segunda-feira, 10 de julho de 2017

Caminhos do Sol - 3
Por Jorge Ferrão


Vamos continuar a visitar mais umas praias de Moçambique... e a ficar cheios de inveja por lá não podermos estar! Mas não é difícil! É só programar para as próximas férias!


A Praia do Mia

No começo era apenas a praia da Cabaceira Pequena. Os residentes locais, pouco propensos a nomenclaturas, sempre a trataram-na apenas como Mangal. Na realidade, este é um dos mais bem preservados mangais de Mossuril. Em 2001, muito por culpa de um fotógrafo Holandês, a praia do Mangal foi transportada para o mundo. Depois, reconvertida em projecto, ganhou nova denominação. Passou a praia do Mia. Mia Couto. Duvido que ele saiba. Ou se alguma vez saberá. Nem acredito que ele se importe, desde que a praia continue sendo respeitada, preservada e usada para o bem-estar e benefício de todos.
Foi, então, o dito cujo holandês de câmara a tiracolo quem decidiu, ainda no longínquo 2001, idealizar um projecto turístico para Cabaceira Pequena. Do livro, Árvore do Frangipani, do escritor Mia Couto, extraiu um trecho que reflectia a Cabaceira nos dias que navegam. “... Aqui é onde a terra se deita, onde o tempo se despe e onde os Deus vêem rezar”. Melhor descrição não poderia ter sido feita. O letreiro tem alguns erros ortográficos, mas disso ninguém se importa. Não existe transeunte nenhum que não pare para correr suas vistas pelas letras, agora perdendo seu brilho. Assim, sem mais e nem porque, o local virou praia do Mia. Pura criatividade de banhistas.
A sentença ditada pelo escritor sobre a Cabaceira Pequena já antes havia sido feita pela própria natureza, passam-se 300 anos. A Cabaceira Pequena é um lugarejo discreto, mas sinistro. Acordou, um dia, às escuras e assim permaneceu durante décadas. Depois da partida do Governador Pereira do Lago, antigo Governador-geral da Ilha Moçambique e, consequentemente, de Moçambique, a terra se deitou irremediavelmente. As monções mais não fazem que aprimorar esse sono. Se a ausência de qualquer progresso tem sido espantosa, pior tem sido a nudez que tomou conta das vergonhas e das intimidades das suas gentes e da própria natureza. O local anda tão esfarrapado, que os Deuses se recusam a qualquer que seja a reza. O único que ainda cruza os dedos é o supremo do Mangal. Os corais, esses afastaram-se tanto do mar, e viraram museus. Cabaceira Pequena pode ser o único lugar do planeta onde o gigante mar se assustou e regrediu.
Cabaceira foi terra predilecta de Vasco da Gama. Árabes, Persas, Chineses e Turcos. O poço de água doce que alimentou caravelas e naus, permanece intacto, porém a maior parte do ano sem os líquidos condignos. Outrora, quartéis do Capitão Rufino, as últimas referências assentam nas famílias Matiria Machon e Long Fat e ainda do português Massa. Agora, nem as sombras dessa elite se deitam mais no local. Os esqueletos dessas sombras sim, vagueiam desafiando as contrariedades do fotógrafo holandês, que com mestria fez de suas fotografias vida. Os investidores criaram a empresa Frangipani Limitada. Foi um italiano que deu o seu nome a árvore. Mossuril é um paraíso de frangipanis. Para complementar a obra, a empresa Frangipani designou o projecto por Varanda. Não é tão evidente que seja Varanda do Frangipani. Mas, é Varanda. Para ousar e inovar a Varanda gerou o Coral Lodge.
Coral Lodge 15.41, é um conjunto de 10 bangalós muito expostos, aos ventos e almas, mas preserva excessivas privacidades para os humanos. Os quartos, ou quartos-salas são de tal maneira amplos que dispensam ares frios artificiais. Somente as camas escondem os ares que a natureza nem sempre nos oferece. Bem por cima de cada cama, tem um ar condicionado. Parece, de forma acertada, uma medida de austeridade, em momentos de contenção, e que se alinham perfeitamente com os cuidados ambientais.
Coral Lodge é, também, o nome de uma instância turística no Panamá, que não tem nada a ver com o Coral Lodge 15.41 que são as coordenadas para chegar ao local. O acesso pode ser feito por Nampula, Lumbo, Pemba ou Nacala. Duas horas a partir do aeroporto de Nampula e ¾ de horas de outros pontos. No começo eram cerca de 50 trabalhadores locais os que, com bravura, aceitaram o desafio de construir algo na ponta mais estreita da Cabaceira. Misto de material local e convencional. Hoje o número de funcionários reduziu para 40. No grupo, alguns holandeses, incluindo o chefe da Cozinha.
Uma vez no local o que mais chama a atenção, depois do letreiro do Mia, seria até o Mangal. Mas, os tons azuis, e azul-marinho das águas, em momentos de maré cheia, deslumbram. No interior do Coral Lodge 15.41 os móveis de madeira de coqueiro, fazem inveja a quem vive importando madeiras de outras árvores ou países. Nunca essa madeira foi tão valorizada. Agora tenho o coqueiro como amigo e aliado. Para reforçar e ressalvar o brilho e o requinte desta soberba madeira, o lodge decidiu por lâmpadas de LED, todas elas com apenas 1 volt. Assim, foi decretado um inconformado romantismo de luzes. Engana-se quem julgar que os livros do Mia estariam espalhados por todas as suites. Só existe um único livro. O livro já desapareceu algumas vezes, mas por algum milagre retorna ao SPA. Aliás, o SPA também vale mesmo a pena. Faltaria incorporar mussiros, argilas (nhtope) e as algas da Ilha. Teríamos, então, um SPA mussurilizado e internacional. Melhor, mesmo, seria ir passar a temporada, usar o SPA e assegurar que leva consigo o livro ou os livros do pseudo proprietário da praia.
Virou moda os turistas doarem uma gorjeta para um Fundo comunitário. Coral Lodge 15.41 assimilou a moda. São apenas 2 dólares. Ideal deveria ser 15 e 41 para fazer jus ao nome. Como faria bem que existisse algo regulamentando para estas doações. Os comunitários da Cabaceira ainda pensam como usar o fundo. Os proprietários do Lodge querem ter os detalhes do que será feito com a massa. A letargia dos residentes vai perdendo as rotinas. Visitas guiadas atrapalham os continuados repousos. Busca-se um entendimento sobre a história de um povo que vive de história e de passados. Os diálogos mais parecem monólogos. A mímica resolve, no final.
Coral Lodge 15.41 é a mais recente novidade das praias de Nampula. Já recebeu turistas da Europa, Ásia e dos EUA. Por ser de 5 estrelas, os pacotes oferecidos, vão de encontro às constelações financeiras. Porém, para além da variedade de produtos turísticos, os visitantes podem desfrutar de um regado velejar pela Ilha de Moçambique, de uma abundante fauna marinha e ainda mergulhar nos últimos corais que resistem ao tempo e as mudanças climáticas.


