quinta-feira, 20 de julho de 2017



Vamos deixar as praias de Moçambique por um pouco. Assim quem as quiser aproveitar ficará mais tranquilo. Entretanto vão tomando umas e outras!


Vinho! Aaahhh! O Vinho!

Estou a imaginar Baco a deliciar-se com os vinhos de antão, bebidos por uma cornucópia, e não por aquelas taças com que o representaram, rodeado de afrodites, lindas, todos de carne e osso e não de mármores muito bem trabalhados, mas duros e frios como a morte!




Imaginem a Afrodite e Baco assim, para beber uns copos!

Mais perto do nosso tempo, de hoje, há pouco mais de vinte anos, andava eu lá pelo norte de Portugal, no Gerês, planejando um trabalho florestal a ser feito no Parque Nacional, e tive o privilégio de conhecer um chefe dos guardas florestais, já aposentado, homem de quem fiquei amigo e de quem recordo com saudade, o senhor Machado.
Quando o conheci insistia em tratar-me por sr. engenheiro e eu quase me zanguei com ele para o convencer que o meu nome, desde que nascera, era Francisco. Ou ele me tratava assim ou eu o chamava por sr. Chefe! Humilde, relutante, acabou por me tratar por sr. Francisco e eu a ele por sr. Machado.
O que têm a ver Baco e o senhor Machado? Imagino que Baco bebia do bom e do melhor que havia nesse tempo no Olimpo, na Hélade e na Frígia – até dizem que foi ele que o inventou! – e o vinho que o meu amigo Machado produzia, das suas pequenas courelas lá no Minho, vinho verde tinto, teria convencido Baco a naturalizar-se... minhoto!
Uma das melhores delícias de vinho que já bebi, e olhem que, com a idade que conto, já devo ter ingerido, quem sabe?, talvez 8 a10 pipas de 550 litros cada... fora a cerveja, e outros álcoois! (Comecei a beber regularmente às refeições teria uns 14/15 anos, o que significa que comecei há 26.000 dias! É conveniente acrescentar que não sou um bêbedo, e que não me lembro de alguma vez ter apanhado uma bebedeira das... sérias!)
Voltemos ao vinho. O de Baco seria certamente só uva espremida e fermentada. Assim era o do meu amigo do Gerês. Uva e somente uva.
Há uns 45 anos trabalhava eu em Moçambique, na ex-Lourenço Marques, cervejas Mac-Mahon – 2M – apareceu-me um homem que queria abrir um restaurante, tinha começado já a obra num prédio, mas entretanto, acabara-se lhe o capital. Veio pedir um financiamento! Levou-me para ver a obra, o que faltava, quanto necessitava, etc., e disse-me que fazia o melhor bacalhau do planeta!
Para avaliar a situação, e como o banco BCCI era o “dono” da fábrica de cervejas, combinei ir lá almoçar com dois colegas do banco, ver se o tal bacalhau correspondia aos incómios do descapitalizado “restaurador” e, por sequência se valia o investimento!
Confirmou-se, por unanimidade, quase por aclamação, a qualidade do bacalhau que permitiu passarmos a discutir como arranjar o dinheiro necessário para terminar a obra. Não foi difícil: eu, que ali representava a 2-M, garanti o pagamento e o banco emprestou a grana. Alta!
Mas algo me intrigou: o vinho que nos serviu, um tinto “brabo” era muito bom, não tinha qualquer rótulo, e em Moçambique vinho bom, só engarrafado.
- Oh! Sr. Pereira (o meu amigo senhor Pereira, que depois brilhou em Lisboa – Restaurante Laurentina – e continua a brilhar nas mãos do filho)! Que vinho é este?
O Pereira chamou-me de lado, pediu-me segredo, que eu assegurei, e diz-me, bem baixo, no ouvido, que era ele que fazia o vinho.
- Mas onde arranja as uvas?
- Não leva uva!
- !?!?!?!?
- O meu pai trabalhou muitos anos num dos armazéns de vinhos do Poço do Bispo e aprendeu lá a fazer vinho, de qualquer tipo, sem uvas! Podia ser do Dão, Colares, de qualquer lado, mas sempre sem uvas!
Fiquei espantado. Espantado é pouco, mas a verdade é que o que ele nos deu a beber era uma bela pinga! Sempre tinha ouvido dizer que por aqueles armazéns, à beira-rio, quase se esgotava o Tejo a fazer tanto vinho, mas daí a ter a certeza de que tinha bebido um vinho, muito bom, que não era vinho, foi uma novidade!
- O senhor tem que me ensinar isso.
