quinta-feira, 11 de maio de 2017

Desacordos Ortogárficos
(Orto gárficos)

Lembro muitas vezes algumas máximas, que são mesmo o máximo, como esta: “A estupidez humana é a única coisa que nos pode dar a noção de infinito”, segundo Ernest Renan.
Razão tinha também Alexis-Charles-Henri Clérel, o visconde de Tocqueville, quando terá dito que “Um Estado mal governado, em vez de reformas faz revoluções” !
Em relação ao Brasil, Venezuela, Equador, Angola e tantos, tantos, outros países atrasados, eu disse atrasados, estarão eternamente sujeitos à “lei” de Fialho de Almeida: “É lei inflexível que enquanto o povo for ignorante, a revolução será estéril” !
Parece já ter passado a febre da tão acesa discussão sobre o famigerado “Des-Acordo”, que teve acérrimos defensores do pode e do não pode, deve e não deve, enquanto, pelo meu lado, modesta e ignorantemente, decidi ficar pelo MEU acordo. Escrevo como sei, influenciado pelos meios em que vivi, e imagino que as pessoas que lêem o que escrevo compreendam, não só a escrita, como o pensamento do “escritor”.
Como por exemplo a palavra “zukumuna”, que deu origem a um blog que, por falta de leitores e/ou de paciência abandonei, palavra linda, de bela e forte sonoridade, de origem angolana, da língua Cokwe, ou Tchokwe, ou Quioco, ou... qualquer outra grafia que lhe queiram emprestar, e que significa: “arremessar, atirar ou lançar com força um pau ou coisa semelhante".
A ideia era malhar em tudo que me parecesse errado! Quixotismo.
A partir da premissa, do mútuo entendimento, creio que estamos todos de Acordo. Se alguém não estiver, é problema dela/dele.
Como todos também sabemos a língua é viva. Vivíssima. Na portuguesa entraram palavras de origem grega, celta, romana, germânica, árabe, hindu, africana, brasileira, inglesa e de outras bandas, e assim a partir do século XV o nosso vocabulário, de poucas dezenas de milhares de palavras, multiplicou por cinco ou seis a sua quantidade, devendo hoje em dia ser uma das mais ricas do mundo.
Mas o Brasil (desculpem-me de falar outra vez do Brasil!) parece estar empenhado em aumentar o vocabulário, não só em nomes próprios como em verbos, adjetivos, substantivos e, até em preposições, quando, desde há muito decidiu engolir uma destas, logo por azar ou premeditação a primeira: o “a”, o “a” mudo, a preposição.
Raros são os que, por exemplo, vão ao Rio. Onde vai? Vai o Rio! O póbrema (outro vocábulo interessante) é que se o Rio se vai... só pode ser por água abaixo, por descaso político ou acidente “natural”, para o que nos basta constatar que em 2016 houve só 5.033 homicídios, 93.955 roubos a transeuntes e 41.704 roubos de viaturas (só no Estado do Rio).
Não admira. Vejam só: a polícia deve a fornecedores, só do Rio, repetindo, R$ 523 milhões (uns cento e cinquenta milhões de €uros) e assim falta a gasolina para perseguir bandidos, dar manutenção às viaturas, etc. Por este andar o Rio está indo mesmo por água...
Mas também há quem more fora da cidade e decida ir “no Rio”, o que pressupõe que tenha transporte fluvial.
Está também a crescer um novo vocábulo interessante, que deve ter saído da recém casta de galfarros (consultar dicionário) que estão a pensar ocupar o vácuo político deixado pelos gatunos já julgados e pelos outros centos destes a julgar e meter na cadeia (se os tribunais não os “inocentarem”). São os prepostos novos pretendentes ao poder que se estão “empoderando”.
Traduzindo, uma vez que os dicionários ainda não tiveram nova edição: significa ganhar “poder”! Olha que vocábulo interessante. O “empoderamento” da nova gatunagem... orto-gárfica! Tem que ser. Os velhos donos do poder já estão todos empoeirados, e vão-se desempoderando!