O Misterioso Lago Ntandazimu


Ntandazimu, é como os locais o designam. Um pequeno e estranho lago no interior da Ilha Vamizi. Por ser de água salgada, quase não é visitado. Apenas para um ritual anual. Não se sabe se os espíritos ajudam na pescaria, mas os poucos ilhéus, sobretudo os mais jovens, desconfiam de tanto mistério. O lago tem aproximadamente 10 metros de diâmetro, águas límpidas, de cor verde turquesa e, em dias de sol intenso, as águas se confundem com um grande lençol estendido por baixo da vegetação. Em tempo, nem por isso tão remoto, um caçador disparou sobre um conjunto de rolas, numa árvore próxima do lago. Era final de tarde e ele desesperava por alguma presa que fosse. Depois do tiro, uma das rolas resvalou e, enquanto ajustava os últimos equilíbrios, caiu no interior do lago. Ali ficou prostrada e sem indícios de que fosse afundar.
O caçador seguiu com os olhos seu percurso e, sem muito esforço, deu conta que a presa estava bem próxima. Esfregou suas mãos de contente. Antes que a rola desaparecesse nas profundezas do lago, decidiu despir-se e buscar seu troféu. Assim que mergulhou, de cabeça, sentiu que embatera em algo inexplicável. Tentou, enfim, nadar e parecia que a água lhe amarrava os braços. Atordoado, suspendeu os movimentos e deu conta que flutuava sem esforço, bem próximo da sua presa. Valeu-lhe o grupo de pescadores que, alertados pelo estrondo, foram seguindo a cena a par e passo. Aproximaram-se e esticaram-lhe um caule de outras funções. Trazido de volta a terra firme, o caçador sentiu sua pele cozida. Continua vivo, em Mocímboa da Praia, porém debilitado e sem munições. Nunca mais caçou.
Outros episódios sucederam-se no lago Ntandazimu. Regra geral, qualquer criatura que por descuido ou infelicidade caí no lago nunca afunda. É a maldição dos espíritos. Cada um dos episódios é narrado em diferentes sabores e tons. O lago Ntandazimu não possui nenhuma espécie de vida. Não existem peixes, nem algas ou outras plantas aquáticas. A explicação para tamanha raridade advém dos altos níveis de salinidade da água. O lago fica a sensivelmente mil e quinhentos metros do mar, porém bem abaixo do nível do mar. Esta localização confere características típicas de outros mares interiores, com iguais ou superiores níveis de salinidade. Os estudos provam que para cada 100 mililitros de água salgada, nos oceanos e mares normais, existem cerca de 3 gramas de sal. Todavia, nas águas interiores e sem misturas, para a mesma proporção de água, chega-se a registar mais de 30 gramas de sal, quer dizer, dez vezes mais que o normal. A elevada salinidade explica-se pela evaporação natural e pelo facto de quase nenhuma água doce fluir para aquele lago.
Da última vez que espreitei o lago Ntandazimu conversei demoradamente com o ancião que simultaneamente faz papel de guarda e porta-voz entre os espíritos e os visitantes. Ansiava por novos episódios, mas ele não tem mais nada para contar. Agora, fá-lo a troco de desembolsos. Recordou-me que as visitas ao lago continuavam proibidas. Ainda assim, visitantes interessados - meu caso - se sujeitavam às taxas de conveniência. Quanto maior o interesse pelo lago, mais caro o acesso. Afinal, aquele era seu trabalho e os pouquíssimos residentes locais haviam a ele confiado, essa dificílima tarefa.
Estudos oceanográficos sugerem que lagos e mares interiores possuem, em suas águas, não apenas cloreto de sódio, como também magnésio, potássio, cálcio e brometo. Esta combinação se mantém intacta por força da ausência de movimentos da água. Mergulhar é praticamente impossível. Nadar exige técnica apropriada. O ideal é flutuar. Até quem jamais nadou, pode flutuar que nem uma rolha. O mar morto, é disso um exemplo; e aos visitantes, é expressamente recomendado, que observem cuidados extra especiais para nadar. Os banhistas devem, invariavelmente, entrar para a água de costas, não molhar nunca a cabeça e permanecer calmos. Mais interessante ainda é o facto de estes lagos possuírem efeitos curativos excepcionais.
O Lodge de Vamizi, agora galardoado como um dos melhores do continente africano e do mundo na sua categoria, deveria explorar, sempre com o seu guarda, os valores terapêuticos do Ntandazimu. A climoterapia, que combina banhos em águas salgadas (talassoterapia) com os banhos de sol (helioterapia), seria um complemento na diversificação da oferta e actividades recreativas. Um SPA para lá de natural. Todos, mesmo todos, sairiam a ganhar. O turismo nacional ficaria reconhecido pela descoberta. Só peço que seja explicado ao guarda a razão de tanto mistério.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Caminhos do Sol - 2
Por Jorge Ferrão

Moçambique visto por dentro


PRAIAS

 São os olhos da sensibilidade
Que no suspiro da incredulidade
Experimentam a prodigalidade
Da cor, do cheiro, sem idade Da magia da misticidade
Que fazem destas praias tropicalíssimas
A maravilha última antes da entrada para o paraíso