- Quando estivermos sozinhos eu ensino. É muito fácil.
Nunca mais houve essa ocasião, e eu perdi um profundo conhecimento científico!
Hoje, só em Portugal há centenas de marcas e tipos de vinho, desde os correntes, onde se encontram alguns muito bons (serão com a fórmula do meu amigo?!) até a marcas sofisticadas e caríssimas.
Mas vinho como os de Baco e dos meus amigos Machado e Pereira é difícil.
Os primeiros porque eram pura uva fermentada, e podia beber-se um litro que a digestão se fazia sempre com as ideias claras! O do Pereira era pura química, mas bastante bom. E, disse o “cientista”, saía-lhe bem barato!
Agora, além do anidrido sulfuroso que se injeta no topo da garrafa acabada de encher, o que sempre se fez para evitar a oxidação do vinho, a mistureba de produtos químicos que se junta às uvas é impressionante.
Dantes, e não há muito tempo, a Lei proibia juntar ao vinho, às uvas fermentadas, o que quer que fosse. Vinho era uva espremida e fermentada e nada mais.
Depois a amorosa União Europeia quis que Portugal adicionasse açúcar de beterraba ao mosto, e mais um pouco de água, com o que obteria mais vinho e eles venderiam assim o açúcar encalhado lá nos frios nortes da sobredita união. Portugal bateu o pé, falou grosso, disse que jamais faria tal coisa, a lei portuguesa era clara, etc., e os alemães e holandeses meteram a beterraba no...
Veio a modernidade, e a esculhambação!
Quando a gente pensa que está e beber o puro vinho, sem aditivos, aquele tipo Baco ou Machado, descobre que alguns juntam ao mosto um monte de tranqueira, como por exemplo:
- Estabilizante: ácido metatartárico, INS 353; quando adicionado este ácido, o vinho deverá ser previamente hidrolisado, pois induz uma precipitação incompleta de racemato de cálcio!  Entendeu? Não? Não tem importância.
- Acidulante: ácido cítrico, normalmente proveniente do melaço da cana de açúcar. Não, não espremem o limãozinho. É na química. É o ácido 2-hidroxi-1,2,3-propanotricarboxílico
- Anti-oxidante: ácido L-ascórbico, a vitamina C, que se costuma tomar para evitar a gripe!
- Espessante: goma arábica, E 414, é uma resina natural composta por polissacarídeos e glicoproteinas que é extraída de duas espécies de acácia da região subsaariana, principalmente da Acacia senegal e da Acacia seyal. INS 353 e E 414, usados simultaneamente impede as precipitações combinadas de tartaratos e matéria corante. Deu para entender? Não? Paciência.
A Goma arábica é usada como espessante e estabilizante para vários alimentos, na manufactura de colas e como espessante de tintas de escrever. Quando eu era moleque fazia uma mistura com álcool e água e ficava o dia todo penteadinho, lindão... com a cabeça durinha! Muito usada em espumantes, mesmo os que custam os olhos da cara, para espessando o vinho, segurar as bolhas que se desprendem mais lentamente e... o copo fica mais bonito! E, curioso, um dos grandes produtores de goma arábica seria o Bin Laden!!! A vender para os granfinos! Boa piada. Mas o Sudão do bonzinho Al-Bashir é o maior. (Ah! Em doses um pouco mais elevadas pode ser letal!)
E você que me lê pensava que tem andado a beber pinga da boa? Está enganado!
Primeiro veja bem o rótulo. A maioria só diz que tem sulfitos, porque sem eles o vinho viraria vinagre em dois dias. Uns, mais temerários, lá escrevem que misturaram INS 330, INS 300, INS 220, INS 200, esquecem o INS 353 e o E 414, etc., mas... tudo numa boa.
Face a estes cocktails que transformam o vinho em um quase derivante do petróleo – plástico – você só tem um caminho: começar a beber vinhos de preços acima de € 500, (só a meia garrafa) mas... assegurando-se previamente que a uva estava limpinha.
Ou então procurar antigos funcionários dos armazéns do Poço do Bispo e beber aquilo que temos a certeza de que leva tudo menos a maravilhosa uva!
Que saudades dos meus amigos Machado e Pereira. Um fazia vinho puro e ótimo, o outro um vinho ótimo e... secreto!
O problema mais grave de tudo isto é: “E agora, o que é que eu vou beber?”

