quarta-feira, 3 de agosto de 2016



MOÇAMBIQUE
SENA
FORTE DE S. MARÇAL

A data da edificação do forte de S. Marçal de Sena é desconhecida.
Alguns autores afirmam que o forte existia já ao tempo da expedição de Francisco Barreto. Porém, o jesuíta Monclaros, que acompanhava a expedição, apresenta-nos, na sua "Relação" da viagem, Sena como "povoa­ção pequena de casas de palha ao longo do rio metida entre um mato". Não deixaria, certa­mente, de mencionar o forte, se já existisse. Esclarece, ainda, que a expedição conduzia, em carros, pedra para se edificar a fortaleza.
De positivo, sabe-se que Francisco Barreto levantou um forte de taipa, assim que chegou àquela povoação, "oito dias ante Natal".
Regressado em Ou­tubro de 1572 das operações contra o Mongás, "determinou refazer o forte que tinha deixado de madeira de taipa qual lhe ficava por aposento e tinha dentro uma ermida de S. Marçal e a casa da feitoria". Monclaros, ao concluir a "Relação", diz:
"... e nos viemos a Moçambique ... deixando bem provido o forte de S. Marçal, assim de capitão e soldados, como das mais coisas necessárias".
Vasco Fernandes Homem, em 1576", só diz : ... neste forte, onde eu agora estou, que Francisco Barreto fez para guarda dele ...".
Outra notícia do forte dá Fr. João dos Santos. Em 1585, naufragou na costa de Quelimane a nau "Santiago". Manuel Godinho Cardoso escreveu a relação do nau­frágio e descreve a povoação :
"Sena é povoação de portugueses; nas terras de Inhamioy, tem um forte que se chama S. Marçal, com capitão, soldados e artilharia, e ainda que pequeno e de pouco presídio, basta com tudo para ter enfreados e sujeitos os negros, os quais cercando-o uma vez, desistindo da empresa se retiraram com muito dano seu".
Fr. João dos Santos em 1590 e deu a primeira notícia do forte de pedra:
"Sena é uma povoação situada junto do rio Zambeze, da parte do Sul nas terras da cidade Inhamioy, sujeita ao Manamotapa. N'esta povoação está um forte de pedra e cal, guarnecido de algumas peças de artilharia grossa e meuda, mui bastante para sua defensão, no qual mora o capitão posto da mão do capitão de Moçambique. Dentro neste forte está a egreja e a fei­toria ...".
Assim, a data da construção do forte pode situar-se entre 1572 a 1590.
Em começos de 1618, o forte estava arrui­nado. Devia está-lo desde longo tempo pois a sua ruína era já conhecida em Portugal em Março daquele ano, data do regimento dado a Nuno Álvares Pereira, promovido na capitania de Moçambique. O regimento man­dava :
"Depois de entrardes nos Rios, hireis visitando e provendo as aprovações e for­tes que nellas ha, e porque sou informado que havendo em Sena fortes de pedra e cal em sitio conveniente, e cô artilharia os portugueses casados que ali residam, o deixarão arruinar, e da pedra, que se hauia trazido de longe, fizeram outras obras em suas casas, e não ha quem dê razão da artelharia, e que convem reevdificar-se para segurança da fazenda que estiver na feitoria, e da mesma povoação".
A artilharia, segundo Pedro Barreto de Re­zende, numerava oito falcões e estava arreca­dada na feitoria, donde se conclui que em 1635 o forte não fora ainda reconstruído. Também não estava em 1667; Pe. Manuel Barreto de Goa, aos 11 de Dezembro desse ano, diz :
"Commumente se chama o forte e povoação de São Marçal; mas a povoação não tem forte algum, mais q as taipas das cazas, de que todas estão cercadas em roda com seus quintais: e fica cada caza um forte tão bom como se fosse chumbo, prin­cipalmente se os pontos da taipa se abri­rem em seteiras, e descortinarem com revevzes; no que se tem pouco cuidado, por que nunca Sena foi envestida de enimigo".
Fr. António da Conceição, em 1696, des­creve Sena como povoação "de trinta casas pouco mais ou menos de moradores graves, além de outros somenos". Nenhuma referência ao forte. No entanto, a povoação poderia "... fortificar-se belissimamente, porque de huma parte lhe fica o Rio e da outra huma serreta que parece poz Deos ali para um castello".
O forte foi, finalmente, reconstruído em 1704. A pedra sobre a porta de armas (única parte que resta do forte) diz:
 "Sendo capitão geral desta conquista D. João Fernandes de Almeida mandou fazer esta fortaleza na era de 1704 contri­buindo para a sua despesa com muita parte da sua fazenda".
No regimento dado, em Goa, 1709 a António Simões Leitão, nomeado "te­nente general de Moçambique e Rios e Gover­nador deles", corfirma-se estar reconstruído o forte:
"Chegando a Senna vereis o es­tado em que se acha a Fortaleza que novamente se faça naquela Pouoação, e tendo já alguã danificação como tenho por notí­cia a mandareis reparar e aperfeiçoar os quartéis que nella se começarão para os soldados, e as mais offecinas competentes para o seu alojamento, e detença; e se he conveninete amurar se a Pouoação, e utilidade que se segue aos moradores de ser fortificada, e se poderá sem bem defen­dida com a gente que nella se acha.
Mandareis passar mostra a com­panhia que assiste da guarnição na dita Pouoação e acabarão os quartéis que para ela se começarão na Fortaleza que de novo se fabricou ...".
