sexta-feira, 8 de dezembro de 2017


Em 2009 publiquei este pequeno texto em homenagem às Mães.
É hoje, 8 de Dezembro, o Dia das Mães, para os católicos.
Por isso estou a repetir.

Dia das Mães

Minha Mãe a Vovó Zé

Dia das Mães

“O mundo gira às avessas
E muitos julgam que não.
Eu que me julgo por mim
Vejo que o mundo é assim
Com tanta contradição.

Há latagões Serafins,
Desventurados Venturas
E Claras que são escuras
...
Era assim que começava um dos fados cantados por uma velha fadista, lá pelos anos cinquenta, em Lisboa. Velhota, baixinha, não sei mais o seu nome, muito alegre. Já esqueci a maioria da letra, mas não esqueço nunca a verdade da contradição do mundo.
À medida que o desenfreado consumismo vai ditando e impondo as suas regras de conduta universal, mais e mais o mundo fica às avessas.
Invertem-se os valores básicos de toda a sociedade, vendo-se crescer a adulação a qualquer bezerro de ouro, e só a isso.
Cresci no tempo em que a célula base da sociedade era a família. Nos países subjugados pela super ditadura chamada democracia do povo, essa noção de família ia sendo destruída e o mundo ocidental tinha mais medo disso do que da coletivização dos bens de produção.
No fim da guerra dos canhões e dos mortos chegou a guerra fria e um brutal desenvolvimento daquilo a que se chamou neo-capitalismo, social democracia, pseudo socialismo ou qualquer outra coisa bombástica que na verdade pouco significa, e verifica-se que, se de um lado era a luta dum poder totalitário que se estribava no ateísmo para derrubar valores tradicionais e transformar homens em máquinas, do outro a ganância, coadjuvada pela inveja e egoísmo, caminhavam no mesmo sentido mostrando que o único deus vivo é o dinheiro, o poder, o mando.
Beijando ou não o anel dos bispos ou do papa, batendo com a mão no peito nas sinagogas ou encostando a testa aos seus tapetes de oração voltados para Meca, os donos do poder da banda das democracias sociais, conseguiram mais depressa derrubar os valores morais tradicionais do que a força bruta dos dirigentes soviéticos.
Mãe! Qualquer que seja a língua em que tal palavra seja pronunciada, nenhuma se lhe iguala em beleza. Mãe, a mais bela obra da natureza, como dizia Almeida Garrett!
Mas hoje em que o sexo reina desordenado, promíscuo, livre e estimulado pelo cinema, revistas, publicidade, e até como disse o Papa Bento pela facilidade da camisinha, e agora mais pela venda livre da pílula anticoncepcional do “dia seguinte”, pela facilidade do aborto, a pergunta que fica é: “Que Mãe és tu”?
No antigamente os cristãos celebravam o dia das Mães quando a liturgia festejava a Assunção da Mãe de Jesus. O mundo comercial não quis mais esse dia porque deixava de fora os não cristãos, e a data, perto do Natal, não favorecia o negócio. A força do dinheiro falou mais alto. Transferiu-se a festa para um domingo de Maio, passada a Páscoa e longe das férias, quando não há concorrência de outros festejos e as despesas possam ser encaminhadas para essa exclusividade, o Dia das Mães.
O comércio e a indústria gastam fábulas de dinheiro anunciando produtos a vender para presentear a Mãe e, ó espanto dos espantos, esse dia transformou-se numa desobriga de imensa quantidade de filhos. Uma vez por ano compram, quase por obrigação, um bagulho qualquer, vão oferecê-lo às mães e a seguir... até pr’ó ano!
Que filhos são estes? Que Mãe é aquela? De quem é a culpa? Da Mãe que os teve por “aventuras” ou que não soube manter os filhos unidos ao seu coração, ou dos filhos que cresceram esmagados pela força dos cifrões nos olhos e não veem outra coisa que não seja o amor à conta bancária?
Que bom fora que todos pudessem “cantar” com Casimiro de Abreu: 
Feliz o filho que pode, contente,
Na casa paterna, de noite e de dia,
Sentir as carícias do anjo dos amores,
Da estrela brilhante que a vida nos guia:
- Uma mãe!


