sábado, 20 de maio de 2017




Hispânia

Vikings e Cruzados

Não se assustem! Não vou contar a história de Portugal. Só umas coisicas, com relação ao mar. Depois desta vou passar uma “temporadita” – escrita – em Moçambique, porque ainda há muito sobre o que falar daquela terra.
Não é novidade que os normandos e/ou vikings assolaram as costas de toda a península, desde o país basco até à Catalunha, atacando, destruindo, saqueando, durante uns bons, aliás péssimos, quatro séculos. Já nem vale a pena falar do que fizeram na França, Inglaterra e Irlanda, porque como estavam mais perto, mais bordoada apanharam!
Os caras eram ruins como as cobras, selvagens completos, sanguinários, implacáveis, mas uns navegadores extraordinários. Chegaram a sair lá da Escandinávia, ir atacar a Itália e até o Médio Oriente, com centenas de dracares – do viking “dragão” nome das suas embarcações – perderem às vezes três quartas partes delas em tempestades e batalhas navais, e assim mesmo seguirem em frente e tudo escaqueirarem.


Olha o pessoal aí! Loirinhos! Bonitinhos!

Depois – dizem - ainda levavam os crâneos dos inimigos, cortavam-lhes uma rodela no toutiço e por aí bebiam as suas cervejas ou vodcas, levantando gloriosamente esses crâneos e gritando SKOLL!
Enfim eram uma malta danada, e hoje são os mais civilizados do mundo.
Parece que todos teremos que nos transformarmos em bestas feras para depois construirmos uma verdadeira democracia!!!
A partir do século VIII aí vêm eles devastando e pilhando tudo. Nada lhes escapava.
Em 844 estavam a matar galegos, entraram na Corunha, mas deram-se mal. Ramiro I, rei das Astúrias deu-lhe uma surra, os selvagens perderam 70 das 100 embarcações onde vinham, mas assim mesmo seguiram até ao Tejo, onde chegaram em Agosto desse ano. Dizem documentos antigos, muçulmanos, que ali chegaram com 54 baixéis e outras embarcações ainda menores. Os números dessas épocas são pouco confiáveis. Os dos árabes bem mais.


Olha que belas botas tinha Ramiro !