É este segundo forte de Sena que D. Fran­cisco de Melo e Castro, capitão general de Mo­çambique, descreve no seu relatório datado de 10 de Agosto de 1750:
"É a povoação de Sena a capital de toda a conquista aonde reside o General dela... A sua única defesa é o forte de S. Marçal, com quatro baluartes da figura e construção que se refere na explicação da sua planta, com catorze peças de arti­lharia dos calibres de oito, seis, quatro e três“.
Em 1758, o capitão general Pedro de Sal­danha de Albuquerque, em carta a El-Rei, da­tada de 30 de Dezembro, dizia:
"A Povoação de Senna tem huma For­taleza feita de Adobes de barro, coberta de palha, que hé bastante para o Inimigo do Paiz; tem de guarnição cincoenta Pra­ças, das quaes dez se destacão para Manica. O General me pede agora alguns Officiaes Carpinteiros, para fazer os repa­ros que faltão para a Artilharia della, que na seguinte monção os hei-de enviar, e ainda que o mesmo General me pede tam­bém setenta arrobas de ferro, na referida monção lhe mandarei parte desta quanti­dade, por q os Armazéns tem só pouco, q agora mandey comprar nesta Galeria de Bahia".
Jerónimo José Nogueira de Andrade dá a seguinte notícia do forte:
"Tem esta Villa [de Sena] hum Co­mandante e hum Feitor, e hum quadrado formado de terra e faxinas, ao qual reducto chamão a Fortaleza de S. Marçal de Senna, cuja guarnição consta de 38 praças a saber: um Sargento Mor, e hum Ajudante da Praça, hum Capitão, hum Tenente, hum Alferes, hum Sargento, hum Furriel dous Cabos hum Tambor e 28 soldados".
Em 1884, o l.° tenente da armada José Maria, apresentou ao governador geral um relatório da viagem que fizera pela Zambézia. Sobre o forte de S. Marçal:
"Não obstante [sofrer de febres] visitei a praça de S. Marçal da qual só posso dizer que está a cair. A cortina que deita para o lado do rio não existe; está substituída por paus a pique. No barracão a que chamam quartel chove por toda a parte, e os outros armazéns estão a desmoronar-se. A casa do Commandante da praça só tem as paredes.
Ha ainda uma porção importante de mate­rial de guerra da ultima expedição á Zam­bézia, mas uma parte está avariado princi­palmente devido ao desleixo com que tem sido tratado. A praça é um pântano; no tempo das chuvas junta-se a agua no meio da parada e ali espera que o sol a faça evaporar e o terreno a absorva. Ao actual Commandante militar incumbi a terrapla­nagem immediata da parada, o fabrico de 6 reparos sendo 4 de praça e 2 de flexa para montar a boa artellaria de 0,8 m raiada qua ali ha. Ordenei-lhe que remo­vesse todo o material para uma casa fora da praça onde não chove, que o inventa­riasse e beneficiasse remetendo-me uma copia do inventario e nota do que está inú­til. O destacamento tinha 10 soldados, que pediam esmola pela povoação porque há 8 meses não recebem pret, não obstante sair todos os meses do cofre de Delegação o pret na totalidade do effectivo do bata­lhão. Á vista de tal miséria, acceitei o offerecimento que me fez o Capitão Paiva d’Andrada de dinheiro para fazer um abono aos soldados e mandei pagar 1.200 reis por cada mez em atraso. Tornando a chamar a attenção de V. Exa. sobre a praça de S. Marçal direi que julgo, de summa importância o seu concerto porque tem bastante capacidade, está bem collocado e seguramente o que se poderá dispender com o seu arranjo, que ha-de ser muito, é muito menos do que o valor da porta que está de pé. Encarregou-se volun­tariamente o commandante militar de Sena de lhe levantar a planta e remetter-m'a".
Em Julho de 1896, o governador do distrito da Zambézia ordenou ao coman­dante da Praça, que procedesse "a um imediato concerto na face da praça que é feita em aringa” isto é, em estacaria. O comandante da Praça respondia, em 25 de Julho: "Afim de dar cumprimento ao tele­grama n. 317 de 22 do corrente, que em nome de V. Exa. me dirigio o chefe da repartição militar, sou a dizer o seguinte :
A Praça de S. Marçal é um quadrilá­tero que tem de perymetro aproximada­mente 700 metros e nos ângulos quatro baluartes: em pentágono, defendidos por 10 boccas de fogo de diferentes calibres. Como V. Ex.a vê é uma praça enorme e que só pode ser deffendida com grande numero de soldados. Ainda assim poder-se-hia deffender só com a guarnição dos baluartes (uns 20 homens para cada, que soubessem ao mesmo tempo manejar as peças) se não fosse a face do lado do rio, que está quasi completamente desguarne­cida, porque é uma espécie de estacaria cujos paus estão muito distanciados e que em vista do "muchem" é preciso está-los continuamente a renovar, o que eu tenho feito com alguns presos que a Intendência para aqui me manda, mas não é isto o sufficiente para a defeza, porque caso haja algum ataque, deve ser por este lado e não pelos outros, visto o grande campo que se avista e a altura da muralha destes. Cons­ta-me terem-se feito já diversos orçamentos para esta obra e hoje envio a V. Ex.a dois, porque se podem fazer n'aquella face duas defeza, e são ou de fortificação permanente, que é levantar um muro com banqueta igual ao que circunda o resto da praça, ou visto a inclinação que tem o tereno d'aquelle lado, aproveitar a estacaria que ha, fechando-a mais e fazer uma espécie de fortificação semi-permanente; mas esta obra apesar de ser milhor para defeza, requer mais gente para a mesma, não é tão solida e mesmo para embellezamento sou de oppinião que se acabe de fechar a praça como já é o resto.