19/07/2017


segunda-feira, 17 de julho de 2017


CAMINHOS do SOL - 4
por
Jorge Ferrão

Lamento ter que informar que são as últimas crónicas sobre as praias de Moçambique. Sobre algumas, algumas só, das paradisíacas praias de Moçambique. Tem muitas mais (praias). Já nos textos anteriores vos dizia que há que ir lá vivê-las. Muito melhor do que ir para o Caribe, Indonésia, ou outros lugares “da moda” . Além das praias vão encontrar um povo que vos acolhe de braços e alma abertos.
E quem não quer isso?

Península do Baixo Pinda


A mudança de estação convida a baleia corcunda (Megaptera novaeangliae) para o litoral moçambicano. Mães e crias buscam alimento e águas mais quentes para procriarem. Estes descomunais mamíferos e seus filhotes oferecem de presente, interessados e ocasionais, verdadeiros festivais de acrobacia que só a Mãe natureza poderia propiciar. Um cenário repetido ao longo de séculos e testemunhado por gerações litorâneas, inteiras, que acreditam que a vida iniciou no mar.
O faroleiro do Baixo Pinda, hoje mais descolorido que nunca, tem um assento privilegiado para assistir ao show. Seus olhos se confundem com binóculos e sua sabedoria com compêndios. Seu farol descontinuado pela globalização, se confunde com o único símbolo do desenvolvimento na região.
Baixo Pinda e outras baias vizinhas, incluindo Memba, são os locais predilectos. Vale a pena, em horário vespertino, quando o silêncio vira dono de si próprio, escutar os sons do repuxo de água libertados pela respiração destes gigantes. Nos intervalos entre um mergulho e, uma nova subida à superfície, a baforada provoca sons combinados que nenhuma sinfonia, nem timbila ou piano ousara, alguma vez, reproduzir. Toda a grandeza do maior animal do planeta transformado em música de outras escalas e solfejos.
O mais interessante, ainda, são saltos acrobáticos e as batidas das barbatanas. Apesar de parecer muito descomunal, as batidas das barbatanas são herméticas e compassadas. Parecem sinalizar sua presença e alertar ao mundo sobre sua graciosidade e ao descaso a que estão sujeitas. São os movimentos e ruídos que orientam as crias para que não se afastem demasiado de suas progenitoras. Cada cria conhece, melhor que ninguém, o som produzido pela barbatana de sua Mãe, e não os confunde nunca e em nenhuma situação. Tudo isto faz parte do festival.
Por vezes até parece que estes movimentos são, igualmente, interpretados pelo farol e faroleiro. Eles geram, imponentes, a vida e os acordes de Baixo Pinda. O faroleiro deve ser das profissões cuja genética e desfecho já vêem prescritos à nascença. Das poucas profissões no mundo em que os filhos sucedem seus pais.
Em Baixo Pinda, filho e pai falam com saudade dos múltiplos auxílios a naus, caravelas e marinheiros, pequenos barcos a remos e seus pescadores, mergulhadores e piratas. Não se queixam nunca do mundo e das ondas que apenas beijam suas areias. Do palco privilegiado, quase dão nomes às baleias que julgam ter conhecido no passado. Ninguém no mundo descreve melhor esta festa que só os privilegiados podem desfrutar.
A Península do Baixo Pinda, no distrito de Memba, norte de Nacala, não perdeu sua originalidade. Outrora Mopa Ekoma, ou tocador de batuque, a região continua habitada por pescadores e suas famílias. Pescam de tudo e todo ano. Para fazer jus ao nome original, estes pescadores e seus familiares adoram música e passam noites a fio tocando quer instrumentos musicais tradicionais, como aparelhagens mais modernas de ensurdecer qualquer ouvido de elefante.

Haverá quem não fique com inveja de não estar no Baixo do Pinda?

Baixo Pinda distingue-se, também, por ser a Península dos Embondeiros (Adonsonia digitata).
Existem algumas centenas, senão milhares destes exemplares. Na realidade, todas as árvores do ecossistema agigantam-se, crescem, como se quisessem converter-se, elas próprias, em faróis. Não admira, pois, que os pescadores façam dos troncos, seus barcos de sobrevivência. A beleza do local, para além do recorte geográfico, de fazer inveja a qualquer outro bioma, se distingue ainda pela diferença de cores entre as praias, a região coralina e o alto mar. Os fotógrafos trocam de lentes e ângulos para descobrir o para do infinito.
Existe um conjunto de pontas tais como a Fica, Nagata, Macuvi e a Nuarro. Cada uma delas, verdadeira dádiva de Deus. Só a Ponta Nuarro tem infra-estrutura para albergar turistas. As restantes continuam virgens. Aguardam por investimentos socialmente responsáveis. As vias de acesso são problemáticas. Estradas de terra batida e, regra geral, pouco condicionadas. Assim, Baixo Pinda permanece serena para os locais, e desafiadora para os banhistas e aventureiros.
Valerá a pena, dizem os locais, subir o Farol e desfrutar do espectáculo das baleias e até do Atum. Quando estes decidem aproximar-se da costa, por alguma razão em cardumes numerosos, a água borbulha. Tudo se transforma em  caldeirão  em  efervescência. As raridades que poucos olhos terão o privilégio de desfrutar. Bem de cima do Farol consegue-se ver o mundo, como se Baixo Pinda não fizesse parte do planeta. (X)


