sábado, 5 de maio de 2018

 

PROLEGÓMENOS e AMIGOS – 2


De acordo com a Wikipédia, Santo (do termo latino sanctu, "estabelecido segundo a lei", "que se tornou sagrado") é tudo aquilo que é sagrado, ou seja, que está conforme com os preceitos religiosos e a divindade. Para o cristianismo católico, "santo" é todo aquele que já está no céu, junto de Deus, aguardando a parusia (segunda vinda de Cristo).
É aquele que “por obras valerosas se vai da lei da morte libertando”, obras de valor fraterno, social, desinteressado, enfim, ético.
Vamos falar um pouco de alguns destes homens, um dos quais se não foi santificado por Roma, foi com certeza por centenas ou milhares de jovens de quem ele cuidou com total dedicação, total doação de si mesmo, e um carinho de grande pai.
Mas a verdade é que
eu conheci um Santo!
Já escrevi várias vezes sobre tão grande amigo. Mas como estou sempre a recordá-lo, “converso” um pouco mais com a escrita, mesmo sabendo que me estou, com certeza, a repetir. Mas...
Conheci-o em 1971, quando fui para Lourenço Marques. Já tinha estado, desde 1967 em contato com a Casa dos Rapazes de Luanda, a quem dei um pouco do meu tempo e alguma ajuda, que recebíamos em dobro porque os nossos filhos se habituaram a compartilhar o que tinham com os mais de cem garotos que ali viviam.
Ao chegarmos a Moçambique procurámos saber se havia alguma obra semelhante e, mesmo que diferisse em muitos aspetos, lá estava já a Casa do Gaiato, Obra da Rua, fundada pelo Padre Américo.
Na primeira oportunidade fomos visitá-la, levando os filhos, e logo ficámos atraídos por aquela Grande Obra.
Naquela altura, partindo do zero em 1968 com um pedaço de terreno, tinha já magníficas instalações para todos, oficinas, horta, etc.
Os nossos filhos, os menores, não se cansavam das brincadeiras com aqueles meninos moçambicanos, órfãos ou abandonados, e até custou a de lá sairmos.
Logo me comprometi a fazer alguma coisa que estivesse ao meu alcance para ajudar na construção e manutenção da Obra e uma amizade muito especial se criou com o seu responsável, o meu muito querido e muito admirado amigo Padre José Maria Ferreira Costa.
Um Homem duma humildade que nos envergonhava, trabalhador incansável, uma figura Maior.
Foram três anos de colaboração, pequena, porque nos dedicámos a diversas outras coisas, mas que marcou profundamente uma amizade profunda.
Chegou a independência, o marxismo, a intolerância, e acabaram com a obra, entregando toda aquela infraestrutura ao comando da polícia. E assim os garotos foram devolvidos às ruas!
Padre Zé foi para Portugal. Não se adaptou. Foi para o Brasil onde voltámos a ter o privilégio de, mesmo poucas vezes, o tornarmos a ter conosco. O Brasil foi a mentira e corrupção que, endémica, teima em prevalecer, uma inflação monstruosa e, já dedicado a jovens de rua, precisava de dinheiro para prosseguir. Surgiam promessas de milhões, mas quando o dinheiro chegava à conta já não valia nada.
O Presidente de Moçambique e o Arcebispo de Maputo lembraram-se então que a Obra da Rua merecia todo o apoio possível, fazia muita falta e Padre Zé volta em 1991, para começar tudo de novo.
Em pouco tempo a Casa já tinha mais de uma centena de jovens abandonados e logo ultrapassou os cento e sessenta. Dormitórios, escola, oficinas, horta, pomar, galinheiros e pocilgas, pivot de rega, consultório, e diversas creches fora do terreno da Casa, construção de casas para velhinhos que haviam tudo perdido com as cheias, mais creches e postos de saúde, a tudo o Padre Zé, com a sua dedicação e uma humildade que só os Grandes alcançam, com o formidável apoio da Irmã Quitéria, a tudo dava o seu saber.
Lá estive em 2001, e gostaria de repetir.
Para os garotos da Casa era um grande Pai.
Com a idade a saúde foi-se deteriorando, mas não baixou, nunca, os braços. Tinha uma imensa Obra sobre as costas. Mas a passagem pela terra não dura para sempre. 
“Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos”.
Além da muita admiração e profundo respeito pela sua dedicação, aliás doação total da sua vida, uma amizade muito profunda nos unia, certamente fruto da minha pequenez face à grandeza da alma deste irmão.
Lembro com imensa saudade ver o Padre Zé, aos domingos, na linda capela que ele projetou e lá está na Casa de Moçambique, fazer a homilia para aqueles fiéis moçambicanos que mal falavam português. Padre Zé, sem nunca ter perdido o seu sotaque do norte de Portugal, voz baixa, sem microfone, sempre um ar humilíssimo, imensa simplicidade, falava àquele povo que o ouvia em profundo e respeitoso silêncio, sem possivelmente entender o que ele dizia. Não precisavam entender. Na frente deles estava um homem de Deus, que os amava, e daquela alma, daquela boca, só podiam sair palavras que os abraçava a todos, no mesmo abraço fraternal, no abraço do Cristo que os amava. A bondade em forma de gente. Homem que deveria ser canonizado.
Não era franciscano, mas um outro Poverello.

Padre José Maria no Rio, em 2014

Para muitos, muitos, que o conheceram, já é um Santo, e um Santo Maior.
A vida segue. Mas o Padre Zé continua a fazer muita falta.