Mas se os galegos lhes deram muita porrada, os lisboetas – muçulmanos – durante treze dias deram-lhes mais, e assim mesmo os raivosos seguiram até Cádiz e Sevilha que saquearam, e onde se demoraram até Novembro, quando foram totalmente derrotados pelos exércitos regulares islâmicos.
Aí perderam mais 30 embarcações que foram capturadas e voltaram para casa. No caminho de volta ainda atacaram Arzila, no Marrocos e tentaram desembarcar em Faro no Algarve e em Lisboa. Duros de roer aqueles caras.
Em Sevilha além de terem perdido muitas embarcações ficou um grande contingente de selvagens que, ou não couberam nos barcos que se salvaram ou não chegaram a tempo de embarcar. Ali ficaram e passado algum tempo já tudo estava convertido ao Islão!
E os piratas foram vindo: em 854 já estavam novamente a perturbar os galegos, e em 858-9, desta vez repelidos pelo Conde Dom Pedro. Perderam homens e navios, mas foram encher o saco, deles e dos marroquinos em Algeciras, Orihuela e Nakur na costa de Marrocos, dali seguiram para a Catalunha, França e Itália, e em 861 hibernaram na Península antes de voltarem a casa.
Em 960, reinava na Galiza Sancho I, o Gordo, ameaçaram mas seguiram. Já tinham levado uma boa surra dos galegos! Parece que terá sido esta a razão para que a Condessa Mumadona tivesse erguido o castelo de Vimaranes.
Em 966 outra frota entrou no Sado, mas os muçulmanos deram-lhe duro; saíram, mantiveram rumo ao sul e em Silves os al-garbios acabaram-lhes com a festa.
Em 968 chegam mais de 1000 homens e lá estão a atacar durante ano e meio, penetrando pela Galiza, Douro e Minho até Lugo, e só em 970 o Conde Gonçalo Sanches corre com eles, que voltam no ano seguinte. À medida em que iam “aprendendo” com os saques “descobriam” outro belo negócio: sequestro e resgate! Sacaram um monte, uma montanha de grana, aos galegos, mas continuaram a não vencer os muçulmanos, como em duas incursões em 972 no Tejo e Algarve.
Em 1008 voltam à Galiza e matam o Conde Mendo Gonçalves.
Piorou em 1014. Chefiados pelo futuro rei Olaf da Noruega, retornam à Galiza de quem tinham uma raiva danada - cansados de perder barcos e gente - atacam o castelo de Vermoim e seguem para sul pilhando as costas até chegarem a Cádiz.
1026 assaltam povoações costeiras no norte Atlântico e Portugal.
A partir desta data parece que as viagens de saque e pilhagem cessam um pouco e começam a passar frotas de cruzados, começando em 1096, após a pregação do Papa Urbano II, prometendo o paraíso a quem morresse a matar infiéis (isto lembra-me qualquer coisa do Corão, né?) até 1270.
Com esta “santa” intenção saíam aos milhares de escandinavos, ingleses, holandeses, alemães e... outros. Passaram na Galiza, em 1107 onde já não havia mouros, e vá de saquear e pilhar! Em 1109 saquearam Sintra, outros arredores de Lisboa, Alcácer do Sal e as costas do Algarve. Havia, ainda muçulmanos por todo o lado exceto já na Galiza, que, mártir, volta a ser saqueada em 1111 por escandinavos (Não perdoavam as surras que tinham apanhado anos antes!)
Em 1140 começa fase mais simpática! Ajudam Afonso Henriques a cercar Lisboa pela primeira vez. Nesta vinham já muitos franceses.
Em 1147 é que vem a grande esquadra que ajuda a conquista de Lisboa.
Afonso Henriques sabendo que vinham a caminho dá ordens para que os tratem bem no Porto onde fizeram aguada e promete-lhes o saque total de Lisboa (podem ver neste blog 3 textos sobre esta “farra”: No rescaldo da Tomada de Lisboa - Da Lisboa Antiga e da Nova Lisboa - De volta a Lisboa Antiga. O cerco durou três meses até que os muçulmanos capitularam e o saque foi um “Deus nos acuda”!
E começam também a fixar-se em Portugal grupos de “peregrinos” já fartos da viagem e de piratagem e que decidem estabelecer-se. Afonso Henrique precisa de gente para ocupar terras onde tinham estado muçulmanos e oferece-lhes uma série de localidades que mais tarde se chamaram Vila Franca de... e de... etc. Fixaram-se na Lourinhã, Pontével, Vila Verde, Atouguia, Azambuja que começou por se chamar só Vila Franca e a, até hoje, Vila Franca de Xira.
Novamente passa outra “onda de choque” em 1153 que vai em cima da Galiza para saquear! São os simpáticos peregrinos cristãos! No verão de 1154 sucedem-se atos de barbárie nas regiões de Portugal ainda ocupadas pelo Islão.
Mais uma “onda” em 1157 que ajuda o rei Afonso a cercar Alcácer do Sal pela segunda vez, mas que só cede um ano depois e atacada só por portugueses.
Em 1189 Sancho I preparava novo ataque ao Algarve. Mais uma cruzada com cerca de 3500 homens era tudo o que ele precisava para ajuda. Promete-lhes o saque de todas as cidades. Começam por Portimão e a seguir Silves a grande e culta capital do Al-Garb, que capitula, mas se recompõe no ano seguinte. Finalmente em 1197 nova cruzada, novo ataque a Silves, que pouco mais fez do que destruir, e voltou novamente para as mãos dos mouros, sendo só em 1249, que D. Paio Peres Correia a reconquistou definitivamente para os portugueses, no reinado de D. Afonso III.
E com a ajuda destes bárbaros cristãos, Portugal acrescentou as suas fronteiras praticamente até onde estão hoje.
Estas constantes viagens dos povos nórdicos às costas de Portugal abriu-lhes os olhos: em vez de virem saquear, andar à porrada, matar e morrer podiam fazer negócio. Portugal tinha um produto que valia ouro, o sal, e vinho, frutas e couros, e eles tinham cereais, têxteis das flandres e ingleses, e as madeiras de pinho para se fazerem mastros para os nossos navios!
E mais: descobrem que em Santiago, na Galiza, estão os ossos do apóstolo São Tiago. Começam as peregrinações, desta vez para irem rezar junto ao túmulo do Santo e, muito certamente pedir-lhe que lhes perdoasse todo o mal que fizeram àquela gente! E chegam peregrinos do mais longe da Europa, que vão a pé ou de navio, e assim estabelecem laços duradouros com a Galiza. (Finalmente!)
Começa uma era nova, mais tranquila. Os navios vinham no norte, comerciavam pelo caminho e voltavam com coisas novas que o sol da Ibéria lhes proporcionava.
E começam também os casamentos entre casas reais. Uma filha de Afonso Henriques casa com Filipe de Alsácia, Conde de Flandres, casamento negociado por Henrique II de Inglaterra (o marido da gloriosa Eleanor d’Aquitaine), um filho de Sancho I, Fernando, com a princesa flamenga Joana, o infante D. Afonso, mais tarde Afonso III, filho de Afonso II casou com a condessa de Bologne, Matilde, e duas princesas portuguesas casaram com reis da Dinamarca (ver de novo, neste blog Relações Norte Sul - Rainhas de Portugal).
Portugal estava a ficar importante aos olhos do mundo. (Naquele tempo o mundo era só a Europa!)
Acabaram as guerras de saque e pilhagem e começam os desentendimentos comerciais, e assaltos a embarcações comerciais. Nasciam os corsários! Cria-se protecionismo, taxas alfandegárias, etc. que volta e meia se acertavam com acordos mas que... normalmente não se cumpriam. Tal qual hoje!
Enfim a história é uma comédia, que se repete, repete, tal como as peças teatrais que duram anos, vão só mudando de atores!
Só para dar um finzinho nestas histórias.
No final do século XIV as trocas comerciais com Portugal eram interessantes, sobretudo com os portos do Báltico, e há dois documentos que particularmente me agradam:
Em Setembro de 1373, um capitão prussiano, J. Westvale, fundeou a sua coca (ver imagem) no porto cantábrico de Bermeo, região da Biscaia, país basco, e para comprar vinho a levar para França, contraiu um empréstimo de 230 francos de ouro de um mercador lombardo de Piacenza, de nome Francisquin Boisson. (Meu xará e o primeiro que vejo com um nome bonito assim! Acho que vou adotar!)


