domingo, 2 de julho de 2017



CAMINHOS do SOL
Moçambique visto por dentro!

Tem muita história vindo aí, sobre Moçambique. Crónicas belíssimas, escritas por um grande amigo moçambicano, personagem do mais alto valor intelectual e moral daquele país.
Se indicasse simplesmente o seu nome, imagino que muitos dos leitores deste blog ficaria “na mesma”, por não o conhecer.
Assim, antes de darmos início à publicação destas crónicas, que o autor me sugeriu que colocasse no meu blog (não estou a querer me apropriar do alheio, longe vá o agouro!) vou apresentá-lo.

Jorge Ferrão

Nasceu em 23 de dezembro de 1962, na província de Nampula. Fluente em Português, inglês, francês e espanhol.
Atualmente é o reitor da Universidade Pedagógica, a maior universidade do país, com mais de 55,000 estudantes e de 2000 docentes. Esta Universidade Pedagógica tem doze filiais em todas as províncias moçambicanas.
De 2015 para 2016, foi Ministro da Educação e Desenvolvimento Humano. (Nota: foi afastado do cargo e nomeado reitor da Universidade Pedagógica (UP) porque “não fazia um controlo político na Educação”, mas sim, profissional. Que belo elogio!)
De 2007 a 2014, foi reitor da Universidade Lúrio, terceira universidade pública de Moçambique e a segunda estabelecida no país após a independência. Durante este período, ocupou os cargos de Presidente da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP) e membro do Comitê Executivo da Associação das Universidades da África Austral (SARUA). Também durante este período, tornou-se membro da Academia de Ciências de Moçambique e foi admitido à Academia de Ciências de Lisboa na categoria de membro correspondente de humanidades e membro do Conselho de Administração da BioFund e da Fundação para o Desenvolvimento das Comunidades (FDC).
No período de 2006 e 2007, foi assessor do Ministro do Turismo, sobre questões relacionadas com áreas protegidas e sua privatização.
No período 2005-2008, lecionou o tema da Gestão de Ecossistema para o curso de Mestrado em Desenvolvimento Agrário na Universidade Eduardo Mondlane e Mweka, faculdade de African Wildlife Management na Tanzânia.
De 2003 a 2005, foi Coordenador Regional do Parque Transfronteiriço do Grande Limpopo, que inclui parque da República da África do Sul, Zâmbia, Zimbabwe e Moçambique.
Em 2002, completou o doutoramento na Universidade Rural Federal do Rio de Janeiro, Brasil, com a “Convenção Sobre Diversidade Biológica (CDB) - sua implementação e gestão de recursos naturais (CBRNM) na África Austral: os casos do Zimbabwe, Zâmbia e Moçambique”.
Completou um ano sabático em Sociologia Rural na Universidade de Montpellier II, França.
Em 1999 conseguiu uma Pós-Graduação em estudos de Organização de Comércio Mundial e Cláusulas Ambientais, na Universidade de São Paulo - Brasil.
Em 1997, completou seu mestrado em Políticas Públicas Regionais na Universidade de Zimbabwe, em parceria com o Instituto Regional da África do Sul para estudos de política, um Instituto associado à Universidade de Harare.
Graduou-se em Relações Internacionais e Diplomacia em 1989, no Instituto Superior de Relações Internacionais (ISRI).
De 1987 a 1991, trabalhou como Director de Informação da SADC – Sector de Cultura e Informação em Maputo, e mais tarde ocupou o cargo de Coordenador Regional do Sul da África para o desenvolvimento no Zimbabwe, uma coalizão de filme independente e produtores de vídeo integrando sete países na África Austral.
No período de 1985-1987 juntou-se ao Instituto de Comunicação Social como jornalista, mantendo a posição de produtor e diretor de Canal Zero.

Se tudo isto não for suficiente, vale acrescentar que foi a personalidade do ano em Mocambique, na votação de diferentes órgãos de informação, públicos e privados: no ano 2012 pela Rádio Mocambique, 2009, 2011 e 2017 pelos jornalistas de Nampula, 2015 pelo Jornal Noticias, 2016 pela maioria da imprensa independente.
Bem merece.
E agora apreciem as suas crónicas (sugiro que as acompanhem com um mapa de Moçambique) que, de acordo com o autor serão publicadas num livro, a não perder, que se irá chamar

CAMINHOS do SOL
Vamos começar por uma praia.

Guludo - a praia da reconciliação

 

Aos pés de quem pisoteia seus areais refinados, fica um gosto de um prolongado namoro para a eternidade. O suave sabor das ondas, quase imperceptíveis, estendem seus tentáculos fraternamente para as infinitas histórias de reconciliação. Ou não seria a reconciliação a melhor dádiva que os Deuses nos podem proporcionar? O caranguejo do coqueiro, distraído e embebedado pelo vinho   do coco, até nos horários mais quentes, empresta sua graça e alma Além, no infinito, o resto de uma nuvem que cura divergências e casamenta as irreconciliáveis paixões de casais inseguros. Esta é a praia do Guludo. Para os especialistas a melhor praia de África. Para os leigos mais uma praia, porém muito peculiar e de verdadeira reconciliação.
Vários casais, hoje consolidados, afinaram os tons de seus casamentos em Guludo. A praia tem esse dom. Outros, que nunca antes se conheceram, pavimentaram, em suas areias, amizades transformadas em juras e laços matrimoniais. Quem nunca casou e acha que não o fará, nunca, desconhece Guludo. Esta é a praia onde os indecisos colocaram ponto final as suas hesitações.
Moçambique sempre foi uma praia. Extensa e agreste. Serena e reconfigurada. Em dias ensolarados uma praia cristalina e infinita. Nos dias de chuva e tempestades, uma praia de cânhamo da maresia e ondas cinzentas como as inundações de Janeiro, sempre, sempre anunciadas. Existem praias para todos os prazeres e gostos. Algumas, poucas, são apenas pontos de encontro de águas salgadas e búzios escurecidos. Outras, mais numerosas, são praias soberbas, dignas de competirem com as melhores do planeta. Agora, descobrimos as praias galácticas. Esses tesouros ainda não desvendados e que cujo turismo doméstico não disfruta.
Os critérios que determinam a beleza e raridade das praias serão sempre subjectivos. Os indicadores nem sempre tão mensuráveis. Apesar destas vírgulas altas, as revistas de especialidade turísticas, de todo o mundo, referenciam Guludo como praia de qualidade suprema, deserta, na maior parte do ano, com águas cristalinas e sem ondas. Nestas categorias as únicas praias que rivalizariam em África seriam as praias de Rocktail Bay, na África do Sul e Bosluisbail, na Namíbia. A família Rockfeller, num passado nem por isso tão distante, comprou uma praia, na Caraíbas, com semelhanças à praia de Guludo. Esta praia se transformou na melhor do mundo. Nas classificações que se actualizam, com certa periodicidade, melhores que Guludo seria uma no Brasil e outra na Austrália.
Mergulhar em cada uma destas praias continuará um sonho para poucos. Em qualquer uma delas, o valor agregado permitiu sua completa valorização, com ganhos consideráveis para as economias locais. Guludo bem no coração das Quirimbas, ali em Macomia, de economia sofrida, como todos os locais de imensos recursos, oferece acomodação rústica, com tendas de luxo, até com casa de banho a céu aberto, e a possibilidade de se efectuarem múltiplos passeios pelos mangais. Tem de tudo. Tranquilidade, milhares de espécies de peixes coloridos que renovam as cores da vida e dos sonhos.
Este local precisa de sair do anonimato. A raridade desta beleza merece um outro espaço e tratamento. Precisaremos, nós próprios, de cuidar de santuários que a natureza nos oferece de bandeja, mas que nos esquecemos deles com a maior das naturalidades. Guludo, serena, aguarda por todos os moçambicanos que procuram viver para se reconciliarem e reconciliar o mundo.



