quinta-feira, 6 de abril de 2017


ANGOLA
Histórias da sua História

Há 562 anos, nas suas digressões pelo Atlântico Sul, para o seu estudo e à procura da passagem para a Índia, o grande navegador Diogo Cão percorreu a costa de Angola,onde foi deixando a sua marca com os padrões em pedra: o Padrão de Santa Maria no cabo que parece ter começado por se chamar Cabo do Lobo, e hoje tem o nome do padrão, a cerca de 100 milhas náuticas para sul de Benguela, outras 100 milhas mais a sul, o de São Jorge no Cabo Negro, um pouco a Norte do que foi Porto Alexandre e agora é Tombua, e ainda um mais 400 milhas para sul, o Padrão da Cruz que deu nome ao cabo, Cape Cross.
Para vergonha de Portugal, na Namíbia, quando ainda colónia alemã, o grande chanceler Bismark, retirou o padrão original, que hoje se exibe, lindo, no Institut fur Deutsche Geschichte, Berlim e para o substituir mandou um outro, com dizeres ligeiramente diferentes, em alemão dizendo mais ou menos: “que por este meio D. João II de Portugal tomava posse daquela região africana”...
Hoje em Cape Cross estão duas cópias do padrão original português. A segunda com uma pedra grande ao lado, lavrada em inglês, foi mandada colocar ainda pelo governo sul africano, administrador daquele país em 1986, nos 500 anos da colocação do original, ambos muito bem conservados, sendo hoje lugar de visitação turística, e ali se faz com que a história não se apague.

Cape Cross – Namíbia

Os de Angola, Santa Maria e São Jorge, em 1892 a Sociedade de Geografia de Lisboa, imitando Bismark, levou os originais para Portugal, parece tê-los substituído por cópias, que teriam sido colocadas nos respectivos locais, e hoje não sobram nem vestígios deles! 
O padrão (cópia) de São Jorge no Cabo Negro
desaparecido depois de 1975

Em 1787 o naturalista Joaquim José da Silva que fazia parte de uma expedição ao sul e visitou Cabo Negro, encontrou ainda o padrão original tombado e fê-lo erguer.
No Cabo de Santa Maria foi colocado outro igual. Mas só sobra um triste farol... ainda com as quinas:


Deixemos os padrões onde quer que estejam e voltemos a Porto Alexandre, porque assim se chamava quando se passou o que vamos contar.
Em 1839 Pedro Alexandrino da Cunha fundeou num local conhecido por Porto Pinda, explorou os arredores e disse ter encontrado nas margens do rio Curoca arimos onde os nativos já exploravam feijão, milho e abóbora, e este seu relatório incentivou a ocupação das terras do sul.
O lugar chamou-se Angra das Aldeias, Porto Pinta, Porto Alexandre  e hoje é Tombua! Uma baía muito bem abrigada do mar, em pleno deserto do Namibe, mas com um mar riquíssimo em peixe e marisco. Bom de mais!!!
Durante muitos anos não foi possível construir nada em “pedra e cal”. Tudo era de “pau a pique” e os seus habitantes praticamente se alimentavam só do mar, e a água potável iam buscá-la ao rio, a cerca de 15 quilómetros para norte.
Um dia decidiram escolher o próprio chefe que os orientasse quando necessário, e a escolha caiu em Cruz Roldão, algarvio, que parece teria ali chegado em 1860 no caíque “D. Ana”. Homem simples, não viveu muito mais e quem assumiu a “chefia” foi a viúva, Maria da Cruz Roldão. Ela sabia ler e escrever, tinha alguma cultura, e era uma mulher de coragem e forte decisão. Por várias vezes, Maria da Cruz tomou decisões impor­tantíssimas para a comunidade que chefiava. Em dada altura, os hotentotes, vindos do Sudoeste, acossados pelos alemães, passaram para norte do Cunene e dedicavam-se à pilhagem e ao massacre. A povoação de Porto Alexandre estava nesta contingência. Porém, a regedora procurou estabelecer contato com os chefes daquela gente, o que conseguiu, e teve com eles uma conferência, no local conhecido por Arco do Carvalhão*, a uns trinta e cinco quilómetros para Leste do aglomerado populacional, e a povoação foi salva. Igualmente, em data que não ficou registada (mas deste facto nos fala o almirante Augusto Casti­lho), fundeou um navio de guerra inglês na baía, em frente à habitação de Maria da Cruz. Pouco depois, os súbditos de Sua Majestade, esquecendo-se de que estavam em terri­tório de outra nação que lhes devia merecer respeito, iniciaram exercícios de tiro para a restinga que forma a baía. Muitos dos projéteis iam cair do outro lado, no mar, onde andavam os nos­sos pescadores nas suas atividades. Este ato arrogante levantou protestos das mulheres e crianças que estavam em terra e que traziam no mar os maridos, pais e irmãos. Em pranto, dirigiram-se a casa da regedora e pediram-lhe que acabasse com aquele abuso do navio estran­geiro. Maria da Cruz mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote, e dirigiu-se para bordo do navio britânico. Saias arregaçadas, punhos cerrados, gesticulando e no seu fra­seado de gente do mar, intimou o comandante inglês, a acabar imediatamente com a perigosa brincadeira. Aquele, que apenas deve ter compreendido a indignação e o desas­sombro duma verdadeira mulher de armas, fez suspender o fogo, abandonando o fundeadouro no dia seguinte.
Mas a Maria da Cruz sendo uma mulher humilde e de cultura limitada, evidenciou sempre grande coragem, valentia e decisão pouco vulgares, que devem ser apontadas como exemplo. Por outro lado, a dura têmpera desta mulher do povo deve ser o orgulho das mulheres portuguesas... e de todas as as mulheres do mundo!
* - O “Arco do Carvalhão” que os navegantes do Mussulo I, visitaram em 04 de Janeiro de 1906.
O lago é formado pela retenção das águas do rio Curoca.