Os Bidões das praias do  Chinde


No Chinde, onde um dos bros do delta do Zambeze beija as ondas do Índico, ainda se contam relatos dramáticos de tragédia social. No limiar dos anos 70 Portugal vivia contradições decorrentes do avanço da luta de libertação nacional. Guerrilheiros intensificavam a frente de Manica-Sofala cruzando o rio Zambeze. Na região de Mutmane, terras dos “Chindus”, chefiados pelo chefe “Chinde”, contava-se que um cargueiro zarpando às pressas do Porto do Chinde, com bidões de álcool a bordo, encalhara. Os pescadores artesanais foram intimados a desembarcar a mercadoria. Só assim, o navio reflutuaria. Foram dias de azáfama e desespero. Canoas, bidões e pescadores se confundiam com o próprio mar.
O álcool, misterioso, seguia em direcção a África do Sul. Os propósitos eram, na altura, desconhecidos. A mercadoria chegou no cargueiro pela lancha-canhoeira “Chire” após ter sido descarregado no porto de São Tomé, em Marromeu. No porto do Chinde foi transbordado para aquele navio cujo nome o mar silenciou.
Desencalhado, o navio, ainda, ensaiou nova caminhada. Fez uns movimentos agonizantes e se afundou. A carga, baldeada para a praia de kumangue, ali permaneceu ao longo de semanas. Com a administração militar e civil despreocupada, a carga foi desaparecendo por debaixo dos palmares.
Naquelas noites de luar, os larápios desenhavam sombras que se confundiam com espíritos. Eram baldes de todos tamanhos que alimentariam outras cobiças. Chinde festejava na calada da noite. Noites que já não eram tão silenciosas. A “sura das palmeiras” e a “cabanga” tradicional de mexoeira haviam sido substituídas. As mulheres nas suas capulanas amarradas por “nhecas” e blusas, acompanhavam, também, seus maridos na festança diabólica do raiar ao pôr do Sol. Não tardaram as primeiras vítimas.
As vítimas, eram indígenas negros. Depois, pereceu um mecânico mulato portuário. Não tardou que tivesse morrido um colono. Pianista branco e único na vila. Ele sim, mexeu com a serenidade da administração. Chinde perdia o ritmo e compasso nas celebrações. A vila descoloriu. Num ápice se converteu em enfermaria anexa ao cemitério.
As suspeitas ganharam corpo. Era álcool metílico. Destino era Africa do Sul do Apartheid. Retornaria a Moçambique confeccionada, como bebida barata, para ser distribuída em regiões contíguas as da luta armada. Era o tudo por tudo da “psicossocial”. As novas e subtis formas de destruturar processo de libertação.
O encalhe do navio frustrou as intenções da inteligência militar.  Ainda assim, o álcool metílico, por conta e risco, espalhou-se pelo vale do Zambeze. Milhares de bidões seguiram, na contracorrente, até Tete. Comerciantes, sem escrúpulos, enriqueceram. Este argumento ajudou a explicar tamanha cegueira no vale do Zambeze. A este álcool metílico se associava a aguardente de maçanica (maça da Índia).
Eventualmente, a aguardente de maçanica possui certo teor de álcool metílico, quando fermentada. Certas frutas são susceptíveis a esta reacção química. Em Portugal existe um tipo de uva que só pode ser consumida como fruta e não como vinho pois, quando fermentada, ela reproduz álcool metílico.
O etanol bem como o metanol encontram-se no álcool. Ingeridos são transformados no fígado pela enzima álcool desidrogenase. Porém, os metabolitos subsequentes do etanol são convertidos em água e dióxido de carbono. Portanto, não tóxicos. Com os metabolitos do metanol essa degradação não ocorre na sua plenitude. Consequentemente, uma percentagem não degradada se transforma em substancia tóxica. A ingestão do metanol ou álcool metílico, ainda que em quantidades reduzidas, pode causar danos, devido a toxicidade, à retina e nervo óptico. Também pode matar.
Existe percepção generalizada de que o vale do Zambeze se confronta com casos anormais de cegueira. Os estudos precisam de confirmar estas percepções. A toxidade da maçanica. Só assim, se explicariam as patologias oculares suas origens e causas. Chinde das terras húmidas, de pôr-do-sol paradisíaco sobre as palhotas de macuti, não exportará mais bidões de álcool metílico. Esta terra abençoada e as suas gentes continuarão acolhendo com doçura os ventos da mudança. (X)


As varandas de Crusse e  Jamali


As conchas das praias de areia branca e água azul-turquesa, de Crusse e Jamali, encerram lendas inconfessáveis. As revelações só são feitas aos predestinados. Privilegiados. Aqueles cujos ouvidos sabem ver e esconder. Dispostas em forma de rosário, Crusse e Jamali são ilhas de origem coralina, muito pequena dimensão, inacreditavelmente atractivas e exímias guardiãs da multiplicidade e das complexas interpenetrações seculares de culturas, tradições, sonhos, ventos, mares e povos.

E vejam o que por ali se encontra! E muito mais...

Inabitadas, desde sempre, só por não disporem de água doce, conservam, ainda, uma parte da sua floresta tropical costeira. Olhando para os seus mangais, enquanto preparam os remos para destinos incertos, os pescadores jamais cruzam os olhares com os interlocutores. Falam, seguindo os ritmos das ondas, do que ainda parece ser permitido fazer. No rol das regras, nunca dormir na ilha. Depois da faina, não contabilizar, aritmeticamente, o produto da pesca. No final da faina, ninguém deverá contabilizar o produto pescado. Basta dizer que teve uma boa safra, ou uma colheita mais ou menos.
Estas ilhas de raríssima beleza encantaram e fascinam seus visitantes. Serviram de refúgio de poetas que as transformaram em varandas, para contemplar Muipithi. Sem qualquer referência arquitectónica, exceptuando o manancial natural, Crusse e Jamali viraram as costas ao profundo canal de Moçambique. Preferiram continuar com suas costas rasas em períodos de mares vazantes, propiciando as longas caminhadas sobre o leito do Índico. Assobiam para o lado durante os períodos de mare cheia. Ignoram os ventos sul destapando as conchas, onde escondem as vontades dos espíritos Namuenke e Hanassi.
Demoníaco e de caracter mórbido Namuenke domina os mares. Hanassi reina nos corais escuros e petrificados. Ambos fingem guarnecer os coqueiros e as casuarinas da península de Napenja. Já não controlam a floresta de micrusse, de Matibane e nem as areias brancas de suas praias.
As florestas de micrusse, eventualmente a madeira da mais resistente que Moçambique possui, já dominaram o literal desta região. Hoje a floresta esta definhando e moribunda. Não escapa a fúria dos predadores. A floresta de micrusse serviu para construir a primeira capital de Moçambique. Banianes, logo seguidos por persas, portugueses e holandeses, edificaram a exuberante arquitectura da Ilha de Moçambique com a madeira micrusse. Não admira, por conseguinte, que todos os telhados das habitações existentes, quer na cidade de Macuti, como da Pedra, ostentem micrusse como brasão. As vigas de micrusse registam, silenciosas, sonhos dos insulares e seus visitantes, os morcegos que aumentam, e os esconderijos dos mosquitos portadores de malária.

Um dia Crusse e Jamali se descaracterizarão. Os apetites de quem sobrevive vendendo a natureza não tardarão a corporizar. Virará paraíso de mergulhadores e exploradores de corais. Baluarte dos coleccionadores de peixes ornamentais e santuário de vendedores de estrelas e constelações. Os espíritos serão empurrados por outros ventos e mares. Crusse e Jamali serão o maior cartão-de-visita do potencial turístico e das ilhas primárias cujas varandas não desfrutamos!  

