quarta-feira, 8 de novembro de 2017



A  prima  Lucília

Lá para as bandas do Norte de Portugal, terras de gente boa, mar generoso, por vezes perigoso, no seio de uma família com algumas posses foram nascendo meninas. Sempre.
No meio de mais quatro irmãs que todas foram casando, umas com melhores, outras com menos bons maridos, a número três a contar de cima (ou de baixo), não encontrava pretendente que lhe servisse, e a bater nos trinta e mais uns quantos, já estava resignada a ficar para tia.
As irmãs diziam-lhe que não fosse tão exigente, que homens bons são mais raros que diamantes, que quanto mais bonitos mais as mulheres os querem roubar, ricos passam a vida na farra, etc., mas a verdade é que...
Apesar disso nunca descuidou a aparência. Não se deixava engordar, fazia todos os dias uma boa caminhada, como para ir comprar o necessário para a casa, pão, verduras, tudo. Quando passava na rua, o padeiro, atencioso, supondo que o fazia desapercebidamente, vinha até à porta despedir-se, suspirava e dizia para com ele: “que desperdício”. Lucília parecia adivinhar-lhe o pensamento, e o seu trajeto obrigatoriamente passava pela padaria, onde comprava todos os dias o pão, sem pressa, sabendo estar a ser toda analisada pelo simpático padeiro, que sabia casado, mas com uma mulher que devia pesar mais de cem quilos.
Um dia surgiu, tal Dom Sebastião, vindo no meio do nevoeiro, o “cavaleiro dos sonhos”. Um imigrante que saíra de casa pouco mais que adolescente, de volta à terra, os bolsos bem forrados, a saúde aparente em forma, e a idade... estava a inteirar os cinquenta.
Sozinho, de família conhecida, não tardou a visitar todos os que há umas quantas décadas tinha deixado, querendo saber tudo, e contando as suas venturas e desventuras em terras do além mar.
Chegou o dia de visitar a mãe de Lucília, a quem chamava tia, viúva há muito, o marido tinha-se “ido”.
Salvador, o imigrante, não tinha mais pais nem irmãos, nem outros parentes na terra, os que sobravam estavam todos imigrados, atencioso, sempre que sabia que havia senhoras nas casas que ia visitar não se esquecia de levar um simpático ramo de flores.
A velhota recebeu-o com muito carinho, apresentou-lhe a filha, onde o viageiro fixou bem os olhos, e pediu a Lucília para trazer aquela garrafinha de vinho do Porto. O especial, aquele que só se abre em ocasiões raras.
- Para receber o filho da minha velha amiga, e quase vizinha, a Emília, que Deus tenha em boa paz, tem que ser o melhor vinho. E traz também aqueles bolinhos secos. Caem muito bem a esta hora.
Lucília não tardou a voltar com tudo quanto lhe pedira a mãe, e encontrou os dois em animada conversa. A boa velhota, que raro recebia visitas, estava toda animada e contava histórias de quando Salvador era menino, e também o destino que levaram as outras filhas. Só Lucília é que ainda não encontrara o seu par!
Lucília corou um pouco e Salvador não deixou de notar, mas nada disse.
Conversaram um bom bocado, e à saída, Lucília que o acompanhou até à porta, foi assim solicitada:
- Desculpe o que vou perguntar, mas um solteirão nesta terra morre de tédio. Gostaria muito de a convidar para jantar comigo um destes dias. O que acha?
Lucília, hesitou, quase corou, mas achou que um jantarzinho fora, era até uma ideia boa.
- Acho muito simpático. Aceito sim. Quando quiser.
Não tardou dois dias, o Salvador já queria, Lucília também, mesmo desde o primeiro dia. Ele foi buscá-la a casa, fora da cidade havia um belo restaurante, com ótimos mariscos, e para lá foram.
Andaram uns quilómetros e pouco depois estavam sentados numa mesa com vista para o mar, que àquela hora, já noite, só mostrava um pouco da espuma que se deliciava espraiando-se na areia.
Conversa variada, o que você fez lá por onde andou, o que faz tenções de fazer agora, e ela, por sua vez foi-lhe dizendo que pouco mais fazia do que tomar conta da mãe e da casa, às vezes duns sobrinhos, quando alguma das irmãs viajava ou estava adoentada.
O jantar estava ótimo, o vinho, aquele Alvarinho que não tem rival, no fim estavam os dois muito mais descontraídos e parecia até que já se conheciam há tempos.
De volta a casa, ainda a porta fechada, à despedida, Salvador disse-lhe, sem rodeios:
- Lucília. Nós já não somos crianças e pelos vistos estamos condenados à solidão. Quer casar comigo?
Desta vez Lucília corou, mas também não muito. Já não era mais criança.
- Salvador. Você foi muito gentil comigo, e vi bem a sua educação enquanto falou com a minha mãe, mas uma proposta dessas, assim à queima roupa, a esta hora da noite e depois de termos bebido aquele ótimo vinho, deixa-me confusa. Além disso quase que nem nos conhecemos.
- Ao menos faça-me uma promessa, simples. Que vai pensar nisso.
- Vou. Mas hoje qualquer resposta que lhe desse seria, de certeza, disparatada.
- Combinado. Vou deixar passar uns dias e depois telefono-lhe. Não para me dar qualquer resposta pelo telefone, como é evidente, mas talvez para tornarmos a sair. O que acha?
- Muito bem.
- Então, boa noite e muito obrigado pela companhia.
- Eu é que agradeço. Boa noite, Salvador.
Lucília já tinha ouvido uma porção destas propostas, a última há uma dúzia de anos! Casar agora? O que faria com a mãe? A solução é ficarmos a viver nesta casa, tanto mais que Salvador por enquanto não tem casa. Acho que com as coisas assim arranjadas até vale arriscar o casamento. O que posso perder com isso? Talvez só, só, a última oportunidade. Vou dormir e amanhã volto a pensar.
Dormir? Ah! Lucília nessa noite quase não dormiu. Mesmo acordada já dava voltas na cama a pensar como seria a vida de casada, e isso a deixava excitada e confusa.
De manhã, o mesmo ritual da caminhada, o padeiro, etc., e ao chegar a casa vê um carro à porta, ainda com o motorista dentro. Salvador.
- Eu sabia que tinha saído e não quis incomodar a sua mãe, de modo que esperei aqui fora. A missão a esta hora é para a convidar para almoçarmos. No mesmo restaurante, só que de dia para podermos ver bem o mar.
- Oh! Salvador. Mas que pressa! Entre, entre, enquanto eu arrumo as compras e, pelo menos preparo o almoço da minha mãe. Depois podemos sair.
A mãe da Lucília quando viu os dois entrar, ficou atenta, e assim que a filha se aproximou, piscou-lhe o olho, e cumprimentou, muito alegre, o Salvador.
De volta à estrada a caminho do restaurante, Salvador diz-lhe:
- Só falamos no nosso assunto depois de sentados. Pode dar-me um ataque ...
