segunda-feira, 26 de março de 2018


Portugal
Um “rolé” - 2

Ora bamos lá cum Deos!  Ainda falta um bocado para Portugal ser o paraíso que tantos, incluindo eu, apregoam.
Para quem chega de longínquas paradas, e só conhecia o Portugal do chorinho (de choro mesmo), da queixa, quase imitando os franceses das greves e passeatas, da desgraça, e do desbarato dos dinheiros da União Europeia, do fado da mulher estraveculosa, e das saudades do Salazar, chega agora a quase repetir Camões quando escreveu, bem sei que em sentido inverso que
na ocidental praia Lusitana,
os perigos e guerras já passados,
mais do que prometia a força humana,
entre gente remota edificaram novo reino,
que tanto sublimaram.
É verdade que já não se fala em guerra, nem nos pseudo-heróis do vintecincobarraquatro (apesar de terem enchido as cidades com nomes de indivíduos que foram uma desgraça para o país, como o que deram ao aeroporto de Lisboa que deveria ser o do Almirante Gago Coutinho), quando apáticos não havia força humana que lhes prometesse nada, entre a gente que de remotas paragens lhes acodem agora aos milhares, reedificaram e sublimaram um novo país.
Tanto sublimaram, e disso estão tão orgulhosos que até anunciam que Portugal tem o melhor pão do mundo. E tem mesmo.
Para quem vai do Brasil onde o pão, o genérico, abaixo de péssimo, quinze minutos depois de sair do forno parece reles espuma de forrar cadeiras baratas, uma espécie de chewing gum do tempo das Guerras Púnicas, e que, quando se procura um  pão um pouquinho mais sofisticado, continuando assim mesmo quase intragável, desembolsa ouro, chegar a Portugal e comer pão, mesmo que seja só pão, já acha que está às portas do céu!
Claro, para quem gosta de pão, como eu.
Depois se acrescentar um pouco de queijo da serra, de Azeitão ou da Ilha do Pico, e acompanhar tudo com uns copos de tinto do Alentejo ou do Douro, então fica com a certeza que adentrou os ceús e fica aguardando que surja o bom São Pedro para o acolher na alegria dos justos.
Isto sem falar no pão de Mafra com chouriço.....................
Mas desgraçado turista se teve a infeliz idéia de alugar um carro. Se o fizer, tem mesmo que ter junto um GPS no telemóvel, quando não fica dando voltas à cidade de Lisboa, lendo placas indicativas que não lhe indicam coisa alguma. Só enigmas.
São bonitas as placas, mas em vez de indicarem nomes de cidades ou direções, como Sul ou Norte, têm siglas enigmáticas, como A1, A2, A3... até A11, e outras como CRIL, CREL 1 e 2, que só os iniciados nos segredos auto-estradistícos conseguem interpretar.
E aí vai o turista, feliz, achando as estradas ótimas, o clima e a luz brilhantes, mas quando dá por si, ou continua às voltas no mesmo lugar ou foi para o sentido oposto.
Estas siglas são do exclusivo conhecimento dos portugueses, e pronto.
Segredos de Estado, tão bem guardados como as notícias das descobertas de Além Mar nos séculos XV e XVI.
Mas comer bem, lá na terrinha... não há igual. Mesmo sabendo que desde sempre, sempre, Portugal importa 30 a 40% do que necessita para a sua alimentação. Como o bacalhau, onde Portugal é campeão inquestionável no mundo. Não admira. Muito antes de Cabral ter chegado ao Brasil já há séculos que éramos os primeiros nessa pesca.
A história da pesca do bacalhau pelos portugueses começa em 1353, quando D. Pedro I e Edward III de Inglaterra firmam um tratado autorizando os pescadores de Lisboa e Porto a pescarem o bacalhau nas costas da Inglaterra por 50 anos. Este acordo mostra que esta atividade já se realizava desde muitos anos anteriores, e em tal quantidade, que justificava a necessidade de a enquadrar nas relações entre os dois reinos.
No século XV, apesar do fim da colonização da Groenlândia, não foi esquecida a informação da localização dos bancos do bacalhau. Cinco séculos de relações comerciais tinham também estabelecido boas relações diplomáticas com a coroa dinamarquesa, e o Infante Dom Henrique, obteve do rei da Dinamarca um piloto Sofus Larsen – Wollert - que veio até Portugal, e terá transmitido os conhecimentos náuticos daquela região.
John Cabot, (c. 1450-1499) um dos primeiros europeus a chegar ao continente americano navegou com pescadores portugueses, de Bristol, que já pescavam nessas águas.
Em1470, João Corte Real, esteve numa expedição mandada efetuar pelo rei Cristiano I da Dinamarca a pedido do rei de Portugal Afonso V. No relato desta viagem ficou registada a Groelândia e “A Terra dos Bacalhaus”, o que mais uma vez indica a pratica antiga desta pesca. Mais tarde esta terra foi conhecida por Terra Nova dos Corte Real e depois somente Terra Nova, Newfoundland!
A comer e cozinhar bacalhau desde há mais de oito séculos... o que se podia esperar? Magia.
Mas não importa só bacalhau, não. Infelizmente em Portugal a agricultura é pouco diversificada. E deste modo, para não faltar a boa pápa aos portugueses e seus milhões de turistas, importa porcos da Polónia, cebolas da Holanda, e até imaginem, ameijoas do Vietnam! Aquelas maravilhosas ameijoas, preparadas como recomendou no século XIX, o romântico poeta Bulhão Pato, vindas do Vietnam, é pecado! As da costa portuguesa eram (eram porque escasseiam) dignas da poesia de qualquer poeta e dos suspiros dos gourmets. Não as cantou Camões nem Pessoa, mas canto eu... em prosa.
E, não esqueçam que Açores e Madeira fazem parte do mesmo Portugal... desde antes dos irmãos Corte-Real, que dali eram, terem chegado à Terra Nova.
Num próximo projeto sobre férias em Portugal levarão inúmeras vantagens os que se decidirem por mais umas milhas e visitar aquelas ilhas atlânticas.
Não está bem esclarecido quem contou a Platão sobre a Atlântida, e não consta que ele se tivesse deslocada aos Açores ou à Madeira.
Mas pelas maravilhas que descreve, vê-se que o sacerdote egípcio, que lhe falou sobre estas ilhas, deve lá ter estado! Regressou maravilhado e nem as pirâmides lhe interessaram mais.
Já imaginaram o que vai de história entre o bacalhau, os Açores, a Atlântida e maravilhosa gastronomia portuguesa?
Quem mais tem tanta história para contar?
E não esqueçam: Portugal já é o primeiro produtor de azeite! Sem ele... como ficaria o bacalhau?
Não esqueçam, também, o vinho!

