sábado, 20 de janeiro de 2018

Cartão de idoso

Idoso! Qual será a definição, correta, de IDOSO? Há muitos anos, 40, pelo menos, no Brasil idoso era todo aquele/a que atingisse 60 anos.
Em 1970 a esperança de vida ao nascer, no Brasil era de 59 anos, México 61 e EUA 71, portanto foi uma decisão normal considerar-se idoso um velhinho de 60 anos.
Mas hoje esses valores estão muito alterados: Brasil 75, México, 77 e EUA 79, mas qualquer um continua a ser idoso aos 60.
A pensar que eu com mais de 60 recomecei vida nova, numa cidade nova, e me sentia...novo! Aos 70 mandaram-me para casa, aposentado, o que muito me chocou porque me sentia capaz de ficar a trabalhar mais uns quantos anos, e em casa nada tinha o que fazer.
Lá me desenvencilhei, e ainda por aqui estou!
Hoje faço parte de um grupo que representa 0,16% dos 208 milhões de habitantes neste país.
Têm algumas vantagens os idosos: ônibus de graça, renovação da carteira de condução de graça, filas especiais nos estabelecimentos, hospitais, etc., mas, para falar verdade, não sei se preferia ter menos meio século em cima destas costelas. Talvez não. O mundo não merece que eu fique aqui penando mais uma “porrada” de tempo, não esquecendo o que dizia o famoso Barão de Itararé (de quem vou escrever um dia): “O mundo é redondo mas está a ficar muito chato.”
Agora inventaram mais uma facilidade para os idosos: vagas de estacionamento para os carros.
Para isso o tal idoso tem que se deslocar a uma repartição da Prefeitura, enfrentar uma qualquer fila, preencher a papelada, mostrar documento de identidade, de contribuinte, comprovante de residência, documentos do carro, aliás viatura, e não sei se licença de caça, atestado de bons antecedentes e sanitário, e carteirinha de sócio de algum clube ou de escola de samba. Fácinho!
Mas enfim, depois disso, espera NOVENTA DIAS que lhe deem o documento comprobatório e... finalmente pode sair por aí e parar nas vagas da Prefeitura... que não paga. Boa.
O mais caricato desse documento é que ele só é válido por 5 anos! Será que a Prefeitura acha que o idoso vai regredir no tempo e cinco anos passados ele volta a ser jovem? Ou que por ser idoso vai bater a bota nos entretantos e já não precisa do documento? Ou é só para chatear o cada vez mais idoso?
Burocracia é isso. Muita papelada, os serviços públicos sempre desconfiados que o zé pagante o quer vigarizar, e os funcionários, se facilitarem arriscam-se a perder o tacho, porque o trabalho pode diminuir.
Querer vigarizar o Estado, todos querem, porque é isso que lhes ensinam presidentes, deputados, governadores, prefeitos e tudo o mais, o que o enche de razão. Só eles a vigarizarem a res publica, e nós, idosos não! Há qualquer coisa de errado em tudo isto.
Há algumas vantagens extra de se ser idoso. Por exemplo pode ameaçar algum idiota de lhe dar um tapa na cara. Se ele reagir estará ferrado. Vão dizer que bateu num velhinho, e como ninguém acreditará que foi o dito idoso que o ameaçou, este vira herói. Jogo um quanto perigoso, mas quem não arrisca...
Pode dizer uma graça, simpática, a uma funcionária do supermercado sem que o acusem de “atentado sexual” hoje muito em voga, e que está a atingir os idosos que há vinte anos meteram a mão na bunda duma boazuda, ou pior, como aquela que apresentou queixa formal contra um “titio” que há quinze anos tinha olhado despudoradamente para dentro do decote dela! Essa foi a que eu mais gostei.
A dita queixosa, exibia-se toda gostosa com um generoso decote, mostrando o que QUERIA, e quando o indivíduo demorou mais do que o tempo que ela considerou razoável para a inspeção, aí passou a considerar “quase crime sexual”, mas só quinze anos depois.
Hoje exibir o departamento de leitaria, muitas vezes de plástico, é normal. Mas atenção, machos famintos: não olhem. Primeiro porque pode ser crime, e depois porque em boa quantidade de casos é tudo silicone, não vale a pena.
Na praia, idoso pode esbandalhar-se à vontade. Vê tudo. Bundas divididas ao meio, sem que muitas vezes se veja a linha das Tordesilhas (de cá é meu de lá é teu). Imagino, ao ver estes “tratados”, o quanto terá sido difícil aos portugueses e espanhóis decidirem qual o pedaço deles.

Tordesilhas bem definidas!

