sábado, 18 de março de 2017



19 de Março
Desde que nasci, o dia dos Pais. Dia de São José

Um hino maravilhoso, ao Pai.
Do GRANDE, GRANDE e humilde, por ser GRANDE,
José Craveirinha

AO MEU BELO PAI EX-EMIGRANTE

Pai:
As maternas palavras de signos
Vivem e revivem no meu sangue
E pacientes esperam ainda a época da colheita
Enquanto soltas já são as tuas sentimentais
Sementes de emigrante português
Espezinhadas no passo de marcha
Das patrulhas de sovacos suando
As coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
Sinceridade filial não esqueço
Meu antigo português puro
Que me geraste no ventre de uma tombasana
Eu mais um novo moçambicano
Semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
E seminegro para jamais renegar
Um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

E agora
Para além do meu antigo amigo Jimmy Durante a cantar
E a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha
Subconsciência dos porquês de Buster Keaton sorumbático
Achando que não valia a pena fazer cara alegre
E um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa
Ante os meus sócios Bucha e Estica no 'écran' todo branco
E para sempre no zinco um tap-tap de cacimba no chão
A minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene
Enquanto tua voz serena profecia paternal: - «Zé:
Quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém.»

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
Do luso-arábico Aljezur da tua infância
Mas amar por amor só amo
E somente posso e devo amar
Esta minha bela e única nação do Mundo
Onde minha Mãe nasceu e me gerou
E contigo comungou a terra, meu Pai.
E onde ibéricas heranças de fados e broas
Se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
E teu sangue se moçambicanizou nos torrões
Da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital
Colono tão pobre como desembarcaste em África
Meu belo Pai ex-português.

Pai:
O Zé de cabelos crespos e aloirados
Não sei como ou antes por tua culpa
O «Trinta-diabos» de joelhos esfolados nos mergulhos
À Zamora nas balizas dos estádios descampados
Avançado-centro de «bicicleta» à Leónidas no capim
Mortífera pontaria de fisga na guerra aos galagalas
Embasbacado com as proezas dos leões do Circo Pagel
Nódoas de caju na camisa e nos calções de caqui
Campeão de corridas no xitututo Harley Davidson
Os fundilhos dos calções avermelhados nos montes
Do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores
Para salvar a rapariga Maureen O'Sulivan das mandíbulas
Afiadas dos jacarés do filme de Tarzan Weissemuller
Os bolsos cheios de tingolé da praia
As viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã
Do carro eléctrico e as mangas verdes com sal
Sou eu, Pai, o «Cascabulho» para ti
O Santinho para minha Mãe
Todo maluco de medo das visões alucinantes
De Lon Chaney com muitas caras.

Pai:
Ainda me lembro do teu olhar
E mais humano o tenho agora na lucidez da saudade
Ou teus versos de improviso em loas à vida escuto
E também lágrimas na demência dos silêncios
Em tuas pálpebras revejo nitidamente
Eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos
Dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura
Na dimensão desmedida do meu amor por ti
Meu belo algarvio bem moçambicano!

E choro-te
Chorando-me mais agora que te conheço
A ti, meu Pai, vinte e sete anos e três meses depois
Dos carros na lenta procissão do nosso funeral
Mas só Tu no caixão de funcionário aposentado
Nos limites da vida
E na íris do meu olhar o teu lívido rosto
Ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus
E na minha cabeça de mulatinho os últimos
Afagos da tua mão trémula mas decidida sinto
Naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central.
E revejo os teus longos desejos no dirlim-dirlim da guitarra
Ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza
E nas abafadas noites dos nossos índicos verões
Tua voz greve recitando Guerra Junqueiro ou Antero
E eu ainda Ricardito, Douglas Fairbanks e Tom Mix
Todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan analfabeto
E de tanga na casa de madeira-e-zinco
Da estrada do Zichacha onde eu nasci.

Pai:
Afinal tu e minha Mãe não morreram ainda bem
Mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios
O Tarzan agente inglês disfarçado em África
E a Shirley Temple de sofismas nas covinhas da face
E eu também é que mudámos.
E alinhavadas palavras como se fossem versos
Bandos de sécuas ávidas sangrando grãos de sol
No tropical silo de raivas eu deixo nesta canção
Para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços
Agitados nas manhãs de bronze
Chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias
Almas esguias hastes espetadas nas margens das húmidas
Ancas sinuosas dos rios.

E nestes versos te escrevo, meu Pai
Por enquanto escondidos teus póstumos projectos
Mais belos no silêncio e mais fortes na espera
Porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
Ronga-ibérico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza afro-algarvia
Quase revelada nesta carta elegia para ti
Meu resgatado primeiro ex-português
Número UM Craveirinha moçambicano.

JOSÉ CRAVEIRINHA


GLOSSÁRIO XI-RONGA-PORTUGUÊS

GÃ-GALHÃ-GALHÃ - Som onomatopaico dos rodados do carro-eléctrico nos carris.
SÉCUA - Pato; ganso.
TINGOLÉ - Pequeno fruto vermelho, saboroso e farináceo.
TOMBASANA - Rapariga solteira.
ZAMBEZE - Grande rio moçambicano que desagua no Índico.
XITUTUTO - Motocicleta. Onomatopeia do trabalhar da moto.