Mas é sobretudo nos nomes próprios que o desacordo mais se faz sentir mais profundamente. Já não nascem mais Gabrielas! Agora são Gabrielles ou Gabriellys, de preferência com “y” em vez de “i”, não tem mais Mateus, mas Matheus, já não falando em Ambrísia Estilingue, na Defuntina, no Eradonclóbes ou Emanuelly, Marielle, Wilder, Eurides, e tantos outros que se exibem em todas as telas de Tv com os jogadores de futebol, como o Allison, o Weverton, e tantos outros. Lembro ainda uma garota que foi pedir um autógrafo ao grande mestre Ariano Suassuna e quando ele lhe perguntou o nome ele disse: Whaydja! Quando o Mestre lhe pediu para soletrar, ela não deixou de sublinhar que tinha um “dabeliú”, um “agá” e um “ipislão”. E era uma brasileira da mais pura raça!
Moral da história: para quê estarem os sábios da filologia e semântica a gastar as meninges para se fazer um acordo ortográfico?
Bobagem, né?
Para amenizar, aqui vão algumas palavras interessantes, de origem tupi. Espero que apreciem:
·       Pare com este nhen-nhen-nhen. A expressão vem do verbo nhe’eng (falar, piar) e significa pare de ficar falando, de falar sem parar.
·       O velho jogo de peteca, que é um pequeno saco cheio de areia ou serragem sobre o qual se prendem penas de aves, tem este nome devido ao verbo petek — golpear ou bater com a mão espalmada. É com a palma da mão que se joga o brinquedo.
·       Velha coroca é uma velha resmungona. O termo nasceu do verbo kuruk, que significa resmungar.
·       O verbo cutucar, em português, origina-se do tupi kutuk, cujo significado original — furar, espetar — modificou-se ligeiramente. Em português, cutucar é tocar com a mão ou com o pé.
Estar jururu é estar melancólico, tristonho, cabisbaixo. O termo indígena aruru, de onde surgiu a palavra, tem o mesmo sentido.
·       “Todo mundo tem pereba, só a bailarina que não tem”, diz uma música de Chico Buarque de Holanda. Pereba, do tupi, significa ferida.
·       Várias palavras mantiveram pronúncia e significado praticamente originais: mingau (papa preparada geralmente com farinha de mandioca), capim, mirim (que significa pequeno) e socar (do verbo sok, com o mesmo significado).
·       A expressão estar na pindaíba muito brasileiro conhece: significa estar em graves dificuldades financeiras. É uma expressão que vem das palavras pinda’yba — vara de pescar (pindá, isoladamente, significa anzol). Antigamente, quando a pobreza abatia as populações ribeirinhas, era comum tentar tirar a subsistência do rio, pescando para comer ou para vender o pescado. Segundo os pesquisadores, a expressão nasceu no período colonial brasileiro, em que o tupi em sua forma evoluída conhecida como “língua geral” era falado pela maioria dos brasileiros.
·       A perereca recebe esse nome simplesmente porque ela pula. Vem do verbo pererek, pular, que é também a origem do Saci-Pererê que, por não ter uma perna, anda aos pulos.
E que tal estes termos de Angola:
·       Cabeça de pungo – cabeçudo (aliás o peixe, pungo, é uma delícia. Quem se lembra?)
·       Bugar – dizer mentiras
·       Cuia – uma espécie de prato ou vaso feito de metade de um abóbora seca. Palavrada usada no tupi e em quimbundo!
·       Cusunguluca – ser modesto. (Com esta palavra... quem o pode ser?)
Ou então se for a Moçambique e quiser uma bebida fresquinha, doce, peça nzizima (no norte, no sul maheu), se preferir cerveja, uma yovurya.
E sabem quantos nomes já encontrei, em Angola e Moçambique, para o instrumento que no Brasil é mais conhecido por berimbau?
Fica para a próxima.
Por hoje chega. Vamos pensar num acordo universal!