- Combinado.
Encomendado o almoço, e o vinho, Salvador limitou-se a perguntar se Lucília cumprira a promessa:
- Pensou?
- Pensei.
- E o que decidiu?
- Olhe, Salvador, nós, como lhe disse, não somos mais crianças, de modo que o risco é menor! Eu gostei, desde o primeiro instante, da sua educação e atitudes, e acho que nos podemos entender muito bem.
- Que maravilha. Quer dizer que a resposta é sim.
- É, mas tem alguns problemas que precisamos acertar: primeiro temos que nos conhecer melhor. Todos temos virtudes e defeitos e é bom conhecê-los antes do que ter, depois, surpresas desagradáveis. Outro assunto importante é que não posso abandonar a minha mãe. Você disse que queria construir ou comprar uma casa ou um apartamento, o que não vejo necessidade. Podemos ficar a viver na nossa casa, que é bastante grande e não nos tira liberdade. Vamos é ter a minha mãe quase sempre às refeições e na sala. Mas ela, pelo menos tanto quanto a conheço, nunca interferiu na vida de ninguém. Este é o problema principal.
- Como sabe eu trato a sua mãe por tia. Lembro dela desde criança, e tenho-lhe o maior respeito e simpatia. De modo que esse ponto é pacífico. Então está resolvido. Vamos casar. E depressa, que o tempo corre mais que o vento. Amanhã vamos tratar da documentação, e eu vou já falar com o Padre Manoel, o bom velhinho que me batizou. Ele vai ficar encantado.
Durante um mês os encontros eram diários. Discutiam assuntos de toda a sorte, riam, brincavam e passaram a conhecer-se!
Nem um mês depois, à porta da pequenina e antiga igreja de São Jorge, os noivos, deixavam-se fotografar, sozinhos, com a mãe, depois irmãs, com o já velhote e bom padre Manoel, etc., e seguiram todos para o almoço no restaurante que acabou por uni-los.
Tinham pressa os noivos. Precisavam começar logo a vida de casal. Deixaram os convidados na festa e foram para a lua de mel, na montanha. Lugar lindo, aquele friozinho que obriga a que os casais se abracem mais, passeios no parque, um sonho de que Lucília, e mesmo Salvador, não queriam acordar.
Amaram-se muito, trocaram juras de amor eterno, aquelas coisas que os noivos, em lua de mel costumam fazer. E estavam felizes.
De volta a casa, onde Lucília já tinha preparado o quarto deles e até uma salinha só para os dois, a vida corria calma, apesar de Salvador pensar que tinha que encontrar qualquer atividade, com o que Lucília concordou plenamente. Não tinha idade para se deixar sentado numa cadeira até ficar pateta.
Antes de aplicar qualquer dinheiro, pôs Lucília ao corrente de todos os seus bens, abriram contas em mais do que um banco no nome dos dois, e tudo quanto fizesse dali para a frente assim seria sempre.
Tinha um dinheiro bom, e procurou uma sociedade onde pudesse aplicar algum, estar ocupado e ter um rendimento. Encontrar um sócio capaz e sério não é fácil e demorou uns meses até que a oportunidade apareceu. Informou-se bem, pediu referências e avançou. Era no Porto, para onde teria que ir todos os dias. Afinal eram só uns trinta e poucos quilómetros e à tarde estaria de volta.
A primeira semana correu muito bem, quase só aprendendo a mexer-se dentro da firma de que tinha agora metade do capital, chegava a casa sorridente, um beijo na sogra, abraçava a mulher, convencendo-a, facilmente, a que se deitassem cedo. Tinha que trabalhar no dia seguinte, e ainda tinham que se amar. Recuperar as décadas desperdiçadas!
E a vida parecia ter entrado numa estrada perfeita.
Salvador ia para o trabalho de carro, conduzia sempre em baixa velocidade, assobiava descontraído ou ouvia uma música calma, para chegar à empresa sem qualquer estresse. E na volta o mesmo. Os meses corriam, sempre feliz com a escolha e a sorte que tivera.
O ritual se repetia; jantar com a velhota, um pouco de conversa na sala, e cama onde se amavam com as forças que a idade lhes permitia.
Numa noite, Salvador sentiu-se mal. Dor no peito, respiração difícil, chamam o médico, este leva-o a correr para o hospital, onde durante o resto na noite a equipa das urgências tentou salvar-lhe a vida. Salvador não resistiu.
Foi uma tragédia. Lucília não se conformava. Tantos anos tinha esperado, até que por fim encontrara um homem bom, educado, amigo, e poucos meses o teve! A mãe acompanhava-a na tristeza porque do mesmo modo se afeiçoara muito ao novo membro da família.
Dois anos depois a mãe seguiu o caminho do genro e, de repente, Lucília estava só. E triste. Já nem achava graça aos olhares do padeiro.
Continuar a viver naquela casa era disparate, muito grande, dava imenso trabalho e despesa, mesmo tendo ela herdado tudo que pertencera a Salvador, e não era pouco. Pôs a casa à venda e a melhor oferta que teve foi duma prima, da idade dela, que já não via há anos, mas que tinham sido muito amigas em novas. Morava no Porto e queria uma casa para sair da tumultuada cidade. Além disso, com tantos quartos, no verão, os filhos para ali viriam até com amigos passar as férias. Mantinham a casa no Porto para os filhos, alguns no começo da faculdade.
Tudo combinado e aceite por todas as irmãs, a prima e o marido, Natália e António, propuseram outro “negócio” à Lucília: ela ficaria a viver com eles, não precisava tirar ou vender as mobílias, nem se preocupar com a casa. Em troca, de vez em quando ela ficaria com os filhos deles, que durante a semana, na época de estudos ficavam no Porto, porque António muita vez viajava e gostava de levar a mulher.
Lucília achou a ideia boa, transformou o sótão num espaçoso quarto para deixar os novos proprietários mais à vontade, bem como ela ficaria.
A vida segue. Os primos eram gente educada e os filhos, dois rapazes de doze e dezesseis anos, e uma filha com quinze, sempre atenciosos, sem nunca darem preocupação, a casa ficou cheia de vida, o que alegrava a antiga proprietária.
Compartilhavam as refeições e a sala, conversavam, lembravam tempos de meninas, António via televisão ou lia o jornal, sem deixar de, volta por volta, fixar o olhar mais anatómico na nova prima.
Os invernos sempre frios naquele lugar, este parecia especialmente rigoroso. António mais uma vez teve que viajar dizendo que demoraria quatro ou cinco dias. Era habitual.
A prima convenceu Lucília a que na ausência do marido dormisse no quarto dela. A cama era bastante larga – dava para três ou quatro, segundo ela dizia – e evitavam estar a aquecer o frio quarto do sótão. Lucília achou meio estranho, mas lembrou que em novas tantas vezes tinham dormido juntas, que achou até boa a ideia.
