domingo, 15 de abril de 2018



Algumas leituras – 2


Que me perdoem os leitores, não só da página que há anos me concede o jornal Sol Português, de Toronto, e mais os deste blog, se vos impinjo alguns considerandos sob a capa de comentários a livros que (ainda) vou lendo, alguns dos quais me dão um prazer especial.
Se gostei, procuro compartilhar. Há, por certo, quem queira também se dar esse prazer.
No último texto falei sobre alguns livros de António Pinto da França, e voltarei a falar dele no próximo.
Desta vez só alguns detalhes sobre um autor que, muito mais do que escritor, foi toda a vida, e continua, já com largas décadas nos ombros, com o mesmo “bichinho” a desafiá-lo, um incansável, irrequieto trotamundo, sempre à procura de novas gentes, muito mais do que novas paisagens.
Desde garoto se meteu à aventura, viu o mundo abrir-se lhe e não perdeu tempo em o conhecer.
Andou à volta do globo, procurando em primeiro lugar conhecer as gentes, e por acréscimo, os lugares.
Escreveu primeiro um apanhado da sua inquieta ou irrequieta vida, a sua ânsia de mais e mais conhecer, a que deu um título que no Brasil seria “o bonde só passa uma vez; ou pega ou fica parado”, em Portugal poderia ser mais ou menos “mais vale um pássaro na mão...” em kikongo, algo parecido com “kwenda moki i kwenda luzi” que significa, em tradução livre “vendo é que se ganha experiência”! Certamente em todas as línguas haverá algum provérbio com o mesmo sentido que se pode adaptar ao seu livro.
O autor optou por aquele que mais configura o que foi sendo a sua vida:


E foi assim que agarrou dezenas de oportunidades que lhe foram passando à mão. Não deixou nunca o cavalo seguir sem o cavaleiro.
Desde o Magrebe a Moçambique e Angola, da Finlândia ao Monte Athos, a Montanha Sagrada na Grécia, e sobretudo ao Brasil com especial intenção de um dia poder visitar as regiões mais emblemáticas, como o Pantanal e a Amazónia.
Deu asas à sua curiosidade, inquiria, procurou viver, muitas vezes, do mesmo modo que os visitados, para os compreender e se fazer compreender.
O livro não é um “tratado” de literatura, mas é certamente uma lição de vida agitada, um contínuo aprendizado com novas gentes, o que nos deixa um pouco de amargo, para não dizer inveja de não termos podido também ter visto um Cavalo Encilhado nos passar tantas vezes à porta!
Curiosas, curiosas é palavra demasiado simplória, e muito interessantes observações nos transmite através das suas vivências, que nos fazem, de forma muito direta entrar em todos os lugares que visitou, como no meio de alguns povos indígenas, o que ajuda a compreendê-los melhor.
Tem um “quê” de Tratado de Geografia! Aprende-se muita coisa, em cada um dos lugares por onde andou.
São vivas as descrições que faz das igrejas/mosteiros gregos lá... plantados no alto de imensos rochedos, onde se revivem mil anos de história, a curiosa “notícia” duma igreja especial há meio século construída, uma maravilha da arquitetura, que em vez de sair do chão para as alturas, foi escavada num rochedo no centro de Helsínquia.
Igreja da Rocha - Temppeliaukio kirkko - em Helsínquia, na Finlândia

A travessia do deserto do Saara, numa expedição de aventureiros, quase nos faz colocar uma máscara para que não nos entre nos olhos aquelas areias.
O principal vem da magia da Amazónia. Milenar, mas novo. A vivência no meio dos índios, tudo isso contado com detalhes sempre de muito interesse.
E tanto a Amazónia lhe ficou a cutucar as idéias que um quarto de século mais tarde organiza uma expedição, a todos os títulos mais que louvável de que foi editado um livro contando toda essa imensa aventura. Leva-nos pelo interior da Amazónia, conta-nos dos seus contatos com os jovens das escolas por onde passou a dizer-lhes que a Amazónia é deles, brasileiros, porque Pedro Teixeira, em 1639, tomou posse de todas as terras visitadas em nome do Rei de Portugal, na altura Filipe III.
Distribuiu por todo o lado um pequeno livrinho dedicado às crianças, muito bem elaborado, contando a história do porquê a Amazónia é brasileira


O livro que relata toda a expedição, não é um livro de literatura. É um livro de história, de geografia, com sensíveis descrições dos contatos humanos, são lições de determinação e vontade, que define o autor e mentor como um trotamundo que parece imparável.