Também fico a pensar no papa Alexandre VI que decidiu dividir o mundo em duas partes. Será que ele não ficou com um pedacinho? Olha quem! Ele que teve inúmeras amantes que lhe deram só - os que se conhecem – oito filhos, se por acaso houvesse este tipo de documento para... assinar!
Peitorais então, siliconados ou não, lembram grandes explorações leiteiras, e se estão bem expostos, cada um tire as conclusões que quiser.
Na praia não há crime. Só não pode ir à praia com mulher ciumenta. Vai implicar com o marido cada vez que ele puser os óculos para melhor apreciar a paisagem. Sem eles, o pobre idoso, vê tudo desfocado, e nem consegue distinguir macho de fêmea.
E se conseguir... encolhe os ombros, procura nos fundos da memória algum acontecimento digno, na ocasião, de festa (aquela que ele esqueceu de contar à esposa amante) e volta irritado para casa porque nem dessa se lembra já.
Mas se tiver o tal Cartão... pelo menos estacionou de graça.
Isto... se voltar a encontrar o carro que deixou estacionado, porque no Rio de Janeiro, só na cidade, roubam-se 150 – cento e cinquenta – carros por dia! Não é exagero não. São números oficiais da Polícia.
E muita sorte terão os idosos porque, já meio podres, devem estar mais livres de outra praga que, já agora, nada custa informar: no Estado do Rio são registrados 503 estupros por mês.
Deviam voltar a utilizar antigas jurisprudências condenatórias, como esta:
SENTENÇA  JUDICIAL DATADA  DE 1833 PROVÍNCIA DE SERGIPE
O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel             ....    Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant'Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava    em uma moita de mato, sahiu dela  de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que  não se pode trazer a lume, e como ela  se recusasse, o dito cabra abrafolou-se  dela, deitou-a no chão, deixando as  encomendas della de fora e ao Deus dará. Elle não conseguiu matrimonio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leis que duas testemunhas que assistam a qualquer naufrágio  do sucesso faz prova.
CONSIDERO:
QUE o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ela e fazer chumbregancias, coisas que marido della competia   conxambrar, porque  casados pelo regime  da Santa Igreja Cathólica Romana;
QUE o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar  as famílias de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer conxambranças com a Quitéria e  Clarinha, moças donzellas; QUE Manoel  Duda é um sujeito perigoso e que não tiver uma cousa que  atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo  até nos homens.
CONDENO:
O cabra Manuel Duda, pelo malefício que fez à mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta pena deverá ser feita na cadeia desta Villa.
Nomeio carrasco o carcereiro.
Cumpra-se  e  apregue-se   editais nos lugares  públicos.
Manoel Fernandes dos Santos
Juiz de Direito da Vila de Porto da Falha, Sergipe, 15 de Outubro de 1833.

Fonte:       Instituto  Histórico de  Alagoas

Final de 2017

Jan/2018

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018



Carioquices  eclesiásticas !


Em 10 de Julho de 1576 o papa Gregório XIII (um príncipe italiano, Ugo Buoncompagni), criou a Prelazia de São Sebastião do Rio de Janeiro sob a administração do Bispado de São Salvador da Bahia, instituindo um prelado administrador com poderes e faculdades quase episcopais.