Necessita também a praça de alguns pequenos reparos nos baluartes e rebocada com cimento toda em volta, por cima dos muros, afim de evitar que as chuvas as demullam".
Em 1899, a praça de S. Marçal foi entre­gue à Companhia de Moçambique. Lavrou-se auto da entrega, aos 7 dias de Setembro desse ano, e dele consta o estado em que se achava a Praça:"Uma face construída de paus estando já muitos deles apodrecidos. As outras três faces e os quatro baluartes são de pedra e terra amassada estando a esboraoar-se por toda a parte, achando-se nalguns pontos quase completamente caídas. As duas portas acham-se em mau estado. As edificações da praça são as seguintes:
Uma casa térrea com parede de pedra e terra amassada rebocada exterior e interior­mente, coberta a telha de Marselha e o chão ladrilhado, dividido interiormente em quartos, estando tudo em bom estado de conservação, serviu de paiol: Uma casa térrea com paredes de adobos coberta a zinco dividida em dois quartos, serviu em tempo de caserna, uma das paredes está fendida de alto a baixo, está no resto em regular estado de conservação. Uma casa térrea com paredes de adobos coberta de palha com três divisões serviu de residên­cia ao Comandante da praça, estão as pa­redes e cobertura em mau estado. Uma casa térrea, restos de uma casa maior, muito velha, paredes de pedra e terra amassada, coberta de telha ordinária, ser­viu de cadeia, está tudo em mau estado".
A Companhia de Moçambique obrigava-se à conservação da Praça e a reentregá-Ia ao Es­tado, logo que este dela precisasse, no mesmo estado em que a recebera. Em 1903, porém, ó conselho de administração da Companhia pedia dispensa da obrigação de conservar a Praça, visto o adiantado estado de ruína em que a recebera e a inutilidade da velha fortificação. A Praça foi, então, pretexto de longa discussão — que, ao fim de contas, a não salvou de total ruína.           
Permaneceu apenas o portal. Em 1902, o subintendente do governo em Sena comunicava que, achando-se o portal em risco de abater, apeara a lápide memorativa de construção em 1704, que foi reposta no portal, como ainda hoje (1969) se encontra.
Em 1905, o Governo do Território de Manica e Sofala dirigiu um ofício ao governador geral da Província, João António Azevedo Coutinho Fra­goso de Sequeira:
"Junto envio a V. Exa. um desenho representando o portal da praça de S. Marçal de Sena, restaurado e completado com os ornamentos e pyramides que actual­mente lhe faltam. ComoY. Exa. vê, o portal assim restaurado apresentaria um bello aspecto e constituiria um padrão ele­gante, fácil de conservar em bom estado, dispensando-se as ruínas das muralhas que actualmente tem aos lados e estão em der­rocada, visto que, como V, Exa. sabe, as muralhas são construídas de pedra e barro. Caso V. Exa. concordasse a Companhia de Moçambique procederia à restauração do portal, tal como se acha indicado na figura ficando por conta da Companhia de Mo­çambique todas as despezas futuras da sua conservação abandonando-se por completo as ruínas das muralhas, pois como V. Exa. bem sabe, a praça de S. Marçal, nenhum valor militar tem, nem mesmo se torna necessária n'uma região onde V. Ex.a ex­tinguiu em 1897 e depois em 1902, por completo, todo qualquer fermento de revolta. Lembraria também a V. Exa. caso concordasse com este processo de restau­ração do portal e criação do padrão, a collocação na parte posterior do dito portal,  em local correspondente a lapide actual, ou outra lapide idêntica a que se colocará no padrão commemorativo do forte de So­fala mencionando ter sido esta reparação mandada executar por V. Ex.a e demolido o forte por terem sido aquelas terras defi­nitivamente pacificadas por V. Ex.a, nos anos de 1897 e 1902 perpetuando assim o nome de V. Ex.a e os seus valiosos servi­ços n'aquella região. Pedia a V. Ex.a res­posta urgente para poder começar breve a reparação, pois acabo de ser informado pelo chefe da circumscripção de Sena, te­nente Manuel Monteiro Lopes, que a fenda existente ha muitos annos no arco do portal parece ter augmentado sensivelmente nes­tes últimos tempos e muito receio que as chuvas que estão próximas venham a pro­vocar o desabamento do portal".
O governador geral aprovou a proposta que diz :
"No reinado d'El-Rei D. Carlos sendo Governador Geral da Província de Moçambique João António d'Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira e Governador do Território de Manica e Sofala Alberto Celestino Ferreira Pinto Bastos mandou a Companhia de Moçambique recons­truir este padrão. Anno de 1906".
Do forte de S. Marçal, hoje apenas se man­tém de pé o portal, amparado pelas obras feitas em 1904 e 1905 com que se sustou o desabamento do arco.


