segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016



                                O Palhaço


Quem não se lembra de ter visto “o” Palhaço? O Palhaço Pobre, sempre maltrapilho, com aqueles sapatos imensos que chamava de “submarinos”, que apanhava pancada e fazia rir todo o mundo?
Lembram-se que quando ele “chorava” soltava uns esguichos de água pelos olhos, e procurava atingir os espetadores que estavam junto do palco? E o público ria e aplaudia.
Além destas e muitas outras palhaçadas, esses homens eram grandes artistas. Tocavam concertina, violino, marimbas, trompete, e lembro de um que se sentou na borda do palco, prendeu um serrote entre os joelhos e com um arco de violino tocou, no serrote, as difíceis Csardas de Monti, deixando o público num total silêncio e profunda admiração.
Fora do palco e da representação, eram homens, muitas vezes tristes, que em tantas ocasiões vertiam lágrimas autênticas, escondidos nos seus cubículos, amargando uma vida difícil, dura e, Deus sabe, com que quantidade de problemas às costas. Alguns, com família e filhos pequenos, andavam em duas ou três carroças, de terra em terra, e todos tinham o seu papel na representação. Ciganos? Talvez. Mas artistas pobres. Outros não tinham mais família, ou se a tinham, dela se haviam afastado quando adolescentes, levados pela mágica da vida de saltimbanco.
Todos temos, dentro de nós, em maior ou menor escala, um tanto desses palhaços pobres. Quantas vezes rimos ou fazemos rir, passando uma imagem de vida alegre, desprendida, descompromissada, sem problemas, e uma vez sós, em frente da nossa consciência, dos nossos remorsos, dos nossos erros, de costas para que não nos vejam, não seguramos as lágrimas, contidas por vezes com amarga dificuldade.
Dizem que rir é o melhor remédio. Pode ser. Mas enquanto rimos temos a certeza de que a seguir temos bem mais motivos para chorar.
Se quisermos filosofar um pouco mais, deixar o vento do espírito nos entreter, ficamos cientes que na vida o importante é o momento que se vive. O passado não volta e o futuro é sempre uma incógnita.
O que podemos é fazer como a avestruz, escondendo a cabeça num buraco e esquecer o passado. Quanto mais anos vivemos mais peso esse passado tem, por vezes um peso difícil de carregar. São saudades, tristezas, amarguras que nos trazem as lágrimas, à mistura com as alegrias de ter visto os filhos nascerem, depois os netos, lembrar os muitos amigos que ajudaram a preencher a nossa vida, tudo já desordenado, mas penoso a concentrar no silêncio da meditação.
O momento, o presente, hoje, tal como o mundo se apresenta, desastrado, a caminho de uma quase autodestruição, apesar da infinita capacidade da natureza se regenerar, é vivido com a apreensão do futuro que filhos, netos e subsequentes vão ter que enfrentar.
Aqueles que teimam em seguir a ética, os valores humanos que os pais lhes transmitiram, vão ter que encarar os selvagens ávidos de açambarcarem o mundo, as suas riquezas e, pior, a sua moralidade.
E se não nos escondemos para chorar pelas dores do passado temos que chorar pelo futuro. Não do nosso, que já estamos nele, mas pelo dos outros, filhos e desconhecidos, para quem a luta por uma vida com dignidade se apresenta cada vez mais difícil.
Não há vergonha em deixar as lágrimas correrem pela cara.
Vivemos só o momento presente, é verdade, mas não podemos esquecer o que foi ficando para trás, sobretudo os momentos mais pesados, mais dolorosos, os que teimam em nos assaltar a mente quase sempre à noite, quando nos deitamos à procura de dar descanso a um corpo já muito gasto e uma cabeça desejosa de adormecer depressa, os “filmes” mais difíceis teimam em aparecer, em nos atormentar sem que possamos, ou queiramos, deles nos afastar.
O sono tarda. Algumas lágrimas humedecem-nos os olhos, e é com eles molhados, tristes, que cansados acabamos por adormecer.
Antes, porém, vem à memória aquele Palhaço alegre e triste, simpático, que para ganhar a vida transforma as próprias dores em risos da multidão.