Quando vi anunciado o lançamento deste livro, em Portugal, escrevi a uns amigos perguntando como poderia comprá-lo. Não passou muito tempo recebo-o em casa com “um abraço” do autor que não conhecia.
Através da Editora escrevi-lhe um pequeno, comentário, que lhe chegou às mãos.
Quando me agradeceu começámos a descobrir que não nos tendo nunca encontrado, vivemos na mesma época em Luanda e São Paulo, tínhamos os mesmos amigos, e cada uma conhecia o outro, por ouvir falar dele, há mais de quarenta anos.
Precisámos dum encontro “ao vivo”. Aproveitámos a minha passagem por Portugal, e fomos dar o abraço da amizade “escondida” tantas décadas, num almoço em Lisboa, com dois amigos comuns de desde... sempre, bem aos pés do belo Padrão dos Descobrimentos.


Lugar com um simbolismo bem especial. A ambos correm nas veias alguns genes dos descobridores, irrequietos, desejosos de ver novos mundos e novas gentes. De viajar. De não estarmos quietos.
Foi um belo abraço. De amigos há meio século que nunca se tinham abraçado!
E aqui fica outro, António de Bacelar Carrelhas.

15/04/2018

quarta-feira, 11 de abril de 2018


Algumas leituras -1

Como sabem, não sou um crítico literário, mas gosto, quando gosto da leitura, de fazer o meu comentário. Quando não gosto, ou deixo o livro pelo caminho ou jogo o imprestável no fogo. O livro é como um degrau: se é bom ajuda-nos a subir, se não presta, mais nos afunda. E não quero ajudar ninguém a se rebaixar!
Mas sempre há alguns livros que me “conquistam”, normalmente os relacionados com história, Romances ficam bem lá para trás, com exceção de raros como alguns de Camillo Castelo Branco e outros de padrão semelhante o que é raro, raríssimo.
Acabei de reler Em Tempos de Inocência” do meu querido amigo António Pinto da França, sobre a sua missão na Guiné entre 1977 e 1980, como embaixador de Portugal.

Guiné tornara-se independente há dois anos, tudo estava por fazer, organizar, uma tremenda falta de quadros, sem dinheiro, constantes faltas de alimentos, os “comissários”, à boa moda stalinesca perdidos e sem cultura, “procurando seguir os ideais marxistas, credo que lhes é contra natura. Pecados nossos! Teimando em fechar todas as portas aos Movimentos independentistas, empurrámo-los para os braços de Moscovo.” como escreveu o autor.
As descrições que faz sobre cerimónias oficiais, para o que não havia gente preparada para coordenar, como por exemplo “nas recepções e jantares é toda uma confusão de hesitações entre a gravata e a balalaica*. A mim nada disto escandaliza, inspira-me antes ternura e respeito por um povo que, com tantas dificuldades e falhas, se esforça por assumir os complexos desafios duma independência tão recente.”
Admiravelmente escrito, é um prazer contínuo a sua leitura, não só pela qualidade da escrita, mas por esta constante preocupação e compreensão dum povo simples, que quer continuar africano e apegado às suas raízes, como se quer ocidentalizar porque é daí que lhe virá o progresso.
O seu jeito africano, autêntico, de ser, amável, carinhoso, sorridente, acolhedor, tocam profundamente o mais íntimo do “Senhor Embaixador” que se mostra gratificado com a singeleza e as atenções daquela gente.
Observador perspicaz, tem algumas passagens em que se refere a colegas diplomatas, que são antológicas, como “a vampiríssima Madame Paquin, adjunta das Nações Unidas, matrona de olhos verdes com certo aspecto de patroa de casa de senhoras, reformada da profissão.”