domingo, 3 de dezembro de 2017


Ciclo dos Amantes

A Vida no Congo ex-belga


No tempo colonial, a Bélgica não deixava nenhum funcionário seguir para o Congo sem ir casado. Não queriam que para lá fossem solteiros e depois regressassem com uns quantos filhos mulatos, nem que os deixassem por lá exigindo a cidadania belga.
A solução encontrada por alguns, cujo vencimento proposto para trabalhar em África era de molde a juntar uma boa soma ao fim de poucos anos, foi fazerem um contrato com alguma mulher que estivesse disposta a receber uma parte dos ganhos e fingirem que eram casados.
Como é de imaginar estas situações deram aso a toda a pouca vergonha que se possa imaginar.
Os congoleses, sabendo desta desavergonhança, se já desprezavam os brancos duma forma geral, a estes então consideravam-nos abaixo de qualquer crítica.
O troca-troca entre “casais” era trivial, chegavam a alugar mulheres a quem necessitasse duma novidade, era como que Sodoma e Gomorra.
Michel foi um dos que não pôde recusar o convite para uma função administrativa no interior da colônia, onde receberia além dum vencimento, casa, carro e até alguns criados.
Informou-se com alguns “veteranos” como devia proceder, e não foi difícil encontrar a perceira ideal. Jovem, bem composta, mas que tinha necessidade de se “alugar” uns tempos, para também ajudar resolver a situação financeira da família que ficara arrasada com a guerra.
Haydée, era uma mulher atraente, com trinta e poucos, loira, forte, nascida no campo onde seus pais eram agricultores na região sul da Bélgica, Valónia, e Michel achou que a divisão dos ganhos com uma mulher bonita seria um ótimo negócio, e assinou o contrato com o governo, exibindo a certidão de casamento, entretanto efetuado na mairie. O normal seria dar à “esposa” entre 20 a 25 por cento dos ganhos, sem que ela tivesse que gastar nada no destino.
Entretanto Haydée foi avisando que o contrato não a obrigava a dormir com ele. Se lhe apetecesse, tudo bem, mas que o contrato era unicamente financeiro. Acordo fechado.
Viagem para África, de navio, onde, durante toda a viagem, alguns olhos não despegavam de Haydée, que de camponesa, ajeitada, se sentia já princesa, até chegarem ao destino, desembarcando em Pointe Noire.
Conduzidos para Leopoldville, hoje Kinshassa, Michel foi entregar a documentação ao governo central que o despachou como administrador da região de Lusambo, a cerca de 1.000 quilómetros da capital, uma pequena localidade à margem do rio Sankuru, rodeada de magníficas florestas.
Terra perdida no middle of nowhere, onde havia somente três estabelecimentos comerciais, um africano e dois portugueses, todos há anos ali estabelecidos, e uma população imensa de africanos a administrar, dos quais poucos viviam na povoação.
O clima, quente e úmido, mas suportável, uma casa confortável, três criados, um cozinheiro, uma lavadeira e um terceiro, Jonas Kipango, que tomava conta do interior, servir à mesa, etc.
Já durante a viagem Michel tinha pretendido avançar em cima de Haydée, que lhe lembrava que o acordo não era de cama, o que não impediu de ter havido, de comum acordo, algumas exceções, sem que com isso Haydée saísse satisfeita, mas que o fazia como política de bom convívio, e não lhe desagradasse. Sempre era melhor do que andar a colher batatas no campo! E lá no fundo... ambos gostavam.
Michel, chegado a Lusambo, logo fez conhecimento com os comerciantes, o que era fundamental, até porque sem a colaboração e conhecimento deles pouco poderia fazer.
Em casa, a vida para ela era duma terrível monotonia. Saía quase todos os dias. Visitava o mercado, a única escola, e a todos cumprimentava com um simpático sorriso. Os maiores atrativos era ir pescar no rio, que generoso, sempre a presenteava com bonitos e razoáveis peixes, ou, uns fins de semana assistir a caçadas. Caça grossa.
Nas caçadas foi um dos portugueses que lhes mostrou a beleza das selvas e das savanas, a fauna magnífica, a dimensão duma África completamente nova e totalmente desconhecida.
Michel agradecia, mas era Haydée quem se entusiasmava com toda a novidade, a grandiosidade, e até, por estranho que pareça, o permanente sorriso, com os alvissimos dentes atrás da pele escura das populações, era para ela um espetáculo que a atraía.
De volta a casa, a rotina. Michel saía cedo para a Administração, e só depois Jonas ia preparar o banho, numa larga banheira, para madame Haydée, onde ela se deixava ficar o máximo de tempo possível.
Ao lado da banheira sempre Jonas deixava ficar, numa cadeira, o lençol e o roupão, muito bem limpos e dobrados, com que Haydée se limpava, e o roupão para voltar ao quarto, que não era ao lado do banho, e então se vestir.
Ao almoço Michel entrava em casa e saía uma hora depois, para entretanto poder dormir uma rápida sesta, e só voltava, normalmente ao sol posto.
Haydée quando não saía para pescar, sempre acompanhada pelo fiel e forte Jonas, ficava sentada na varanda a ler, respondendo a todos os cumprimentos dos que passavam em frente. Vez por outra ia até às lojas dos comerciantes onde se abastecia e encontrava souvenirs para levar de volta à Bélgica.
Por razões de política de boa vizinhança, abastecia-se de todas as lojas, onde sempre era recebida com muito respeito e simpatia.
Uma delas, especialmente. A Maison Borges, do português José Borges, que chegara ao Congo com dezoito anos, há vinte e cinco, os três primeiros passados em Lumbumbashi de onde saíu para se estabelecer em Lusambo. Casado, um casal de filhos pequenos, todos os anos mandava a mulher e os filhos para Portugal, onde ficavam a estudar.
Quando solitário, diziam, repartia o leito com jovens africanas, e muitos fins de semana saía para a caça, que era outra grande paixão.
Logo à chegada do novo casal belga, Borges tinha ido apresentar cumprimentos e oferecer os seus préstimos para lhes mostrar África.