25/03/18



terça-feira, 20 de março de 2018



Um “rolé”* por Portugal

Já lá não ia há quase cinco anos! E como tudo está diferente!
Amigos e parte da família que entretanto descansaram na Paz do Senhor, e que nos fazem tremenda falta, os outros, como nós, envelhecidos, numa idade em que pouco tempo faz enorme diferença, alguns tiveram que ser visitados em suas casas porque a idade ou doenças complicadas não os deixaram sair, mas nada disso impediu que nos encontrássemos com tantos, teimosos, alguns passados os noventa e se mantém firmes e alegres como jovens de vinte. Ou melhores!
Foi um corre-corre para podermos estar com o máximo de amigos e familiares. A verdade é que em pouco menos de três semanas conseguimos abraçar mais de cento e trinta amigos, e porque não, soltar aqui e além uma ou outra lagrimita de tristeza ou alegria.
Mais de uma centena. Não de conhecidos. De amigos muito queridos. Infelizmente não estivemos com todos que tanto desejávamos. Não foi possível.
Foi a correr, não deu para conversarmos horas sem fim com cada um, mas estivemos com o melhor do nosso patrimônio: a família lusitana e os amigos, muitos dos quais nos acompanharam também por terras de África e do Brasil.
Ainda houve, numa rápida fugida, tempo para abraçar um outro, amigo de há meio século, que nunca nos tínhamos encontrado! Sabíamos um do outro, sempre tivemos os mesmos amigos, vivemos nos mesmos lugares, no mesmo tempo, sem que jamais nos tivéssemos visto. Coisas que é difícil explicar. Mas conseguimos, finalmente, nos abraçarmos e, sem surpresa, sentirmos que aquele abraço há muito estava dado!
É evidente que foi uma imensa corrida, cheia de emoções fortíssimas.
Por fim, véspera de embarcar de volta a casa, o acúmulo dessas emoções mostrou que tínhamos esgotado a nossa capacidade de resistência, e o físico deu um forte recado. Uma semana sem nada fazer ainda não conseguiu reparar o estrago!
E as saudades, se as matámos na ocasião dos encontros, depois afloraram mais fortes!
Como é difícil estar longe daqueles que amamos, alguns dos quais nossos companheiros desde há oito décadas!
Mas enfim, por enquanto consegui sobreviver...!
E Lisboa está uma cidade diferente. Muito mais limpa, os velhos prédios em restauro, o céu inigualável, quando está limpo mostra uma das mais bonitas luzes de todo o mundo.
Milhares, talvez milhões de turistas. Por todo o lado. Em primeiro lugar brasileiros, franceses, chineses, hindus, russos, de todo o lado.
Hotéis surgem de um dia para o outro, em cada canto, como cogumelos, e estão cheios. Os alojamentos via Airbnb e outros, igualmente lotados, restaurantes grandes e pequenos, em todas as ruas, todos os bairros, onde sempre se come magnificamente, preços muito aceitáveis e, voz corrente, hoje em Portugal não há mais vinho ruim. Todo, todo, desde o mais barato, é muito bom! E o peixe, huuummm, que delícia.
Espantam-se os brasileiros que podem sair de noite, a qualquer hora, de telefone celular na mão! Os franceses com a limpeza das cidades e, sobretudo, por não verem gente nas ruas a fazerem greves ou manifestações.
Os monumentos, as ruas, a beira rio ou mar, cheio de turistas. Encantados. Navegando num mar até há pouco desconhecido ou ignorado do mundo.
Os pequenos comércios de bairro, tipo frutas legumes e algo de mercearia, está nas mãos de gente que veio de longe: Nepal, Myanmar, Índia, Bangladesh. Outras lojas, que vendem tudo, dominadas pelos chineses.
Centenas, milhares daqueles pequenos carrinhos que só víamos nos filmes e reportagens da Índia, os tuk-tuk, atraindo turistas para um “tour” pela cidade. Motoristas? Raros portugueses!
Gente comprando imóveis, sobretudo brasileiros, como é de esperar inflacionaram o mercado imobiliário, e há, como em todo o lado, os oportunistas. Alguns mais abonados pagam fortunas pelo que há dois ou três anos valia menos da metade. Mas assim mesmo estão felizes, e isto não se passa só em Lisboa e Grande Lisboa, que abarca, por exemplo, Cascais e Sintra.
Mesmo com menor intensidade a febre chega a todos os cantos do país.
Quanto tempo vai durar esta euforia, ninguém sabe.
Mas enquanto o pau vai e vem as costas folgam!
Não pensem, os que pensam para lá imigrar, que há oferta de trabalho para todos. Os próprios portugueses estão a sofrer com isso e com um governo, que igual aos antecedentes, lhes entra nos bolsos de todo o jeito. Impostos, redução da aposentadoria, a inevitável corrupção, donos da política a encherem os bolsos, mas como isso é o trivial all over the world... a esperança está em que este boom de turistas dure... Dure. Dure, porque um dia vai acabar.
Tem agora a seu favor a total insegurança nos ex-paraísos do Egito e Magrebe, na própria França e até na Espanha, cansados de verem monumentos bonitos, lindos, na Itália, Hungria, e São Petersburg, e saberem que em nenhum outro lugar se encontra aquele tempo gostoso, sol único, aquela comida maravilhosa e de bom preço, gente pacífica e sorridente, educada, cidades limpas e ordenadas, que acolhe o turista com alegria e com segurança, sem se preocupar se ele é cristão, hindu, ateu, judeu ou muslim.
Portugal viveu essa mistura desde antes da sua independência há quase nove séculos.
Nem se preocupa com a vida sexual dos visitantes. Que vivam a sua vida e sejam felizes.
Lembram da música do Ary Barroso: “Você já foi à Bahia, nêgo? Quem vai à Bahia, nunca mais quer voltar”!
A música é a mesma, mas mudou a letra: “Você já foi a Portugal? Quem vai a Portugal... e come bacalhau, pasteis de nata, parguinhos grelhados e bebe AQUELES vinhos... nunca mais de lá quer sair!”
Para o brasileiro, classe média, o póbrema, está no Real. Realmente aqui a realidade é de pobre. E aventurar-se numa ida à terrinha é um custo pesado. Mas quem não deseja?
Vale o investimento?
Cada um sabe de si e Deus de todos.
Boa viagem.