Montes de terra, pedra e tijolo demarcam ainda o contorno da Praça, definindo melhor ou pior os muros, os baluartes e os locais das dependências interiores.

Pesquisado na Revista “Monumenta” Nr. 5 - 1969 - Moçambique – autor Caetano Carvalho Montez



Julho/2016

domingo, 24 de julho de 2016

MOÇAMBIQUE

INHAMBANE

PRAÇA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO

E FORTE DE S. JOÃO DA BOA VISTA

Possui a Câmara Municipal de Inham­bane uma cópia da "Planta da Fortificação de Inhambane 1821", que se reproduz neste apon­tamento. É do tempo do Governador Isidro Manuel de Carrezede, no cargo 1820 a 1825. Esta fortificação, diz respeito à praça de Nossa Senhora da Conceição, que era situada onde se encontram hoje os edifícios que instalam os Serviços da Administração do Concelho, o Governo do Distrito, os Serviços de Fazenda e a Capitania do Porto com suas oficinas. A Igreja, que aparece na planta da fortificação, é a mesma actual, depois da grande alteração que sofreu com os trabalhos de ampliação e construção da torre, trabalhos esses concluídos em Novembro de 1867 e começados em Junho de 1864.                   
O Forte de S. João da Boa Vista era situado num morro de areia, atrás do actual cemitério e do Hospital Regional, morro esse, desapareceu, por de lá se terem retirado muitas terras para todos os aterros de pântanos que, durante muitos anos se fizeram em Inhambane, e que em muito, vieram, beneficiar o estado sanitário da localidade.
"Por volta de 1760, tinha Inhambane um recinto defendido por estacaria, que podendo proporcionar abrigo contra os cafres, tinha pouca utilidade contra outro qualquer inimigo, e era guarnecido de 20 homens, comandados por um capitão".
António Guedes Monteiro de Matos que foi Capitão-mór de Inhambane, entre 1759 e 1763, achou a estacada em grande estado de ruína e as peças de artilharia numa incapaci­dade quase total. Isso o levou a escolher para edificar outra fortificação "um local próximo da Vila, donde se descobria a barra e que a este importante predicado reunia o de ter água boa e abundante, chão fértil e fartura de pedra para a construção". Mas não se devia ter cons­truído nada, pois o Governador António José de Melo, descreve com cores negras, em 1765, o estado em que se encontrava a guarnição e a palissada.
Em 1854, houve um grande incêndio, tendo ardido grande parte da Praça, a Igreja e muitas casas. De notar, que em 1853, Inhambane tinha 20 casas de pedra e cal, 27 de madeira, 81 sombreiros e 1350 palhotas, pertencentes aos nati­vos e tudo constituía 1470 fogos.
Em 1863, a 16 de Janeiro, a praça de Nossa Senhora da Conceição, é assim descrita pelo Governador de Inhambane, Major Guilherme Frederico de Portugal e Vasconcelos :
"A praça de Inhambane tem na frente para o mar (poente) huma bateria de 73 metros de comprimento e de 3 de altura que está completamente dominada pelas cazas mais próxi­mas e das ruas que tem do N ao Sul quatro espingardas à queima roupa impedem que os artilheiros facão uso das peças. Pela parte Sul he hum comprido e velho muro onde existe a porta principal da entrada, da bateria citada, a porta tem por dentro huns cazebres cobertos de palha que se vê de fora e que se servem de calabouço da Companhia, quartel do condestável, arrecadação do material e de caza da guarda. Da parte para o nascente segue o mesmo muro, tem por dentro hum paiol completamente arruinado hum barracão de palha meio queimado que serve para arrecadação e trabalharem os carpinteiros do Estado, ao fim deste muro ha huma couza a que o meu ante­cessor alcunhou de baluarte e que além de também estar completamente dominado por huma rua e que lhe passa ao Norte o está por todas as cazas próximas, e artilharia ali collocada não pode ser aplicável a não ser para derribar as cazas da Villa. Pelo Nascente se­gue-se hum igual muro com huma porta falça para a Praça, serventia particular dos Gover­nadores que habitão dentro, e no fim deste muro fazendo semetria com o referido baluarte he a Igreja Parochial por onde a Praça pode ser invadida sem obstáculo. Pela parte do Norte segue-se a parede da Igreja e depois hum velho muro de differentes alturas que vai fechar com a bateria do mar. Dentro desta Praça ha um barracão coberto de palha que he a Alfândega e por consequência durante as horas que está aberta he franca a entrada na Praça e ha dois cazebres idem que servem de arrecadação da Companhia e quarto de escripturação da mesma, ha dois outros cazebres que hum serve de prizão dos Gallés e outro de Thesouraria do Almoxarifado que pelos objectos que vende, impressos e papel sellado, torna a praça franca. Ha huma cazinhola pessimamente collocada a que se chama residência do Governador do Destricto tem huma caza de entrada captiva, porque em hum quarto a direita he a Secretaria da Praça em outro à esquerda a do Governador ficando para habitação do governador do destricto huma dispença dois quartos e huma pequena salla, tendo que estar sempre em contacto com os soldados e gallés ou privado de se aproximar de alguma janella e tendo que dormir o Official do Estado Maior na caza de entrada e por consequência as ordenanças na rua, motivo porque aluguei caza fora sobrecarregando-me "com a despeza de nove pezos mensais para sustentar o decoro e independência com que deve viver a primeira auctoridade do Destricto, despeza que continuarei a fazer por minha conta se V. Exa. não achar justo que me seja abonado pela Junta da Fazenda da Província.
"Passei a vizitar hum monte de área aces­sível por toda a parte com huma palhota no meio hum quadrado de meia braça de pedra e cal com um páo de bandeira espetado e seis peças d'artilharia e que ha séculos (sic) se chama Forte de S. João da Boa Vista. Aqui tem V. Exa. a exacta descripção das duas for­talezas desta boa Villa.
-"Em vista disto e dos poucos fundos pecu­niários com que me achava e sem autorização para os desviar da sua marcada aplicação vi que só me restava hum recurso para alguma couza fazer para satisfazer o meu génio traba­lhador e melhorar este Destricto. Mandei cha­mar o Digno Comandante das terras João Loforte e satisfazendo a sua requisição de doze picaretas o encarreguei de mandar fazer hum grande corte de pedra o que elle satifez com aquelle zello e promptidão com que se tem prestado a todos os mais serviços de que o tenho encarregado e que o torna digno da honra de estar na lembrança de V. Exa. pelos seus bons serviços. Tratei de grangear a sympathia dos meus governados fazendo-lhes ver que o meu programa governativo era igualdade, lei e justiça e logo que conheci poder contar com o auxílio d'elles dirigi-me ao sitio em S. João da Boa Vista, bella pozição para defesa desta villa marquei os alicerces que immeditamente fiz abrir e dirigi aos habitantes numa Circular pedindo-lhes que me auxiliassem com as suas lanchas para me conduzirem a pedra preciza para fazer em S. João da Boa Vista huma for­taleza regular para defeza da Villa ao que se promptificarão com a melhor vontade offerecendo-me logo o mencionado Commandante das terras da Coroa João Loforte quarenta barcadas de pedra que tinha no seu quintal e pedindo-me licença para elle fornecer com as suas lanchas toda a pedra preciza para o com­pleto d'huma das muralhas do Forte. O Cidadão Augusto Carlos dos Reys além de promptificar as suas lanchas para a condução da pedra me offereceo para o mesmo fim 100 barricas de cal, com esta e huma grande porção que achei na praça do tempo do meu antecessor comecei a obra collocando a primeira pedra no alicerce no dia 3 de Setembro de 1862. Mandei logo fazer três grandes fornos de cal, hum no sitio da Burra, na Machiche e em Linga-Linga e desta maneira tenho conseguuido ter hoje as quatro muralhas do forte concluídas no cumprimento cada huma de 48 metros e de 7,1/2 de altura incluindo os alicerces que tem 2 metros e de largura 5 palmos, estou concluindo a escada que como he de aboboda de tijolo mais algum tempo leva. Concluindo esta fortaleza para onde tenciono mudar os gallés e o paiol e não tendo esta grande obra custado á Fazenda Nacional mais que o jornal do Colono mestre Pedreiro e que só a condução da pedra pela distancia a que se vai buscar custaria huns poucos de contos de reis se fosse conduzida por conta do Estado e por isso rogo a V. Exa. auctorizar-me para que em nome de V. Exa. eu agra­deça a estes dignos moradores a boa vontade com que prestarão e se prestão a auxiliar-me e concluído o Forte de S. João da Boa Vista peço a V. Exa. hum voto de confiança para reformar a Praça de Nossa Senhora da Con­ceição aproveitando aquelle terreno fazendo uma boa Alfândega com portas independentes da Praça, huma caza decente para o Governa­dor do Destricto e hum bom quartel para quando se formar o 3.° Batalhão, tudo isto sem preju­dicar a Fazenda Nacional e com os mesmos recursos com que tenho feito o Forte de S. João da Boa Vista para que esta denominada Praça deixe de ser o escarneo de todo aquelle que alguma couza saiba de fortificação".