Quando Haydée ia à sua loja, a visão de uma atraente europeia, deixava-o com os olhos presos e pensamentos a perturbá-lo, o que, se a mulher nenhuma passa desapercebido, Haydée sentia como um cumprimento.
A partir de certa altura Borges já convidava a cliente para sentar um pouco na varanda da sua casa, que ficava atrás da loja, para tomarem um café, que acabou por ser aceite. Conversavam sobre a família que ele tinha em Portugal, sobre a vida em África, caçadas, pescarias, etc.
Foi assim que não tardou em convidar o administrador e a mulher para o acompanharem nas caçadas, o que faziam com alguma regularidade, e mais ia aproximando o português da madame belga.
Jonas, sempre respeitoso, quando saía para acompanhar a patroa nas idas à pesca, vestia uma espécie de calção e o tronco nu, exibindo um físico forte, atlético, que cada vez mais chamava a atenção de Haydée. Era uma estátua grega feita em ébano!
A pesca, nas margens do rio poderia envolver alguns riscos. Haydée sentava-se por baixo duma frondosa árvore, bem na margem a uns dois metros acima do leito, que lhe dava uma bela sombra e visão, e Jonas a ajudava e pegar os peixes que ela eventualmente pescasse. Naquele lugar a possibilidade de aparecer algum jacaré era muito remota, mas poderia era escorregar e cair dentro de água, o que um dia veio a acontecer. Rápido, Jonas, entrou na água, pegou na sua madame, toda molhada e assustada, que ao escorregar havia torcido um pé, e não conseguia andar.
Não lhe custou nada, carregou a madame até casa, e cuidadosamente deixou-a estendida numa cadeira na varanda. Foi buscar panos quentes, massageou, depois amarrou com uma ligadura e Haydée passado umas horas sentia-se recuperada, e, sobretudo agradecida.
No dia seguinte quando entrou na sala do banho, como de costume encontrou a banheira cheia com a água na temperatura que ela gostava, e o lençol e o roupão dobrados na cadeira. Tudo normal.
Parou, olhou para aquelas peças e decidiu levar o roupão de volta para cima da sua cama.
Tomou o seu banho, sempre demorado e, quando saíu começou a limpar-se com o lençol. Não “vendo” o roupão, chamou pelo Jonas, que num instante estava atrás da porta a perguntar se madame precisava de alguma coisa.
- Jonas. Não tenho aqui o roupão. Pode trazê-lo?
Jonas ficou confuso, porque nunca se enganava, bate outra vez na porta para lhe passar o roupão e pede desculpa.
Haydée envolta no lençol, abriu a porta, recebeu o roupão, e pediu a Jonas se lhe dava mais uma massagem no pé.
Jonas sentou-se na frente dela e, sempre com cuidado, procurava repetir o tratamento da véspera.
- Pronto, Jonas. Creio que está bom. Por favor ajuda-me a vestir o roupão.
Jonas pega no roupão, tenta desviar o olhar, mas Haydée deixa cair o lençol que mal a cobria e veste o roupão, sem, no entanto o apertar pela frente. Vira-se para trás e Jonas, que impassível aguardava ordens, quando vê a bela madame toda despida na frente dele, quer retirar-se.
Haydée agarra-lhe na mão.
- Jonas eu não lhe agradeci o que você fez por mim. Vem cá.
E leva-o para o quarto.
- Por favor despe essa roupa.
Jonas, nervoso tira a camisa, e depois que a patroa lhe diz para tirar tudo, aparece-lhe uma bela escultura, forte, seguro, maravilhoso, e sempre com cuidado leva-o para se deitarem.
Acaricia-o, repara que aquela pele negra era mais macia do qualquer outra que alguma vez tivesse sentido, Haydée deita-se e arrasta-o.
Jonas não estava a gostar daquilo. Se fosse apanhado com uma branca poderia custar-lhe até a vida, mas não podia mais retirar-se.
Como era um homem grande e pesado e Haydée preferiu dar a volta por cima.
Estava agarrado, com força, e Haydée se contorcia e ajeitava de modo a que ele a levasse ao fim do mundo.
Quando aconteceu ela gritou. Gritou, não sabia se de dor se de prazer. Certamente dor não era. Só se fosse de não ter há mais tempo aproveitado o que sempre estivera ali a seu lado.
Jonas fez o quanto podia e via na cara da sua madame como ela estava “voando”, segurando o mais tempo que pudesse, antes de dar por findo o “trabalho”.
Haydée ficou na cama. Suava, esgotada. Jonas vestiu-se e com ar de quem vem do mercado, foi até à cozinha, onde o cozinheiro, ar “apimentado”, lhe perguntou porque demorara tanto com a senhora.
- Ela está mal do pé que torceu ontem, e não quer sair da cama. Tive que massagear de novo.
- ?!
Michel chegou para o almoço, Haydée na cama, disse que lhe custava a andar e que Jonas lhe levasse ao quarto alguma coisa, leve, para comer.
Michel fez a sua sesta na varanda para não incomodar Haydée, e quando saíu, Jonas voltou ao quarto para saber se estava tudo bem.
Estava. Quase.
Haydée queria repetir a sessão da manhã!
- Madame, se alguém sabe disto eu estou perdido. Eu gosto muito da senhora, mas sei que corro perigo.
- Não te preocupes. Ninguém vai saber. Tira a roupa e deita aqui.
Jonas com todo o seu belo físico, magnífico equipamento, estendeu-se ao lado da madame e não tardou a pôr Haydée no topo, tanta era a força para segurar o parceiro que lhe deixava as costas marcadas.
Desta vez porém o transe demorou um pouco menos porque ela ainda estava cansada do programa anterior.
Antes de deixar Jonas se levantar, Haydée puxou a cabeça dele e deu-lhe um profundo beijo, hábito não praticado entre as populações da região. Jonas no primeiro momento não entendeu, nem concluiu se tinha gostado ou não.
- Jonas!
- Madame.
- Obrigado.
Os dias seguiam e quase todas as manhãs o ritual se repetia e Haydée querendo introduzir Jonas no jogo paralelo do beijo na boca, profundo, que este, sem se excitar com isso, aprendeu rápido.
Haydée inventava posições, queria sempre mais, mais prazer, e Jonas cumpria todo aquele jogo, com algum prazer, sim, mas sem muito entusiasmo, até porque deixou de ter consideração e de respeitar a senhora. Agora ela era a patroa, sim, mas uma sem-vergonha.