Critica severamente a maioria dos portugueses cooperantes, aproveitadores do desregramento que vivia Lisboa, para ganharem um dinheirinho extra, inchados na sua condição de europeus frente a gente simples e que tanto necessitava de ajuda sincera e compreensão. E não eram só os portugueses. Numa pequena cidade no norte da Guiné viu numa “longa varanda do primeiro andar dum prédio colonial três paquidérmicas e louras figuras, uma mulher e dois homens, em camiseta e shorts, transpirados, debruçados, perdidos, num mundo em que nada acontece e que eles não compreendem. Três, cooperantes russos.”
(Em 1991 também presenciei figuras semelhantes. Maputo, ainda sob o controle-descontrole dos marxistas. À noite fui jantar, sozinho, como por lá andei, a um pequeno restaurante. Dentro só mais uma mesa ocupada com dois pares de nojentos paquidermes, louros, duas crianças a caminho de se empaquidermarem também, falando alto, bebendo cerveja, tratando o humilde funcionário que servia às mesas com uma arrogância de bestialidade doentia. Quando por fim este lhes levou a conta, insultaram o “preto” afirmavam que não tinham bebido tanto, enfim, mostraram quem mandava ali, e o pobre empregado nada dizia. Pagaram o que quiseram e saíram. Aquilo revoltou-me. A única forma de deixar o indivíduo menos triste foi dar-lhe uma gorjeta igual ao valor da despesa, que nada representava porque a desvalorização do Metical era absurda.)
Voltando à Guiné, sobram no livro exemplo das “cooperações”: uma arquiteta yougoslava, casada com um “comissário” do governo, apresentou um projeto para construção de uma nova aldeia para pescadores. Arquitetura à moda da Yougoslávia: casa construídas em tijolo, telhados de telhas, vários quartos, sala, banheiro, etc. Uma “beleza”, para substituir as tradicionais casas africanas, cujo custo é quase zero. Estas, só o projeto custaria 1500 escudos e a construção 900 contos! Para uma população que vive de subsistência, sobretudo da pesca artesanal, sem dinheiro, isto é mais do que absurdo! (Vi também projetos similares em Angola para agricultores, só que feito por cooperantes checos!)
Numa das praias dos Bijagós um hotel foi “construído” com umas pequenas cabanas, oferta de um país nórdico. Horrivelmente quentes, seriam de modelo usado para abrigos na montanha. Np frio.
(E isto também lembra coisas que presenciei em Angola. A Suécia, querendo colaborar com o desenvolvimento deste novo país, após a independência, mandou, como oferta, seis caminhões limpa neves! Era o que mais Angola necessitava!)
Talvez seja o mesmo país nórdico que depois encheu o governo da Guiné de automóveis Volvo, estes certamente pagos. E “tantos eram que a Guiné deixara de ser uma democracia para ser uma volvocracia!”
O autor demonstra, o tempo todo, um respeito e um imenso interesse pela cultura, tradições e ritos dos guineenses. Em todo o lado é recebido com o maior carinho, envolve-se com toda a sua simplicidade na contemplação e tentativa de compreensão dos povos simples.
A descrição que faz dos empregados da embaixada, e as suas constantes brincadeiras com eles, mostram bem a pureza do seu caráter, e o cuidado com que brincava com todos sem se dar “importância de europeu, nem de Sua Excelência”.