ZICHACHA - Zilhalha, régulo dos tempos da "pacificação" militar, considerado pels autoridades coloniais como rebelde.

segunda-feira, 13 de março de 2017



TROPAS NEGRAS

Este texto foi retirado do livro com o título acima, escrito em 1926 pelo major Francisco de Aragão, nascido em Pangim, Índia, de famílias açoreanas, que combateu no Sul de Angola, em Naulila em 1914, onde foi aprisionado, e no norte de Moçambique em 1917/18, sempre enfrentando os bem treinados, comandados e municiados alemães.
Neste livro mostra um profundo conhecimento e sentido de organização das tropas “coloniais”, a que o govêrno nunca deu seguimento, e onde sobressai a proposta de não existirem dois exércitos – metropolitano e colonial – mas um único, com soldados de ambos os lados, todos usufruindo das mesmas condições e obrigações.
O livro que enaltece os soldados africanos, começa por citar alguns que foram louvados e condecorados.
Vamos ao livro:

Ali, 1º cabo da 24.ª companhia expedicionária, louvado
 “pela coragem, sangue frio e valentia que revelou durante o combate de 22-11-1916, na defesa da água da ribeira de Nevala. - Tendo sido nomeado para ir à posição ocupada pela companhia buscar munições, mostrou extraordinária coragem transportando um cunhete através de terreno batido por uma me­tralhadora que procurava atingi-lo, transmi­tindo ao seu comandante de pelotão, em voz baixa, para que as demais praças o não pu­dessem ouvir, a informação, que recebera do Comandante da companhia, de que não havia mais munições”».
Promovido por distinção, medalha de valor militar, Cruz de Guerra.

Almério, 1° cabo indígena da 4.ªda Beira, louvado
«pela muita coragem e sangue frio que de­monstrou no combate de Negomano no dia 35-11-017 e ainda porque, debaixo de fogo intenso das metralhadoras inimigas, ajudou a transportar para a rectaguarda o major Tei­xeira Pinto, quando este caiu ferido, voltando em seguida a ocupar o seu logar na linha de fogo».
Cruz de Guerra

Tear, 1.° cabo indígena do Corpo de Polícia do Niassa, louvado       
«pela extraordinária valentia e arrojo com que, na manha de 8-12-1917 na Serra Mkula, à frente de 6 praças indígenas, se lançou ao ataque do inimigo que ocupava a água com infantaria e metralhadoras, só retirando para se remuniciar e transportar um ferido, voltando novamente ao ataque, sem para isso ter rece­bido qualquer ordem, mantendo-se na frente até ao assalto do inimigo”
Promovido por distinção — Cruz de Guerra.

Tabu, soldado indígena da 39.ª Companhia Expedi­cionária, louvado
“porque no combate de Nhamacurra, despre­zando o perigo, esteve sempre na posição de combate a peito descoberto, fazendo fogo inin­terruptamente sobre os alemães que via através o cisal, indicando aos seus camaradas os pontos que deviam visar, mostrando assim muita coragem, sangue frio e perfeita compreensão dos seus deveres».
Promovido por distinçao – Cruz de Guerra.

E segue o livro...