01/07/2017

segunda-feira, 26 de junho de 2017



O Império Português
500 anos... ???

Texto polémico o que se segue. Mas o que há de melhor do que polemizar... para mais nos compreendermos e entendermos? Polémico e o resumo do resumo!
É sabido que em 1483 Diogo Cão chegou à foz do rio Zaire, onde tomou conhecimento de um potentado africano, o Manicongo. Desembarcam e são festivamente recebidos pela população. Para não interromper a viagem de exploração do Atlântico, segue para o Sul até ao Cabo de Santa Maria, mas manda emissários ao rei do Congo. No regresso não encontra os emissários e leva alguns congoleses até Portugal. Regressa no ano seguinte, trazendo de volta os africanos que levara, e é ele quem vai cumprimentar o rei do Congo, na sua embala, a cerca de 200 quilômetros da costa. O reino englobava algumas áreas a que depois se deram nomes “europeus”: ducados, marquesados e condados.
Para ajudar o novo “irmão” do rei D. Manuel, não tardou a que soldados portugueses tivessem que entrar em guerras entre os vários nobres da região, procurando que entre todos houvesse paz. Portugal queria parceiros comerciais e só com paz haveria comércio. Jamais houve.
Entretanto, um pouco a sul, o N‘Gola, sabendo do convívio dos portugueses com o rei do Congo, manda uma mensagem ao rei de Portugal pedindo-lhe missionários. E vai Paulo Dias de Novais, como embaixador, acompanhado de quatro missionários, desembarca em Luanda e segue ao encontro do chefe indígena. Já não era o que tinha escrito a carta, mas um filho seu. Paulo Dias acaba prisioneiro durante cinco anos!
E as guerras entre os vários sobas e destes com os portugueses, não acabam nunca. Ora se alinhavam de um lado ora de outro.
Sem que se conheçam as suas procedências e suas histórias, algumas centenas de portugueses já se haviam espalhado por Angola, negociando diretamente com os povos indígenas. Desde o Congo até Benguela, e para o interior, esses foram, por sua conta e risco, os primeiros europeus a habitarem a África negra.
Por influência destes e de alguns relatórios dos jesuítas, em Portugal era grande o sonho da prata que Angola teria. Nunca teve.
Em 1498, a caminho da Índia, chegam os portugueses a Moçambique. O objetivo desta viagem era muito mais importante do que o hipotético comércio com Angola. A Índia e as suas especiarias, negócio altamente rendoso, na Europa nas mãos de venezianos e genoveses e nos mares até à Europa com os árabes, muçulmanos, inimigos da cristandade, que havia pouco tinham sido despejados da Península Ibérica. O objetivo era tomar esse negócio das suas mãos, e fazer de Lisboa o centro de distribuição dessas especiarias para toda a Europa.
Em Moçambique, a Ilha, era o ponto obrigatório de passagem de todos os comércios com a Índia, e apesar de pequena, era já povoada por árabes e macuas islamizados. A partir desta visita, Portugal consegue uma pequena parte, cria uma Misericórdia para aí deixar doentes, e ter o seu apoio logístico.
Começa a ganância. Naus cada vez maiores e com mais naufrágios, em poucos anos o custo da “Índia” era superior ao seu rendimento e, além de se endividar, Portugal começou por proibir a instalação de colonos nas terras a que se outorgou possuidor, por terem sido “descobertas” pelas suas caravelas.
Assim que o Brasil se mostrou colonizável, Angola passou a viver do negócio da escravatura. Escravos era a principal “mercadoria” que todos encontravam em África. Além disso, Angola, pouco mais tinha: um pouco de cera, para iluminação e para as igrejas, um tiquinho de marfim, e prata... zero.
Na costa Oriental, tudo quanto Portugal pretendia era ter livre o acesso ao Monomotapa. Ao ouro do Monomotapa! Nada de colonizações. Mas arrogava-se o direito de ser senhor das terras primeiro visitadas e depois daquelas em que, em permanência, se batia com os árabes, ali instalados há vários séculos, para garantirem o comércio do precioso metal, e para combaterem o negócio de escravos.
Além do ouro tinha muito marfim, normalmente enviado para a Índia onde era trabalhado por artistas artesãos. Da Índia saíam os principais produtos que serviam de troca com o nativo moçambicano.
E durante séculos as colônias africanas era “propriedade” dos reis de Portugal, mas limitadas a uma pequena faixa de terra litorânea e a algumas capitanias em portos onde pudesse haver negócio.
Lourenço Marques “descobre” a “Baía da Lagoa, que mais tarde teve o seu nome, mas onde durante uns dois séculos não residia nem um único português ou colono.
Foi assaltada por austríacos, ingleses e franceses, porque ali o negócio de marfim era importante. Mas sempre Portugal reclamava que aquelas terras lhe pertenciam porque fora o primeiro a descobri-las!
Em 1781 o ministro Martinho de Melo e Castro mandou povoar o interior de Sofala, porque na fortaleza só havia uma dúzia de famílias portuguesas, todas já mestiçadas ou de origem goesa. Em 1885 Gungunhana afirmava ao Conselheiro Almeida que a fronteira portuguesa passava a duas léguas de Sofala e para o interior o território era dele.
Em Angola a situação diferia um pouco, mas todo o interior pouco mais gente tinha do que um outro sertanejo como o famoso Silva Porto.
Na Zambézia, Portugal criou uma invenção curiosa: para poder arrecadar mais algum imposto passou a conceder “Prazos”, praticamente sempre a famílias mestiças e/ou também de origem goesa, mas neles não exercia nenhum domínio.
As lutas sustentadas contra os nativos não foram provocadas, até final do século XIX por lutas entre portugueses e africanos, mas por necessidade de apoiar um ou outro régulo afim de manter a paz no interior e assim o comércio poder fluir.
É o olho gordo dos ingleses que querem as melhores regiões de África para expandirem a sua “religião” comercial que provocam grande instabilidade. Estavam em plena revolução industrial e descobriram que só para cima de Moçambique havia mais de quarenta milhões de africanos que não usavam calçado nem camisa, o que pressupunha uma imensa possibilidade de negócio.
A partir daí, quando os portugueses, que tanto em Angola como em Moçambique sempre tinham precisado da autorização dos sobas e régulos para comerciarem, o que implicitamente reconhecia a soberania destes, a Conferência de Berlim, estimulada também pela ganância do rei dos belgas, determina que só ficam com direito a terras em África os países que os ocupem militar e administrativamente.
Virou-se o jogo. Agora eram os sobas e régulos que dependiam de Portugal, e isso foi um imenso desastre.
Portugal que até essa altura não admitia, sobretudo em Moçambique, colonizar esses “seus” territórios, começou a “vendê-lo” em parcelas. E mais, se não admitira nunca estrangeiros, teve que os ir buscar, porque, sempre pobre e endividado, não dispunha de capitais para desenvolver as “novas” colônias.
E assim nascem a Companhia dos Diamantes de Angola, com capitais portugueses (pouquíssimo), mas de maioria belgas, americanos, ingleses e sul-africanos, a Companhia Agrícola de Angola - CADA -  financiada por capitais belgas, em Moçambique as Companhias Majestáticas como a Cia. de Moçambique, Cia. da Zambézia, Cia. do Niassa, Cia. do Boror, todas com capitais estrangeiros, que quando viram que o negócio agrícola não era rentável, começaram a vender trabalhadores para as minas de ouro da África do Sul, e outras várias.
Depois lembrou-se de fundar o Banco Nacional Ultramarino, visando o desenvolvimento colonial, mas que se verificou ter sido um elemento de falência para os incautos e entusiastas que se lembraram de a ele recorrer para a agricultura.
Angola rendeu, sobretudo para os traficantes, enquanto floresceu a escravatura, em Moçambique lutava-se contra esse tráfico. O Brasil já independente teimava em traficar e, como sempre, os contrabandistas e desonestos, conseguem durante muito tempo ainda negociar, vergonhosamente, gente.
No século XIX e Portugal, sempre pobrezinho e mal governado, decide defender as colónias, sobretudo das forças de países europeus, e luta sobretudo contra os alemães.
As poucas e mal pagas e mal treinadas tropas da metrópole, auxiliadas por soldados africanos lutaram valentemente. Foi a época dos heróis, brancos e negros, que procuravam pacificar os territórios que lhe foram “oferecidos”!
O século XX abre os olhos da metrópole e começa a desenvolver-se Angola e Moçambique, já sem recursos a escravaria, marfim, ouro ou a imaginada prata, sempre por iniciativa privada, e não por ação e planificação do “reino”, que nem no pequenino espaço europeu se entendia.
Este surto de desenvolvimento, que cresce de forma importante sobretudo a partir do final da II Guerra Mundial, marca profundamente a economia dos dois países que, logo a seguir ascendiam à sua independência.
O que é inimaginável para qualquer outro povo é que o grande surto de desenvolvimento se dá com o começo da guerra colonial, a partir de 1961.
Em 1974 acabam as colónias.
Os 500 anos tão badalados sumiram na bruma do tempo.
Em todo o lado por onde andou Portugal deixou a sua marca própria de convivência, desde Cabo Verde a Timor, Malásia, Indonésia e Índia, e sobretudo em Angola e Moçambique.
Não foram 500 anos de ocupação ou colonização. É um sofisma chorarem os portugueses pelos cinco séculos que “perderam, assim como o é também dos africanos dizerem que sofreram cinco séculos de dominação.
Ainda hoje, em Angola o nome mais respeitado de governante daquela terra, incluindo todos os que vieram depois da independência, é o de Dom Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho.
Por Moçambique também passaram grandes homens: Mouzinho, Freire de Andrade, João de Azevedo Coutinho, e outros.
Os sofismados “500 anos” foram, isso sim, cinco séculos de muita vivência, convivência, apesar de haver páginas tristes, como sempre houve em todo o lado e, infelizmente, continuará a haver.
Cada vez que se falar em “500 anos em África” devemos celebrá-los como sendo “500 anos a conviver” com irmãos mesmo que por vezes desavindos.
Eu estive por lá pouco mais de vinte.
E como guardo toda aquela África no coração.