Famoso pela introdução do novo calendário

O primeiro a ocupar o cargo foi o Presbítero do Hábito de São Pedro Bertolameu Simões Pereira (1577-1602), que não deve ter entrado com o pé direito porque começou logo a ser perseguido pelo povo, que se indispôs contra a demasiada autoridade que o prelado se arrogava, e este não teve outro remédio senão retirar-se, e foi para a Capitania do Espírito Santo. Foi um infatigável opositor à escravidão do índio, e daí a perseguição do povo.
É bom ter em mente que naquele tempo os habitantes destas paragens, pelo menos uma boa parte deles, tinha imigrado para longe de Portugal terra sujeita a excesso de autoridades: do rei, ainda a melhor delas, dos nobres, e sobretudo dos padres, bispos, etc., com a sua inexorável arma da excomunhão, sua prepotência e ainda com a constante ameaça da Santa – santíssima! – Inquisição.
O Novo Mundo apresentava-se lhes como uma espécie de paraíso onde o Reino de Deus era oferecido a cada homem, independente de hierarquias e imposições, que na Europa já tinha dado origem à Reforma e a toda a evolução da ciência e “das luzes” que se começaram a acender! Ora um recém-chegado disposto a fazer regredir a liberdade, com certeza não era “persona grata”. Tinha que ser um grande religioso, em toda a acepção da palavra, para cativar almas rudes. E grandes religiosos, houve, sim, mas não tantos quanto seria desejável.
Seguiu-se na Prelazia, o Bacharel João da Costa Braga (1603-1606), logo também odiado e perseguido pelo povo. Retirou-se em 1591 para S. Paulo onde foi deposto e morreu.
Veio depois, em 1607, o Dr. Mateus da Costa Aborim (1606-1629) que também quis mexer na escravatura dos índios. O povo entrementes não tinha a quem prestar contas. Mas o tal Dr. Mateus, abusado, vexou o povo com monitórias e excomunhões; excomungou os vereadores por quererem demolir uma casa de frades beneditinos a qual embaraçava o embarque e desembarque dos moradores da Prainha (hoje a Praça XV); procurou dificultar a ação de um desembargador enviado da Bahia pelo Governador Geral para sindicar no Rio; e fez mais umas quantas semelhantes até que acabou envenenado em 1629. Ainda esteve 22 anos a encher o saco dos cariocas!
Seguiu-se um frade beneditino que não durou um ano. Renunciou!
Os primeiros prelados abusaram tanto da sua “autoridade” que quando chegou o Dr. Lourenço de Mendonça (1631-1639?), em 1632, poucos dias depois já o povo colocava um barril de pólvora debaixo da sua cama, com quatro morrões acesos! Explodiu e destruiu a casa mas o tal Dr. Lourenço... por sorte não estava em casa! Tão pouco gostavam dele que quiseram enfiá-lo dentro duma embarcação desapalherada e levá-la até alto mar onde seria abandonada! Soube o Dr. Lourenço do que se tramava contra ele, fugiu, refugiou-se num barco e regressou a Portugal!
Em 1643 calhou a vez ao presbítero secular António Mariz Loureiro (1643-1657). Assim que chegou foi visitar terras da sua jurisdição, e em São Paulo, ou pela má vontade do povo ou por sua arrogância, foi perseguido. Refugiou-se com os franciscanos, e apesar do povo ter cercado o convento, consegui evadir-se, fugir para o Rio, e sempre odiado, ir para o Espírito Santo, onde lhe administraram veneno, perdeu o juízo e assim regressou a Portugal!
Em 1658, o rei escolhe o Dr. Manuel de Sousa e Almada (1658-1667), que depois de curto governo já havia voltado o povo contra ele que o acusou diretamente ao rei. Uma noite apareceu em frente de sua casa uma peça de artilharia que disparou uma bala que se foi alojar numa das paredes. Procedendo-se à devassa veio a verificar-se que tinha sido o próprio Almada para se fazer de vítima! Condenado a pagar as custas do processo, desistiu do cargo e foi-se!
O seguinte não foi mais diplomata: o Dr. Francisco da Silveira Dias (1673-1681), começou a sua administração por excomungar os que cortavam mangue nas marinhas fronteiras às terras dos jesuítas; acusaram-no de simoníaco pelo benefício que daí tirava e não tardou a largar o posto!
Eram estes prelados comissários do “Santo Ofício” e da Bula da Cruzada, mais uma das invenções de Roma contra o que se insurgiu Martinho Lutero, mas que lhes dava um rendimento considerável. Além disso atormentavam o povo com penitências e excomunhões, intrometiam-se em negócios estranhos à Igreja, mandavam indagar aos navios que demandavam o porto do Rio, de onde vinham, para onde iam, que carga carregavam, impediam que saíssem mercadorias da alfândega sem autorização sua. Além de tudo isto eram, regra geral, gente de pouca instrução e rara moralidade!
Não primava também o povo pela moderação e bons costumes! Não admira, o “Mundo Novo” era terra de liberdade e liberdades!
Em 16 de Novembro de 1676 a prelazia foi elevada a diocese, com direito a bispo! Dom José de Barros de Alarcão (1800-1700), Lisboa, Doutor em Canônes pela Universidade de Coimbra. As coisas pareciam que estavam a melhorar. O primeiro bispo foi homem de ação, prudente e douto, começou a moralizar a vida dos padres e com isto também a do povo.
Assim andou a Diocese, melhorando-se a cultura dos padres, aumentando a fé e o respeito dos fiéis, até que em 1741 veio ocupar a Mitra D. Frei João da Cruz. Ao visitar as Minas mostrou-se de tal forma rigoroso e tanto exorbitou que o povo arrancou os badalos dos sinos para que não repicassem à sua passagem! Quatro anos depois renunciou ao cargo e o Governador apoiou a sua renuncia pois era excessivo o descontentamento do povo mineiro!
Em 1745 veio de Angola o Bispo D. António do Desterro, beneditino. De seu nome todo  frei António de Nossa Senhora do Desterro Malheiro Reimão, OSB. Começou como bispo em Angola, em 1738, e depois transferido para o Rio. Teve uma chegada atribulada porque parece que o navio que o trazia terá arribado às “Ilhas de Maricá”, o que significava desastre possível, até que finalmente em 1746 a Fortaleza de Santa Cruz anunciou a sua entrada na Guanabara. Este foi um grande administrador, admirado, estimado, misericordioso, bom, que teve um triste fim de vida ficando os últimos sete anos bastante doente. Um exemplo de pastor, que foi sepultado no claustro do Mosteiro da sua Ordem. Fundou um hospital para leprosos no bairro de São Cristóvão no Rio de Janeiro. Hoje este hospital é denominado Hospital Frei Antônio. (Não admira ser tão bom: veio de Angola!)
Foi no seu tempo que o tipógrafo português António Isidoro da Fonseca, em 1747, estabeleceu uma tipografia no Brasil, no Rio de Janeiro, chegando a produzir alguns impressos, os mais antigos feitos nesta Colônia.
Ainda no mesmo ano, sem ter podido fazer grande trabalho, em Portugal se tomou conhecimento desta “gravissima transgressão”, e por ordem régia foram seus bens seqüestrados e queimados e o tipógrafo deportado para Lisboa!