Um dia mandou encher a banheira com água bem morna. Chamou Jonas, pediu-lhe que se deitasse, nu, evidente, no fundo da banheira e ela entrou também. Não se saciava. Excitada, mexia-se de tal modo que à volta da banheira ficou tudo molhado, mas ela não parava e, felizmente, Jonas tinha capacidade para aguentar toda a loucura sem se cansar.
Haydée só interrompia estas festas nos períodos férteis em que pudesse engravidar.
Ao fim de um ano, Michel tinha direito a duas semanas de férias e foi passá-las na capital. Haydée disse logo que não ia. Não conhecia lá ninguém, era uma cidade suja, muita balbúrdia. Preferia ficar em Lusambo, onde levava uma vida traquila (!) e era estimada por toda a população. Combinado.
Michel foi embora, e logo nesse fim de semana José a convida para uma caçada.
- Neste fim de semana, não. No próximo.
Iriam procurar búfalos ou elefantes, o que deixou Haydée emocionada.
Sairiam sexta feira à tarde e voltariam no domingo, dormindo numa confortável barraca de campanha. Teve o cuidado de dizer que levava uma barraca para cada um, e outra para os pisteiros.
A pouco menos de cem quilômetros encontraram o local para acampar. Logo montaram as barracas, as duas principais encostadas uma a outra para eventual defesa e a dos pisteiros mais afastada.
Apanhada uma braçada de lenha, um fogo que servia para os aquecer da umidade da noite, um jantar com alguns acepipes que José levara, o indispensável vinho, e por fim, satisfeitos, recostados nas cadeiras de lona, o café a ser saboreado debaixo daquele céu imenso, límpido, cheio de estrelas.
Haydée estava a respirar devagar para saborear o íntimo contato com a natureza que achava deslumbrante.
Conversaram um pouco, e José avisou que era melhor irem dormir, porque de manhã se levantariam antes do sol nascer.
Cada um se recolhe a sua barraca, mas ambos sabendo que isso era só encenação, para que os pisteiros não dessem conta.
- José! – chama Haydée – não me sinto nada segura dentro duma barraca de pano, sabendo que estamos rodeados de animais ferozes.
- Não se preocupe. Espere um momento.
Em silêncio, e de rastos para não ser visto, saíu da sua barraca, carregando as armas, e passou para a de Haydée.
- Eu durmo aqui ao seu lado. Assim não tem com que se preocupar.
- José. Não seja tonto. Vai dormir aí? No meu colchão, com boa vontade cabemos os dois.
É evidente que José esperava esse convite, e tinha muito mais do que a simples boa vontade, num instante estavam debaixo da mesma coberta e bem agarrados. Não porque o espaço fosse curto, mas porque era assim que ambos queriam.
- Haydée. Desde que você chegou a Lusambo que a sua imagem não sai da minha cabeça. Eu esperava este momento com uma imensa ansiedade. Você é linda.
- Bondade sua José, mas não vamos conversar muito, os pisteiros podem ouvir, e além disso não temos muitas horas para dormir...
José não a deixou terminar de falar. Agarrou-lhe a cara e... Haydée correspondeu com o melhor.
Entretanto os dois corpos já se tinham encontrado, despidas as roupas que impediam de se tocar, e as mãos não se aquietavam.
Haydée logo percebeu que José era um experimentado garanhão. Sabia como fazer as mulheres gozarem o máximo, e isso Haydée agora também aprendia.
Acabadas as manobras, ficaram um tempo assim agarrados, até que, tarde acabaram por adormecer.
Não dormiram tanto quanto seria de esperar para quem no dia seguinte tem uma caçada pela frente. Mas o fim de semana se tivesse terminado ali já teria sido uma maravilha.
Durante o dia, metade do tempo de jeep outra metade a pé pela savana, sempre dava algum resultado, e no primeiro dia caçaram um belo antílope. Um churrasco de lombo desses animais é uma delícia, como se deliciavam os pisteiros e o povo que aparecia para levar a maioria da carne, os dois sempre em volta da fogueira, a boa garrafa de vinho, conversa para passar o tempo e sobretudo uma vontade imensa de se esgueirarem para dentro da barraca, onde repetiriam o acalorado encontro dos corpos sedentos de amor e sexo.
Regresso a Lusambo.
Nos primeiros dias Haydée não chamou Jonas, o fim de semana tinha sido uma festa divina, e ela queria manter essa imagem viva, dentro de si.
Poucos dias passados, o truque do roupão alertou Jonas que tinha “trabalho” a fazer, e comparecia, sempre com o seu corpo de atleta, e ar humilde, “ás ordens” da madame.
Haydée não precisava dizer-lhe muita coisa. Com ar quase militar Jonas despia-se, avançava para a cama, e quase mecanicamente cumpria o dever de subalterno!
Michel continuava na capital. Telegrafou a perguntar se tudo estava bem, o que Haydée confirmou, e avisou que regressava dentro de uma semana, o que para ela era indiferente.
Quando regressou, contou sobre sua estadia, e a falta que ela lhe fizera, mas com sinceridade lhe disse que tinha encontrada bonitas parceiras em Leopoldville, que muito o tinham ajudado a passar o tempo.
- Que bom. Ainda bem que aproveitaste.
- E tu?
- Eu também tenho aproveitado esta calma, fui uma ou duas vezes à caça, mas o que eu gosto mesmo é de me estender aqui na varanda e olhar em volta, ou então de ir pescar.
Naquela noite Michel e Haydée se juntaram. O “casamento oficial” também sugeria encontros, mesmo que raros e casuais. Foi uma espécie de sessão de boas vindas.
Haydée em pouco tempo começou a estranhar que a menstruação não aparecese, mas nada disse a alguém. Pensou só que não teria muito mais tempo para aproveitar os encontros com José, raros e difíceis, e que teria que parar com as maravilhosas aventuras com Jonas. Talvez uns dois meses. Depois diria que se sentia mal, não sabia o que era, não tinha febre, mas alguma coisa se estava a passar, e que teria de voltar à Bélgica.
Regressou. Foi para casa dos pais, agricultores, onde deixou a barriga crescer. Como tinha “casado” com um belga, tudo foi bem aceito pela família e vizinhos.
No momento certo, Haydée foi para o hospital. Parto normal e o bebé nasceu fortão e saudável como o pai.
Um pouco mais escuro do que os avós esperavam.
Mas igual ao Jonas.