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Caminhos do Sol - 3
Por Jorge Ferrão


Vamos continuar a visitar mais umas praias de Moçambique... e a ficar cheios de inveja por lá não podermos estar! Mas não é difícil! É só programar para as próximas férias!


A Praia do Mia

No começo era apenas a praia da Cabaceira Pequena. Os residentes locais, pouco propensos a nomenclaturas, sempre a trataram-na apenas como Mangal. Na realidade, este é um dos mais bem preservados mangais de Mossuril. Em 2001, muito por culpa de um fotógrafo Holandês, a praia do Mangal foi transportada para o mundo. Depois, reconvertida em projecto, ganhou nova denominação. Passou a praia do Mia. Mia Couto. Duvido que ele saiba. Ou se alguma vez saberá. Nem acredito que ele se importe, desde que a praia continue sendo respeitada, preservada e usada para o bem-estar e benefício de todos.
Foi, então, o dito cujo holandês de câmara a tiracolo quem decidiu, ainda no longínquo 2001, idealizar um projecto turístico para Cabaceira Pequena. Do livro, Árvore do Frangipani, do escritor Mia Couto, extraiu um trecho que reflectia a Cabaceira nos dias que navegam. “... Aqui é onde a terra se deita, onde o tempo se despe e onde os Deus vêem rezar”. Melhor descrição não poderia ter sido feita. O letreiro tem alguns erros ortográficos, mas disso ninguém se importa. Não existe transeunte nenhum que não pare para correr suas vistas pelas letras, agora perdendo seu brilho. Assim, sem mais e nem porque, o local virou praia do Mia. Pura criatividade de banhistas.
A sentença ditada pelo escritor sobre a Cabaceira Pequena já antes havia sido feita pela própria natureza, passam-se 300 anos. A Cabaceira Pequena é um lugarejo discreto, mas sinistro. Acordou, um dia, às escuras e assim permaneceu durante décadas. Depois da partida do Governador Pereira do Lago, antigo Governador-geral da Ilha Moçambique e, consequentemente, de Moçambique, a terra se deitou irremediavelmente. As monções mais não fazem que aprimorar esse sono. Se a ausência de qualquer progresso tem sido espantosa, pior tem sido a nudez que tomou conta das vergonhas e das intimidades das suas gentes e da própria natureza. O local anda tão esfarrapado, que os Deuses se recusam a qualquer que seja a reza. O único que ainda cruza os dedos é o supremo do Mangal. Os corais, esses afastaram-se tanto do mar, e viraram museus. Cabaceira Pequena pode ser o único lugar do planeta onde o gigante mar se assustou e regrediu.
Cabaceira foi terra predilecta de Vasco da Gama. Árabes, Persas, Chineses e Turcos. O poço de água doce que alimentou caravelas e naus, permanece intacto, porém a maior parte do ano sem os líquidos condignos. Outrora, quartéis do Capitão Rufino, as últimas referências assentam nas famílias Matiria Machon e Long Fat e ainda do português Massa. Agora, nem as sombras dessa elite se deitam mais no local. Os esqueletos dessas sombras sim, vagueiam desafiando as contrariedades do fotógrafo holandês, que com mestria fez de suas fotografias vida. Os investidores criaram a empresa Frangipani Limitada. Foi um italiano que deu o seu nome a árvore. Mossuril é um paraíso de frangipanis. Para complementar a obra, a empresa Frangipani designou o projecto por Varanda. Não é tão evidente que seja Varanda do Frangipani. Mas, é Varanda. Para ousar e inovar a Varanda gerou o Coral Lodge.
Coral Lodge 15.41, é um conjunto de 10 bangalós muito expostos, aos ventos e almas, mas preserva excessivas privacidades para os humanos. Os quartos, ou quartos-salas são de tal maneira amplos que dispensam ares frios artificiais. Somente as camas escondem os ares que a natureza nem sempre nos oferece. Bem por cima de cada cama, tem um ar condicionado. Parece, de forma acertada, uma medida de austeridade, em momentos de contenção, e que se alinham perfeitamente com os cuidados ambientais.
Coral Lodge é, também, o nome de uma instância turística no Panamá, que não tem nada a ver com o Coral Lodge 15.41 que são as coordenadas para chegar ao local. O acesso pode ser feito por Nampula, Lumbo, Pemba ou Nacala. Duas horas a partir do aeroporto de Nampula e ¾ de horas de outros pontos. No começo eram cerca de 50 trabalhadores locais os que, com bravura, aceitaram o desafio de construir algo na ponta mais estreita da Cabaceira. Misto de material local e convencional. Hoje o número de funcionários reduziu para 40. No grupo, alguns holandeses, incluindo o chefe da Cozinha.
Uma vez no local o que mais chama a atenção, depois do letreiro do Mia, seria até o Mangal. Mas, os tons azuis, e azul-marinho das águas, em momentos de maré cheia, deslumbram. No interior do Coral Lodge 15.41 os móveis de madeira de coqueiro, fazem inveja a quem vive importando madeiras de outras árvores ou países. Nunca essa madeira foi tão valorizada. Agora tenho o coqueiro como amigo e aliado. Para reforçar e ressalvar o brilho e o requinte desta soberba madeira, o lodge decidiu por lâmpadas de LED, todas elas com apenas 1 volt. Assim, foi decretado um inconformado romantismo de luzes. Engana-se quem julgar que os livros do Mia estariam espalhados por todas as suites. Só existe um único livro. O livro já desapareceu algumas vezes, mas por algum milagre retorna ao SPA. Aliás, o SPA também vale mesmo a pena. Faltaria incorporar mussiros, argilas (nhtope) e as algas da Ilha. Teríamos, então, um SPA mussurilizado e internacional. Melhor, mesmo, seria ir passar a temporada, usar o SPA e assegurar que leva consigo o livro ou os livros do pseudo proprietário da praia.
Virou moda os turistas doarem uma gorjeta para um Fundo comunitário. Coral Lodge 15.41 assimilou a moda. São apenas 2 dólares. Ideal deveria ser 15 e 41 para fazer jus ao nome. Como faria bem que existisse algo regulamentando para estas doações. Os comunitários da Cabaceira ainda pensam como usar o fundo. Os proprietários do Lodge querem ter os detalhes do que será feito com a massa. A letargia dos residentes vai perdendo as rotinas. Visitas guiadas atrapalham os continuados repousos. Busca-se um entendimento sobre a história de um povo que vive de história e de passados. Os diálogos mais parecem monólogos. A mímica resolve, no final.
Coral Lodge 15.41 é a mais recente novidade das praias de Nampula. Já recebeu turistas da Europa, Ásia e dos EUA. Por ser de 5 estrelas, os pacotes oferecidos, vão de encontro às constelações financeiras. Porém, para além da variedade de produtos turísticos, os visitantes podem desfrutar de um regado velejar pela Ilha de Moçambique, de uma abundante fauna marinha e ainda mergulhar nos últimos corais que resistem ao tempo e as mudanças climáticas.