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Em 1963 chegaram a Luanda os Cursos de Cristandade e pra os orientar um homem, na altura com trinta e alguns anos, aquela energia e alergia contagiante dos bascos, um carisma e uma simpatia, que lhe mereceu, como já contei, de um dos maiores músicos da Guatemala, o nome de Trotamundo Vasco!
Correu, atrás dos que queriam ser mais cristãos, daqueles que se entusiasmaram com a tão simples palavra de Cristo, e com tudo isto ganhou milhares de novos amigos.
Guardo com imensa gratidão e saudade a amizade que nos uniu tão profundamente.
Por duas vezes fomos visitá-lo em sua casa em Vitoria-Gasteiz, Alava, Espanha, e de uma das vezes fez questão de ficar em casa de uma irmã e dispensar-nos o seu apartamento.
Quando saíamos para almoçar ou jantar, fazia questão que nos fosse servido sempre um vinho especial, não pelo preço, mas pela qualidade que ele conhecia.
Com o seu amigo Antonio, levou-nos a visitar diversas localidades, entre elas Loyola, terra de Santo Inácio.
Na estrada rezávamos Dios te salve Maria... e, findo o terço, as conversas eram sempre alegres. Aí por 1965, na primeira visita a Vitoria, apresentou-nos o pai, um basco durão! Fora toda a vida construtor de cangas para bois, e considerado o melhor. Fomos vê-lo em sua casa. Sentado numa cadeira em frente da televisão, de costas para a porta, boina basca na cabeça, o filho diz-lhe: Padre. Aquí son nuestros invitados. Resposta do senhor, sem voltar a cabeça: Olá.
Muito rimos.
Não era um franciscano, mas o tipo de São Paulo, lutador incansável.
Já muito escrevi sobre Don Vitoriano Arizti. Mas é dos amigos que jamais poderia esquecer.

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Mais uma figura que marcou as nossas vidas. Também sobre ela já escrevi, mas hoje decidi juntar na mesma crónica, uma pequena lembrança daqueles que nos deixaram, e marcaram as nossas vidas, através da Sua palavra e das suas atitudes
Há menos de dois anos escrevi sobre este Homem que aguentou estoicamente o tempo colonial e quando viu o seu país, Angola, aceder à independência, o seu sofrimento aumentou muito.
D. Eduardo André Muaca, nasceu em Cabinda em 1924. Em 1970, o Papa Paulo VI nomeou-o bispo auxiliar de Luanda, sendo o primeiro padre oriundo de Angola a ser ordenado bispo, depois arcebispo de Luanda, quando padeceu nas mãos da ortodoxia soviética angolana.
Ele mesmo me contou o quanto foi difícil a perseguição à Igreja Católica.
Presidiu à Conferência Episcopal de Angola durante uma década e em 1985 pediu ao Papa João Paulo II a renúncia do cargo por motivos de saúde. Ainda o procurei em Portugal, mas tinha saído não lembro já para onde, e quando fui a Luanda, em 1991 por um quarto de hora também não o consegui ver. Tinha acabado de sair para Cabinda. Dois abraços que ficaram por dar. E perder o abraço dum amigo que se estima muito e admira... custa.

Dom Eduardo Muaca, ainda cónego, 1967, 43 anos, cara de jovem!

"Figura de grandioso relevo da Igreja em Angola", é como o definiu na altura o bispo auxiliar de Luanda. Uma inteligência profunda e serena. Um africano autêntico com uma roupa branca.

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Em 1946, por bom e tranquilo comportamento, fui convidado a sair do Liceu Pedro Nunes, costuma dizer-se, expulso! Em Lisboa. Estava no 4º ano (hoje a 8ª série?).
Tinha perdido o meu Pai nos finais de 43, a família decidiu espalhar-nos por colégios diferentes – costumamos chamar-lhe “a diápora dos Amorins” – o ano de letivo 44/45 passei-o em Santo Tirso, e me dei muito mal com aquela gente, saindo de lá mais bravo do que entrara, voltei ao Liceu, e em Fevereiro de 46 perdi o meu irmão mais velho, o Luis, que era quase o único com quem conversava, sensato, tranquilo, que eu, muitas vezes ouvia.
Fiquei sem “porto de abrigo” e comecei a ser um rebelde. Não estudava, faltava às aulas e ia jogar bilhar (sou péssimo no bilhar), dava uns tapas nuns meninos metidos a gostosos, também não perdia uma brigazinha com estudantes de outros estabelecimentos e quando se fez a fotografia da minha classe com os professores, tudo muito bonitinho, eu, na frente fiquei ostensivamente a fazer um grande manguito.
Parece que os professores não gostaram, nem o reitor do Liceu que fez bem em afastar este “perigoso” elemento!
Meio perdido, apresentaram-me a um padre, Diogo Crespo, excelente pessoa, creio que franciscano, chefe de redação da revista FLAMA, revista da Juventude Escola Católica.
O exemplar mais antigo que encontrei na Internet – 21-Maio-1951

São passados 72 anos mas recordo-o com alguma precisão, com hábito de frade menor. Alto (eu ainda era bem cambuta), simpático, decidiu “tomar conta de mim” durante algum tempo. Lembro bem de ir visitar a gráfica onde se imprimia a revista, onde eu ficava um bom tempo entusiasmado a ver tudo aquilo, grandes máquinas pelo agora um tanto obsoleto sistema de heliogravura em chapas de cobre!
Depois saíamos e andávamos um bocado pela cidade... conversando, já não sei sobre o que.
A verdade é que baixou a minha “reguilice” e voltei a ser uma pessoa... quase normal.
Saudade, padre Crespo.

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Já no Brasil, e sobretudo no Rio de Janeiro foi difícil envolver-me com algum grupo católico que se deixasse de lamúrias e partisse para a ação. Tentei várias hipóteses, mas não estava disposto, nem estou, para perder tempo com conversa mole.
Mesmo a igreja onde costumava ir à Missa decidiu arranjar uma banda de música, tipo rock-and-roll para tocar em algumas partes da Missa. Uma barulheira horrível que ecoava no amplo recinto da igreja, aquilo configurou no meu espírito, talvez um pouco, ou muito, arcaico, uma palhaçada.
Passei a ir a uma capela numa pequena casa de freiras carmelitas, relativamente perto de nossa casa, onde a Missa era celebrada com dignidade.
Um dia surgiu um novo padre. Novo na capela, um padre desempoeirado, com sotaque estrangeiro, uns sessenta e pouco anos, forte alto... um pouco de barriga a mais, mas que sabia que a Missa era um momento de elevação e meditação.
Gostei do senhor e um dia, finda a Missa fui procurá-lo. Comecei por lhe perguntar como se chamava:
“Já que pergunta, é Jacques”!  Gostei, e voltei com outra pergunta::”O senhor quer dar-nos o prazer de almoçar conosco uma destes dias?” - “Quando?”- “Quando quiser.”
Abriu uma pequena agenda olhou e disse: “Quarta feira!” – “Combinado.”
Lá me disse onde devia ir buscá-lo e tudo começou a correr normalmente.
Passou a vir a nossa casa, talvez de quinze em quinze dias, holandês, estava no Brasil desde os anos 60, culto, alegre, um bom companheiro e um bom garfo.
Eram almoços deliciosos, porque a conversa corria, boa e alegre.
Sempre convidava o meu grande amigo Alberto Borges para estar também presente, o que ele não perdia.
Um dia o almoço era rabada de boi. Estava também o Luis, filho, que já tinha terminado o seu prato e o padre Jacques tinha o dele cheio de pequenos ossos. Não fez cerimónia. “Luis, posso por estes ossos no teu prato?”
Foi um bom companheiro.
Entretanto fomos à Europa e no regresso estranhei não o ver. Tinha tido um AVC e estava inutilizado.
Mais outro amigo que partira.