Ridi Pagliaccio,
Ridi del duol, che t'avvelena il cor!
E ognun applaudirà !

16/02/2016



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016



 (2)
Destruições, Reconstruções, Confusões, Perseguições

Estamos cansados de saber que o terramoto foi uma tremenda calamidês. Mas deixemos o terramoto quietinho, sem tremuras e vamos ver outras calamidades.
Pouco depois de 1755, a seguir à fratricida confusão que foi a luta entre os dois irmãos – Pedro I/IV e Miguel – Liberais e Absolutistas, ninguém se entendia em Portugal, o que parece ficou nos genes da “terrinha” porque os que lá estão continuam a não se entenderem.
Católicos, maçons, anticlericais, um Estado podre e sem dinheiro, todos em consonância, entenderam, à imagem do que havia feito o senhor Sebastião, vulgo Marquês de Pombal, com os jesuítas, extinguir as ordens religiosas, por decreto assinado pelo Mata Frades – Joaquim António de Aguiar – em 1934, e usurparem todas as propriedades do país: mosteiros, conventos, igrejas, etc.
A seguir, o Estado, sempre o inútil Estado/governo, proprietário dessa imensa fortuna, vendeu essas propriedades, quase todas, a abastados senhores que, como é óbvio tinham apoiado o Pedrocas I. Vendeu por ninharia, até porque, como demorou a venda, entretanto houve muito “boa” gente que rapou bibliotecas, alfaias, paramentos, quadros, etc. Mesmo assim foi uma grande negociata.
Dois anos depois chega a Portugal um dos mais ilustres de todos os seus filhos adotivos, o grande Senhor Dom Fernando de Saxe Coburgo, para casar com a alegre viuvinha Maria da Glória, de 17 aninhos e pele clarinha. Um docinho!
Dom Fernando era um homem educado, culto, íntegro. Depois das primeiras, e merecidas núpcias, quis ir ver Portugal pelo interior. Além de esposo da Rainha, tinha-lhe sido conferido o título de Rei.
Não andou muito e começou a ver as entranhas do estranho país: e depara-se com o Mosteiro da Batalha, uma obra prima que começou a ser construída no século XIV e levou quase dois séculos para ficar concluída. Admirou-se o jovem rei, da majestade da obra, mais ainda ao ver uns pedreiros de picaretas nas mãos a derrubarem parte do mosteiro que o governo havia vendido! O governo anticristão, do Mosteiro da Batalha não queria que ficasse de pé mais do que a Igreja para “homenagear” a Dinastia de Avis! O resto, vendido a um pedreiro que estava a desmontar e retirar as pedras para as vender!
D. Fernando, ali mesmo, pagou ao “empreiteiro” quanto ele tinha desembolsado e, também do seu bolso mandou que começasse o restauro do momento.
Ainda é, hoje, um dos mais admiráveis monumentos de todo Portugal.

A majestosa beleza desta janela que o pedreiro não teve tempo de destruir!