25/03/2014



                                                                                         


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Ciclo dos Amantes

A tia da perna curta

Há uma velha anedota que parece terá vindo da Saxónia, lá das bandas de Dresden, dum pequenissimo lugarejo perto de Reichenberger, onde vivia uma família de agricultores, pobres, o que era normal naquele tempo, século XVIII ou começo do XIX.
O casal pouco mais fazia do que cuidar de alguns animais e da horta, e à noite, sobretudo no inverno, quando o frio aperta... mais um filho.
Gerhart, o mais velho, com quatorze anos, tinha aprendido com os pais as primeiras letras, e as lides camponesas, mas eles queriam que fosse para a cidade para se instruir, seguir os estudos e, se possível, encarreirasse pelo seminário o que lhe daria uma vida mais folgada, e os próprios pais subiriam de conceito no meio dos camponeses.
A mãe tinha na cidade uma irmã um pouco mais nova do que ela, solteira, que quando menina tinha caído num penhasco e ficado a mancar, com uma perna cerca de quatro centímetros mais curta do que a outra, o que sempre afastou pretendentes, apesar de ter o restante físico bem composto e uma cara saudável. Vivia fazendo um trabalhinho aqui, outro além, e morava igualmente numa casa pobre, só com duas divisões, a entrada, onde estava a cozinha com uma pequena mesa, e por cima, o sótão, esconso, com um enxergão onde dormia, e um pequeno baú onde guardava o pouco que tinha, como roupa.
Gerhart acolhido na escola oficial na cidade, foi morar com a tia, porque dinheiro para mais não havia. Nos fins de semana voltava a casa, uma dúzia de quilômetros de distância, e sempre regressava com alguns produtos da horta, salsichas e pão, aquilo que os pais tivessem para que a tia não gastasse dinheiro com o sobrinho. Só a colhida em sua casa tinha sido uma ajudo imensa.
Gerhart, como a tia, à noite vestia uma camisola de dormir, que lhe descia até aos pés, e dormia no sótão, naquele enxergão não muito largo, mas nunca frio. Da cozinha subia um pouco de calor e as cobertas eram suficientes para passarem a noite agasalhados.
E ainda tinha o abraço da tia que o agarrava junto a si, para se aconchegarem melhor... e não só.
Sempre dormia de costas voltadas para a tia, não se sentia muito à vontade, mas habituado como estava, desde sempre a dormir no chão com mais quatro irmãos todos alinhados a seu lado, achou aquilo normal e sempre aproveitava o pouco mais de calor que a tia compartilhava com ele.
Os quatorze anos são o despertar da primavera e não demorou muito que Gerhart sentisse o peito da tia amaciar lhe as costas, e alguma sensação nova ia aparecendo pelo seu corpo, sem que ele soubesse exatamente o que era, mas sentia nas faces que, se aqueciam, deviam corar.
Começou por estranhar aquele calor e aquele encosto suave e firme, que lhe causava cada dia mais prazer.
É evidente que a tia ia percebendo e sentindo as reações do sobrinho e uma noite, depois que percebeu que ele adormecera, passou uma perna entre as dele, e assim se deixou ficar até de manhã.
Quando acordou, Gerhart sentiu que alguma coisa estava acontecendo. Gostou. Levantou-se, foi para a escola e à noite ao deitar-se fez o possível por ficar acordado o máximo de tempo que pudesse.
A tia deitou-se a seguir, levantou um pouco a camisola e voltou a colocar a perna entre as do sobrinho.
Bem devagar foi mexendo a perna, afagando... Gerhart, que pela primeira vez sentia fenômeno novo, foi “ver” o que estava a acontecer, sentindo-se nervoso. Passou também a mão na perna da tia, que acariciou, gostou, mas ficou sem saber o que fazer, tanto mais que se sentia em alta tensão!
Virou-se, pensou até em perguntar à tia o que aquilo era, mas tinha vergonha de o fazer. A tia fingia que dormia, mas a camisola deixava à mostra todo o seu corpo da cintura para baixo.
Com a claridade, fraca, que entrava pela janela do sótão, Gerhart destapou-a mais um pouco, pesquisou com cuidado todo o espetáculo, sentido-se a despertar para algo que mal sabia o que era, achou que podia juntar-se mais e mais, o que o instinto natural lhe ditava.
A tia, “a dormir”, foi-se ajeitando para que Gerhart se encaixasse todo. Como sonâmbula, com ambas as mãos ajeitou o sobrinho, conduzindo-o até ao “abrigo” certo.
Ambos fingiam que dormiam, mas quando Gerhart adentrou com o rompante da vontade e da muita juventude, ela soltou um gemido que o assustou, e disse:
- O que é isso Gerhart?
- Desculpa tia. Eu não queria fazer-lhe mal. Desculpa, eu vou sair daqui.
Gerhart pensou tê-la machucado e quando se preparava para se afastar ela agarrou-o com força.
- Não Gerhart. Olha, já que está assim, deixa ficar! Não fizeste mal nenhum, eu é que não esperava. (Mentira!) Deixa ficar como está, que nos agasalhamos melhor!
Gerhart não sabia o que fazer, não queria de forma alguma deixar aquele encontro que estava a saber-lhe como nunca havia pensado. Ficou quieto enquanto a tia o arrumava bem em cima dela, sentindo então toda a força daquela mulher que se coxeava a andar, ali se mexia duma forma que o levava às alturas.
A tia, Gertrude, parecia dançar debaixo dele, primeiro a um ritmo lento que foi crescendo, bem como a sua respiração acompanhada de respiração profunda. Gerhart também suava, e uma espécie de chorinho da tia preocupavam-no. Receava que a estivesse machucando! Aquela estreia, inesperada, e já há algum tempo pressentida no subconsciente, compensava-o de todo o esforço que fazia desde que saíra de casa. Apetecia-lhe gritar, cantar, dançar, mas não sabia o que fazer, abraçado à tia que o mantinha acorrentado nos seus braços.
Terminada a estreia, a tia, antes de voltarem a dormir, fez o sobrinho prestar um solene juramento de jamais, com quem quer que fosse, falar no que tinha acontecido ali entre eles. Se o fizesse ela iria queixar-se que ele a tinha atacado, que não o queria mais em casa, etc.
Gerhart jurou tudo o que podia. Por todos os santos conhecidos e a conhecer mais tarde no seminário. Não queria igualmente que alguém viesse sequer a desconfiar do que se passou, e passaria entre eles, muito menos perder aquela cama e as noites que, de certeza se seguiriam.
E seguiram.
Ao chegar a casa Gerhart tinha sempre que estudar, pelo menos uma hora, enquanto a tia arrumava alguma coisa e preparava o parco jantarzinho, que mesmo como pouco, hábil cozinheira, fazia milagres. À noite passaram a comer depressa para se irem deitar mais cedo e poderem ficar na cama o máximo de tempo possível.