* Rolé – No Brasil, um giro, um passeio, uma volta.

Rio (cheio de calor e humidade) 20-mar-18

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018


From London... e muito frio!

Estando em Londres não podia escrever “do Brasil”! E como me vou atrever a escrever sobre “coisas” europeias, aqui estou... in London.
Como uns quantos europeus sabem, porque se informam, aqui, nesta velha Albion, com toda a sua fleuma e arrogância, que considera o continente isolado quando a Mancha está sob pesado nevoeiro, o Parlamento continua com os mesmos debates, aqueles onde raramente se chega a conclusões.
Há dias um ministro chegou atrasado um minuto – 60 segundos – pediu a palavra para se desculpar pelo atraso, considerado uma falta de consideração para com os demais, e à boa moda britânica entendeu que devia pedir demissão do seu cargo. Não foi aceite este educado pedido, mas foi, sim, um exemplo de conduta ética.
Neste momento o sobredito Parliament está divido em dois blocos, que não se entendem: os Brexiteers que fingem que querem sair da EU, e os Remaineers, em maior número que os antagonistas, que não querem e torpedeiam todo o esforço desencolatrado que a Mrs. May vai tentando fazer, mais perdida que cego no meio dum tiroteio.
Depois os jornais trazem entrevistas com MPs de ambos os lados e, a conclusão a que se vai chegando é que ninguém sabe o que quer, nem como fazer, o que demonstra que não se chega a qualquer conclusão.
Os jornais xingam todos os dias a madama May, o negociador da União Europeia já deu uns socos na mesa das negociações, para ver se a D. May resolve alguma coisa, e... nada.
Nada, neste caso, é um pouco a antítese da valentia e determinação dum soberbo e destemido British, tipo capitão Cook ou do vencedor da Invencível Armada, o good old man Nelson.
Como me lembrou há dias um amigo, parece estar a fazer falta Trajano para construir um novo muro lá dentro de Westminster, separando os picks dos que não picam nada.
Mas eles são “nhurros” e a algum lado chegarão. Wait to see!
Entretanto vi, em DVD, aliás, revi uma vez mais, um filme extraordinário: The Lion of the Desert, com Anthony Quinn, que representa o grande líder e comandante da resistência dos líbios, Omar Mukthar, que ficou conhecido como o Xeque dos Mártires (Shaykh al-Shuhada) que mostra a luta, covarde, infame, dos italianos, na conquista da Cirenaica, a metade oriental da atual Líbia.
Mataram povos de aldeias inteiras, envenenaram e cimentaram poços de água, cometeram atrocidades sem fim, e dei comigo a pensar que, agora, passados cerca de 100 anos, se os líbios não terão o direito de ocuparem, no mínimo, metade da Itália!
Não foi uma guerra religiosa, cristãos contra muçulmanos, mas uma guerra para conquista de uma área imensa de terra, como os russos fizeram agora com a Crimeia!
Por aqui os atos de terrorismo não acabaram, nem se prevê que venham a acabar pelos próximos... talvez ainda muitos anos. A técnica continua a ser a de atropelamentos, ataque com armas brancas, fáceis de transportar, e matar, e a última é jogar ácido na cara das pessoas que ficam desfiguradas.
Quanto ao mais, segundo “gritos” de protesto, alguns impostos estão a subir loucamente, os políticos com toda a sua elegância e capacidade discursiva, são iguaizinhos aos colegas de todos o mundo, incluindo os brasileiros, com a diferença que aqui roubam imensamente menos, em número de ladrões e de valores.
Em Londres há bairros onde 30% das crianças vivem no limite ou abaixo do nível de pobreza, coisa que é difícil de acreditar, o Mayor anda a dar uma no cravo outra na ferradura, para ver se se aguenta para novo mandato, o que já começa a pôr-se em dúvida.
E o preço dos imóveis sobe em flecha. Estranho, né?
De resto, comparar Londres com o Rio de Janeiro é o mesmo tentar montar um telefone celular com os restos duma roda de bicicleta!
Há outra diferença muito confortável: o banho de banheira! No Brasil as águas são um pouco acidas, Ph levemente abaixo de 7, e no fim do banho são necessárias duas toalhas para se ficar seco, devido à alta humidade do ar. Nestas bandas londrinas às águas são doces, isto é calcárias, Ph por volta de 7,5, o que dá a sensação, agradável, de ter misturado um hidratante.
Para quem, nesta provecta idade, tem já a pele tipo a do crocodilo, fica com ela macia com bumbum de recém nascido! Depois, devido ao ambiente muito menos húmido, uma só tolha já deixa o corpo sequinho.
Podem vir a Londres à vontade tomar banho de banheira. É ótimo!
O clima está ótimo, máxima de 4-5º graus, felizmente Celsius e não Farenheit, as ruas têm lá, de quando em vez, um ligeiro buraco – no Rio... de vez em quando ainda tem um pouco de asfalto – os bus continuam a trafegar com a tradicional pontualidade – no Rio... às vezes passam... – e nesta altura do ano a cervoise tiède, com este climazinho simpático, já sai quase estupidamente gelada.
Hoje, para animar as roupas quentes, a neve chegou a fazer uma – curta – aparição!
O maior drama, neste momento para os britânicos é a dona May, feita macha, mas incapaz de fazer alguma coisa.
But... God save the old Queen!

