quinta-feira, 2 de novembro de 2017


Silvana e Vittorio


Conheciam-se desde quando?  Podia dizer-se que desde muito antes de terem nascido!
Tanto dum lado quanto do outro as mães eram amigas já na escola primária e os pais tinham feito a faculdade juntos. Moravam em Verona a menos de duzentos metros uns dos outros, o que fazia que qualquer das casas era sempre a casa de todos. Além disso nas férias de verão estavam juntos também porque seus avós, vinhateiros ali nos arredores, tinham toda a campagna para correrem e brincar.
Dois dos filhos, e duas filhas, amigos de nascença, casaram no mesmo ano, com uma diferença de seis meses, e foram nascendo crianças a um casal e outro num ritmo que parecia combinado. Meia dúzia de cada lado, alternando-se apenas com o ritmo que marcou o nascimento no primeiro lado.
Esses filhos todos, juntos eram como irmãos, e assim cresceram, andaram nas mesmas escolas, até ao momento de cada um seguir a sua vida, casarem, e o afastamento físico e a vida de novas famílias não permitir a continuação das brincadeiras.
Todos agora, adultos, comprometidos, uns com mais outros menos filhos, à medida que se tornavam independentes começaram a se dispersar por outras cidades e pelo mundo, dois tinham seguido para a Argentina, um para os Estados Unidos e Vittorio, que participou da Segunda Guerra como tenente do exército italiano, quando viu que a política levava Itália ao desastre, desertou, atravessou o Mediterrâneo e foi oferecer-se ao exécito australiano. Acabada a guerra, condecorado, foi-lhe dada a cidadania australiana, por lá ficou e casou, o que tornou sempre e cada vez mais difícil o encontro com os irmãos e amigos de infância. Mas quando se encontravam, todos ou parte, a alegria era igual à que mostravam quando na meninice.
Silvana, casou, não saíu de Verona, teve quatro filhos e um dia o marido encantou-se por uma “gata” que se espavoneava como Julieta perdida em Veneza, deixou a mulher e filhos, tinha ela pouco mais de quarenta anos. Não voltou a casar, dedicou-se aos filhos e depois aos netos, levando uma vida um tanto amarga e solitária.
Os que emigraram, só de anos a anos apareciam na chamada “terrinha” onde, religiosamente procuravam reunir os amigos e fazerem a festa juntos.
Vittorio, o australiano, teve três filhos, produtor de vinhos, uma vida de trabalho, enviuvou com setenta e tanto, e a partir daí as visitas à família na Itália perderam muito do interesse, até porque irmãos e amigos ou já se tinham apagado ou estavam, a maioria, deixando-se apodrecer em casa, sendo difícil juntá-los para uma farra, mesmo de velhotes.
A instâncias dos filhos e netos, já com oitenta e cinco, lá o convenceram a meter-se num avião uma vez mais, para encontrar os que sobreviviam, recordar a juventude, se possível, e beber uns copos do que sempre apreciara. E até, diziam os filhos, “mostrar-lhes que o nosso vinho é tão bom ou melhor do que o deles!”
Aceitou, enfrentou a longa viagem, e muita alegria nos encontros que ia tendo. Recolha cedo ao hotel a meio da tarde cansado dos anos e da emoção.
Uma das amigas da meninice, Silvana, também passados os oitenta e três, há tempos tinha decidido deixar de ser “dona de casa” e hospedara-se num hotel, pequeno, mas muito simpático, à borda do Lago Di Garda. Não tinha mais que se preocupar com casa, empregada, cozinha, arrumação, etc. Nos fins de semana sempre apareciam alguns dos filhos ou netos, durante a semana dava os seus passeios tranquilamente pela orla do lago, descansava, enfim, tinha uma velhice calma e agradável.
Vittorio logo que soube do seu paradeiro telefonou-lhe. Grande alegria, “não sabia que estavas aqui”, “porque não vens almoçar comigo”, “há quantos anos não nos vimos”, etc.
Vittorio disse logo, “vou jantar hoje contigo, não janto nada, mas uma sopinha e uma fruta vai sempre bem. Por favor reserva aí um quarto no hotel porque só volto a Verona amanhã. Como se chama o hotel?” – “Corte Valier. Mesmo na borda do lago”.
Chegou de taxi, ao fim do dia, um resto de sol sumia entre os morros que circundam o lago e pouco se refletia já nas suas águas e, uma brisa que começava a refrescar enchia-lhe os pulmões e a cabeça de boas recordações, e o mais importante, o forte e saudoso abraço no encontro com a amiga de sempre, uma pequena lágrima do canto do olho de cada um, a habitual troca de perguntas “como estão os filhos, netos e bisnetos”, uma pequena caminhada de braço dado, bem agarrados, “lembras-te que nós, em pequenos, quando vínhamos todos para aqui, era sempre uma festa”.
Por fim, no canto dum pequeno restaurante não longe do hotel, porque nem estavam em idade de grandes caminhadas, a tal sopa e uma fruta, sem se esquivarem de, calmamente, irem bebendo uma garrafa de Soave, branco, uma das especialidades da região, que os deixou bem mais animados.
- Sabes que não consegui um quarto para ti lá no hotel! Tem um feriado qualquer e lotou. Mas não te preocupes porque no meu quarto tem duas camas, muitas vezes um neto ou filho vem ficar ali comigo, e tu podes muito bem dormir lá. Não temos satisfações a dar a ninguém e ainda por cima só nos conhecemos há oitenta e tantos anos!
- Silvana, mas eu não quero incomodar-te.
- Não estás bom da cabeça. Nós que em pequenos dormíamos ao monte, uns por cima dos outros, na nossa ou na vossa casa, agora é que vens com essa conversa! Não sejas tolo.
- É verdade. Aceito, sim.
Passearam mais um pouco, os anos e as pernas não ajudavam a grandes andanças, o friozinho da noite aconselhava a que se recolhessem e voltaram para o hotel. Ainda alguma conversa na sala do hotel, uma xícara de chá bem quentinho e logo acharam melhor ir para o quarto. Aqueles anos todos em cima, eram um peso razoável a carregar, mesmo parecendo, os dois, de muito boa saúde!
O quarto não era grande, bem arrumado, confortável, uma cama larga e outra de solteiro num canto meio separado, além do banheiro, que ambos usaram para se trocarem e vestir a roupa de dormir. Primeiro Silvana que logo se deitou, e quando Vittorio reaparece de pijama e se ia deitar na cama extra, ela diz-lhe:
- Vittorio. Deixa-te de cerimónias; dorme aqui ao meu lado. Esquece a outra cama. Estou velha e preciso de um abraço.
- !!!
Vittorio obedeceu, cerimonioso. Esperava qualquer coisa menos aquilo, tanto mais que durante toda a vida de ambos nunca houvera entre eles mais do que amizade sem a mínima sombra de namoro.
Assim que entrou na cama, Silvana encostou a cabeça no peito dele e disse-lhe:
- Há anos que vivo só para os filhos e netos. Agora estou por aqui sozinha, muito tranquila. Bem sei, o lugar é lindo, mas sinto-me como prisioneira, sem ter praticamente ninguém com quem conversar. A tua vinda foi um bálsamo, faz-me rejuvenescer ao nosso tempo de meninos. Estas recordações trazem-nos lágrimas de saudade e alegria. Fico a pensar como éramos alegres, traquinas, lembro muito os nossos pais e a sua longa e grande amizade, o quanto corríamos pelo campo, enfim, tudo o que acabou há tanto tempo.
E abraçava-o bem. Vittorio correspondeu ao abraço e beijou-lhe a testa.
Mesmo com a idade bem avançada sentiu que apesar de tudo estava abraçado a uma mulher e temeu que ela pudesse vir a sentir se ele se excitasse, o que seria pouco provável!
Com o passeio, o vinho e sobretudo a emoção do encontro, foi curta a conversa e não tardou a que os dois adormecessem.
O que se passou naquela noite e naquele quarto nunca se soube.
Já a manhã ia longa, um belo dia de sol a chamar para mais passeios ao longo do lago com toda a sua beleza natural, o dono do hotel estranhou que D. Silvana não tivesse ainda aparecido para o seu habitual café da manhã, o que fazia quase sempre à mesma hora. Receando que estivesse a passar mal foi, cuidadosamente, bater à porta do quarto. Ninguém respondia. Desceu, perguntou ao restante pessoal se tinham visto a senhora, e nada. Nem tinha tomado o café da manhã, nem o recepcionista a tinha visto.
Com a chave mestra, voltou ao quatro, novamente bateu à porta e como não obtivesse resposta, abriu para ver o que se passava.
O sol entrava com força pelas janelas. As luzes das mesas de cabeceira estavam acesas.
Na cama, ainda desarrumada, ninguém.
Onde estariam?
Com o sol a despontar, levantaram-se, saíram antes da troca do pessoal da recepção, e foram passear, abraçados, quase com os pés na água fria do Lago.
Em silêncio, gozando a beleza da manhã, e a companhia um do outro. Via-se que estavam felizes, e foram caminhando. O gerente do hotel ainda mandou alguém ver se os encontrava, mas nada! O emissário pareceu vê-los ao longe, mas uma densa neblina levantava-se das águas, e logo, bem aconchegados um ao outro, sumiram dentro daquela “nuvem”!
O emissário correu para os chamar, mas nada mais viu.
Não voltaram para o almoço, nem para o jantar, nem para dormir. A polícia foi alertada. Percorreram todas as estradas à volta do Lago. Não viram nada, ninguém os viu. Grande o alvoroço.
Telefonaram para os filhos e parentes que acorreram ao local. Ao fim do terceiro dia suspenderam as buscas.
Nunca mais foram vistos.