5/5/18



terça-feira, 1 de maio de 2018


 

PROLEGÓMENOS e AMIGOS - 1



Vi-me grego para descobrir uma palavra, já descoberta pelos gregos, que significasse “o que dizer antes do que se vai dizer”. Aí está. Complicado, mas é isto. Prolegómenos.
Tal como as “falas” complicadas que Cervantes põe na boca de Dom Quixote, cavalheirescas ou cavalheirosas, ou como o complexo há pouco descoberto de se não poder falar da descoberta do Brasil, porque já estava descoberta pelos índios; achamento foi a palavra que Caminha achou que ficava melhor. Encontro, também não parece ser o indicado, porque poderia parecer algo pré-combinado com, sei lá, talvez um Caramuru qualquer, para que um dia por aqui se encontrassem, daí que, para acabar com essas polêmicas semânticas, sugiro que agora em diante se diga e se ensine que o Cabral, no seu trânsito (palavra adequada, e hodierna, esta) para a Índia, se deparou com uma terra, nova para ele, e não para quem lá vivia ou tinha estado antes e lhe deu as dicas para que ali fosse meter água.
Passaria a ser o Deparamento do Brasil!
Que isto de semântica tem muito a ver com o que se lhe diga!
No meu tempo, apesar de ser eu ainda deste tempo de hoje, mas deslocado, havia umas quantas palavras que não eram citadas, por desnecessário. Faziam parte do nosso ser intrínseco como o foi mamar quando se nasce, não dizer palavrões em frente de pessoas crescidas ou de meninas, logo que se aprendem, cumprimentar respeitosamente os pais, avós, tios, professores, etc., enfim, aquilo que se poderia chamar trivial. Trivial é hoje saber cozinhar feijão, arroz e ovo frito, e coar café através duma meia. Suja de preferência, para não ter que lavar duas vezes.
O que isto tem a ver com Prolegómenos? Aguentem, nada de pressas, porque no que se vai falar depois do que aqui se diz antes, é sobre algumas pessoas que conheci e conheço de quem pretendo fazer um rápido retrato.
Porque algumas dessas palavras que então se não usavam, hoje simplesmente se ignoram, tais como respeito, dignidade, humildade, pobreza de espírito que não se deve confundir com atraso mental, e até amizade verdadeira, uma vez que esta foi ultrapassada e estratificada por valores contabilizáveis em bens, influência e poder político ou financeiro.
Alguns Mestres, e atenção que sempre distingo Mestres de mestres, aqueles os autênticos, na sua personalidade, qualidade e exemplo, doutores ou não; estes exatamente pelas mesmas qualidades, só que por míngua delas, doutores de canudo, que exibem ex-cátedra ciência falsa, imodesta e demagógica, que muito babaca, ignorante e não no termo de candomblé, aceita como verdadeiro.
Um dos Mestres dizia que tinha amigos e não amigos, sem que estes fossem inimigos; só que ainda não eram amigos”. Outro tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos, e este mesmo dizia ainda que enlouqueceria se morressem todos os meus amigos”.
Quanto pensamento bonito sobre o amigo, como este: “Nosso verdadeiro amigo é aquele que nada nos desculpa e tudo nos perdoa”. Até Camões se “atreveu” a dizer “Do certo e fido amigo é não temer nenhum perigo”.
Só há uma maneira de manter os amigos: vivos. É lembrá-los, estejam eles longe, já lá no mais longe, que o passar dos tempos vai aproximando, quer só afastados em espaço geográfico, ou mesmo os que estão por perto.
Quanto mais falamos neles, mais cimentamos essa amizade. Nenhum deles necessitaria de mais cimento, mas é sempre melhor pecar por excesso que por defeito.
Tudo isto parece brincadeira, mas falar de amigos é coisa que não pode ser feita com tristeza. Mesmo dos que já nos deixaram, porque o que ficou deles não foi tristeza, mas a muita alegria da amizade.
Um pequeno flash” de uns quantos.  Nada de biografias.
***
Em Luanda morava num prédio de esquina em frente da nossa casa. Num terceiro andar, com janelas viradas para a nossa rua. Ele, a mulher e os filhos, que continuam, quase meio século passado e já muitas décadas afastados, a sentirem-se irmãos. Os pais nossos irmãos e os filhos sobrinhos do fundo do coração.
Amigo desde toda a vida, era mais novo do que eu, dois dias!
No dia dos meus anos, ele esperava à janela para me ver sair de casa – trabalhava-se bem nesse tempo! – e gritava lá do alto:
- Eh! Pá! Ó Chico! Tás muito velho!
Muitos anos esta graça! E sempre este carinho.
Nesse dia costumava haver ou um jantar ou uma fadistice lá em nossa casa. Dois dias depois uma jantarada na casa dele.
Era muita canseira, praticamente os mesmos convidados e encontrámos uma ótima solução: fazer uma festa só, no dia do meio.
1969, lá em nossa casa, fez-se uma bela farra, com fados e cerveja a correr, que durou até o sol obrigar os últimos a irem embora, a pôr óculos de sol!
E um fadista se destacou. Igual ao Marceneiro. Sempre com uma ótima disposição, um amigo para todas as horas. Um grande parceiro.

