido, andou por Angola quatro anos, na guerra, em Moçambique, sempre em zonas de guerra dura, esteve por duas vezes às portas da morte por doença, e durante todo esse tempo, podemos nos termos cruzado, sem que eu tivesse sabido. Tínhamos perdido o rasto um do outro. Bem mais tarde, 45 anos depois, recebi uma carta dele. Tinha passado à reserva, e foi aí que contou essa história de termos arranjado o dinheiro para que ele fosse a casa, gesto que jamais esqueceu. E trocámos alguma correspondência.
Quando fui a Lisboa, telefonei-lhe e encontrámo-nos. Foi um momento grande. Já de cabelo quase todo branco, a mesma pessoa sensível e humilde, contou-me que se tinha aposentado como major. Estando em número um para ser promovido a tenente coronel, e sabendo que em pouco tempo passaria à reserva, um colega mais novo pediu-lhe para o deixar na frente, na promoção, porque ainda tinha alguns anos de serviço pela frente.
O meu querido amigo, homem simples, a vida organizada, as duas filhas já formadas em curso superior, não hesitou e deixou o colega ser promovido. Só um homem grande teria semelhante atitude.
O Ramiro, homem humilde, grande de alma e caráter, ficou como major. Mas feliz por ter ajudado um colega.
Infelizmente não consegui encontrar nenhuma foto dele. Ramiro da Conceição Antunes.
***

Neto de general, seguiu a vida militar, e a sua ambição seria atingir a mesma posição do avô. Cedo foi para Moçambique, ali chegando jovem tenente, ajudante do governador. Dinâmico, oficial de cavalaria, como todos os do mesmo ramo apaixonado por cavalos, logo obtém do governador autorização e apoio para criar o Centro Hípico de Lourenço Marques que durante anos iria ser lugar de socialização e mundanismo para a alta sociedade colonial. O centro era reputado e às suas competições vinham competidores de países vizinhos."

O belo Centro Hípico

Ainda em Moçambique tenta a vida fora do exército, trabalha na SONAREP, a primeira refinaria de petróleo em Moçambique, mas ao fim de um ano, fartou-se e saiu dizendo: “no exército se eu mandar um general à mer... apanho dez dias de cadeia e tudo volta à mesma, se fizer o mesmo com o administrador de uma empresa sou posto na rua e fico desempregado.”
Voltou à vida militar, esteve dois anos numa zona de guerra na Guiné, deixando a família em Lourenço Marques, regressa a Moçambique e é enviado para novas zonas de guerra, até 74 quando avisado pelo comando do exército, que tudo estava acabado, vai para Portugal.
Não era da cor dos “heróis de Abril”, fica na prateleira. Vai então para o Brasil onde um jovem milionário lhe pede para montar um haras, o que lhe deu vida nova. O milionário casa, a esposa não gosta de animais e o haras... acabou!
O nosso coronel tem então que se virar na vida civil. Os primeiros passos são difíceis, entra depois como auditor numa empresa grande, corre o Brasil, não pára, e fica até que a idade lhe recomenda que descanse. Fizera já muito. Vai para Portugal, saudoso de toda a sua longa luta e história, aos 90 anos descansou.
O jovem e dinâmico tenente

Foi um homem que não parou um momento e sempre enfrentou com galhardia, como um bom oficial de cavalaria, e bom português, todos os desafios que teve que enfrentar.
Nossos pais eram primos direitos. Saravá, meu amigo e primo Carlos Vasconcellos Porto.

Vamos agora aos concursos hípicos, tão na moda em Lisboa sobretudo por volta dos anos 40 e 50. Quase todos os cavaleiros eram militares, raros endinheirados que se davam ao luxo de ter cavalos de alta competição, oficiais houve que se tornaram famosos.
Para as famigeradas olimpíadas de Berlim, em 1936, no tempo do todo poderoso Adolf, Portugal envia vários atletas e um grupo de cavaleiros. Vieram de lá com medalha de bronze, tendo um dos oficiais da equipe recebido uma carta pessoal do tal Adolf a felicitar os portugueses. Carta rara. (Há poucos anos a RTP quis fazer uma reportagem sobre essas olimpíadas, pediu ao atual detentor desse espólio, a medalha para fotografar, mas, por razões políticas, os cretinos não quiseram exibir a carta! Um documento histórico...). Os chamados covardes do politicamente correto!