15/04/2014

sábado, 28 de outubro de 2017


Um pequeno conto
O Dr. Vasco

Dr. Vasco Pimentel.  Filho de emigrante português, de Viseu, grande torcedor do Vasco da Gama, quando o filho nasceu o clube acabava de ganhar o campeonato e ele não hesitou: vai chamar-se Vasco.
55 anos, sem filhos, advogado, sem qualquer interêsse por futebol, o que teria desiludido o papai português, dono de um escritório de contabilidade, onde trabalhavam nove empregados, vivia sozinho, quase eremita, desde que as duas mulheres com quem casou se haviam mandado. Tinham apostado no dinheiro dele, querendo, ambas, aparecer na “socialite”, mas o Dr. Vasco, calmo, sem pretensões de “colunável”, só pensava no escritório, nos clientes e numa vida tranquila, em casa, junto com a mulher. Raro saiam para jantar fora, e com estas clausuras a primeira foi-se embora rapidinho e a segunda não demorou muito. E férias só alguns dias quando dos dois malogrados casamentos. Depois disso, já se passavam vinte anos, nem um diazinho só.
Resignou-se. Mas precisava de uma empregada fixa para lhe cuidar da casa. Estava cansado de faxineiras que entravam depois dele sair e saiam antes de voltar, o que sempre o deixava inquieto. Resolveu que não era isso que queria e mandou pôr um anúncio no jornal: “Senhor, respeitável, precisa de empregada doméstica que durma em casa. Bom salário. Telefonar para xxxx com Adélia.”
Adélia era a sua secretária. Antiga, de total confiança. Disse-lhe exatamente o que queria: ter a casa sempre arrumada e limpa, cuidar-lhe da roupa, o café da manhã exigia quase nada porque se limitava a uma fruta e um café, só almoçava em casa aos fins de semana, e à noite comia ou uma sopa ou fruta. A empregada seria admitida pelo escritório o que lhe valia ter todos os benefícios da segurança social, e poderia escolher o horário de trablaho.
Telefonaram mais de uma dúzia de candidatas. Adélia chamou só duas que lhe pareceram as mais indicadas, falou primeiro com elas e a seguir foram recebidas pelo patrão.
- Faça o favor de se sentar.
A primeira, vendo um “coroa enxuto” sentou e tratou, generosa... de cruzar as pernas. Pouco conversaram. Dr. Vasco não estava à procura de confusão.
Veio a segunda, mulher alta, boa figura, discreta, ar limpo, disse que tinha quarenta e sete anos, desquitada há muito, e um filho de vinte e cinco, casado e com dois filhos.
Efigênia, seu nome, já tinha ouvido da secretária que o primeiro mês seria experimental, como autoriza a lei, e se fosse aprovada o salário era, no mínimo, cinquenta por cento acima da média, mas, como dizia o anúnico, tinha que dormir em casa do patrão, porque era sobretudo de manhã e à noite que ele precisava dos seus serviços.
Quando este a recebeu, gostou da postura, explicou-lhe com alguns detalhes o que ela deveria fazer, incluindo algo que parecendo estranho, ela que não se acanhasse: precisava que alguém lhe esfregasse as costas com uma pomada própria, enquanto tomava banho, de imersão, mas que não se preocupasse porque ele sempre envergava um calção. Se não fizesse isso logo de manhã, tinha que pedir depois a alguém no escritório que o fizesse o que não era o indicado e ainda ficava com a camisa manchada do medicamento.
Efigênia achou o caso meio insólito, mas pareceu-lhe que nada havia de segundas intenções e aceitou o emprego.
Nesse mesmo dia, à hora combinada, apareceu com uma pequena mala na casa onde ia trabalhar, e era aguardada.
O patrão mostrou-lhe a casa toda, que não era pequena, explicou-lhe a vida que levava em casa, que era pouco tempo, a maioria dele a ler o jornal, livros e um pouco de televisão com as notícias. De manhã tomava banho às sete e meia, quando precisava do primeiro serviço. A empregada, nos tempos livres, e sempre que quisesse poderia ligar a Tv, e fazer o almoço e o jantar dela.
Jantar naquele dia para ele foi simples: sanduiche e um copo de leite. A seguir, a rotina de ler um pouco, ouvir o noticiário e cama.
No dia seguinte, Dr. Vasco enche a banheira, veste um calçãozinho, pouco mais que sunga, coloca um banco ali bem ao lado e já dentro de água chamou Efigênia para lhe vir esfregar as costas.
Veio, prestimosa, sentou-se no banco, o patrão explicou-lhe como devia fazer e qual produto usar, inclinou-se para a frente e ela foi esfregando com uma luva própria, as suas costas. O patrão orientava-a, mais para cima, para o lado, para baixo, etc., até que tudo feito, agradeceu e Efigênia se retirou.
Os dias passavam e a rotina era a mesma. No fim do mês Dr. Vasco disse-lhe que estava muito satisfeito com o seu trabalho e no dia seguinte a levaria ao escritório para legalizar o emprego, com um salário ainda superior ao que lhe haviam falado.
Para Efigênia, o emprego era ideal. Não gastava um tostão e amealhava praticamente tudo quanto lhe pagavam.
Agora tomavam o café da manhã e o jantar juntos, coisa sempre de poucos minutos, e na sala também assistia à Tv com o patrão, se bem que este só gostasse de ligá-la para o noticiário. Como ela gostava das novelas, tinha outra, grande, no quarto e a maioria do tempo, por lá se deixava estar.
Sempre o mesmo ritual da esfrega nas costas que a dedicada empregada encarava como um qualquer outro serviço, mas não podia deixar de apreciar o físico do patrão. Todos os dias a esfregar as costas de um homem, coisa que ela não fazia desde...
Apesar da idade e do seu comportamento ermitão, era ainda um belo homem, costas direitas, sem barriga, parecia bastante saudável, e enquanto esfregava, acariciava e procurava afastar o pensamento de fantasias.
Mas com a continuação... Passado pouco mais de dois meses, um dia, certamente com propósito disfarçado, a empregada agitou mais a água que lhe salpitou a bata.
- Ó! Doutor! Molhei-me toda! Com a sua licença vou tirar a bata.