Maio 2017



domingo, 7 de maio de 2017


A Tentação do Eremita
por Jacopo Passavanti
de Specchio di Penitenza, (ca 1495)
(e outras tentações)

Na vida dos Santos padres (Vitae Patrum), conta-se que um monge, que há muito tempo vivia uma vida de penitência no deserto, exercendo muitas virtudes, no entanto, faltava-lhe humildade: altivo, orgulhoso, quando pensava em outras pessoas, ele se considerava melhor do que elas. Como queria punir a arrogância do eremita a fim de salvar a sua alma, Deus deixá-lo-ia ser conquistado pela tentação. Uma noite, o diabo se disfarçou como uma jovem; ela caminhou para a cela do monge e começou a gemer e reclamar de seu infortúnio, recordando como foi parar naquele lugar deserto, como a noite escura não ia deixá-la encontrar o caminho certo, como o frio a incomodava — ao mesmo tempo tremendo para prová-lo —, e como estava desanimada por medo das feras selvagens. E foi com sussurros tristes e chorosos, suspiros, recontando suas dores e implorando por misericórdia, pediu ao santo padre para deixá-la em sua cela em nome do amor de Deus.
O monge ficou comovido com as dores da mulher, então primeiro abriu a janela da cela e pediu ao diabo de mulher — ou mulher-diabo — que lhe contasse o seu infortúnio. A mulher contava a sua história, chorando ainda mais, até que o Santo Padre abriu a porta e deixou-a entrar. Ele perguntou se ela estava com fome, e quando ela disse que não, a tremer tanto, o monge acendeu um fogo e ambos se sentaram à sua volta. O diabo bocejou e esticado para o fogo, revelou seus pés e pernas, recontando suas circunstâncias, com palavras doces e voz suave e perguntou sobre o tempo do monge no deserto, pois estava curiosa sobre a sua penitência.
Enquanto falava e sorria, ela sabia que ele era um casto servo de Deus; e ao falar sobre isto e aquilo — com a malícia que apenas as línguas das mulheres são capazes — foi-se aproximando mais e mais para o monge, tocando agora a sua capa dura de pano, suas mãos e braços — que eram velhos e frios e tostados pela longa abstinência — até tocar no seu peito e na barba branca. Poderia dizer-se que o desafortunado homem estava feliz com isso e que estava esperando a mulher chegar-se ainda mais perto. Em suma, a concupiscência inata que estava dormindo naquela carne e ossos velhos e secos, começou a aumentar; a quase extinta faísca acendeu uma chama e os membros frígidos que foram uma vez mortos, estavam agora vivos com orgulho ultrajante.
O infeliz, lutando uma batalha interna e cercado por todos os lados, incapaz e sem vontade de ver que uma fuga, como se já estivesse capturado e amarrado, rendeu-se. E permitindo-se a cometer o pecado, ele estendeu as mãos para abraçar aquela figura fantástica, que imediatamente desapareceu e nunca mais reapareceu. O eremita ficou confuso e humilhado, e uma multidão de demônios apareceu na cela e formaram um círculo em torno dele, provocando-o e atormentando-o:
"Oh Monge, monge, apenas há pouco atrás, você estava subindo para os céus, mas agora você se apaixonou, você se arruinou e abateu, porque desejou fazer algo que um de nós se não queria fazer! Você não será capaz de aparecer em público novamente ou erguer os olhos para o céu. "
Finalmente, o monge recobrou os sentidos, ferido e constrito chorou e confessou seu pecado a Deus, que o perdoou. E então ele foi humilhado, porque antes tinha sido um homem arrogante. E aí, recitou com o salmista:
Humiliatus soma usquequaque, Domine: vivifica me secundum verbum tuum.
Estava totalmente humilhado meu senhor: por favor, dai-me a vida segundo a tua palavra.
*           *         *
Esta história, ou conto, por mais que a gente não queira, passado mais de meio milênio, é um retrato de tanto idiota que se alcandorou, pela força da ignorante massa popular que continua a pensar que domina o mundo e é dominada, ao topo dos “outros”.
A este estado de coisas, hoje chama-se democracia. Dantes era ditadura.
A principal condição para alguém se poder candidatar a altos postos governativos, administrativos, públicos ou privados, deveria ser a prova, irrefutável, da sua humildade.
Por exemplo, nos EUA a Hillary seria eliminada e o Trampa... moído no triturador e vendido em hamburgers. E se for falar de Portugal, do Brasil, Angola e possivelmente de mais de 90% de todos os países, haveria uma tremenda dificuldade em encontrar candidatos.
E não só entre os políticos, chamados leigos, porque é do conhecimento geral que existem na hierarquia da igreja, bispos e cardeais que são duma arrogância extrema, quando, mais covardemente ainda, se arrogam o direito de falar em nome de Jesus!
Toda a glória de viver
Das gentes é ter dinheiro,
Cumpre-lhe de ser primeiro
O mais ruim que puder.

Tinha Gil Vicente trinta anos quando foi publicado o Specchio di Penitenza, (ca 1495), e vê-se que a semelhança de pensamento entre o grande dramaturgo e poeta português e Jacopo Passavanti é muito grande.
O problema é o ganancioso ser capaz de ser humilde. Ambicioso, talvez.
É interessante esta “tentação e arrependimento” do pobre eremita. Tentações todos temos, porque o nosso ego é quase sempre mais forte do que o “eu”.
Daí que só os grandes espíritos possam vencer as suas fraquezas e se destacarem.
A tentação, desde quase sempre, não é loura encantada, mas o metal dourado, o poder, a ganância e a corrupção.
O Brasil atravessa o mais vergonhoso processo de toda a sua história. Choram alguns o tempo da escravaria, mas não devem esquecer que isso foi universal e, sem dúvida uma nódoa indelével na vida da humanidade.
Mas o descaso, o compadrio e uma justiça de rabo preso, onde parte dos supremos juízes foram advogados dos supremos ladrões que hoje deveriam estar a contas com a justiça, e estão a dar risada na cara dos juízes isentos e determinados a que a justiça seja igual para todos. Mas não é.
Indivíduos já condenados a 30 e 40 anos de prisão são mandados soltar pelos tais “supremos” donos dos supremos tribunais, com base em leis por eles feitas que tem sempre uma saída, vergonhosa, infame, para continuarem a esvaziar os cofres públicos.
Chega-se a descaramentos de tal forma absurdos que parecem mentira: o governo deposto “adjudicou” uma obra de mentira para que a empreiteira entregasse milhões dólares a um candidato esquerdista dum país vizinho!
O banco de “desenvolvimento” do Brasil pagou, integralmente obras gigantescas em Cuba e em outros países.
Os bandidos são pronunciados, julgados, presos, e a seguir os “supremos amigos” mandam libertá-los para aguardarem recursos “manobráticos” que vão conduzir à prescrição dos processos.