Enquanto o Rio não teve o seu Bispo, parece que “as coisas” não corriam muito bem. Mas uma boa lição se pode tirar dessas brigas entre prelados e povo: o povo sabia reclamar, exigir os seus direitos, não se deixava espezinhar, mesmo que fosse ele mais inculto do que hoje (Seria?)
Mas essa força popular parece ter-se perdido. Hoje os administradores públicos mandam, desmandam, roubam, não fazem, e ao povo não lhe sobra disposição para exigir os seus direitos! Parece que perdeu a noção da sua força, além de estar dividido pelas teóricas ideologias políticas. Naquele tempo era “Povo unido...”
Que pena!

N. Estes elementos da vida carioca, foram recolhidos no livro “Rio de Janeiro – Sua história, monumentos, homens notáveis e curiosidades” – Vol. I, de Moreira de Azevedo, 1861, e de outras fontes


24 jan. 10

sábado, 6 de janeiro de 2018



O Brasil já é um país sério ?


Nr. 2

Compreender o Brasil ou, talvez melhor, entender o Brasil, é assunto para profundos estudos de psiquiatria, onde se encontra uma área que se chama demência.
Eu, pelo menos, desisti de o analisar e/ou tentar entender, porque os contrastes são de tal forma profundos que, só isso, nos leva a perder o rumo.
Mas, com um pouco de boa vontade, e muito atrevimento, creio que a primeira afirmação que se pode fazer para «entender» este país, é a inguinorança generalizada!
Tem cientistas, médicos, escritores, poetas, engenheiros, atores, arquitetos, juristas, jornalistas, etc. de altissima classe, que podem equiparar-se com os melhores que esta Gaia já produziu, mas, todos esses, somados, não representam mais do que uma ínfima minoria no meio dos duzentos e tantos milhões deste povo.
Também tem bandidos e assassinos, aos milhares (inclui-se aqui o grupo armado MST, PT e outros) que, se pudessem ter sido levados para a guerra da Síria já há muito tinham acabado com os tais terroristas.
Em corrupção ganhamos qualquer copa do mundo. O futebol é que não está lá essas coisas.
Mas ao recuarmos alguns anos, não muitos, vamos encontrar frases e opiniões que podem dar uma ajudinha a quem pouco mais sabe do Brasil, além de que foi o Cabral que aqui chegou, que parece estar situado algures na Amércia (se do Sul ou do Norte é a mesma coisa), que teve celebridades como o Pelé, tem mulatas lindonas (em Angola também! E até teve a Miss Mundo), como ia dizendo, aliás escrevendo, recuando uns anos temos definições geniais.
Uma delas que já fez parte de um texto publicado, e aqui é dito à boca cheia, é que o Brasil não é um país sério. É triste e lamentável, mas... não é mesmo.
Começou com a «descoberta» de algo que estava já descoberto, portanto com uma mentira.
Mentirinha, porque isso não teve grande influência para o que se seguiu.
Ainda estava nestas Terras, com Cabral & Cia., Mestre João Faras ou João Emeneslau, conhecido como Mestre João, que escreveu ao quase todo poderoso e venturoso rei Manuel, o primo, dizendo-lhe que a carta de Pero Vaz de Caminha, que seguia junto com a dele, apesar de magnificamente escrita e tantas vezes já descrita, era uma peça de teatro, quase um silogismo, porquanto:
“Quanto Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-mundi que tem Pero Vaz Bisagudo e poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas naquele mapa-mundi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa antigo e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina.
Terra esta que se chamou Ilha de Vera Cruz, Terra dos Papagaios, e Terra de Santa Cruz, e acabou com um nome semi árabe, do pau bresili!
Com intenção pejorativa, depreciativa, continua-se, nos dias de hoje a dar-lhe o nome de Pindorama, quando era, ao que dizem alguns estudiosos, como os índios do litoral a ela se referiam, significando “terra das palmeiras”. Dom Francisco de Aquino Correia que foi arcebispo de Cuiabá, poeta, membro da Academia de Letras, imortal que morreu em 1956, escreveu:
Minha terra é Pindorama
De palmares sempre em flores.
Quem a viu e não a ama,
Não tem alma nem Amor.
Em boa hora o arcebispo entregou a alma ao Redentor e os ossos à terra, e não assistiu a toda a pindoramice em que se tem transformado esta “Ilha de Vera Cruz”.
Outro episódio da sua história, muito interessante é do tempo da França Antártica.
Um grande herói dos mares, sujeito com história tipo herói Dartagnan, Nicolas Durand de Villegagnon, no seu curriculum consta o rapto de Maria Stuart, que foi rainha da Escócia. Em 1548 a Escócia estava em guerra civil, católicos e anglicanos, Maria com 5 anos de idade em riscos de ser levada a Inglaterra e forçada a casar com Henrique VII, sua mãe Marie de Guise escondeu-a, pediu socorro a França, e lá foi Villegagnon “raptá-la’ e salvar. Do currículo ainda consta ter vencido uma batalha naval contra os ingleses. Em 1554, Henrique II, rei França, católico, ordena uma expedição sigilosa ao Brasil, sabendo que a Baía da Guanabara não estava ocupada pelos portugueses. E lá vem o Nicolas, instala-se na Praia do Flamengo, depois na encosta do Outeiro da Glória e acaba por se fortificar na Ilha de Sergipe, hoje conhecida como Ilha de Villegagnon.