Mais tarde, nos princípios de 1875, o Forte de S. João da Boa Vista é descrito, na "Noticia acerca dos edifícios e obras publicadas no Distrito de Inhambane", da seguinte maneira:
"É situado em um alto a pequena distancia ao Sul da Villa, o muro que o cerca é feito em quadrado, tendo por face 47, "W"', só se acham construídas as faces do Norte e Leste, tendo a altura do muro do lado N. 4,m85 c. e do lado de L. 3, as faces dó Sul e Oeste estão apenas principiadas, a espessura dos muros é de 1 m; o seu estado de conservação é mau, porque nunca chegaram a ser rebocados e já se acham rachados em duas partes, existem ali 4 peças de ferro montadas, sendo 2 de calibre 9, uma de calibre 12 e uma de 18, ha mais duas peças igualmente de ferro de calibre 3 que se acham apeadas; as quatro peças mon­tadas bem como os reparos estão em soffrivel estado de conservação; ha no forte uma casa redonda de madeira rebocada de pedra e cal e cuberta de palha, que serve de quartel de veteranos, no lado desta existe um pau para içar a bandeira nacional mettido em um pe­queno pedestal de pedra de cal. Foram as obras dos muros deste forte feitas em 1862 a expensas dos habitantes do districto e dirigidas pelo governo; a despeza feita pela fazenda publica foi insignificante, apenas o fornecimento de ferramenta para os trabalhos."
Como se verifica, o Governador Por­tugal e VasconceIIos, ao informar o Governo Geral da construção do forte, declarou que o mesmo já tinha as quatro muralhas concluídas, o que parece não ser verdade, conforme se constata pelo documento que transcrevi, e pelo que, mais adeante se transcreve.
Mas, também é verdade que, a população de Inhambane, agradecida pela obra do mesmo Governador, fez um abaixo assinado que lhe enviou, a 20 de Julho de Ï863, "querendo dar um testemunho de gratidão pelo Governo que adminitrou este districto, e pela boa justiça que fez sem fazer differença de classe ou reli­gião nem cathegorias, fazendo sempre igual justiça;o modo como procurou fazer a prosperidade d'este districto já fazendo obras que nunca nenhum Governador tem feito como foi a do forte de S. João da Boa Vista que d'um morro d'área acessível, por todos os lados, hoje se acha com boas muralhas, ainda que não concluídas, pouco lhe resta, e que já pode servir para a defeza da Villa" .
Parece incompreensível é que, 14 anos depois, a Câmara Municipal, enviasse ao Gover­nador do Distrito o seguinte ofício :
"Ilmo. Exmo. Snr.
Existem quasi no centro desta Villa pelo lado do Sul, no alto de Sam João da Boa Vista, umas muralhas, derrocadas e abertas nos angolos, sem importância nenhuma militar que se dominarão Forte de Sam João — em épocas remotas, quando a Villa não passava da lagoa Inhampossa, servio aquelle monte de defesa avansada da Villa e n'ella havião algumas peças d'artilharia e uma guarda, sendo guarnecido em occaziões de guerra pelos moradores, hoje de nada serve por estar cercado de plantações e arvoredos e no centro da povoação, as mura­lhas informes e por acabar foram principiadas pelo Governador Portugal e á expensas dos moradores deste município que liberalmente deram pedra, a cal e os obreiros — nunca se acabarão, porque o sucessor deste conhecendo o mal construído da obra e a pouca importância estratégica que ella teria mesmo que se con­cluísse, abandonou-a assim tem estado até hoje, deteriorando-se de dia a dia. O ma­terial também nos parece pouco aproveitável para novas construções; esta Câmara com muitos bons desejos de continuar a empedrar e macadanizar as ruas do Concelho faltão-lhe como V. Exa. bem sabe os meios, não a von­tade; esta Câmara pede a V. Exa. lhe con­ceda aquellas velhas muralhas, para as demolir e aproveitar o material para as ruas, única coiza para que pode servir no que V. Exa. pres­tava um grande serviço a este Município. Deus Guarde a V. Exa. Inhambane, 26 de Septembro de 1877.- Ilmo. Exmo. Snr. Governador do Districto
(assinados) João Loforte, Prezidente da Câmara - Frederico Leal de Souza, Vice-Presindente - Joaquim Augusto Guima­rães, António Pascoal Pinto e Egas Corrêa Mascarenhas Arouca." 
Como se constata, era presidente da Câ­mara, João Loforte, que generosamente ofertara "quarenta barcadas de pedra e o transporte de toda a pedra preciza para o completo d'huma das muralhas do Forte", uns tantos anos atrás. Infelizmente, o pedido foi deferido, pelo Gover­nador Geral, conforme se verifica pelo seguinte ofício:
""Ilmo. Snr.
Tendo V. Sra pedido para que lhe fosse concedida a pedra do Forte de Sam João da Boa Vista, para o empedramento das ruas desta, cumpre-me participar-lhe que por determinação de Sua Exa o Governador Geral pode V. Sra. utilisar-se da mesma pedra para o indicado fim — Deus Guarde a V. Sra. — Secretaria do Go­verno do Districto de Inhambane, 21 de Janeiro de 1878 (assignado) o Governador António Maria Cardoso — Tenente d'Armada."
E, assim desapareceu algo, que hoje seria uma relíquia nesta linda terra de Inhambane.