No outro seu livro “Cartas Baianas / 1821-1824” descreve o entusiasmo com que aceitou ser nomeado Consul Geral no Rio de Janeiro – 1974 – porque, entre muita outra coisa que ansiava conhecer, neste país onde viveram alguns dos seus antepassados, baianos senhores de engenho e militares, ia procurar estabelecer contato com uma imensa quantidade de primos, porque só um irmão de seu bisavô gerara 17 filhos.
A mesma constante procura, e mesmo cuidado e entendimento nas relações com todos os que o rodearam, características que demonstra de forma muito especial num outro livro “Influência Portuguesa na Indonésia”, livro mais que esgotado, mas que devia ser leitura obrigatória para todos os portugueses, e porque não?, para todos os que têm a língua portuguesa como língua nacional.
Nunca fiz um comentário sobre este livro, porque logo a seguir a o ter recebido de presente, do autor, este deixou-nos.
Comecei agora a ler “Angola – O dia a dia de um Embaixador”, outra pérola, para é angolano de coração e para quem aprecia um grande escritor.

Infelizmente, António Pinto da França já não está entre nós. Não é preciso tê-lo conhecido para o admirar e sentir que ali estava um caráter admirável, uma elevada educação e cultura e ao mesmo tempo sempre uma boa disposição e humor que contagiava. Um grande humanista. Um grande Senhor.
Felizes os que, como eu, o tiveram como amigo.

* Balalaica: tipo de casaco, de tecido leve, fresco, também conhecido como camisa safari.

08/04/2018

sexta-feira, 6 de abril de 2018



Notícias “quentes”

Bem sei que a maioria dos “pesquisadores” deste blog não são apreciadores de notícias chatas.
Mas para falar desta terra de onde o calor, teimosamente não se afasta é difícil dar notícias entusiasmantes, tais como seria inflação zero, juros bancários iguais aos da Dinamarca, seriedade na governança como a Suécia, etc.
Ao mesmo tempo as pessoas gostam de saber como se vive nestas bandas, sobretudo quando sabem que por aqui, sem opção de melhor escolha, continuam a lutar os amigos, e os desconhecidos, todos passando dos duzentos milhões.

O Banco Central baixou a taxa de juros para níveis quase milagrosos – 6,5% a.a. – e os generosos, os caritativos e beneficentes bancos cobram SÓ, no saldo do cartão de crédito não pago, algo em torno de 450%.Repetir para fixar: quatrocentos e cinquenta por cento ao ano! E deste modo são os bancos que batem os recordes mundiais de lucro. Mas não se preocupem comigo: dinheiro deles... não quero.