A equipe portuguesa em Berlim. O nosso “homem” à direita (como sempre foi!)

Casado, mais de uma dúzia de filhos lindos e ótimos, o nosso oficial parou em coronel, mas até ao fim da vida continuou a ser delegado de Portugal aos Jogos Olímpicos. Era uma pessoa de exceção!
Algumas cenas da sua vida.
Enviuvou e houve uma senhora que decidiu “tomar” conta dele, e não o largava.
Teria já 80 anos, com um filho no Paraguay, vai visitá-lo, senhora á ilharga. À despedida diz ao filho: “Estou farto de a ter sempre atrás de mim. Não queres ficar com ela?” Resposta do filho: “Não pai, muito obrigado!”
Uns anos antes, aí por 1970 foi a Luanda, onde viviam pelo menos quatro filhos. Chega de manhã e vai direto ao banco onde eu trabalhava; fiquei muito espantado de o ver às 10 da manhã, nem sabendo que ele estava em Luanda. Tinha acabado de chegar de Lisboa!
Aparece à porta do meu departamento, vejo lá no fundo um senhor com uma mala ao lado, mandei ver quem era. Quando me disseram, corri para o receber, e perguntei-lhe se já tinha estado com algum dos filhos.
Não. Primeiro quero ir almoçar contigo e com o Renato Lima (uma figura inolvidável da Cuca)! Depois então vou ter tempo para me chatear com eles.”
Grande figura, Grande Senhor. Boa parte dos seus filhos são, há muitos anos, como meus irmãos.

Aqui está, um muito querido amigo, Dom Domingos de Sousa Coutinho, Marquês de Funchal, com o neto, homónimo, já avô e futuro Marquês.
***
Quando o conheci, em 1963 já ele com 48 anos era coronel de cavalaria, e estava em Luanda a comandar o famoso e imenso Campo do Grafanil, um acampamento onde estacionavam todos os militares que chegavam a Angola e todos os que, finda a missão, aguardavam o regresso à Metrópole.
Era um militar aprumado, muito disciplinado, características que guardou até ao fim, quando, já sofrendo muito com vários problemas de saúde, descansou.
Foi através dos Cursos de Cristandade que uma forte amizade nos uniu por mais de trinta anos.
Um dia decidimos ir visitar as famosas e impressionantes Pedras Negras, N’pungo-a-Ndongo, terra do meu compadre e colega de trabalho, Luis Neto, e que no meu livro “Contos Peregrinos a Preto e Branco” já descrevi:
No meio de uma extensa área planáltica, a dezenas de quilômetros de distância começam a recortar-se no horizonte uns imensos blocos de pedra, que não fosse a distância, podiam confundir-se com uma grande manada de elefantes! À medida que nos vamos aproximando, essas rochas crescem de forma desmesurada, até que chegados à sua base se tem então noção do seu tamanho. Algumas passam os duzentos e cinqüenta metros acima do chão! São escuras, como os elefantes. Negras.
A sensação, de longe, é que a manada de elefantes está unida, e então, já mais de perto a imaginação leva-nos a pensar em algum gigante, imenso, que carregou, ninguém sabe de onde, essas pedras monstruosas, como almas penadas, para as deixar ali esquecidas, entregues a si próprias, amontoadas!
E a nossa sensação de pequenez cresce, perante a grandiosidade daquele espetáculo. Em alguns desses imensos blocos graníticos estão marcadas pegadas que parecem de gente e de cães. Ninguém sabe o que é, de quem, de quando. Chamam a algumas pegadas, que pelo enorme tamanho só poderia ter sido deixada por algum “patagon”, o pé da Rainha Jinga! Contam-se lendas. Tudo ali é mistério, mas um mistério que encanta, pela sua imensidão e beleza. Não sei se há, e onde, algo parecido, mas as Pedras Negras são inesquecíveis.