Quando no último período da guerra, em Moçambique, acabámos por nos convencer da impossibilidade de continuar a luta com tropas europeias, improvisámos, à pressa, numerosas com­panhias indígenas que a urgência de man­ter na frente, cada vez mais extensa, efectivos numerosos, nos obrigou a instruir em condições precárias e deficientes.
Só forçados por uma realidade que não perdoa nos resignáramos a fazê-lo.
Mas, nem a preparação que lhes demos foi cuidada, porque não tínhamos previsto com antecedência a necessidade do seu em­prego, nem os chefes e graduados puseram grande confiança nas suas qualidades: uns supunham-nas incapazes de se defrontarem com os askaris inimigos (os soldados africanos do Tanganika), aguerridos por três anos de luta e de êxitos; receavam aumentar sensivelmente os efectivos dessas tropas — não fosse voltar-se contra nós o instrumento de força que criávamos.                
Todos cometeram uma grave injustiça atribuindo às tropas de cor culpas que nunca lhes pertenceram: durante quatro anos de luta a nossa infantaria indígena sempre se bateu com valorosa decisão, quando bem enquadrada e comandada, e das suas fileiras não saiu um exemplo de deslealdade ou de traição. Companhias de landins e de macuas, de angonis ou de mchopes — todas suportaram a sua dura sorte com aquela estóica resi­gnação que tantos lhes admiraram. Lança­das na frente à pressa e mal preparadas, em luta com um adversário cuja fama cada vez mais exaltávamos e criador dum sistema de guerra que nós, os europeus, nunca fo­mos capazes de aprender e realizar, batidas em dezenas de recontros sem que se modificassem as circunstâncias que a isso nos conduziam e sem que se procurasse melhorar as suas condições morais e materiais —| nunca por elas passou o espírito da revolta e, até final da campanha, serviram, — já quási aniquiladas — com lealdade e dedicação, a bandeira a cuja defesa as chamáramos.
Muitas citações premiaram essa dedicação e a natural bravura e valentia que as caracterizam. Mas o concurso mais importante que deram à causa por que nos batíamos permanece ignorado para a maioria dos portugueses.
Naqueles climas hostis, que prontamente invalidam o europeu, resiste a todas as agru­ras o soldado indígena. Alegremente e sem fadiga, bronzeado — a rir-se ao sol que o não queima —, olhando seguramente a selva emaranhada e confusa, ele lá vai, o ousado e tradicional caminhante que tudo sabe, tudo vê, tudo conhece e tudo improvisa, palmilhando os intermináveis quilómetros das marchas africanas, sem um desânimo e sem um desalento.
Com sagacidade e solícita delicadeza ini­cia o branco confiante e ingénuo, desconhecedor da vida do mato, nos segredos complicados e nos mistérios tenebrosos da floresta.
E ele constrói a carinhosa palhota que o abriga nas noites de friagem, e cozinha, num fogo que faz brotar repentinamente da terra, a mísera refeição que o conforta.
Homem da planície, a sua mão, em vi­seira, limita e descobre os horizontes longínquos e esfumados. E o rasto das feras e do inimigo que procuramos ou nos perse­gue — logo o lê, com a clareza e segurança de velho letrado, na areia igual, apenas poeirenta, como na rocha que se defende, agressiva, do traço e da impressão do vian­dante,
E quando, à noite, nos acampamentos es­condidos por entre a densa ramagem das árvores seculares, se acendem as fogueiras — a sua conversa, algaraviada, evoca, sem desânimo, antes com uma esperança, os dias distantes do sossego e da abundância, a ve­lha terra amiga que o dever obrigou a abandonar...
O prestígio do branco e a lembrança das duras lutas que sustentou, altivamente, contra ele, fazem-no aceitar agora, já sub­metido, a sua protecção e autoridade in­discutíveis. E reconhece na sua firmeza intransigente, logo que justa, a melhor afirmação do seu direito.
De resto, o branco para ele, na ideia e na palavra – chinderi ou m’zungo – é o português
Há 400 anos que nas suas aldeias passa de boca em boca, de vida em vida, a histó­ria dos seus cometimentos aventurosos— algumas vezes dolorosa e sangrentamente assinalados — e se fala da sua grave aparên­cia, que uma ingénita generosidade para com os indígenas adoça e suaviza.
Verdadeiro amparo do europeu, infatigá­vel auxiliar do capitão-mor tradicional e do «senhor comandante», toda a África altiva e agreste se deixa vencer por nós — ao seu conselho sábio e à sua experiência vigilante.
Leal e submisso, venera com o respeito que só tributa aos deuses a memória dos grandes homens que em larga e porfiada luta o venceram e dominaram. E o nome de Mousinho — o Grande Feiticeiro — pro­nunciam-no ainda muito baixo, quase que no gesto de quem olha a terra para se prostrar.
Teimam que não morreu!
Pode lá ter caído, varado pelo destino em plena glória, o homem lendário que der­rubou com um gesto o Gungunhana e, ao cabo duma cavalgada de dias, através dos segredos misteriosos das florestas de Gaza, descobriu e abateu para sempre essa heróica figura de chefe negro que foi o ter­rível Maguiguana.
Pode lá ter desaparecido o homem da justiça implacável e segura, aquele de quem, depois do fuzilamento do Manhume e do Queto, diziam os negros dentro do Kraal de Manjacaze — «branco sabe tudo, até sabe quem há-de mandar matar!»
Quê? Morrer, o homem grande, que, em horas, corre ao Maputo, e à frente de 60 cavaleiros esmaga a revolta de tantos mi­lhares de negros sublevados? Para eles não parece possível que o «feitiço» invencível que possuía o tivesse assim abandonado.
E, ainda há poucos meses, um velho soldado landim que acompanhou Mousinho nas campanhas de Moçambique, já encar­quilhado e encolhido na sua pele da velhice, entrava nervosamente no Quartel da Guarda, em Lourenço Marques, procurava com insistência o oficial de dia e lhe dava parte de que dois condenados indígenas, fugidos da cidade, tentavam albergar-se na sua aldeia, escondendo-se da justiça portu­guesa que os procurava.
Que a lealdade dos nossos bravos soldados de cor, ainda hoje, acompanha fielmente a memória do Grande Chefe branco — quando já há tanto a morte, que procurou entre os seus, o guarda ciosa­mente sob o mármore, ingrato e frio, que lhe cobre o corpo inanimado...