Gerhart fingia que se deitava para dormir, mas assim que a tia se metia por debaixo das cobertas ele sentia as suas mãos procurando-o ao que ele não se fazia rogado, e logo aparecia disponível. Do mesmo modo as mãos do jovem percorriam o corpo da tia com muito cuidado, apreciando e excitando-se cada vez mais, mas logo se viravam um para o outro e seguiam em frente. Gertrude já não se deitava com a camisola. No escuro do sótão e o sobrinho de costas, despia-se toda e só depois se tapava com as cobertas. Folgada e carente, as mãos de ambos todos os dias descobriam novas sensações, tudo era novidade e ela beijava-o na cabeça, depois no pescoço, onde quer que pudesse.
Não podia durar muito tempo nestas cavalgadas. O sobrinho era muito jovem e até lhe parecia que começava a emagrecer. Ela era forte e resistente, mas tinha que ter muito cuidado para não estragar a sua “galinha dos ovos de ouro”, cansada de fazer inúmeras promessas para que tal lhe caísse um dia em casa. Aliás, na cama.
E tratou de o forçar a comer melhor. Mais salsichas e ovos e leite e batatas, tudo quanto pudesse contribuir para a robustez do jovem que acabara de fazer quatorze anos e a botar corpo e... o resto.
Felizmente ia bem nos estudos e logo seria chamado para o seminário. Aí acabaria aquela cama gostosa, quentinha e sensual, o que, só de pensar, lhe dava tristeza. Tinha que arranjar uma maneira de, mesmo quando no seminário, poder continuar a visitar a querida tia que tão bem o havia acolhido e introduzido nas artes do amor.
Gerhart só descansava nos fins de semana, e nas poucas férias, apesar de ter sempre muito trabalho, a ajudar os pais nas fainas diárias, a contar histórias aos irmãozinhos menores e a fazer, nos fins de semana, aquela caminhada de ida e volta, tanto no verão como no rigoroso frio do inverno.
Acabou o ano letivo. No dia seguinte Gerhart voltaria para casa e quando regressasse já tinha o seminário para onde ir. Na véspera Gertrude passou o dia a limpar as lágrimas. Ia ficar sem aquele calorzinho, aquelas pernas gostosas enroscadas, e o resto! Nos últimos tempos economizara o quanto podia, sempre abaixo de pouco, para preparar uma bonita ceia de despedida.
Quando o sobrinho entrou em casa ela agarrou-o logo, encheu-o de beijos e nem mais lembrou da tal ceia especial. A despedida tinha que ser de outra forma.
Subiram atabalhoadamente os poucos degraus até ao sótão onde chegaram já despidos. Ela chorava de e saudade antecipada, ele parecia um cavalo na corrida, até que por fim, amainaram.
Descansaram um pouco e:
- Gerhart! Tinha preparado uma ceia especial de despedida. Vamos descer de novo.
Vestiram as camisolas e foram para a festa do estômago, acompanhada com um copo de vinho para cada um.
Mas não era esta comida que cada um mais desejava.
- Tia. Eu acho que vou conseguir uns momentos livres quando entrar para o seminário para vir visitá-la. Ainda não sei bem como, mas de certeza que vou continuar a aparecer.
Ela levantou-se emocionada, beijou-o e:
- Vamo-nos deitar. Não podemos comer mais nem perder mais tempo.
As mesmas cenas, as lágrimas, tudo.
De manhã Gerhart, ao sair, para ficar uns dias de férias em casa dos pais, sem nada dizer levou um sapato da tia, que ela calçava do lado da perna mais curta. Em casa, com habilidade, de madeira forte fez uma sola espessa, que compensasse a diferença de altura das pernas, forrou a sola com um pedaço do couro de porco. Por fim pregou tudo com muito cuidado, pintou a madeira de preto e calculou ter feito um bom trabalho.
Acabadas as férias, Gerhart saiu de casa dos pais um dia de antes da entrada para o seminário e, além de levar mais alimentos para ajudar a tia, carregava, como surpresa, o sapato.
Quando chegou foi recebido com imensa alegria e muito “atraso” nas lides escusas. Depois de se terem reposto as saudades, Gerhart pede à tia que lhe mostre o pé, calça-lhe o sapato e pede-lhe que ande, para ver o resultado.
Para espanto dela, quase não coxeava, e como as saias iam até quase ao chão ninguém se aperceberia do “truque”. Outra vez teve que agradecer, e muito, este carinho que o sobrinho lhe levara. E os agradecimentos eram sempre calorosos.
Ele teve que se apresentar no seminário, prometendo que apareceria sempre que possível, e assim foi acontecendo durante algum tempo, com intervalos mais regulares do que imaginara.
Um dia um dos professores, simpático, no meio da aula avisa os alunos que ia que deixar o seminário. Fora mandado para uma paróquia em Zwickau, a mais de 100 quilômetros dali. No fim da aula em conversa com Gerhart lamentou-se, porque gostava muito de lecionar, e no novo cargo, solteiro, iria ter que tomar conta da igreja, da casa, viver sozinho, o que lhe parecia sombrio.
Gerhart lembrou-se logo da tia, que bem merecia um homem bom com quem casasse.
- Herr Lehrer. Eu conheço uma senhora, minha tia, solteira, muito simpática e educada, que seria uma esposa ideal para o senhor. Pobre, irmã de minha mãe, muito trabalhadora. Venha comigo que eu vou apresentá-la.
- Gerhart. Casamento não se faz como quem vai comprar batatas! Precisa tempo.
- Mas primeiro precisa conhecer. Depois... é problema de ambos.
- Vamos então lá conhecer a sua tia.
- Deixe-me ir uns cinco minutos na frente para a avisar que vem um amigo, para ela se poder arrumar um pouco, mesmo não sendo pessoa de se exibir, nem dinheiro teria para isso.
Quando entrou em casa a tia agarrou-se logo a ele, e Gerhart teve dificuldade em se desenvencilhar.
- Tia, vem aí um amigo meu, um professor que a quer conhecer.
- Ahhh! Mas eu estou nesta figura miserável!
- Que nada. Dê um arranjo na aparência e deixe as coisas correrem.
Conforme o combinado, pouco depois o professor bate à porta, Gerhart vai abrir e logo a seguir Gertrude desce do sótão. Corada, roupa modesta, cuidada, e uma cara que logo agradou ao pretenso pretendente.
Apresentações, um pouco de conversa cerimoniosa, Gerhart diz que tem que sair por uns minutos e deixa os dois sós.
Meia hora depois, ao voltar ainda estavam os dois em animada conversa.
Professor e aluno saíram juntos. Um beijo na face da tia. um Auf Wiedersehen, bis bald, meteram-se a caminho do seminário.
- Muito simpática a sua tia. Sabe que gostei dela?
- Eu já sabia. Ela é ótima pessoa, e o senhor precisa e merece alguém assim. Tenho a certeza que farão um belo casal e que serão felizes.
Gerhart não voltou a procurar os carinhos da tia. Queria mesmo que ela fosse feliz. Ela bem merecia.
Nos dias que se seguiram, o professor aproveitava todos os momentos livres para visitar Gertrude. Ao fim de um mês tinham casamento marcado.
Fizeram a festa em casa dos pais de Gerhart, que começou a tomar consciência que a vida de pastor não se coadunava com sexo libertino, e sentia-se feliz por ter ajudado a tia.
Ajudou-a muito... e ela a ele, mas isso eram águas passadas.
Agora a vida era outra, para todos.