1968

O grande Zé Perestrelo. O Perestrelão. Saudades. Um abraço, forte, lá para cima!

***

1961 – No último dia do ano, último dia de caça, que a seguir entrava o defeso, com o grande Zé Neto, fomos dar uma volta pelos arredores de Luanda. Caçámos um belo e velho antílope, macho solitário, sempre com carne saborosíssima.
Dia 4 de Janeiro, batizado de um dos nossos filhos. Uns quantos amigos se juntaram e ficaram para à noite comermos uma das pernas do dito antílope, cozinhado pelo grande cozinheiro Miguel – que um dia teve que ser dispensado porque, por vezes bebia o vinho que sempre estava arrumado na cozinha, para eu beber e para os cozinhados, e “esquecia-se” de fazer o almoço para as crianças (e já eram de meia dúzia) – grande Miguel, do alto do seu metro e cinquenta, e no máximo uns quarenta quilos de peso, sob orientação técnica dum belo livrinho de receitas que até hoje a dona da casa religiosamente guarda, esmerava-se no fogão.
A cena era simples. Miguel ar compenetrado e atento, perfilava-se para ouvir a dona da casa, que abria o livrinho, discursava a receita, uma vez só, e no fim perguntava:
- Miguel! Você ficou a saber? Não esqueceu nada?
- Sim, senhora. Não esqueceu.
E partia para a lide.
Pois a perna do bicho ficou uma delícia.
No fim do jantar, num lado da sala, uma mesa de canasta para as senhoras e na varanda outra de bridge para os homens. Esta teve nesse dia a personagem que operou o batismo. O padre António... (?), bom vivant, frequentador da alta sociedade, e... metido a esperto.
Seu parceiro numa das mãos um tio, sempre alegre, ótimo companheiro. Não era nenhum campeão de bridge, mesmo sendo muito melhor do que eu.
Começaram a perder, porque a dupla Zé Neto e Fernando Fezas jogavam a sério.
Padre António, irritado por estar a perder, começa a dar sentenças: “em vez de jogar a Dama devia ter jogado o Valete.” Pouco depois ao darem as vozes de marcação: “Em vez de três ouros devia ter marcado Três Sem Trunfo”, e outras semelhantes.
E continuou a encher o saco do parceiro que de repente, já saturado, vira-se para ele e diz:
- Ó padre António, vá “berdamerda!” E logo a seguir solta uma daquelas suas gargalhadas, contagiosas, que só ele dava, deixando todo o mundo à gargalhada!
O padre António engoliu.
2006

Um copo à tua saúde de quase 95 anos.
Medalhista Olímpico de vela em Helsínquia, 1952.
Grande Francisco Rebelo de Andrade. O Xico d’Água!
***

O mestre do cavalheirismo! Gostava de jogar às cartas, mas sempre o fazia junto com as senhoras. Nunca jogava com os homens, porque, dizia ele, alguém tem que acompanhar as senhoras! Nunca se devem deixar sozinhas, o que é uma falta de educação! Muito simpático, amável, simples, todas as jogadoras “adoravam” tê-lo a jogar nas suas mesas. Não reclamava, era um parceiro ideal.
E tinha mais. A única pessoa que eu conheci que, no meio duma conversa entre amigos, todos numa roda, em pé, copo de whisky, cheio, na mão, encostava-se a uma janela, braço no parapeito e, devagarinho, ia fechando olhos até adormecer. E dormia bem, profundamente. De pé!
Mas o copo não caía da mão, nem entornava. Os amigos chegaram a pregar-lhe um susto, para ver como ele acordava. Serenamente abria os olhos e entrava na conversa como se tivesse estado sempre atento.


Um ótimo e alegre companheiro, que deixou saudade imensa. Lutou muito e foi vencido.
Grande Armando Avillez. A falta que faz.

***
Dois metros de altura! Dois metros de gente boa. Nem gordo, nem magro, mesmo já quando velhote.
Teria uns quarenta e poucos anos foi passar um ou dois meses em Angola, sócio da empresa representante das calculadoras Burroughs e, como acontecia com quase todos os que chegavam aquela terra, em breve estava apaixonado por ela (país!). Chegou a cogitar comprar uma pequena fazenda de café, para o que, após algumas consultas, nos deslocámos lá para os interiores do Uige! Havia um intermediário interessado em ganhar uns cobres, um pseudo vendedor de terrenos e o proprietário à nossa espera.

O intermediário, o proprietário, o pseudo vendedor e os dois metros de “cliente”

Ninguém sabia qual a área da fazenda, documentação era abaixo de provisória, o que significava que nada valia, acesso difícil, todo o mato para limpar, mas nada disso impediu que por lá déssemos uma volta.
Fez-se noite. O dono (?) do terreno tinha uma cabana de madeira, menos que tosca, e não tinha mais do que uma cama que, gentilmente, cedeu aos visitantes. Cama de corpo e meio, estreita, colchão de palha, enfim, comodidades de hotel de 5 estrelas... negativas!
O hipotético comprador disse logo que não dormia com outro homem! Eu. Mas não havia mais onde repousar o corpo. Decidiu-se então colocar as almofadas entre os dois e assim nos deitámos. O que sobrava era tão estreito que nem um de nós dormiu bem! E ele com os pés e um pouco das pernas que sobravam... para fora!
Não comprou a “fazenda”.
Caçador de perdizes e coelhos em Portugal, a caça em África era toda outra coisa, e logo o vício aflorou com força. Não lhe chegavam um ou outro fim de semana. Mesmo durante a semana queria ir fazer o gosto ao dedo.
A empresa tinha um pequeno furgão, pintado de amarelo agressivo, o que mais dava nas vistas.
Caça à noite com farolim era proibido, o que não impedia que muitos, ou quase todos, o fizessem.
Pois o nosso amigo mais do que uma vez, vinha até nossa casa, aí pelos nove da noite, rua sossegada, ninguém à vista, tocava ao de leve a buzina e sem sair do carro:
- Chico! Vamos ali à estrada de Catete matar um javali!
- Olha: primeiro é proibido caçar de noite, pior numa estrada principal e terceiro os javalis não dão os olhos, não refletem a luz. Se queres podemos ir amanhã ao fim da tarde, eu saio um pouco mais cedo, mas só caçaremos até o sol se pôr.
Deixava o carro, entrava, conversámos um pouco e ele voltava para o hotel... desiludido!
Quando jovem chegou a estudar no Instituto de Agronomia, onde, no fim do ano letivo, sempre era organizada uma garraiada para os alunos demonstrarem as suas qualidades tauromáquicas.
Logo inscrito e convocado com “espada” ou “bandarilheiro”, entrou na arena, em Vila Franca de Xira, e fez uns passes que mereceram aplausos.
Não tardou a que os espectadores vissem nele a figura do mais famoso “matador” daquele tempo: o espanhol Manolete, e animados, começaram a aplaudir e chamar-lhe “Manolete”.
Ficou famoso! E até ao fim da longa vida, ficou sendo chamado de Xico Manolete.
Grande (mesmo) Xico Manolete. Francisco Andrade e Sousa.
Um companheiro sempre tranquilamente alegre, dois metros de simpatia. 