 As praias de Maputo

As praias de Maputo servem de espelhos desfocados das águas de nossas veias. Separam a periferia do centro. A periferia que procura o centro para se refrescar. O centro que procura a calada da noite na praia para repensar esquemas.  Namorar? Encantar as damas. Passear os sonhos na brisa. Os quebraventos que servem de estrado param os casamentos. Recordações, magias e divindades. O Espírito Santo feito bênção.
Quando a Mãe Natureza se rebela, as praias de Maputo transformam-se em avenidas. Banham os olhos de quem não acredita. Um novo click para que se contemple o cheiro da cevada e do lúpulo fermentados em Laurentina e 2M. O som forte de uma marrabenta-funk-hip-pop que prolonga a noitada. Madrugada esticada. O pescador de músculos tensos que contempla a vida, e a cidade envaidece o seu suor.
Acho a fotografia, apenas a descrição de uma vida. Vidas abertas. A vida e emoção. A descoberta do espaço e do pedaço. Por estas fotos e tantas outras, enxergamos o vento que fustiga a serenidade.
Massas de ar que derrubam esperanças. Revemos uma estrada que brevemente jamais será. Os muros de protecção no último suspiro. Um hotel de quatro ou mais estações, agora desprovido de todas. Por estas fotografias, descobrimos que as atitudes e o descanso fizeram das praias caldo. Sopa com óleos e pedaços de carne. Caldo de vegetais temperado pelo sol.
A fotografia tem sempre duas caras. Uma visível. Outra oculta. Diz tudo o que quer.  Não diz nada quando entende não dizer. Deixa seus cantos sem vírgulas para os que querem entender. Mas a fotografia é também o tempo. Esperança de um dia melhor. Foto é sempre aquilo que cada um de nós quer ser e ver. Imagens das praias de Maputo são tudo isso e algo mais. Tanto faz que nos humedeçam de nostalgia ou prazer. Nelas (re)descobrimos as saudades, os tempos e o melhor que esta cidade oferece.


O outro lado do horizonte
 
Começo pelo fim, impelido entre o zero e o infinito. Roubo atitudes infantis folheando livros. Como se o prazer morasse no desfecho da obra. Ao longo de anos visito diferentes ecossistemas. Faço-o de forma compulsiva. Vasculho a diversidade e os tesouros mais raros. As indiscritíveis verdades. O que de melhor a natureza reserva de si própria. Faço-o, em épocas especiais, algumas vezes, noutras, por mera obra do acaso. No final de cada visita uma nova lição, sensação, ou a confirmação do que já era real. Ninguém, jamais, conhecera a natureza na sua essência. Seremos eternos aprendizes.
O acaso me empurrou para as catorze pontas, ou cabos, da costa mais a sul de Moçambique. Os recortes com os quais a natureza decidiu beijar o Índico, romance espreitado por todas as noites de luar. Os prolongamentos do continente pelo oceano que reconfigura   a melodia das águas e os sonhos dos humanos. Estes lugares que apenas convivem com ventos indomesticados e espumas tenebrosas.  Os nomes destas pontas, são via de regra, originais e guardam segredos de lideranças desaparecidas e espíritos de outros universos. Malongane, Maderjanine, Membane, Mucombolo, Milibangalala. Chemucane e Dobela. Todas prenhes de inconfessáveis memórias.
Algumas não resistiram à força da invasão ocidental. Nem por isso perderam a postura, porém testemunharam seus espíritos sumirem com o tempo. Já não fazem caricias ao mar e nem o mar lhes promete em casamento. Abril, Gomene, Torres, Techobanine e a grande Ponta do Ouro, já castigada pela industrialização selvagem.
A essência e traços comuns e tudo o que Deus lhes ofereceu ainda pode ser vivenciado. Dunas fixas e areias fartas. Dunas que se confundem com cabeças cabeludas de vegetação rasteira ou de arbustos com Micaias (Faidherbia albida) que não perdem, nunca, sua graciosidade. As dunas vivem escondidas como se tivessem vergonha de contemplar os encantos e espectáculos do continente e   oceano. Talvez sejam as vergonhas da disvirgindade que o tempo lhas retirou.
Os reis destes paraísos são os caranguejos. Esse bichinho que enche de paladar às almas dos apreciadores, mas que  nos tipifica pelas suas características. Parecemos mesmo caranguejos. Reis sem coroas. Vivemos caminhando para trás e escrevemos progresso no sentido de retrocesso.
Impedimos os futuros. Nestas areias os caranguejos dispensam ciúmes e invejas. Maldades.
Respeitam os espaços vitais e assim, asseguram a continuidade da espécie. Quem, nem sempre os respeita, são mesmo as águias pesqueiras (Haliaeetus vociferous). As pescadoras, faz tempo, deixaram de esperar pelos restos de peixes jogados à costa. Fizeram do rei o seu prato predilecto. Estes lugares são os melhores do mundo para testemunhar como a águia pesqueira devora o caranguejo, em pleno voo e não deixa cair um único pedaço. O universo parece ser uma mesa sem fim.
As rainhas são as Tartarugas. Reis e Rainhas não acasalam, mas não se desentendem. Ganharam o estatuto pela hegemonia e graciosidade. As cinco espécies que Deus criou, nomeadamente a Cabeçuda (Careta carreta), a Gigante (Dermochelys coriácea), Bico de Falcão ou pente (Eretmochelys imbricara), Tartaruga Verde (Chelonia mudas), e a Tartaruga Olivacea (Lepidochelys olivacea) desovam por estas praias e deixam os oceanos mais encantadores. Indiferentes ao plástico e a lixeira dos humanos, cruzam oceanos e praias vagarosas e preocupadas.
Dificilmente poderão escolher a mais bonita das pontas dos reis e rainhas. Poderemos, a muito custo, eleger os mais conservadores e naturais. A beldade das pontas e seus reis e rainhas duplicam quando se agrega algum valor. Algumas vezes, o valor vem dos humanos. A obra de arte que acrescenta sabor ao que já era primoroso.
Ponta Mamoli reconverteu-se. Ajoelhou-se e, em posição oratória, pediu aos humanos o melhor da sua capacidade tecnológica e artística. Ofereceu-se para servir a humanidade e desvendar seus mistérios. Os homens de boa vontade não se fizeram rogados. Depois do longo namoro, das juras de fidelidade, deitaram-se de costas e contemplando as constelações, meteram mãos à obra. Quando    Deus quer, o Homem sonha e a obra acontece. Bem no coração da floresta, na duna mais consolidada do ecossistema, despontou o White Pearl.
White Pearl não se fez num dia. Nem Pavia e muito menos Roma. Seguiu o percurso da própria duna. Foi meticulosamente estudada ao detalhe. Não tardou que se tivesse transformado no Imperador das pontas. O outro lado do horizonte. A combinação perfeita entre o respeito pela natureza e pela fauna e observatório obrigatório para os humanos. A combinação entre uma construção ecológica e o requinte das estrelas dos resorts.
White Pearl desafiou-se a si própria e a criatividade. O elemento que faltava para complementar os padrões da modernidade e do futuro. Cada planta derrubada foi substituída por cinco novas. Substituição assistida por compostos naturais que fortificam as plantas e reflorescem os espaços pouco preenchidos. A ciência ao serviço das tartarugas e caranguejos. A vegetação circundante fez o resto, não permitiu clareiras e as construções se converteram em novas plantas. Agora, precisam, apenas de ser catalogadas.
Ecossistemas frágeis requerem densidades mínimas. Pouca iluminação, tolerância zero ao som e ruídos de toda a natureza, circulação restrita de veículos nas areias da praia e, sobretudo, respeito pelas épocas reprodutivas. Estes ecossistemas não toleram lixeira, substancias toxicas e muito menos dejectos lançados para as águas cristalinas. White Pearl se tornou rigorosa e exigente. Aceita visitantes comprometidos com a natureza, aqueles cujo laser os persuade a aprender sobre ecologia, a mestiçagem e cultura local.
Mesmo em frente da White Pearl são visíveis recifes de coral. Estes os activos costeiros que absorvem carbono e garantem a saúde da economia dos oceanos. Qualquer visita guiada permite contemplar variadíssimas espécies. Peixe zebra e papagaio. São os que dão as boas vindas. Curiosos vem saudar a tudo e todos. Os recifes de coral transformaram o local no Paraíso do mergulho. Quem nunca mergulhou, não deveria morrer sem experimentar essa sensação.  Já, uma vez ouvi dizer, que Deus deixa no purgatório as almas dos que partem sem antes realizarem um mergulho. Mas, os corais, igualmente, sofrem os efeitos das mudanças climáticas. Quem não os sente? Visitas cuidadas minimizam a integridade dos seus corais.
Vezes sem conta os golfinhos se associaram aos esforços empreendidos para a manutenção dos recifes de coral. Eles acreditam que a sua presença, constante, não deixará que o branqueamento dos recifes aconteça. Os golfinhos acompanham, igualmente, todas as visitas que são efectuadas aos coloridos peixes de todas as dimensões. Competente equipa técnica da White Pearl propícia aos visitantes, sempre em números reduzidos, um mergulho com estas criaturas tão inteligentes como os seres humanos. O convívio se tornou tão habitual que modificou as rotinas da fauna local. Agora se alimentam mais cedo e, depois, no papel de guias turísticos, orientam os mergulhadores para as áreas que não representam riscos.
Ponta Mamoli tem sabido vender o nome e a imagem de Moçambique. White Pearl que completa a generosidade da natureza em nada lhe fica devendo. Estes os exemplos de parceria que o ambiente precisa e o ecossistema agradece.