Mas a sorte não lhe corria bem. Os franceses eram de pouco trabalhar, quem construiu o forte foram sobretudo os índios tamoios. Depois o que eles queriam mesmo eram as índias, que ali andavam entre eles moças bem novinhas e gentis, com cabelos mui pretos e compridos pelas costas e suas vergonhas tão altas e tão saradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha.
Os Jeans Pierres, como os portugueses noutras partes desta Pindorama, não aguentavam! Moças assim gentis e tão saradinhas não havia na Europa! Juntavam-se, e se os obrigavam a casar fugiam com as gatinhas para o interior, e o Almirante Villegagnon via-se sem gente. Pediu ao rei que lhe mandasse uns 4 ou 5.000 homens para começarem a ocupar o interior. Solução: em França cataram a banditagem que estava nas prisões, ladrões, assassinos, o que houvesse, e vieram 300 homens e 3 mulheres, comandados por pastores calvinistas. O choque com católicos foi evidente e os calvinistas não gostaram da terra e foram logo de volta. Imaginem: três mulheres no meio de trezentos facínoras, o sossego que deveria ser! Villegagnon ainda mandou fuzilar uns quantos, enforcar outros, mas chateado com a situação regressou a França.
Teve sorte porque logo a seguir chegou ao Rio de Janeiro Mem de Sá, e Estácio de Sá correu com quase todos, exceção feita aos que se submeteram e aos que se embrenharam no mato com as suas gentis moças.
Durou doze conturbados anos a “gloriosa” França Antártica!
Mas a briga com os franceses durou até ao século XX, sem falar já na GRANDE Guerra Das Lagostas em que os beligerantes não deram um único tiro. A questão que sobreviveu foi a definição da fronteira que separava a Guiana Francesa do Brasil, cuja defesa em Haia foi feita pelo gaúcho dr. Joaquim Caetano da Silva, que acabou dando causa ao Brasil.
Em 1816 chega ao Brasil o botânico Auguste de Saint-Hilaire, acompanhando a missão extraordinária do duque de Luxemburgo, que tinha por objetivo resolver o conflito quanto à posse da Guiana. Naturalista, botânico interessou-se pela exuberância do país tropical e aqui esteve seis anos. Coletou 30.000 amostras de plantas que estão no Herbário do Muséum Nationale d’Histoire Naturelle, em Paris.
Um dos bichinhos que ele estudou foi a formiga saúva, aliás as formigas saúvas de que há, só, 40 espécies diferentes, entre todas as outras mais de 2.000 espécies de formigas. A saúva é uma formiga cortadeira, e eu que o diga, porque está sempre comendo algumas das plantas mais bonitas que me atrevo a plantar no meu jardim. Saint-Hilaire, um cientista, face a essa enorme quantidade de cortadeiras e ao estrago que elas faziam, e fazem, teve uma frase sublime:
“Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil!”
Mal podia imaginar o sábio, que as saúvas aqui continuam e quem está a acabar com o Brasil não são as formigas, mas os “tubarões” da política. O que os milhões de saúvas rapam durante um ano... os políticos fazem isso com uma canetada, em poucos segundos. E em dinheiro vivo.
Como era um indivíduo bem educado, não deixou escrito, como Darwin, que por aqui isto era um mundo novo de sedução e horrores: escravatura brutal, sujeira, desconforto, em paralelo com uma paisagem exuberante.
Simpático, esse Auguste de Saint-Hilaire.
João Capistrano Honório de Abreu, mais conhecido sem o primeiro e o terceiro nome, cearense arretado, foi um grande historiador sobretudo do período colonial, faleceu no Rio em 1927.
Conhecedor das torpezas que parece não terem fim entre os colarinhos brancos (sujos, mesmo de branco) propôs um dia “que substituíssem todos os capítulos da Constituição por um artigo único:
“Todo o brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara”!
Infelizmente essa profunda e ética alteração da Carta Magna (magna ou ínfima?) nunca foi seguida, e está, constantemente, a ser deturpada para garantir que a vergonha seja, não só aceite, mas declarada legal... aos olhos deles e de boa (ou ruim) parte da justiça que os acoberta, e desgraçada aos olhos do povo.
Um século mais tarde, o grande político que foi Ulisses Guimarães, talvez o maior político do século XX do Brasil, um dos pilares da nova Constituição de 1988, no seu discurso da promulgação dessa nova Carta, como base duma nova era deixou bem claro:
“Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem rouba.
Eis o primeiro mandamento da moral pública.”