13/04/2018


quinta-feira, 26 de abril de 2018





Já lá vão 20 anos!. Há dias descobri esta pérola entre muita papelada que tenho guardada e que, vai dando de comer aos cupins e/ou salalés e/ou carunchos papelíferos.
Parece mentira, mas eu lembro de ter vitsto esta tão erudita revista que, qualquer dia, ainda vai aparecer por aqui meia roída!
E, no meu sentimento de colaborar com a história e geografia universais, escrevi, na ocasião, a carta que segue.

11/Nov/98

Sr. Diretor da Revista FATOS

Um dos números dessa “prestigiosa” revista publicou um lisonjeiro e erudito artigo sobre Lisboa, que foi, com a EXPO 98, a Capital Mundial dos Oceanos.
Como há alguns ligeiros detalhes que convém retificar quanto ao dito artigo, muito grato ficarei se V.S. mandar publicar esta modesta colaboração.
Tem toda a razão o redator do artigo ao informar os leitores que em Lisboa a língua oficial é o português e que também se fala muito castelhano, que o país é banhado pelo Oceano Pacífico, que é uma cidade plana e quase todas as suas construções são em estilo gótico.
É uma análise sucinta, clara, fruto de um conhecimento profundo do local, e com isso o redator está de parabéns, porque para definir assim Lisboa é forçoso conhecer a história desta terra.
Muita gente sabe que Portugal sofreu profundas transformações depois da revolução de 25 de Abril de 1974, e aqui é que entra a genealidade do redator.
Permita-me, senhor Diretor que me alongue um pouco para poder corroborar com a descrição feita em sua revista.
Lisboa é uma cidade antiga. Muito antiga, mesmo. Mais antiga do que Brasília-DF, Jacarepaguá-RJ, São Vicente-SP e até Cafundó-MG.
No antigamente era uma cidade com sete colinas, mandadas amontoar por Ulisses (não o Guimarães), o seu presumível fundador, para recordar outra cidade e outras formas arrendondadas que lhe tinham marcado o coração: Roma, onde ao passar se enamorou pela rubicunda Cicciolina.
Foi um imenso trabalho, escravo, claro, só comparável à construção das Pirâmides da Armórica, que como se sabe, anos mais tarde o Napoleão levou para o Egito para conquistar com a Cleopatra, sem o Marlon Brando saber.
Falava-se em Lisboa, nos tempos primitivos, uma língua meio estranha, mas assim que foi incorporada a Portugal, depois de conquistada aos índios Sioux com a ajuda dos cruzados, não os do plano Samey, mas ingleses, normandos e alemães, a língua que predominou a partir dessa ocasião foi uma mistura de holandês, idish e carolíngio.
Depois do 25 de Abril, a revolução que levou o país à democracia, tudo ali se transformou, começando pela língua que uma lei determinou, depois de consultados os lisboetas, que devia ser uma mistura de português e espanhol com vista à futura integração do país numa Espanha unida. (Ainda está um quanto desunida mas o tempo é o melhor remédio). Por isso é que a língua oficial é o português.
Mandaram também os revolucionários socialistas nivelar toda a cidade para que não subsistissem diferenças de nível entre os moradores das partes altas e baixas, tendendo-se assim para uma completa eliminação das chamadas classes dominantes em alturas.
Logo a seguir houve aquele horrível fogo que destruiu uma importante e antiga parte da cidade, e o então Presidente da Câmara - no Brasil leia-se Prefeito – aproveitou para baixar outra lei dizendo que tudo quanto se construísse ou reconstruísse dali para a frente teria que ser em estilo gótico, para condizer com o Centro Comercial das Amoreiras, de si uma obra prima do século XV (leia-se quinze). Infelizmente ficaram a destoar ainda alguns monumentos, como o Mosteiro dos Jerónimos, mandado construir pelo próprio Ulisses e financiado pelo Papa João XXI (21, e era português) em estilo grego clássico, mas agora com o apoio da Unesco vai ser todo demolido e reconstruído com a traça gótica do redator da sua revista. Finalmente quanto ao mar que banha a costa de Portugal também está muito bem observado ser o Oceano Pacífico, ligado ao Atlântico através do Estreito de Gibraltar.
Outra histórica decisão revolucionária mantida até hoje em total secretismo, porque dantes quem banhava a costa de Portugal era, alternadamente o Oceano Índico, quando as naus retomavam de Calicut, Malaca e outras aventuras, e o Ártico, na volta dos navios bacalhoeiros. Estes dois oceanos ligavam-se entre si através do Estreito de Malaca, que mais tarde, após a independência do Uruguai se denominou Skagerak. Hoje em dia com os conhecimentos precisos que os satélites nos proporcionam retificou-se toda esta confusão geográfica, e passou a definir-se, inclusivamente para os estudantes, que quem banha Lisboa é de fato um Pacífico Oceano, uma vez que já não há receios de revolucionárias inquietações, e a sua ligação ao Atlântico faz-se, não mais através do Estreito de Gibraltar, mas sim pelo estuário do Tejo, entrecortado com algumas pontes que foram construídas ainda no tempo dos celtas, sobretudo aquela compridona que sai do Poço do Bispo (onde o antigo bispo escondia a grana surripiada aos infiéis) para o Além Tejo, a parte montanhosa de Portugal, onde se pode skiar o ano inteiro, lugar duma tribo ainda com falar próprio, os Alentejanos, onde o decreto da língua unificada ainda não consegui implantar-se. Interessante também como o redator se lembrou de referir o Marquês de Pombal que mandou reconstruir 2/3 da cidade que ficaram destruídos depois da II Guerra Mundial. Foi ele, sim, mas que como era nazista, e depois da guerra isso era mal visto, e ainda por cima a Dª Maria, a 1a governanta do Salazar não gostava dele, quem ficou com a fama, indevida, foi o General Marshall, que no seu gabinete em Washington assinou todos os projetos de saneamento, inclusive o que saneou mais tarde o Marcelo Caetano e o General Spínola.
Para finalizar, o Estreito de Gibraltar, que como todos sabem fica na costa da Groelandia, hoje em dia só serve para separar a Espanha da Grã Bretanha, tal com as Falklands ou Malvinas, situadas no Mar de Bhering, separam este país do Peru. Parabéns, senhor Diretor, pelo nível de conhecimentos do seu redator. Peço que perdoe este meu atrevimento que não teve outra intenção que não fosse complementar, com alguns detalhes simples, as informações concisas da sua revista. Continue a informar assim os seus leitores que de outro modo serão sempre uns ignorantes em geografia e história, e com a precisão dos dados apresentados vão se extasiar ao visitar as suas cidades encantadas. Cumprimentos