Natália dormia como uma pedra. Assim que se deitava e cobria com a roupa, já não dava conta de nada, e ia direto até de manhã. Nem se mexia. Onde caía ficava, imóvel. Lucília, que levava mais tempo a adormecer, invejava tal capacidade, porque enquanto não adormecia, pela sua cabeça passavam todos os bons e maus bocados que vivera.
Desta vez António interrompeu a viagem mais cedo e regressou a casa noite alta. Foi para o quarto, despiu-se sem abrir a luz para não acordar a mulher e quando se ia a deitar tocou num corpo estranho!?
Lucília que estava meio adormecida, ao sentir aquele corpo encostar nela, toda tremeu. António, espantado, ia perguntar alguma coisa, quando Lucília lhe fez sinal que não falasse, apontando para a prima que dormia, e que a deixasse sair da cama. António ao querer ajudá-la, agarrou-a, viu que ela se deixava envolver e percebeu que tinha na mão uma fêmea carente.
Não hesitou, entrou com ela na cama e não a largou mais. Lucília deixava-o fazer tudo, e não queria grandes evoluções para não acordar a prima que dormia como pedra, ali mesmo ao lado deles!
António explorou aquele presente que acabava de encontrar, e Lucília do mesmo modo pensava no seu querido Salvador.
Quando terminaram, Lucília, envergonhada e ao mesmo tempo satisfeita, sai correndo e vai para o seu quarto que encontrou gelado. António, sabendo que a mulher não acordava até de manhã, mais ainda sabendo que ele estava em viagem, decidiu segui-la. Lucília pediu-lhe que não insistisse. Já tinham entrado em terreno perigoso.
António via agora uma mulher acordada, cheia de vida na cama, coisa que para ele se ia tornando raridade. Cada vez que ele se preparava para ter relações com a mulher tinha que se deitar antes dela, porque sabia que quando ela caía na cama, apagava. Assim, já a esperava, agarrava-a logo, e não a deixava adormecer!
Agora não.
Aquela primeira noite fora um delírio, mas, e daqui para a frente, como fazer? Sempre havia a hipótese de deixar Natália adormecer e depois subir mais um andar, mas era jogo perigoso e António não queria pôr o casamento em perigo.
No dia seguinte a mesma rotina, Natália admirada do marido ter voltado mais cedo, que ele explicou com um argumento qualquer, e na sala, após o jantar, a mesma conversa, e mais olhares do António, sem que Natália se apercebesse.
Lucília voltou a dormir no seu quarto, mas sempre dizia que não precisava de aquecimento, porque os cobertores a mantinham bem aquecida durante a noite.
Os cobertores, e António, que assim que recuperava as forças, à socapa, depois da mulher desmaiar no sono, subia ligeiro aquele último lance de escadas para se enfiar debaixo das calorosas cobertas que estavam sempre dispostas a recebê-lo.
Não adiantava vir para casa mais cedo, porque a hora do encontro nas alturas, literalmente, só depois de Natália adormecer, e não era capaz de conceber outro local onde pudessem satisfazer-se mais vezes.
Surgiu uma grande hipótese. A filha precisava de ir a Lisboa prestar provas para um estágio, importante para ela. Teria que ficar uns três ou quatro dias na capital. Natália disse que a acompanharia e a vida em casa e no Porto continuaria como sempre, com o que o marido concordou na hora.
Como sempre... foi a melhor esperança para António. Ia ficar em casa, sozinho com a prima! No dia em que a mulher e a filha seguiram para Lisboa, António aproveitou e foi mais cedo para casa. Lucília, apesar do inverno não ter terminado, os dias começavam a ter algum sol e a excitar as glândulas do amor, vestiu-se com roupa mais leve, mais colorida, sentindo-se rejuvenescer e parecer mais atraente. Nem precisava.
Lucília não era menina, mas continuava atraente, e além do espelho, bem via a cara e os sussurros do padeiro. No íntimo... até gostava. Era bom para o ego. Agora então, sentindo-se tão desejada...
Durante a ausência de Natália, António sempre voltou para casa mais cedo. Jantavam qualquer coisa e acabavam dormindo juntos. Bem juntos.
E começava a pôr a questão se amava mais a cunhada, ou se era simples questão de sexo.
António já quase deixara de esperar na cama que a mulher se deitasse. Mas Natália começou a notar que os seus jogos de amor estavam a rarear, e um dia, em vez de se deitar logo, deixou-se ficar na borda da cama à espera do marido, que estranhou.
- António. Há muito que não esperas por mim na cama! O que se passa? Já não me amas, ou não me queres?
- Que pergunta tola, Natália. Quantas vezes eu quero agarrar-te e fazer amor contigo e tu me respondes com um ronco. Ainda para mais continuo a achar-te uma mulher bonita, a quem muito quero. Mas tu adormeces que nem pedra, o que posso eu fazer? Vontade tenho eu, e às vezes muita, mas, e tu?
- Então vem cá. Vamos nos amar mais um pouco.
Começava a não ser tão fácil. António tinha que acudir a dois lados. Como?
Os meses passavam, António subia aqueles degraus sempre que podia, enquanto Natália como que estátua de pedra nos braços de Morfeu, dormia.
Uma tarde António chega a casa com um amigo espanhol. Manolo, boa figura, a aproximar-se dos sessenta, vivia em Málaga e tinha negócios com António. Eram amigos e viam-se com regularidade.
Apresentou a mulher e a cunhada, onde Manolo não pôde deixar de reter o olhar por mais uns instantes.
António tinha-o convidado para jantar em casa, ao que Natália se opôs; era melhor irem a um restaurante. Depois voltariam para o café e até sugeriram que Manolo dormisse no quarto vago de um dos filhos. De manhã, os dois sairiam cedo e ele regressaria a Espanha.
Jantar simpático, alegre, e como Manolo se tinha separado da mulher há largos anos, António, meio brincando, meio a sério, atira-lhe:
- Manolo. Aqui tem uma mulher linda à sua espera. Lucília enviuvou há uns quatro anos, continua linda e é uma magnífica dona de casa. Porque você não dá um passo em frente e casa com ela? Fariam um casal maravilhoso.
- Oh! António! Você está louco? – Disseram Natália e Lucília ao mesmo tempo.
Manolo ficou meio sem jeito, mas olhou melhor para Lucília, e no seu íntimo, algo lhe começou a dizer que era uma solução interessante e até apetecível.
- Sabes, António, Lucília é, sem dúvida, uma mulher muito interessante, mas nunca vi fazer-se um casamento entre dois pratos dum jantar! E depois, casamento é coisa que só os dois podem analisar. Agradeço muito a sugestão, mas não me parece indicado falar sobre isso. É, com certeza constrangedor para a Lucília.
- Então bebamos mais um copo à vossa saúde, e algo me diz que ambos ficarão a pensar nisso.
Findo o jantar, de volta a casa, café, um vinho do Porto, um pouco mais de conversa, e a noite chega ao fim. Natália com o vinho que bebera pede licença para se retirar, com o marido tendo que a ajudar a deitar-se, na certeza de que nessa noite, a mulher seria ainda mais pedra do que o costume!