Outra “brilhante” decisão daquele desastrado e covarde governo, mesmo antes da lei da Extinção das Ordens Religiosas, em 1833, o Estado, que já perseguira monges e frades, corre com os jerónimos de Belém, passa a mão no Mosteiro e entrega-o à Real Casa Pia de Lisboa, instituição de acolhimento de órfãos, mendigos, e desfavorecidos, que nalguns lugares faz obras de adaptação, como camaratas, destruindo partes originais ou muito antigas. Entretanto grande parte do seu valioso recheio leva o sumiço habitual, e que deve ter rendido algum dinheirinho a... quem?
Anos mais tarde, novamente é Dom Fernando que intervém, e em 1860 começam as obras de remodelação do Mosteiro com o levantamento e novo (?) desenho da fachada sul. É demolido o tanque do claustro, os tabiques das galerias e a cozinha do Mosteiro. Na mesma data fazem-se três (três!) projetos para a reconstrução do Mosteiro que não são aprovados. O último introduz já elementos neomanuelinos (antevisão de D. Manuel II... ad calendas?). Em 1863, é nomeado outro arquiteto que trabalha sob a alçada direta do Provedor da Casa Pia! Entre 1863 e 1865 reorganiza-se o andar superior do antigo dormitório e desenham-se novas janelas. A partir desta data novamente se troca de arquiteto que vai construir os torreões no extremo poente dos antigos dormitórios. Este, por sua vez, é substituído pelos cenógrafos italianos do teatro de S. Carlos (especialistas em manuelino!).
Entre 1867 e 1878 estes cenógrafos alteram profundamente o anexo e a fachada da igreja, dando ao monumento o aspecto que conhecemos hoje. Vão demolir a galilé (pórtico e entrada?) e a sala dos reis, construir os torreões do lado nascente do dormitório, a rosácea do coro alto e substituir a cobertura piramidal da torre sineira por uma cobertura mitrada. Tão bem estruturadas estavam estas obras que ao construir-se uma torre no corpo central do anexo do Mosteiro, que permitindo a infiltração de chuvas... desmoronou! Como a obra era dispendiosa, decidiu-se por uma obrinha mais modesta! A partir 1884, entra em campo outro engenheiro que em 1886 inicia o restauro do Claustro e da Sala do Capítulo, com a construção da respectiva abóbada. Em 1894, para celebrar a chegada de Vasco da Gama à Índia, finalmente terminam as 0bras de restauro!
E assim, o maravilhoso Mosteiro dos Jerónimos te4m mais pais que mães e um estilo manuelino... que se foi manuelizando com os anos!
Pelo belo país que Portugal é, e que, apesar de tantos cenógrafos e arquitetos e provedores, lá se vai equilibrando, o “monumento” mais gritante deve ser o Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães.
Na fobia do Estado Novo de mostrar ao mundo os Oitocentos Anos da Independência do petit pays, mas o mais antigo do mundo em termos de fronteiras, para honrar o berço da nação, mandou reconstruir-se o Paço dos Duques de Bragança. Reconstruir é um eufemismo porque nunca, jamais, alguém viu como tinham sido esses Paços, e talvez a única referência que existia seria uma velha gravura onde se vêm umas miseráveis ruinas atrás de modestas casas.

Gravura de 1861

O “Paço”, um pedacinho à direita, ao alto o Castelo de Guimarães atrás da Igrejinha de São Miguel (onde D. Afonso Henriques terá sido batizado). À frente “o exército”!

Construído nos anos 1420-1422, pelo 1.º Duque de Bragança (filho ilegítimo de D. João I) para a sua amante. Diz a Internet, que “quando estivesse o rei com esta, já tinha uma residência luxuosa para os dois”. Aliás não consta que D. João I tenha andado metido com amantes depois que casou com Dona Filipa de Lencastre, porque esta senhora não admitia poucas vergonhas na corte! A menos que chamem o duque... de rei! Mas enfim.
No século XVI, com a saga dos Filipes, que receavam a concorrência, os duques mudam-se definitivamente para Vila Viçosa e o paço em Guimarães é abandonado, pilhado, destruído e virou uma ruina.
O “restauro” a que se procedeu é uma afronta ao que terá sido o paço original. Dá a sensação que só se aproveitaram algumas paredes e as duas janelas, góticas, que se vêm na gravura de 1861, e estão hoje na capela do paço.


De qualquer modo, visitar o Mosteiro da Batalha, o dos Jerónimos e o Paço dos Duques em Bragança, é programa a não perder quem vai visitar a “terrinha” e/ou vive lá e não conhece. Vale a pena.
Além disso há ótimos, e baratos, restaurantes em todos os lugares (não esquecer os pastéis de nata de Belém), da Batalha podem ir por Porto de Mós (que tem um castelo lindo) até Fátima, e à volta de Guimarães... hummmm, como se come bem lá no Norte.

14/02/2016



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016



Pai Nosso!