domingo, 2 de julho de 2017



CAMINHOS do SOL
Moçambique visto por dentro!

Tem muita história vindo aí, sobre Moçambique. Crónicas belíssimas, escritas por um grande amigo moçambicano, personagem do mais alto valor intelectual e moral daquele país.
Se indicasse simplesmente o seu nome, imagino que muitos dos leitores deste blog ficaria “na mesma”, por não o conhecer.
Assim, antes de darmos início à publicação destas crónicas, que o autor me sugeriu que colocasse no meu blog (não estou a querer me apropriar do alheio, longe vá o agouro!) vou apresentá-lo.

Jorge Ferrão

Nasceu em 23 de dezembro de 1962, na província de Nampula. Fluente em Português, inglês, francês e espanhol.
Atualmente é o reitor da Universidade Pedagógica, a maior universidade do país, com mais de 55,000 estudantes e de 2000 docentes. Esta Universidade Pedagógica tem doze filiais em todas as províncias moçambicanas.
De 2015 para 2016, foi Ministro da Educação e Desenvolvimento Humano. (Nota: foi afastado do cargo e nomeado reitor da Universidade Pedagógica (UP) porque “não fazia um controlo político na Educação”, mas sim, profissional. Que belo elogio!)
De 2007 a 2014, foi reitor da Universidade Lúrio, terceira universidade pública de Moçambique e a segunda estabelecida no país após a independência. Durante este período, ocupou os cargos de Presidente da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP) e membro do Comitê Executivo da Associação das Universidades da África Austral (SARUA). Também durante este período, tornou-se membro da Academia de Ciências de Moçambique e foi admitido à Academia de Ciências de Lisboa na categoria de membro correspondente de humanidades e membro do Conselho de Administração da BioFund e da Fundação para o Desenvolvimento das Comunidades (FDC).
No período de 2006 e 2007, foi assessor do Ministro do Turismo, sobre questões relacionadas com áreas protegidas e sua privatização.
No período 2005-2008, lecionou o tema da Gestão de Ecossistema para o curso de Mestrado em Desenvolvimento Agrário na Universidade Eduardo Mondlane e Mweka, faculdade de African Wildlife Management na Tanzânia.
De 2003 a 2005, foi Coordenador Regional do Parque Transfronteiriço do Grande Limpopo, que inclui parque da República da África do Sul, Zâmbia, Zimbabwe e Moçambique.
Em 2002, completou o doutoramento na Universidade Rural Federal do Rio de Janeiro, Brasil, com a “Convenção Sobre Diversidade Biológica (CDB) - sua implementação e gestão de recursos naturais (CBRNM) na África Austral: os casos do Zimbabwe, Zâmbia e Moçambique”.
Completou um ano sabático em Sociologia Rural na Universidade de Montpellier II, França.
Em 1999 conseguiu uma Pós-Graduação em estudos de Organização de Comércio Mundial e Cláusulas Ambientais, na Universidade de São Paulo - Brasil.
Em 1997, completou seu mestrado em Políticas Públicas Regionais na Universidade de Zimbabwe, em parceria com o Instituto Regional da África do Sul para estudos de política, um Instituto associado à Universidade de Harare.
Graduou-se em Relações Internacionais e Diplomacia em 1989, no Instituto Superior de Relações Internacionais (ISRI).
De 1987 a 1991, trabalhou como Director de Informação da SADC – Sector de Cultura e Informação em Maputo, e mais tarde ocupou o cargo de Coordenador Regional do Sul da África para o desenvolvimento no Zimbabwe, uma coalizão de filme independente e produtores de vídeo integrando sete países na África Austral.
No período de 1985-1987 juntou-se ao Instituto de Comunicação Social como jornalista, mantendo a posição de produtor e diretor de Canal Zero.