Deixaram Lucília e Manolo, sós, na sala. Sem saberem o que dizer, olhavam-se.
Manolo arriscou:
- Lucília desculpe a brincadeira do jantar. Até eu não me senti à vontade.
- Não se preocupe. António volta e meia gosta destas coisas.
- Mas sabe? A verdade é que eu fiquei a pensar nisso, e agora que estamos aqui sós, devo confessar que a acho uma mulher muito atraente. E para quem vive só, uma companhia é o sonho de todos os dias.
- Manolo. Se quer pensar no assunto, volte para casa, pense bem, e depois me comunique.
- Sou livre, nada me impede.
Lucília serve-lhe mais um cálice de Porto, enche também o dela, que levantam e bebem à saúde e boa decisão de cada um.
- Com esta conversa até me parece que pensei em tudo! Mas o melhor é irmos dormir.
“Não me parece uma solução para desprezar. Vamos ver o que ele me vai dizer. Sem correria”.
Estava a despir-se para se deitar quando viu António entrar. Subiu descalço para que o convidado nada ouvisse, e começou a falar bem baixinho, a sussurrar.
- Lucília, eu fiz isto tudo, mas estou apavorado com medo de perder-te!
- Você é meio louco. Deixou o Manolo envergonhado, ele que me parece uma pessoa equilibrada.
- Brincando, brincando, eu falei a sério no casamento, e creio que esta semente vai dar frutos.
- Por favor. Sai do meu quarto.
António voltou, pé ante pé para o quarto, de manhã saiu com Manolo que ao despedir-se, depois de muito ter agradecido as atenções disse a Lucília:
- Breve terá notícias minhas. Que notícias? Por ora nada sei!
- Não precisa ficar preocupado. Deus sabe o que vai acontecer. Adeus.
Uma semana mais tarde, Lucília, que já aguardava há dias uma resposta, recebeu o telefonema.
- Lucília. Vou aí no fim de semana e ficarei uns dias. Mas não se preocupem. Eu prefiro ficar no hotel.
Aquilo já era “quase” o pedido de casamento, e Lucília começou a preparar-se.
Sábado à noite chegou. Domingo, levou-a para almoçar e pôs logo tudo a limpo: “queria casar com ela.”
Lucília estava muito indecisa. Se por um lado o desejava, por outro tinha medo de entrar numa gaiola, que mesmo de cristal seria uma gaiola.
- Manolo. Já temos idade para não jogar o resto das nossas vidas fora. Eu nunca trabalhei, apesar dos estudos que fiz, mas não quero ficar em casa, limpando o pó e esperar que o marido volte.
- Que estudos você tem?
- Psicologia, na Faculdade do Porto.
- Mas isso é interessantíssimo. Pode trabalhar na minha empresa. No departamento de pessoal. Isso seria uma maravilha. Jamais pensei que poderia ter uma esposa e ao mesmo tempo um auxiliar competente e de total confiança num dos postos chaves da empresa. Se pudesse casava já hoje! E mesmo que não casemos o cargo na empresa já é seu!
- Manolo, façamos o seguinte: podemos preparar um casamento civil que é rápido, deixando o religioso para quando se tiver reunido toda a necessária documentação. E podemos até fazer isso em Espanha.
- Isso quer dizer o sim que eu esperava. Estou encantado.
- Podemos regressar a Málaga já no princípio da semana.
- Calma. Tenho que deixar assuntos resolvidos, preparar roupas, que é o mais fácil, mas tudo quanto herdei do meu marido e que tenho administrado, tem que ficar seguro.
- Podemos voltar aqui sempre que você quiser. Isso não é problema.
- Entonces mi querido novio, brindemos ao nosso futuro.
Beberam um copo de vinho, levantaram-se abraçaram-se e deram um beijo ... cerimonioso.
- Vamos dar a notícia a António e Natália, ou antes, vamos os dois passear na praia, conversarmos, para nos conhecermos melhor, e convidamo-los depois para jantar.
Combinaram o jantar e foram passear na praia, e contaram, contaram, a vida de cada um. Como tinham vivido casados, o que sucedeu. Ele disse que tinha dois filhos ambos casados, que não interferiam minimamente na sua vida, e três netos, e ela contou que durante anos tudo quanto fez foi tomar conta da mãe, depois o casamento e o desastre que a enviuvou, e... agora a vida monótona (!) com os primos.
O jantar correu animado, Lucília anunciou que seguiria na próxima semana para Málaga; muitos votos de felicidades, brindes ao futuro. Natália animada participava nos brindes e na conversa, ela habitualmente reservada.
Estava a sentir-se aliviada vendo a prima ir embora? Saberia das noitadas com o marido, apesar de jamais ter mostrado qualquer desconfiança? No mínimo, estranho.
Beberam, brindaram, o jantar chegou ao fim, deixaram Manolo no Hotel e os três regressaram a casa.
Como de costume Natália caiu na cama e apagou. Lucília foi fazendo sinal ao primo que nessa noite não haveria “festa” e no seu quarto começou a arrumar o que queria levar para a nova vida, e a preparar-se para no dia seguinte estudar como deixar o seu património assegurado.
Foi ao Porto falar com o sócio da empresa onde Salvador tinha participação, e disse-lhe que queria vender a parte dela. Eles que lhe fizessem uma proposta.
Tudo estava a compor-se com rapidez. Três dias depois telefonou a Manolo e disse-lhe que seguiria no dia seguinte num voo para Málaga. À noite em casa, Lucília avisou que ia embora no dia seguinte.
Natália, de lágrima no olho desejou-lhe as maiores felicidades. Assim como António, mas deixaram claro que a casa continuava sempre aberta e o quarto “lá de cima” a aguardava sempre que quisesse voltar, ou para férias, ou como entendesse.
Deitados, Natália e António comentaram:
- Acho que a prima vai-se dar muito bem. Manolo é uma excelente pessoa. Assim o espero.
Natália:
- Não queres ir lá acima, mais uma vez, despedires-te dela?
Virou-se para o lado e adormeceu.
- !!!!!!!!!!!


18/03/2014

quinta-feira, 2 de novembro de 2017


Silvana e Vittorio


Conheciam-se desde quando?  Podia dizer-se que desde muito antes de terem nascido!
Tanto dum lado quanto do outro as mães eram amigas já na escola primária e os pais tinham feito a faculdade juntos. Moravam em Verona a menos de duzentos metros uns dos outros, o que fazia que qualquer das casas era sempre a casa de todos. Além disso nas férias de verão estavam juntos também porque seus avós, vinhateiros ali nos arredores, tinham toda a campagna para correrem e brincar.
Dois dos filhos, e duas filhas, amigos de nascença, casaram no mesmo ano, com uma diferença de seis meses, e foram nascendo crianças a um casal e outro num ritmo que parecia combinado. Meia dúzia de cada lado, alternando-se apenas com o ritmo que marcou o nascimento no primeiro lado.
