Mais... soltas
Já
contei em diversos outros escritos, impressos ou virtuais, muitas peripécias
vividas durante os oito anos em que trabalhei na Cuca. A memória que ainda não falhou de vez (mas sinto aproximar-se
esse terrível momento) volta e meia cutuca-me os neurónios e lembro de alguma
coisa mais. Só não sei se me estou a repetir, coisa normal na minha juventude,
se é assunto novo!
Como
escrevi uns quantos livros, metade inéditos e, em mais de dez anos postei no
blog mais de 800 – oitocentos – textos, pode ser que em algum deles apareça a
mesma história... ou parecida!
1958 - Apesar de ter sido admitido na
Cuca para ser cervejeiro na Fábrica
de Nova Lisboa, que estava ainda no começo de levantar paredes, entregaram-me
um alvará, um galpão (armazém) com duas máquinas dentro, novas, por estrear, e
recebi a “ordem”:
- Sabe o que são estas máquinas?
- Sei.
- Pois então nós temos um alvará
para fazer rações, e é isso que você vai fazer.
- ?!?!?!?!
Eu
nada sabia de vacas, nem de porcos, nem galinhas, a não ser depois de
cozinhados, mas estava com a batata quente nas mãos e tive que me virar.
E,
sem me preocupar com o Diretor Geral, que só atrapalhava, e mais a equipe
burocrática da fábrica que me queria controlar, em alguns meses, tínhamos uma
fábrica de rações a funcionar.
Regularmente
eu fazia relatórios para os “patrões”, todos em Lisboa, informando da situação
da fábrica, vendas, perspectivas, modo como foram calculados os preços de custo
e de venda, etc.
Um
ano passado desembarca em Luanda todo o Conselho de Administração para festejarem
não sei quantos anos da fábrica de cerveja que começara a produzir em 1956, e num
dia recebi a “intimação” para no dia seguinte, logo cedo, me apresentar perante
toda a “elite patronal”, o Conselho dos “Mais Velhos”, para lhes falar da
fábrica das rações!
Lá
vou eu. A “assembleia da grana”, todos sentados atrás de uma mesa (como se
fosse uma CPI !) e eu sentado numa cadeirinha de “réu” em frente da alta
finança.
Sai
a primeira pergunta feita pelo decano dos administradores, uma pessoa que aliás
recordo com muita simpatia:
- Então como vão as rações? Pergunta concreta e objetiva!
- Eu tenho enviado para Lisboa,
para a Administração, relatórios mais ou menos mensais onde coloco sempre o
andamento da fábrica como custos, aumento de vendas, ponto de virada (é mais bonito o “turning
point”!), e todos os detalhes que julgo
de interesse para os senhores analisarem.
- Oooohhh! – Todos se entreolham à procura
de alguém que tenha lido os sobreditos relatórios, e só se viram abanos,
negativos, de cabeças.
Moral
da história: eu tinha estado a escrever “p’ró boneco”, porque ninguém lera nada
e, consequentemente, de nada sabiam!
Por
dentro, muito ri, e pensei: Já os meti, a
todos, no bolso!
Lá
contei o que se passava, que tudo corria bem, que tínhamos ultrapassado em
vendas o “turning point” não necessitando de mais investimentos, que a
perspectiva de crescer era muito positiva, etc.
O
Presidente não se conteve, ar feliz, solta esta exclamação para os colegas:
-
Que maravilha! Temos uma nova fábrica!
E eu, de ignoto funcionário, virei quase um
herói! Muito cumprimentado! E com direito a melhoria de salário!
Isto animou os
acionistas e começaram a pensar em concretizar outros investimentos!
As
garrafas, de vidro, para a cerveja, vinham da Companhia Vidreira de Moçambique,
de que eram também sócios. Mas havia um custo a suportar com embalagem,
transporte e custos alfandegários, que apesar de ser tudo Portugal, nas
alfândegas... não era!
Em
1956 haviam já constituído uma sociedade, a VIDRUL, em Angola, com a mesma
finalidade.
1959 - Pergunta a um, pergunta a outro e veio a
saber-se que na estrada que vai de Luanda para o Cacuaco, nalgum lugar, haveria
uma areia de alta qualidade para fazer vidro. Boa sílica.
E
o Diretor Geral teve a brilhante ideia de me chamar e mostrar uma carta vinda
de Lisboa, dos patrões, para mandar alguém buscar amostras dessa areia, e que,
com rapidez as remetesse para Portugal, para análise, porque queriam começar a
fabricar garrafas. Não sei se o “sucesso” da fábrica de rações os levou a
pensar que eu pudesse ter o mesmo resultado com vidros! Duvido.
-
Mas eu não sei nada de areia nem de
vidros!
- Não tem que saber: você
conhece a estrada para o Cacuaco?
- Muito bem. Passo lá muitas
vezes quando vamos à caça!
- Aí a um ou dois quilômetros
antes, ou depois (?), há uma curva (creio que para a
esquerda!) e do lado direito uma pequena
barreira, aí de metro e meio de altura. Você logo vê. É uma areia muito branca.