Pesquisado na revista “Documenta”, Nr 4 – Moçambique – 1968 - Dr. Armando Maria Dionísio



Julho/2016 

domingo, 17 de julho de 2016

Moçambique

Os Uaque-Uaques
Povos da Proto-História

Os Uaque-Uaques aparecem pela primeira vez na Idade Média citados por autores árabes, seus contemporâneos, como al-Masudi (Abul Hasan Ali Ibn Husain Ibn Ali Al-Masudi, 888-957), al-Edrisi (Abu Abdullah Muhammad al-Idrisi, 1110-1165), e outros, referindo-se já a povos que habitavam nas terras que hoje são o Norte de Moçambique, antes dos bantos ali chegarem.
Os Uaque-Uaques ou Pré-Bantos, correspondem na atualidade aos Koisan, que habitam na Namíbia e Sul de Angola, nos grupos de Bosquímanos e Hotentotes.
As primeiras indicações destes povos aparecem já em Homero, 1.000 a.C., e Hecateu de Mileto, 546-480 a.C., como habitando o Alto Egito, a quem chamavam pigmeus e diziam que habitavam em cavernas e tinham combates com os grous!
Planisfério de Heucateu de Mileto, séc. V a.C. – restituição de A Forbiguer 1842
Notar, no sul: Pygmaen e Skiapodes (o mito dos homens só com uma perno e um olho no peito)

Nos princípios da era cristã começa a migração dos povos Bantos para o Sul, que já dominavam a tecnologia do ferro, foram exterminando os mais fracos e, em muitos casos cruzando com eles porque só poupariam as mulheres jovens, mas os portugueses nas primeiras viagens à costa oriental ainda os encontraram.
Este etnónimo, Uaque-Uaque, é onomatopeico em referência aos “cliques” ou estalidos com a língua, o seu modo de falarem, em muitos casos ainda hoje, e era usado pelos bantos que achavam estes “grunhidos” semelhantes aos dos babuínos.
Al-Idrisi: “Estes horríveis aborígenes, cujo modo de falar lembra assobios, habitavam a região à volta de Sofala.”
Al-Masudi, no século X, ao tratar dos Mocarangas, de uma forma confusa fala de um povo seu vizinho com “ausência de atos de inteligência”.
Frei João dos Santos (1570-1625) no livro Etiópia Oriental (1609) escreve sobre os Mocarangas: Manamotapa e todos os seus vassalos são Mocarangas, nome que têm por habitar as terras do Mocaranga, e falarem a linguagem chamada Mocaranga, a qual é a melhor e mais polida de todas as línguas de cafres que tenho visto n’esta Ethiopia, porque tem mais brandura, melhor modo de falar; e assim como os Mouros de África e de Arábia falam de papo que parece que vomitam, e arrancam as palavras da garganta, assim pelo contrário estes Mocarangas falam e pronunciam as palavras com a ponta da língua e beiços, de tal maneira que muitos vocábulos dizem quase assobiando, no que tem muita graça, como eu vi algumas vezes falar os cafres da corte de Quiteve e do Manamotapa, onde se fala o mocaranga mais polidamente. O seu modo de falar é por metáforas e comparações mui próprias e trazidas a propósito e interesse, em que todo o seu intento se resolve.”
Desde o século XVI que os portugueses contataram estes povos, sempre fazendo a distinção entre os de cor parda e pequena estatura e os bantos, a que chamavam cafres, de cor negra e corpo grande e forte.
Cafre, como é sabido foi o nome dado pelos muçulmanos a todos os infiéis, kafir, que viviam nas regiões onde o Islão não chegou.
António Fernandes, 1514-15, que os encontrou nas suas viagens pelo interior, a caminho do famosos Monomopata: “O Rei de Mombara está a sete dias de jornada deste Monomotapa... estes homens são mal proporcionados, não são muito negros e têm rabos como de carneiro. Estes dos rabos de carneiro adoravam as vacas. Se algum deles morre, comem-no e enterram uma vaca. E quanto mais um negro for preto mais dinheiro dão por ele, para o comerem, e dizem que a carne dos brancos é mais salgada que a dos pretos. ... gente que não é muito negra porém tem cabelo como os da Guiné, e os dos rabos que adoravam vacas e comem humanos são mais baços que estes.”
“Rabos de carneiro” é o que hoje se chama a esteatopigia, que não é exclusiva de alguns povos africanos, como se pode demonstrar:


António Fernandes nas suas viagens encontrou Bosquímanos ou Hotentotes, como o seu gado, e ainda com os seus costumes, incluindo a antropofagia.
Apesar de tudo, esta gente, avessa à civilização, deixou-nos demonstrações artísticas de grande valor como são as pinturas rupestres, muitas das quais em Moçambique: Monte Chinhampere, ao Sul de Vila Pery, Vumba (Manica e Sofala), Nalelepia, Chifumbuzi (a norte de Cahora Bassa) e outras, que ninguém sabe quando foram feitas.


Pinturas rupestres do Monte Chinhampere

Há muitas evidências dos Uaque-Uaques. Primeiro o primitivo nome do Rio dos Bons Sinais a quem os nativos chamavam Quá-Quá; depois o nome do maior grupo do norte de Moçambique os Macuas, sabendo que o prefixo Ma indica o plural, temos Ma-cuá; os Mucuancala e Mucuazama, no sul de Angola, e mais evidente ainda o grupo Macuácua, povo do Sul do Save, em Moçambique, as regiões de Gaza e Chibuto e outras mais.
Até eu guardo com muito cuidado um quadro que me liga a este povo e do qual já escrevi em 9 de Dezembro de 2010: É de um pintor L. Makwakwa. (o L. parece que seria Lourinho, de acordo com informações posteriormente recebidas do Hotel Universo, em Maputo, como se pode ver em http://hoteluniverso.wordpress.com/2011/09/04/wall-by-makwakwa 
Este Makwakwa, grande artista, sempre andou metido em confusões, não tanto políticas, mas bebedeiras, brigas, e até drogas.
A pintura dele é rica, intensa, marcadamente moçambicana. Como não sou crítico de arte não posso afirmar que seja da escola do mestre Malangatana, mas a verdade é que parece ter sido este o percursor de um estilo que distingue, ao primeiro olhar, o artista moçambicano de qualquer um de outro país africano.
Fomos visitar a sua exposição e o quadro que mais agradou foi este, o maior, que dominava a sala. Estive algum tempo a apreciá-lo até que o artista me veio explicar o seu significado: a Ceia de Cristo, vista por olhos africanos. Uma reunião entre um Grande Chefe e os seus doze seguidores, onde sempre se bebe muito, e In Vino Veritas, é grande a alegria e animação de uns e prostração de outros.