12/07/2017



segunda-feira, 19 de junho de 2017



Um oficial em Moçambique - 5

O “nosso” heroi

Nasceu em Alter do Chão, a 3 de Feve­reiro de 1865.
Sentou praça no regimento de Cavalaria 4 em 13 de Outubro de 1880, cursou a Politécnica e passou a aspi­rante da Armada em 10 de Novembro de 1882, sendo promovido a guarda-marinha dois anos depois, a 29 de Setembro. Ainda não era oficial e já andava pela África, fazendo levantamentos no rio Muíte, defronte da ilha de Moçambique. Comandou, como guarda-marinha, na­quela colónia, os iates de vela “Luzio” e “Tungue”, e depois as canhoneiras “Maravalt e “Cherim” da esquadrilha do Zambeze, o vapor “Auxiliar”, e mais tarde a “Liberal” e o transporte “Salvador Correia”. Em 1885 combateu o régulo Sangage, que avassalou. Contava, então, vinte anos. Continuou a sua acção no Moguinquale e no Infusse.
Comandou a “Cherim” quando Serpa Pinto chegou à África com a sua missão encarregada de operar pelo lado do Zambeze, Chire e Ruo, nas vésperas do ul­timato. O fim da expedição consistia em manter o predo­mínio português naquelas regiões onde os ingleses iam captando alguns régulos e entre eles o de macololos.
Em 1889 foi encarregado de reduzir aqueles povos à obediência, em Chilomo, onde o gentio se entrinchei­rara. A tripulação da “Che­rim” compunha-se de dez brancos e trinta e quatro negros, que chegaram para vencer os rebeldes. O moço comandante viu o seu chapéu varado pelas balas. Os indígenas admirados pela vitória, espalharam a sua fama e passou a ser conhecido por Musungo Icuro ou M'Pezene. Tomou a seguir as terras de Massea e Katunga; aprisionando o filho do soba e logo o régulo Gambi, estendeu o domínio português do Ruo ao Milange.
Portugal celebrou as suas vitórias e o nome do bravo tornou-se ilustre. Comandara vinte ações militares. O consul inglês Johnston, declarou que os macololos estavam sob a protecção britânica e pretendeu impedir o avanço dos expedicionários, o que não conseguiu. Nasceu desta questão o ultimato. O seu nome ressoou mais intensamente e o Parlamento proclamou-o
“Benemérito da Pátria”, tinha vinte e quatro anos!
Paralisadas as operações em virtude das exigências britânicas, ficou comandando as forças a fim de manter a neutralidade. Nomeado para vingar no Mataca a morte do tenente Valadim, cumpriu o seu dever e, no ano seguinte, comandou a expedição denominada Júlio de Vilhena, que bateu o Maconga e logo apaziguou os povos revoltados de Muíra, bongas e baruístas. Em 18 de Novembro de 1891 ficou gravemente ferido no ataque à aringa do Mafunda, em virtude de tiros e da explosão dum cunhete de pólvora. As suas forças sofreram mais de trezentas baixas; chefiou a retirada em trágicas cir­cunstâncias, pois tinham morrido dois belos combatentes, Barbosa de Meneses e Carlos Paiva e o capitão Andrade estava tão ferido como ele. Durante dois meses esteve em perigo, tendo o corpo em carne viva. Ia ficando cego, mas logo que melhorou pensou em resgatar o desastre. Mostrara-se tão bravo soldado como hábil marinheiro e nos seus comandos de frágeis embar­cações demonstrou tanto estas qualidades que os seus camaradas lhe votaram grande admiração. Cognomi­naram-no “João Trabalhador”, tal era a sua faina. Navegou no Zambeze em péssimos barcos, mas destemidamente.
Em 17 de Dezembro de 1896 foi comandar volunta­riamente a companhia de guerra de marinha que ia combater os namarrais. Ganhou a medalha de prata de Bons Serviços, que se juntou ao oficialato da Torre e Espada e à insígnia de cavaleiro de Cristo, recebidas em 1891. Mousinho escrevera a seu respeito, ao propô-lo para aquela condecoração: “pela maneira como comandou as forças engajadas na Nagüema, Ibrahimo e Mucuto Muno e pela boa ordem e disciplina que manteve na sua companhia”, e nomeou-o governador da Zambézia.
Começara uma revolta com assassínios nas proximi­dades do Sena e tão seguramente os indígenas esperavam vencer, que chegaram a atacar, em Tete, uma lancha carregada com material de guerra e, apoderando-se de duas peças “Hotchkiss”, dispuseram-se a maior resis­tência. Era em 25 de Maio de 1897; quatro dias depois saiu de Sena à frente duma coluna de cento e cinquenta soldados indígenas e dois mil cipais irregulares de Maganja, e em 4 de Julho atacava a aringa de Mayuca, que foi defendida com a artelharia tomada no rio Tete, e a qual recaiu em poder dos portugueses. Foram arrazadas doze aringas após vinte combates.
No ano seguinte já estava em Maganja da Costa a castigar as ofensas feitas pelos cipais desta região a Aires de Ornelas e o trucidamento do l° tenente da Armada Simeão de Oliveira e de oito angolas que ali o tinham acompanhado em 1886. Tomou a aringa, subjugou o Mocuba e o Robe e não ocupou Angoche porque demorou a autorização pedida a Mousinho, governador geral de Moçambique, que o propôs para a comenda da Torre e Espada.
Quando o poderoso gentio do Barué se revoltou, muito animado por suas anteriores proesas, foi-lhe entregue, em 19 de Abril de 1902, o comando da expedição contra eles. Arrazou cerca de noventa aringas e entre elas a do célebre Inhachirondo, na qual fora morto um grande amigo dos portugueses, o índio Manuel António de Sousa, capitão-mor de Manica. Aprisionou-se o Macombe e o seu chefe de guerra, Combuemba, pereceu. Recebeu a medalha “Rainha D. Amélia”, e a Geografia entregou-lhe a sua medalha de honra.