Rezar? Para que? “Senhor, vê se me safas que estou metido numa enrascada! ”
Negociar com o Senhor, é uma vergonha, falta de fé, vigarice.
Mas em vez de rezar, porque não simplesmente meditar? Sempre. Depois do carnaval talvez ainda “mais sempre.”

“Pai Nosso”. Para os crentes – e para os outros! – o primeiro Pai foi o Criador, portanto o Pai de tudo quanto existe, aqui e em todo o Universo. Por muito que a ciência brame, ou tente explicar por fórmulas mágicas de química e física, sem Pai não há filhos!
Se meditarmos, e pensarmos no Pai Nosso, não podemos, jamais, esquecer o outro Pai, o da terra, que nos deu a vida, e o nome. Sem ele não estaríamos por aqui. E só tomamos conhecimento da falta que nos faz quando já não o temos ao nosso lado.
Espera de teus filhos o mesmo que fizeste a teus pais.
Thales de Mileto

“Que estais no céu”. Em qualquer lugar haverá um céu. Eterno e até etimologicamente etéreo. Do mesmo modo para os crentes e não crentes. Lá estará o Criador e, no meu caso e de muitos, o pai terreno. Lado a lado. Sem pressa, nem tempo, porque na eternidade não há tempo. Haverá quando muito o “agora” que não tem princípio nem fim. O sempre. O momento de Paz eterna.

“Santificado seja o Teu nome. Tem que ser. Alguém pode conceber um Pai, Criador que não seja para além de santo? Mesmo sabendo que ele criou os homens e os deixa andarem por aí cometendo as maiores violências, loucuras, muitas vezes usando o seu Santo Nome? Evidente. Destes-lhes o maior dom que Te era possível: a liberdade. Só que os homens não sabem o que fazer com a liberdade. Um dia, talvez, venham a saber. E santificado seja também o nosso pai terreno, mesmo que para alguns não tenha sido o pai ideal. Não foi culpa dele. Alguma coisa lhe faltou na vida para que fosse mais perfeito.
Caminhou nesta terra, sofreu, como todos nós e, com certeza fez o melhor que pôde ou soube.

“Venha a nós o Teu Reino. ” É pedir muito! Querermos aqui na terra, com todos os defeitos que nos são inerentes, um reino celestial, cheio de paz e amor. Bem houve quem nos veio indicar o Caminho, a Verdade e a Vida, com palavras simples que muitos “mestres” têm procurado estudar, interpretar, traduzir e complicar: “Amai-vos uns aos outros! ” Precisa de explicação, de filósofos e/ou teólogos para nos explicarem que temos que nos amarmos? O nosso pai terreno não nos ensinou isso também? Que todos somos uma família e que é “feio” os filhos se zangarem uns com os outros? Zangam-se mais e discutem mais aqueles que, em teoria, deviam somente pregar a simplicidade desta mensagem, que sem dúvida é a única Verdade.
Averróis (Ibn Rushd, Córdova 1126 – Marraquexe 1198) grande figura do conhecimento, filósofo, médico, cadi, muçulmano, recomenda aos dirigentes que condenem as obras dos teólogos por trazerem em si o germe da dissidência e possibilitam todo o tipo de seitas que precipitariam a sociedade no abismo das guerras civis.

“Seja feita a Tua vontade. A vontade do Pai será ver os filhos divididos? Uns podres de ricos e muito perto de metade da população da terra a viver em condições sub-humanas? Outros a fabricarem e venderem armamento para que se matem uns aos outros? A Tua vontade, Pai Criador, poucos, poucos, raros, procuram vivenciá-la, mas a maioria, infelizmente, tapa os ouvidos e os olhos e quer desconhecê-la, negá-la. A Tua Vontade é tão simples! Basta muitas vezes um sorriso, um abraço. Um pão que se dá. E a vontade do meu pai terreno? Será que todos os seus descendentes se esforçam por fazer essa Vontade?