12/02/2018

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018



O casamento do mês


Mansão imponente, jardim grande com belas árvores, piscina enorme, todo o exterior daquela casa refletia o luxo do interior, onde a única coisa que faltava era bom gosto! Ali podia faltar muita coisa, dinheiro, não.
O casal tinha uma filha só, toda a vida super mimada, Scarlett, era quem mandava na casa.
Bonitinha, entrara já na faculdade, onde conseguira o lugar de líder – animadora – da torcida da equipa de futebol americano, a despeito de haver mais colegas que tivessem, ferozmente, concorrido a tão disputado lugar. O dinheiro do pai sempre teve algum peso na decisão.
Scarlett, enquanto ainda no college, já se tinha destacado, se não nas torcidas, em animadas festas mais ou menos particulares, em que quase sempre acabava bebendo demais e terminado na cama de algum colega, assunto em que jamais falou. Mimada, por vezes fazia-se de embriagada e escolhia o parceiro que a carregasse para ficar com ele.
Normalmente os mais bonitões e fortes, e até de preferência com algum dinheiro para que os pais não achassem que andava com gente “pobre”.
Entrou na faculdade já com um razoável currículo, aliás desconhecido da maioria, e que ela agora procurava esconder tanto quanto imaginava ser possível.
Um belo carro que o pai lhe dera, nos fins de semana carregava para casa uma boa quantidade de colegas, de ambos os sexos, e aí faziam a festa. Na piscina, depois à tarde uma dancinha, onde o termo encostados era eufemismo e, na maioria das noites uns passos leves nos corredores mostravam que algo acontecia.
Os pais... nada. Desde que a filha não engravidasse, o problema não era deles.
E assim foi uns anos, quando Scarlett simplesmente declarou que a faculdade era uma chatice, não queria mais, precisava ficar em casa um tempo, etc..
Mas um colega, estudioso, simpático, de boa família, terminado o curso, tinha trabalho garantido, há muito se encantava ao fixar os olhos naquela moça, bonita, decidiu-se a avançar e não tardou em propor-lhe casamento.
Scarlett aceitou logo, os pais encantaram-se, preparam uma festa como raras vezes se via naquela cidade, montes de convidados, um serviço de bufê magnífico, orquestra e outras demonstrações de vitalidade financeira.
Johnny era uma rapaz calmo, sério, trabalhador, alto e forte, se nunca havia “provado” aquelas “carnes”, nem sonhava o quantas vezes elas haviam servido de prato principal a vários de seus camaradas. Entrava nessa de espírito puro e virginal.
Dia do casamento, Scarlett deslumbrante num vestido que teria custado caríssimo, rodeada de magníficas, lindas, damas de honra, Johnny num impecável smoking, exuberante de felicidade.
O pastor celebrou em casa os esponsais, e depois do tradicional beijo, que ia sufocando o noivo, foi serviço o esplêndido bufê, com tudo quanto se possa imaginar entre comida e bebidas, sobretudo muito champanhe, muito gelado a que ninguém resistia.
A orquestra tocava músicas para complementar o ambiente e logo chamaram o pai da noiva para a primeira dança, entregando a seguir a filha ao marido. Ambos já tinham bebido, um tanto além da conta, mas fizeram os passos necessários, e depois a noiva passou de mão em mão, aliás de braços em braços, bem como o noivo, apertado pelas damas de honra e outras bonitas convidadas.
No intervalo de cada música os amigos e colegas levavam os noivos a beber mais um copo, cantando sempre “he is a jolly good fellow...” ou “she is a beatifull good fellow”, arrancando aplausos embriagados de todos os convidados.
Scarlett começava já a não se aguentar bem nas pernas, mas sempre havia uns braços amigos (?) para a segurarem e Johnny estava a apagar-se sonolento.
Os noivos, apesar de terem à sua espera um magnífico Cadillac novinho, já todo enfeitado com fitas de diversas cores com frases como “Just married” e outros, que os deveria levar para uma lua de mel bem longe e socegada, os pais de Scarlett resolveram que era melhor, visto o estado de ambos, que passassem a primeira noite no quarto – aliás também magnífico – da filha. Com a ajuda de algumas e alguns colegas levaram os “pombinhos” para o quarto.
Johnny caíu no sofá e... desapareceu nos braços, profundos, de Morfeu, ajudado pelos amigos a desembaraçar-se da incômoda indumentária da cerimônia. Deixaram-no completamente nu, coberto com um simples lençol, para o caso de ele acordar mais tarde e querer deitar-se com a noiva.
Scarlett, em semiconsciência, foram as damas que despiram, vestiram-lhe uma mini camisola sexy cheia de enfeites, rendas e bordados, e deitaram-na na cama.
Mas alguém se escondera atrás das cafonas e caras cortinas de brocados e veludos, e quando tudo socegou, e viu que Johnny não acordaria nem com tiro de canhão, aproximou-se da cama onde Scarlett estava, ainda em adiantado estado de torpor. Quando viu um corpo avançar para ela, nem quis saber se era o noivo ou qualquer outro, porque o cérebro não conseguia avaliar esses “detalhes”. Abriu os braços e acolheu no seu regaço um colega com quem já, por mais de uma vez, havia trocado esses favores.