Coca. A principal embarcação da Liga Hanseática

No ano seguinte o mesmo J. Wesvale, fundeou em Laredo, na costa Cantábrica e contraiu novo empréstimo de 355 francos, com outro comerciante, também de Piacenza, chamado Gheeraert de La Rocque!!! Quem sabe se um antepassado meu!
Consta de vários documentos que o prussiano J. Westvale também esteve várias vezes em Lisboa.
Não o conheci! Foi pena.

17/05/2017


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Memórias
O velho Rugby

Lisboa. 1956
No tempo em que oficiais do exército “mandavam” na polícia.
Nessa época tinha comprado um automóvel marca Rugby, de 1926. Rugby era a marca usada para exportação pela Durant Motors, americana, que teve vida efémera, entre 1922 e 1931. No mercado interno o mesmo carro era comercializado com as marcas Durant ou Star. Em 1923 nos Estados Unidos, o seu preço a público era de USD$ 443! Motor de 4 cilindros, 2.2 litros by Continental. E vendeu muito bem.
Apesar de ter o depósito de gasolina, atrás do motor, com um pequeno furo, por onde pingava gasolina, mesmo parado, era um carro econômico. O seu consumo era de trinta litros! Trinta litros quer andasse ou ficasse parado! Mas se andasse, com isso fazia duzentos ou mais quilômetros, o que, enquanto foi nosso nunca aconteceu! Pelo menos seguidos!
A gasolina custava menos de 4$00! Hoje, se fizermos as contas também em Escudos (1€ = 200 $ escudos) a gasolina custa 100 vezes mais! E ainda dizem que não eram “bons rempos”!
Mais de trinta anos de vida, e sobretudo já objeto de olhares saudosistas e de respeito, um vintage, na terminologia dos colecionadores. Foi descoberto numa loja de carros usados, numa rua onde eu costumava passar, sonhando que um dia ainda pudesse concretizar a vaga esperança de ver aparecer um carro de preço compatível com as minhas muito fracas posses. Como sempre gostei de coisas antigas, quando vi este velhinho sobressaindo em altura a todos os outros, logo fui atraído. Amor à primeira vista.


Igualzinho a este, mas cor cinza e sem aquela bela mala lá atrás! Lindão!
O nosso não estava assim tão bonito, mas era uma beleza.