Por decreto de 9 de Dezembro de 1904 foi nomeado governador geral de Moçambique, e, dois anos depois, adido à Comissão de Cartografia, tendo dirigido acertadamente a província que lhe fora confiada. Fez parte da comissão de reforma administrativa das províncias ultramarinas, e recebeu a nomeação de vogal da Junta Consultiva do ultramar.
Após a morte de D. Carlos, aceitou o difícil cargo de governador civil de Lisboa, e, desde 11 de Março até 14 de Maio de 1909, ocupou a pasta da Marinha, cargo que voltou a exercer em 22 de De­zembro daquele ano, demitindo-se em 26 de Junho de 1910.
A queda da monarquia encontrou-o em Sintra, pois residia naquela estância. Foi para Mafra, onde o sobe­rano se refugiara. Dispôs-se logo a defender o paço com as forças que encontrou, apesar de não lhe pare­cerem muito seguras em virtude das hesitações do seu comandante. Aconselhou a partida de D. Manuel II com a família real para o Porto, afirmando-lhe que iria ter à capital do Norte.
Foi lugar-tenente de D. Manuel.
Após a morte de Sidónio Pais, em Janeiro de 1919, estava doentíssimo no hos­pital de S. Luiz, quando ali o foram buscar para, com a sua presença, dar valor ao movimento monárquico de Monsanto. Pensou num ataque mais directo e decisivo, que Aires de Ornelas evitou, e o resultado foi cair nas mãos dos vencedores, comandados pelo seu antigo camarada, e companheiro nas lutas em Moçambique, o capitão-tenente Afonso Julio de Cerqueira, a cuja grandeza de ânimo se deveu a salvação dos presos. Esteve recluso na Penitenciária, em S. Julião da Barra, no Laza­reto e na ilha da Madeira, beneficiando da amnistia e voltando à política como julgou do seu dever.
Depois da morte de D. Manuel aceitou o cargo de lugar-tenente do pretendente, D. Duarte Nuno.
Além de grande oficial da Torre e Espada e de Aviz, por serviços distintos, recebeu a carta de conselho, as grã-cruzes de Cristo e do Império Colonial, medalha de Filantropia, medalhas de ouro de bons serviços no ultramar com as barras comemorativas das suas cam­panhas. Oficial da Legião de Honra e grã-cruz da Es­trela Brilhante de Zanzibar, comendador de Mérito Naval e Militar de Espanha. Foi ajudante de campo de D. Carlos e de D. Manuel, deputado em 1900, sena­dor monárquico, pelo distrito de Portalegre, em 1925 e 1926.
Quando governou Moçambique recebeu as visitas dos duques de Connaught, em 1906. oferecendo-lhes magní­ficas festas e o celebrado batuque de vinte mil guer­reiros que produziu assombro.
Não foi apenas decorativo o seu período governamental; fez a ocupação, com Massano de Amorim, das capitanias de Angoche e Macuama, como já ocupara mais de me­tade da área da Zambézia quando ali estivera, e tratou da reforma administrativa da província.
Publicou: Do Níassa a Pembe, Relatório da Campanha do Barué, em 1902, O combate de Macequece, as Duas Conquistas de Angoche, etc.
Este homem chamou-se
João de Azevedo Coutinho.

Abaixo a sua assinatura, quando estava preso em Lisboa

Muito jovem, nas suas campanhas em Moçambique.
Segundo um dos seus netos, grande amigo meu, o avô teria
1,90 de altura e era robusto como um carvalho!


Vamos continuar com assuntos moçambicanos, mas, por ora deixemos o “nosso” heroi descansar.
A verdade é que gente desta estirpe parece que desapareceu. Pelo menos em Portugal !!!


Junho 2017

Junho 2017

segunda-feira, 12 de junho de 2017



Um oficial em Moçambique - 4
Grande  Milando*

Aquele cargo com o seu título eufônico de Capitão-mor era realmente interessante pela variedade e amplitude das ocupações, enquanto resistiu o espirito que Mouzinho lhe insuflara.
Em Angoche, por muito afastado de Mo­çambique e por haver substituído, com assinalada vantagem, o ridículo governo que vegetara no Parapato entre 1861 e 1897, constituía uma espécie de pro consulado à romana muito de apetecer a gente moça com ombros e animo para suportar o fardo.
O capitão-mor, Gavana, como lhe chamavam os negros, era tudo: suprema autoridade e primeiro obreiro.
É claro que na maior parte das suas quase ilimitadas atribuições tinha a competência mais ou menos regulamentada pelas leis do reino e da província - na medida do aplicável, mas havia uma esfera, inteiramente por codificar, que pelas suas instruções lhe era tão especialmente recomendada como deixada por inteiro à discrição do seu tino: era de juiz, único, em pleitos cafreaes.
O capitão-mor conhecia e comungava fielmente nas ideias gerais do comissário-régio criador do cargo e que fora seu chefe supremo assim como seu comandante-em-chefe. Achavam-se elas consubstanciadas nas modelares instruções dadas por El-Rei D. Sebastião ao Viso-Rei na Índia, Dom Luis de Athayde.
Fazei muita cristandade. Fazei justiça. Conquistai tudo quanto poderdes. Tirai cobiça dos homens e favorecei os que pelejaram. Tende cuidado com a minha fazenda. E para tudo isto vos dou meu poder. Se o fizerdes assim, muito bem, far-vos-hei mercê: e se fizerdes mal mandar-vos-ei castigar. Se al­guns Regimentos forem em contrário destas cousas suponde que me enganaram e por isso não haja nada que vos estorve isto.
E se à primeira máxima a sua condição de mísero pecador decerto o impediu de dar brilho, da última teve de socorrer-se constantemente, desde o dia da posse, no desem­penho dos seus deveres como julgador, tão inaplicáveis se lhe manifestaram os diversos códigos metropolitanos promulga­dos pelo liberalismo reinol do século XIX e logo mandados observar na África adusta.
E meteu-se a estudar afincadamente a Charia (Direito) macua. Suleimane-Issufo, o octogenário irmão do sultão Hassani e de Mussa-Quanto, fora o seu primeiro professor, logo nos tempos de simples comandante da Maravi.