Corruptissima republica plurimae leges
(Em república corrupta, muitas são as  leis)

Quem pode, hoje, abandona o país, e há cada vez um maior número de indivíduos que têm vergonha de ser brasileiros.
Há pouco um juiz do supremo, de pele negra foi aplaudido em todo o país. De repente decide aposentar-se. Até o queriam para presidente. Agora já se sabe porque teve tanta pressa em tirar o traseiro fora: enquanto esteve lá no topo dos tribunais, acobertou quanto pôde o assassinato dum prefeito da região de São Paulo que se sabe ter sido mandado matar porque ia denunciar a pouca vergonha do governo.
E assim vai.
Pra que chorar
Se o sol já vai raiar
Se o dia vai amanhecer
Pra que sofrer
Se a lua vai nascer
É só o sol se pôr
Pra que chorar
Se existe amor
A questão é só de dar
A questão é só de dor

Quem não chorou
Quem não se lastimou
Não pode nunca mais dizer
Pra que chorar
Pra que sofrer
Se há sempre um novo amor
Em cada novo amanhecer

Onde está esse “novo amanhecer” de Vinicius de Moraes?
Voltemos a Stefan Zweigh: “Brasil, o país do futuro!” 
Para quando esse futuro?
Não se antevê que seja nem para os netos!

Complemento de informação:
1-      O juro do cartão de crédito em Abril foi só de 490,3% a.a.
2-      O Arquivo Público do Rio, não tem verba para pagar a luz e está sem a dita. Resultado, nem lâmpadas, nem máquinas de xerox para quem faz investigação, nem ar condicionado para conservação de documentos antigos. (Também para que estar a consultar documentos obsoletos???)
3-      O Brasil tem um custo de 15% do PIB só com os servidores - ativos, aposentados e os bolsa família! Quase um terço da população vive à custa do governo federal!
4-      Economia, conceito nacional: o gás paga 1,63% de imposto no Rio e 1,3% em São Paulo.

Vivam as Tentações... do demo!

Maio / 2017


segunda-feira, 1 de maio de 2017


Abéculices... internacionais!
(Quem não souber o que é, p.f. vá ao dicionário)

Todos, todos, sabemos que a estupidez cresce mais do que o joio no meio do trigo. Muito mais.
É dessas estupidências que vamos dar umas pequenas pinceladas.

Comecemos por uma enviada por um amigo, com uns acrescentos de minha lavra.
Portugal 1993
Presidia Mário Soares a terrinha, conhecido também por o Bochechas ou Sua Magestade D. Mário I, e ainda o vendedor do ultramar, etc., tendo como primeiro ministro e igualmente um dos primeiros destruidores do país, sexa prof. Aníbal Cavaco e Silva. Encantadores.
Aproximava-se uma data redonda da chegada dos portugueses a Tanegashima (1543-1993), quatrocentos e cinquenta anos, da chegada dos primeiros ocidentais a um novo país, com novas gentes a que chamaram vários nomes como Nanbam ou até Cipango.
No Japão, Portugal é uma referência mítica, algo que pertence ao mundo das lendas, imaterial, sem que obste a que por lá todos saibam que foram os portugueses que lhes apresentaram espingardas e iniciaram o cristianismo. E três séculos e meio depois, no século XIX, é outro português que dá a conhecer ao mundo o “novo” Japão, Wenceslau de Morais.

Memorial de Wenceslau de Morais, Kobe, Japão

Motivos de sobra para comemorar e procurar estreitar mais ainda as ligações de Portugal com aquele grande país.
O próprio Imperador fez saber, através dos canais diplomáticos, que viria com gosto a Lisboa para a comemoração.
Márinho e Anilbalzinho nunca responderam ao Imperador. Garotos educados!
A comemoração, em Portugal foi chocha e a trouxe-mouxe. Raras pessoas se deram conta desse evento! No Japão, nada.
Uma vergonha que os japoneses devem ter levado à conta da ignorância da cultura portuguesa!
E quer fazer-se respeitada?
Esperemos por 2043 para ver o que farão! Quinhentos anos. Se eu puder vou lá!