Ela meia bebeda, quase inerte, permitia que tudo lhe fosse feito, e ele, que tinha aguardado, são, este momento, tirava o máximo partido daquele corpo jovem, lindo, mesmo amolecido pelo álcool.
Quando se saciou, vestiu-se, abriu a porta do quarto com cuidado e não vendo ninguém, reapareceu na festa, que ainda não acabara, sem ser notado.
De madrugada Johnny começou a acordar, sem saber bem onde estava. Achou tudo estranho, via-se nu, num quarto que não conhecia, até descobrir que numa cama ali ao lado estava a mulher com quem tinha acabado de casar. Ela nua também, mas ainda a dormir depois da festa com o violador, nem se apercebeu que o marido se deitara a seu lado.
Johnny abraçou-a com cuidado. Não queria perturbar o seu sono, e assim se deixou ficar até que, dia nascido ela acordou, viu o marido a seu lado, agarra-o, beija-o e diz-lhe: “que noite maravilhosa que você me deu! Obrigado.”
Johnny não tinha dado nada, nadinha, mas levou aquele agradecimento à conta do alcool que os dois haviam bebido em excesso.
Ela estava linda. E ambos eram muito jovens. Embrulharam-se nos lençóis e deixaram-se ficar na cama.
Estava na hora do noivo lhe dar, também, alguma coisa, que ela, sempre carente, aceitou com o maior prazer e seu desportivismo sexual.
Levantaram-se tarde, tomaram juntos um belo banho na enorme banheira da suite dela, e foi aí que Johnny começou, pela primeira vez, a ficar mais entusiasmado, excitado, ao ver bem, e sentir, o corpo da mulher.
Começava a lua de mel. Dele. Porque ela já tinha saboreado umas dezenas delas. E, menina mimada, fazia agora comparações entre o desempenho do marido e dos outros com quem estivera. Sentia que a “performance” do Johnny não a satisfazia. Ele era puro e novato naqueles jogos de amor, mas Scarlett não pretendia descartá-lo logo no começo. Seria um desastre e uma vergonha. Decidiu então que seria sua mestra.
Almoçaram com os pais e seguiram então no brilhante Cadillac, para a lua de mel. Johnny, que conduzia, não conseguia tirar os olhos da mulher. Parece que cada minuto que passava a achava mais bela e tentadora. Ela sorria.
Escolheram um lugar tranquilo, longe das vistas e das más línguas. De preferência no campo. Um hotel, quase isolado, junto a um campo de golfe, o lugar ideal.
À chegada correram para o quarto. Johnny despertara para uma vida que ele não conhecia, e já não queria largar a noiva.
Pouco ou nada prático em “especialidades” de alcova, era Scarlett, suficientemente conhecedora e cautelosa, que o ia inciando, deixando o marido enlouquecido.
Johnny não queria mais sair do quarto. Entrara num mundo de fantasia como jamais sonhara que existisse.
Estiveram uma semana sem fazer outra coisa. Davam de manhã uns passeios pelo campo de golfe, almoçavam, voltavam para a cama, à tarde repetiam o passeio, jantar e... cama.
Mas Scarlett começava a ficar cansada, ela que parecia sempre disposta, foi-lhe mostrando que por aquele andar estariam cansados de mais, talvez saturados e, quem sabe, com vontade de dormirem em camas separadas.
Johnny: “isso nunca vai acontecer”.
Voltaram à cidade onde o novo apartamento deles estava agora pronto e todo decorado. Uns dias depois Johnny, foi reapresentar-se no trabalho e Scarlett ficou em casa, só.
Aquilo não era vida para ela. Pensou então que o melhor seria voltar para a faculdade e terminar o curso que interrompera. Teria assim a vida ocupada e não a ociosidade de ficar em casa.
O que pensou... fez, com a aprovação do marido.
Encontrou ainda algumas e alguns colegas do tempo dela, em final de curso. Todos lhe fizeram grande festa, incluindo os professores. Até o atrevido estuprador, Carter, que continuava a rondar a presa.
Perguntaram-lhe se queria volar a ser líder da torcida, o que ela recusou, e disse que o objetivo agora era terminar o curso interrompido e depois, conforme os filhos viessem ou não, um ou mais, iria trabalhar.
Carter não desgrudava o olho de Sacarlett, e ela percebia isso muito bem, e temia-o porque alguma lhe dizia que não lhe agradava.
Johnny sempre que os horários coincidiam, passava na faculdade para buscar a mulher. Um dia chegou bem em cima da hora, quando Carter assediava a mulher e via-se bem na cara desta que não estava a gostar daquilo.
Calmo, Johnny sai do carro, vai até eles quase sem ser visto, e quando Carter decide que pode avançar o quanto queria, sentiu no ouvido o estouro de uma bomba! Um violento tapa na orelha, dado no momento preciso. Caíu direitinho no chão. E quando se preparava para se levantar, viu a figura de Johnny, que lhe fazia só um sinal, com o dedo na boca, a mostrar-lhe que ficasse caladinho.
Viraram costas, foram embora e uns meses depois nascia o primeiro filho.
Scarlett interrompeu mais um pouco os estudos, mas não desistiu.
Carter, ninguém sabe que sumiço levou.
E Johnny, se chegou a tomar conhecimento dos antecendentes amorosos da “ex-líder” nunca demonstrou. Estava bem com esta família e uma mulher que continuava a dar a maior, e gostosa, luta.