Francisco G. de Amorim



domingo, 22 de abril de 2018



Algumas leituras – 3

ANGOLA – O dia a dia de um embaixador

Tenho lido muito livro, e tenho tido sempre (quase!) o cuidado de escolher aqueles que me parecem bons. Um dia vi anunciado um livro, “Mamma Angola”, editado em 2000, nome sugestivo, comprei. Escrito por um super professor, super mestre, super doutor e prefaciado por outro ainda mais doutorado, li-o com um doloroso amargo na goela e a que fiz profundas críticas. O autor tinha ido como cooperante, professor de economia, brasileiro, para Luanda “ensinar”. Do PCdoB, claro!
Malhei o quanto consegui, desmenti inúmeras falsidades e ataques aos portugueses, e até ressaltei uma afirmação do autor de que tinha convencido uns alunos a roubarem na biblioteca alguns documentos de que se orgulhava possuir por ter ficado com eles.  Como é de imaginar o super não respondeu, apesar de eu ter conseguido o email dele e da instituição onde lecionava. Lecionava? Enganava.
De vez em quando somos enganados pelas capas!
Desta vez, além da capa ser muito bonita e nos trazer uma imagem icónica (pleonasmo?) de Luanda, não me enganei. Nem podia. Conhecia o autor e mais, já me encantara com o seu modo de ser e escrever.
Mas fazer um comentário a um livro como este, além de extremamente difícil, é um atrevimento da minha parte. A ideia é que aqueles que lerem este texto, que conhecem ou conheceram, ou querem conhecer Angola, fiquem com vontade de encontrar o livro, esgotado, e que merece, muito, uma nova edição. Como já se está a pensar em editá-lo traduzido em inglês e, quem sabe, noutras línguas.
É uma aula de diplomacia, elegância e humor.
Devia ser livro obrigatório no ensino da história recente de Portugal. Na Faculdade de Letras, História, e Relações Internacionais... compulsivo!