Gabão - 1974 (ou 75)
Como português, passei vergonha no Gabão. Não por ser um «português-angolano» mas por, teoricamente, ali representar Portugal. Não havia lá outro!
E eles sabiam que haviam passado 300 anos !
Em 1474 os portugueses, mais uma vez, foram os primeiros europeus a passarem a linha do Equador, chegando a uma terra a que deram o nome de Gabão, numa expedição capitaneada por Lopo Gonçalves e Rui de Sequeira. Igualmente deram nome ao hoje Cabo Lopes, primeiro foi Cabo Lopo, que resguarda a baía do mesmo nome e a cidade de Port-Gentil.
Não sei em que ano Portugal teria assinado um acordo com o Gabão no sentido de criar em Libreville uma espécie de centro de estudos da língua portuguesa e de história, para o que se comprometia a mandar um professor. O Gabão dava instalações, etc.
Isto porque, pelo menos nessa época, os gaboneses tinham muito orgulho do nome – Gabão – dado pelos portugueses, sabendo que no primeiro século desse contato só estes comerciavam com eles, o que os ligava a Portugal, e assim havia uns milhares, milhares, sim, de alunos que queriam estudar a história de Portugal e seus descobrimentos, para eles mesmos se descobrirem !
O que fez Portugal ? NADA!!! Eles queixavam-se do desrespeito que isso demonstrava!
E eu a ouvir isto «por honra da pátria», pátria amada que entretanto me estava a expulsar de Angola!
Tudo porque não mandaram para lá um professor, nem se dignaram manter o contato!
Estive quase para me oferecer, mas como o salário sairia de Lisboa... seria um tiro no pé!
Tanta falta faz um Afonso de Albuquerque ou uma Maria da Cruz (lembram-se dela? Em Porto Alexandre?)

Sobre os padrões destruídos em Angola:
Não poderia Portugal oferecer novos padrões a Angola, e ir lá, solenemente, colocá-los?
É por eles que começa a história “moderna”, de Angola.
Comentário de um amigo:
Ainda é cedo para essas diplomacias.
Aquilo em Angola, não está nada bom.
Quem manda e quem quer mandar necessitam de um espantalho externo que lhes dê argumentos e distraia as populações da miséria em que vivem.
Como a cultura geral também não é muita, para a maior parte das pessoas o exterior reduz-se a Portugal (ex potência colonial), ao Brasil (e as suas telenovelas) e aos vizinhos do outro lado da fronteira (que nem sabem se é outro país ou não).
A alternativa que houver a Portugal neste "jogo da bilha", será a China. Mas os chineses não brincam em serviço e optaram por uma estratégia de enclave: "compram" o poder para fazerem o que bem entendem, mas já nem sócios angolanos querem.
Essa dos padrões será só para daqui a muito tempo - se os políticos portugueses, entretanto, subirem de nível uns bons degraus.
Será que um dia sobem? Vai aparecer outro Marquês de Pombal, ou Dom Diniz?

Refeições de “trabalho”
Anvers – 1965
Um estágio de duas semanas na fábrica da Gevaert (que Deus haja) sobre artes gráficas. Muito interessante, aprendi pra caramba!
Almoço na fábrica com o pessoal.
Numa dessas refeições ficou ao meu lado uma jovem francófona e quase na frente uma flamenga. Todos os que rodeavam queriam saber “coisas” de África! Para meu enorme espanto as duas fingiam que não entendiam o que a outra dizia. Uma falava flamengo e inglês e a outra francês e castelhano. E eu, avis rara de Angola, é que servi de interprete! No fim do almoço, ainda sobrava um tempinho para um bate-papo, e um dos belgas veio perguntar-me como é que nós, portugueses, nos entendíamos com os indígenas, em África. Ótima pergunta!
A Bélgica que tinha sido, através do seu rei, “proprietária” do Congo, onde dizimou, segundo números oficiais uns dez milhões de congoloses, não tinha a menor noção do que era África.
A minha resposta foi curta e grossa:
- Entendemo-nos muito bem. Bem melhor do que aquelas duas moças, belgas que fingem que não se entendem.
Fim de papo.
O diretor de exportação da Gevaert, com um nome próprio para o país, Mr. Van Brusselen, simpático, um dia levou-me para almoçar na sala especial (VIP) da diretoria, onde mais uma vez fui uma espécie de raridade. Criados bem fardados, comida refinada, bons vinhos e charutos (eu não fumava, nem fumo), um belo café, os big chefes reunidos, choviam perguntas. E choveram respostas!
Uns dias depois o senhor Van Brusselen convidou-me para jantar em sua casa. Escreveu-me num papel o endereço e como lá chegar no carro que eu tinha comprado na Alemanha.
Um pouco fora de mão, mas cheguei em boa hora.
Estava ele e esposa. Amável, sentámo-nos na sala, e ele foi buscar dois copos e a garrafa de whisky. Copos de uns 2dl. Encheu os dois até às bordas, gelo... só no Polo Norte (nesse tempo) e quando eu vi aquele bestialidade, pensei que se bebesse tudo não conseguia voltar para casa.
Tchim, tchim, um golinho, pequeno, depois outro, mais um e consegui dar cabo da tarefa. O anfitrião ainda quis servir-me segunda dose!
Fomos para a mesa. Abriu uma garrafa de vinho português, serviu os copos, mas ele não bebeu! A senhora, atarefada entre o jantar e a cozinha, lá nos ofereceu do que havia preparado, e findo esse primeiro prato, o dono empurra tudo o que tinha na frente, dobra o braços em cima da mesa e cai de borco a roncar!
Fiquei sentado à mesa... sozinho!
A senhora pediu-me que desculpasse o marido, ele tem andado com muito trabalho... esquecendo o quase meio litro de whisky que tragara, e oferece-me uma imensa fatia dum bolo seco, que eu pensei que seria muito bom para absorver o que também tinha bebido, mas continuava lúcido!
A certa altura achei que devia ir embora. Agradeci muito, mas quando me levantei o cara acordou e queria que eu bebesse mais com ele!
-Muito obrigado, faz-se tarde e tenho que voltar para o hotel!
Au revoir, merci infiniment, etc., e como me soube bem o friozinho da noite.
Mas para encontrar o caminho de volta penei. Decidi seguir um ônibus. Andei um monte de tempo até que o dito entrou na garagem. Terminara o serviço! Esperei que saísse um noturno de volta. Lá o segui até encontrar alguma rua onde me orientar!
Bravamente consegui chegar são e salvo, cansado e enjoado até cair na minha cama!