03/03/2014

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Cuecas para Turistas 

Não vamos chover no molhado enaltecendo as praias, a caipirinha, as lindas mulatas (pior agora que as mulheres decidiram abrir guerra contra o assédio sexual, e só é pena que não o tenham começado há alguns milénios) que podem ser observadas, mas com cuidado..., apesar de elas, as mulheres, de forma geral, cada vez mais, usarem roupas que procuram, não cobrir, mas descobrir os pseudo secretos encantos... Enfim, o Brasil tem muito mais coisas interessantes.
Nas grutas da Serra da Capivara, no Piauí, lá no Norte, há centenas de pinturas rupestres e já se chegou à conclusão que permite afirmar vestígios humanos que ali estiveram desde há cerca de 49.000 anos!
Vale, muito a pena ir visitar as grutas deste lugar, onde se encontram as mais antigas pinturas humanas do planeta.
O turista pode, e deve ir visitar também as cidades histórias de Minas, Olinda, Alcântara e muito mais e ver o legado colonial, que faz os brasileiros fingirem que abominam esse tempo (colónias nunca mais!) mas de que muito se orgulham.
Recordações para levar do Brasil? Hoje todos têm telefones celulares que tiram centenas ou milhares de fotos, base das recordações que daqui podem levar, bem como umas garrafinhas de cachaça, da boa, que tem muita, e nessas cidades históricas, tem belíssimas pinturas, baratas, aquarelas ou óleo, estatuetas, etc.
Mas há um item que rivaliza, em muito, com a famosa Lâmpada de Aladim, das Mil e Uma noites ou Noites das Arábias.
Cueca! Isso mesmo, cueca.
O “engenho e a arte” de alguns setores extra sociedade (mas muito influentes) levaram à descoberta de novas utilidades para um pequeno item do vestuário, que o tornou muito procurado, mas ainda não divulgado aos turistas que dele se podem igualmente beneficiar.
Repito, a cueca.
Aqui se encontram cuecas especiais, por exemplo para transporte de dólares escondidos! Isso. O cliente só tem que informar o fornecedor (da cueca e não dos dólares) qual a quantidade que deseja transportar, bem juntinho aos seus órgãos, conhecidos também por “vergonhas”, e passear tranquilamente no meio da malandragem com o c... forrado de grana, que ninguém o vai perturbar, até porque o típico brasileiro costuma ser bem fornecido de glúteos, chamemos-lhe bunda, o que faz com que o portador dessa mirífica cueca passe desapercebido.
As mais caras carregam de 100 a 500.000 dólares, tamanho “G” a “GGP”. As “P” uns 5 a 10.000 e as “M” à volta de 25.000. Genial.
Para as maiores, em princípio, recomenda-se ao portador que arranje um atestado médico dizendo que tem “esteatopígia”  (do grego στεατοπυγία, de στεαρ, stear, "sebo", "gordura", e πυγος, pygos, "nádegas") é a hipertrofia das nádegas ocasionada pelo acúmulo natural de gordura na região, sobretudo em tribos da África meridional, como bosquímanos e hotentotes.