Maio/2014

segunda-feira, 20 de novembro de 2017


7ème Arrondissement


Continuemos com os amantes. A vida é curta!

Paris, Rue Rousselet, um petit Cafe-Restaurant, Fignier, uma rua tranquila.
Há quantos anos o Restaurant ali estava, ninguém sabia ao certo. Nem a dona. Ela e o marido o haviam comprado há mais de vinte. Clientes habituais, um salão de jantar de tamanho médio, muito arrumado, um pequeno café e bar na entrada, e sempre, sempre, uma cozinha gourmet.
Clientes habituais e quase diários, como Jean Louis, aposentado da SNCF, que raro o dia ali não almoçava. Íntimo da casa, entrava sempre com um sorriso e um belo cumprimento para a simpática, eficiente e trabalhadora dona, madame Simone.
Madame Simone tinha enviuvado há quase sete anos e, de entrada foi-lhe difícil continuar com o negócio, que quase só ela e o marido mantinham. Teve que se organizar, arranjar um ajudante de cozinha que ela nunca deixava de supervisionar, e ao mesmo tempo atender ao bar, onde a maioria dos fregueses já quase faziam parte da família.
Jean Louis era um desses fregueses a quem madame Simone, como a outros, fazia questão de atender pessoalmente.
- Sempre bela, madame Simone! Então o que me recomenda hoje?
- Não seja tolo messieur Jean Louis. Já não sou jovem, e ouvir esses cumprimentos até me deixam sem graça. Sabe que nós devemos ter quase a mesma idade! Bom, que tal un petit filet avec pommes sautées et des artichauds au beurre?
Jean Louis era também sempre atencioso:
- Ah! Madame, vous me portez toujours vers le ciel! Não esqueça o vinho. Pode mandar trazer já, mesmo antes da comida.
O garçon trouxe o vinho da conhecida preferência do habitual cliente, mas era sempre madame Simone quem fazia depois questão de servir o prato com a comida.
- Voilà.
- Sempre uma maravilha. Obrigado.
Com muito tempo e calma, Jean Louis, nos seus sessenta e alguns, saboreava o magnífico filet, bebia uns dois copos de vinho, e por fim alguma sobremesa leve e o indispensável café.
Se o restaurante não estivesse cheio deixava-se ali ficar sentado um bom tempo. Assim que saísse não tinha rumo certo, a família toda vivia longe, teria que passear pelas ruas, dele sobejamente conhecidas, vagava, vez por outra ia ao cinema ou a um teatro, enquanto no restaurante havia movimento, alguma animação e sobretudo a sua amiga, sim, porque de há muito se consideravam amigos, madame Simone.
Só aos domingos, e nem todos, é que ia almoçar com a única filha e netos. Era praticamente só essa a variante da sua vida.
Quando todos os clientes saíam, por vezes madame Simone vinha comer a sua refeição na mesa do cliente, o que a este dava um prazer especial. Conversavam, sobre assuntos banais, mas Jean Louis começava a sair de lá frustrado. Vivia só e aquela companhia estava a animá-lo, sobretudo a fazer-lhe falta.
Chegou o dia em que se atreveu ir um pouco mais longe.
- Madame Simone, a senhora mora aqui por cima do restaurante, não é?
- É verdade.
- E vive sózinha?
- Vivo. Mas como costumo sair tarde daqui, muitas vezes nem tempo me sobra para pensar nisso, já que bem cedo estou de volta e começa todo o trabalho de novo.
- Mas às segundas-feiras, o restaurante fechado, era ocasião para relaxar um pouco.
- Mas é isso que eu faço. Levanto-me mais tarde, dou uma volta pela casa, que apesar de não ser grande sempre precisa de mão de mulher, depois saio, vou almoçar fora, e tudo isso já é uma variante.
- Vamos fazer o seguinte: numa próxina segunda-feira eu venho buscá-la, de carro, e vamos almoçar fora de Paris. Tomamos um pouco d’air de la campgne, almoçamos num lugar tranquilo, e nesse dia não tem que se preocupar com nada. Fica, inteiramente, por minha conta! O que acha?
- Messieur Jean Louis. É muito amável da sua parte, mas...
- Não tem mas... É um convite sincero, e devo dizer-lhe que me sentirei muito honrado se aceitar.
- Vou pensar. Durante o resto da semana voltaremos a falar nisso. Mas eu não quero, de forma alguma, atrapalhar a sua vida.
- Meu Deus! Atrapalhar a minha vida! Jamais. Pelo contrário. Seria para mim uma grande alegria.
No sábado, madame Simone, quando serviu o almoço ao seu cliente, muito rapidamente e em voz baixa disse-lhe
- Segunda-feira. Combinaremos isso mais logo.
Jean Louis não cabia em si de contente. Parecia um menino a quem prometeram o brinquedo desejado.
Um pouco mais tarde, restaurante quase vazio, madame Simone traz o seu prato e vem sentar-se na mesa de Jean Louis.
- Então segunda feira vamos para o campo! Há anos que não saio de Paris, e só de pensar que posso respirar um pouco de ar puro, achei que deveria aceitar o seu amável convite.
- A que horas devo vir buscá-la?
- Pelas nove e meia, para nos podermos afastar mais da cidade, e sair dos engarrafamentos. O que lhe parece?
- Esplêndido.
À hora combinada, Jean Louis no seu carro, um pequeno Citroen, lá estava à porta da casa. Madame Simone, desceu, ele saiu para a cumprimentar e lhe abrir a porta do carro, e seguiram direção Norte.
- O que lhe parece irmos até à Normandia?
- Para mim é igual. Só de sair da cidade já é uma maravilha.
Optaram por estradas secundárias. Não tinham pressa e a idéia era gozarem a natureza. Era Maio e os campos estavam lindos, muitos deles cobertos de flores.
Pararam em vários lugares, ora para apreciar a paisagem ora visitar um monumento antigo, e pareciam felizes com toda aquela descontração. Sempre Jean Louis chegava primeiro ao carro para abrir a porta à sua companheira, o que ela não deixava de notar e se sensibilizar.
À hora do almoço acabaram por deparar numa estrada quase sem movimento, un Petit Auberge – Café – Restaurant, com uma estrela Michelin, garantia de qualidade, que logo lhes chamou a atenção. Fora, a povoação estava rodeada de campos e floresta, o lugar quase idealizado, para que, longe do tumulto das cidades, respirassem o tal ar puro.
Restaurante simples, a proprietária, madame Michelle, recebeu-os muito bem, uma senhora amável, que lhes propôs o que ela achava melhor nesse dia:
- Terine maison et aprés perdrix embeurrée de choux, foie gras et cèpes. (Cépes, um delicioso champignon!)
- Mas como deve ser bom! – Jean Louis já lambia os beiços – O que acha?
Madame Simone confirmou que seria ótimo.
- Du vin?
- Que tal um Bourgogne Nuits Saint George?
- Magnífico.
Conversaram, comeram o almoço que estava delicioso, depois um crème brulé, e café. Não podia ser melhor.
Sairam, deixaram o carro em frente ao Auberge e foram andar um pouco pelo campo.
Sentiam-se felizes, e como o caminho pelo campo era de piso irregular, Simone de repente tropeçou e teve que se apoiar em Jean Louis. Daí para a frente seguiram de braço dado.
Quando viram que era chegada a hora, de novo à estrada, a caminho de Paris, e volta e meia respiravam fundo! Lembrar do ar puro que haviam inalado, ou alguma espécie de nervoso pela presença um do outro?
Ao entrarem em Paris:
- Madame Simone: tenho outra surpresa! Tenho aqui bilhetes para irmos hoje ao teatro! Théâtre La Bruyère, ver “Leu jeu de l’Amour et du Hasard”, com Leonie Simaga e Alexandre Pavlov. Tem recebido ótimas críticas.
- Oh! Gostei da ideia. Mas vou ter que trocar de roupa.
Passaram em casa, Simone subiu para se arrumar, enquanto Jean Louis, discreto esperou no carro.
O teatro foi muito bom, o título da peça parecia ter sido escolhido para eles que muito gostaram,
De volta a casa, mais uma vez Jean Louis fez questão de abrir a porta do carro. Simone, saiu.
- Foi um dia maravilhoso. Não sei como lhe agradecer.