Se tudo isto não for suficiente, vale acrescentar que foi a personalidade do ano em Mocambique, na votação de diferentes órgãos de informação, públicos e privados: no ano 2012 pela Rádio Mocambique, 2009, 2011 e 2017 pelos jornalistas de Nampula, 2015 pelo Jornal Noticias, 2016 pela maioria da imprensa independente.
Bem merece.
E agora apreciem as suas crónicas (sugiro que as acompanhem com um mapa de Moçambique) que, de acordo com o autor serão publicadas num livro, a não perder, que se irá chamar

CAMINHOS do SOL
Vamos começar por uma praia.

Guludo - a praia da reconciliação

 

Aos pés de quem pisoteia seus areais refinados, fica um gosto de um prolongado namoro para a eternidade. O suave sabor das ondas, quase imperceptíveis, estendem seus tentáculos fraternamente para as infinitas histórias de reconciliação. Ou não seria a reconciliação a melhor dádiva que os Deuses nos podem proporcionar? O caranguejo do coqueiro, distraído e embebedado pelo vinho   do coco, até nos horários mais quentes, empresta sua graça e alma Além, no infinito, o resto de uma nuvem que cura divergências e casamenta as irreconciliáveis paixões de casais inseguros. Esta é a praia do Guludo. Para os especialistas a melhor praia de África. Para os leigos mais uma praia, porém muito peculiar e de verdadeira reconciliação.
Vários casais, hoje consolidados, afinaram os tons de seus casamentos em Guludo. A praia tem esse dom. Outros, que nunca antes se conheceram, pavimentaram, em suas areias, amizades transformadas em juras e laços matrimoniais. Quem nunca casou e acha que não o fará, nunca, desconhece Guludo. Esta é a praia onde os indecisos colocaram ponto final as suas hesitações.
Moçambique sempre foi uma praia. Extensa e agreste. Serena e reconfigurada. Em dias ensolarados uma praia cristalina e infinita. Nos dias de chuva e tempestades, uma praia de cânhamo da maresia e ondas cinzentas como as inundações de Janeiro, sempre, sempre anunciadas. Existem praias para todos os prazeres e gostos. Algumas, poucas, são apenas pontos de encontro de águas salgadas e búzios escurecidos. Outras, mais numerosas, são praias soberbas, dignas de competirem com as melhores do planeta. Agora, descobrimos as praias galácticas. Esses tesouros ainda não desvendados e que cujo turismo doméstico não disfruta.
Os critérios que determinam a beleza e raridade das praias serão sempre subjectivos. Os indicadores nem sempre tão mensuráveis. Apesar destas vírgulas altas, as revistas de especialidade turísticas, de todo o mundo, referenciam Guludo como praia de qualidade suprema, deserta, na maior parte do ano, com águas cristalinas e sem ondas. Nestas categorias as únicas praias que rivalizariam em África seriam as praias de Rocktail Bay, na África do Sul e Bosluisbail, na Namíbia. A família Rockfeller, num passado nem por isso tão distante, comprou uma praia, na Caraíbas, com semelhanças à praia de Guludo. Esta praia se transformou na melhor do mundo. Nas classificações que se actualizam, com certa periodicidade, melhores que Guludo seria uma no Brasil e outra na Austrália.
Mergulhar em cada uma destas praias continuará um sonho para poucos. Em qualquer uma delas, o valor agregado permitiu sua completa valorização, com ganhos consideráveis para as economias locais. Guludo bem no coração das Quirimbas, ali em Macomia, de economia sofrida, como todos os locais de imensos recursos, oferece acomodação rústica, com tendas de luxo, até com casa de banho a céu aberto, e a possibilidade de se efectuarem múltiplos passeios pelos mangais. Tem de tudo. Tranquilidade, milhares de espécies de peixes coloridos que renovam as cores da vida e dos sonhos.
Este local precisa de sair do anonimato. A raridade desta beleza merece um outro espaço e tratamento. Precisaremos, nós próprios, de cuidar de santuários que a natureza nos oferece de bandeja, mas que nos esquecemos deles com a maior das naturalidades. Guludo, serena, aguarda por todos os moçambicanos que procuram viver para se reconciliarem e reconciliar o mundo.



01/07/2017

segunda-feira, 26 de junho de 2017



O Império Português
500 anos... ???