Duas vistas impressionantes (a 2ª - vista do satélite)

Dormimos em dois “burros” militares que armámos na entrada de uma escola (era tempo de férias, não tinha ninguém) e ao nascer do sol acordámos com três mulheres paradas em frente à escola, muito admiradas com o espetáculo! Depois procurámos na aldeia ali perto o tio do meu compadre, e fomos recebidos que nem dois príncipes, o que muito impressionou o coronel, até porque a guerra estava acesa, e nós, únicos brancos naquela imensidão fomos recebidos com tanta lhaneza e carinho.
Os “burros”, as camas de campanha assim chamadas, no regresso duma rápida caçada, encontrámo-las com lençóis brancos impecáveis. Ao lado uma mesa posta com dois lugares, onde nos recusámos sentar sem que o nosso anfitrião se sentasse conosco.
Foi uma vivência inesquecível.
Anos mais tarde o “nosso coronel” escrevia-me, quase sempre em verso, que ele tanto gostava de fazer:
“Eu cá por mim,
Julgo que aprendi contigo
A arte de ser amigo
E de gostar de arriscar
E viajar pelo mundo além”
Com 80 e alguns e sempre a barretina dos “Meninos da Luz” na lapela

Meu querido e saudoso amigo António. Saravá, António de Miranda Dias.

20/04/2018


segunda-feira, 11 de junho de 2018


Deixemos agora um pouco a História (lá voltaremos) e vou lembrar de mais alguns dos grandes amigos que nos deixaram, e que continuam a fazer-nos muito falta.

PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 3

Angola vivia e vibrava, finalmente, com o aparecimento da Universidade, que por razões da mesquinhez de alguns mestres lusitanos, não pôde ser chamada de Universidade, mas Estudos Gerais, regredindo aos tempos do fabuloso Diniz.
Muitos dos professores nem mestrado tinham, mas eram profissionais de alta qualidade e dedicação, sem os galardões que enfeitam tanto burro que vegeta por tanta faculdade, e quem por lá passou e estudou tinha toda a competência que se podia exigir após a sua formatura, quer fosse de engenharia ou medicina.
Nesse tempo eu trabalhava com material fotográfico, mas cedo dediquei a maior parte da minha atenção à “fotografia e ótica” especializadas – fotografia aérea, impressão de cartas geográficas, artes gráficas, microscopia e as novas máquinas de revelar e imprimir fotografia a cores e reveladoras de películas de raios X. Era um campo bem mais interessante do que a máquina fotográfica e toda a parafernália de miudezas e acessórios para profissionais.
Por meu intermédio chegaram a Angola equipamentos nunca ali vistos e que pouca vida ainda tinham pela Europa. Assim a primeira reveladora-impressora de fotografia a cores, pequenos e muito úteis equipamentos para artes gráficas, uma colossal máquina para os Serviços Geográficos e Cadastrais, (onde trabalhou o pai do meu querido “sobrinho” general Fernando Andrade), e através do criador da disciplina de Radiografia do Hospital Universitário, as primeiras reveladoras de chapas de Raios X para o que foi o Hospital Universitário.
Grande amigo, o melhor médico que conheci, sempre com uma espantosa boa disposição contagiosa – (que deixou esses genes no filho, hoje médico também e Grande Professor) – quando eu me sentia menos bem ia visitá-lo. Resposta habitual: “Olha, isso deve ser... (já não lembro o que) mas é bom consultares um médico!” Ao mesmo tempo sempre pronto para ajudar quem precisasse.
Todos os alunos que lhe passaram pelas mãos ainda hoje o adoram.
Tinha dinheiro, do seu trabalho e da mulher, um dia comprou um avião. Um pequeno monomotor. Foi a Malange com ele, e um “amigo” que tinha sido piloto, e por fazer várias asneiras tinha perdido o brevet, pediu-lhe para dar uma volta, fazer o gosto ao dedo! Uma pequena volta por cima da cidade, o “ex” piloto nos comandos, quase no final, na aproximação, vai muito baixo, antes de alcançar a pista as rodas batem em campo de plantação, o avião vira, quebra-se todo e ambos ficam também quebrados.
Avião para a sucata, o nosso médico, precisou de algum tempo para curar umas fraturas e o “ex” passou um tempinho no hospital, tudo bancado pelo amigo. A quem tinha destruído o avião.
Como agradecimento, esse tal “ex” teve o desplante e a covardia de mover um processo contra o amigo que lhe tinha feito um enorme favor. E ganhou o processo, que envolveu uma indenização pesada.
Perguntado sobre o assunto, tranquilamente respondia: “Coitado.” Ainda teve pena do cretino que lhe deu cabo do avião e dos dois ocupantes, mesmo não tendo gasto um cêntimo enquanto esteve no hospital.
Em 75 veio para o Brasil e, quase trivial, foi enganado por colegas! Regressou a Portugal, e lá ficou meio entristecido, apesar da sua alegria natural.