“Assim na terra, como nos céus. ” Se aqui fosse como nos céus, estaríamos no próprio céu, mas todos sabemos que “isto, aqui em baixo” é um verdadeiro inferno.  Tanto que, quando alguém deixa a terra, o que se diz é que esse alguém “finalmente encontrou a paz”. É triste. Podíamos encontrar a paz enquanto por aqui andássemos. O Céu é diferente para cada um. Uma jovem, cega de treze anos pesava treze quilos quando foi recolhida por um padre da Casa do Gaiato. Não conseguia andar. Tempo depois alguém lhe perguntou como seria o Céu para ela; “O Céu – respondeu – deve ser assim como um café bem quentinho! ” Que beleza tem a gente simples e pobre. Não pensam num céu cheio de luxo.

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje. ” Que pão? Aquele que falta a bilhões de irmãos, que morrem de fome? Ou o pão celestial, o alimento da alma, do espírito, o que nos permitiria suprir com o pão terreno àqueles que tanto necessitam e não conseguem obtê-lo? Que pão estamos a pedir quando nos atrevemos a pronunciar esta frase? Será que quando pedimos para nós, conseguimos pensar que dez por cento da população mundial é a quantidade de deficientes de toda a espécie: cegos, surdos, aleijados, deficientes de nascença? Queremos o pão para nós ou para o ir levar a quem não consegue obtê-lo por seus próprios meios? Talvez aqueles noventa milhões de toneladas de alimento que a Europa joga no lixo durante o ano? Quantos poderiam deixar de ter fome com noventa milhões de toneladas de alimentos?
Dai primeiro o pão a quem tem fome,
Mas não esqueças de lhe dar a mão.

“Perdoai as nossas ofensas. ” Porque nos haveis de perdoar, se ao magoar o Outro estávamos conscientes da ofensa? Tu, Pai Criador, jamais nos ofendeste! Pedimos-Te perdão porque somos covardes, temos medo do futuro incógnito, daquilo a que chamam inferno. Temos medo. Até do Outro temos medo. E porque temos medo é que ofendemos e maltratamos o nosso semelhante, e criamos máquinas mortíferas. É o medo, e por isso somos covardes, fingindo que somos fortes com as nossas ofensa, maus tratos e promoção de desigualdades. As desigualdades sociais como o racismo vêm do medo que as classes de cima têm que dia, os “desclassificados”, se juntem e lhes vão pedir contas. Serás capaz de nos perdoares, Pai?
Porque los pobres no tienen
adonde volver la vista,
la vuelven hacia los cielos
con la esperanza infinita
de encontrar lo que a su hermano
en este mundo le quitan
Violeta Parra – Porque los pobres non tienen

“Assim como nós perdoamos a quem nos ofendeu. ” Mesmo nestas condições, se formos capazes de perdoar aos outros, porque nos hás de perdoar? Primeiro temos que ir pedir perdão a quem ofendemos ou maltratámos, e receber do Outro o perdão, generoso. Então, se o ofendido, aqui na terra, sinceramente nos perdoar, então o Pai poderá, talvez nos perdoar também. Talvez.
Perdoa muitas vezes aos outros, nunca a ti próprio.

“Não nos deixeis cair em tentações. ” Difícil, Pai. Somos fracos e covardes. Tanta coisa à nossa volta para nos fazer cair. Riqueza, poder, glória, sexo, corrupção, desprezo pelo mais fraco, tanta coisa! E será suficiente nos ajoelhamos para pedir perdão? É fácil pedir-te perdão a Ti, Pai. Mas... ajoelhar primeiro para afastar a tentação e depois agradecer-Te porque afinal nos ajudaste a vencer a nossa miserável fraqueza, isso sim. Depois de termos caído em qualquer tentação, abusado do Outro ou da Natureza, é fazer jogo de vigarista.