Que maravilha de “máquina de guerra”! E que conforto!

Cinco anos depois, elevado a capitão-mor, já falecido o velho Suleimane, valeram-lhe o Mualimo (Bispo) Xá-Daúde e outros. Nem lhe faltava tempo para estudar e anotar princípios fundamentais, porque no transcurso de cada doze meses os cinco da época das chuvas de todo impediam passeios pelo mato. Dois anos de estudo e prática va­leram-lhe nesse capítulo certa nomeada pelo sertão, até ao ponto de um belo dia vir de Sangage uma deputação de notáveis convi­dando-o a ouvir o velho pleito do xecado e a sentenciar sobre a matéria arrumando o caso de uma vez para todas. Aceitou, como era seu dever, e trasladou-se em correição para o posto militar durante nove dias, que tanto durou o julgamento da causa. Por terem algum interesse, visto darem uma tal ou qual ideia da formidável divergência existente entre a Charia tribal macua e o Direito europeu se resumem aqui as alegações procedentes recolhidas em nove fatigantes audiências de sol a sol.
Era o que se chama na Contra-Costa um “milando grande”, arrastado durante gera­ções seguidas e recheado de incidentes de toda a casta que corriam de lés-a-lés o teclado da jurisprudência. Na sua origem assentara sobre uma questão dinástica, causa pri­mária de conflitos máximos entre povos. Pertencer o xecado de Sangage ao Uazir Mussa-Piri (Vizir) ou ao usurpador Momade-Omar, era o nó górdio. Cortado este, fácil se­ria liquidar perante a Charia a vasta série de assaltos, morticínios, roubos, raptos e ofensas intertribais praticadas du­rante mais de cem anos pelos partidários de um ramo dinástico contra o outro.
Momade-Omar, nascido e educado entre os brancos do Parapato, como o haviam sido já, em Moçambique, seu pai e seu avô, co­nhecia pela observação do seu atento espí­rito de velhaco as noções gerais do Direito europeu reveladas pela conduta correntia da gente do Rei.
Querendo agradar, “pintou-se de branco” na defesa do seu pleito, alegando direitos, muitos direitos, e negando a cadeia de deveres que tanto aperta e man­tém a Charia macua.             
A sua primeira negação em defesa própria foi a do “princípio de responsabilidade”, ba­silar entre os cafres por ser o alicerce do or­ganismo tribal. Mussa-Piri não teve dificul­dade em rebater-lha expondo, com aplauso de todos os ouvintes, que o xecado exercia autoridade sobre várias tribos, cada uma das quais estava subdividida em regulados, e es­tes em povoações compostas por agrupamen­tos de famílias; e que assim como os filhos eram responsáveis para com o pai pela sua conduta pessoal, assim este respondia perante o chefe da povoação pela sua família, os chefes de povoação para com os seus régulos e estes perante o xeque, chefe supremo do povo. E exemplificou com o caso de furto (Momade-Omar tinha praticado muitos) mostrando na fase inicial das investigações o local do crime e o ponto de partida, tornando responsável o chefe da família ocupante do terreno até que prove a saída desse terreno da cousa furtada, quer por mostrar para onde ela foi, quer por patentear o seu rasto; e salientando como pela prova de saída feita de grau territorial em grau territorial - local ocupado por uma família, área da po­voação, território do regulado - sempre es­teve assente na Charia macua o “princípio da responsabilidade” como cavilha mestra do edifício tribal. Eh-Eh; Aiô-Aiô; Aíomai - aplaudia a assembleia,
E confortado pela impassibilidade do branco, aquecido pelo auditório, reforçou: Que não, que o cafre não tem direito algum a fa­zer o que lhe apraz. Que o macua, como fi­lho, sempre pertenceu absolutamente ao seu régulo como pai da tribo, em tudo e para tudo, ele próprio e até a sua machamba (horta) pois nem tem direito a tocar no milho ou no feijão colhido senão após o Festival das Colheitas, de centenária tradição, depois de o régulo ter apartado as quantidades pre­cisas para satisfazer os espíritos dos antepas­sados e para as compras de armamentos ne­cessários à defeza da tribu. Que seria da sal­vação desta se a gulotonaria de um Momade-Omar lhe permitisse faltar ás suas obri­gações tribais? Sem prosperidade e seguran­ça para a sua tribo, o macua não teria defesa alguma, visto não haver Charia que re­gulamente as relações entre tribos, as quais sempre se têm por inimigas umas das ou­tras. Não tinha Mussa-Quanto uma vez chegado mesmo a proibir que as pessoas morres­sem sem sua licença? Porquê? Porque antes deste Momade-Omar também naquele tempo tinham aparecido heréticos do mesmo estofo a enfeitiçar gente fazendo-a morrer, quando todos os homens válidos eram poucos para a guerra contra a Imbamela e quando todos muito bem sabem pelas revelações do Liputu (Satanaz) que as pessoas só podem morrer de maneira natural por velhice ou na guerra - e nunca sendo moças senão por efeito de feitiçaria maligna apontada contra a grandeza e contra a existência da tribo, tão dependen­tes do número e da força dos seus homens.
E volvendo-se acusador, Mussa-Piri exprobava a Momade-Omar todas as suas com­provadas malas-artes. Para achincalhar a sua autoridade de xeque, Momade tinha-se oposto a que a ele Mussa fosse pago pela gente do Etagi, a indenização devida pela fratura do braço de um estafeta seu, persuadindo essa gente a indenizar diretamente o pró­prio ferido. Jamais se vira semelhante atro­pelo dá Charia. O estafeta era seu, mesmo dele, como membro da sua tribo, e a indenização pertencia-lhe como único dono do homem que ficara inutilizado e de todos os demais homens. O contrário seria uma imo­ralidade, um incitamento ao egoísmo, uma ofensa à tribo.
Eh-Eh; Aiô-Aiô; Alômai - apoiava a assem­bleia. E seguiu-se, com muitos pormenores, o rosário de todas as culpas do réprobo. A sua atitude em casos de propriedade pes­soal - favorecendo o espírito da ganância tão antagónico do ideal de fraternidade na tribo, pois só à custa do seu semelhante e roubando-o ou explorando, o um homem pode enriquecer enquanto os outros con­tinuam desprovidos, A sua oposição crimi­nosa, e ruinosa, contra o sistema miliciano de defesa da tribo pela imposição da serviço militar obrigatório a todos os homens validos - e a sua propaganda favorável às guardas de corpo permanentes, á moda dos brancos, mantidas na ociosidade à custa da tribo mesmo em tempo de paz.
As suas infrações constantes à Charia da caça - caçando só para ele, como as feras, a pouca caça comestível restante, que o costume imemorial mandava ser reservada às grandes caçadas coletivas depois das colheitas, em benefício de todos. Ofensa máxima - aquela sua prática de se apropriar de terrenos, absorvendo e vedando os melhores, os mais produtivos, com prejuízo da única dona do solo, que o nacionalizara empossando nele somente o régulo, para que este, com justiça igual, confiasse a cada qual aquela área que por si próprio e pelas suas mulheres pudesse cultivar, e não mais. E suma injúria - a do apelo para os tribunais brancos em questões da alçada judiciária tribal, sujeitando todos os demais às iniquidades do Direito europeu, em tudo antagônicas da Charia destruindo a vera essência do viver social macua. Ao branco, ao “filho do Rei”, só é licito recorrer em casos como aquele sob julgamento, que vão além da Charia., E, mesmo assim, só não desconvém fazê-lo quando, como naquelas circunstân­cias, visivelmente o Rei mandou para Angoche um “filho” com ordem de acatar a Charia.
Eh-Eh; Alô-Alô; Alômai - apoiavam todos, amigos e inimigos do Mussa, estimulados pela invocação da boa doutrina milenária.
Momade-Omar ainda replicou, outra vez ferindo a nota dos direitos, de muitos direi­tos, de todos os direitos ouvidos nas cantinas do Parapato e de Moçambique a outros de­senraizados da tradição tribal. E se não citou leis promulgadas em Cortes, se não in­vocou a letra dos venerandos Códigos do liberalismo reinol, porque a tanto não che­gava a sua sabença, não deixou de referir de­cisões tomadas à face do Direito europeu pelo comando da polícia e pelo julgado municipal nos dias, que ele considerava gloriosos, do antigo Governo de Angoche, anteriores àquela ominosa ditadura militar instituída por Mousinho de Albuquerque na pessoa do capitão-mor, a quem ele errando todas as passadeiras, supunha suspirando, também, pelo título antigo e mais pomposo de senhor governador. E para mais “engraxar” pedia “indulgência para aqueles brutos do mato” que nunca tinham tido a fortuna de viver, como lhe acontecera, em localidades administradas diretamente pelos brancos, onde havia muitos, todos gente grande, um governador, outros secretários, outros juízes, outros es­crivães, outros administradores dos concelhos, outros comissários da polícia com secretarias e livros e papel e tinta. Ao contrá­rio de Mussa-Piri, não falava voltado para o auditório, e não tinha um só Eh-Eh; Aiô!Aiô; de aplauso.
É claro que houve mais, muito mais dis­cursos de parte a parte.
Terminadas as alegações, ao nono dia, o branco, cheio de sede, antes de proferir a sentença pediu chá, que tomou com vagar em presença de toda aquela multidão abso­lutamente silenciosa - talvez por imaginar que a inocente libação fizesse parte do ritual judiciário, ou fosse mezinha inspiradora de justa decisão.
A sentença conformou-se com a Charia macua: Momade-Omar, com enorme surpresa sua, foi desapossado do xecado que usurpara, proibido na sua pessoa ou na dos seus des­cendentes de reabrir a contenda, e dester­rado para Moçambique com prisão na velha fortaleza quinhentista de S. Sebastião. Se­gundo a Charia, foram também resolvidos to­dos os crimes, como tal considerados à face da lei cafreal, cometidos durante a luta di­nástica e à sua sombra.
Para os meros delitos políticos pratica­dos de parte a parte foi decretada amnistia e perpétuo silêncio. O Uazir Mussa-Piri foi reintegrado no seu poder de xeque e prestou excelentes serviços, dedicados e leais.
Parece que mais tarde voltaram a prevale­cer os Códigos do liberalismo reinol sobre a Charia e que o Mussa foi destituido o que se afigura erro, mas não surpreenderá nin­guém, pois destas alcatruzadas está cheia a nossa história - e a dos outros também.