O doutor olhou para o lado para ver o que tinha acontecido e já a empregada se despia, levemente molhada, ficando só com de soutien e calcinha!
- O que foi que aconteceu, Efigênia?
- Molhei-me toda e ainda não acabei o serviço. O senhor desculpe este à vontade, mas eu sei que não vai se importar.
O patrão mirou-a de cima a baixo, devagar, apreciou, até gostou, e novamente inclinou as costas para que a empregada continuasse o trabalho.
Quando acabou, em vez de se retirar, Efigênia pegou no lençol de banho para o entregar ao patrão, ajudou-o a sair da banheira, e ficaram de frente um para o outro! Ela passa-lhe o lençol pelas costas e em vez de o fechar pela frente, encosta-se ao patrão.
- Dr. Vasco, estamos os dois aqui há meses, solitários, parecemos dois prisioneiros de que? de nada, de vez em quando olhamos um para o outro sem dizer palavra, e acho que qualquer de nós ainda tem muito para dar. Porque estamos a fazer cerimônia, a fingir? Que tal... ? Humm? E fez um gesto que mostrava bem o que estava a propor, enquanto piscava um olho.
Dr. Vasco, Vasco, para os íntimos, sentiu-se agarrado e encostado a uma mulher que ainda guardava um corpo interessante e, o mais natural que poderia acontecer, ele estava a sentir que acontecia. Bem como ela, que com isso não só se encostava mais como se esfregava com vagar pelo homem em quem se amarrara.
- Não acha que está na hora de fazermos uma brincadeirinha?
Com o lençol limpou os dois, desapertou o soutien, baixou a sunga do patrão e viu que ele estava a aprontar-se para a conveniente função, e não foi necessário qualquer conversa para se deitarem na cama que ainda estava por fazer.
Efigência estava desquitada há mais de quinze anos. Suspirava por homem mas não queria mais experiências de maridos. Todos os dias a esfregar as costas de alguém que lhe parecia simpático, forte e ainda com muito para dar, não se conteve.
O mesmo se passava com o patrão que parecendo um triste e casto eremita, volta e meia dava uma olhava na mulher que estava quase sempre a seu lado em casa. Mas nem pensar em abusar da situação.
Nesse dia não pensou nada, nem que ia chegar tarde ao escritório. Efigênia resfolgava, agitava-se o quanto era capaz e quando sentiu que tudo estava a correr muito bem, soltou um suspiro profundo e na sua cara um sorriso pairou. Vasco, (creio que já tinha pensado que algum dia... deixa de pensar nisso...) também há muito ausente destas lides, gozava com o encontro e procurava não pensar em qualquer outra coisa. Esta primeira lide não foi muito demorada, mas deixou os dois um tanto ofegantes, estendidos em cima da cama.
Ela dizia-lhe “muito obrigado, doutor, muito obrigado.” Ele com a respiração ofegante não lhe respondia.
Despertava para um sonho há muito quase esquecido. Aliás despertavam os dois.
Demoraram mais um pouco quando o telefone toca. Era do escritório. Estranharam a falta do patrão que disse estar com um pouco de dor de cabeça e que só iria depois do almoço.
Deixaram-se ficar na cama, afagando-se por mais um tempo, até que finalmente se levantaram e foram tomar outro banho. Desta vez os dois juntos debaixo do chuveiro., cada um lavando o corpo do outro, aproveitando o máximo que podiam de tal situação. Tinham reencontrado o amor, mesmo só carnal, e não queriam perdê-lo. Foi o melhor chuveiro da vida de ambos.
Já vestidos, cada um no seu lugar de patrão e empregada, antes de sair, ele diz-lhe:
- Efigênia, a partir de hoje, se você quiser, passa a dormir no quarto de hóspedes. É melhor continuarmos a dormir em camas separadas, mas... pelo sim, pelo não, põe mais uma almofada na minha cama!
- Muito bem. Até logo.
- É verdade, põe também duas na cama dos hópedes!
Ao chegar ao escritório, o pessoal preocupado à espera de o ver chegar com ar adoentado, entra um rapagão, que parecia mais forte, e com cara sorridente.
Adélia:
- Estávamos preocupados com a sua saúde, mas pelos vistos fez-lhe muito bem descansar um pouco mais. Além disso só veio um telefonema, sem importância e de resto está tudo a correr normalmente.
- É verdade. Agora sinto-me lindamente, obrigado.
A esfrega nas costas continuou. Ele não podia dispensar tal tratamento, só que as posições na banheira, daquelas antigas, grandes, dava muito bem para os dois lá dentro. Passaram a ser esfregas maravilhosas. Ambos dentro de água, ele sentado na frente dela, já nem usava a sunga, e volta e meia encostava-se para trás naquele peito que tanto apreciava, enquanto ela aproveitava a esfregar-lhe, além das costas, os braços e o peito, isto quando a mão com a luva não descia até...
- Efigênia. Aí não!
O pessoal começou a notar que ao fim da tarde o Dr. Vasco começava a dar mostras de impaciência, de querer ir embora mais cedo, quando toda a vida ficava sempre mais uma a duas horas depois, mesmo só, no escritório. Até já chegava mais tarde do que todos os outros.
“Não admira. Há tantos anos, deve estar cansado”!
Estava, mas as razões eram outras, e a vontade de comer logo aquele sanduiche ao jantar e a seguir nem ver tv nem nada é que o faziam estar ansioso quando o dia chegava ao fim.
Chamou o tecnico de informática e pediu-lhe para lhe comprar um aparelho, pequeno. Estava a pensar tirar férias mas não podia perder o contato com o escritório.
Jonas, o tecnico, recomendou-lhe um Tablet.
- Não faço ideia o que seja isso, mas você sabe e vai-me ensinar a mexer nele.
O tempo passava e Efigênia, com uma boa maquia em poupança, foi melhorando o seu guarda roupa, comprando roupa mais condizente com a sua nova vida de, digamos, namorada (!) do Dr. Vasco, o que ele logo notou e aprovou, e se transformou. Vestia-se com roupas baratas, mas elegantes. Uma senhora com boa presença em qualquer parte.
- Vasco (já não era o doutor para quem dormia na mesma cama) acho que não me deve pagar mais salário.