“E livrai-nos do mal.”  Tens que ser Tu, Pai, a livrar-nos do mal. Nós não somos capazes de viver longe do mal. O mal é tudo o que o nosso ego procura, o que parece dar prazer à vida material. Tal como qualquer pai terreno que está sempre atento para evitar que seus filhos caiam no mal, na maldade.
Pedimos-Te para nos livrares do mal, de todo o mal. É fácil, pedir. Mas o que Te damos em troca? Cuidamos do Outro, da Natureza, de tudo quanto é Belo e foste Tu que criaste? A luz o Sol, todas as criaturas e plantas, toda a maravilha que é a Natureza que nos ofereceste e que estamos a destruir? Esse mal ainda é congénito. Pode ser que um dia...

Pai! Livra-nos do mal.


03/02/2016

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016



 (1)
Destruições, Reconstruções, Confusões, Perseguições

Já falámos do Terramoto de 1755. Destruiu um monte de coisas, montanhas de coisas, igrejas, palácios, o famoso e misterioso cais do terreiro do Paço, em Lisboa não só em Lisboa como em muitas outras localidades.
Portugal, rico, com o ouro do Brasil, de repente ficou pobre. Correram ajudas de outros países, principalmente da Alemanha e não dos nossos tão antigos quanto estimados aliados britânicos.
Uma das igrejas que sofreu grande destruição foi a Sé de Lisboa. A Sé, monumento histórico, começada a erguer (?) segundo consta em cima duma mesquita, no tempo de Afonso Henriques, logo após a conquista de Lisboa, no século XII, foi sempre sofrendo (ou beneficiando?) alterações, modificações, confusões, pelo menos até ao século XVIII. E continuou.
Começou a ser levantada a partir de 1147 em estilo românico e terminou nas primeiras décadas do século XIII. O projeto é semelhante à da Sé de Coimbra, já que seu primeiro arquiteto foi Mestre Roberto, que trabalhou na construção da Sé de Coimbra, na de Lisboa e do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.
Entre os séculos XIII e XIV foi construído o claustro em estilo gótico no reinado de D. Dinis.  Seu sucessor, Afonso IV, modificou a parte traseira da igreja românica, ordenando a construção de uma cabeceira para ser utilizada como panteão familiar. A vontade do rei está expressa no seu testamento, datado de 1345, no qual diz que ".... Porem D. Affonso IV. pella graça de Deus Rey de Portugal, e do Algarve, .... e querendo mais acrescentar em esta obra para Deus ser louvado, e para me dar el galardom nossa santa gloria do Paraizo.... "
Apesar da proibição medieval de laicos serem enterrados na capela-mor, foi aberta uma exceção para D. Afonso, pelo seu desempenho heróico na Batalha do Salado (1340). A nova cabeceira começou a ser construída na primeira metade do século XIV, mas as obras só terminaram nos inícios do século XV, durante o reinado de D. João I. No século XIV, Lisboa e a Sé foram afetadas por vários terramotos. Um, muito forte, no início do século XV causou modificações nas obras. As torres terminavam em pináculos e a torre sobre o cruzeiro tinha três andares, como se vê na gravura a seguir.

A Sé no século XVI – à esquerda a Igreja de Santo António... de Lisboa

Ao longo dos séculos a Sé foi decorada com vários monumentos e altares, a maioria dos quais se perdeu ou encontra-se hoje dispersa em outros imóveis. A capela-mor abrigava o túmulo com as relíquias de São Vicente, que foi decorado por volta de 1470 com um grande retábulo pintado - os Painéis de São Vicente de Fora - de autoria atribuída a Nuno Gonçalves, pintor régio de Afonso V. Os painéis foram retirados em 1614 e encontram-se hoje no Museu Nacional de Arte Antiga.
Em meados do século XVII foi construída uma sacristia em estilo maneirista junto à fachada sul da Sé. No século XVIII a capela-mor gótica foi alterada em forma barroca. O grande Terramoto de 1755 destruiu a Capela do Santíssimo, a torre sul e a decoração da capela-mor, incluindo os túmulos reais, e o claustro. A torre- lanterna ruiu parcialmente e destruiu parte da abóbada de pedra da nave, que foi reconstruída em madeira.