Nota: a história desta valente Maria da Cruz foi encontrada no livro de Cecílio Moreira “Entre Dunas e Mar”, impresso em Luanda talvez em 1968 a 1970.
Nota final:
Não poderia Portugal oferecer novos padrões a Angola, e ir lá, solenemente, colocá-los?
É por eles que começa a história “moderna”, de Angola.


06/04/2017

domingo, 2 de abril de 2017



O Rio de Janeiro
Histórias da sua História
- 2

No texto anterior já se falou no Passeio Público, executado para aterrar um pântano, o Boqueirão, para o que se desmontou o Morro das Mangueiras que estava encostado ao Morro de Santa Tereza, que começou por se chamar Morro do Desterro, e que Mestre Valentim ficara com o encargo de o projetar e embelezar com as suas belas esculturas.
Mas Mestre Valentim sabia que para isso precisava de muito dinheiro e os cofres do governo estavam sempre vazios, e disse ao vice-rei::
- Senhor, Vossa Excelência tem empreendido tantos e tão grandes trabalhos que não sei se haverá recursos para os executar todos. Vossa Excelência faz milagres, mas... dinheiro não abunda. Além disso faltam-nos os necessários trabalhadores.
- Não se preocupe. Farei aparecer dinheiro e gente. Isso fica a meu cuidado. Quero ver esse jardim pronto antes de ser substituído no governo do Brasil.
Mestre Xavier meteu mãos à obra e os engenheiros iam dessecando a lagoa do Boqueirão.

Lagoa do Boqueirão – séc. XVIII

Pela sua parte Luiz de Vasconcelos cumpriria com a sua palavra.
Como disse o próprio vice-rei, “poucas são as rendas da Fazenda Real”, mas a cidade abundava de vadios; lembrou então que uma carta régia mandara construir no Rio uma “casa de correção, que sendo utilíssima, ficou no esquecimento, apesar de ser bem projetada para reprimir os vícios, promover o trabalho e tirar dessa ociosidade uma espécie de lucro!
Mandou para a Ilha das Cobras todos os vadios que se encontraram, e que ali praticassem nos seus ofícios, e vendendo esses produtos, os cofres do governo tiveram uma melhora, mesmo pequena.
Os trabalhadores foram recrutados pelo mesmo sistema: vadios sem ofício, mandou que fossem trabalhar na construção do Passeio Público!
O certo é que Luiz de Vasconcelos cumpriu com o prometido, fazendo aparecer dinheiro e trabalhadores, e em menos de quatro anos inaugurou-se o Passeio Público “ao bom povo do Rio de Janeiro”, que teve imenso sucesso.


Aberto ao público em 1783, muito estimado pelos cariocas, e não só, foi-se deteriorando com os anos, em que D. João V e os primeiros tempos do Império o negligenciaram. Finalmente, em 1863, reabriu novamente, por imposição de D. Pedro II, e mesmo tendo sofrido algumas alterações ainda hoje é um ícone, infelizmente quase esquecido, nesta cidade... maravilhosa... ?