*          *          *
Muito curioso é que no fim do livro, que comprei há não sei já quantos anos, tem cinco folhas, escritas à mão (parece que em 1935), acrescentadas pelo seu antigo proprietário, que faz uns muito interessantes considerandos sobre “tropas negras” pelo mundo: França, Turquia e, o que vem agora muito a propósito, nos Estados Unidos. É este pedaço que o senhor trampa deveria ler, reler e engolir:
“Durante a Guerra de Secessão, as tropas negras utilizadas pelos federais do Norte dos E.U.A. em número de 300.000 comandados por oficiais brancos, fizeram-se notar pela disciplina, boa apresentação e fidelidade e tiveram um papel decisivo na sorte da guerra.
Desde sempre houve negros no exército do E.U. e ali mostraram as mais sólidas qualidades militares em Cuba e Filipinas na guerra contra os espanhoes. O regimento negro, os famosos Buffalo Soldiers do 25° Regimento de Infantaria, 1890, que tomou de assalto a colina de S. João, em Cuba, é célebre no exército americano e foi chamado a Nova York para desfilar numa pompa triunfal.”

Buffalo Soldiers do 25° Regimento de Infantaria

Mark Matthews, o último Buffalo Soldier, com a patente de 1° sargento, morreu em 2005 com 111 anos e está sepultado no Arlington National Cemetery.