- Essa agora! Você é quem faz o serviço todo da casa, trouxe um novo motivo para eu apreciar a vida, é justo que continue a ter o seu dinheirinho. Além disso, não se esqueça que a continuar assim vai ter uma aposentadoria do INSS. E mais: eu não tenho filhos nem satisfações a dar a ninguém. Estou bem de vida, tenho um escritório que me dá uma ótima renda, de modo, que em dinheiro, nesta casa não se fala mais.
Só mais uma coisa: vou juntar o pessoal do escritório e passar para eles 50% do capital da sociedade. Se tudo continuar bem, como até agora, entre nós, qualquer dia aposento-me também e vamos os dois passear por esse mundo!
- Já está a ficar maluco, é? Ainda tão novo e a pensar em aposentar-se?
- Porque não? Se eu der metade da empresa aos funcionários, tenho a garantia de que tudo continuará a funcionar perfeitamente.
Uns dias depois Dr. Vasco estava na posse do tal Tablet. Jonas ensinou-lhe, rapidinho, o essencial, que era para estabelecer ligação com o escritório e ainda lhe mostrou algo que o surpreendeu: a possibilidade de fazer ótimas fotografias. Quis logo tirar a todos os empregados juntos e a cada um isoladamente. Afinal esta era a sua família!
A rotina em casa estava toda alterada. O jantar já não era aquela sanduiche insossa, mas um prato, mesmo leve que Efigênia caprichava, um copo de vinho para cada um, enfim uma animação.
Depois um pouco de leitrura e de tv e, sempre, deitar cedo.
Ia cada um para seu quarto, mas logo na primeira noite Vasco quis ver se Efigênia estava bem instalada no novo quarto. Estava. Ótima. Cama larga, uma bela janela com vista sobre a baía da Guanabara, naquele belssimo apartamento no Flamengo, um largo sorriso e um gesto significativo: abriu parte dos lençóis, deu uma palmadinha na cama, o que foi claramente entendido.
- Sabe uma coisa? Nunca me deitei nesta cama. É a primeira vez. E parece ser confortável.
- É ótima. E agora melhorou muito.
Abraçou-o e deu-lhe um beijo.
Vasco não podia estar com aventuras mais profundas todos os dias. Faltava-lhe o treino. Mas com o que tinha economizado durante anos, aventurou-se e numa segunda noitada.
Nunca mais dormiram sósinhos. Num quarto ou no outro as camas sempre abrigavam os dois que mesmo não passassem de um abraço, dormiam bem aconchegados.
Vieram férias, passearam, e pareciam felizes.
Dois anos voaram. Vasco, que já tinha passado 50% do escritório para o pessoal que se trabalhava bem agora era muito melhor, sem nada dizer fez testamento, e pediu que o guardassem, selado, no cofre do escritório.
- Adélia. Se eu morrer, o que acontece com todo o mundo, você abre aquele envelope.
- Que disparate, Dr. Vasco. Porque haveria de morrer?
- Por uma rzão extremamente simples: estou vivo!
Todos riram, mas só ele sabia o conteudo do envelope. Deixava mais 30% da empresa aos funcionários, e a Efigênia os restantes 20% e todos os seus bens que eram o apartamento em que viviam com todo o recheio, uns bons lotes de ações que o banco geria, a sua conta bancária e pouco mais, mas que daria para que a “namorada” não tivesse mais com que se preocupar com finanças.
As férias passaram a ser duas vezes por ano. Correram Argentina, foram até Antártica, Chile e Perú, e pela Europa, sem jamais esquecerem seguros de saúde, e vida, etc. Nisso, Vasco, era, também, impecável. Já tinham idade suficente para não se poderem arriscar.
- Agora vamos à Suiça. À neve. Já reservei tudo e vamos os dois aprender a esquiar!
- Que horror. Eu sei que não me aguento com aquilo mais de um minuto.
- Nada disso. Tem lá professores e é com um deles que vamos começar.
Uma maravilha. À volta do hotel tudo branco, um ar frio mas que dava um prazer imenso a inspirar, o jantar perto da lareira com aquele fondue de queijo e um belo vinho, sentiam-se perto do céu.
De manhã começam as aulas de ski. Efigênia teve que ser amparada quase todo o tempo porque cada vez que a largavam uma perna fugia para um lado, outra para o outro, muita vez um ski passava por cima do outro, uma festa que a deixou estenuada.
À noite Vasco com todo ar aquele ar fresco, animado, queria o aconchego da namorada. Mas esta com a surra que levou durante o dia caíu em cima da cama, vestida quase com as botas e roncou até de manhã.
Vasco desistiu de a fazer aprender, mas ele não.
Ela ficava na varanda do hotel, gozava aquela vista, sentia-se uma rainha e ele progredia no seu ski.
Passados alguns dias o professor decidiu levar alguns deles, os mais preparados, para uma pequena descida. Uma beleza.
- Agora estão prontos. Mas cautela. Nada de grandes descidas porque pode ser perigoso.
Vasco estava encantado, e com a parceira sempre descansada, quem passou as noites, ao ataque foi ele, no que ela colaborava com um calor de derreter a neve ao redor! Na verdade, amavam-se.
No outro dia Vasco, já quase “mestre”, volta aos seus skis. Desta vez tinha que ir mais longe. Sentia-se seguro. Subiu o teleférico, apreciava o passeio e a vista, quanto mais acima mais grandiosa, adorava respirar aquele ar puro e frio e estava feliz.
Começou a descida com cautela para não se deixar embalar muito, mas o desporto é um vício. Um pouco mais de velocidade, umas curvas que a amortece, o declive assentua-se, a velocidade aumenta, um pequeno bosque de pinheiros por onde os mais experientes passavam em velocidade fulminente, e ele, animado a segui-los, não consegue virar pelo mesmo caminho com medo de se chocar com alguma árvore, desvia-se de todas e cai num profundo penhasco.
Socorristas, helicópetro, o esquiador não dava acordo de si. Levado ao hospital e avisada a mulher que para lá corre, o estado dele é grave. Muito grave, já ligado a aparelhos.
Quando sentiu a mão de Efigênia afagar-lhe a cabeça e cara, abre um pouco os olhos que mal conseguem ver a cara dela com as lágrimas escorrendo:
- Meu amor. Obrigado por estes anos de felicidade que você me deu.
Fechou os olhos. A cabeça caíu ao de leve para o lado.