Tem muita história por aqui. As antigas vão sendo esquecidas, atropeladas pelo desconcerto e desabamento da moral e da ética que o país atravessa, e que sufoca o povo, que já não acredita em nada.
Mas foram diferentes os tempos passados.
Por razões de ordem filosófica ou teológica os religiosos que vinham para o Rio, nem todos, como é de supor, viviam em constante luta com os outros habitantes, comerciantes ou agricultores, por causa da questão dos escravos. É evidente que muito religiosos os queriam livres porque também se aproveitavam da sua mão de obra quase de graça! E as desavenças eram muitas.
Em 1639, Filipe III(/IV) requereu à Sé Apostólica a elevação da prelazia do Rio a bispado, e nomeou, como administrador eclesiástico o dr. Lourenço de Mendonça. Nessa época já o Rio vivia numa desmoralização... avançada.
O dr. Lourenço chega ao Rio em Setembro de 1637 e quatro dias depois já sentia uma violenta oposição, chegando ao ponto de os seus inimigos terem introduzido na sua residência um barril de pólvora, com quatro pavios, e o colocaram junto à cama do prelado. Por muito sorte o dr. Lourenço escapou à tentativa de assassinato, mas a casa ardeu e desabou!
Procedeu-se a uma devassa, e o resultado foi contra o prelado que teve que pagar a conta! Contra ele “choviam libelos inflamatórios” recorrendo a crimes inventados, e por fim, sem conseguirem vencê-lo, tramaram levá-lo preso num bote até fora da baía e abandoná-lo no mar aberto, ao sabor do frio e das vagas!
Avisado, o prelado embarcou numa nau que o levou a Portugal, em 1637, onde não só foi inocentado como eleito bispo do Rio de Janeiro, cargo que ficou só na honra porque não voltou para este inferno!
Os cariocas podiam repetir esse tipo de “bota-fora” a tanto malandro que por aqui vagueia e se enche!

Estácio de Sá, em 1567, depois de bater os franceses, fundou a cidade do Rio de Janeiro num dos morros dominantes, ponto alto, com bela vista para todos os pontos da baía, morro esse que depois de ter sido conhecidos por diversos nomes terminou sendo o Morro do Castelo. Aí se fortificou, se edificou a primeira igreja de São Sebastião o orago desta cidade, a residência do governador e por aí mesmo começou a cidade, que não tardou a preferir instalar-se nas áreas baixas do que ficar lá no alto. O Rio era uma região de lagos, pântanos e morros, mas foi mesmo na parte baixa que a cidade se desenvolveu, e o Morro do Castelo foi assim votado ao ostracismo.

O Morro do Castelo em 1855

Volta e meia desciam pelas encostas do Morro uns deslizamentos que sempre faziam os seus estragos, ajudados pelas chuvas, algumas escavações e por particulares que se utilizavam do seu barro. Em 1759 foi o primeiro, não muito grave, que assustou menos do que a inundação de três anos antes, de que Baltazar da Silva Lisboa nos seus Anais do Rio de Janeiro, deixou este relato:                     
As trovoadas ocasionavam na cidade grandes inundações. Em 4 de abril de 1756, depois de uma hora da tarde, choveu tão grossa e copiosa chuva, precedida de veementes con­clusões do ar e espantosos furacões, por três dias sem interrupção, que o temor e o susto se apoderaram de tal sorte do ânimo dos habitantes, que desde a primeira noite muita gente desamparou as casas, as quais caíram, fugindo sem tino para as igrejas. Desde então, as águas cresceram de tal maneira que inundaram a rua dos Ourives e entraram pelas casas, por não caberem pela vala. No dia 5 do dito mês, saindo o Santíssimo da Sé, o sacerdote que levava o Senhor foi descalço, e bem assim os irmãos da irmandade do Santíssimo. Todo o campo parecia um lagamar. Vadeavam-se as ruas de canoas, e no dia 6 uma nave­gou desde o Valongo até à Sé (que estava na igreja do Rosário dos pretos) com sete pessoas.
O segundo e terrível desmoronamento do Morro do Castelo aconteceu em feve­reiro de 1811.                                           
No dia 10 de fevereiro desse ano, pelas 11 horas da manhã, começou a cair uma violenta chuva, que continuou incessante por sete dias. As ruas e casas fica­ram inundadas. A rua da Vala conservou-se durante todo esse tempo com cinco palmos d'água, e no campo de Sant’Ana (hoje da Aclamação) navegavam canoas. O príncipe regente ordenou que se conservassem abertas as igrejas, onde, apesar da inundação, rezavam os padres e os fiéis.
E fácil compreender o susto da população, que falava tremendo, em um novo dilúvio.
E pior do que tudo isso, em um desses tristíssimos e amargurados dias correu uma das abas do Morro do Castelo, ficando soterradas muitas casas da rua da Misericórdia e no beco, hoje rua do Cotovelo, e morrendo sepultadas em vida famílias inteiras.
Já no século XVIII se cogitara por várias vezes arrasar o monte, mas a população em vez de concordar zombava com a ideia.
Foi somente em 1922 que o governo decidiu desmontá-lo, com a argumentação que seria necessária aquela área para abrigar a grande Exposição Comemorativa do Centenário da Independência do Brasil. As suas terras foram usadas para aterrar parte da Urca, da Lagoa Rodrigo de Freitas, do Jardim Botânico e outras áreas baixas ao redor da Baía da Guanabara, e desafogou a baixa da cidade.