Mas não é modelo único. Há poucos dias um ilustre membro da Câmara dos deputedos, perdão deputados, num caso talvez universalmente exemplar, por indecente e má conduta, foi preso. Mas como a justiça por aqui é muito boazinha com esses deputedos e congéneres, o “sobredito” passa as noites na gaiola e de dia pode sair para estar presente na digna e impoluta assembleia dos sobreditos deputedos todos, a esforçarem-se, em prejuízo da sua saúde, tal o volume de trabalho, a conduzir os destinos da sua querida nação que eles tanto vigarizaram, roubaram e continuam a rir e dar risada!
Comovente, né?
Regra geral as refeições na prisão não são exatamente servidas por chefes franceses nem é remetida de Paris da “Tour d’Argent” para esses coitados que roubaram milhões, bilhões, aos cofres públicos.
Desse modo o “sobredito”, não apreciando a comida da seleta coletividade enjaulada, teve uma ideia que se imagina tenha até registrado patente: arranjou uma cueca, especial, onde ao fim do dia carregava para a penitenciária pacotes de biscoitos, saudáveis, e mais um bom pedaço de queijo provolone para complemento do rango geral.
Este modelo de cueca, à boa moda dos States, foi patenteada com o nome comercial “PFF”, que traduzido significará, do original Pants For Food, Cuecas para Alimentação.
O inventor está em negociação com a FAO, interessada na distribuição de alguns milhões por África.
Não foi divulgado se o queijo ia convenientemente embalado ou se chegou ao destino com o cheiro do lugar onde foi transportado, o que lhe proporcionaria um aroma extra.
Agora os desejados turistas visitantes, interessados nestes modelos especiais de transporte de itens especiais, devem estar fazendo a sacramental observação e simultânea pergunta:
- Oh! How wonderful! (Que maravilha, se for inglês ou americano. O alemão: Oh! Wie wunderbar). Mas onde se encontram essas underwear - cuecas - à venda?
Por todo o Brasil tem representantes, distribuidores:
- Congresso Nacional – o “alto” e o “baixo”, aliás da baixaria
- Ministérios
- Governos de Estados
- Prefeituras
- Assembleias Legislativas Estaduais
- Assembleias Legislativas Municipais
- Grandes e médias empresas de construção
Em qualquer destes locais haverá sempre alguém que amavelmente indicará o melhor fornecedor... tanto da cueca como do recheio, generosamente cobrando um pequeno custo de intermediar o negócio. O trivial.

Com esta da cueca lembro de uma anedota que ouviu.... chiii... quando? Em meados do século passado, era eu um jovem, e pasmem, ó gentes, não esqueci.
Em Lisboa, um carro elétrico, um bonde, percorria o seu caminho cheio de gente que se compactava para sempre poder entrar mais um.
Chega o cobrador, o “trinca-bilhetes”, e começa o povo a pagar, na altura algo como cincostões ou cinquenta centavos (transferindo para €uros, seria, mais ou menos 1/400 ávos de 1 €uro).
Lá, no meio do povo, plataforma traseira, uma simpática, graciosa e oferecida mocinha, com um generoso decote (já nessa altura), começa a gritar:
- Fui roubada, fui roubada. Tiraram-me a carteira!
O cobrador, admirado, pergunta:
- Onde a senhora (era bem educado, o trinca-bilhetes) tinha a carteira?
Ela aponta para o generoso decote e diz:
- Aqui.
- E não sentiu quando a roubaram?
- Sentir, eu senti, mas pensei que não fosse por mal !!!!!!!

Se, nesse tempo, já existissem estas especiais cuecas brasiliensis, o dinheiro da mocinha estaria muito mais bem guardado. Mas será que se lho tentassem tirar, ela não iria sentir uma mão passeando nas suas partes íntimas, e também pensaria que não era por mal?
Não. O assaltante era muito delicado.
Honi soit...