Esses filhos todos, juntos eram como irmãos, e assim cresceram, andaram nas mesmas escolas, até ao momento de cada um seguir a sua vida, casarem, e o afastamento físico e a vida de novas famílias não permitir a continuação das brincadeiras.
Todos agora, adultos, comprometidos, uns com mais outros menos filhos, à medida que se tornavam independentes começaram a se dispersar por outras cidades e pelo mundo, dois tinham seguido para a Argentina, um para os Estados Unidos e Vittorio, que participou da Segunda Guerra como tenente do exército italiano, quando viu que a política levava Itália ao desastre, desertou, atravessou o Mediterrâneo e foi oferecer-se ao exécito australiano. Acabada a guerra, condecorado, foi-lhe dada a cidadania australiana, por lá ficou e casou, o que tornou sempre e cada vez mais difícil o encontro com os irmãos e amigos de infância. Mas quando se encontravam, todos ou parte, a alegria era igual à que mostravam quando na meninice.
Silvana, casou, não saíu de Verona, teve quatro filhos e um dia o marido encantou-se por uma “gata” que se espavoneava como Julieta perdida em Veneza, deixou a mulher e filhos, tinha ela pouco mais de quarenta anos. Não voltou a casar, dedicou-se aos filhos e depois aos netos, levando uma vida um tanto amarga e solitária.
Os que emigraram, só de anos a anos apareciam na chamada “terrinha” onde, religiosamente procuravam reunir os amigos e fazerem a festa juntos.
Vittorio, o australiano, teve três filhos, produtor de vinhos, uma vida de trabalho, enviuvou com setenta e tanto, e a partir daí as visitas à família na Itália perderam muito do interesse, até porque irmãos e amigos ou já se tinham apagado ou estavam, a maioria, deixando-se apodrecer em casa, sendo difícil juntá-los para uma farra, mesmo de velhotes.
A instâncias dos filhos e netos, já com oitenta e cinco, lá o convenceram a meter-se num avião uma vez mais, para encontrar os que sobreviviam, recordar a juventude, se possível, e beber uns copos do que sempre apreciara. E até, diziam os filhos, “mostrar-lhes que o nosso vinho é tão bom ou melhor do que o deles!”
Aceitou, enfrentou a longa viagem, e muita alegria nos encontros que ia tendo. Recolha cedo ao hotel a meio da tarde cansado dos anos e da emoção.
Uma das amigas da meninice, Silvana, também passados os oitenta e três, há tempos tinha decidido deixar de ser “dona de casa” e hospedara-se num hotel, pequeno, mas muito simpático, à borda do Lago Di Garda. Não tinha mais que se preocupar com casa, empregada, cozinha, arrumação, etc. Nos fins de semana sempre apareciam alguns dos filhos ou netos, durante a semana dava os seus passeios tranquilamente pela orla do lago, descansava, enfim, tinha uma velhice calma e agradável.
Vittorio logo que soube do seu paradeiro telefonou-lhe. Grande alegria, “não sabia que estavas aqui”, “porque não vens almoçar comigo”, “há quantos anos não nos vimos”, etc.
Vittorio disse logo, “vou jantar hoje contigo, não janto nada, mas uma sopinha e uma fruta vai sempre bem. Por favor reserva aí um quarto no hotel porque só volto a Verona amanhã. Como se chama o hotel?” – “Corte Valier. Mesmo na borda do lago”.
Chegou de taxi, ao fim do dia, um resto de sol sumia entre os morros que circundam o lago e pouco se refletia já nas suas águas e, uma brisa que começava a refrescar enchia-lhe os pulmões e a cabeça de boas recordações, e o mais importante, o forte e saudoso abraço no encontro com a amiga de sempre, uma pequena lágrima do canto do olho de cada um, a habitual troca de perguntas “como estão os filhos, netos e bisnetos”, uma pequena caminhada de braço dado, bem agarrados, “lembras-te que nós, em pequenos, quando vínhamos todos para aqui, era sempre uma festa”.
Por fim, no canto dum pequeno restaurante não longe do hotel, porque nem estavam em idade de grandes caminhadas, a tal sopa e uma fruta, sem se esquivarem de, calmamente, irem bebendo uma garrafa de Soave, branco, uma das especialidades da região, que os deixou bem mais animados.
- Sabes que não consegui um quarto para ti lá no hotel! Tem um feriado qualquer e lotou. Mas não te preocupes porque no meu quarto tem duas camas, muitas vezes um neto ou filho vem ficar ali comigo, e tu podes muito bem dormir lá. Não temos satisfações a dar a ninguém e ainda por cima só nos conhecemos há oitenta e tantos anos!
- Silvana, mas eu não quero incomodar-te.
- Não estás bom da cabeça. Nós que em pequenos dormíamos ao monte, uns por cima dos outros, na nossa ou na vossa casa, agora é que vens com essa conversa! Não sejas tolo.
- É verdade. Aceito, sim.
Passearam mais um pouco, os anos e as pernas não ajudavam a grandes andanças, o friozinho da noite aconselhava a que se recolhessem e voltaram para o hotel. Ainda alguma conversa na sala do hotel, uma xícara de chá bem quentinho e logo acharam melhor ir para o quarto. Aqueles anos todos em cima, eram um peso razoável a carregar, mesmo parecendo, os dois, de muito boa saúde!
O quarto não era grande, bem arrumado, confortável, uma cama larga e outra de solteiro num canto meio separado, além do banheiro, que ambos usaram para se trocarem e vestir a roupa de dormir. Primeiro Silvana que logo se deitou, e quando Vittorio reaparece de pijama e se ia deitar na cama extra, ela diz-lhe:
- Vittorio. Deixa-te de cerimónias; dorme aqui ao meu lado. Esquece a outra cama. Estou velha e preciso de um abraço.
- !!!
Vittorio obedeceu, cerimonioso. Esperava qualquer coisa menos aquilo, tanto mais que durante toda a vida de ambos nunca houvera entre eles mais do que amizade sem a mínima sombra de namoro.
Assim que entrou na cama, Silvana encostou a cabeça no peito dele e disse-lhe:
- Há anos que vivo só para os filhos e netos. Agora estou por aqui sozinha, muito tranquila. Bem sei, o lugar é lindo, mas sinto-me como prisioneira, sem ter praticamente ninguém com quem conversar. A tua vinda foi um bálsamo, faz-me rejuvenescer ao nosso tempo de meninos. Estas recordações trazem-nos lágrimas de saudade e alegria. Fico a pensar como éramos alegres, traquinas, lembro muito os nossos pais e a sua longa e grande amizade, o quanto corríamos pelo campo, enfim, tudo o que acabou há tanto tempo.
E abraçava-o bem. Vittorio correspondeu ao abraço e beijou-lhe a testa.