Quem foi este Gavana?
Veja o próximo e último “capítulo”!
* Milando: em Angola seria “Grande Maca” e em português “Grande problema”!

Maio, 2017






Maio, 2017


segunda-feira, 5 de junho de 2017


Um oficial em Moçambique - 3
Salvo pela Monogamia

M’cuépêre-muno, senhor de Mihéhé, devia medir 1m, 90 e pezar na balança os seus 110 kilos.
Em 1904 andaria pelos 35 anos e cogno­minava-se a si próprio, alternadamente, de “Macua-muno” e de “Macuana-muno”, o que queria dizer rei dos macuas ou rei da Macuana. E, não exagerava muito porque de facto era o mais poderoso régulo de toda aquela vasta região, quase como Portugal in­teiro, exigindo e recebendo preito de vassa­lagem em larguíssimo círculo.
Nunca tinha visto brancos: há 5 anos* todo o sertão entre a Zambézia e os territó­rios de Cabo Delgado estava inteiramente por penetrar. Mas mandara enviados a Moçambique, um deles fora filado, alistado, e em três anos de serviço militar nada volun­tário, observara muito: de regresso à terra havia sido nomeado (como diremos?) almo­xarife-encarregado-do-depósito-de-material-de-guerra, e era o grande informador de M’cuépêre no tocante aos usos e costumes, especialmente militares, desses fenomenais homens brancos, dos Alungo, isto é, dos portugueses.
Ora começou chegando a M’cuépêre o boato de que em Angoche estava um Gavana (capitão-mor) que andava pelo mato, umas vezes com gente de guerra em expedições militares, mas as mais delas a passear assim mesmo e sozinho.
A princípio não queria crer, e com razão porque o caso não tinha precedentes conhecidos em recordação de velho ou sequer por tradição mais antiga. Mas como os boatos se acentuassem mandou verificar e certificou-se.
Tanto bastou para logo arder em desejos de ver o branco. E informado de que este se dava com o seu amigo Mussa-Piri, a quem mesmo reintegrara no xequado de Sangage, serviu-se do velho xeque como intermediário para expedir um convite de visita.
O emissário voltou logo com uma sur­preendente aceitação e com a notícia de que o Gavana não tardaria meia-lua a chegar. E foi uma azáfama de preparativos.
Na raia da linda terra de Mihéhê, logo ao desembocar da densíssima floresta de M’lay, o branco teve a surpresa de se ver esperado pelo chefe do estado maior do grande régulo a desejar-lhe as boas vindas e a pôr-se à sua dis­posição como uma espécie de oficial às ordens.
Chegados à povoação, o Gavana foi enca­minhado para uma grande palhota, nova em folha e retangular, com telhado de duas águas, construída de propósito, à imitação das casas de Moçambique*, única no seu gé­nero, dotada de quintal privativo e rodeada de palhotas redondas para a sua gente e montada.
M'cuépére-muno não estava presente. Mas o seu chefe do estado maior, renovando as boas vindas em nome do amo, explicou que o régulo presumia haver o branco chegado fatigado, após dez dias de marcha e seis horas na sela aquela manhã, pelo que não im­portunava logo ao apear; que comesse e descansasse em sossego, e o mandasse chamar quando lhe aprouvesse. (Andou entre 250 e 300 quilômetros para o interior!)
Luiz XV não teria procedido com maior requinte.
Juntando os atos ás palavras, o favorito do régulo fez um sinal: e logo começaram desfilando em frente do Gavana, grupos de escravos ajoujados com arroz, farinhas de milho e de mandioca, frutas, cabras, galinhas, ovos, peixe do rio, toda a ucharia local. Chegavam, ajoelhavam, arriavam os presentes, batiam as palmas três vezes seguidas, e seguiam ao seu destino.
O terreiro da povoação em cuja orla o branco fora alojado, devia andar pelo tamanho do Terreiro do Paço, em Lisboa (uns 20.000 m2 !). No meio uma pa­lhota circular enorme, erguendo a sua cúpula à altura de um segundo andar, era a do régulo; na periferia talvez meio-cento de outras palhotas pequenas, e por detrás des­tas, em toda a volta, aquela bem conhecida faixa de mato, densa, mas de pequena lar­gura e de terra remexida, cujo letreiro, se o tivesse, poderia limitar-se às simbólicas ini­ciais: W.C. Para lá desse mato as machambas (hortas) com mandioca de 4 metros de altura e milho capaz de esconder um lanceiro montado.
À primeira indicação do branco, M’cuépêre-muno compareceu logo, com imensa pompa, acompanhado por todos os seus di­gnitários e, também, por meia dúzia de moleques e outras tantas molecas já destina­dos, desde a mais tenra idade, a acompa­nhar para o outro mundo o seu senhor quan­do lhe findasse a preciosa vida.
Cumprimentos, apresentações, discursos, seguiram-se até, em plena Macuana, num pro­tocolo nada dissemelhante daquele que rege os encontros de chefes de estado na Eu­ropa.      
A salva de artilharia que o “almoxarife” muito recomendara a M’cuépêre-muno, pelas recordações do que observara na fortaleza de S. Sebastião em Moçambique, sofreu percalço e ficou limitada a um só tiro. Foi disparada por uma daquelas pequenas peças que ainda a esse tempo artilhavam os pangaios mujojos de Mascate; mas como o «almoxa­rife» a atacara de pólvora até à boca, o recuo excedeu a resistência do velho re­paro que todo se esbandalhou ao dar en­contro a um morro de muchém, formiga térmite.