Dei uma volta ao seu redor, tudo parecia estar em perfeita ordem, sem batidas, nem ferrugem, muito bem conservado. Até os pneus, que daquela medida já não eram fáceis de encontrar, estavam em bom estado e os estofos também cinza, de origem, em veludo tigrado!
Preço afixado no pára-brisas: Esc. 2.500$00. O equivalente a cem dólares naquela época!
Perguntei ao vendedor:
- Isto anda?
- Anda sim.
- Pode pôr a trabalhar?
- Agora não, que está sem bateria, mas se voltar aqui amanhã eu tenho o carro pronto para lho mostrar.
- Vende a prestações?
- Vendemos. Mil escudos de entrada e mais seis parcelas de duzentos e cinquenta.
- Se trabalhar, e estiver tudo em ordem fico com ele.
Fiquei encantado. Aquele preço eu podia pagar, e mais ainda um carro antigo! Propus sociedade a um amigo e colega de trabalho:
- Quinhentos “paus” a cada um de entrada e depois um mês paga um a prestação, e no mês seguinte paga o outro.
- E com quem fica o carro?
- Simples. Para não haver confusões, uma semana fica com um, outra semana com o outro. Entregamos o carro ao outro às segundas feiras.
Feito. Fomos ver o nosso carro novo! Estava a funcionar. Até a buzina tinha um som estupendo. Negócio fechado. Pagámos a entrada e podíamos ir buscá-lo no dia seguinte.
Voltámos como previsto. Entretanto a buzina, que na véspera tocava alto e forte, quase não se ouvia! Como era boa, e o carro muito velho, julgaram que podiam guardá-la para outro mais novo, e tinham-na trocado por outra pior! Sempre uma pilantradazinha pelo meio. Obrigámos a repor! Tudo tinha que sair em boa ordem.
Saímos da loja, montados e encantados. Era um carro ótimo. Nunca deixou ninguém na estrada, e quase todos os outros automobilistas respeitavam aquela relíquia. Mandavam-nos até passar primeiro nos cruzamentos. Respeito pela velhice!
Um gozo andar naquela maravilha. O banco trazeiro lá... bem atrás, as pessoas ali podiam estender as pernas à vontade e sentiam-se comodissimas.
Uma segunda feira o meu sócio chega ao trabalho furioso. Fora multado. Por falta da pala quebra-sol! Duzentos escudos. Quase o valor duma prestação!
- Por esse valor devias ter oferecido o carro ao polícia!
Estupidez de autoridade, claro. Podia muito bem ter advertido. Resolveu-se esse assunto pendurando no forro do tejadilho, com dois alfinetes, uma tampa de caixa de sapatos. Por esse lado não deu mais problema!
Uma noite fui ao cinema com a minha mulher, nesse saudoso carro. De volta a casa, perto da meia noite, Lisboa quase sem trânsito. Avenida da Liberdade, uma das mais largas de Lisboa, duas faixas de cada lado, parado num sinal vermelho um carro, novo, comum, bem no meio das duas faixas.
Chego com o velho e alto Rugby e consigo entrar num lugarzinho, bem justo, do lado direito do dono da avenida, o que este não gostou. Deve ter-se sentido apertado.
Apesar do Rugby ser um velhote, quando a luz verde apareceu consegui arrancar na frente, os primeiros metros segui adiante, o que mais ainda irritou o outro motorista, que logo de seguida nos ultrapassa dando uma guinada para cima de nós. Moleque. Novo sinal vermelho. A cena repete-se e desta vez sou eu que ao arrancar me coloco bem na frente dele. Outra molequice, mas minha. O sujeito fica bravo, corre, ultrapassa mais uma vez e atravessa o carro na avenida para me fazer parar. Parei, mas só depois de ter desviado e passado por ele! O cara estava bravo, queria discutir o que não era passível de discussão: não houve acidente, nem insultos, nem crime. Nada. Mas estava disposto a fazer valer a sua importância, talvez por ter um carro mais novo e mais caro do que o meu que só custara dois contos e quinhentos. E andava!
- Vamos à esquadra. (No Brasil seria a Delegacia!)
- Vamos. Ainda não tenho sono e não tenho nada mais para fazer!
Lá vamos nós para a tal esquadra de polícia, o zangado na frente temendo que eu não o seguisse. Parou em frente da tal esquadra e eu logo atrás. Entrámos, ele avança por ali dentro, vai direito ao subchefe de serviço e diz com ar de comandante geral das forças da NATO, ignorando que chefe de esquadra é normalmente um homem com muito calo em discussões válidas e inválidas:
- Boa noite. Eu sou tenente.
Atrás, entro eu.
- Boa noite. Senhor chefe, eu não sou tenente.
- Qual é o problema? pergunta o chefe, com ar chateado, prevendo que o problema não seria mais do que trovoada em copo de água.
- Quem sabe é o tenente. Ele é que me convidou para vir à Esquadra - e apontei para o outro.
A coisa ficou complicada para o idiota do tal tenente, porque não sabia do que se queixar. Depois de meter os pés pelas mãos, dizer que eu o tinha ultrapassado, o que era a única coisa que podia afirmar, acabou por cair no ridículo. Mais ainda quando os polícias vêm ali parados, bem na frente da esquadra os dois carros, sem poderem imaginar como teria sido possível uma corrida entre um velhinho e um carro novo.
- Mas o senhor quer apresentar alguma queixa?
-!
Finalmente o chefe, que fazia os possíveis para não rir, sugere:
- Como não há motivo para queixa, porque os senhores não vão para casa descansar? Já passa da meia noite!
Ótima sugestão. Fomos. O tenente deve ter descansado mal. Perdeu uma batalha que não houve.
Eu dormi como um justo... a rir!