08/02/2017


segunda-feira, 6 de março de 2017


COLONIZAÇÃO

Palavra com sentidos vários, científicos, sociais e até pejorativos. A palavra, latina, colonia, tinha basicamente o significado de “propriedade rural, residência, habitação”, tanto que, do mesmo latim, colonu significa “cultivador, camponês, habitante duma colonia”.
Depois fixou-se mais no deslocamento de populações das suas terras de origem para se irem estabelecer alhures, “onde iam formar nova residência” e para onde levavam novas ideias, novos conhecimentos, contribuindo desta forma para a sua evolução, aproximando “raças”, fundindo diferenças e antipatias em alianças de sangue e de interesse.
Podemos pensar em fenícios, cartagineses, e desde muito mais para trás nos homo sapiens que se encontraram com os neanderthal há uns 50 ou 100.000 anos, nos celtas que teriam saído do leste europeu já misturados com dravídicos provenientes do vale do Hindus e da Índia e se espalharam pela Europa aí por 9.000 aC, em ibéricos do Cáucaso, e todos, de todo o lado, por todo o tempo da história dos humanos. Assim foram ocupando o mundo fazendo dos homo sapiens todos, todos, a mesma espécie, que alguns mentecaptos ainda insistem em dividir em raças!
Um dos melhores exemplos de colonização, apesar de não ter sido uma expansão populacional, foi a romana. Levaram organização e civilização a todo o império. Na Britânia os britons ficaram encantados! Não tinham estradas, nem administração, nem palácios, eram uns brutos. Pior do quer eles, os pics, que volta e meia desciam da Escócia para devastar, roubar e matar. Só conseguiram pará-los um pouco construindo dois muros: as muralhas de Adriano e as de António. (Muros, ou muralhas, como se vê, é coisa muito mais antiga até do que os romanos: a primeira que a história (?) nos conta é de Jericó, a mais célebre está na China, até às vergonhosas do nosso tempo como Berlim, as infames na Cisjordânia, na fronteira do México e não se fala na do trampa porque enoja mais ainda).
Voltemos aos romanos na Britânia. Quando de lá saíram, muitos bretões choraram porque viram a sua incivilização voltar à anarquia!
Portanto desde sempre houve colonização, e, colônias... e muros!
Companhias de colonização tem-se conhecimento de uma formada nas Flandres no século VII, que pouco durou, mas é nos séculos XV a XVII que essas companhias começam a proliferar, com a finalidade primária, não de criar colônias no sentido do étimo – novas gentes em novas terras – mas sobretudo para explorar as riquezas que as descobertas vieram mostrar aos europeus. Exceção aos pilgrims e aos boers.
Entretanto na China e Índia as colonizações faziam-se sobretudo pelas guerras, a conquista bruta de novas terras e troca de poderes, enquanto a Europa procurava monopólios comerciais para que as novas riquezas fossem direcionadas aos cofres das metrópoles.
Em 1263 formou-se em Pisa uma associação entre armadores e mercadores para trazerem do médio oriente o que pudessem, e assim concorrer com Veneza; em 1444 o Infante Dom Henrique fez várias tentativas para organizar uma poderosa companhia, o que não conseguiu; em 1555 era a Inglaterra a fazer uma companhia para explorar o comércio exclusivo da Rússia, Mar Branco e Volga, outras para exploração do Senegal e Guiné, e em 1599 a célebre Companhia das Índias Orientais, a que “generosamente” D. João IV ainda ofereceu a ilha de Bombaim!
A França no mesmo ano fez outra, denominada Canadá e Acadia, e ainda a da África, do Cabo Negro e a da China, e da Louisiana, a Holanda segue-lhes o rastro em 1602, a Dinamarca e Áustria entram também, a Prússia, a Suécia, a Itália, enfim tudo na ganância por explorar o além-mar. A Espanha, a Guipuscoana de Caracas, e a das Ilhas Filipinas.
Portugal: Companhia Geral do Brasil, de Cacheu e Rios da Guiné, de Cabo Verde e Cacheu, da Índia, do Grã Pará e Maranhão, de Pernambuco e Parahiba, da Ásia Portuguesa, dos Ajaus e Macuas, de Lourenço Marques, de Timor (o que desagradou a Macau) e até uma de Damão e outra de Diu! E dúzias de outras.
Praticamente todas faliram. Só sobreviveu por artimanhas contábeis e pelo tanto que roubaram da Índia, a inglesa. Nem uma, de todas que se criaram com a finalidade de ganharem monopólios de comércio, se aguentou. As despesas eram maiores do que os lucros, e quem lucrava alguma coisa, às vezes mesmo muita coisa, eram os governantes e outro pessoal “de confiança” mandados para “controlar” as compras e vendas. De TODOS os países.
Portugal desde o começo da sua expansão ultramarina, inúmeras vezes se propôs ou pensou em vender as “colónias”. Eram negócios ruinosos.
D. João III quis vender por 280:000$000 réis, terras firmes de Goa ao Hidalcão - Yusuf Adil Shah ou Adil Khan, denominado Hidalcão, o fundador do Sultanato de Bijapur, onde exatamente Goa se situava. Chegou até, em 1547, a mandar instruções ao vice-rei Dom João de Castro; a troco de auxílio da França, para combater os Felipes, o prior do Crato propunha ceder-lhes o Brasil; no século XVIII o marquês de Abrantes propôs a D. João V vender a Índia, etc.
Mesmo que os números indiquem por vezes o contrário, a contabilidade de todas as colónias, e dessas companhias era sempre negativa.
Em 1544 já o governo português pedia um empréstimo de 778:400$00 às cortes de Flandres e Castela.
Em 1588 o rei Filipe I escreve para o vice-rei da Índia, D. Duarte de Menezes dizendo-lhe “...que do rendimento façais fundamento que haveis de prover todas as cousas desse estado, não esperando dinheiro nenhum deste reino...”
Em 1866, na França, o “Serviço Colonial” pagava-se com as receitas das colónias, mas a despesa do “Serviço do Estado” com as mesmas colónias, de 27,5 milhões de francos, não entrava na contabilidade! Com a Argélia as despesas “propriamente coloniais” eram de 30,5 milhões e as receitas de 22,5. Com a Inglaterra o déficit, entre 1853 e 1857 era de cerca de 4,5 milhões de £ anuais. A Holanda, só com a Guiana, hoje Suriname, em1854 perdeu cerca de 700 mil florins,
Entre 1843 e 1871 a média do déficit das colónias portuguesas foi entre 100 e 300 “contos de réis”, isto é 300:000$000.
Eram constantes os “socorros” financeiros:
Para a Índia, em 1622, 60:000$000 (60 contos de réis) em 1623 mais 80, em 1624 outros 80, em 1627 para o Brasil 48, 1630 para Pernambuco 40, e em 1637 para enviar 500 soldados para o Brasil, mais 3,3 contos.
E por aí foi. E foi, se endividando. O ouro do Brasil pagou, generosamente a “generosidade” dos ingleses, e pouco mais deixou em Portugal do que o Mosteiro de Mafra e o Aqueduto de Lisboa. O Brasil foi a única colónia onde houve, mesmo, colonização, no sentido de fixação de novas gentes.
África foi o sonho da prata em Angola e do ouro no Monomotapa. No começo do século XX aparecem os diamantes em Angola e Portugal começa, com Salazar, a equilibrar as finanças.
Mas, e a colonização? Aquele encontro de povos e civilizações que, através da história, serviram para o progresso e cultura? Que colonização se fez?
A partir do século XX, em Angola, companhias poderosas – diamantes, açúcar e algodão – e em Moçambique algumas até “majestáticas” – açúcar, chá e pouco mais – com o privilégio de estabelecerem preços e venderem para a metrópole, pouco mais exploraram do que a terra, e muitas delas, o povo, através do “imposto de palhota”, de salários baixíssimos e de contratos de mão de obra considerados uma infame exploração. Imposto de palhota criado para obrigar o indígena a trabalhar para o pagar! Uma vergonha.
O tal encontro de povos que poderia ter resultado num grande avanço para as populações de África, mercê de governos incapazes e esfaimados por dinheiro, levaram a que, com as independências dos países africanos, os “brancos” se tivessem sentido segregados, perseguidos e obrigados, na sua quase totalidade, a abandonar essas terras, muitos dos quais com lágrimas nos olhos. Até hoje.
Os chamados colonos, trabalhavam e colaboravam para o desenvolvimento. Os governos, lá longe, nas cinzentas metrópoles, exploravam e segregavam, e ajudavam a alta finança a criar a opressão.
E o que poderia ter sido uma imensa alavanca de progresso traduziu-se por desastroso retrocesso. E os africanos choraram, e muitos ainda choram, como os britons quando Roma os abandonou, porque viram os seus países regredirem, pelo menos, meio século.
Ainda hoje o entendimento é difícil. O racismo continua falando alto.
Infelizmente África, vai ter que esperar mais um século para começar a compreender o que é, na sua essência, colonizar. Com ou sem mistura de povos.
Mas enquanto as profundas divergências tribais prevalecerem, o neocolonialismo de algumas ex-metrópoles vai sacando o quanto pode, fazendo o jogo político que lhes dá lucro, e muito, e explorando os povos que continuam a viver como miseráveis.
Era bom que deixassem de usar a palavra “colonização”, porque o seu sentido é muito mais profundo do que exploração.
E não esqueçam que uma das mais belas qualidades do homo sapiens é o seu lindo e variado colorido.