24/03/2017

terça-feira, 28 de março de 2017


O Rio de Janeiro
Histórias da sua História
- 1 -

Sempre foi assim e não vai mudar nos próximos séculos.
O Brasil bateu todos os recordes do mundo em ladroagem e corrupção, tem uma classe política com uma abissal falta de educação, cultura, ética, classe e conhecimentos, mas continua a ser um lugar meio mítico com o seu carnaval, as suas praias e as suas gentes, sempre amáveis.
Corrupção houve desde sempre, sempre. Lembremos só o Bezerro de Ouro, a ter-se passado foi há mais de 3.500 anos, os 30 dinheiros que o pobre Judas recebeu, os presentes que davam a Khrushchov quando premier dum mundo eufemisticamente chamado comunista, o governo do general Grant no EUA, considerado o mais corrupto de toda a história daquele país (incluindo Busch) e centenas, milhares de outros, entre eles o Príncipe Bernardo da Holanda que recebeu mais de um milhão de dólares de para que usasse sua influência junto ao governo neerlandês na aquisição de aviões de combate... americanos! No melhor pano cai a nódoa! Haja panos!
Joaquim Manuel de Macedo, médico, escritor e jornalista brasileiro (1820-1882) deixou-nos uma preciosidade histórica no seu livro “Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro”.
É deste livro que vos contar algumas histórias, ao mesmo tempo que vos desafiamos a visitar os lugares nelas citados.
Sabemos que é difícil andar pelo centro da cidade à procura destas histórias, sobretudo para quem, como eu, que já não pode andar quilómetros, e quase também não hectômetros, sem ter que parar para repor o folego que se gasta rapidinho.
Comecemos por algumas que não requerem visitas.
Entre 1769 e 1778 governou o Rio de Janeiro, como vice-rei, o Marquês de Lavradio, chamado modestamente Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão d'Eça e Melo Silva Mascarenhas! Aqui chegou com 40 anos, dinâmico, encontrou o Rio num estado de quase abandono, sujo, ruas de terra, praticamente sem esgoto, e deu nova cara à cidade. É considerado um dos melhores governadores que por aqui passou. Quarenta aninhos, na força da vida, cheio dela e de energia era um “rabo de saias”, e ia “traçando” as meninas e senhoras fáceis que, normalmente depois, se vangloriavam de terem acolhido o marquês em suas alcovas... e suas pernas!
O governador saía de noite, todo encapuzado, quase irreconhecível e sabia bem a que portas bater, levemente, para não despertar a curiosidade dos vizinhos; ali fazia o que “tinham” a fazer e regressava altas horas ao palácio. Como é de imaginar os vizinhos não eram cegos nem surdos, era sabida a fama e proveito de Sua Excelência, e das parceiras (óbvio) mas ninguém se atrevia a comentar.
“Vice-rei! Acima dele só Deus, porque o rei, mesmo estava a meses de distância e, muito ocupado com a vida das freiras!!!  (Só de uma prioresa, D. João V teve três filhos)
Havia nessa época no Rio um conhecido doido, pobre e inofensivo, que vagava pelas ruas, e dizia o que lhe apetecia. O povo sempre gostou de puxar pela língua daqueles que nada têm a recear. Um dia sua excelência seguia a cavalo pela cidade, para visitar o andamento das obras que mandara fazer e cruzou-se com o doido, Romualdo.
Achou graça ao vê-lo, parou o cavalo e perguntou-lhe:
- Romualdo! Que dizem de mim aí pela cidade?
- Dizem que Vossa Excelência limpa as ruas mas suja as casas!
O povo que estava por perto ouviu a resposta, não conteve o riso e o Marquês picou o cavalo e saiu a galope!
Alexandre Dias de Rezende era um homem pardo, filho de um reconhecido carpinteiro trabalhador, que lhe deixou uma pequena fortuna que ele soube aumentar, entregando-se ao comércio. Passado algum tempo já tinha comprado uma grande chácara no caminho de Mata-Porcos (hoje rua Estácio de Sá). Com meios de fortuna, mulato, Alexandre sofria da inveja de muitos incapazes, dizendo que ele teria desenterrado um tesouro escondido no morro da Conceição e não o teria partilhado com os verdadeiros donos, que não havia! Se isso o perturbou, ele continuou seu caminho, honrado e acabou respeitado.
O vice-rei, entre o bom governo que fez, foi organizar os terços ou regimentos auxiliares da cidade do Rio de Janeiro, dispôs que o 4° regimento fosse de pardos e nomeou capitão de uma das companhias ao invejado Alexandre de Rezende.