Ler este livro, escrito durante um período extremamente difícil de Angola, além de ser grande aula sobre o comportamento de um diplomata, alterna a história do momento, com inigualáveis descrições de colegas e pessoal que ali conheceu, com um humor e respeito próprios dum espírito e educação elevados, como infelizmente é raro encontrar.
Levou-me a recordar amigos que conheci antes da independência e depois perdi de vista, a alguns outros com quem consegui manter e aumentar uma profunda amizade.
O autor esteve como embaixador em Angola de 1983 a 1988. Em Janeiro de 91 eu fui duas vezes a Angola quando trabalhava para uma empresa espanhola de projetos de engenharia e pescas.  Fui lá encontrar exatamente o ambiente que tão bem é retratado. Lê-lo foi reviver essa experiência, que teve até tiroteio em frente ao hotel onde me hospedei!
Mas o António Pinto da França demonstra, em todas as páginas, um cuidado, sensibilidade e firmeza nas suas atitudes perante a nova classe de dirigentes, inexperientes e arrogantes, pior ainda porque sob a pesada mão dos soviéticos e cubanos que, de entrada, se arvoraram em “donos do pedaço”, o medo e a subserviência não lhes permitia serem “eles mesmos”.
Com frequência, nos lembra que Cristo padeceu mas sempre amou até os seus algozes, são páginas que mostram que a humildade nada tem a ver com a firmeza do diplomata ao representar o seu país.
Logo de entrada nos diz que os angolanos vivem “apaixonados” por Portugal, somos a sua obsessão. Mas, como em todas as paixões violentas, também nesta se confundem sentimentos de amor e ódio. Grande mistura de politicagem. O coração de quase todos os angolanos permanecia com fortes saudades de Portugal e até dos portugueses. Os outros que para aqui vieram não falam a nossa língua e nos tratam como seres inferiores.
Exemplo edificante o do criado de mesa do embaixador da Suíça. Um humilde criado de mesa, independente de quem o suíço tivesse a jantar em sua casa, sempre servia em primeiro lugar, fosse quem fosse, um português. O embaixador já tinha deixado de insistir nas precedências, que nada o convencia a não proceder assim. Ele ficava na sua e passa sempre à frente de todos os outros convidados.
Os dirigentes angolanos estavam obrigatoriamente de relações cortadas com Portugal, pelo “apoio” dado à Unita e pela aversão de Mário Soares, então primeiro ministro, aos soviéticos. Além disso os “donos” do 25 de Abril, o PCP, eram quem escolhia os cooperantes, cuja missão parecia ser também o azedar as relações entre os dois países. Se o governo angolano abrisse bem as portas a Portugal o PCP perdia a razão de existir, e os soviéticos e cubanos a sua dominação, que passaria para o eixo Europa – EUA. A luta política era difícil, e por estranho e vergonha que pareça, quem mais dificultava esse diálogo eram esses pseudo cooperantes portugueses e brasileiros como o caso do livro do brasileiro que acima refiro, que procuravam denegrir o passado português, envenenando e torpedeando as relações.
O nosso embaixador, sentiu isso profundamente, e relata-o de forma inequívoca.
Entretanto a cidade em total abandono. Os cubanos haviam extraviado o plano de saneamento e os esgotos estavam completamente entupidos, vazando em inúmeros lugares da cidade, exalando cheiros nauseabundos. Uma tremenda falta de alimentos, medicamentos e outros bens essenciais.
O angolano, sempre com o seu brilhante jogo de cintura ia resolvendo o problema assaltando, roubando, os contentores que chegavam ao país, e nos mercados “paralelos”, uns acampamentos gigantescos e caóticos, com nomes bizarros – “Tira Cueca”, Ajuda Marido” e outros que deram origem a um que ficou famoso, com o nome da novela brasileira Roque Santeiro, vendiam de tudo. Desde medicamentos na caixa ou avulso, até eletrodomésticos e automóveis! Um caos.
Uma delícia são as descrições das personagens, que ele faz com um humor único, mas sempre envolvendo um tanto de carinho.
Convidado para um jantar dos Rotários, “sentaram-no entre o Presidente e a sua “Ana”, designação que o manual da instituição determina que assim se chamem todas as consortes dos rotários, em nostálgica homenagem à mulher do fundador que assim se chamava!”  E descreve: “esta “Ana” é uma daquelas mulheres que rebentam das ancas estreitas, numa girândola de carnes ebúrneas contidas pela cabeça, que quase afogam.”
Num dos aniversários das FAPLA houve parada. “Como os convites nunca chegam a tempo ou se extraviam, poucos eram os Chefes de Missão presentes. Não obstante a tribuna diplomática, um estrado, como sempre ao sol, estava a abarrotar de altas patentes russas e cubanas. Vi-os enfim, personagens mitológicas, que vivem reclusos no Olimpo. São eles que na sombra puxam os cordelinhos da guerra e da política desta desgraçada Angola. Estavam em massa, os corpulentos generais soviéticos, esplendidamente uniformizados, carregados de galões dourados, cada um com seu interprete privativo, acolitados por coronéis igualmente marciais.”
Recepção das “celebrações da Tomada da Bastilha! No mostruário dos diplomatas franceses perfilados para nos acolher... o embaixador, sempre excêntrico, atrevido e esticadinho. Num smoking em “lamé” cinzento de largas bandas negras, “toilette” talvez amorosamente combinada com a amante zambiana que lá dentro se rebolava num smoking igualmente “pailleté”, este em tons vermelhos. Imaginei-os logo à noite, de regresso a casa, na intimidade da alcova a dançar, gloriosos, um sapateado desenfreado, antes de caírem no tálamo entre Champagne e risos estridentes...” Maravilha!
A descrição que faz de um personagem emblemático, inglês que vivia em Luanda desde 1925, o senhor Frank Hollis, que eu, como todos os que ali viveram no tempo colonial conhecemos bem, é, como as outras, antológica.
O autor, que havia estado em Angola no início dos anos sessenta a cumprir serviço militar, já havia sido “mordido” pelo mesmo bichinho que mordeu a todos (ou quase todos) que por lá passaram, e não esqueceram, nem esquecem aquela terra e suas gentes. Além de que tinha por lá profundas raízes que começam com uma avó que nasceu em Moçamedes, até ao pai, engenheiro civil, que em 1949 projetou a captação de águas do Bengo para Luanda, cujo nome ainda hoje é reconhecido pelo belo trabalho que fez.
Já nesse tempo penetrou fundo na alma do povo, quer fosse o nativo como os portugueses que se tinham dedicado de alma e coração ao desenvolvimento do país.
Veio, como embaixador, a confirmar “a grandiosidade do trabalho das Missões, católicas ou protestantes, em África. Souberam abrir o mundo aos que por eles passaram sem lhes bulir com a identidade. Também aqui os mais articulados, aqueles que melhor se assumem como africanos, são os que frequentaram as Missões.
Aproxima-se a hora de deixar o posto. No Natal soube onde o Cardeal Arcebispo Dom Alexandre ia celebrar a Missa do Galo e informou que queria estar presente. Igreja de São Paulo, apinhada. Ao entrarmos fomos acolhidos por um grupo de mulheres com a dignidade de matriarcas, envergando as suas melhores roupas, todas com as fitas e medalhas das Filhas de Maria ao pescoço. Nós éramos os únicos europeus no meio daqueles angolanos. Conduziram-nos solenemente aos lugares que nos haviam preparado. Num dos bancos da frente haviam colocado duas almofadas de veludo vermelho e na balaustrada uma colcha de damasco da mesma cor. Enquanto se aguardava a chegada do Cardeal o pároco exultava a assembleia a cantar. Desnecessário porque só queriam mesmo era cantar. Entretanto o pároco interrompeu para lhe anunciar: “Temos conosco o embaixador de Portugal”. Logo toda aquela gente irrompe numa imensa salva de palmas.”
Depois começam as despedidas. Aqueles membros do governo que de entrada estavam “proibidos” de o visitarem eram agora quem o convidavam para suas casas “recebendo-nos com a maior familiaridade, deixando vir ao de cimo os afectos que os une ao “Puto”.
O final da estadia foi uma celebração ao estreitamento das relações que tão deterioradas estavam.
O secretário de Estado da Cultura abriu a exposição de aguarelas que a Sofia, senhora embaixatriz, pintara durante o tempo que passou em Luanda. Essas aguarelas guardaram boa parte do património construído na capital de Angola, algum quase em ruinas.
E tanto se interessaram pelo trabalho que pediram depois autorização para com algumas delas fazerem nova emissão de selos!
O remate vem com uma visão geral dos problemas que Angola enfrentou depois da Independência, com as veladas lutas pelo poder, com as interferências estrangeiras, com o dealbar do jeitinho e da corrupção, inevitáveis em todos os lugares do mundo, e com a continuação da guerra civil, com a Unita que só terminou em 2002!
Um livro a não perder. Um livro que os angolanos devem ler com muita atenção.
Enfim, um dos melhores livros que eu tenho lido.