Entretanto um dia o carrão não quis pegar de jeito maneira! Desci uma rua, comprida, com ele, tossiu, engasgou-se, mas... nada.
No dia seguinte tive que ir para Angola, dar uma mão a um cunhado.
O Rugby, triste, ficou a dormir no fim da rua. O meu sócio tinha saído de Lisboa para ir trabalhar numa obra já nem sei onde.
Faltavam pagar umas três prestações. Propus à loja onde o comprámos devolver a belezura e não pagar o restante.
Negócio aceite!
Mas o Rugby ficou na memória.

De “Contos Peregrinos a Preto e Branco” – Francisco G. de Amorim, 1998


15/04/2017

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Desacordos Ortogárficos
(Orto gárficos)

Lembro muitas vezes algumas máximas, que são mesmo o máximo, como esta: “A estupidez humana é a única coisa que nos pode dar a noção de infinito”, segundo Ernest Renan.
Razão tinha também Alexis-Charles-Henri Clérel, o visconde de Tocqueville, quando terá dito que “Um Estado mal governado, em vez de reformas faz revoluções” !
Em relação ao Brasil, Venezuela, Equador, Angola e tantos, tantos, outros países atrasados, eu disse atrasados, estarão eternamente sujeitos à “lei” de Fialho de Almeida: “É lei inflexível que enquanto o povo for ignorante, a revolução será estéril” !
Parece já ter passado a febre da tão acesa discussão sobre o famigerado “Des-Acordo”, que teve acérrimos defensores do pode e do não pode, deve e não deve, enquanto, pelo meu lado, modesta e ignorantemente, decidi ficar pelo MEU acordo. Escrevo como sei, influenciado pelos meios em que vivi, e imagino que as pessoas que lêem o que escrevo compreendam, não só a escrita, como o pensamento do “escritor”.
Como por exemplo a palavra “zukumuna”, que deu origem a um blog que, por falta de leitores e/ou de paciência abandonei, palavra linda, de bela e forte sonoridade, de origem angolana, da língua Cokwe, ou Tchokwe, ou Quioco, ou... qualquer outra grafia que lhe queiram emprestar, e que significa: “arremessar, atirar ou lançar com força um pau ou coisa semelhante".
A ideia era malhar em tudo que me parecesse errado! Quixotismo.
A partir da premissa, do mútuo entendimento, creio que estamos todos de Acordo. Se alguém não estiver, é problema dela/dele.
Como todos também sabemos a língua é viva. Vivíssima. Na portuguesa entraram palavras de origem grega, celta, romana, germânica, árabe, hindu, africana, brasileira, inglesa e de outras bandas, e assim a partir do século XV o nosso vocabulário, de poucas dezenas de milhares de palavras, multiplicou por cinco ou seis a sua quantidade, devendo hoje em dia ser uma das mais ricas do mundo.
Mas o Brasil (desculpem-me de falar outra vez do Brasil!) parece estar empenhado em aumentar o vocabulário, não só em nomes próprios como em verbos, adjetivos, substantivos e, até em preposições, quando, desde há muito decidiu engolir uma destas, logo por azar ou premeditação a primeira: o “a”, o “a” mudo, a preposição.
Raros são os que, por exemplo, vão ao Rio. Onde vai? Vai o Rio! O póbrema (outro vocábulo interessante) é que se o Rio se vai... só pode ser por água abaixo, por descaso político ou acidente “natural”, para o que nos basta constatar que em 2016 houve só 5.033 homicídios, 93.955 roubos a transeuntes e 41.704 roubos de viaturas (só no Estado do Rio).
Não admira. Vejam só: a polícia deve a fornecedores, só do Rio, repetindo, R$ 523 milhões (uns cento e cinquenta milhões de €uros) e assim falta a gasolina para perseguir bandidos, dar manutenção às viaturas, etc. Por este andar o Rio está indo mesmo por água...
Mas também há quem more fora da cidade e decida ir “no Rio”, o que pressupõe que tenha transporte fluvial.
Está também a crescer um novo vocábulo interessante, que deve ter saído da recém casta de galfarros (consultar dicionário) que estão a pensar ocupar o vácuo político deixado pelos gatunos já julgados e pelos outros centos destes a julgar e meter na cadeia (se os tribunais não os “inocentarem”). São os prepostos novos pretendentes ao poder que se estão “empoderando”.