No comando desse regimento ficou um português, major Melo, austero, violento e grosseiro.
Os pardos desse regimento eram frequentes vezes vítimas do mau génio do comandante, e atribuíam também esses maus tratos por influência do Marquês que tinha sido humilhado pelo pobre Romualdo.
Entretanto, terminado o seu mandato, o governo passou para Dom Luis de Vasconcelos e Sousa, 4° conde de Figueiró, cujo coração também se descompassava ao ver as lindas Moreninhas ou outras de quaisquer variados tons de pele das cariocas, mas não consta que tenha sido um Casanova. Afável, duro quando necessário, duas pequenas passagens atestam a sua personalidade.
Continuemos com Alexandre e o major Melo que se manteve no posto no novo governo, quando um dia tratou indignamente o capitão, que, à noite, foi a casa do major expondo o acinte que sofrera e que não devia passar sem uma satisfação a todo o regimento.
O major olhou-o com desprezo, e disse-lhe com tom de idiota zombaria:
- Homens, vocês que são mulatos, lá se entendam.
O capitão Rezende cada vez mais ultrajado pelo major foi direto ao palácio e pediu para ser recebido pelo vice-rei, no que foi logo atendido. O vice-rei ouviu as queixas, despediu-o e mandou chamar o major.
Como é evidente o major acudiu “correndinho” ao chamado e, interrogado, orgulhoso, expôs tudo como se tinha passado.
O vice-rei, repreendeu-o severamente deixando claro o seu descontentamento e o insulto com que ultrajara o capitão Rezende e ordenou-lhe que se recolhesse, sob prisão, a uma das fortalezas.
O major ao ouvir a ordem de prisão:
- Preso, eu? Pois é verdade que V. Exma. me manda prender?
Dom Luis de Vasconcelos, respondeu-lhe tranquilamente:
- Homem, nós que somos brancos, cá nos entendemos.
O major Melo perdeu o comando do regimento, foi mandado lá para o Sul, e Alexandre Dias de Rezende terminou a sua carreira como Sargento-Mor, posto equivalente a coronel.
O “nosso amigo” Alexandre Dias de Rezende, homem bom, generoso, prestigiado, quis entrar para a Irmandade de S. Pedro de quem era devoto. Sabia que sendo pardo a sua entrada não seria fácil. Um belo dia lá se decidiu e fez a sua proposta a um dos padres daquela igreja – Luiz Gonçalves – que a levou a uma reunião da mesa. Para votar a entrada desse personagem, a reunião tinha presentes todos os membros, e a discussão foi renhida. Não suportavam a ideia de ver um pardo lá “misturado”! Um dos padres que depois foi senador do Império, foi de tal violência contra, que a mesa não o aceitou.
Quando o padre Luiz a quem Rezende tinha feito o pedido o informou da negativa o pobre-rico Alexandre, de tão chocado até chorou!
- Paciência. Os senhores padres não me querem. Paciência.
Alguns anos mais tarde Rezende vendeu a sua chácara (onde está hoje a sede da Prefeitura do Rio) e, apesar de estar já bem velho fez construir duas casas na rua de S. Pedro, uma delas ao lado da Igreja. O padre Luiz estranhou que ele, velho, ainda se metesse em obras e perguntou-lhe qual era a sua ideia.
- É um segredo que só será conhecido depois que eu morrer. Tenho muita pena dos senhores padres que, sendo pobres e estando velhos e doentes não tenham onde ficar e celebrar.
Não durou muito mais. Ao abrirem o seu testamento:
“Declaro que entre os bens que possuo são duas casas com sobrado na rua de S. Pedro... que deixo à irmandade de S. Pedro... para assistência aos Rev.mos sacerdotes que se acharem enfermos...” etc.
Alexandre Dias de Rezende morreu sem fazer parte da Irmandade, mas enriqueceu-a. (Nesta ocasião os padres não discutiram se deviam ou não aceitar o legado!)
Como benfeitor, teve ofício de corpo presente na igreja de S. Pedro e foram os padres que por fim carregaram nos ombros o caixão do pardo para a igreja da Ordem Terceira de S. Francisco de que era irmão. E mais: quando chegaram perto do convento de Santo António os “terceiros” estavam presentes para receberem o caixão que os padres de S. Pedro não queriam entregar! Quase brigaram pelo morto os que o tinham desprezado em vida!
Uns bons anos mais tarde a administração da irmandade de S. Pedro mandou colocar na sacristia um retrato de Rezende!
A bonita igreja de S. Pedro foi demolida em 1943 quando se abriu a Avenida Presidente Vargas.
Estava onde é hoje uma das faixas da mesma avenida.