19/04/2018

domingo, 15 de abril de 2018



Algumas leituras – 2


Que me perdoem os leitores, não só da página que há anos me concede o jornal Sol Português, de Toronto, e mais os deste blog, se vos impinjo alguns considerandos sob a capa de comentários a livros que (ainda) vou lendo, alguns dos quais me dão um prazer especial.
Se gostei, procuro compartilhar. Há, por certo, quem queira também se dar esse prazer.
No último texto falei sobre alguns livros de António Pinto da França, e voltarei a falar dele no próximo.
Desta vez só alguns detalhes sobre um autor que, muito mais do que escritor, foi toda a vida, e continua, já com largas décadas nos ombros, com o mesmo “bichinho” a desafiá-lo, um incansável, irrequieto trotamundo, sempre à procura de novas gentes, muito mais do que novas paisagens.
Desde garoto se meteu à aventura, viu o mundo abrir-se lhe e não perdeu tempo em o conhecer.
Andou à volta do globo, procurando em primeiro lugar conhecer as gentes, e por acréscimo, os lugares.
Escreveu primeiro um apanhado da sua inquieta ou irrequieta vida, a sua ânsia de mais e mais conhecer, a que deu um título que no Brasil seria “o bonde só passa uma vez; ou pega ou fica parado”, em Portugal poderia ser mais ou menos “mais vale um pássaro na mão...” em kikongo, algo parecido com “kwenda moki i kwenda luzi” que significa, em tradução livre “vendo é que se ganha experiência”! Certamente em todas as línguas haverá algum provérbio com o mesmo sentido que se pode adaptar ao seu livro.
O autor optou por aquele que mais configura o que foi sendo a sua vida:


E foi assim que agarrou dezenas de oportunidades que lhe foram passando à mão. Não deixou nunca o cavalo seguir sem o cavaleiro.
Desde o Magrebe a Moçambique e Angola, da Finlândia ao Monte Athos, a Montanha Sagrada na Grécia, e sobretudo ao Brasil com especial intenção de um dia poder visitar as regiões mais emblemáticas, como o Pantanal e a Amazónia.
Deu asas à sua curiosidade, inquiria, procurou viver, muitas vezes, do mesmo modo que os visitados, para os compreender e se fazer compreender.
O livro não é um “tratado” de literatura, mas é certamente uma lição de vida agitada, um contínuo aprendizado com novas gentes, o que nos deixa um pouco de amargo, para não dizer inveja de não termos podido também ter visto um Cavalo Encilhado nos passar tantas vezes à porta!
Curiosas, curiosas é palavra demasiado simplória, e muito interessantes observações nos transmite através das suas vivências, que nos fazem, de forma muito direta entrar em todos os lugares que visitou, como no meio de alguns povos indígenas, o que ajuda a compreendê-los melhor.
Tem um “quê” de Tratado de Geografia! Aprende-se muita coisa, em cada um dos lugares por onde andou.
São vivas as descrições que faz das igrejas/mosteiros gregos lá... plantados no alto de imensos rochedos, onde se revivem mil anos de história, a curiosa “notícia” duma igreja especial há meio século construída, uma maravilha da arquitetura, que em vez de sair do chão para as alturas, foi escavada num rochedo no centro de Helsínquia.
Igreja da Rocha - Temppeliaukio kirkko - em Helsínquia, na Finlândia

A travessia do deserto do Saara, numa expedição de aventureiros, quase nos faz colocar uma máscara para que não nos entre nos olhos aquelas areias.
O principal vem da magia da Amazónia. Milenar, mas novo. A vivência no meio dos índios, tudo isso contado com detalhes sempre de muito interesse.
E tanto a Amazónia lhe ficou a cutucar as idéias que um quarto de século mais tarde organiza uma expedição, a todos os títulos mais que louvável de que foi editado um livro contando toda essa imensa aventura. Leva-nos pelo interior da Amazónia, conta-nos dos seus contatos com os jovens das escolas por onde passou a dizer-lhes que a Amazónia é deles, brasileiros, porque Pedro Teixeira, em 1639, tomou posse de todas as terras visitadas em nome do Rei de Portugal, na altura Filipe III.
Distribuiu por todo o lado um pequeno livrinho dedicado às crianças, muito bem elaborado, contando a história do porquê a Amazónia é brasileira


O livro que relata toda a expedição, não é um livro de literatura. É um livro de história, de geografia, com sensíveis descrições dos contatos humanos, são lições de determinação e vontade, que define o autor e mentor como um trotamundo que parece imparável.



Quando vi anunciado o lançamento deste livro, em Portugal, escrevi a uns amigos perguntando como poderia comprá-lo. Não passou muito tempo recebo-o em casa com “um abraço” do autor que não conhecia.
Através da Editora escrevi-lhe um pequeno, comentário, que lhe chegou às mãos.
Quando me agradeceu começámos a descobrir que não nos tendo nunca encontrado, vivemos na mesma época em Luanda e São Paulo, tínhamos os mesmos amigos, e cada uma conhecia o outro, por ouvir falar dele, há mais de quarenta anos.
Precisámos dum encontro “ao vivo”. Aproveitámos a minha passagem por Portugal, e fomos dar o abraço da amizade “escondida” tantas décadas, num almoço em Lisboa, com dois amigos comuns de desde... sempre, bem aos pés do belo Padrão dos Descobrimentos.


Lugar com um simbolismo bem especial. A ambos correm nas veias alguns genes dos descobridores, irrequietos, desejosos de ver novos mundos e novas gentes. De viajar. De não estarmos quietos.
Foi um belo abraço. De amigos há meio século que nunca se tinham abraçado!
E aqui fica outro, António de Bacelar Carrelhas.

15/04/2018