Traduzindo, uma vez que os dicionários ainda não tiveram nova edição: significa ganhar “poder”! Olha que vocábulo interessante. O “empoderamento” da nova gatunagem... orto-gárfica! Tem que ser. Os velhos donos do poder já estão todos empoeirados, e vão-se desempoderando!
Mas é sobretudo nos nomes próprios que o desacordo mais se faz sentir mais profundamente. Já não nascem mais Gabrielas! Agora são Gabrielles ou Gabriellys, de preferência com “y” em vez de “i”, não tem mais Mateus, mas Matheus, já não falando em Ambrísia Estilingue, na Defuntina, no Eradonclóbes ou Emanuelly, Marielle, Wilder, Eurides, e tantos outros que se exibem em todas as telas de Tv com os jogadores de futebol, como o Allison, o Weverton, e tantos outros. Lembro ainda uma garota que foi pedir um autógrafo ao grande mestre Ariano Suassuna e quando ele lhe perguntou o nome ele disse: Whaydja! Quando o Mestre lhe pediu para soletrar, ela não deixou de sublinhar que tinha um “dabeliú”, um “agá” e um “ipislão”. E era uma brasileira da mais pura raça!
Moral da história: para quê estarem os sábios da filologia e semântica a gastar as meninges para se fazer um acordo ortográfico?
Bobagem, né?
Para amenizar, aqui vão algumas palavras interessantes, de origem tupi. Espero que apreciem:
·       Pare com este nhen-nhen-nhen. A expressão vem do verbo nhe’eng (falar, piar) e significa pare de ficar falando, de falar sem parar.
·       O velho jogo de peteca, que é um pequeno saco cheio de areia ou serragem sobre o qual se prendem penas de aves, tem este nome devido ao verbo petek — golpear ou bater com a mão espalmada. É com a palma da mão que se joga o brinquedo.
·       Velha coroca é uma velha resmungona. O termo nasceu do verbo kuruk, que significa resmungar.
·       O verbo cutucar, em português, origina-se do tupi kutuk, cujo significado original — furar, espetar — modificou-se ligeiramente. Em português, cutucar é tocar com a mão ou com o pé.
Estar jururu é estar melancólico, tristonho, cabisbaixo. O termo indígena aruru, de onde surgiu a palavra, tem o mesmo sentido.
·       “Todo mundo tem pereba, só a bailarina que não tem”, diz uma música de Chico Buarque de Holanda. Pereba, do tupi, significa ferida.
·       Várias palavras mantiveram pronúncia e significado praticamente originais: mingau (papa preparada geralmente com farinha de mandioca), capim, mirim (que significa pequeno) e socar (do verbo sok, com o mesmo significado).
·       A expressão estar na pindaíba muito brasileiro conhece: significa estar em graves dificuldades financeiras. É uma expressão que vem das palavras pinda’yba — vara de pescar (pindá, isoladamente, significa anzol). Antigamente, quando a pobreza abatia as populações ribeirinhas, era comum tentar tirar a subsistência do rio, pescando para comer ou para vender o pescado. Segundo os pesquisadores, a expressão nasceu no período colonial brasileiro, em que o tupi em sua forma evoluída conhecida como “língua geral” era falado pela maioria dos brasileiros.
·       A perereca recebe esse nome simplesmente porque ela pula. Vem do verbo pererek, pular, que é também a origem do Saci-Pererê que, por não ter uma perna, anda aos pulos.
E que tal estes termos de Angola:
·       Cabeça de pungo – cabeçudo (aliás o peixe, pungo, é uma delícia. Quem se lembra?)
·       Bugar – dizer mentiras
·       Cuia – uma espécie de prato ou vaso feito de metade de um abóbora seca. Palavrada usada no tupi e em quimbundo!
·       Cusunguluca – ser modesto. (Com esta palavra... quem o pode ser?)
Ou então se for a Moçambique e quiser uma bebida fresquinha, doce, peça nzizima (no norte, no sul maheu), se preferir cerveja, uma yovurya.
E sabem quantos nomes já encontrei, em Angola e Moçambique, para o instrumento que no Brasil é mais conhecido por berimbau?
Fica para a próxima.
Por hoje chega. Vamos pensar num acordo universal!