Muitas histórias tem este grande médico, tão alegre, impecável o saudoso, o Grande Amigo, Zé Guilherme Pereira Caldas.
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Para quem viveu em Luanda, e onde lhe nasceram e cresceram uma boa quantidade de crianças, não falar no pediatra, sempre disponível, carinhoso e grande médico, seria um ato vergonhoso.
Quase nosso vizinho, na mesma rua, presença indispensável nos dias em que em nossa casa havia ou um jantarada ou uma noite de fados – a mulher também “viajava” na dolência do fado e era muito aplaudida – eram os dois uns bons e eternos amigos, amizade que continuou por Portugal.
Um dia voltou de férias da Europa onde tinha comprado um Mini-Cooper. Quando chegou a Luanda diz-me que não gostava do carro, era pequeno, etc., e que mo vendia pelo preço que lhe custara. Estava novo. Comprei, entrei em vários ralis (aproveito para dizer que ganhei TODAS as provas complementares!...) o carro andava que era uma beleza, mas em breve também conclui que era apertado, incómodo, mais ainda para a minha mulher que estava de barrigão e sentia-se mal lá dentro. Vendi-o, tinha à volta de 10.000 kms!
Os nosso filhos adoravam aquele simpático tio que velava pela saúde deles.
Expulsos também de Angola, não se adaptou a Portugal. Não era a terra dele. Um dia desligou-se de tudo, fechou-se, não conseguiu vencer a onda da saudade e, infelizmente, não tardou a nos deixar

Ainda novinho...

Querido amigo António Castro Ferreira, que deixou imensa saudade em todos os que o conheceram
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Falando no António, pediatra, não é elegante esquecer o irmão, cirurgião. Os dois irmãos casados com duas irmãs, todos angolanos. O pediatra tinha três filhos, o cirurgião nenhum, o que se traduzia que os três filhos acabaram por ter nos tios, um complemento perfeito de mais uma mãe e um pai.
O nosso filho mais novo nasceu com uma hérnia pubiana, larga, e cada vez que chorava ou fazia força para que o seu cocó saísse, logo pela hérnia saia também um pedaço de intestino que ficava entalado, e era necessário, com a mão remetê-lo para dentro. Assim o neném não podia chorar! E como todos os neófitos, têm manhas que sabem interpretar perfeitamente: este só queria colo, o mal educado!
Cirurgia. E o paciente tinha só 45 dias de vida. Casa de saúde, o pai, eu, senta-se numa cadeira, espera, super nervoso, e ao fim de quase uma hora devolvem aquele boneco ainda anestesiado.
Logo a seguir entra o médico e diz-nos com ar até divertido:”aquela hérnia deu um trabalho de cerzideira! O músculo estava que parecia esfarrapado. Vai resolver por um tempinho, mas voltará a abrir. E não adianta voltar a operar antes dele ter uns 12 ou 14 anos!
Foi o que aconteceu. Apesar disso, ainda hoje, acaba de fazer 49, ainda sente a hérnia, mas é ele que toma conta do problema. Evidente!

O nosso bom cirurgião, Zé Castro Ferreira. Bom homem, bom médico, bom amigo.

Os dias passavam e o nosso doente não melhorava.
Um dia a mulher dele telefona para a Cuca, e diz-me secamente, voz entrecortada, que ia levar o marido para casa para morrer junto dela e dos filhos!!!
O que se passa? Ele está muito mal e o médico só lhe dá calmantes.
Pedi-lhe que nada fizesse, corri para a clínica, e mandei que alguém entretanto procurasse o médico responsável e o informasse que o doente estava muito mal.
Entrou entretanto o diretor da clínica, cirurgião, apresentei-lhe o problema e respondeu-me que o caso era com o dr. “x”, ao que eu lhe disse “se ele morrer vou pôr a clínica e seus responsáveis em tribunal!
Foi ver o doente e ficou horrorizado. Preparou tudo para que fosse operado imediatamente.
O médico da companhia, avisado do caso de extrema gravidade, em vez de correr para a clínica foi... ver o futebol. A minha indignação foi enorme. Fiz um relatório para a administração da companhia, que lavou as as mãos, como Pilatos e resolveu da maneira mais simples: “os empregados que escolham o médico que quiserem.”
A Assistente Social escolheu alguns nomes, fez-se uma votação e entrou novo médico, que por acaso eu já conhecia, e duas vezes por semana dava consulta lá na fábrica.
Nesse tempo, apesar dos meus trinta e poucos anos, alguma coisa volta e meia corria mal (Estômago? Dos copos?) e lá ia eu à consulta. À segunda, terceira ou quarta vez o novo médico diz: “Não te passo mais nenhuma receita. Tu não tomas o que te aconselho!” “Tens toda a razão, mas devo dizer que médico assim é que é bom! Enquanto os sintomas me incomodam tomo o remédio, direitinho. Quando não sinto mais nada, nunca mais me lembro disso!”
Riamos, ele ralhava comigo, mas era ótimo médico. Nunca mais o vi, nem sei se ainda anda a penar neste mundo dos medicamentos.
Para onde estiveres vai um forte abraço, meu amigo Salvador Rodrigues.