Os roubos explodem, afirma o jornal em grande manchete, sobre o que se passa na “cidade maravilhosa”! Quer dizer, só no Rio de Janeiro, fora o restante do país
- a pedestres: em 2004, 2.815 roubos; de Jan. a Mar 2018, 18.307, o que pressupõe 73.228 no ano
- de veículos: em 2001 4.347; 1º trim. 2018, 10.078; = 40.312 aa
- em ônibus: média 2003/4, 1.000; 2018, 2.088; =8.072 aa
- de caminhões de carga: em 2004, 571; 2018, 1.719;= 6.876 aa
- de caixas eletrónicos: 2003, 1 (um); 2018, 15; = 60 aa
- de celulares: em 2017, 1.315; 2018, 4210; =16.840 no ano.
Atenção: os números de 2018 são de um trimestre só, enquanto os dos anos anteriores são do ano todo.
Mas apresentamos a perspectiva, animadora, de como pode ser o resto do ano

Entretanto, neste ano só foram assassinados 32 policias... no Rio.

Todos os dias os jornais noticiam mais prisões de políticos: ontem, o perfeito de Cabedelo e mais cinco vereadores da camarilha, um municipiozinho na Paraíba com pouco mais de 60.000 habitantes, foram presos pela Polícia Federal. Só desviaram R$ 18 milhões. Uma mixaria. Dá só R$ 300 por munícipe!

Antes do STF se pronunciar pelo habeas corpus do insigne doutor honoris causa por coimbra, condenado, e confirmada a condenação a doze anos de xilindró, o Comandante do Exército “tuitou” um avisozinho simbólico: “ As F.A. estão atentas e não estão dispostas a permitir que se rasgue a Constituição, nem a aceitar a impunidade!”
O que foste dizer! A esquerda festiva zangou-se, xingou, o que não lhe deve ter feito qualquer diferença. Não se sabe que nomes lhe terão chamado, mas o mínimo foi de nazi. Eles queriam o honoris solto para continuar a roubar, mas... o que lhe vale é que ainda pode recorrer, tem direito ao embargo do recurso e ao recurso do embargo, e vide versa, como aconteceu com um ex-senador que roubou dos cofres públicos só uns cento e sessenta milhões (imagina quanto seria nos dias de hoje!), foi condenado à prisão em 1992, e ficou se pavoneando por aí porque, com aquela grana toda, os advogados foram interpondo recursos, embargos, vigarices, etc., - tudo de acordo e ao abrigo da lei que eles fazem! – num total de 36 recursos!

Tem por aqui um órgão do des-governo que se chama ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico.
Diz o jornal que o modelo adotado pela tal de ONS enlouqueceu. Na semana passada fez cair o preço da energia elétrica no Nordeste de R$ 229,53 para 40,16/MWh. Agora está a convocar as usinas termelétricas da mesma região para atender à demanda, ao preço de R$ 965,03. Viram para que serve o ONS? Eficiência, planificação e coerência!!!

Há poucos anos construíram-se dois teleféricos para servirem a população de duas áreas desfavorecidas do Rio: o Complexo do Alemão e o Morro da Providência, que custaram R$ 328 milhões e transportavam mais de 20.000 passageiros por dia. Como foi construção política ninguém pagava pelo transporte. Acabou a grana, e assim a manutenção. Fechou em Dezembro de 2016 e está no total abandono. E, como era de prever o pessoal tem lá ido buscar lampiões, cabos elétricos, etc. Depredar. Hoje são uma sucata.

Como é do conhecimento geral e mundial, o tal de sapo barbudo e deshonoris causa, parece, parece, que vai mesmo preso. Antes do douto veredicto final, as supremas e eternas eminências da altíssima magistratura discutiram, desavergonhadamente entre si, tudo passado na Tv. Mas como têm um linguajar próprio, erudito, ininteligível para o comum mortal, chamaram-se de distópico, disruptivo e, a mais linda palavra foi de teratológico. Achavam-se em concurso para representarem o Hamlet, procurando, pela ignominia... pulchra bello.
É evidente que estas palavras existem... em alguns dicionários, mas aqui para nós, são excrescências da língua.

O mais interessante é que foi expedida ordem de prisão, simpática, como é característica deste povo, convocando o facínora a se apresentar para ir em cana. Respondeu. Não vou. Se quiserem venham me buscar! O safado tem lá milhares de correligionários, cercando a casa onde ele se encontra e que se propõem afrontar a polícia.
A novela ainda vai dar muito que falar.
Aguardem os próximos capítulos.

Vocês já imaginaram o que teria sido se tivessem querido prender o Stalin, o Mao ou até o King Kong?

PS.- Prometo não voltar a falar de sujeira tão cedo!