A Sé após o Terramoto de 1755, por Jacques Philippe Le Bas (1757).
À esquerda a Igreja de Santo António, também em ruinas

Nas décadas seguintes a Sé passou por reformas e uma campanha de redecoração. Assim, entre 1761 e 1785 foi reconstruída a Capela do Santíssimo. Entre 1769 e 1771, grandes obras de restauro da torre sul da fachada, construção da cobertura de madeira da nave e remodelação da capela-mor, pintura da abóbada e decoração. As naves foram revestidas com decoração de madeira pintada e a nova cobertura de madeira da nave central foi dotada de óculos que permitiam a entrada de luz.

Antes de 1902

Grande parte das adições da era barroca foram retiradas a partir de uma grande campanha de restauro que ocorreu na primeira metade do século XX, cujo objetivo foi devolver à Sé algo de sua aparência medieval.  Nos primeiros anos de Novecentos, Augusto Fuschini pretendeu reinventar uma catedral medieval, com laivos de fantasia neogótica (como o projeto para a nova cabeceira) e neoclássica (com as grandes colunas para a entrada principal, cujos restos repousam ainda no claustro). A sua morte, em 1911, veio determinar o abandono do projeto.
Em 1911 (bastante horrível!)

Em 1911, o projeto de restauro foi retomado e modificado e passou a privilegiar as estruturas medievais ainda existentes. Foi reconstruída abóbada da nave central, a fachada foi restaurada e refeita e muito aumentada a rosácea, além de muitas outras alterações que deram ao edifício a aparência neorromânica que tem hojeApós novas reformas, como a nova rosácea, a Sé foi reinaugurada em 1940, numa grande solenidade no dia 05 de Maio de 1940.

A Sé, hoje, o eléctrico “28” e a Igreja de Santo António

Enfim, uma grande mistureba de estilos, e a “garantia” dum monumento do século XII !