Texto polémico o que se segue. Mas o que há de melhor do que polemizar... para mais nos compreendermos e entendermos? Polémico e o resumo do resumo!
É sabido que em 1483 Diogo Cão chegou à foz do rio Zaire, onde tomou conhecimento de um potentado africano, o Manicongo. Desembarcam e são festivamente recebidos pela população. Para não interromper a viagem de exploração do Atlântico, segue para o Sul até ao Cabo de Santa Maria, mas manda emissários ao rei do Congo. No regresso não encontra os emissários e leva alguns congoleses até Portugal. Regressa no ano seguinte, trazendo de volta os africanos que levara, e é ele quem vai cumprimentar o rei do Congo, na sua embala, a cerca de 200 quilômetros da costa. O reino englobava algumas áreas a que depois se deram nomes “europeus”: ducados, marquesados e condados.
Para ajudar o novo “irmão” do rei D. Manuel, não tardou a que soldados portugueses tivessem que entrar em guerras entre os vários nobres da região, procurando que entre todos houvesse paz. Portugal queria parceiros comerciais e só com paz haveria comércio. Jamais houve.
Entretanto, um pouco a sul, o N‘Gola, sabendo do convívio dos portugueses com o rei do Congo, manda uma mensagem ao rei de Portugal pedindo-lhe missionários. E vai Paulo Dias de Novais, como embaixador, acompanhado de quatro missionários, desembarca em Luanda e segue ao encontro do chefe indígena. Já não era o que tinha escrito a carta, mas um filho seu. Paulo Dias acaba prisioneiro durante cinco anos!
E as guerras entre os vários sobas e destes com os portugueses, não acabam nunca. Ora se alinhavam de um lado ora de outro.
Sem que se conheçam as suas procedências e suas histórias, algumas centenas de portugueses já se haviam espalhado por Angola, negociando diretamente com os povos indígenas. Desde o Congo até Benguela, e para o interior, esses foram, por sua conta e risco, os primeiros europeus a habitarem a África negra.
Por influência destes e de alguns relatórios dos jesuítas, em Portugal era grande o sonho da prata que Angola teria. Nunca teve.
Em 1498, a caminho da Índia, chegam os portugueses a Moçambique. O objetivo desta viagem era muito mais importante do que o hipotético comércio com Angola. A Índia e as suas especiarias, negócio altamente rendoso, na Europa nas mãos de venezianos e genoveses e nos mares até à Europa com os árabes, muçulmanos, inimigos da cristandade, que havia pouco tinham sido despejados da Península Ibérica. O objetivo era tomar esse negócio das suas mãos, e fazer de Lisboa o centro de distribuição dessas especiarias para toda a Europa.
Em Moçambique, a Ilha, era o ponto obrigatório de passagem de todos os comércios com a Índia, e apesar de pequena, era já povoada por árabes e macuas islamizados. A partir desta visita, Portugal consegue uma pequena parte, cria uma Misericórdia para aí deixar doentes, e ter o seu apoio logístico.
Começa a ganância. Naus cada vez maiores e com mais naufrágios, em poucos anos o custo da “Índia” era superior ao seu rendimento e, além de se endividar, Portugal começou por proibir a instalação de colonos nas terras a que se outorgou possuidor, por terem sido “descobertas” pelas suas caravelas.
Assim que o Brasil se mostrou colonizável, Angola passou a viver do negócio da escravatura. Escravos era a principal “mercadoria” que todos encontravam em África. Além disso, Angola, pouco mais tinha: um pouco de cera, para iluminação e para as igrejas, um tiquinho de marfim, e prata... zero.
Na costa Oriental, tudo quanto Portugal pretendia era ter livre o acesso ao Monomotapa. Ao ouro do Monomotapa! Nada de colonizações. Mas arrogava-se o direito de ser senhor das terras primeiro visitadas e depois daquelas em que, em permanência, se batia com os árabes, ali instalados há vários séculos, para garantirem o comércio do precioso metal, e para combaterem o negócio de escravos.
Além do ouro tinha muito marfim, normalmente enviado para a Índia onde era trabalhado por artistas artesãos. Da Índia saíam os principais produtos que serviam de troca com o nativo moçambicano.
E durante séculos as colônias africanas era “propriedade” dos reis de Portugal, mas limitadas a uma pequena faixa de terra litorânea e a algumas capitanias em portos onde pudesse haver negócio.
Lourenço Marques “descobre” a “Baía da Lagoa, que mais tarde teve o seu nome, mas onde durante uns dois séculos não residia nem um único português ou colono.
Foi assaltada por austríacos, ingleses e franceses, porque ali o negócio de marfim era importante. Mas sempre Portugal reclamava que aquelas terras lhe pertenciam porque fora o primeiro a descobri-las!
Em 1781 o ministro Martinho de Melo e Castro mandou povoar o interior de Sofala, porque na fortaleza só havia uma dúzia de famílias portuguesas, todas já mestiçadas ou de origem goesa. Em 1885 Gungunhana afirmava ao Conselheiro Almeida que a fronteira portuguesa passava a duas léguas de Sofala e para o interior o território era dele.