Pobre Ulisses Guimarães! Lutou durante meio século para democratizar o país, para arrumar “a casa”, para levantar o nome do Brasil, queria um “país sério”, morre num desastre de helicóptero, nunca apareceu o seu corpo, e os que ficaram, atrelados ao seu partido, mas jamais aos seus ideais, o PMDB, não conseguem outra coisa que não seja a desmoralização da política e a roubalheira.
Talvez por isso, com vergonha, o corpo de Ulisses Guimarães, caído no mar, tivesse preferido ficar escondido lá no fundo, do que enfrentar o descalabro daqueles que se dizem seus seguidores!
15 de Novembro. Implantação da República.
Piora sensivelmente a política e a economia no Brasil. O assalto à res publica é imparável, e o desentendimento entre os que se alcandoraram a “chefes”, impressionante.
Assume o “velho marechal” Deodoro da Fonseca, monarquista convicto é o seu primeiro Presidente. Segundo reza, era “um chato, vaidoso, irascível, incandescente, incompetente, etc.” Para governar um “novo” país, de fato não podia ser pior. Mas não deixou de se logo auto promover a generalíssimo!
Nomeava, destituía, nomeou os quinze juízes para o Supremo Tribunal, tudo amigalhaço, enfim, desmoralizou a república.
O jornalista Eduardo Prado, advogado, jornalista e escritor brasileiro, membro fundador da Academia Brasileira de Letras e um dos mais importantes analistas da vida política do Brasil escreveu sobre esse período:
“Aquilo já não é militarismo, nem ditadura, nem república.
O nome daquilo é carnaval.”
E como por aqui em se plantando, tudo dá, o Brasil foi andando, aos trancos e barrancos, misturando revoluções com ditaduras (Getúlio Vargas, que, com um tiro no peito, saiu da vida para entrar na história), jamais democracia, até que assume Jânio Quadros, convencido que com a sua vassoura ia resolver os problemas acumulados em quase século e meio de independência. “Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam”, para fazer chorar o povo, mas não pegou! Quis mais poder, jogou com o Congresso e... perdeu! O vice, João Goulart, tinha ido passear à China, para não perturbar o “chefe”. Estava longe quando Jânio foi rejeitado, e deveria logo assumir. O Exército não o queria nem pintado, mas acabou por ter que o engolir.
João Goulart, o Jango, estancieiro (fazendeiro) rico, lá das pampas do Rio Grande do Sul, bon vivant, já duas vezes vice-Presidente, sem fazer absolutamente nada, todos os anos ia a Paris consultar o cardiologista, deixava-se por lá ficar meses, com mulher e filhos. Chegou até a comprar um carro em Paris para passear por França. Vice-Presidente do Brasil!
Assume, não assume... assumiu, e logo começou a mostrar-se o pior indivíduo para aquele pesado cargo. Um milionário e latifundiário, decidiu que era bonito apoiar os socialistas. Começou a baderna.
As Forças Armadas que não chupavam o tal Jango, decidiram pôr cobro ao descalabro.
E vai daí uma revolução para o destituírem.
Foi uma anedota, a revolução. Nem um tiro, nem qualquer coordenação entre os vários Comandos Militares. Um deles chegou ao Rio, as populações viram passar a tropa, diziam até adeus com lencinhos coloridos, mas não faziam ideia do que estava acontecendo.
Uma vez no Rio de Janeiro não sabia o que devia ser feito a seguir. O Brasil estava sem comando porque Jango se mandou lá para o latifúndio dele.
O General Olímpio Mourão Filho, que comandava a 4ª Região Militar, vitorioso (!), foi perguntado sobre a razão da sua precipitada ação. Respondeu:
“Em matéria de política sou uma vaca fardada.
Se, de acordo com a minha consciência estou certo, quem quiser que me siga.”
E assim o Brasil entrou na Ditadura Militar. Durou 24 anos.
Veio a seguir a tal democracia, com presidentes eleitos pela inguinorança:
- Sarney, porque deixaram morrer Tancredo Neves, que prestes a bater a bota, ainda conseguiu forças para dizer “Eu não merecia isto”! E o dono, grã-duque do Maranhão foi um desastre.
- Seguiu-se Collor, corrido por indecente, estúpida e má figura.
- Assume Itamar, que gostava de andar com garotas sem calcinha.
- Chega Fernando Henrique com o plano Real que acaba a inflação, mas que moscambilhou a economia para se reeleger.
- Finalmente o país é aberto ao saque total e descarado: entro o PT.
Até hoje. E parece que cada vez pior, ainda com a perspectiva de voltar a ter o PT “lá de novo”, a rapar os últimos bilhões que novos impostos farão surgir de qualquer parte e voltarem a sumir nos bolsos de...
De quem mesmo?
A justiça é lenta. Lenta até à conveniência. Perdão, conivência.
Não. A Nossa Senhora Aparecida já disse que está cansada de milagres e não vai interferir na política.
Também não venham chorar que a culpa é dos portugueses:
Nossos antepassados não são responsáveis por nossos atos,
nem pelo que somos.