25/02/2017



quinta-feira, 2 de março de 2017


« Camões em Moçambique »

Encontrar, aliás, ter visto Camões no “Encontro de Escritores”, foi algo que só um sonho, profundo, poderia proporcionar. Falar com ele é que é sempre mais difícil, e isso nem sonhar!
No Encontro foi ouvido Garcia de Orta insinuar a Camões que a Ilha dos Amores não deveria ser a tão idílica ilha, revestida de floresta onde nesta frescura desembarcaram, e onde andavam as belas musas, como incautas... e se fingiam seguir os animais que não seguiam, mas, seria a Ilha de Moçambique.
Na sua primeira passagem, a caminho da Índia ele nos deixou algumas estâncias (LIV e LVI) que se enquadram bem no resto do texto:

“Esta ilha pequena, que habitamos,
É em toda esta terra certa escala
De todos os que as ondas navegamos,
De Quíloa, de Mombaça e de Sofala,
E, por ser necessária, procuramos,
Com próprios da terra, de habitá-la;
E, porque enfim vos notifique,
Chama-se a pequena ilha – Moçambique.

Isto dizendo, o mouro se tornou
A seus bateis com toda a companhia;
Do capitão e gente se apartou
Com mostras de devida cortesia.
Nisto, Febo nas águas encerrou
Co carro de cristal o claro dia,
Dando cargo à Irmã que alumiasse
O largo mundo, enquanto repousasse.”

E sobre a “Ilha dos Amores”, corroborando Garcia de Orta, podemos ajudar com este pequeno poema de Alberto de Lacerda, nascido nesta Ilha:
Ó corpos dados com melodia
As melodias do meu amor!
Ó pretas lindas! Ponta da Ilha!
Vestem soberbos panos de cor.
Deles se despem com doçura,
Vénus despida do próprio mar,
É com doçura que negras, lindas,
Desaparecem no meu calor.

Mal sabia Camões que depois de quinze anos sofridos na Índia, enganado, passaria nesta Ilha dois anos, quando pensava regressar a Portugal, à espera de quem fizesse a esmola de lhe pagar a alimentação na viagem para Portugal.
Dois anos, sofridos, vendo Febo e a Irmã, sempre se alterando, sem se poder livrar daquela visão, certamente bonita, mas vista por quem anseia dali sair...
Camões, um pinga-amor, um rabo de saias, ninguém terá muitas dúvidas que a coberto da complacência da Irmã, terá consolado parte das suas mágoas com

 Os corpos dados com melodia
As melodias do meu amor!
Ó pretas lindas! Ponta da Ilha!

Mas queixava-se com os seus papeis, a sua escrita:

Onde acharei lugar tão apartado,
E tão isento em tudo da ventura,
Que, não digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?

Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solitária, triste e escura,
Sem fonte clara ou plácida verdura;
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;

Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos,
E dias tristes me farão contente.