Alemanha – 1967 (Já não lembro nem da cidade nem do nome da empresa)
In illo tempore – só meio século passado – trabalhava eu com o José Pinto, em Luanda, em material fotográfico, artes gráficas e outras artes.
Visitas a feiras internacionais e a fábricas de material que ou já representávamos ou queríamos representar.
Uma dessas empresas fabricava diverso material para uso em laboratório. Tudo em plástico, mas de qualidade germânica, que se vendia regularmente.
Cheguei cedo, fui recebido pela gerente de exportação, lá discutimos o que entendemos (saí de lá com um descontinho extra!) e, antes de sairmos para almoçar ela foi apresentar-se ao “patrão”, dono do negócio.
Sentadão atrás da sua mesa, um aperto de mão tipo glacial, e quando a gerente explicou quem eu era – da representação deles em Angola, e há alguns anos – o boche, fez só uma pequena observação:
- Ah! Angola! Portugal! Eusébio!
Foi uma espécie de murro no estômago. Não gostei. E “amavelmente” respondi-lhe:
- Alemanha! Nazis! Hitler!
E virei-lhe as costas! O besta recebe assim um cliente! A pobre gerente saiu correndo atrás de mim, pedindo-me desculpa da indelicadeza do patrão.
O miserável, que há anos fazia negócio conosco só sabia do Eusébio! Nem teve o cuidado de consultar um mapa, ver o nosso dossier, oferecer-me um café, enfim, ser normal!
O almocinho, tête-a-tête foi muito simpático, e eu, macho, nunca tinha sido convidado para almoçar por uma jovem senhora, quis pagar a conta.
-  Nem pense. Quem paga é a empresa.
- Assim pode pagar!

Brasil – 1986
Neste ano tive um “ataque”: deu-me para comprar um bonito pedaço de terra, na montanha, a quase 200 quilômetros de São Paulo. Lugar lindo, clima soberbo, no alto da serra, sem vizinhos (quase!) várias nascentes de água espetacular, enfim um pequeno paraíso.
Os “ataques” dessa doença foram se sucedendo, com a compra de ovelhas, vacas (para que o caseiro tivesse leite fresco para dar a uma filhinha pequena e até dois pangarés, para eu me sentir “um grande proprietário rural”. E duas selas para os montar.