Um dos presentes, depois de ter bebido por uma cabaça o vinho, ali configurado como fazendo parte do corpo do Grande Feiticeiro, e com um gesto de falsa amizade, e ter colocado a mão no Seu ombro, acaba repudiando a cabaça que está a cair-lhe da mão! Os outros seguidores, tal como rezam os Evangelhos, são uns mais tranquilos, outros mais irrequietos, mas sente-se um misto de animação e até admiração, reações que o vinho dá a cada um.

Nota: Não há dúvida que, etimologicamente, eu também sou um “cafre”!
08/07/2016









quarta-feira, 13 de julho de 2016



Moçambique

Os Transportes Aéreos

Em 1937 criou-se a Divisão de Exploração de Transportes Aéreos, a famosa DETA, que inicia os seus voos “regulares” com a carreira Lourenço Marques-Germiston no Transval; ainda nesse ano fizeram vários voos comerciais, um deles a Angola, além de outros de propaganda.
Logo de entrada se notabilizaram pelos serviços prestados por ocasião das grandes inundações no mês de fevereiro.
A frota inicial compunha-se das seguintes e “modernas máquinas”:
- Um monomotor “Hornet Moth de 2 lugares, velocidade de 170 km/hora, o primeiro a entrar em serviço, em 20 de julho de 1936:


Hornet Moth de 1936 ainda em perfeitas condições nos EUA

- Um bimotor “Dragonfly” de 5 lugares e velocidade de cruzeiro de 200 km/hora:
 

- Dois bimotores “Dragon Rapid”, recebidos em agosto, de 7 lugares e velocidade de 213 km/hora.

Em Benguela - 1958


Utilizava-se o aeródromo da Carreira de Tiro, e as carreiras regulares iniciadas em 22 de dezembro para Germiston só fizeram cinco voos, não dispondo a DETA na Colónia de mais de um piloto preparado e um cedido pela De Havilland.
O ano de 1938 é quando se iniciam os voos regulares dentro de Moçambique: em 11 de abril, Lourenço Marques-Quelimane, escalando a Beira e Mambone.
Em 11 de Outubro vai até Lumbo e Porto Amélia (Pemba) fazendo escala obrigatória na Vila João Belo.
Entretanto valorizava-se a frota com mais dois “Dragon Rapid” e três “Junkers”, trimotores, de 18 lugares e 245 km/hora de velocidade de cruzeiro:



 Junker: olhem o conforto!

Em abril abandonou-se o aeródromo da Carreira de Tiro e inaugurou-se o Aeroporto de Lourenço Marques, que era uma beleza:



Progredia bem a DETA. Em 1939 adquiriu mais um “Hornet Moth”, dois “Dragon Rapid” e em 1940 três bimotores “Lockheed-14” com 14 lugares e velocidade de 320 km/hora:



No ano seguinte chegava a Mocimboa da Praia.
Em 1938, primeiro ano da exploração de carreiras regulares a DETA tinha um mecânico-radiotelegrafista, dois mecânicos e dois telegrafistas, e nesse mesmo ano foram admitidos mais técnicos das mesmas especialidades, além de ajudantes de mecânico e aprendizes, e somente dois pilotos. Nesse ano apresentaram-se mais quatro pilotos que concluíram o curso e obtiveram licença “B” na África do Sul, assim como dois mecânicos especializados naquela escola.
Em 1943 já são sete pilotos, a colónia contava com 43 aeródromos, mas nem todos ofereciam as condições de segurança necessárias e dos quais somente 11 eram utilizados pela navegação aérea, e destes só 6 recebiam os Junkers e o Lockeed, aos restantes só lá podem ir os Dragons.

(Revista “MOÇAMBIQUE” – Relatório Trimestral – Nr. 35 – Setembro de 1943)

Depois de Independência a DETA... extinguiu-se, e foi criada a LAM – Linhas Aéreas de Moçambique.



20/06/2016

domingo, 10 de julho de 2016

Um “pouco” do Brasil
ou... Brasil louco


Loucura ou insanidade são a mesma coisa. Descaso e corrupção andam paralelos, ignorância, egoísmo e incompetência, rolam de braços dados. E por aí vai.
Se em qualquer alguém não gostar, por exemplo de um político, pode pagar-lhe um fim de semana no Rio de Janeiro a “Cidade Maravilhosa”, porque as chances de se livrar dele são muito mais altas do que ganhar na loteria. Vejamos a capa da VEJA desta semana:


Tenho escrito muitas vezes que a Síria é aqui: média de 60.000 homicídios por ano! Só.
Mas agora temos as Olimpíadas: Fizeram-se obras e mais obras, tudo superfaturado, para não sair do padrão e:
- Inaugurou-se uma ciclovia, beirando e por cima do mar. Coisa linda. Num lugar onde o mar, com alguma frequência vem bater com muita força contra o paredão. As vigas de sustentação não previam estas ondas, e a via não estava bem fixada à estrutura. Muitos lugares em vez de quatro parafusos só colocaram um. Unzinho. Veio a primeira onda forte derrubou parte da via e matou dois ciclistas. O prefeito disse que ia apurar responsabilidades. Só esqueceu de dizer que ele é o responsável primeiro. Não mandou vigiar a obra.
- Inaugurou-se o BRT, um tipo de metrô de superfície, com ônibus articulados. No segundo dia começou a sair a capa de asfalto, o tal de BRT teve que sair da sua via exclusiva e acabada de fazer, para se remendar outro “erro técnico”.
- Há poucos dias inaugurou-se o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos, elétrico). Lindão. Já ficou parado umas quantas vezes porque falta a energia elétrica.
- Despoluição da Baía da Guanabara! Mentira. Não se fez. Compraram alguns barcos especiais para isso, mas... faltou o dinheiro para o combustível! Agora, só agora, descobriram que nas praias, isto é, nas águas do mar da baía, descobriu-se uma bactéria, aliás uma super bactéria, resistente a tudo que se conhece.
Pesquisado o problema constatou-se que vem de esgotos mal tratados pela CEDAE, a companhia estadual de água e esgotos, que são despejados diretamente na baía!
Os atletas do mar... alguns já disseram que vão navegar de máscara anti gases. Regatas “à la guerra de 1914-18”: máscaras!
Mas não há-de ser nada.
Há uns dois anos eu vi, repito, eu vi, escrito nas janelas de uma “igreja”:
SÁBADO PROMOÇÃO DE MILAGRES
Os milagres aqui, nessas igrejas é um tipo de mercadoria que podia ser vendida nos supermercados.
Num bairro, bairrinho, com 700 x 700 metros, classe média baixa, ruas traçadas em retas cruzando em 90°, muito comércio, todas as ruas e passeios esburacadas, carros estacionados nos dois lados, um ignorante, como eu, desconhecendo esta “organização, caíu lá dentro e andou meio tempo de ré. Só neste pedacinho do Rio existem nove, 9, “igrejas” dessas, sacando o dinheiro dos fiéis que gritam e choram durante as operações “comerciais”.
Para quem não acredita no que escrevo, ou para quem acredita que pode comprar um milagrito, aqui vai a sugestão ( já passou esta data, mas logo, logo, terá outra, ou outras):
Nomes e endereços retirados por... precaução!
A estes pastorinhos só lhes faltam as asas de anjinhos!