É com base neste soneto, por causa “das entranhas dos penedos”, que o Visconde de Juromenha “decidiu” que Camões tinha estado em Macau, assim como o “matou” em Alcácer Quibir ao lado de Dom Sebastião.
Naquele tempo era fácil conseguir passagem de Lisboa para a Índia, mas a volta era difícil e cara. Os navios saiam da Índia sofregamente carregados de especiarias, de baús e das riquezas que alguns por lá acumularam, a maioria das quais ficou espalhada no fundo dos mares ou terá servido de enfeites aos nativos da Costa de Natal.
Dois terços dos navios que saíam de Portugal para a Índia não regressaram!
Camões, que sempre fora “o cavaleiro andante do Sonho e dos grandes arrebatamentos”, como lhe chamou Hernani Cidade, estava agora prisioneiro da sua miséria financeira.
Em 1567 Pero Barreto, sobrinho do Vice-Rei Dom Francisco Barreto, que da Índia passava a capitão de Sofala, onde ficaria nesse comando a viver na Ilha, ofereceu-se para levar Camões até Moçambique.
Durante os primeiros tempos Camões terá vivido “numa formosa torre de dois sobrados, (junto à fortaleza velha, onde hoje se encontra o Palácio dos Governadores) com aposentos onde vivia o Feitor e o Alcaide-Mor”, agasalhado por Pedro Barreto.
Diogo do Couto amigo e companheiro de estudo do Poeta, e no serviço na Índia, refere que houve uma questão entre Pero Barreto e Camões devido ao temperamento impulsivo deste, o que levou o Poeta a procurar outro abrigo, bem mais modesto. Pior, sem dinheiro para seu sustento, passou a viver conforme pôde, com o auxílio de alguns amigos que ali ainda o estimavam e, em 1569 dava os últimos retoques nos Lusíadas.
É sabido também ter sido Camões vítima da inveja de alguns e da mediocridade de muitos, pois ali já existiam muitos despeitados e inúteis.”
Os navios que passavam não traziam nenhum amigo ou conhecido de Camões que pagasse o seu sustento durante a viagem para a Pátria.
Diz ainda Diogo do Couto “que nesse mesmo inverno (1569) foi escrevendo muito, em um livro que ia fazendo, que se intitulava “Parnaso”, livro de muita erudição, doutrina e filosofia, o qual lhe furtaram e nunca pude saber dele no Reino, por muito que o inquiri, e foi furto notável.”
Finalmente, terminava o ano de 1569, Diogo do Couto e outros amigos, no regresso a Portugal, foram obrigados a arribar a Moçambique, onde o mau tempo os reteve, e onde encontraram Luis de Camões na miséria, sofrendo as maiores privações, e todos se cotizaram para lhe dar roupas que tanto precisava e lhe pagarem o sustento durante a viagem até Lisboa, onde finalmente chegou na primavera de 1570.
Saíra de Lisboa em 1553 e regressava ao fim de dezessete anos!
Curioso notar que nesse mesmo ano de 1569 regressou também Pedro Barreto. A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira diz que Pedro Barreto “De regresso a Portugal, trouxe do Oriente o poeta Luiz de Camões”.  Em quem confiar? Diogo do Couto não parece ter sido mentiroso, e o enciclopedista limitou-se a se informar que ambos tinham viajado no mesmo ano, mas... terá penetrado o suficiente nas “Décadas” ou no ”Diálogo do Soldado Prático!
Terá Camões sido desterrado da Índia, no tempo de Dom Francisco Barreto em virtude da publicação das redondilhas “Disparates da Índia” e de uma sátira em prosa às festas de Goa, comemorativas da nomeação de Barreto para governador?
O símbolo máximo da língua portuguesa, a quem o jovem rei Dom Sebastião concedeu uma pequena pensão a "Luís de Camões, cavaleiro fidalgo de minha Casa", teve uma vida sofrida, e ainda hoje ninguém sabe onde foram parar os seus restos mortais.
O túmulo no Mosteiro dos Jerónimos, como se sabe, é uma farsa.
Como muitas outras.
Ainda de Alberto de Lacerda, três linhas dão-nos uma ideia desta Ilha:

“Ilha onde os cães não ladram e onde as crianças brincam
No meio da rua como peregrinos
Dum mundo mais aberto e cristalino

E o que aconteceu ao seu dedicado criado Jau? Quem lhe pagou a viagem para Portugal? Pobre Jau que tanto se dedicou e tão esquecido ficou!

25/01/2017


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017



A Argonáutica do
ARGUS

Os Argonautas (em grego antigo: "Ἀργοναῦται - Argonautai"), na mitologia grega, eram os tripulantes da nau Argo que, segundo a lenda, foi até a Cólquida (atual Geórgia) em busca do Velo de Ouro (ou Velocino de Ouro). Essa nau terá sido construída por Argus, filho de Frixo.
Usando informações astronômicas, a mitologia e o estudo dos equinócios, Isaac Newton calculou a data do início da expedição como sendo o ano 939 a.C., 2645 anos antes do início do ano 1690, dunque há 2956 anos.

A nau ARGO, segundo Lorenzo Costa (1460-1535)

A saga dos argonautas descreve a perigosa expedição rumo a Cólquida. Conta o mito que Éson, rei da Tessália, havia sido destronado por Pélias, seu meio irmão. Seu filho Jasão, exilado no interior do país, retornou ao atingir a maioridade para reclamar o trono que por direito lhe pertencia. Pélias então, que tencionava livrar-se do intruso, resolveu enviá-lo em busca do Velocino de Ouro, tarefa de extremo perigo. Um arauto foi enviado por toda a Grécia a fim de juntar heróis que estivessem dispostos a participar da difícil empreitada. Cerca de cinquenta jovens se apresentaram, todos eles heróis de nomeada. 
Em sua primeira escala, aportaram na ilha de Lemnos, habitada somente por mulheres. É que Afrodite, insultada por estas que lhe negavam culto, castigou-as com um cheiro insuportável de forma que seus maridos partiam em busca das escravas da Trácia. Movidas pelo ódio e pelo despeito, assassinaram seus esposos instalando na ilha uma espécie de república feminina, situação que perdurou até à chegada dos argonautas, que então lhes deram filhos.
Chegaram enfim à Cólquida, onde cabia a Jasão a tarefa mais árdua: capturar o Velo de Ouro. Medeia, filha do rei e conhecida por suas habilidades na arte da feitiçaria, apaixonou-se perdidamente por ele e por isso, não mediu esforços para auxiliá-lo nas árduas tarefas que o rei impôs como condição para entregar-lhe o talismã.
Jasão tirou proveito dos feitiços e encantamentos da feiticeira e sem esforço partiu da Cólquida levando consigo o Velo de Ouro. Os argonautas ainda passaram por alguns percalços, mas enfim chegaram a seu destino final onde entregaram a Pélias o Velocino. Com uma das suas magias, Medéia deu morte a Pélias!

A viagem dos Argonautas. Quanto tempo demorou? Ninguém sabe.