Maio 2017



domingo, 7 de maio de 2017


A Tentação do Eremita
por Jacopo Passavanti
de Specchio di Penitenza, (ca 1495)
(e outras tentações)

Na vida dos Santos padres (Vitae Patrum), conta-se que um monge, que há muito tempo vivia uma vida de penitência no deserto, exercendo muitas virtudes, no entanto, faltava-lhe humildade: altivo, orgulhoso, quando pensava em outras pessoas, ele se considerava melhor do que elas. Como queria punir a arrogância do eremita a fim de salvar a sua alma, Deus deixá-lo-ia ser conquistado pela tentação. Uma noite, o diabo se disfarçou como uma jovem; ela caminhou para a cela do monge e começou a gemer e reclamar de seu infortúnio, recordando como foi parar naquele lugar deserto, como a noite escura não ia deixá-la encontrar o caminho certo, como o frio a incomodava — ao mesmo tempo tremendo para prová-lo —, e como estava desanimada por medo das feras selvagens. E foi com sussurros tristes e chorosos, suspiros, recontando suas dores e implorando por misericórdia, pediu ao santo padre para deixá-la em sua cela em nome do amor de Deus.
O monge ficou comovido com as dores da mulher, então primeiro abriu a janela da cela e pediu ao diabo de mulher — ou mulher-diabo — que lhe contasse o seu infortúnio. A mulher contava a sua história, chorando ainda mais, até que o Santo Padre abriu a porta e deixou-a entrar. Ele perguntou se ela estava com fome, e quando ela disse que não, a tremer tanto, o monge acendeu um fogo e ambos se sentaram à sua volta. O diabo bocejou e esticado para o fogo, revelou seus pés e pernas, recontando suas circunstâncias, com palavras doces e voz suave e perguntou sobre o tempo do monge no deserto, pois estava curiosa sobre a sua penitência.
Enquanto falava e sorria, ela sabia que ele era um casto servo de Deus; e ao falar sobre isto e aquilo — com a malícia que apenas as línguas das mulheres são capazes — foi-se aproximando mais e mais para o monge, tocando agora a sua capa dura de pano, suas mãos e braços — que eram velhos e frios e tostados pela longa abstinência — até tocar no seu peito e na barba branca. Poderia dizer-se que o desafortunado homem estava feliz com isso e que estava esperando a mulher chegar-se ainda mais perto. Em suma, a concupiscência inata que estava dormindo naquela carne e ossos velhos e secos, começou a aumentar; a quase extinta faísca acendeu uma chama e os membros frígidos que foram uma vez mortos, estavam agora vivos com orgulho ultrajante.
O infeliz, lutando uma batalha interna e cercado por todos os lados, incapaz e sem vontade de ver que uma fuga, como se já estivesse capturado e amarrado, rendeu-se. E permitindo-se a cometer o pecado, ele estendeu as mãos para abraçar aquela figura fantástica, que imediatamente desapareceu e nunca mais reapareceu. O eremita ficou confuso e humilhado, e uma multidão de demônios apareceu na cela e formaram um círculo em torno dele, provocando-o e atormentando-o:
"Oh Monge, monge, apenas há pouco atrás, você estava subindo para os céus, mas agora você se apaixonou, você se arruinou e abateu, porque desejou fazer algo que um de nós se não queria fazer! Você não será capaz de aparecer em público novamente ou erguer os olhos para o céu. "
Finalmente, o monge recobrou os sentidos, ferido e constrito chorou e confessou seu pecado a Deus, que o perdoou. E então ele foi humilhado, porque antes tinha sido um homem arrogante. E aí, recitou com o salmista:
Humiliatus soma usquequaque, Domine: vivifica me secundum verbum tuum.
Estava totalmente humilhado meu senhor: por favor, dai-me a vida segundo a tua palavra.
*           *         *
Esta história, ou conto, por mais que a gente não queira, passado mais de meio milênio, é um retrato de tanto idiota que se alcandorou, pela força da ignorante massa popular que continua a pensar que domina o mundo e é dominada, ao topo dos “outros”.
A este estado de coisas, hoje chama-se democracia. Dantes era ditadura.
A principal condição para alguém se poder candidatar a altos postos governativos, administrativos, públicos ou privados, deveria ser a prova, irrefutável, da sua humildade.
Por exemplo, nos EUA a Hillary seria eliminada e o Trampa... moído no triturador e vendido em hamburgers. E se for falar de Portugal, do Brasil, Angola e possivelmente de mais de 90% de todos os países, haveria uma tremenda dificuldade em encontrar candidatos.
E não só entre os políticos, chamados leigos, porque é do conhecimento geral que existem na hierarquia da igreja, bispos e cardeais que são duma arrogância extrema, quando, mais covardemente ainda, se arrogam o direito de falar em nome de Jesus!
Toda a glória de viver
Das gentes é ter dinheiro,
Cumpre-lhe de ser primeiro
O mais ruim que puder.