Falar de economia ou política é pura perca de tempo. Vai só o parecer dum “zémané” qualquer:
- o presidente interino pertence àquele grupo dos “macacos japoneses”, de que tanto tenho falado: “não sabe nada, não viu nada, não ouviu nada”, e para complicar a situação não encontra um único colaborador que não tenha telhados de vidro. E pior, para tentar fazer passar algum decreto ou lei no cão-greço tem que negociar com a banditagem: io te do um poco a te tu me dai um poco a mé.
Possivelmente uns 70 a 80% dos políticos, ou até mais, estão metidos em roubalheiras até acima dos cabelos. A Justiça – desta vez com letra maiúscula – parece ter acordado, mas não pode prender todos de uma vez. Paralisaria, ainda mais se possível isso fosse, o país, e não há cadeias para todos. Temos que aguardar pelo menos uns dois anos mais para ver a casa começar a ficar arrumada.
Mas a endemia corrupta é como a super bactéria da baía da Guanabara: muito resistente!
Vamos ver como fica o Rio pós olimpíadas. O custo para manter algumas das estruturas erguidas para este evento já começa a aparecer: uma delas parece, segundo fontes oficiais, irá custar, só para se manter, mais de R$ 100.000.000 – cem milhões de reais – por ano.
Mas tudo se resolve. Há milagres para dar e vender. Perdão, só para vender.

10-jul-16



segunda-feira, 4 de julho de 2016

Moçambique

A Moeda

Moçambique dependeu durante muitos anos da administração de Goa, correndo na Colónia praticamente só as moedas de Goa e de Portugal.
Em 1646 o Conselho de Fazenda mandou cunhar em Goa, com o peso de patacões, aproveitando a prata que vinha do Japão e dos holandeses, mas parece que não subsistem quaisquer dessas moedas.
D. João V, 1725, autorizou o lavramento de 8.000 cruzados em bazarucos (antiga moeda da Índia) em cobre: a primeira de D. João V, 1725, a seguir D. Maria I, 1801 e D. Pedro IV, 1828:       









Em 1752, com D. José, Moçambique consegue emancipar-se de Goa e são lavradas em Lisboa, na Casa da Moeda, moedas de ouro de 4.000, 2.000 e 1.000 réis, em prata de 800, 400, 200 e 100 réis.
Estas moedas estavam já na Casa da Índia, em Lisboa, para serem enviadas ao seu destino quando o terramoto de 1755 que destruiu o edifício, sepultou tudo nas ruinas. Quando do desaterro verificou-se que a maioria das moedas estavam inutilizadas. Devolveu-se tudo à Casa da Moeda para se limparem as que estivessem em condições e lavrar de novo as que se encontrassem incapazes.

As primeiras 3 carreiras são de D. João V, as estantes de D. José

Mais tarde D. Maria I emite novas moedas e até umas barrinhas com o ouro de Rios de Sena e patacas feitas de prata. (Nr. 1 a 5 da figura abaixo)

As duas do topo são de D. José, as outras de D. Maria II
que mandou também fazer as barrinhas – linha 2 e 3

As barrinhas são paralelogramos de 2,5 x 1,2 x 0,3 cm. Na face um M de Moçambique e no verso 2 ½ meticais, pesando 288 grãos e valia 26.500 réis.
Em 1840 lavraram-se em Lisboa 10.000 moedas de 80 réis, 20.000 de 40 e 40.000 de 20; e em 1853 outras de valores de 20, 10 e 5 reis e de II e I réis, expressamente para Moçambique.
Sempre em penúria de pecúnia estavam as colónias autorizadas a deixar circular moedas de vários países, desde a Áustria, Espanha e suas colónias, Brasil, Índia e Inglaterrae em 1888, para estas poderem circular foram marcadas com “PM coroado” ou só “PM”.


 
Pataca da Arquiduquesa da Áustria – 1780
(com a contramarca na testa!)
Pataca – 8 Reales – Carlos III – Peru - 1762

Barrinha e Rupia da Índia

Pataca – Carlos III – Guatemala - 1754



Moedas cunhadas em Moçambique

Em1894 a Companhia do Niassa – uma das famosas “companhias majestáticas” – sempre com falta de dinheiro para os seus negócios, mandou cunhar em Londres moedas de cobre de 10 e 20 réis. O governo sabedor do caso, apreendeu a emissão e mandou que a Casa da Moeda fundisse o cobre!
Depois de 1853 a Colónia não volta a ter moeda própria até 1935, quando aparecem as novas moedas, com valores em escudos desde 10$00 até $10, num montante de 16.850 contos, 16.850.000$00. As de 10$, 5$ e 2$50 de prata, 1$ e 1$50 de cupro-níquel e $20 e $10 de cobre.


Revista “MOÇAMBIQUE” – Relatório Trimestral – Nr. 47, 28, 50 e 52 – Setembro a Dezembro de 1947

Um belo dia, o governo da Metrópole “acordou” e tirou a palavra Colónia! Mas continuou a fazer algumas moedas de prata que algum tempo depois valiam bem mais do que o valor facial!


Junho 2016