Os pangarés... tranquilos
Os primeiros netos, grandes cavaleiros

Entretanto, durante a semana, dormiam lá os pedreiros que estavam a construir a casa (que ficou uma beleza), e tinham autorização para, no fim do dia montarem os cavalos para irem a uma pequena casa de comércio que ficava a uns 4 ou 5 kms.
Sexta feira ao fim do dia saía eu de SP para ir ver a obra e gozar daquele ambiente.
De manhã diz o encarregado da obra:
- Roubaram os cavalos! Quarta feira.
- ?
- Foi um sujeito que vive do outro lado do morro. O caminho dele, passa aqui por dentro do seu terreno. Nós passamos por ele, à noite, guardamos as selas e soltamos os animais. Ele rebentou a porta onde estavam as selas e levou tudo.
- Quem é o sujeito?
- O nome não sabemos. Mas não é boa gente. Anda escondido porque matou um homem, foi condenado, depois fugiu e aqui pensa que ninguém o vem buscar.
- Muito bem. Amanhã passo no posto da polícia e vou tratar disso.
Domingo, no regresso a casa passo na povoação e conto à polícia o que acontecera.
- Nós vamos averiguar. Quando o senhor voltar, já terá notícias.
Na sexta feira seguinte lá estava eu. A polícia tinha recuperado as selas, um pouco danificadas para esconder as marcas que eu lhes havia feito. E mandou que ele levasse os cavalos de volta.
- O senhor quer apresentar queixa?
- Não. Para que, se ele já tem um homicídio às costas e vive à solta, sabendo a polícia onde ele está. Quero só pedir-lhes um pequeno favor: digam a esse pilantra se ele voltar a passar dentro do meu terreno, mesmo que tenha obrigação de dar serventia no caminho, que eu o mato. Se o vir por lá, não vou perguntar se ele me vem roubar outra vez ou matar-me. Assim, com a arma que lá tenho o primeiro tiro é meu e o cara tomba.
- O senhor vai matá-lo?
- Se ele me aparecer pela frente, com certeza.
­O bandido devolveu os cavalos, nunca mais passou nem perto e eu não tinha arma nenhuma. Mas tive que dar uma de macho, que é assim que no meio do mato as coisas funcionam!


Abril, 2017

quarta-feira, 26 de abril de 2017



O Rio de Janeiro
Histórias da sua História
- 5 -

Não podemos “sair” do Convento sem contar mais duas historinhas que ilustram, uma, a engenhosidade de alguns frades, e outra a política que tantas vezes, sem se preocupar com a cultura e história prefere destruir o que lhe possa dar nome e votos. Já lá voltaremos.

Era uso no século XIX que os pregadores franciscanos pagassem ao convento, por cada sermão do Evangelho, feito noutras igrejas, uma dobra, e por cada prática quatro mil reis, tal o sucesso dos franciscanos na cidade. Era um ónus pesado!
Frei Francisco de Santa Teresa de Jesus Sampaio, um dos mais fecundos intelectuais e oradores, mais tarde também um grande político, escrevia, sem cessar, pregões que os frades que iam pregar fora levavam, não sem antes lhe pagarem os quatro mil reis! No regresso ao Convento os pregadores tinham que entregar ao frei guardião o que haviam recebido!
Um dia frei Francisco de Mont’Alverne, um grande teólogo e orador, que foi pregador oficial do Império, recebeu um convite para ir pregar na Igreja dos Terceiros do Hospício, pondo a condição de que ninguém deveria saber (para que pudesse guardar o pagamento!). Aceite o acordo, lá foi, pregou, voltou para casa sem que algum dos confrades tivesse tomado conhecimento. À noite houve uma solenidade no altar da enfermaria e frei Mont’Alverne lá foi, um pouco cedo e conversava com o guardião, frei Joaquim de S. Jerônimo, quando entra no salão um devoto, pessoa muito estimada, que, se lhe dirige, entusiasmado:
- Ah! Padre mestre. Que magnífico sermão pregou hoje vossa caridade! A admiração foi geral e eu ainda me encontro comovido e arrebatado!
Frei Mont’Alverne estava apanhado! E o devoto, muito enlevado relatou tudo quanto testemunhara.
O guardião começou a rir:
- Venha a dobra, padre mestre!
E frei Mont’Alverne teve que pagar!
Frei Sampaio foi mais hábil. Pouco tempo depois tinha que ir pregar um “sermão de angústia” na igreja da Misericórdia, e quando saía da sua cela encontrou o guardião com ar contrariado e pergunta-lhe:
- Que tem padre mestre? Parece preocupado?
- Ah! Não se pode mais ser prelado nestas casas. Os frades só nos dão desgostos!
- Deveras? – disse frei Sampaio sorrindo.
- Ria-se, ria-se, mas se fosse guardião havia de viver angustiado como eu.
- Pois por mim, eu lhe juro que não se queixará sobre o meu quinhão de angústias.
- Estou certo disso, e nunca pensei o contrário.
Dias depois lá foi frei Sampaio pregar o seu sermão. Voltou depois para a sua cela, e mal tinha entrado apareceu-lhe o frei guardião.
- A dobra, padre mestre!
- Que dobra?
- A dobra do sermão que pregou.
- Oh! Padre mestre guardião. De pagar essa dobra estou eu livre, porque preguei um sermão de angústias e há três dias lhe jurei, e vossa caridade recebeu meu juramento, que eu não lhe daria o meu quinhão de angústias.
O guardião riu-se e frei Sampaio não pagou a dobra!
Genial!!!