22/06/2014

segunda-feira, 23 de outubro de 2017


Mais... soltas

Já contei em diversos outros escritos, impressos ou virtuais, muitas peripécias vividas durante os oito anos em que trabalhei na Cuca. A memória que ainda não falhou de vez (mas sinto aproximar-se esse terrível momento) volta e meia cutuca-me os neurónios e lembro de alguma coisa mais. Só não sei se me estou a repetir, coisa normal na minha juventude, se é assunto novo!
Como escrevi uns quantos livros, metade inéditos e, em mais de dez anos postei no blog mais de 800 – oitocentos – textos, pode ser que em algum deles apareça a mesma história... ou parecida!
1958 - Apesar de ter sido admitido na Cuca para ser cervejeiro na Fábrica de Nova Lisboa, que estava ainda no começo de levantar paredes, entregaram-me um alvará, um galpão (armazém) com duas máquinas dentro, novas, por estrear, e recebi a “ordem”:
- Sabe o que são estas máquinas?
- Sei.
- Pois então nós temos um alvará para fazer rações, e é isso que você vai fazer.
- ?!?!?!?!
Eu nada sabia de vacas, nem de porcos, nem galinhas, a não ser depois de cozinhados, mas estava com a batata quente nas mãos e tive que me virar.
E, sem me preocupar com o Diretor Geral, que só atrapalhava, e mais a equipe burocrática da fábrica que me queria controlar, em alguns meses, tínhamos uma fábrica de rações a funcionar.
Regularmente eu fazia relatórios para os “patrões”, todos em Lisboa, informando da situação da fábrica, vendas, perspectivas, modo como foram calculados os preços de custo e de venda, etc.
Um ano passado desembarca em Luanda todo o Conselho de Administração para festejarem não sei quantos anos da fábrica de cerveja que começara a produzir em 1956, e num dia recebi a “intimação” para no dia seguinte, logo cedo, me apresentar perante toda a “elite patronal”, o Conselho dos “Mais Velhos”, para lhes falar da fábrica das rações!
Lá vou eu. A “assembleia da grana”, todos sentados atrás de uma mesa (como se fosse uma CPI !) e eu sentado numa cadeirinha de “réu” em frente da alta finança.
Sai a primeira pergunta feita pelo decano dos administradores, uma pessoa que aliás recordo com muita simpatia:
- Então como vão as rações? Pergunta concreta e objetiva!
- Eu tenho enviado para Lisboa, para a Administração, relatórios mais ou menos mensais onde coloco sempre o andamento da fábrica como custos, aumento de vendas, ponto de virada (é mais bonito o “turning point”!), e todos os detalhes que julgo de interesse para os senhores analisarem.
- Oooohhh! – Todos se entreolham à procura de alguém que tenha lido os sobreditos relatórios, e só se viram abanos, negativos, de cabeças.
Moral da história: eu tinha estado a escrever “p’ró boneco”, porque ninguém lera nada e, consequentemente, de nada sabiam!
Por dentro, muito ri, e pensei: Já os meti, a todos, no bolso!
Lá contei o que se passava, que tudo corria bem, que tínhamos ultrapassado em vendas o “turning point” não necessitando de mais investimentos, que a perspectiva de crescer era muito positiva, etc.
O Presidente não se conteve, ar feliz, solta esta exclamação para os colegas:
- Que maravilha! Temos uma nova fábrica!
­E eu, de ignoto funcionário, virei quase um herói! Muito cumprimentado! E com direito a melhoria de salário!

Isto animou os acionistas e começaram a pensar em concretizar outros investimentos!
As garrafas, de vidro, para a cerveja, vinham da Companhia Vidreira de Moçambique, de que eram também sócios. Mas havia um custo a suportar com embalagem, transporte e custos alfandegários, que apesar de ser tudo Portugal, nas alfândegas... não era!
Em 1956 haviam já constituído uma sociedade, a VIDRUL, em Angola, com a mesma finalidade.
1959 - Pergunta a um, pergunta a outro e veio a saber-se que na estrada que vai de Luanda para o Cacuaco, nalgum lugar, haveria uma areia de alta qualidade para fazer vidro. Boa sílica.
E o Diretor Geral teve a brilhante ideia de me chamar e mostrar uma carta vinda de Lisboa, dos patrões, para mandar alguém buscar amostras dessa areia, e que, com rapidez as remetesse para Portugal, para análise, porque queriam começar a fabricar garrafas. Não sei se o “sucesso” da fábrica de rações os levou a pensar que eu pudesse ter o mesmo resultado com vidros! Duvido.
- Mas eu não sei nada de areia nem de vidros!
- Não tem que saber: você conhece a estrada para o Cacuaco?
- Muito bem. Passo lá muitas vezes quando vamos à caça!
- Aí a um ou dois quilômetros antes, ou depois (?), há uma curva (creio que para a esquerda!) e do lado direito uma pequena barreira, aí de metro e meio de altura. Você logo vê. É uma areia muito branca. Vá lá e traga um saco cheio dessa areia. Rápido que estão a pedir até para mandar de avião.
- Muito bem.
Um ajudante, uma enxada e uma pá, dois sacos, e ali vamos nós feitos turistas à procurar da areia branca, mais ou menos ali, ao pé duma curva (tinha várias)... a caminho do Cacuaco, onde normalmente parava só para comer “chocos en su tinta, mexilhões e camarão e beber umas belas Cucas”.
Acabámos por ver alguma coisa que se parecia com o que estávamos procurando, saí do carro, ar de profundo entendedor geológico, começo a apalpar aquelas terras brancas, e conclui cientificamente:
- Deve ser isto!
O que não se via era grande extensão desse areal, o que pressupunha uma reduzida garrafaria, mas, quem sabe?, talvez escavando, ali estaria a mina.
Enchemos os dois sacos pela metade, porque pesavam p’ra... e voltámos à fábrica.
-Pronto. Aqui tem. Era isto que queriam?
O diretor, engenheiro geógrafo, também sabia tanto de areias como eu, mas disse logo:
- Isto mesmo. Vou mandar embalar e enviar para Lisboa, de avião.
Deve ter pago uma nota alta porque areia, e boa como aquela era, pesava bem.
Eu esqueci as areias.
Ano e meio depois vou a Lisboa, passo no gabinete de um dos administradores e vejo, lá, num canto, encostadinhos e tranquilos, os dois sacos!
- O que é aquilo?
- A areia que você mandou!
 Corri como um desalmado, catei a areia, nesse dia foi mandada de avião e, um ano e meio depois a areia jazia, intocada, talvez até esquecida, num canto.
Era assim.
No site da VIDRUL, implantada no Cacuaco (!) diz que a Companhia foi fundada em 1956. Talvez. Em 1959 procuravam a areia. Em 1961 a areia jazia quieta dentro dos sacos. Em 1965 eu saí da Cuca e... nada mais soube da fábrica, nem de areias, nem de garrafas!
Hoje é uma empresa importante. E parece que ninguém sabe, com exatidão, quando começou a produzir garrafas! Só sabem que a sociedade foi constituída em 1956!