 O leitor o que acha: o Brasil pode ser um país sério com um homicídio a cada 10 minutos?

14/11/2017


sexta-feira, 29 de dezembro de 2017


Rir é o melhor remédio


Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly


Raros serão os que conhecem este nome, este indivíduo, ou alguma vez dele ouviram falar, mesmo por outro nome em que era conhecido, Aparício Apporelly. Eu, até há pouco me encontrava entre esses ignorantes da vida e da história do Brasil.
Foi jornalista, escritor e o pioneiro do humorismo político no Brasil.
Agora sei também que nasceu dentro de uma diligência, em 29 de janeiro de 1895, quando se dirigia (na barriga da mãe, como é de supor) do Uruguai para o Rio Grande do Sul. Nasceu mesmo na fronteira!
Nascido ainda no século XIX, intitulava-se “herói de dois séculos”!
Começou os estudos num internato jesuíta em São Leopoldo (RS), onde logo dá largas ao seu humor nato, em 1908, no jornalzinho "Capim Seco", do colégio onde estudava, satirizando a disciplina dos padres jesuítas.
Com 18 anos, no 4° ano de medicina, sofre um AVC e abandona os estudos e começa a escrever, sempre com a sua verve satírica.
Em 1925 vai para o Rio de Janeiro, começa pelo Jornal “O Globo”, depois no “A Manhã”, onde as suas piadas aparecem sempre na primeira página, mas logo cria o seu próprio jornal, “A Manha”, alcançando de imediato uma forte tiragem.
Durante a Revolução de 1930, Getúlio Vargas dirige-se à capital federal, então o Rio de Janeiro, e a imprensa alardeou que haveria uma batalha sangrenta em Itararé. Isso foi vastamente divulgado na imprensa e Apporelly não ficou fora da fofoca. Esta batalha ocorreria entre as tropas fiéis ao Presidente Washigton Luis e aquelas sob o comando de Getúlio, que vinham do Rio Grande do Sul em direção ao Rio de Janeiro para tomar o poder. A cidade de Itararé fica na divisa de São Paulo com o Paraná, mas antes que houvesse a batalha "mais sangrenta da América do Sul", fizeram acordos. Uma junta governativa assumia o poder no Rio de Janeiro e não aconteceu nenhum conflito. Apporelly comentaria este fato da seguinte maneira:
Fizeram acordos. O Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve.
Em outubro de 1930, se autodeclarara Duque nas páginas de A Manha:
O Brasil é muito grande para tão poucos duques. Nós temos o quê por aqui? O Duque Amorim, que é o duque dançarino, que dança muito bem mas não briga e o Duque de Caxias que briga muito bem, mas não dança. E agora eu, que brigo e danço conforme a música.
Mas como ele próprio anunciaria semanas depois, "como prova de modéstia, passei a Barão."
Assim “nasce” no Brasil o famoso Barão de Itararé¸ hoje pouco mais conhecido do que pela frase, a mais conhecida, e a toda hora repetida, sobretudo em relação a políticos:
De onde menos se esperadaí é que não sai nada.
Em 1934, fundou o Jornal do Povo. Nos dez dias que durou, o jornal publicou em fascículos a história de João Candido, um dos marinheiros da Revolta da Chibata, de 1910 (Chibata, porque era com uma chibata que eram punidos os marinheiros nos navios de guerra!). Em represália, o barão foi sequestrado e espancado por oficiais da Marinha, até hoje, nunca identificados. Depois desse episódio, voltou à redação do jornal e colocou uma placa na porta onde se lia: "Entre sem bater", mantendo o seu espírito humorístico.
O jornal A Manha circulou até fins de 1935, quando o Barão foi preso por ligações com o Partido Comunista Brasileirolibertado em dezembro de 1936. Retomou o jornal por um curto período, até que viesse nova interrupção, ao longo de todo o Estado Novo, de Getúlio, e voltando em edições espasmódicas até 1959.
Foi candidato em 1947 a vereador do Distrito Federal, com o lema "Mais leite! Mais água! Mas menos água no leite!", é eleito com 3669 votos, o oitavo mais votado do PCB. Em janeiro de 1948, seus vereadores foram cassados: "Um dia é da caça... os outros da cassação", anunciou A Manha.