O Misterioso Lago Ntandazimu


Ntandazimu, é como os locais o designam. Um pequeno e estranho lago no interior da Ilha Vamizi. Por ser de água salgada, quase não é visitado. Apenas para um ritual anual. Não se sabe se os espíritos ajudam na pescaria, mas os poucos ilhéus, sobretudo os mais jovens, desconfiam de tanto mistério. O lago tem aproximadamente 10 metros de diâmetro, águas límpidas, de cor verde turquesa e, em dias de sol intenso, as águas se confundem com um grande lençol estendido por baixo da vegetação. Em tempo, nem por isso tão remoto, um caçador disparou sobre um conjunto de rolas, numa árvore próxima do lago. Era final de tarde e ele desesperava por alguma presa que fosse. Depois do tiro, uma das rolas resvalou e, enquanto ajustava os últimos equilíbrios, caiu no interior do lago. Ali ficou prostrada e sem indícios de que fosse afundar.
O caçador seguiu com os olhos seu percurso e, sem muito esforço, deu conta que a presa estava bem próxima. Esfregou suas mãos de contente. Antes que a rola desaparecesse nas profundezas do lago, decidiu despir-se e buscar seu troféu. Assim que mergulhou, de cabeça, sentiu que embatera em algo inexplicável. Tentou, enfim, nadar e parecia que a água lhe amarrava os braços. Atordoado, suspendeu os movimentos e deu conta que flutuava sem esforço, bem próximo da sua presa. Valeu-lhe o grupo de pescadores que, alertados pelo estrondo, foram seguindo a cena a par e passo. Aproximaram-se e esticaram-lhe um caule de outras funções. Trazido de volta a terra firme, o caçador sentiu sua pele cozida. Continua vivo, em Mocímboa da Praia, porém debilitado e sem munições. Nunca mais caçou.
Outros episódios sucederam-se no lago Ntandazimu. Regra geral, qualquer criatura que por descuido ou infelicidade caí no lago nunca afunda. É a maldição dos espíritos. Cada um dos episódios é narrado em diferentes sabores e tons. O lago Ntandazimu não possui nenhuma espécie de vida. Não existem peixes, nem algas ou outras plantas aquáticas. A explicação para tamanha raridade advém dos altos níveis de salinidade da água. O lago fica a sensivelmente mil e quinhentos metros do mar, porém bem abaixo do nível do mar. Esta localização confere características típicas de outros mares interiores, com iguais ou superiores níveis de salinidade. Os estudos provam que para cada 100 mililitros de água salgada, nos oceanos e mares normais, existem cerca de 3 gramas de sal. Todavia, nas águas interiores e sem misturas, para a mesma proporção de água, chega-se a registar mais de 30 gramas de sal, quer dizer, dez vezes mais que o normal. A elevada salinidade explica-se pela evaporação natural e pelo facto de quase nenhuma água doce fluir para aquele lago.
Da última vez que espreitei o lago Ntandazimu conversei demoradamente com o ancião que simultaneamente faz papel de guarda e porta-voz entre os espíritos e os visitantes. Ansiava por novos episódios, mas ele não tem mais nada para contar. Agora, fá-lo a troco de desembolsos. Recordou-me que as visitas ao lago continuavam proibidas. Ainda assim, visitantes interessados - meu caso - se sujeitavam às taxas de conveniência. Quanto maior o interesse pelo lago, mais caro o acesso. Afinal, aquele era seu trabalho e os pouquíssimos residentes locais haviam a ele confiado, essa dificílima tarefa.
Estudos oceanográficos sugerem que lagos e mares interiores possuem, em suas águas, não apenas cloreto de sódio, como também magnésio, potássio, cálcio e brometo. Esta combinação se mantém intacta por força da ausência de movimentos da água. Mergulhar é praticamente impossível. Nadar exige técnica apropriada. O ideal é flutuar. Até quem jamais nadou, pode flutuar que nem uma rolha. O mar morto, é disso um exemplo; e aos visitantes, é expressamente recomendado, que observem cuidados extra especiais para nadar. Os banhistas devem, invariavelmente, entrar para a água de costas, não molhar nunca a cabeça e permanecer calmos. Mais interessante ainda é o facto de estes lagos possuírem efeitos curativos excepcionais.
O Lodge de Vamizi, agora galardoado como um dos melhores do continente africano e do mundo na sua categoria, deveria explorar, sempre com o seu guarda, os valores terapêuticos do Ntandazimu. A climoterapia, que combina banhos em águas salgadas (talassoterapia) com os banhos de sol (helioterapia), seria um complemento na diversificação da oferta e actividades recreativas. Um SPA para lá de natural. Todos, mesmo todos, sairiam a ganhar. O turismo nacional ficaria reconhecido pela descoberta. Só peço que seja explicado ao guarda a razão de tanto mistério.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Caminhos do Sol - 2
Por Jorge Ferrão