- Não tem nada a agradecer. Eu é que lhe agradeço muito a sua fantástica companhia. Foi um dia ótimo e, para mim, inesquecível.
- Também foi muito bom para mim. Muito obrigado.
- De nada. Amanhã nos veremos.
Boa noite, boa noite, Jean Louis foi embora sorrindo. Alegre.
A semana ia correndo dentro da mesma rotina, com Jean Louis sempre procurando ficar o máximo possível no restaurante. Passou até a chegar um pouco mais tarde para permitir que os restantes clientes fossem saindo primeiro.
E lá vinha madame Simone sentar-se ao lado dele.
- Não me sai da cabeça aquele nosso passeio. Temos que repetir. O que lhe parece?
- Eu também apreciei muito, e acho que qualquer dia voltaremos a dar outro passeio.
- Que tal já na próxima segunda-feira?
- Nesta não, porque na última não consegui dar um trato na minha casa, e não posso deixá-la ao abandono. Vamos deixar para a outra. Fica já combinado.
Jean Louis não via o tempo passar. Tinha que esperar uns dez dias que lhe pareceram uma eternidade, e no dia aprazado, lá estava ele, no seu Citroen a abrir a porta a madame Simone, que vinha com uma roupa mais fresca. Fim de Maio, um dia de sol, Jean Louis também só com uma camisa de verão, um boné na cabeça, enfim, dois turistas autênticos.
- Sabe uma coisa: fomos tão bem recebidos naquele Auberge que sugiro que voltemos lá para almoçar de novo. O que acha?
- Perfeito.
- Vamos é por outras estradas. O campo é sempre lindo, mas é bom variar.
Flores, monumentos, algumas villages que mereciam uma parada para serem apreciadas, e de novo no restaurante.
- Madame, aqui estamos novamente. É porque gostámos.
Madame Michelle desta vez disse-lhes:
- Nem vou dizer-lhes o que tenho para o almoço. Será surpresa. Mas se não gostarem, troca-se pelo que quiserem.
- O que lhe parece?
Madame Simone achou a idéia ótima.
- Merece vinho tinto ou branco?
- Acho que tinto.
- Então por favor traz o mesmo que bebemos da outra vez. Lembra?
- Muito bem.
Jean Louis, antes de chegar o almoço, pediu desculpa, levantou-se da mesa, disse que precisava de lavar as mãos e dirigiu-se à proprietária do Auberge, sem que madame Simone o visse.
- Tem algum quarto vago?
- Sim, porque?
- Por favor, reserve um, de preferência com uma vista bonita para o campo.
E voltou para a mesa.
Madame Simone estava com um ar também de felicidade. Ela que estivera enclausurada anos seguidos e que, mesmo as férias passava em lugar triste, perto de uma irmã. Somente aproveitava para descansar, mas não tinha distrações nem nada que a atraísse.
Jean Louis, talvez o calor do dia o estivesse a estimular, pegou na mão da sua amiga Simone. Colocou-a entre as suas, e sem dizer nada ficou a olhá-la. Ela deixou, sentiu um ligeiro rubor, mas não reagiu.
- Simone, vou deixar o “madame”. Não calha nós estarmos aqui como amigos com esta cerimónia. Por favor trate-me por Jean, ou Jean Louis, como quiser.
- Acho muito bem.
- E...
Entretanto chegava o almoço, e enquanto se serviam estiveram calados. Nem repararam bem o que tinham na frente para comer.
Olhavam-se nos olhos.
- Eu ia dizer-lhe que nós, que não somos já meninos, podemos pensar em nos juntarmos.
Simone estremeceu. Ela sabia que não tardaria a vir uma proposta assim, mas não esperava que fosse tão direta, e no momento ficou sem saber o que responder.
- Eu não vou meter-me no seu restaurante, não vou atrapalhar em nada a sua vida, mas temos muitas horas que sobram aos dois, e vivê-las em conjunto será certamente muito melhor do que cada um no seu canto, isolados.
- Jean. Não sei o que lhe dizer. Conhecemo-nos há muito tempo, temo-nos sempre respeitado, o que me leva a receber essa proposta com toda a seriedade. Mas não sei se seria bom para ambos.
- Porque?
- Não sei, e olhe o que vou dizer: essa idéia também já me passou pela cabeça, e eu tentei esquecê-la.
- Porque esquecê-la? É uma proposta que não deve estranhar. Já de há muito tempo que olho para si com olhos diferentes. Procuro ficar no restaurante o máximo de tempo possível, porque no fundo a sua companhia me faz bem, e eu sinto muito a sua falta logo que nos afastamos.
- Vamos comendo isto que está com ótimo aspeto.
Jean Louis nem apreciou o que comeu. Engoliu. Estava preso no que Simone lhe poderia dizer.
- Simone, eu não deveria dizer que a amo, porque poderia soar um tanto infantil, mas a verdade é que a desejo muito. Você é ainda uma mulher atraente, cheia de vida. Porque desperdiçá-la sozinha?
- Jean, está a deixar-me confusa, sem saber o que lhe dizer.
Acabaram o almoço. Jean Louis estava disposto a jogar todas as cartas.
- Simone, prometa que não se zanga comigo, com o que lhe vou dizer, e propor.
- O que é?
- Pedi á senhora para reservar um quarto para nós. Vamos lá acima. Não faremos nada que não queira, mas conversaremos mais sobre tudo isto. Sabe que eu seria incapaz de ir contra a sua vontade. Tenho-lhe muito respeito e não queria que jamais pensasse mal de mim.
Simone estava, aparentemente, sem resposta. Mas no fundo sabia que também essa proposta um dia chegaria. As mulheres têm um sentido mais profundo do que os homens!
- Está bem. Vamos lá conversar sobre as nossas vidas.
Jean Louis vibrava e o seu coração batia mais forte. Quarto número 4, à direita.
Abriu a porta, fez com que Simone entrasse e voltou a fechar com a chave. O quarto tinha uma bela janela com uma magnífica vista para o campo. Simone aproximou-se, olhou e disse “que beleza”.
Jean que veio por detrás passou-lhe carinhosamente os braços pela cintura. Simone teve a melhor reação que Jean podia esperar: aconchegou-se. E assim ficaram uns quantos momentos, sem falar.
Então Jean virou-a para ele.
- Simone já senti a sua resposta. Estou no céu. – E abraçou-a com mais calor.
Ela, de entrada meio inerte, não tardou a passar os braços em volta dele também, e o inevitáel, aliás o esperado, aconteceu. Um beijo, e muito silêncio.
Jean, como sempre delicado, e receoso com uma possível reação negativa, aponta para a cama.
Simone, também devagar, senta-se nela. Voltam a abraçar-se, e já começam a querer tirar a roupa.
Jean diz-lhe:
- Simone, use a salle de bains para se pôr à vontade.
Ele despiu-se, deitou-se dentro dos lençois e ficou, com o coração a bater, à espera que a porta da salle de bains se voltasse a abrir. Não tardou. Simone sai enrolada num lençol de banho, cabeça baixa, com vergonha de cruzar o olhar com o parceiro, e correu para dentro da cama.
Abraçaram-se, acarinharam-se, ferviam beijos, mon amour, até que chegou o momento inadiável. Jean estava preparado, Simone entregou-se.
Duram sempre pouco, estes momentos, mas deixaram os dois em sublime felicidade. Olhavam-se e riam. Parece que, realmente se amavam. O amor não escolhe idades.
- Jean, isto é tudo muito louco! Mas a verdade é que há muito tempo eu sonhava com um encontro destes. Não com um homem qualquer. Você foi maravilhoso, e eu acho que estou pronta para aceitar a proposta que me fez ao almoço. Hoje vamos aproveitar estes momentos, sem falar mais nisso. Eu estou muito feliz.
- Simone, mon amour, eu também não tenho palavras, mas agora então é que não a quero perder. Amanhã começaremos a discutir os detalhes da nossa união, se bem que não haja grande coisa para discutir! Há muito que eu também sonhava com este encontro, e estou até com dificuldade em realizar que tenha acontecido.
Deixaram-se ficar deitados, abraçados mais um bom tempo, até que chegou a hora do regresso.
À saida, Jean Louis disse à proprietária:
- Madame, vamos voltar em breve para a nossa lua de mel, e queremos o mesmo quarto!

05/03/2014