Em Angola a situação diferia um pouco, mas todo o interior pouco mais gente tinha do que um outro sertanejo como o famoso Silva Porto.
Na Zambézia, Portugal criou uma invenção curiosa: para poder arrecadar mais algum imposto passou a conceder “Prazos”, praticamente sempre a famílias mestiças e/ou também de origem goesa, mas neles não exercia nenhum domínio.
As lutas sustentadas contra os nativos não foram provocadas, até final do século XIX por lutas entre portugueses e africanos, mas por necessidade de apoiar um ou outro régulo afim de manter a paz no interior e assim o comércio poder fluir.
É o olho gordo dos ingleses que querem as melhores regiões de África para expandirem a sua “religião” comercial que provocam grande instabilidade. Estavam em plena revolução industrial e descobriram que só para cima de Moçambique havia mais de quarenta milhões de africanos que não usavam calçado nem camisa, o que pressupunha uma imensa possibilidade de negócio.
A partir daí, quando os portugueses, que tanto em Angola como em Moçambique sempre tinham precisado da autorização dos sobas e régulos para comerciarem, o que implicitamente reconhecia a soberania destes, a Conferência de Berlim, estimulada também pela ganância do rei dos belgas, determina que só ficam com direito a terras em África os países que os ocupem militar e administrativamente.
Virou-se o jogo. Agora eram os sobas e régulos que dependiam de Portugal, e isso foi um imenso desastre.
Portugal que até essa altura não admitia, sobretudo em Moçambique, colonizar esses “seus” territórios, começou a “vendê-lo” em parcelas. E mais, se não admitira nunca estrangeiros, teve que os ir buscar, porque, sempre pobre e endividado, não dispunha de capitais para desenvolver as “novas” colônias.
E assim nascem a Companhia dos Diamantes de Angola, com capitais portugueses (pouquíssimo), mas de maioria belgas, americanos, ingleses e sul-africanos, a Companhia Agrícola de Angola - CADA -  financiada por capitais belgas, em Moçambique as Companhias Majestáticas como a Cia. de Moçambique, Cia. da Zambézia, Cia. do Niassa, Cia. do Boror, todas com capitais estrangeiros, que quando viram que o negócio agrícola não era rentável, começaram a vender trabalhadores para as minas de ouro da África do Sul, e outras várias.
Depois lembrou-se de fundar o Banco Nacional Ultramarino, visando o desenvolvimento colonial, mas que se verificou ter sido um elemento de falência para os incautos e entusiastas que se lembraram de a ele recorrer para a agricultura.
Angola rendeu, sobretudo para os traficantes, enquanto floresceu a escravatura, em Moçambique lutava-se contra esse tráfico. O Brasil já independente teimava em traficar e, como sempre, os contrabandistas e desonestos, conseguem durante muito tempo ainda negociar, vergonhosamente, gente.
No século XIX e Portugal, sempre pobrezinho e mal governado, decide defender as colónias, sobretudo das forças de países europeus, e luta sobretudo contra os alemães.
As poucas e mal pagas e mal treinadas tropas da metrópole, auxiliadas por soldados africanos lutaram valentemente. Foi a época dos heróis, brancos e negros, que procuravam pacificar os territórios que lhe foram “oferecidos”!
O século XX abre os olhos da metrópole e começa a desenvolver-se Angola e Moçambique, já sem recursos a escravaria, marfim, ouro ou a imaginada prata, sempre por iniciativa privada, e não por ação e planificação do “reino”, que nem no pequenino espaço europeu se entendia.
Este surto de desenvolvimento, que cresce de forma importante sobretudo a partir do final da II Guerra Mundial, marca profundamente a economia dos dois países que, logo a seguir ascendiam à sua independência.
O que é inimaginável para qualquer outro povo é que o grande surto de desenvolvimento se dá com o começo da guerra colonial, a partir de 1961.
Em 1974 acabam as colónias.
Os 500 anos tão badalados sumiram na bruma do tempo.
Em todo o lado por onde andou Portugal deixou a sua marca própria de convivência, desde Cabo Verde a Timor, Malásia, Indonésia e Índia, e sobretudo em Angola e Moçambique.
Não foram 500 anos de ocupação ou colonização. É um sofisma chorarem os portugueses pelos cinco séculos que “perderam, assim como o é também dos africanos dizerem que sofreram cinco séculos de dominação.
Ainda hoje, em Angola o nome mais respeitado de governante daquela terra, incluindo todos os que vieram depois da independência, é o de Dom Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho.
Por Moçambique também passaram grandes homens: Mouzinho, Freire de Andrade, João de Azevedo Coutinho, e outros.
Os sofismados “500 anos” foram, isso sim, cinco séculos de muita vivência, convivência, apesar de haver páginas tristes, como sempre houve em todo o lado e, infelizmente, continuará a haver.
Cada vez que se falar em “500 anos em África” devemos celebrá-los como sendo “500 anos a conviver” com irmãos mesmo que por vezes desavindos.
Eu estive por lá pouco mais de vinte.
E como guardo toda aquela África no coração.