Verdadeiro sucesso de novidade, para o régulo e para todo o seu povo, tiveram três cousas: a montada (velhíssimo macho que fizera parte de uma expedição enviada da metrópole 3 anos antes), a Browning, que despejava 8 tiros com um só puxar de gati­lho, e os garfos com que o branco segurava os alimentos sem precisar tocar-lhe com os dedos.
A própria pessoa do branco impres­sionou aquela gente, como não podia deixar de ser, que nunca tal vira. Mas as damas não se agradaram e bem lho fizeram sentir com remoques—“olha como ele é feio, que cor de pele, parece uma galinha depenada” - quando, escondidas, o examinaram da outra margem, na ocasião em que ele, despreve­nido, tomava banho no rio, com agua só pelo joelho não aparecesse algum jacaré.
Os motivos do convite de M’cuépêre-muno tinham sido múltiplos e complexos, como sempre acontece com as determinantes da ação humana, na Europa como na África adusta. Os objetivos políticos, comerciais e militares, transpareceram logo às primeiras palavras e foram tratados adequadamente, primeiro em conferências secretas e depois em assembleias magnas, durante os quatro dias da visita. Mas o branco pressentia que no espírito de M’cuépêre-muno ainda havia mais um propósito que até então não fora desvendado: e maravilhava-se de qual seria.
A revelação veio na última tarde, à hora do cocktail que foi substituído por uma ópti­ma cerveja de milho fino (pôbe) tomada na grande palhota do régulo, e importou na confidência dos grandes apuros em que vivia aquele homenzarrão, senhor incontestado de toda a Macuana.
O caso, realmente, apresentava-se tão difícil que era insolúvel. M’cuépêre-muno tinha 39 mulheres, e este batalhão de beldades tor­nava-lhe a vida um inferno. Não fora por sua culpa nem gosto que tanto bigamara. Obrigações do cargo. Para melhor firmarem com ele tratados de paz e amizade, todos os outros régulos das redondezas o haviam que­rido para genro, e o dilema havia-lhe sido posto diplomaticamente numerosíssimas ve­zes: ou paz para o seu povo e mais uma mulher às costas, ou a sua independência conjugal e o país a ferro e a fogo. Como bom pai da sua gente submetera-se, sucessivamente: eram já 39 - e tinha motivos para recear que ainda viessem a ser mais...
“Não poderia o branco valer-lhe? Levar-lhas quase todas, deixando-lhe só duas ou três? Podiam combinar aquilo particular­mente entre eles e anunciar depois pelo ser­tão inteiro que era “ordem do Rei” - à qual todos tinham de submeter-se, a começar pelo Gavana e por ele próprio M’cuépêre-muno”. 
“Anda, dize que sim. Pois não és tu muana-a-rey o filho do Rei? Podes falar em nome de teu pai.”
Ao Gavana valeu naquela conjuntura o “almoxarife” de M’cuépêre-muno, o tal que durante três anos serviu como soldado em Moçambique. Fê-lo vir, e sem lhe dizer por­quê obrigou-o a responder à pergunta clara e categórica – “se vira na fortaleza algum branco casado com mais de uma mulher”. O “almoxarife”, que chegara a impedido do coronel-comandante da praça de S. Sebastião, na Ilha de Moçambique, e que por isso observara de perto o viver conjugal dos brancos, disse a ver­dade, afirmou e jurou a monogamia euro­peia.
assim aquela primeira visita não con­cluiu por um desaguisado.


* Refere-se a 1899.
** Da Ilha de Moçambique, de duas águas. As do interior, Norte, de Moçambique eram circulares.

Fonte: “Escola de Mouzinho” – Eduardo Lupi, Lisboa - 1929

21/05/2017


segunda-feira, 29 de maio de 2017


Um oficial em Moçambique - 2
Resposta à letra!