Só mais uma do vice -rei Dom Luis de Vasconcelos.
Descia um dia o vice-rei, a pé, o morro da Conceição, acompanhado do mestre Vitorino a quem encomendara a execução do Passeio Público, para o que foi necessário desmontar o Morro das Mangueiras (que ficava entre o de Santa Teresa e o de Santo António) para aterrar a famigerada lagoa do Boqueirão, de águas paradas, sujas, malcheirosas, quando se cruza com uma liteira carregada por dois escravos que, com o imenso calor que fazia, suavam como se estivessem debaixo dum chuveiro.
Mandou parar, abriu a cortina que dentro escondia o “amo”, homem gordo. Ordenou-lhe que descesse do “bem bom”, e no seu lugar mandou entrar um dos escravos. Ao “patrão”, depois de o descompor pela vergonha e maldade que fazia aos seus escravos, ordenou-lhe que subisse ele a carregar a liteira para ver como era!
Vice-rei mandou, ninguém discute! Onipotente. E lá seguiu o “patrão” a carregar, encosta acima, sentadão na liteira, um dos seus escravos!
O mais curioso é que esse homem era rico, e até hoje, a ladeira tem o seu nome: Ladeira de João Homem!
Parece que o Dom Luis de Vasconcelos e Sousa faz, hoje, a maior falta no Rio de Janeiro... e não só!


04/03/2017

domingo, 26 de março de 2017



Alguns números

Para o fim de semana

Não é para pensar. Só para ver!

A)- Brasil, segundo os “fóruns internacionais este é  o4º país mais corrupto do mundo! Devem ter esquecido da Guiné Equatorial, Angola, Rússia e Coreia do Norte, Sudão, e tantos outros, incluindo Cuba, mas não esqueceram da Venezuela.

B)- Também é o país mais religioso do mundo: só entre 2010 e 2016 foram registradas mais de 55.000 “igrejas”! Uma delas tem o simpático nome de Associação Missionária da Boneka!
É um magnífico negócio, porque não paga imposto de cólidade nenhuma, não precisa declarar proventos ao Fisco, não tem inspetores de saúde, trabalhista... nada.  A IURG continua a ser a campeã de arrecadação. Tanta devoção e nenhum milagre! Mas muito avião a jato, mansões, Ferrari e outros pequenos milagres operados pelos babacas.

C)- Mais de 50% dos congressistas – senadores e deputados federais – têm processos a correr na justiça por corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e outras simpáticas atitudes, como assassinatos, mas são os que continuam a criar leis para ver se se safam da cadeia. Isto é, a correr na justiça... não estão os processos, porque quando não metade dessa corja já estaria presa. Estão na justiça... estacionados!
Há até garotão há cerca de oito anos condenado a oito anos de cadeia, FIRME (?!?!) que não só não foi preso como se elegeu deputado e agora vai concorrer a governador dum estado... de sítio, lá pela Amazonas! Se calhar vai ser eleito. Como já sabe roubar, vai ser uma alegria.

D)- 80% dos radares de trânsito da cidade do Rio de Janeiro estão desligados. Porque? São propriedade de instituições privadas que prestam esse serviço, mas a Prefeitura não lhes paga e eles desligam! De qualquer modo, e “nunca fiando” os motoristas ainda abrandam!

E)- É verdade, e o PIB? Ah! Segundo os altos crâneos, o PIB em 2017 deve ficar em -0,7, negativo, não, aliás, em 1,6 positivo, não, em 0,2 positivo, e em cada semana o seu inconfundível e inegável e aprofundado estudo da economia, vareia!
Para 2018, os palpites continuam: 2,6. Não, talvez, 3,1, melhor, 2,3, etc. Como em 2015 e 2016 o PIB recuou cerca de 8 a 9 %, bota-lhe anos em cima para voltarmos aos tempos dourados de... 1%!

F)- Desemprego. Em pleno. Só 12% - oficial – de desempregados, fora os que vivem SEMPRE de quebra-galho e nem procuram trabalho, são já mais de 12.000.000 – doze milhões – pendurados numa Segurança Social... falida.
Segundo estudos (bem feitos?) se o governo não fizer uma completa reforma da segurança social, que continua encrencada nas assembleias de bandidos, calcula-se que daqui a uns 10 – dez – anos não haverá mais dinheiro para pagar. A ninguém.