1961 – Sou mandado para França fazer uma série de estágios, começando pelo CEO – Centre d’Études et d’Organisation – em Versailles, onde me apresentei no dia 2 de Janeiro, às 08H25M, antes daquilo abrir.
Às 08H35M apareceu o diretor, desculpou-se do “atraso” (!), muito atencioso e objetivo, cujo nome, infelizmente já esqueci, que sabia da minha chegada e, depois dos usuais cumprimentos e mútuas cortesias, atira-me a primeira pergunta (em francês, como é de supor!):
- Então o que é que você vem estudar?
- Não tenho a mínima ideia! Simplesmente recebi instruções para me apresentar aqui, hoje às 08H30M, mas sem mais conversa.
- Bom. Vou então mandar um telegrama para Lisboa para eles definirem o seu programa de estudos.
- Nem pense nisso. Vamos ficar os dois aqui sentados, olhando para a cara um do outro, no mínimo uns meses ou uns anos e a resposta, nem nessa altura deve vir!
- ?!?!?!?!
- O “big-chefe” disse-me que eu vinha fazer uma série de estudos e estágios e se no fim lhe dissessem que eu era “suficientemente esperto e capaz” iria depois montar um serviço de vendas da companhia, que até hoje se limita a vender a quem lá chega com dinheiro e um caminhão para carregar a cerveja. Além disso eu criei do zero uma fábrica de rações, que vai muito bem, e penso que de rações para gado vocês aqui nada sabem, portanto não será sobre este tema que vamos discutir.
- Tem razão. De rações nada sabemos. Então o que sugere que façamos?
- Primeiro partimos do princípio que eu não sou tão estúpido assim! Fundamental. Neste caso vamos discutir entre nós o que acharmos que mais interesse tem na montagem dum serviço comercial, desde o zero: instruções a vendedores e inspetores de vendas, pesquisa de mercado, objetivos, estatísticas, etc. Depois então manda-se esse plano de estudos para Lisboa que eles vão ficar muito contentes, mesmo sem o lerem!
E assim foi. O primeiro dia foi passado com o “cardápio” na mão a escolher temas, definir horários, porque para cada tema teria um professor especializado e era necessário encaixar a disponibilidade deles com o meu programa.
Correu muito bem. Dois meses e meio de muito estudo. Creio que mandaram dizer que eu não era aquele cretino, porque ao regressar a Angola, fui criar o tal serviço de vendas, relações públicas, etc.

Como eram “rápidos” no gatilho aqueles meus administradores! As cervejas davam muito, muito dinheiro; preocuparem-se para que?

19/10/2017


segunda-feira, 16 de outubro de 2017



O Brasil é, sobretudo, um país de contrastes. Da Amazônia à Caatinga, das enormes capitais às mais humildes localidades, de rios supercaudalosos a regiões onde não chove, e quando chove é uma vez em cada sete anos, já não falando nos milionários e nas favelas, na riqueza e na pobreza, flagrantes.
Mais de oito milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados de superfície, o terceiro ou quarto produtor mundial de alimentos, mais de duzentos milhões de habitantes, onde apesar dos assassinatos, corrupção, banditismo/política, a esmagadora maioria das gentes são de uma gentileza e carinho que não se encontra em outro país, parece que teria tudo, mesmo tudo, para ser o paraíso terreal.
Mas...
Eu estou cansado. Todos estamos cansados de assistir, permanentemente, ao descaso, à impunidade, ao jeitinho corrupto, a ver sumir pelos esgotos dos bolsos dos governantes a riqueza que a população, sofridamente produz, sem que se consiga ver uma luz, uma luzinha, lá......... lá no fim do túnel!
Os jovens que não vêm qualquer futuro a prazo mediano, vão ou querem ir embora, os institutos de investigação estão sem verbas e os cientistas abandonam o país, as universidades em greve porque não têm dinheiro para pagar aos funcionários, nem sequer a conta da luz, a insegurança obriga a fecharem, quase diariamente restaurantes e bares que estavam abertos à noite, a cada quinze segundos um celular é roubado e logo aparece à venda nas cracolândias e nalguns camelôs, cargas e cargas de caminhões são roubadas (no Estado do Rio a média, este ano é de 28 cargas roubadas POR DIA !!!) e a mercadoria logo aparece à venda em lojas suspeitas e vendedores ambulantes, enfim um desregramento, um descaso, uma tristeza sem fim.
E todos, todos, estamos cansados, estamos fartos disto.
Ainda há quem julgue que terá sido De Gaulle que disse que o Brasil não é um país sério ! Há dias escrevi sobre isto. Não foi ele, mas, ao tempo, o Embaixador do Brasil em Paris, Carlos Alves de Souza (1901-1990).