Vá lá e traga um saco cheio dessa areia. Rápido que estão a pedir até para
mandar de avião.
- Muito bem.
Um
ajudante, uma enxada e uma pá, dois sacos, e ali vamos nós feitos turistas à
procurar da areia branca, mais ou menos
ali, ao pé duma curva (tinha várias)... a caminho do Cacuaco, onde
normalmente parava só para comer “chocos en su tinta, mexilhões e camarão e
beber umas belas Cucas”.
Acabámos
por ver alguma coisa que se parecia com o que estávamos procurando, saí do
carro, ar de profundo entendedor geológico, começo a apalpar aquelas terras
brancas, e conclui cientificamente:
-
Deve ser isto!
O
que não se via era grande extensão desse areal, o que pressupunha uma reduzida
garrafaria, mas, quem sabe?, talvez escavando, ali estaria a mina.
Enchemos
os dois sacos pela metade, porque pesavam p’ra... e voltámos à fábrica.
-Pronto. Aqui tem. Era isto que queriam?
O
diretor, engenheiro geógrafo, também sabia tanto de areias como eu, mas disse
logo:
- Isto mesmo. Vou mandar embalar
e enviar para Lisboa, de avião.
Deve
ter pago uma nota alta porque areia, e boa como aquela era, pesava bem.
Eu
esqueci as areias.
Ano
e meio depois vou a Lisboa, passo no gabinete de um dos administradores e vejo,
lá, num canto, encostadinhos e tranquilos, os dois sacos!
- O que é aquilo?
- A areia que você mandou!
Corri como um desalmado, catei a areia, nesse
dia foi mandada de avião e, um ano e meio depois a areia jazia, intocada,
talvez até esquecida, num canto.
Era
assim.
No
site da VIDRUL, implantada no Cacuaco (!) diz que a Companhia foi fundada em
1956. Talvez. Em 1959 procuravam a areia. Em 1961 a areia jazia quieta dentro
dos sacos. Em 1965 eu saí da Cuca e...
nada mais soube da fábrica, nem de areias, nem de garrafas!
Hoje
é uma empresa importante. E parece que ninguém sabe, com exatidão, quando
começou a produzir garrafas! Só sabem que a sociedade foi constituída em 1956!
1961 – Sou mandado para França fazer uma série
de estágios, começando pelo CEO – Centre d’Études et d’Organisation – em
Versailles, onde me apresentei no dia 2 de Janeiro, às 08H25M, antes daquilo
abrir.
Às
08H35M apareceu o diretor, desculpou-se do “atraso” (!), muito atencioso e
objetivo, cujo nome, infelizmente já esqueci, que sabia da minha chegada e,
depois dos usuais cumprimentos e mútuas cortesias, atira-me a primeira pergunta
(em francês, como é de supor!):
-
Então o que é que você vem estudar?
- Não tenho a mínima ideia!
Simplesmente recebi instruções para me apresentar aqui, hoje às 08H30M, mas sem
mais conversa.
- Bom. Vou então mandar um
telegrama para Lisboa para eles definirem o seu programa de estudos.
- Nem pense nisso. Vamos ficar
os dois aqui sentados, olhando para a cara um do outro, no mínimo uns meses ou
uns anos e a resposta, nem nessa altura deve vir!
- ?!?!?!?!
- O “big-chefe” disse-me que eu vinha
fazer uma série de estudos e estágios e se no fim lhe dissessem que eu era “suficientemente
esperto e capaz” iria depois montar um serviço de vendas da companhia, que até
hoje se limita a vender a quem lá chega com dinheiro e um caminhão para
carregar a cerveja. Além disso eu criei do zero uma fábrica de rações, que vai
muito bem, e penso que de rações para gado vocês aqui nada sabem, portanto não
será sobre este tema que vamos discutir.
- Tem razão. De rações nada
sabemos. Então o que sugere que façamos?
- Primeiro partimos do princípio
que eu não sou tão estúpido assim! Fundamental. Neste caso vamos discutir entre
nós o que acharmos que mais interesse tem na montagem dum serviço comercial,
desde o zero: instruções a vendedores e inspetores de vendas, pesquisa de
mercado, objetivos, estatísticas, etc. Depois então manda-se esse plano de estudos
para Lisboa que eles vão ficar muito contentes, mesmo sem o lerem!
E
assim foi. O primeiro dia foi passado com o “cardápio” na mão a escolher temas,
definir horários, porque para cada tema teria um professor especializado e era
necessário encaixar a disponibilidade deles com o meu programa.
Correu
muito bem. Dois meses e meio de muito estudo. Creio que mandaram dizer que eu
não era aquele cretino, porque ao regressar a Angola, fui criar o tal serviço
de vendas, relações públicas, etc.
Como
eram “rápidos” no gatilho aqueles meus administradores! As cervejas davam
muito, muito dinheiro; preocuparem-se para que?
19/10/2017