G)- Mas este é o país do futuro. Futuro daqui a quantos anos? Espera-se para breve um meteoro, como o que acabou com os dinossauros, que venha resolver o problema.
O Padim Pade Ciço mandou dizer que não vai fazer mais milagres.

De vez.

26/03/2017



quarta-feira, 22 de março de 2017

Livros
Breves comentários

Comentar um livro que se leu nada tem a ver com a “augusta” crítica literária, somente permitida a “augustos” linguistas ou renomados prosadores.
Mas pode ser que a opinião de leigos facilite a escolha de algum livro ou evite a compra de outros menos apreciados. Vamos nesta.
Há talvez um ano, sempre curioso por história dos mais antigos, desta vez os astecas, comprei um livro, “best-seller mundial”, cerca de 800 páginas, com o título “AZTECA” e subtítulo “La vida, el amor desesperado y el martírio de los tempos de la Conquista – Uma real y desgarradora historia Azteca”. 3ª Edicion
Este pomposo título, 800 páginas de história real, e já na 3ª edição, cheirava a maravilha, comprei.
Não foi necessário ler nem 100 páginas para começar a perceber que o ”bestseller” se devia a uma história de autêntica e nojenta pornografia!
Começa por descrever um pouco da viva no tempo imediatamente pós conquista, com algum interesse, e de repente entra no “best-seller”: o filho de um azteca de classe média, adolescente, aprendeu com o pai a pescar num lago perto de Tenochtitlán, hoje a cidade do México, e dali poderia tirar o seu sustento.
Após as primeiras pescarias, para onde ia sozinho, e levando consigo algo para comer ao meio dia, a sua irmã, mais velha um ano, passou a levar-lhe a comida.
E aqui começa a pornografia. A irmã na segunda ou terceira vez que lhe leva o almoço, despe-se toda em frente do irmão, começa a excitá-lo, passando-lhes as mãos nas “partes pudendas”, e convence-o a ter relações sexuais com ela, tão habituada a ver os seus pais a fazerem isso que, queria porque queria, também fazer o mesmo.
Da primeira vez ambos concluíram que tinha sido muito bom! E previram continuar.
Nos dias que se foram sucedendo, sempre ela no comando, ensaiando métodos e posições diferentes, o relato dos encontros foram baixando de nível, até ao insuportável.
Não era o que eu esperava dum livro sobre história dos astecas! Saltei dez páginas para diante, à espera de encontrar a “real história”. Continuava a “pouca vergonha” com detalhes de cabaré de 8ª categoria.
Mais vinte páginas para diante: o mesmo.
Moral da história: não era exatamente o que me interessava e nem gostaria de dar o livro para alguém o ler. Arranquei e guardei a capa e queimei todas as tais oitocentas e tantas páginas. O pouco que já sabia dos astecas não avançou nada. Só a irritação de saber que um livro de linguagem – castelhana – tão reles tinha sido um best-seller!
Mal empregado dinheiro e tempo perdido. Mesmo só para quem “gosta” de temas porcos.



*          *          *

Há dias recebi de presente um outro livro. Só fala de Angola. Escrito por alguém que nasceu em Otchinjau, lá bem no sul, em 1933, e durante a vida percorreu todo o território, de Cabinda ao Cunene e de Benguela a Teixeira de Sousa, hoje Luau.
Todas as regiões ali são descritas com muito entusiasmo, muita graça e vigor, foram por mim também visitadas, sempre em trabalho, o que me fez “recuar e viajar no tempo” e voltar a percorrer aquela terra de que tantos sofrem de saudade.
Ironia no que respeita aos governos e “importantes” administrativos, a incompreensão para com os valores humanos e a falta de diálogo, tudo escrito com muita leveza, pode não chegar a ser um best-seller, mas para quem gosta, e sobretudo para quem conheceu bem aquela terra é um livro que muito recomendo.
Algumas passagens, como... “Naquele tempo, no Otchinjau, não havia uma igreja, nem padre, que pudesse ensinar as inocentes crianças e olhar pelos vivos e pecadores, ou pelos mortos, já sem pecado, todos em busca do paraíso perdido...”, ou “...o velho Ford, modelo T4, chamado de pontapé, ou de calça arregaçada... pegando à primeira de manivela... enfim, aquilo era uma máquina, caramba! Só queria que a vissem!... levam-nos bem para dentro do “mato”.
Só tem um probleminha: quando se acaba de ler fica-se meio triste. Quer-se mais!
“CHUVA TOMBA CAPIM – (Eteya-ua-soke)”, escrito por António José Figueiredo, “Tosé”, sem indicação de editora, impresso por AGL -Artes Gráficas de Lisboa (351-213421376), em Maio de 2016.
Este senhor, que não tive a sorte de conhecer, é sogro, de um dos filhos do meu amigo de Luanda, José Azevedo Mendes.
Aquela era uma grande terra, mas quando lembramos de quantos amigos ali tínhamos, parece-nos pequena!
Livro para quem quiser viajar por Angola, sentadão em casa a beber um copo.