No dia 4 de Setembro de 1911, sem aviso prévio apareceram no Convento o segundo Procurador da República e o diretor do Patrimônio Nacional, para despejarem os frades e sequestrarem o Convento!
O tal diretor queria que os frades saíssem imediatamente! Interveio o procurador e a saída foi adiada, mas deixaram o Convento sob a guarda de um oficial de diligências e dois policiais!
No dia seguinte, o ainda e mesmo diretor, voltou a exigir que os frades cumprissem a ordem de despejo até às quatro horas do dia seguinte.
Dia 5 os jornais encheram as páginas com tão insólita notícia! Num deles “a União Católica Brasileira e a Associação da Mocidade, convidava todos os católicos do Rio de Janeiro para assistirem à saída dos religiosos franciscanos do seu Convento no Largo da Carioca, hoje, até às quatro horas da tarde, hora em que serão expulsos da sua residência. A Mocidade Católica convida todos os Vicentinos, todas as associações todos os católicos para se reunirem junto ao Convento, durante todo o dia para assistir aos religiosos e confortá-los.”
O povo reuniu-se em massa. O Executivo soube do desagradável incidente. O ministro do Exterior apressou-se a apresentar desculpas ao Núncio Apostólico.
Os frades permaneceram no Convento. Depois desta encenação “trágico-cômica” o governo moveu ainda um processo, tentando apoderar-se do Convento, mas perdeu a questão e foi condenado a pagar as custas. Recorreu ao Supremo. Este, seis anos mais tarde, apreciou o mérito e unanimemente negou-lhe provimento.
Publicada a sentença a 7 de Julho de 1918, o Executivo revogou a ordem de sequestro no dia 17 de Abril de 1919!

Como é fácil de imaginar houve alguns politicalhos que quiseram tirar vantagem de tamanha estupidez. Mas... o pior é que continua a haver gentalha dessa e, se o Supremo naquele tempo levou seis anos para apreciar e resolver a questão, imaginem como será hoje em dia, com milhares de processos, sobretudo os da canalha que quase leva o Brasil à falência (vidé Lava Jato).

 Pelas Histórias anteriores foi-se apercebendo que Joaquim Manuel de Macedo tinha pelos políticos, a mesma consideração que tem hoje TODO o Brasil por essa mesma casta de fervorosos “crentes”!
Em 1861 a Irmandade da S. Cruz dos Militares tinha uma receita de 596.603$129, proveniente de aplicações financeiras, do aluguel de alguns prédios que lhes tinham legado, e ainda da contribuição dos irmãos, pagando religiosamente as devidas pensões às viúvas e órfãos de irmãos finados. Esta receita mostra bem o cuidado e sabedoria das administrações da Irmandade.
Diz Macedo: Pois nem todas as irmandades podem gabar-se do mesmo. O culto divino está ao serviço da pátria e há bom número de carolas que se aproveitam do serviço de Deus para cuidarem dos seus interesses particulares.
São os que rezam o Pai Nosso unicamente por causa do venha a nós! ...faz desconfiar tanta dedicação religiosa!
Século e meio passado, o que tem de devotos! Nas miríades de pseudo-igrejas que não mais são do que rendosíssimo comércio de venda de milagres, e na política, o VENHA A NÓS, muito, mas muito mesmo, vai mesmo para eles!
Basta ver o que se passa com os fundos de pensões, no Brasil, “rapados” pela canalha!

A questão da fronteira nordeste do Brasil com a França remonta ao Tratado de Utrecht de 1713, mas diversas interpretações quanto ao seu traçado continuam a existir. A França considerava que o rio Oiapoque mencionado no texto correspondia ao Araguari, o que lhes daria mais 400 quilômetros de costa e para cima de cento e sessenta mil quilômetros quadrados da Amazónia, e o Brasil considera que o Oiapoque... é o Oiapoque. O litígio correu durante quase dois séculos, na corte de Haia, até que uma arbitragem internacional feita pela Suíça deu razão ao Brasil.
O que o Rio de Janeiro tem a ver com isso? Muito. Vejamos.
Como se pode imaginar o Brasil não tinha como “resolver” o problema na paulada! A França ainda era uma das maiores potencias do mundo e, sabendo disso o Brasil não recrutou um único soldado, não fundiu canhões, nem a Marinha se movimentou. Mas, ainda segundo Macedo, “um poderoso exército se postou no Oiapoque”!
Esse exército, brilhante, foi o livro "L’Oyapock et l’Amazone", um estudo completo sobre a questão, editado em Paris em 1861 pelo seu autor o dr. Joaquim Caetano da Silva, gaúcho de nascimento, médico pela Universidade de Montpellier, em França, e o defensor, em Haia, do processo que ali corria. Tão minucioso e completo esse estudo que a arbitragem não teve grande dificuldade em acabar por dar razão ao Brasil, que continua a ser Do Oiapoque ao Chui!
O dr. Joaquim Caetano da Silva, foi carioca, por delegação do Imperador que o nomeou para várias embaixadas na Europa.

Por enquanto deixou o Rio em paz. Vou para outras bandas.
Paz? No Rio? Impossível, mas...

26/04/2017