12/07/2017



segunda-feira, 19 de junho de 2017



Um oficial em Moçambique - 5

O “nosso” heroi

Nasceu em Alter do Chão, a 3 de Feve­reiro de 1865.
Sentou praça no regimento de Cavalaria 4 em 13 de Outubro de 1880, cursou a Politécnica e passou a aspi­rante da Armada em 10 de Novembro de 1882, sendo promovido a guarda-marinha dois anos depois, a 29 de Setembro. Ainda não era oficial e já andava pela África, fazendo levantamentos no rio Muíte, defronte da ilha de Moçambique. Comandou, como guarda-marinha, na­quela colónia, os iates de vela “Luzio” e “Tungue”, e depois as canhoneiras “Maravalt e “Cherim” da esquadrilha do Zambeze, o vapor “Auxiliar”, e mais tarde a “Liberal” e o transporte “Salvador Correia”. Em 1885 combateu o régulo Sangage, que avassalou. Contava, então, vinte anos. Continuou a sua acção no Moguinquale e no Infusse.
Comandou a “Cherim” quando Serpa Pinto chegou à África com a sua missão encarregada de operar pelo lado do Zambeze, Chire e Ruo, nas vésperas do ul­timato. O fim da expedição consistia em manter o predo­mínio português naquelas regiões onde os ingleses iam captando alguns régulos e entre eles o de macololos.
Em 1889 foi encarregado de reduzir aqueles povos à obediência, em Chilomo, onde o gentio se entrinchei­rara. A tripulação da “Che­rim” compunha-se de dez brancos e trinta e quatro negros, que chegaram para vencer os rebeldes. O moço comandante viu o seu chapéu varado pelas balas. Os indígenas admirados pela vitória, espalharam a sua fama e passou a ser conhecido por Musungo Icuro ou M'Pezene. Tomou a seguir as terras de Massea e Katunga; aprisionando o filho do soba e logo o régulo Gambi, estendeu o domínio português do Ruo ao Milange.
Portugal celebrou as suas vitórias e o nome do bravo tornou-se ilustre. Comandara vinte ações militares. O consul inglês Johnston, declarou que os macololos estavam sob a protecção britânica e pretendeu impedir o avanço dos expedicionários, o que não conseguiu. Nasceu desta questão o ultimato. O seu nome ressoou mais intensamente e o Parlamento proclamou-o
“Benemérito da Pátria”, tinha vinte e quatro anos!
Paralisadas as operações em virtude das exigências britânicas, ficou comandando as forças a fim de manter a neutralidade. Nomeado para vingar no Mataca a morte do tenente Valadim, cumpriu o seu dever e, no ano seguinte, comandou a expedição denominada Júlio de Vilhena, que bateu o Maconga e logo apaziguou os povos revoltados de Muíra, bongas e baruístas. Em 18 de Novembro de 1891 ficou gravemente ferido no ataque à aringa do Mafunda, em virtude de tiros e da explosão dum cunhete de pólvora. As suas forças sofreram mais de trezentas baixas; chefiou a retirada em trágicas cir­cunstâncias, pois tinham morrido dois belos combatentes, Barbosa de Meneses e Carlos Paiva e o capitão Andrade estava tão ferido como ele. Durante dois meses esteve em perigo, tendo o corpo em carne viva. Ia ficando cego, mas logo que melhorou pensou em resgatar o desastre. Mostrara-se tão bravo soldado como hábil marinheiro e nos seus comandos de frágeis embar­cações demonstrou tanto estas qualidades que os seus camaradas lhe votaram grande admiração. Cognomi­naram-no “João Trabalhador”, tal era a sua faina. Navegou no Zambeze em péssimos barcos, mas destemidamente.
Em 17 de Dezembro de 1896 foi comandar volunta­riamente a companhia de guerra de marinha que ia combater os namarrais. Ganhou a medalha de prata de Bons Serviços, que se juntou ao oficialato da Torre e Espada e à insígnia de cavaleiro de Cristo, recebidas em 1891. Mousinho escrevera a seu respeito, ao propô-lo para aquela condecoração: “pela maneira como comandou as forças engajadas na Nagüema, Ibrahimo e Mucuto Muno e pela boa ordem e disciplina que manteve na sua companhia”, e nomeou-o governador da Zambézia.
Começara uma revolta com assassínios nas proximi­dades do Sena e tão seguramente os indígenas esperavam vencer, que chegaram a atacar, em Tete, uma lancha carregada com material de guerra e, apoderando-se de duas peças “Hotchkiss”, dispuseram-se a maior resis­tência. Era em 25 de Maio de 1897; quatro dias depois saiu de Sena à frente duma coluna de cento e cinquenta soldados indígenas e dois mil cipais irregulares de Maganja, e em 4 de Julho atacava a aringa de Mayuca, que foi defendida com a artelharia tomada no rio Tete, e a qual recaiu em poder dos portugueses. Foram arrazadas doze aringas após vinte combates.
No ano seguinte já estava em Maganja da Costa a castigar as ofensas feitas pelos cipais desta região a Aires de Ornelas e o trucidamento do l° tenente da Armada Simeão de Oliveira e de oito angolas que ali o tinham acompanhado em 1886. Tomou a aringa, subjugou o Mocuba e o Robe e não ocupou Angoche porque demorou a autorização pedida a Mousinho, governador geral de Moçambique, que o propôs para a comenda da Torre e Espada.
Quando o poderoso gentio do Barué se revoltou, muito animado por suas anteriores proesas, foi-lhe entregue, em 19 de Abril de 1902, o comando da expedição contra eles. Arrazou cerca de noventa aringas e entre elas a do célebre Inhachirondo, na qual fora morto um grande amigo dos portugueses, o índio Manuel António de Sousa, capitão-mor de Manica. Aprisionou-se o Macombe e o seu chefe de guerra, Combuemba, pereceu. Recebeu a medalha “Rainha D. Amélia”, e a Geografia entregou-lhe a sua medalha de honra.
Por decreto de 9 de Dezembro de 1904 foi nomeado governador geral de Moçambique, e, dois anos depois, adido à Comissão de Cartografia, tendo dirigido acertadamente a província que lhe fora confiada. Fez parte da comissão de reforma administrativa das províncias ultramarinas, e recebeu a nomeação de vogal da Junta Consultiva do ultramar.
Após a morte de D. Carlos, aceitou o difícil cargo de governador civil de Lisboa, e, desde 11 de Março até 14 de Maio de 1909, ocupou a pasta da Marinha, cargo que voltou a exercer em 22 de De­zembro daquele ano, demitindo-se em 26 de Junho de 1910.
A queda da monarquia encontrou-o em Sintra, pois residia naquela estância. Foi para Mafra, onde o sobe­rano se refugiara. Dispôs-se logo a defender o paço com as forças que encontrou, apesar de não lhe pare­cerem muito seguras em virtude das hesitações do seu comandante. Aconselhou a partida de D. Manuel II com a família real para o Porto, afirmando-lhe que iria ter à capital do Norte.
Foi lugar-tenente de D. Manuel.
Após a morte de Sidónio Pais, em Janeiro de 1919, estava doentíssimo no hos­pital de S. Luiz, quando ali o foram buscar para, com a sua presença, dar valor ao movimento monárquico de Monsanto. Pensou num ataque mais directo e decisivo, que Aires de Ornelas evitou, e o resultado foi cair nas mãos dos vencedores, comandados pelo seu antigo camarada, e companheiro nas lutas em Moçambique, o capitão-tenente Afonso Julio de Cerqueira, a cuja grandeza de ânimo se deveu a salvação dos presos. Esteve recluso na Penitenciária, em S. Julião da Barra, no Laza­reto e na ilha da Madeira, beneficiando da amnistia e voltando à política como julgou do seu dever.
Depois da morte de D. Manuel aceitou o cargo de lugar-tenente do pretendente, D. Duarte Nuno.
Além de grande oficial da Torre e Espada e de Aviz, por serviços distintos, recebeu a carta de conselho, as grã-cruzes de Cristo e do Império Colonial, medalha de Filantropia, medalhas de ouro de bons serviços no ultramar com as barras comemorativas das suas cam­panhas. Oficial da Legião de Honra e grã-cruz da Es­trela Brilhante de Zanzibar, comendador de Mérito Naval e Militar de Espanha. Foi ajudante de campo de D. Carlos e de D. Manuel, deputado em 1900, sena­dor monárquico, pelo distrito de Portalegre, em 1925 e 1926.
Quando governou Moçambique recebeu as visitas dos duques de Connaught, em 1906. oferecendo-lhes magní­ficas festas e o celebrado batuque de vinte mil guer­reiros que produziu assombro.
Não foi apenas decorativo o seu período governamental; fez a ocupação, com Massano de Amorim, das capitanias de Angoche e Macuama, como já ocupara mais de me­tade da área da Zambézia quando ali estivera, e tratou da reforma administrativa da província.
Publicou: Do Níassa a Pembe, Relatório da Campanha do Barué, em 1902, O combate de Macequece, as Duas Conquistas de Angoche, etc.
Este homem chamou-se
João de Azevedo Coutinho.

Abaixo a sua assinatura, quando estava preso em Lisboa

Muito jovem, nas suas campanhas em Moçambique.
Segundo um dos seus netos, grande amigo meu, o avô teria
1,90 de altura e era robusto como um carvalho!


Vamos continuar com assuntos moçambicanos, mas, por ora deixemos o “nosso” heroi descansar.
A verdade é que gente desta estirpe parece que desapareceu. Pelo menos em Portugal !!!


Junho 2017

Junho 2017