Moçambique visto por dentro


PRAIAS

 São os olhos da sensibilidade
Que no suspiro da incredulidade
Experimentam a prodigalidade
Da cor, do cheiro, sem idade Da magia da misticidade
Que fazem destas praias tropicalíssimas
A maravilha última antes da entrada para o paraíso


 As praias de Maputo

As praias de Maputo servem de espelhos desfocados das águas de nossas veias. Separam a periferia do centro. A periferia que procura o centro para se refrescar. O centro que procura a calada da noite na praia para repensar esquemas.  Namorar? Encantar as damas. Passear os sonhos na brisa. Os quebraventos que servem de estrado param os casamentos. Recordações, magias e divindades. O Espírito Santo feito bênção.
Quando a Mãe Natureza se rebela, as praias de Maputo transformam-se em avenidas. Banham os olhos de quem não acredita. Um novo click para que se contemple o cheiro da cevada e do lúpulo fermentados em Laurentina e 2M. O som forte de uma marrabenta-funk-hip-pop que prolonga a noitada. Madrugada esticada. O pescador de músculos tensos que contempla a vida, e a cidade envaidece o seu suor.
Acho a fotografia, apenas a descrição de uma vida. Vidas abertas. A vida e emoção. A descoberta do espaço e do pedaço. Por estas fotos e tantas outras, enxergamos o vento que fustiga a serenidade.
Massas de ar que derrubam esperanças. Revemos uma estrada que brevemente jamais será. Os muros de protecção no último suspiro. Um hotel de quatro ou mais estações, agora desprovido de todas. Por estas fotografias, descobrimos que as atitudes e o descanso fizeram das praias caldo. Sopa com óleos e pedaços de carne. Caldo de vegetais temperado pelo sol.
A fotografia tem sempre duas caras. Uma visível. Outra oculta. Diz tudo o que quer.  Não diz nada quando entende não dizer. Deixa seus cantos sem vírgulas para os que querem entender. Mas a fotografia é também o tempo. Esperança de um dia melhor. Foto é sempre aquilo que cada um de nós quer ser e ver. Imagens das praias de Maputo são tudo isso e algo mais. Tanto faz que nos humedeçam de nostalgia ou prazer. Nelas (re)descobrimos as saudades, os tempos e o melhor que esta cidade oferece.