06/04/18

segunda-feira, 2 de abril de 2018




Portugal
Um “rolé” - 3

Para falar verdade este “rolé” foi muito incompleto!
Três semanas em Portugal não foram, nem serão nunca, suficientes para cumprir qualquer programa que, aqui no desterro, levo anos a programar.
Sempre penso ir visitar ou revisitar amigos, localidades, sítios arqueológicos, passar uns dias no Alentejo, etc. e, raro consigo realizar esses sonhos.
Como desta vez. Num corre-corre nem houve tempo para sonhar.
Limitei-me a ir ao Porto e Póvoa de Varzim para onde sou atraído pelo outro Francisco Gomes de Amorim, o poeta, assim mesmo fui num dia à tarde e regressei a Lisboa 24 horas depois, graças aos comboios Lisboa-Porto que são muito confortáveis e baratos. Sobretudo para velhinhos!
Abracei no Porto três bons, muito bons, amigos e na Póvoa almoçámos, com dois outros amigos da Câmara e da Biblioteca num novo restaurante dentro da Fortaleza, que foi toda renovada e está uma beleza.

Olhem como está bonita por dentro. E por fora.

Bem sei que a Póvoa é um pouco longe de Lisboa, mas vale muito uma estadia por lá. Tem o que ver, praias lindas, comida... melhor nem falar nisso, e até casino! Imaginem que tem também uma avenida com o meu nome!!! Vale a pena visitar: a Fortaleza, as praias, o sítio do Terroso onde viveram há mais de 2.000 anos os nossos antepassados, que pertenciam ao povo veter antes de aí chegarem os túrdulos e bem antes dos suevos, godos e romanos! Conviveram com celtas/galácticos!
Desculpem, mas história é história.
E ainda podem por ali respirar, além do saudável ar do mar, a presença de Eça de Queiroz que lá nasceu, Garrett e muitos outros... como o meu biso FGA.
Uma frustração foi não ter conseguido encontrar-me com um colega de curso e muito amigo que, mesmo não estando de perfeita saúde, meteu-se no carro, andou mais de 200 quilómetros para nos vermos e... o “idiota” telefone celular não tocou para me dizer onde ele estava. Lá na Póvoa, quase ao meu lado e não nos vimos!
Também não consegui encaixar uma ida ao Algarve para estar com um outro colega – do mesmo nosso curso, que terminou há bem mais de sessenta anos com 25 finalistas e só sobram 3 em condições de saúde, mesmo precárias, mas ainda com a cabeça a funcionar... aos trancos e barrancos. Um velho amigo, angolano de gema, sobre quem escrevi no meu livro “Contos Peregrinos”, e que acabara de fazer 97 anos, e ainda uma grande amiga, como irmã, que não pôde ir a Lisboa porque a neta quebrou um pé!
Ocupei muitas horas a programar o “rolé” total, que deveria incluir um dia em Almodôvar, no Baixo Alentejo, para visitar o Museu da Escrita onde se encontram estelas com escrita cônia ou tartéssica (de outros antepassados do sul da Península Ibérica), ainda indecifráveis, com 2.500 a 2.700 anos.
  
Para quem gosta de história, e esta é história do povo português, é um prato cheio, como ainda a Estação Arqueológica Mesas do Castelinho, resíduos duma cidade fortificada com a mesma idade das estelas. Dos cônios, antepassados dos meus amigos algarvios!
Visitar, e admirar estas peças e locais transporta-nos para épocas longínquas, mas que são parte da nossa cultura!
O rolé incluiria ainda uma passagem por Évora, que continua, dentro das muralhas, a ser a cidade mais bonita de Portugal, e que tem uma gastronomia que faz inveja aos deuses e aos grandes chefs franceses que, por uma nota preta nos apresentam uma pétala cor de rosa com três pingos de um molho esquisito junto a 15 gramas duma carne disfarçada.
Programava uma ida ao Fialho, que conheço há mais de setenta anos, comer uma sopinha de beldroegas e um ensopado de borrego ou carne de porco à alentejana, mas... fiquei só com a água na boca!
A gente põe e Deus dispõe.
Nem sequer consegui ir comer os maravilhosos salmonetes grelhados para o que um amigo me tinha convidado. E tão perto de Lisboa. Ali, em Setúbal!
Mas trouxe da Europa três livros interessantíssimos (para mim) um em cada língua, para não perder o treino, e de que irei falar um pouco mais pradiantemente. Ainda não os li, com vagar, para os absorver bem. Dei só uma espiada:
 - Em tempos de Inocência – Um Diário da Guiné-Bissau, de António Pinto da França, um grande amigo que já nos deixou. Uma delícia de leitura.
- Los pueblos prerromanos da la Península Ibérica, de Manuel Salinas de Frias. Muito interessante.
- Through the Brazilian Wilderness, de Theodore Roosevelt. Como ele viu o Brasil, a Amazônia, em 1913-14.
Já comecei a fazer projetos para a próxima ida (!?!?!?), para o que têm que se conjugar dois fatores da maior relevância: o milagre de uma gorda loteria que permita satisfazer as despesas e ainda que sobre algum, e a composição do físico que, pelo contrário, já entrou, há anos, na fase de pré-decomposição.
Mas isto não impede sonhar.
“O sono é a imagem da morte, os sonhos são a imagem da vida. Cada um sonha como vive. Os sonhos são uma pintura muda, em que a imaginação, a portas fechadas e às escuras, retrata a vida e a alma de cada um, com as cores da sua ação, dos seus propósitos e desejos”. Pe. António Vieira
Mas a todos estes projetos/sonhos se interpõe, sempre, o sacramento da amizade, da família, que se concretiza com a palavra confraternizar! E a esse sacramente custa muito faltar.