§§§
Havia em Angola um médico que em criança deve ter recebido algum vírus de avião a jato! Não parava. Otorrinolaringologista. Tinha que ter uma especialidade “comprida”.
Consultório em Luanda, além de atender pacientes com problemas mais ou menos menores que não necessitavam de intervenção cirúrgica, operava gargantas, narizes e outras áreas complementares, já não lembro em que dia, mas suponhamos que era à segunda-feira. Terça metia-se no avião e ia dar consulta e operar em Sá da Bandeira, Lubango.
Saía dali, passava em Nova Lisboa, Huambo, e repetia os procedimentos. Na quarta estava de volta a Luanda para ver os pacientes operados na segunda. E recomeçar novas consultas e cirurgias se fosse necessário. Depois voltava ao périplo anterior para ver se tudo estava a correr bem. Estava.
E isto repetia-se semana após semana, sem que o nosso otorino... parecesse cansar-se.
Era um indivíduo de espírito bem desempoeirado, e sempre com uma boa piada para contar, gostando muito de dizer, quando se encontrava entre as senhoras, num jantar ou reunião de amigos “que ele era o homem que até hoje mais mulheres teve entre as pernas! Ah! E homens. Mas estes não têm graça!”
Porque nas consultas, ele abria as pernas, mandava as/os pacientes se chegarem bem para perto para ele poder analisar goelas, etc. Uma figura a não esquecer. Não esqueci, mas também nunca mais soube dele, depois do famigerado vintecincobarraquatro. Onde estiveres, tão velho ou mais do que eu, gostaria que continuasses a ter mulheres entre as pernas! Seria sinal que ainda estarias entre nós. A qualquer lugar muito desejo que um forte abraço vá ter contigo, Henrique Soudo.

§§§
Convocado pela Marinha, chegou mais um médico. Ortopedista. E foi morar na nossa rua, talvez um 50 a 100 metros mais para baixo.
Era ótimo porque os nossos filhos lá iam, volta e meia, quebrando qualquer coisa, nada de grave, mas que a assistência de um especialista facilitava a cura!
Em Portugal, o “chefe” do hospital onde ele trabalhava, homem metido a gostoso, lá... na Europa só andava de camisa e gravata de seda, e outros requintes. Foi a Luanda num congresso qualquer e o nosso médico marinheiro, que em Portugal não o suportava bem, entendeu que era de bom tom, convidá-lo para almoçar em sua casa.
Domingo, dia de África, solzinho agradável, a varanda onde sempre corria uma aragem, e para “tão ilustre personalidade” o almoço foi o mais descontraído possível: gambas cozidas – uma delícia – e sardinhas assadas”. Traje: mangas de camisa. Ali ninguém suportaria esquisitices de sedas!
Bem vista a descontração e o à vontade com que todos se falavam, sem que houvesse chefes, nosso amigo marinheiro decidiu: no fim da comissão não voltaria para Lisboa. Em Luanda vive-se melhor!
Um dia lá foi de férias e aproveitou para fazer algum tipo de curso ou “improvement” na sua especialidade, e quando voltou, encontrámo-nos e diz-me com ar bem descontraído:
- Agora diz aos teus filhos podem quebrar o que quiserem. Eu venho a endireitar muito bem!”
Rimo-nos, mas creio que não precisámos daquela ciência. Os filhos continuaram inteiros.
Entretanto fui para Moçambique, em 1971, e nunca mais o vi,
Um abraço, Carlos Vilão, e se ainda tiveres força, continua a endireitar os alquebrados!

05/05/2018