Mesmo com a idade bem avançada sentiu que apesar de tudo estava abraçado a uma mulher e temeu que ela pudesse vir a sentir se ele se excitasse, o que seria pouco provável!
Com o passeio, o vinho e sobretudo a emoção do encontro, foi curta a conversa e não tardou a que os dois adormecessem.
O que se passou naquela noite e naquele quarto nunca se soube.
Já a manhã ia longa, um belo dia de sol a chamar para mais passeios ao longo do lago com toda a sua beleza natural, o dono do hotel estranhou que D. Silvana não tivesse ainda aparecido para o seu habitual café da manhã, o que fazia quase sempre à mesma hora. Receando que estivesse a passar mal foi, cuidadosamente, bater à porta do quarto. Ninguém respondia. Desceu, perguntou ao restante pessoal se tinham visto a senhora, e nada. Nem tinha tomado o café da manhã, nem o recepcionista a tinha visto.
Com a chave mestra, voltou ao quatro, novamente bateu à porta e como não obtivesse resposta, abriu para ver o que se passava.
O sol entrava com força pelas janelas. As luzes das mesas de cabeceira estavam acesas.
Na cama, ainda desarrumada, ninguém.
Onde estariam?
Com o sol a despontar, levantaram-se, saíram antes da troca do pessoal da recepção, e foram passear, abraçados, quase com os pés na água fria do Lago.
Em silêncio, gozando a beleza da manhã, e a companhia um do outro. Via-se que estavam felizes, e foram caminhando. O gerente do hotel ainda mandou alguém ver se os encontrava, mas nada! O emissário pareceu vê-los ao longe, mas uma densa neblina levantava-se das águas, e logo, bem aconchegados um ao outro, sumiram dentro daquela “nuvem”!
O emissário correu para os chamar, mas nada mais viu.
Não voltaram para o almoço, nem para o jantar, nem para dormir. A polícia foi alertada. Percorreram todas as estradas à volta do Lago. Não viram nada, ninguém os viu. Grande o alvoroço.
Telefonaram para os filhos e parentes que acorreram ao local. Ao fim do terceiro dia suspenderam as buscas.
Nunca mais foram vistos.


15/04/2014

sábado, 28 de outubro de 2017


Um pequeno conto
O Dr. Vasco

Dr. Vasco Pimentel.  Filho de emigrante português, de Viseu, grande torcedor do Vasco da Gama, quando o filho nasceu o clube acabava de ganhar o campeonato e ele não hesitou: vai chamar-se Vasco.
55 anos, sem filhos, advogado, sem qualquer interêsse por futebol, o que teria desiludido o papai português, dono de um escritório de contabilidade, onde trabalhavam nove empregados, vivia sozinho, quase eremita, desde que as duas mulheres com quem casou se haviam mandado. Tinham apostado no dinheiro dele, querendo, ambas, aparecer na “socialite”, mas o Dr. Vasco, calmo, sem pretensões de “colunável”, só pensava no escritório, nos clientes e numa vida tranquila, em casa, junto com a mulher. Raro saiam para jantar fora, e com estas clausuras a primeira foi-se embora rapidinho e a segunda não demorou muito. E férias só alguns dias quando dos dois malogrados casamentos. Depois disso, já se passavam vinte anos, nem um diazinho só.
Resignou-se. Mas precisava de uma empregada fixa para lhe cuidar da casa. Estava cansado de faxineiras que entravam depois dele sair e saiam antes de voltar, o que sempre o deixava inquieto. Resolveu que não era isso que queria e mandou pôr um anúncio no jornal: “Senhor, respeitável, precisa de empregada doméstica que durma em casa. Bom salário. Telefonar para xxxx com Adélia.”
Adélia era a sua secretária. Antiga, de total confiança. Disse-lhe exatamente o que queria: ter a casa sempre arrumada e limpa, cuidar-lhe da roupa, o café da manhã exigia quase nada porque se limitava a uma fruta e um café, só almoçava em casa aos fins de semana, e à noite comia ou uma sopa ou fruta. A empregada seria admitida pelo escritório o que lhe valia ter todos os benefícios da segurança social, e poderia escolher o horário de trablaho.
Telefonaram mais de uma dúzia de candidatas. Adélia chamou só duas que lhe pareceram as mais indicadas, falou primeiro com elas e a seguir foram recebidas pelo patrão.
- Faça o favor de se sentar.
A primeira, vendo um “coroa enxuto” sentou e tratou, generosa... de cruzar as pernas. Pouco conversaram. Dr. Vasco não estava à procura de confusão.
Veio a segunda, mulher alta, boa figura, discreta, ar limpo, disse que tinha quarenta e sete anos, desquitada há muito, e um filho de vinte e cinco, casado e com dois filhos.
Efigênia, seu nome, já tinha ouvido da secretária que o primeiro mês seria experimental, como autoriza a lei, e se fosse aprovada o salário era, no mínimo, cinquenta por cento acima da média, mas, como dizia o anúnico, tinha que dormir em casa do patrão, porque era sobretudo de manhã e à noite que ele precisava dos seus serviços.
Quando este a recebeu, gostou da postura, explicou-lhe com alguns detalhes o que ela deveria fazer, incluindo algo que parecendo estranho, ela que não se acanhasse: precisava que alguém lhe esfregasse as costas com uma pomada própria, enquanto tomava banho, de imersão, mas que não se preocupasse porque ele sempre envergava um calção. Se não fizesse isso logo de manhã, tinha que pedir depois a alguém no escritório que o fizesse o que não era o indicado e ainda ficava com a camisa manchada do medicamento.
Efigênia achou o caso meio insólito, mas pareceu-lhe que nada havia de segundas intenções e aceitou o emprego.
Nesse mesmo dia, à hora combinada, apareceu com uma pequena mala na casa onde ia trabalhar, e era aguardada.
O patrão mostrou-lhe a casa toda, que não era pequena, explicou-lhe a vida que levava em casa, que era pouco tempo, a maioria dele a ler o jornal, livros e um pouco de televisão com as notícias. De manhã tomava banho às sete e meia, quando precisava do primeiro serviço. A empregada, nos tempos livres, e sempre que quisesse poderia ligar a Tv, e fazer o almoço e o jantar dela.
Jantar naquele dia para ele foi simples: sanduiche e um copo de leite. A seguir, a rotina de ler um pouco, ouvir o noticiário e cama.
No dia seguinte, Dr. Vasco enche a banheira, veste um calçãozinho, pouco mais que sunga, coloca um banco ali bem ao lado e já dentro de água chamou Efigênia para lhe vir esfregar as costas.
Veio, prestimosa, sentou-se no banco, o patrão explicou-lhe como devia fazer e qual produto usar, inclinou-se para a frente e ela foi esfregando com uma luva própria, as suas costas. O patrão orientava-a, mais para cima, para o lado, para baixo, etc., até que tudo feito, agradeceu e Efigênia se retirou.