02/04/18

segunda-feira, 26 de março de 2018


Portugal
Um “rolé” - 2

Ora bamos lá cum Deos!  Ainda falta um bocado para Portugal ser o paraíso que tantos, incluindo eu, apregoam.
Para quem chega de longínquas paradas, e só conhecia o Portugal do chorinho (de choro mesmo), da queixa, quase imitando os franceses das greves e passeatas, da desgraça, e do desbarato dos dinheiros da União Europeia, do fado da mulher estraveculosa, e das saudades do Salazar, chega agora a quase repetir Camões quando escreveu, bem sei que em sentido inverso que
na ocidental praia Lusitana,
os perigos e guerras já passados,
mais do que prometia a força humana,
entre gente remota edificaram novo reino,
que tanto sublimaram.
É verdade que já não se fala em guerra, nem nos pseudo-heróis do vintecincobarraquatro (apesar de terem enchido as cidades com nomes de indivíduos que foram uma desgraça para o país, como o que deram ao aeroporto de Lisboa que deveria ser o do Almirante Gago Coutinho), quando apáticos não havia força humana que lhes prometesse nada, entre a gente que de remotas paragens lhes acodem agora aos milhares, reedificaram e sublimaram um novo país.
Tanto sublimaram, e disso estão tão orgulhosos que até anunciam que Portugal tem o melhor pão do mundo. E tem mesmo.
Para quem vai do Brasil onde o pão, o genérico, abaixo de péssimo, quinze minutos depois de sair do forno parece reles espuma de forrar cadeiras baratas, uma espécie de chewing gum do tempo das Guerras Púnicas, e que, quando se procura um  pão um pouquinho mais sofisticado, continuando assim mesmo quase intragável, desembolsa ouro, chegar a Portugal e comer pão, mesmo que seja só pão, já acha que está às portas do céu!
Claro, para quem gosta de pão, como eu.
Depois se acrescentar um pouco de queijo da serra, de Azeitão ou da Ilha do Pico, e acompanhar tudo com uns copos de tinto do Alentejo ou do Douro, então fica com a certeza que adentrou os ceús e fica aguardando que surja o bom São Pedro para o acolher na alegria dos justos.
Isto sem falar no pão de Mafra com chouriço.....................
Mas desgraçado turista se teve a infeliz idéia de alugar um carro. Se o fizer, tem mesmo que ter junto um GPS no telemóvel, quando não fica dando voltas à cidade de Lisboa, lendo placas indicativas que não lhe indicam coisa alguma. Só enigmas.
São bonitas as placas, mas em vez de indicarem nomes de cidades ou direções, como Sul ou Norte, têm siglas enigmáticas, como A1, A2, A3... até A11, e outras como CRIL, CREL 1 e 2, que só os iniciados nos segredos auto-estradistícos conseguem interpretar.
E aí vai o turista, feliz, achando as estradas ótimas, o clima e a luz brilhantes, mas quando dá por si, ou continua às voltas no mesmo lugar ou foi para o sentido oposto.
Estas siglas são do exclusivo conhecimento dos portugueses, e pronto.
Segredos de Estado, tão bem guardados como as notícias das descobertas de Além Mar nos séculos XV e XVI.
Mas comer bem, lá na terrinha... não há igual. Mesmo sabendo que desde sempre, sempre, Portugal importa 30 a 40% do que necessita para a sua alimentação. Como o bacalhau, onde Portugal é campeão inquestionável no mundo. Não admira. Muito antes de Cabral ter chegado ao Brasil já há séculos que éramos os primeiros nessa pesca.
A história da pesca do bacalhau pelos portugueses começa em 1353, quando D. Pedro I e Edward III de Inglaterra firmam um tratado autorizando os pescadores de Lisboa e Porto a pescarem o bacalhau nas costas da Inglaterra por 50 anos. Este acordo mostra que esta atividade já se realizava desde muitos anos anteriores, e em tal quantidade, que justificava a necessidade de a enquadrar nas relações entre os dois reinos.
No século XV, apesar do fim da colonização da Groenlândia, não foi esquecida a informação da localização dos bancos do bacalhau. Cinco séculos de relações comerciais tinham também estabelecido boas relações diplomáticas com a coroa dinamarquesa, e o Infante Dom Henrique, obteve do rei da Dinamarca um piloto Sofus Larsen – Wollert - que veio até Portugal, e terá transmitido os conhecimentos náuticos daquela região.
John Cabot, (c. 1450-1499) um dos primeiros europeus a chegar ao continente americano navegou com pescadores portugueses, de Bristol, que já pescavam nessas águas.
Em1470, João Corte Real, esteve numa expedição mandada efetuar pelo rei Cristiano I da Dinamarca a pedido do rei de Portugal Afonso V. No relato desta viagem ficou registada a Groelândia e “A Terra dos Bacalhaus”, o que mais uma vez indica a pratica antiga desta pesca. Mais tarde esta terra foi conhecida por Terra Nova dos Corte Real e depois somente Terra Nova, Newfoundland!
A comer e cozinhar bacalhau desde há mais de oito séculos... o que se podia esperar? Magia.
Mas não importa só bacalhau, não. Infelizmente em Portugal a agricultura é pouco diversificada. E deste modo, para não faltar a boa pápa aos portugueses e seus milhões de turistas, importa porcos da Polónia, cebolas da Holanda, e até imaginem, ameijoas do Vietnam! Aquelas maravilhosas ameijoas, preparadas como recomendou no século XIX, o romântico poeta Bulhão Pato, vindas do Vietnam, é pecado! As da costa portuguesa eram (eram porque escasseiam) dignas da poesia de qualquer poeta e dos suspiros dos gourmets. Não as cantou Camões nem Pessoa, mas canto eu... em prosa.
E, não esqueçam que Açores e Madeira fazem parte do mesmo Portugal... desde antes dos irmãos Corte-Real, que dali eram, terem chegado à Terra Nova.
Num próximo projeto sobre férias em Portugal levarão inúmeras vantagens os que se decidirem por mais umas milhas e visitar aquelas ilhas atlânticas.
Não está bem esclarecido quem contou a Platão sobre a Atlântida, e não consta que ele se tivesse deslocada aos Açores ou à Madeira.
Mas pelas maravilhas que descreve, vê-se que o sacerdote egípcio, que lhe falou sobre estas ilhas, deve lá ter estado! Regressou maravilhado e nem as pirâmides lhe interessaram mais.
Já imaginaram o que vai de história entre o bacalhau, os Açores, a Atlântida e maravilhosa gastronomia portuguesa?
Quem mais tem tanta história para contar?
E não esqueçam: Portugal já é o primeiro produtor de azeite! Sem ele... como ficaria o bacalhau?
Não esqueçam, também, o vinho!