Quase nada a Wikipédia nos diz sobre este senhor. É pena.
Procurei e encontrei, com facilidade, usado, o livro que ele escreveu, quase dezoito anos depois de se ter aposentado em 1961, «um embaixador em tempos de crise», que retrata um pouco do que era o Brasil entre os anos 20 e 60, do século passado.
Muito bem escrito, por um homem extremamente culto e educado, que viveu momentos importantes na história da Europa e do Mundo, de caráter impecável, a sua leitura leva-nos do riso à indignação em poucas linhas.
O descalabro dos serviços públicos no Brasil, o infernal tráfico de influências, o desbarato das finanças públicas, o descaso do Itamaraty perante problemas cruciais, a negligência dos mesmo serviços que não respondiam a assuntos angustiantes como, por exemplo, quando o Embaixador telegrafou de Belgrado informando dia e hora em que a Alemanha ia invadir a Polônia, dão um retrato que parece sair quase dos tempos das capitanias quando um assunto era enviado à corte, em Lisboa e, quando havia boa vontade e bons ministros, a resposta voltava ao Brasil largos meses ou anos depois... quando...
E a correspondência que chegava às Embaixadas, com um ou mais meses de atraso, era toda censurada pelo DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda - órgão de propaganda no governo Getúlio Vargas.
A certa altura, em 1937, depois da Revolução de 1932, o Embaixador escreve: «conclui que liberdade e democracia no Brasil eram utopia e não valia a pena fazer sacrifícios inúteis».
Mais adiante, depois de relatar um curioso caso em Belgrado, sobre passaportes, diz que hoje, 1977, « está tudo facilitado: basta a declaração de um diplomata que é casado com fulana de tal, sem apresentar qualquer quer certidão, e o Itamaraty manda passar passaporte diplomático. Acontece que há (ou havia?) casos em que um funcionário aparecia casado com duas ou mais esposas. »
(Ainda hoje não estamos muito longe disso: o ex-presidente, agora oficialmente bandido, mandou passar passaportes diplomáticos a toda a família, e apesar de ter deixado a presidência há dez anos, alguns continuam a usufruir dessa regalia. E muitos outros comparsas.)
No fim da II Guerra, o Brasil tinha direito a indenizações. Além das muitas vidas humanas que se perderam, teve 33 navios afundados por submarinos alemães.
Em 1942 «o Almirante Ingram, Comandante da Esquadra Americana do Atlântico Sul, solicitou ao Governo brasileiro quais as categorias de navios que precisávamos. O assunto foi levado ao Presidente (Vargas) que pediu ao Ministro da Marinha, que consultou o Estado Maior da Armada, que consultou o Almirantado, etc. Ficámos na eterna discussão se deveríamos pedir destroiers, scouts, encouraçados ou submarinos. O tempo foi correndo e nenhuma resposta. Chegou o fim da guerra e o Brasil jamais enviou a resposta solicitada! »
Em 1945, o Brasil tinha um bom saldo em dólares nos Estados Unidos. Quando o Embaixador foi a Nova Iorque tomou conhecimento «de um tremendo escândalo na venda de automóveis, novos e velhos para o Brasil, que por ter pouco combustível tinha pouquíssimos carros. Os automóveis eram muito baratos nos Estados Unidos e caríssimos no Brasil. E assim desapareceu o saldo em dólares, que o Brasil possuía nos Estados Unidos, única vantagem de ordem material que o nosso país havia obtido pela sua participação na Segunda Guerra Mundial. »
1946-47 – Embaixador em Havana. «Naquela época eu julgava que todos pagavam, normalmente, as passagens nos aviões da Panair do Brasil. Puro engano. Pagar excesso de bagagem era considerado humilhação, e muito poucos pagavam a passagem integral. Um dia assisti a uma discussão curiosa: um multimilionário reclamava por estar a pagar pelo excesso de bagagem e ameaçava o agente da Panair de demissão. O agente foi demitido. Um dos meus secretários disse-me, num voo a caminho do Brasil, que eu era a única pessoa a bordo que tinha pago a passagem integral. A Panair só não faliu antes porque um dos maiores acionistas era a Companhia de Seguros Ajax, que fora agraciada com o monopólio de todos os aviões e autarquias. Assim, concedia passagens e até hospedagem nos hotéis aos protegidos do Governo. Esse escândalo era sabido de todos que viviam no exterior. »
(E hoje... como é?)
Há um mês em 12 de Setembro, escrevi um apontamento sobre a célebre frase atribuída a De Gaulle, mas agora, com o livro do Embaixador apareceram mais detalhes que fazem da Guerra da Lagosta, uma página, não épica mas hípica, aliás asinina, “guerra” tão caricata que até o menestrel, Ari Toledo fez chalaça com isso, “que barcos franceses, de volta à França levavam lagosta que lá no France todo o mundo gosta”!
Nada mais ridículo do que a chamada "guerra da lagosta", que apenas demonstrou a falta de entrosamento da Secretaria de Estado com as Embaixadas e a leviandade dos nossos governantes. Tudo se passou de modo completamente diverso do que os jornais publicaram.
O Sr. Pleven, antigo Presidente do Conselho da França, amigo e correligionário do General De Gaulle, presidia a maior companhia de pesca da Bretanha. Estava escasseando a lagosta na costa francesa, e os navios iniciaram a pesca na África, tendo Dakar como base. No fim de algum tempo, acharam que a lagosta também era pouca na costa da África. Pleven pediu ao Quai d'Orsay para telegrafar ao Embaixador da França no Brasil, a fim de solicitar ao Governo brasi­leiro licença para pescarem na costa nordeste do Brasil. O Embaixador obteve uma audiência com o Presidente João Goulart, que deu instruções às autoridades competentes para que os pesqueiros franceses iniciassem a pesca. A Embaixada do Brasil nunca teve a menor informação da gestão do Embaixador da França, e do Brasil tampouco mandaram à Missão Diplomática em Paris uma só pala­vra sobre esse assunto. Como tudo foi tratado no Palácio do Planalto, tenho dúvidas de ter sido o Itamaraty informado dessa permissão.
Os pesqueiros franceses começaram a trabalhar e transportavam a lagosta para Dakar, de onde eram expedidas por avião para Paris.
Anual­mente, em Genebra, se reúne a Conferência dos Direitos do Mar e o representante do Brasil era sempre o Embaixador Gilberto Amado. Na última Reunião, mais uma vez, o Delegado do Brasil defendeu a tese de que deveria continuar a ser mantido o mar territorial de 12 milhas. Outros países queriam estendê-lo para 50 e até 100 milhas, mas o Delegado brasileiro manteve firme sua posição. Nada ficou resolvido; não foi as­sinado nenhum tratado e tudo ficou adiado para a próxima Conferência anual. Os franceses estavam pescando a 30 milhas da costa brasileira, onde constataram haver maior quantidade de lagostas. Tudo isso ignorava a Embaixada do Brasil em Paris.