Tinha Gil Vicente trinta anos quando foi publicado o Specchio di Penitenza, (ca 1495), e vê-se que a semelhança de pensamento entre o grande dramaturgo e poeta português e Jacopo Passavanti é muito grande.
O problema é o ganancioso ser capaz de ser humilde. Ambicioso, talvez.
É interessante esta “tentação e arrependimento” do pobre eremita. Tentações todos temos, porque o nosso ego é quase sempre mais forte do que o “eu”.
Daí que só os grandes espíritos possam vencer as suas fraquezas e se destacarem.
A tentação, desde quase sempre, não é loura encantada, mas o metal dourado, o poder, a ganância e a corrupção.
O Brasil atravessa o mais vergonhoso processo de toda a sua história. Choram alguns o tempo da escravaria, mas não devem esquecer que isso foi universal e, sem dúvida uma nódoa indelével na vida da humanidade.
Mas o descaso, o compadrio e uma justiça de rabo preso, onde parte dos supremos juízes foram advogados dos supremos ladrões que hoje deveriam estar a contas com a justiça, e estão a dar risada na cara dos juízes isentos e determinados a que a justiça seja igual para todos. Mas não é.
Indivíduos já condenados a 30 e 40 anos de prisão são mandados soltar pelos tais “supremos” donos dos supremos tribunais, com base em leis por eles feitas que tem sempre uma saída, vergonhosa, infame, para continuarem a esvaziar os cofres públicos.
Chega-se a descaramentos de tal forma absurdos que parecem mentira: o governo deposto “adjudicou” uma obra de mentira para que a empreiteira entregasse milhões dólares a um candidato esquerdista dum país vizinho!
O banco de “desenvolvimento” do Brasil pagou, integralmente obras gigantescas em Cuba e em outros países.
Os bandidos são pronunciados, julgados, presos, e a seguir os “supremos amigos” mandam libertá-los para aguardarem recursos “manobráticos” que vão conduzir à prescrição dos processos.

Corruptissima republica plurimae leges
(Em república corrupta, muitas são as  leis)

Quem pode, hoje, abandona o país, e há cada vez um maior número de indivíduos que têm vergonha de ser brasileiros.
Há pouco um juiz do supremo, de pele negra foi aplaudido em todo o país. De repente decide aposentar-se. Até o queriam para presidente. Agora já se sabe porque teve tanta pressa em tirar o traseiro fora: enquanto esteve lá no topo dos tribunais, acobertou quanto pôde o assassinato dum prefeito da região de São Paulo que se sabe ter sido mandado matar porque ia denunciar a pouca vergonha do governo.
E assim vai.
Pra que chorar
Se o sol já vai raiar
Se o dia vai amanhecer
Pra que sofrer
Se a lua vai nascer
É só o sol se pôr
Pra que chorar
Se existe amor
A questão é só de dar
A questão é só de dor

Quem não chorou
Quem não se lastimou
Não pode nunca mais dizer
Pra que chorar
Pra que sofrer
Se há sempre um novo amor
Em cada novo amanhecer

Onde está esse “novo amanhecer” de Vinicius de Moraes?
Voltemos a Stefan Zweigh: “Brasil, o país do futuro!” 
Para quando esse futuro?
Não se antevê que seja nem para os netos!

Complemento de informação:
1-      O juro do cartão de crédito em Abril foi só de 490,3% a.a.
2-      O Arquivo Público do Rio, não tem verba para pagar a luz e está sem a dita. Resultado, nem lâmpadas, nem máquinas de xerox para quem faz investigação, nem ar condicionado para conservação de documentos antigos. (Também para que estar a consultar documentos obsoletos???)
3-      O Brasil tem um custo de 15% do PIB só com os servidores - ativos, aposentados e os bolsa família! Quase um terço da população vive à custa do governo federal!
4-      Economia, conceito nacional: o gás paga 1,63% de imposto no Rio e 1,3% em São Paulo.

Vivam as Tentações... do demo!

Maio / 2017