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Comentar outro livro que há pouco tempo também me mandaram, escrito por um consagrado jornalista e escritor, com inúmeros prémios no seu curriculum, cheira mesmo a atrevimento.
Mas como imagino que muitos dos que vêem este blog não o devem ter lido, não custa muito afrontar o ridículo, e pedir ao autor que me perdoe a ousadia.
“UM JANTAR DE ESCRITORES – seleção de textos e notas epicuristas”, de José Viale Moutinho, (Colares Editora) é uma delícia de se ler. Uma repescagem de escritos gastronómicos dos mais conhecidos autores portugueses de todos os séculos, como Eça, Garrett, Júlio Dinis, Camilo, Wenceslau de Morais, até Fernando Pessoa, e bem mais, além do prazer da escrita, é uma bela oportunidade para quem sofre de fastio, e uma terrível inveja, pelo menos da minha parte, o não poder reunir com bastante assiduidade os amigos para compartilharmos a alegria dum daqueles petiscos tão bem temperados e regados com... Colares tinto!
Como todo o bom gastrónomo, o autor sabe muito bem que a comida, e sobretudo a bebida, quando em boa companhia se aprecia sensivelmente melhor e, além disso, vai situando o leitor com um rápido curriculum dos consagrados escritores.
Passagens como estas: de Camilo “A minha desgraça está nos apetites glutões, delicadíssimos, que se limitam às subtilezas do bacalhau e do caldo verde. Um perfeito sibarita, não lhe parece?”, ou esta outra do Eça... “Nada de ideias! Deixem-me saborear esta bacalhoada, em perfeita inocência de espírito, como no tempo do senhor D. João V, antes da democracia e da crítica!”, além estarem muito bem temperadas no livro, há que confessar, deixam-nos água na boa.
Reparem com cuidado na capa do livro e tentem dar nomes a todos os personagens ali tão bem representados à volta duma farta ceia!
Livro para quem quer boa literatura e... boas patuscadas. Para ler duas vezes... seguidas!



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Outro livro ainda, acabadinho de chegar, e ser lido, é um tipo diferenciado de dicionário, onde o autor “especula” com as palavras, conseguindo com essas “especulações” dar-nos um vivo retrato da sua personalidade, do seu pensamento.
São cerca de 300 verbetes, escolhidos com cuidado, para com eles poder deixar-nos uma mensagem de bom senso, de ética, hoje em dia cada vez mais raro, enquanto nos leva num passeio pelos quase inúmeros “matizes’ que as palavras nos podem proporcionar.
Um livro diferente, fruto do vasto conhecimento de quem já tem mais de quarenta livros publicados.
Obrigado Inácio Rebelo de Andrade pelo interessante, e recreativo trabalho “COMO JOGAR COM AS PALAVRAS (Especulações vocabulares) de A a Z”.
Eu que, por vezes, gosto de ver “formigas na Outra Banda”, só não concordo que o autor tenha limitado as desavenças de Deus com Caim quando matou Abel, porque a seguir deve ter tido infinita misericórdia para com Sete, que Adão gerou tinha cento e trinta anos, e que seria, como seu pai, o patriarca” de todos os humanos! É também consensual, na Bíblia, que Adão, com Eva (?), continuou a ter filhas e filhos e ainda viveu mais oitocentos anos. Se assim foi, quem será o nosso super vovô?
Enfim, “especulações” da Bíblia!



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Para quem tem livros comprados há bem mais de meio século –lidos na ocasião - saboreia uma outra vez as “novidades” com a releitura de muitos desses antigos, com que estou a ocupar a maioria de todo o tempo ocioso de que disponho, como por exemplo com a “MEMÓRIA sobre LOURENÇO MARQUES” – do Visconde de Paiva Manso – de 1870, ou os OPÚSCULOS de Herculano (alguns são bem chatos!), melhor ainda a “CRONICA GERAL DE ESPANHA DE 1344”.
E volto a encontrar passagens sobre as quais há sempre assunto para me ir entretendo a escrever!
Com a minha provecta idade o que mais poderia fazer?


18/03/2017