Os dias passavam e a rotina era a mesma. No fim do mês Dr. Vasco disse-lhe que estava muito satisfeito com o seu trabalho e no dia seguinte a levaria ao escritório para legalizar o emprego, com um salário ainda superior ao que lhe haviam falado.
Para Efigênia, o emprego era ideal. Não gastava um tostão e amealhava praticamente tudo quanto lhe pagavam.
Agora tomavam o café da manhã e o jantar juntos, coisa sempre de poucos minutos, e na sala também assistia à Tv com o patrão, se bem que este só gostasse de ligá-la para o noticiário. Como ela gostava das novelas, tinha outra, grande, no quarto e a maioria do tempo, por lá se deixava estar.
Sempre o mesmo ritual da esfrega nas costas que a dedicada empregada encarava como um qualquer outro serviço, mas não podia deixar de apreciar o físico do patrão. Todos os dias a esfregar as costas de um homem, coisa que ela não fazia desde...
Apesar da idade e do seu comportamento ermitão, era ainda um belo homem, costas direitas, sem barriga, parecia bastante saudável, e enquanto esfregava, acariciava e procurava afastar o pensamento de fantasias.
Mas com a continuação... Passado pouco mais de dois meses, um dia, certamente com propósito disfarçado, a empregada agitou mais a água que lhe salpitou a bata.
- Ó! Doutor! Molhei-me toda! Com a sua licença vou tirar a bata.
O doutor olhou para o lado para ver o que tinha acontecido e já a empregada se despia, levemente molhada, ficando só com de soutien e calcinha!
- O que foi que aconteceu, Efigênia?
- Molhei-me toda e ainda não acabei o serviço. O senhor desculpe este à vontade, mas eu sei que não vai se importar.
O patrão mirou-a de cima a baixo, devagar, apreciou, até gostou, e novamente inclinou as costas para que a empregada continuasse o trabalho.
Quando acabou, em vez de se retirar, Efigênia pegou no lençol de banho para o entregar ao patrão, ajudou-o a sair da banheira, e ficaram de frente um para o outro! Ela passa-lhe o lençol pelas costas e em vez de o fechar pela frente, encosta-se ao patrão.
- Dr. Vasco, estamos os dois aqui há meses, solitários, parecemos dois prisioneiros de que? de nada, de vez em quando olhamos um para o outro sem dizer palavra, e acho que qualquer de nós ainda tem muito para dar. Porque estamos a fazer cerimônia, a fingir? Que tal... ? Humm? E fez um gesto que mostrava bem o que estava a propor, enquanto piscava um olho.
Dr. Vasco, Vasco, para os íntimos, sentiu-se agarrado e encostado a uma mulher que ainda guardava um corpo interessante e, o mais natural que poderia acontecer, ele estava a sentir que acontecia. Bem como ela, que com isso não só se encostava mais como se esfregava com vagar pelo homem em quem se amarrara.
- Não acha que está na hora de fazermos uma brincadeirinha?
Com o lençol limpou os dois, desapertou o soutien, baixou a sunga do patrão e viu que ele estava a aprontar-se para a conveniente função, e não foi necessário qualquer conversa para se deitarem na cama que ainda estava por fazer.
Efigência estava desquitada há mais de quinze anos. Suspirava por homem mas não queria mais experiências de maridos. Todos os dias a esfregar as costas de alguém que lhe parecia simpático, forte e ainda com muito para dar, não se conteve.
O mesmo se passava com o patrão que parecendo um triste e casto eremita, volta e meia dava uma olhava na mulher que estava quase sempre a seu lado em casa. Mas nem pensar em abusar da situação.
Nesse dia não pensou nada, nem que ia chegar tarde ao escritório. Efigênia resfolgava, agitava-se o quanto era capaz e quando sentiu que tudo estava a correr muito bem, soltou um suspiro profundo e na sua cara um sorriso pairou. Vasco, (creio que já tinha pensado que algum dia... deixa de pensar nisso...) também há muito ausente destas lides, gozava com o encontro e procurava não pensar em qualquer outra coisa. Esta primeira lide não foi muito demorada, mas deixou os dois um tanto ofegantes, estendidos em cima da cama.
Ela dizia-lhe “muito obrigado, doutor, muito obrigado.” Ele com a respiração ofegante não lhe respondia.
Despertava para um sonho há muito quase esquecido. Aliás despertavam os dois.
Demoraram mais um pouco quando o telefone toca. Era do escritório. Estranharam a falta do patrão que disse estar com um pouco de dor de cabeça e que só iria depois do almoço.
Deixaram-se ficar na cama, afagando-se por mais um tempo, até que finalmente se levantaram e foram tomar outro banho. Desta vez os dois juntos debaixo do chuveiro., cada um lavando o corpo do outro, aproveitando o máximo que podiam de tal situação. Tinham reencontrado o amor, mesmo só carnal, e não queriam perdê-lo. Foi o melhor chuveiro da vida de ambos.
Já vestidos, cada um no seu lugar de patrão e empregada, antes de sair, ele diz-lhe:
- Efigênia, a partir de hoje, se você quiser, passa a dormir no quarto de hóspedes. É melhor continuarmos a dormir em camas separadas, mas... pelo sim, pelo não, põe mais uma almofada na minha cama!
- Muito bem. Até logo.
- É verdade, põe também duas na cama dos hópedes!
Ao chegar ao escritório, o pessoal preocupado à espera de o ver chegar com ar adoentado, entra um rapagão, que parecia mais forte, e com cara sorridente.
Adélia:
- Estávamos preocupados com a sua saúde, mas pelos vistos fez-lhe muito bem descansar um pouco mais. Além disso só veio um telefonema, sem importância e de resto está tudo a correr normalmente.
- É verdade. Agora sinto-me lindamente, obrigado.
A esfrega nas costas continuou. Ele não podia dispensar tal tratamento, só que as posições na banheira, daquelas antigas, grandes, dava muito bem para os dois lá dentro. Passaram a ser esfregas maravilhosas. Ambos dentro de água, ele sentado na frente dela, já nem usava a sunga, e volta e meia encostava-se para trás naquele peito que tanto apreciava, enquanto ela aproveitava a esfregar-lhe, além das costas, os braços e o peito, isto quando a mão com a luva não descia até...
- Efigênia. Aí não!
O pessoal começou a notar que ao fim da tarde o Dr. Vasco começava a dar mostras de impaciência, de querer ir embora mais cedo, quando toda a vida ficava sempre mais uma a duas horas depois, mesmo só, no escritório. Até já chegava mais tarde do que todos os outros.
“Não admira. Há tantos anos, deve estar cansado”!
Estava, mas as razões eram outras, e a vontade de comer logo aquele sanduiche ao jantar e a seguir nem ver tv nem nada é que o faziam estar ansioso quando o dia chegava ao fim.
Chamou o tecnico de informática e pediu-lhe para lhe comprar um aparelho, pequeno. Estava a pensar tirar férias mas não podia perder o contato com o escritório.
Jonas, o tecnico, recomendou-lhe um Tablet.