Há cerca de 3000 anos, portanto, a famosíssima nau ARGO, saiu de Tessália, passou na ilha de Lemnos cheia de garotas e mulheres desesperadas por homem (Imaginem a chegada dum monte de heróis, bonitões a uma ilha só com mulheres... nem Camões teve esse brinde!) chegou a Cólquida, recuperou o Velo de Ouro, e voltou para casa fazendo uma volta imensa. Ao argonautas passaram por onde é hoje a Romênia, Hungria, Eslovênia, desceram e subiram o mar Adriático, norte da Itália, entraram na Suíça e França, desceram o mar Tirreno, passaram no estreito de Messina e apanharam um tremendo temporal que os atirou para a Líbia, tendo a nau ido parar dentro do deserto. Ali encontraram umas dançarinas que lhes disseram que tinham que carregar a não à mão até ao mar, e finalmente conseguiram chegar a casa!
Foi uma “aventuraça” e tanto, mas como ninguém fez o diário de bordo, não se sabe quanto tempo demorou o trajeto. A única coisa que se pode calcular, com um elevado índice de erro, é a distância, terra e mar, que percorreram, qualquer coisa como umas 4000 milhas marítimas, ou, para os terráqueos, uns 7500 quilômetros.
*          *          *
3000 anos mais tarde o “grande” ARGUS, construído em Angola, Luanda, em 1952, ali morreu de morte miserável, abandonado ao tempo e às cracas menos de um quarto de século depois!
E tanto prazer deu aos seus primeiros e segundo proprietários. Era um barco lindo!
Mas salvou-se a sua memória, através duma maquete, meticulosa e magnificamente construída pelo marceneiro do navio “Vera Cruz”, e entregue ao seu orgulhoso proprietário de então, em Luanda, 1969.


Começa aí o “périplo” não do ARGUS autêntico, mas da sua maquete, sempre guardada e exposta em casa com um misto de saudade e tristeza por não poder navegar.
Sai de Luanda para Lourenço Marques em 1971, quando deixou o “autêntico”, vendido, em Luanda. Regressa a Luanda em 1974, no meio da revolução/confusão, e é embarcada para o Brasil em 1975, dentro de um contentor, cheia de imbambas, e, aparentemente, fixa-se em São Paulo.
Em 1992 vai até Portugal, regressando ao Rio de Janeiro em 1995.
O tempo, as viagens, tinham-lhe feito alguns estragos, até que chegou o tempo em que foi decidido que o ARGUS tinha todo o direito de descansar na terra de origem e, sobretudo no Club onde primeiro esteve inscrito com o número 29, o Club Naval de Luanda.
Não podia regressar como um filho pródigo, um mendigo.
Sujeitou-se, complacente e alegre, a um restauro, mais ou menos (!) minucioso, para poder enfrentar a última viagem da sua vida.
Restaurou-se: velas novas, casco calafetado, alguns moitões “novos”, pintura “anti-craca” (?), pintura e verniz geral, e ei-lo pronto para o seu último destino.


Bem embalado, encaixotado com muito cuidado e carinho... ali vai ele!
Saiu de casa, com lenços brancos a acenarem já de saudades, pelas 14H00 do dia 15 de agosto de 2016, data que foi (ainda é?) das festas da cidade de São Paulo da Assunção de Luanda, dia da Padroeira daquela linda cidade, quando ele participava das regatas comemorativas.
Seguiu no dia 16 para São Paulo.
Dia 18 é encaminhado para o aeroporto de Guarulhos e segue, via aérea para Paris.
A 19, sai de Paris, aeroporto Charles De Gaulle, para Liege, na Bélgica.
A 20, entra noutro avião e vai para Frankfurt na Alemanha, de onde mais uma vez sai noutro voo para... Pudong, Shangai, na China!!! Não era bem naquele rumo que deveria ter ido. O GPS da transportadora devia estar avariado!
A 22 a alfândega Pudongona, recebe o caixote.
A 4 de Setembro a China não larga o barco da mão! Talvez à espera que mais uma vez este belo “navio” português lhe livrasse os mares de Cantão dos piratas!
A 11, finalmente a China autoriza que o cansado viajante siga para o Brasil. Não para Angola.
A 18, mercê da intervenção de Matsu (妈祖) – a deusa chinesa do Oceano, recebe autorização para embarcar para Angola, onde, depois de passar pelo Cabo da Agulhas, finalmente chega a Luanda em 9 de Novembro!

A vermelho as “navegações” Luanda-Brasil-Portugal-Brasil”
A azul “A Última Viagem do “ARGUS”

Depois duma odisseia de 86 dias, o ARGUS está a casa!
A nau ARGO e os Argonautas devem ter percorrido umas 4000 milhas náuticas.
O ARGUS, depois de um quarto de século navegando, lindo, lindão, pela costa de Angola, percorreu 20.000 milhas náuticas para chegar a casa! Quase uma volta ao mundo.
O “Bom Filho à casa torna”. Ei-lo, gozando a merecida  “aposentadoria” em casa, no seu Club:



12/02/2017