25/03/18



terça-feira, 20 de março de 2018



Um “rolé”* por Portugal

Já lá não ia há quase cinco anos! E como tudo está diferente!
Amigos e parte da família que entretanto descansaram na Paz do Senhor, e que nos fazem tremenda falta, os outros, como nós, envelhecidos, numa idade em que pouco tempo faz enorme diferença, alguns tiveram que ser visitados em suas casas porque a idade ou doenças complicadas não os deixaram sair, mas nada disso impediu que nos encontrássemos com tantos, teimosos, alguns passados os noventa e se mantém firmes e alegres como jovens de vinte. Ou melhores!
Foi um corre-corre para podermos estar com o máximo de amigos e familiares. A verdade é que em pouco menos de três semanas conseguimos abraçar mais de cento e trinta amigos, e porque não, soltar aqui e além uma ou outra lagrimita de tristeza ou alegria.
Mais de uma centena. Não de conhecidos. De amigos muito queridos. Infelizmente não estivemos com todos que tanto desejávamos. Não foi possível.
Foi a correr, não deu para conversarmos horas sem fim com cada um, mas estivemos com o melhor do nosso patrimônio: a família lusitana e os amigos, muitos dos quais nos acompanharam também por terras de África e do Brasil.
Ainda houve, numa rápida fugida, tempo para abraçar um outro, amigo de há meio século, que nunca nos tínhamos encontrado! Sabíamos um do outro, sempre tivemos os mesmos amigos, vivemos nos mesmos lugares, no mesmo tempo, sem que jamais nos tivéssemos visto. Coisas que é difícil explicar. Mas conseguimos, finalmente, nos abraçarmos e, sem surpresa, sentirmos que aquele abraço há muito estava dado!
É evidente que foi uma imensa corrida, cheia de emoções fortíssimas.
Por fim, véspera de embarcar de volta a casa, o acúmulo dessas emoções mostrou que tínhamos esgotado a nossa capacidade de resistência, e o físico deu um forte recado. Uma semana sem nada fazer ainda não conseguiu reparar o estrago!
E as saudades, se as matámos na ocasião dos encontros, depois afloraram mais fortes!
Como é difícil estar longe daqueles que amamos, alguns dos quais nossos companheiros desde há oito décadas!
Mas enfim, por enquanto consegui sobreviver...!
E Lisboa está uma cidade diferente. Muito mais limpa, os velhos prédios em restauro, o céu inigualável, quando está limpo mostra uma das mais bonitas luzes de todo o mundo.
Milhares, talvez milhões de turistas. Por todo o lado. Em primeiro lugar brasileiros, franceses, chineses, hindus, russos, de todo o lado.
Hotéis surgem de um dia para o outro, em cada canto, como cogumelos, e estão cheios. Os alojamentos via Airbnb e outros, igualmente lotados, restaurantes grandes e pequenos, em todas as ruas, todos os bairros, onde sempre se come magnificamente, preços muito aceitáveis e, voz corrente, hoje em Portugal não há mais vinho ruim. Todo, todo, desde o mais barato, é muito bom! E o peixe, huuummm, que delícia.
Espantam-se os brasileiros que podem sair de noite, a qualquer hora, de telefone celular na mão! Os franceses com a limpeza das cidades e, sobretudo, por não verem gente nas ruas a fazerem greves ou manifestações.
Os monumentos, as ruas, a beira rio ou mar, cheio de turistas. Encantados. Navegando num mar até há pouco desconhecido ou ignorado do mundo.
Os pequenos comércios de bairro, tipo frutas legumes e algo de mercearia, está nas mãos de gente que veio de longe: Nepal, Myanmar, Índia, Bangladesh. Outras lojas, que vendem tudo, dominadas pelos chineses.
Centenas, milhares daqueles pequenos carrinhos que só víamos nos filmes e reportagens da Índia, os tuk-tuk, atraindo turistas para um “tour” pela cidade. Motoristas? Raros portugueses!
Gente comprando imóveis, sobretudo brasileiros, como é de esperar inflacionaram o mercado imobiliário, e há, como em todo o lado, os oportunistas. Alguns mais abonados pagam fortunas pelo que há dois ou três anos valia menos da metade. Mas assim mesmo estão felizes, e isto não se passa só em Lisboa e Grande Lisboa, que abarca, por exemplo, Cascais e Sintra.
Mesmo com menor intensidade a febre chega a todos os cantos do país.
Quanto tempo vai durar esta euforia, ninguém sabe.
Mas enquanto o pau vai e vem as costas folgam!
Não pensem, os que pensam para lá imigrar, que há oferta de trabalho para todos. Os próprios portugueses estão a sofrer com isso e com um governo, que igual aos antecedentes, lhes entra nos bolsos de todo o jeito. Impostos, redução da aposentadoria, a inevitável corrupção, donos da política a encherem os bolsos, mas como isso é o trivial all over the world... a esperança está em que este boom de turistas dure... Dure. Dure, porque um dia vai acabar.
Tem agora a seu favor a total insegurança nos ex-paraísos do Egito e Magrebe, na própria França e até na Espanha, cansados de verem monumentos bonitos, lindos, na Itália, Hungria, e São Petersburg, e saberem que em nenhum outro lugar se encontra aquele tempo gostoso, sol único, aquela comida maravilhosa e de bom preço, gente pacífica e sorridente, educada, cidades limpas e ordenadas, que acolhe o turista com alegria e com segurança, sem se preocupar se ele é cristão, hindu, ateu, judeu ou muslim.
Portugal viveu essa mistura desde antes da sua independência há quase nove séculos.
Nem se preocupa com a vida sexual dos visitantes. Que vivam a sua vida e sejam felizes.
Lembram da música do Ary Barroso: “Você já foi à Bahia, nêgo? Quem vai à Bahia, nunca mais quer voltar”!
A música é a mesma, mas mudou a letra: “Você já foi a Portugal? Quem vai a Portugal... e come bacalhau, pasteis de nata, parguinhos grelhados e bebe AQUELES vinhos... nunca mais de lá quer sair!”
Para o brasileiro, classe média, o póbrema, está no Real. Realmente aqui a realidade é de pobre. E aventurar-se numa ida à terrinha é um custo pesado. Mas quem não deseja?
Vale o investimento?
Cada um sabe de si e Deus de todos.
Boa viagem.

* Rolé – No Brasil, um giro, um passeio, uma volta.

Rio (cheio de calor e humidade) 20-mar-18