Um dia foi procurar João Goulart o Senador Barros de Carvalho, amigo do Presidente, para informar-lhe que as companhias brasileiras de pesca, com sede em Recife, estavam indig­nadas com a licença dada aos franceses pelo Governo. Estavam elas perdendo cerca de quatro milhões de dólares anuais com essa pesca de lagosta pelos pesqueiros da Bretanha. O Presidente, provavelmente sem pensar nas consequências do seu ato, com a mesma ligeireza que dera autorização, a revogou. O Ministro da Marinha, Almirante Suzano reuniu a imprensa e solenemente anunciou que o serviço secreto da Armada obtivera informação segura que o porta-aviões Clemenceau, a mais poderosa embarcação da Marinha de Guerra francesa, escoltado por dois destroiers e uma fragata, navegava para o Brasil. Suzano, pavio curto, mandou a esquadra sair para o mar, “pronta para o que der e vier”, e sequestrou e levou para Recife dois navios pesqueiros franceses, já carregados de lagostas. A Embaixada em Paris continuava tudo ig­norando.
Da França não veio nada.
Certo dia, o Embaixador Chabornel, Secretário-Geral do Ministério, pedia-me para ir vê-lo e, pela primeira vez, soube de todas essas gestões de Pleven e do sequestro dos dois pesqueiros. Pedia-me que telegrafasse ao Governo brasileiro solicitando a liberação imediata das embarcações e a continuação da pesca, autorizada pessoalmente pelo Presidente da República, na presença do Embaixador da França. Tele­grafei imediatamente ao Itamaraty. Pelos jornais franceses soube que ti­nham sido liberados os pesqueiros, mas o Itamaraty não respondeu ao meu telegrama. O Embaixador Roché confiou-me que o Governo francês não se conformava com o sequestro, que poderia ter consequên­cias graves. A permanência, em Recife, de navios de guerra brasileiros patrulhando a costa, agravava a situação. No dia seguinte, fui novamente chamado pelo Secretário-Geral do Quai d'Orsay, que me comunicou haver o Governo francês mandado uma canhoneira da Marinha de Guerra para proteger os pesqueiros franceses, que estavam a cerca de 40 milhas da costa brasileira, e, consequentemente, fora das nossas águas territoriais. Te­legrafei ao Itamaraty e continuei sem resposta. Da minha casa, resolvi telefonar ao Chanceler Araújo Castro, que disse-me haver conversado com o Presidente. Jango considerava o assunto sem importância e narrou-lhe a conversa com o Senador Barros Carvalho. Disse-lhe mais que o sequestro fora coisa do Almirante Suzano, Ministro da Marinha. O Araújo Castro não conseguiu convencer o Dr. João Goulart de que o caso poderia tornar-se sério e pediu-me para reforçar seu ponto de vista, telefonando diretamente para o Presidente da República. Foi o que fiz. Disse ao Presidente que eu conhecia bem o Suzano, desde o meu tempo de Marinha, que, apesar de ser considerado um bom oficial, sempre foi atrabiliário. Retrucou-me Jango que o Araújo Castro e eu estávamos "levando a sério um caso sem a menor importância".
Os jornais franceses não mais falaram no assunto, porém a imprensa brasileira, com rara infelicidade, fazia comentários inverídicos sobre o problema e diziam que a Marinha brasileira tinha dado uma boa lição aos franceses.
Certo dia, quando os jornais franceses não mais falavam sobre a "guerra da lagosta", a Secretaria da Presidência da República comuni­cou-me que o General De Gaulle desejava ver-me no dia seguinte, à tarde. Eu sabia o que me esperava. Ia advogar uma causa ingrata, pois sempre achei que a França, estava coberta de razões e o incidente tinha sido envenenado pela imprensa brasileira. Aliás, recordo-me que no auge da crise, fui procurado pelo Sr. Luiz Edgar de Andrade, correspondente do "Jornal do Brasil" em Paris, com quem mantinha boas relações. Neguei-me a dar-lhe uma entrevista, pois havia lido no seu conceituado jornal notícias inteiramente inverídicas. No dia seguinte, fui avistar-me com o General. Começou fazendo um histórico sobre o caso da la­gosta, a permissão do Presidente Goulart para a pesca, o sequestro dos pesqueiros, as notícias inverídicas da imprensa brasileira e as críticas a ele e à França. Era sabido que o Presidente De Gaulle tinha o hábito de misturar sua extraordinária e real personalidade com a própria França. Tudo que ele disse era a verdade nua e crua. Argumentos sérios para responder, eu não os tinha e peguei-me numa falha cometida pelo Governo francês. Disse-lhe que o Governo brasileiro havia ficado chocado com a ida de um navio de guerra para proteger os pesqueiros. Respondeu-me, prontamente, que a canhoneira francesa tinha ficado, ao lado dos pes­queiros, a 40 milhas da costa brasileira, e que as águas territoriais continua­vam a ser de 12 milhas, tese aliás defendida pelo Delegado do Brasil em Genebra. Finalmente, o General pediu-me transmitir ao meu Governo nossa conversa. Assediado pela imprensa e correspondentes dos jornais brasileiros, respondi que nada tinha a declarar, e se quisessem informações solicitas­sem à Secretaria da Presidência da República. Telegrafei ao Itamaraty e, pouco mais tarde, compareci à recepção que oferecia na sua residência o Presidente da Assembleia Nacional, Sr. Jacques Chaban-Delmas. Repentinamente, surgiu diante de mim o jornalista Luiz Edgar de Andrade. Insistiu para que eu lhe dissesse algo sobre minha entrevista com o General De Gaulle. Respondi-lhe que não daria nenhuma entrevista. Mas, não poderia deixar de ter uma conversa amistosa com uma pessoa por quem sempre tive a maior consideração. Falei-lhe sobre o tal samba carnavalesco, "a Lagosta é nossa", as caricaturas do Presidente De Gaulle e terminei a conversa di­zendo: Luiz Edgard, "le Brésil n'est pas un pays sérieux". Provavelmente, ele telegrafou ao Brasil não deixando claro se a frase era minha ou do General De Gaulle, com quem eu me avistara poucas horas. Luiz Edgar é um homem correto, e estou certo de que o seu telex ao jornal não teve intuitos sensacionalistas. Mas, a frase "pegou". É evidente que, sendo hóspede do General De Gaulle, homem difícil, porém muito bem educado, ele, pela sua formação e tem­peramento, não pronunciaria frase tão francamente inamistosa em relação ao país do Chefe da Missão que ele mandara chamar. Eu pronunciei essa frase numa conversa informal com uma pessoa das minhas relações.
Muitas outras histórias, interessantes e ridículas conta o Embaixador Carlos de Souza, que termina o seu livro com este desabafo:
Na minha vivência de mais de 50 anos nos meios militares, diplomáticos, políticos e sociais, cheguei a duas conclusões melancólicas:
“A primeira é a de que a argila da qual foi feito o brasileiro, não é de boa qualidade. E a outra, em que foi acertada a minha frase, atribuída ao General De Gaulle:
"le Brésil n'est pas un pays sérieux".

Com esta nojeira a que estamos a assistir na política, na justiça, na segurança, etc., parece que infelizmente o Embaixador continua cheio de razão.


13-out-17