Dos três chefes negro-árabes que no interior de Angoche durante meio século suces­sivamente se opuseram, entre 1855 e 1903, à soberania portuguesa, cada um tinha o seu feitio. Mussa-Momade-Sabo, por abreviação Mussa-Quanto, o primeiro, grande político e hábil general, manifestara-se realmente magnânimo. O segundo Üsseni-Ibrahimo, ou «Mènhênhuà», deixara recordação da sua crueldade. Farelay, o terceiro e último, era, acima de tudo, insolente. E quando se certificou de que o novo capitão-mor, ape­sar de vir expressamente do reino, não trazia soldados, para logo de entrada o achincalhar e assim o impedir de ganhar prestígio, encarregou o Muápála-muno, em audiência pública, de dizer-lhe “que preparasse a melhor cama na Residência porque ele Farelay dentro de poucos dias nela se iria deitar”.
O Muápála-muno, pequeno régulo situado a trez legoas da vila, não, ousou, é claro, levar o recado ao Parapato (que depois se chamou Angoche, António Enes e hoje é Angoche). Mas sabendo que o recém-chegado todas as tardes saía a cavalo e prevendo que breve o veria em Nhamuápála, não se esquivou á incumbência e prometeu ao Farelay que, se tivesse ensejo não deixaria de comunicar a mensagem. E, se bem o disse, melhor o fez. Como o capitão-mór, de facto, lhe aparecesse em casa logo no dia seguinte, Muápála-muno, habilissimo diplomata, a meio da palestra, dando informações sobre o Farelay, repetiu com o melhor dos seus sorrisos, a insolência do rebelde.                              
Aos 28 anos a paciência não é muita. Na volta de Nhamuápála ao Parapato o capitão-mór foi todas aquelas trez légoas cogitando na melhor maneira de responder ao desafio.
Amor com amor se paga. O Farelay mandava-lhe preparar a cama para nela se deitar? Não lhe enviava resposta alguma. Mas iria fazê-lo levantar da sua própria. E iria já amanhã, visto não haver tempo para partir hoje mesmo. Se o prendesse seria ópti­mo; liquidava-se a campanha e a contenda. Se o matasse, as consequências seriam às mesmas. Se ele escapasse, ao menos fica­ria desprestigiado.
Havia outras probabilidades contrárias, mas com essas não se prende gente de espada.
Da tropa, havia um alferes e vinte praças. Era pouca gente para visitar tamanho sobe­rano na sua capital. Mas os novos cipaes já com quinze dias de recruta intensiva, aumentavam a hoste. E como se tratava de um ataque de surpresa, a fazer de madrugada, após uma marcha de noite, o adversário não teria tempo de concentrar o êcôto (brigada) de 300 homens que sempre o acompanhava.


Parapato, hoje Angoche; 
no retângulo, localização aproximada da aringa do xeque Farelay
(Clique na imagem para ampliar)

Amadurecido o plano, guardou-o para si. Do Parapato a M’zeia eram só 7 légoas e o telégrafo em África é rápido nas transmissões. Tinha ido sózinho a cavalo, a Nhamuápála. Ninguém mais ouvira o insulto. Ninguém, por­tanto, nem mesmo à última hora, poderia prescrutar-lhe o desígnio. Só às cinco horas da tarde no dia seguinte começou a expedir as ordens e ainda assim com a maior reserva. Sob se­gredo, determinou ao capitão comandante da 6a companhia que às 9 e meia da noite lhe mandasse apresentar o alferes com todas as praças disponíveis: 20 homens, como ele já sabia.
Obrigado moralmente, por compromisso anterior para com dois brancos, o tenente-secretário e o destemido chefe da alfândega a levá-los consigo quando pela primeira vez saísse para o mato em qualquer empresa, convidou-os para jantar e os preveniu.
Para despiste resolveu fazer parte do trajeto embarcado, pelo Sucubir, (que desagua em frente a Angoche) mas dizendo que ia para o Sul.
A maré enchia até à uma hora, as lan­chas estavam a nado na testa da ponte, os remadores dormiam no quintal: por aí não haveria empeno.
Às oito mandou chamar Üsseni-Câximo, comandante dos cipaes, e ordenou-lhe que reunisse imediatamente metade da sua gente, outros 20 homens.
Tudo saiu certo, e ás dez horas a expedi­ção largava em duas lanchas e um escaler velejando para o Norte: 4 brancos, 4 monta­das, 20 soldados landins, 20 cipaes, nenhuma bagagem.
Primeiramente navegou-se, depois marchou-se toda a noite sem ver ninguém, que em África não há outros noctívagos senão feras. Às 5 horas da manhã o primeiro cla­rear da alvorada permitiu ver na frente a três quartos de légoa, a colina da M’zeia com a povoação do Farelay na crista. Encurtou-se o passo na testa para facilitar a reorde­nação da coluna, fatalmente alongada durante a noite a despeito de todos os cuidados. Mal se tinha normalizado a marcha, ouviu-se se de repente o clássico sinal do alarme macua, o báu-áu-áu um grito agudo entrecortado pelo bater da palma da mão contra os beiços. Era uma escrava que descendo a colina a buscar água, ouvira no silencio da manhã o tilintar das armas e a estrupida dos cavalos.
A surpresa estava frustrada. Espada alta, os quatro brancos montados carregaram encosta arriba direitos á povoação, seguidos pela gente de pé a marche-marche, O báu-áu-áu estrugia de todos os lados. Soou uma palapata. Berravam cabras. Estalaram os primeiros tiros, poucos porque o êcôto estava disperso nas massassa (abrigos de campanha).
As palhotas foram encontradas vazias. No terreiro da povoação, aparvalhados, um velho e duas velhas. Já se ouviam mais tiros. Urgia concentrar. No terreiro fez-se a reunião. Seguiram-se: o saque, o incêndio, e o início da marcha de regresso.
Duas légoas ao sul da M’zeia, em terreno bem aberto e à beira de um regato, armou-se o bivaque para merecido descanso, das 8 horas da manhã às 3 da tarde. Cozinhou-se e dormiu-se por quartos, metade da gente, brancos e pretos, sempre em armas. Mas não houve novidade. Só mais tarde se veio a sa­ber que o fator psicológico da paralisia na reação fôra precisamente o contraste fla­grante entre a propaganda depreciativa do novo capitão-mor, que o Fareley fizera, e a conduta ousada dos portugueses. Tanto o caudilho rebelde, como os seus sequazes, fica­ram tão apreensivos com o receio de uma repetição do caso, sem precedentes, que nunca mais, durante três anos, consentiram em se quedar a menos de três dias de mar­cha de quem «saltava de noute como o tigre».
E como o capitão-mór, no decurso do seu governo, retraçou o território com itinerários que excederam cinco mil quilómetros, muitas e alongadas foram as marcas de quadrilha que o seu fusco opositor deixou, ora avançando em direção do litoral, ora retirando até ás fronteiras do Nyassalanda.  
A pequena coluna no seu regresso teve o último alto horário em Nhamuápála. Paragem de um quarto de hora; todos estavam moídos.
Ao preparar para montar, o capitão-mor, que o Muápála-muno tornado solicito não abandonava um momento, virando-se para o régulo observou-lhe: «Dize ao Farelay que a sua quitanda não prestava para nada, por isso a queimei; a minha cama é muito melhor, que venha, pois, deitar-se nela, que eu cá o espero no Parapato. E se lhe fizerem falta a cabaia, a bura e o alfio que ele deixou quando fugiu de mim semi-nu para o meio do mato, que vá lá buscá-las também, à Residência, porque fui eu próprio por minhas mãos que as filhei na sua palhota.»
A minúscula força poz-se novamente em marcha e entrou no Parapato depois das 10 da noite.
O seu comandante não sabe bem como correram as cousas nas 3 légoas daquela última parte do trajecto. Disseram-lhe depois, o tenente-secretario e o chefe da alfândega, que ele tinha vindo todo o tempo dormindo a sono solto, mesmo a cavalo; e que, para lhe evitar uma queda, no caso de se desiquilibrar, tinham cavalgado a seu lado estribo contra estribo.
Aos 28 anos essas cousas acontecem, e passada a tensão do momento a natureza impõem-se... e dorme.

Glossário:
Cabaia – Roupa de luxo, normalmente de seda, usada pelos chefes.
Bura e alfio – serão outros instrumentos de chefe
Mujojos – indivíduos, árabes ou arabisados, de nobreza local

Fonte: “Escola de Mouzinho” – Eduardo Lupi, Lisboa - 1929


28-05-2017