Dez. 2017

sábado, 20 de janeiro de 2018

Cartão de idoso

Idoso! Qual será a definição, correta, de IDOSO? Há muitos anos, 40, pelo menos, no Brasil idoso era todo aquele/a que atingisse 60 anos.
Em 1970 a esperança de vida ao nascer, no Brasil era de 59 anos, México 61 e EUA 71, portanto foi uma decisão normal considerar-se idoso um velhinho de 60 anos.
Mas hoje esses valores estão muito alterados: Brasil 75, México, 77 e EUA 79, mas qualquer um continua a ser idoso aos 60.
A pensar que eu com mais de 60 recomecei vida nova, numa cidade nova, e me sentia...novo! Aos 70 mandaram-me para casa, aposentado, o que muito me chocou porque me sentia capaz de ficar a trabalhar mais uns quantos anos, e em casa nada tinha o que fazer.
Lá me desenvencilhei, e ainda por aqui estou!
Hoje faço parte de um grupo que representa 0,16% dos 208 milhões de habitantes neste país.
Têm algumas vantagens os idosos: ônibus de graça, renovação da carteira de condução de graça, filas especiais nos estabelecimentos, hospitais, etc., mas, para falar verdade, não sei se preferia ter menos meio século em cima destas costelas. Talvez não. O mundo não merece que eu fique aqui penando mais uma “porrada” de tempo, não esquecendo o que dizia o famoso Barão de Itararé (de quem vou escrever um dia): “O mundo é redondo mas está a ficar muito chato.”
Agora inventaram mais uma facilidade para os idosos: vagas de estacionamento para os carros.
Para isso o tal idoso tem que se deslocar a uma repartição da Prefeitura, enfrentar uma qualquer fila, preencher a papelada, mostrar documento de identidade, de contribuinte, comprovante de residência, documentos do carro, aliás viatura, e não sei se licença de caça, atestado de bons antecedentes e sanitário, e carteirinha de sócio de algum clube ou de escola de samba. Fácinho!
Mas enfim, depois disso, espera NOVENTA DIAS que lhe deem o documento comprobatório e... finalmente pode sair por aí e parar nas vagas da Prefeitura... que não paga. Boa.
O mais caricato desse documento é que ele só é válido por 5 anos! Será que a Prefeitura acha que o idoso vai regredir no tempo e cinco anos passados ele volta a ser jovem? Ou que por ser idoso vai bater a bota nos entretantos e já não precisa do documento? Ou é só para chatear o cada vez mais idoso?
Burocracia é isso. Muita papelada, os serviços públicos sempre desconfiados que o zé pagante o quer vigarizar, e os funcionários, se facilitarem arriscam-se a perder o tacho, porque o trabalho pode diminuir.
Querer vigarizar o Estado, todos querem, porque é isso que lhes ensinam presidentes, deputados, governadores, prefeitos e tudo o mais, o que o enche de razão. Só eles a vigarizarem a res publica, e nós, idosos não! Há qualquer coisa de errado em tudo isto.
Há algumas vantagens extra de se ser idoso. Por exemplo pode ameaçar algum idiota de lhe dar um tapa na cara. Se ele reagir estará ferrado. Vão dizer que bateu num velhinho, e como ninguém acreditará que foi o dito idoso que o ameaçou, este vira herói. Jogo um quanto perigoso, mas quem não arrisca...
Pode dizer uma graça, simpática, a uma funcionária do supermercado sem que o acusem de “atentado sexual” hoje muito em voga, e que está a atingir os idosos que há vinte anos meteram a mão na bunda duma boazuda, ou pior, como aquela que apresentou queixa formal contra um “titio” que há quinze anos tinha olhado despudoradamente para dentro do decote dela! Essa foi a que eu mais gostei.
A dita queixosa, exibia-se toda gostosa com um generoso decote, mostrando o que QUERIA, e quando o indivíduo demorou mais do que o tempo que ela considerou razoável para a inspeção, aí passou a considerar “quase crime sexual”, mas só quinze anos depois.
Hoje exibir o departamento de leitaria, muitas vezes de plástico, é normal. Mas atenção, machos famintos: não olhem. Primeiro porque pode ser crime, e depois porque em boa quantidade de casos é tudo silicone, não vale a pena.
Na praia, idoso pode esbandalhar-se à vontade. Vê tudo. Bundas divididas ao meio, sem que muitas vezes se veja a linha das Tordesilhas (de cá é meu de lá é teu). Imagino, ao ver estes “tratados”, o quanto terá sido difícil aos portugueses e espanhóis decidirem qual o pedaço deles.

Tordesilhas bem definidas!

Também fico a pensar no papa Alexandre VI que decidiu dividir o mundo em duas partes. Será que ele não ficou com um pedacinho? Olha quem! Ele que teve inúmeras amantes que lhe deram só - os que se conhecem – oito filhos, se por acaso houvesse este tipo de documento para... assinar!
Peitorais então, siliconados ou não, lembram grandes explorações leiteiras, e se estão bem expostos, cada um tire as conclusões que quiser.
Na praia não há crime. Só não pode ir à praia com mulher ciumenta. Vai implicar com o marido cada vez que ele puser os óculos para melhor apreciar a paisagem. Sem eles, o pobre idoso, vê tudo desfocado, e nem consegue distinguir macho de fêmea.
E se conseguir... encolhe os ombros, procura nos fundos da memória algum acontecimento digno, na ocasião, de festa (aquela que ele esqueceu de contar à esposa amante) e volta irritado para casa porque nem dessa se lembra já.
Mas se tiver o tal Cartão... pelo menos estacionou de graça.
Isto... se voltar a encontrar o carro que deixou estacionado, porque no Rio de Janeiro, só na cidade, roubam-se 150 – cento e cinquenta – carros por dia! Não é exagero não. São números oficiais da Polícia.
E muita sorte terão os idosos porque, já meio podres, devem estar mais livres de outra praga que, já agora, nada custa informar: no Estado do Rio são registrados 503 estupros por mês.
Deviam voltar a utilizar antigas jurisprudências condenatórias, como esta:
SENTENÇA  JUDICIAL DATADA  DE 1833 PROVÍNCIA DE SERGIPE
O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel             ....    Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant'Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava    em uma moita de mato, sahiu dela  de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que  não se pode trazer a lume, e como ela  se recusasse, o dito cabra abrafolou-se  dela, deitou-a no chão, deixando as  encomendas della de fora e ao Deus dará. Elle não conseguiu matrimonio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leis que duas testemunhas que assistam a qualquer naufrágio  do sucesso faz prova.
CONSIDERO:
QUE o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ela e fazer chumbregancias, coisas que marido della competia   conxambrar, porque  casados pelo regime  da Santa Igreja Cathólica Romana;
QUE o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar  as famílias de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer conxambranças com a Quitéria e  Clarinha, moças donzellas; QUE Manoel  Duda é um sujeito perigoso e que não tiver uma cousa que  atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo  até nos homens.
CONDENO:
O cabra Manuel Duda, pelo malefício que fez à mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta pena deverá ser feita na cadeia desta Villa.
Nomeio carrasco o carcereiro.
Cumpra-se  e  apregue-se   editais nos lugares  públicos.
Manoel Fernandes dos Santos
Juiz de Direito da Vila de Porto da Falha, Sergipe, 15 de Outubro de 1833.

Fonte:       Instituto  Histórico de  Alagoas

Final de 2017

Jan/2018