O outro lado do horizonte
 
Começo pelo fim, impelido entre o zero e o infinito. Roubo atitudes infantis folheando livros. Como se o prazer morasse no desfecho da obra. Ao longo de anos visito diferentes ecossistemas. Faço-o de forma compulsiva. Vasculho a diversidade e os tesouros mais raros. As indiscritíveis verdades. O que de melhor a natureza reserva de si própria. Faço-o, em épocas especiais, algumas vezes, noutras, por mera obra do acaso. No final de cada visita uma nova lição, sensação, ou a confirmação do que já era real. Ninguém, jamais, conhecera a natureza na sua essência. Seremos eternos aprendizes.
O acaso me empurrou para as catorze pontas, ou cabos, da costa mais a sul de Moçambique. Os recortes com os quais a natureza decidiu beijar o Índico, romance espreitado por todas as noites de luar. Os prolongamentos do continente pelo oceano que reconfigura   a melodia das águas e os sonhos dos humanos. Estes lugares que apenas convivem com ventos indomesticados e espumas tenebrosas.  Os nomes destas pontas, são via de regra, originais e guardam segredos de lideranças desaparecidas e espíritos de outros universos. Malongane, Maderjanine, Membane, Mucombolo, Milibangalala. Chemucane e Dobela. Todas prenhes de inconfessáveis memórias.
Algumas não resistiram à força da invasão ocidental. Nem por isso perderam a postura, porém testemunharam seus espíritos sumirem com o tempo. Já não fazem caricias ao mar e nem o mar lhes promete em casamento. Abril, Gomene, Torres, Techobanine e a grande Ponta do Ouro, já castigada pela industrialização selvagem.
A essência e traços comuns e tudo o que Deus lhes ofereceu ainda pode ser vivenciado. Dunas fixas e areias fartas. Dunas que se confundem com cabeças cabeludas de vegetação rasteira ou de arbustos com Micaias (Faidherbia albida) que não perdem, nunca, sua graciosidade. As dunas vivem escondidas como se tivessem vergonha de contemplar os encantos e espectáculos do continente e   oceano. Talvez sejam as vergonhas da disvirgindade que o tempo lhas retirou.
Os reis destes paraísos são os caranguejos. Esse bichinho que enche de paladar às almas dos apreciadores, mas que  nos tipifica pelas suas características. Parecemos mesmo caranguejos. Reis sem coroas. Vivemos caminhando para trás e escrevemos progresso no sentido de retrocesso.
Impedimos os futuros. Nestas areias os caranguejos dispensam ciúmes e invejas. Maldades.
Respeitam os espaços vitais e assim, asseguram a continuidade da espécie. Quem, nem sempre os respeita, são mesmo as águias pesqueiras (Haliaeetus vociferous). As pescadoras, faz tempo, deixaram de esperar pelos restos de peixes jogados à costa. Fizeram do rei o seu prato predilecto. Estes lugares são os melhores do mundo para testemunhar como a águia pesqueira devora o caranguejo, em pleno voo e não deixa cair um único pedaço. O universo parece ser uma mesa sem fim.
As rainhas são as Tartarugas. Reis e Rainhas não acasalam, mas não se desentendem. Ganharam o estatuto pela hegemonia e graciosidade. As cinco espécies que Deus criou, nomeadamente a Cabeçuda (Careta carreta), a Gigante (Dermochelys coriácea), Bico de Falcão ou pente (Eretmochelys imbricara), Tartaruga Verde (Chelonia mudas), e a Tartaruga Olivacea (Lepidochelys olivacea) desovam por estas praias e deixam os oceanos mais encantadores. Indiferentes ao plástico e a lixeira dos humanos, cruzam oceanos e praias vagarosas e preocupadas.
Dificilmente poderão escolher a mais bonita das pontas dos reis e rainhas. Poderemos, a muito custo, eleger os mais conservadores e naturais. A beldade das pontas e seus reis e rainhas duplicam quando se agrega algum valor. Algumas vezes, o valor vem dos humanos. A obra de arte que acrescenta sabor ao que já era primoroso.
Ponta Mamoli reconverteu-se. Ajoelhou-se e, em posição oratória, pediu aos humanos o melhor da sua capacidade tecnológica e artística. Ofereceu-se para servir a humanidade e desvendar seus mistérios. Os homens de boa vontade não se fizeram rogados. Depois do longo namoro, das juras de fidelidade, deitaram-se de costas e contemplando as constelações, meteram mãos à obra. Quando    Deus quer, o Homem sonha e a obra acontece. Bem no coração da floresta, na duna mais consolidada do ecossistema, despontou o White Pearl.
White Pearl não se fez num dia. Nem Pavia e muito menos Roma. Seguiu o percurso da própria duna. Foi meticulosamente estudada ao detalhe. Não tardou que se tivesse transformado no Imperador das pontas. O outro lado do horizonte. A combinação perfeita entre o respeito pela natureza e pela fauna e observatório obrigatório para os humanos. A combinação entre uma construção ecológica e o requinte das estrelas dos resorts.
White Pearl desafiou-se a si própria e a criatividade. O elemento que faltava para complementar os padrões da modernidade e do futuro. Cada planta derrubada foi substituída por cinco novas. Substituição assistida por compostos naturais que fortificam as plantas e reflorescem os espaços pouco preenchidos. A ciência ao serviço das tartarugas e caranguejos. A vegetação circundante fez o resto, não permitiu clareiras e as construções se converteram em novas plantas. Agora, precisam, apenas de ser catalogadas.
Ecossistemas frágeis requerem densidades mínimas. Pouca iluminação, tolerância zero ao som e ruídos de toda a natureza, circulação restrita de veículos nas areias da praia e, sobretudo, respeito pelas épocas reprodutivas. Estes ecossistemas não toleram lixeira, substancias toxicas e muito menos dejectos lançados para as águas cristalinas. White Pearl se tornou rigorosa e exigente. Aceita visitantes comprometidos com a natureza, aqueles cujo laser os persuade a aprender sobre ecologia, a mestiçagem e cultura local.
Mesmo em frente da White Pearl são visíveis recifes de coral. Estes os activos costeiros que absorvem carbono e garantem a saúde da economia dos oceanos. Qualquer visita guiada permite contemplar variadíssimas espécies. Peixe zebra e papagaio. São os que dão as boas vindas. Curiosos vem saudar a tudo e todos. Os recifes de coral transformaram o local no Paraíso do mergulho. Quem nunca mergulhou, não deveria morrer sem experimentar essa sensação.  Já, uma vez ouvi dizer, que Deus deixa no purgatório as almas dos que partem sem antes realizarem um mergulho. Mas, os corais, igualmente, sofrem os efeitos das mudanças climáticas. Quem não os sente? Visitas cuidadas minimizam a integridade dos seus corais.
Vezes sem conta os golfinhos se associaram aos esforços empreendidos para a manutenção dos recifes de coral. Eles acreditam que a sua presença, constante, não deixará que o branqueamento dos recifes aconteça. Os golfinhos acompanham, igualmente, todas as visitas que são efectuadas aos coloridos peixes de todas as dimensões. Competente equipa técnica da White Pearl propícia aos visitantes, sempre em números reduzidos, um mergulho com estas criaturas tão inteligentes como os seres humanos. O convívio se tornou tão habitual que modificou as rotinas da fauna local. Agora se alimentam mais cedo e, depois, no papel de guias turísticos, orientam os mergulhadores para as áreas que não representam riscos.
Ponta Mamoli tem sabido vender o nome e a imagem de Moçambique. White Pearl que completa a generosidade da natureza em nada lhe fica devendo. Estes os exemplos de parceria que o ambiente precisa e o ecossistema agradece.