- Não faço ideia o que seja isso, mas você sabe e vai-me ensinar a mexer nele.
O tempo passava e Efigênia, com uma boa maquia em poupança, foi melhorando o seu guarda roupa, comprando roupa mais condizente com a sua nova vida de, digamos, namorada (!) do Dr. Vasco, o que ele logo notou e aprovou, e se transformou. Vestia-se com roupas baratas, mas elegantes. Uma senhora com boa presença em qualquer parte.
- Vasco (já não era o doutor para quem dormia na mesma cama) acho que não me deve pagar mais salário.
- Essa agora! Você é quem faz o serviço todo da casa, trouxe um novo motivo para eu apreciar a vida, é justo que continue a ter o seu dinheirinho. Além disso, não se esqueça que a continuar assim vai ter uma aposentadoria do INSS. E mais: eu não tenho filhos nem satisfações a dar a ninguém. Estou bem de vida, tenho um escritório que me dá uma ótima renda, de modo, que em dinheiro, nesta casa não se fala mais.
Só mais uma coisa: vou juntar o pessoal do escritório e passar para eles 50% do capital da sociedade. Se tudo continuar bem, como até agora, entre nós, qualquer dia aposento-me também e vamos os dois passear por esse mundo!
- Já está a ficar maluco, é? Ainda tão novo e a pensar em aposentar-se?
- Porque não? Se eu der metade da empresa aos funcionários, tenho a garantia de que tudo continuará a funcionar perfeitamente.
Uns dias depois Dr. Vasco estava na posse do tal Tablet. Jonas ensinou-lhe, rapidinho, o essencial, que era para estabelecer ligação com o escritório e ainda lhe mostrou algo que o surpreendeu: a possibilidade de fazer ótimas fotografias. Quis logo tirar a todos os empregados juntos e a cada um isoladamente. Afinal esta era a sua família!
A rotina em casa estava toda alterada. O jantar já não era aquela sanduiche insossa, mas um prato, mesmo leve que Efigênia caprichava, um copo de vinho para cada um, enfim uma animação.
Depois um pouco de leitrura e de tv e, sempre, deitar cedo.
Ia cada um para seu quarto, mas logo na primeira noite Vasco quis ver se Efigênia estava bem instalada no novo quarto. Estava. Ótima. Cama larga, uma bela janela com vista sobre a baía da Guanabara, naquele belssimo apartamento no Flamengo, um largo sorriso e um gesto significativo: abriu parte dos lençóis, deu uma palmadinha na cama, o que foi claramente entendido.
- Sabe uma coisa? Nunca me deitei nesta cama. É a primeira vez. E parece ser confortável.
- É ótima. E agora melhorou muito.
Abraçou-o e deu-lhe um beijo.
Vasco não podia estar com aventuras mais profundas todos os dias. Faltava-lhe o treino. Mas com o que tinha economizado durante anos, aventurou-se e numa segunda noitada.
Nunca mais dormiram sósinhos. Num quarto ou no outro as camas sempre abrigavam os dois que mesmo não passassem de um abraço, dormiam bem aconchegados.
Vieram férias, passearam, e pareciam felizes.
Dois anos voaram. Vasco, que já tinha passado 50% do escritório para o pessoal que se trabalhava bem agora era muito melhor, sem nada dizer fez testamento, e pediu que o guardassem, selado, no cofre do escritório.
- Adélia. Se eu morrer, o que acontece com todo o mundo, você abre aquele envelope.
- Que disparate, Dr. Vasco. Porque haveria de morrer?
- Por uma rzão extremamente simples: estou vivo!
Todos riram, mas só ele sabia o conteudo do envelope. Deixava mais 30% da empresa aos funcionários, e a Efigênia os restantes 20% e todos os seus bens que eram o apartamento em que viviam com todo o recheio, uns bons lotes de ações que o banco geria, a sua conta bancária e pouco mais, mas que daria para que a “namorada” não tivesse mais com que se preocupar com finanças.
As férias passaram a ser duas vezes por ano. Correram Argentina, foram até Antártica, Chile e Perú, e pela Europa, sem jamais esquecerem seguros de saúde, e vida, etc. Nisso, Vasco, era, também, impecável. Já tinham idade suficente para não se poderem arriscar.
- Agora vamos à Suiça. À neve. Já reservei tudo e vamos os dois aprender a esquiar!
- Que horror. Eu sei que não me aguento com aquilo mais de um minuto.
- Nada disso. Tem lá professores e é com um deles que vamos começar.
Uma maravilha. À volta do hotel tudo branco, um ar frio mas que dava um prazer imenso a inspirar, o jantar perto da lareira com aquele fondue de queijo e um belo vinho, sentiam-se perto do céu.
De manhã começam as aulas de ski. Efigênia teve que ser amparada quase todo o tempo porque cada vez que a largavam uma perna fugia para um lado, outra para o outro, muita vez um ski passava por cima do outro, uma festa que a deixou estenuada.
À noite Vasco com todo ar aquele ar fresco, animado, queria o aconchego da namorada. Mas esta com a surra que levou durante o dia caíu em cima da cama, vestida quase com as botas e roncou até de manhã.
Vasco desistiu de a fazer aprender, mas ele não.
Ela ficava na varanda do hotel, gozava aquela vista, sentia-se uma rainha e ele progredia no seu ski.
Passados alguns dias o professor decidiu levar alguns deles, os mais preparados, para uma pequena descida. Uma beleza.
- Agora estão prontos. Mas cautela. Nada de grandes descidas porque pode ser perigoso.
Vasco estava encantado, e com a parceira sempre descansada, quem passou as noites, ao ataque foi ele, no que ela colaborava com um calor de derreter a neve ao redor! Na verdade, amavam-se.
No outro dia Vasco, já quase “mestre”, volta aos seus skis. Desta vez tinha que ir mais longe. Sentia-se seguro. Subiu o teleférico, apreciava o passeio e a vista, quanto mais acima mais grandiosa, adorava respirar aquele ar puro e frio e estava feliz.
Começou a descida com cautela para não se deixar embalar muito, mas o desporto é um vício. Um pouco mais de velocidade, umas curvas que a amortece, o declive assentua-se, a velocidade aumenta, um pequeno bosque de pinheiros por onde os mais experientes passavam em velocidade fulminente, e ele, animado a segui-los, não consegue virar pelo mesmo caminho com medo de se chocar com alguma árvore, desvia-se de todas e cai num profundo penhasco.
Socorristas, helicópetro, o esquiador não dava acordo de si. Levado ao hospital e avisada a mulher que para lá corre, o estado dele é grave. Muito grave, já ligado a aparelhos.
Quando sentiu a mão de Efigênia afagar-lhe a cabeça e cara, abre um pouco os olhos que mal conseguem ver a cara dela com as lágrimas escorrendo:
- Meu amor. Obrigado por estes anos de felicidade que você me deu.
Fechou os olhos. A cabeça caíu ao de leve para o lado.


22/06/2014