Depois deste pequeno curriculum, algumas frases e escritos deste famoso e “nobre” Barão:
Em 1949 - Há quem afirme que Itararé é o Bernard Shaw do Brasil. Mas essa comparação é irritante e impertinente. Shaw é magro e Itararé é gordo. Aquele é vegetariano e este é onívoro. Shaw é um velho quase centenário e Itararé, embora nascido em 1895 conta apenas 39 anos. Assim, se não fosse um vulto fora do comum, deveria ter atualmente, feitas as contas, 54 anos. Exibindo documentos insuspeitos, Itararé, entretanto, demonstra que perdeu 10 anos, repetindo a segunda série da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, onde era sempre reprovado em anatomia descritiva. São, portanto, dez anos perdidos, que não podem ser contados. A seguir, somando todos os pequenos períodos que passou na prisão, onde se enclausurou para meditação e retiros espirituais, como hóspede do Estado e com guarda permanente à sua disposição, verifica que perdeu mais ou menos dois anos na cadeia, os quais, somados aos 10 da Faculdade, fazem 12 que não se contam. E, finalmente, manuseando, com um ar de romântico desconsolo, um velho diário de notas, todo tatuado de nomes femininos, de corações sangrando, com endereços e números de telefones, tendo as páginas separadas por fitinhas mimosas de diversas cores e, às vezes, entremeadas de folhas murchas, de pétalas secas de rosas e raminhos de violetas descoradas, mas que ainda parecem roxas de saudades, Itararé chega à conclusão de que perdeu pelo menos três anos perseguindo mulheres bonitas, sem nenhum resultado. Esses três anos, adicionados aos 12, perfazem 15, que, por serem negativos, devem ser subtraídos dos 54, dando 39 anos, afinal, como idade natural.

Espírito positivo, diz ele, revela-se superior a Auguste Comte, criador do positivismo.
Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos — dizia Comte.
Itararé não se conforma e responde:
Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mais vivos.
Viver para outrem — aconselha, de maneira genérica, o fundador da Religião da Humanidade. Viver para o trem — é o que recomenda Itararé, numa mensagem dirigida especialmente aos ferroviários.
Cantor lírico, Itararé é possuidor de uma voz raríssima, que os críticos ainda não puderam classificar, opinando uns que se trata de um baixo abaritonado, enquanto que outros o consideram como um barítono abaixado.
Como a escala musical, Itararé também tem os seus bemóis e sustenidos, isto é, os seus altos e baixos, as suas ascensões e as suas quedas. Vemo-lo, assim, ora em remígios alcandorados de águia, dominando os espaços, ora voando baixinho, como perdiz nos últimos dias de choco.
Cientista emérito, fez, entre outras, a genial descoberta de que o limão não é limão, mas uma laranja que sofre do estômago. São seus prolongados sofrimentos que o deixam amarelo. O limão é, portanto, uma laranja com azia.
Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira dedos.
Quem empresta, adeus...
Diz-me com quem andas, e eu direi se vou contigo.
Os homens nascem iguais, mas no dia seguinte já são diferentes.
Monólogo
Eu tinha doze garrafas de uísque na minha adega e minha mulher me disse para despejar todas na pia, porque senão...
- Assim seja! Seja feita a vossa vontade - disse eu, humildemente, e comecei a desempenhar, com religiosa obediência, a minha ingrata tarefa.
Tirei a rolha da primeira garrafa e despejei o seu conteúdo na pia, com exceção de um copo que bebi.
Extraí a rolha da segunda garrafa e procedi da mesma maneira, com exceção de um copo que virei.
Arranquei a rolha da terceira garrafa e despejei o uísque na pia, com exceçâo de um copo que empinei.
Puxei a pia da quarta rolha e despejei o copo na garrafa que bebi.
Apanhei a quinta rolha na pia, despejei o copo no resto e bebi a garrafa, por exceção.
Agarrei o copo da sexta pia, puxei o uísque e bebi a garrafa, com exceção da rolha.
Tirei a rolha seguinte, despejei a pia dentro da garrafa, arrolhei o copo e bebi por exceção.       
Quando esvaziei todas as garrafas, menos duas que escondi atrás do banheiro, para lavar a boca amanhã cedo, resolvi conferir o serviço que tinha feito de acordo com as ordens de minha mulher, a quem não gosto de contrariar, pelo mau génio que tem.
Segurei, então, a casa com uma mão e com a outra contei direitinho as garrafas, rolhas, copos e pias, que eram, ao todo, exatamente 39. Para me certificar de que não havia engano, contei tudo outra vez e quando terminei já encontrei um total de 93, o que dá certo, quando as coisas andam de pernas para o ar. Como a casa nesse momento passou mais uma vez pela minha frente, aproveitei para controlar minhas contas e recontei todas as casas, copos, rolhas, pias e garrafas, menos aquelas duas, que escondi no banheiro e que eu acho que não vão chegar até amanhã, porque estou com uma sede louca...

Para terminar: quem quiser conhecer mais hitórias e ditos deste “nobre” Barão de Itararé pode comprar um dos vários livros que existem sobre ele.

Fica esta ajuda financeira:
Tempo é dinheiro. Vamos, então, fazer a experiência de pagar as nossas dívidas com o tempo.


Que 2018 nos traga só motivos para sorrir, para rir e não para chorar. Nem de dor.

28/12/2017