(Continuam as destruições... fora da Sé)
02/02/2016




domingo, 31 de janeiro de 2016

À procura dum cais

Terramoto de 1755

Época houve, talvez no meu tempo de estudante, que muito se falava no Terramoto, e na calamidade que isso foi. Hoje parece falar-se menos, talvez por ser tema meio cansado, e porque economicamente o mundo está à espera de outra catástrofe maior. Quem sabe se o Apocalipse.
Lembro só algumas situações “quase apocalípticas” que os homens, os poderosos homens, criaram, na desenfreada procura em destruir a nossa Gaia (ou Geia).
Só poucas, das “últimas”: o crash da Bolsa de Nova York em 1929, a especulação imobiliária provocada no Japão que criou uma tremenda bolha que estourou nos anos 80, a indiscriminada distribuição de €uros aos “irmãos pobríssimos” da Europa que acabaram por afundá-los, sem falar nas centenas ou milhares de bombas atómicas espalhadas por todo o mundo, prontas a acabarem, num hiato, com toda a vida na Terra. Só lembrar que as usinas nucleares não foram inicialmente construídas para gerar energia elétrica, mas para se obter plutónio, com vista a alcançar a bomba atómica!
O plutónio é tão violento, ou tóxico que até hoje os “grandes cientistas” não sabem qual a quantidade que gera câncer de pulmão! “Supõem” que entre 1/20.000 e 1/100.000 de grama (pequena diferença!) sejam suficientes! Mas qualquer micrograma é letal. Lembram-se do ex-espião russo Alexander Litvinenko? Assassinado com um “primo” do plutónio!
Vale lembrar que só o Japão tem armazenadas –com toda a segurança!!! – 47.000 toneladas de plutónio, que dará para fazer milhares de bombas atómicas. Para quê?
Mas hoje o tema é sobre outras destruições. Vamos ao Terramoto.
Naquele dia, 1° de Novembro, dia de Todos os Santos, igrejas cheias de fiéis, velas acesas em todos os altares, mesmo nas casas particulares, na esperança de que algum deles se lembrasse de fazer um milagrito ou outro, a terra tremeu, tremeu tanto, que ainda hoje parece ter sido o mais violento sismo que desde sempre aconteceu na Europa.
O povo fugia, e era apanhado por queda de prédios, de pedras, telhas, madeiras, as ruas onde mal se podia andar ficaram cheias de destroços que ultrapassavam a altura do primeiro piso, gente gemendo e morrendo debaixo desse amontoado, as igrejas a ruírem e soterrarem dentro os fiéis, um vento fortíssimo espalhando as chamas por toda a cidade, e ainda uns saqueadores a ver o que encontravam no meio das ruínas. Estes, apanhados, nem tempo tiveram para confessar os pecados. Montaram-se rapidamente uma porção de forcas pela cidade e centenas de corpos ficaram balouçando à luz dos incêndios.
Alguns moradores conseguiram chegar ao Terreiro do Paço, muitos deles deixando alguém da família soterrada pelo caminho. Lugar aberto, onde não tinha chegado o fogo e alguns edifícios se mantinham em pé. E ali estavam talvez milhares. De repente vem do rio uma onda imensa com mais de seis metros de altura, invade a cidade e leva tudo pela frente. Em menos de um minuto aquela imensidade de água estava de volta ao rio, e neste vai e vem, que se repetiu durante cinco minutos, arrastou mais um monte de corpos e ajudou a derrubar mais prédios.
Pouco depois o vento forte, que continuava a espalhar o fogo, atingiu o Palácio Real, que o destruiu e
fez desaparecer uma valiosíssima biblioteca com mais de 70.000 volumes.
Durante os dois abalos mais violentos, o cais principal da cidade, que fechava o Terreiro do Paço, era novo e construído em mármore bruto de um modo extremamente sólido, pois as pedras estavam não só seguras umas às outras com ferros, mas também unidas por juntas, de forma que constituíam um bloco único, afundou-se todo em conjunto (embora a maré vazasse muitas jardas abaixo da sua base) bem debaixo de água, e tão fundo que nenhuma vara conseguiu alcançar a sua parte superior. Depois contaram (mas não sei dizer se é verdade) que, tendo experimentado com um fio, se descobriu ter-se afundado 50 braças abaixo da superfície da água. (Testemunho de um súbdito britânico, que escreve em 20.Nov.1755)
Este cais, solidamente construído, e mais alto que o nível do Terreiro do Paço na época - vê-se bem na gravura seguinte de 1740:


Igualmente vê-se bem o cais e o paredão nesta gravura de Mateus Sautter, anterior a 1755  ( em baixo a cidade destruida a arder)


Até há pouco nunca tinha ouvido que um cais tivesse sido engolido no maremoto, e curioso como sempre, fui atrás. Fiquei sabendo que:
- Em 2009 a Câmara Municipal de Lisboa (CML) realizou a Empreitada de Construção do Sistema de Intercepção e Câmara de Válvulas de Maré do Terreiro do Paço. Esta obra por ter tido lugar num centro histórico da cidade de Lisboa, foi alvo de Acompanhamento Arqueológico. Começaram as escavações e logo foram identificados alguns elementos em madeira de grandes dimensões, como estacas de pinho e partes de embarcações, que foram limpas e tratadas.
No decorrer dessa limpeza, começou-se a observar a presença de uma estrutura pétrea de grandes dimensões, composta por silhares em lioz (pedras de calcário duro, trabalhadas) associada a um alinhamento em estacas de madeira. Pela sua posição estratigráfica, pelo seu posicionamento face ao rio e à disposição da atual Praça do Comércio, e pela sua arquitetura, cedo se percebeu que se estava perante uma estrutura de cariz portuário, claramente enquadrada com uma etapa crono-cultural anterior ao Terramoto de 1755.
Todas estas informações complementares devo à atenção do arqueólogo Dr. César Augusto Neves que teve a paciência de responder às minhas constantes perguntas, e a quem muito agradeço.
Constata-se pelo trabalho realizado, que a área do Terreiro do Paço, antes de 1755, como se vê pela gravura a seguir, era bem menor do que hoje:


Grande parte se conquistou ao mar e o nível foi aumentado em até 6 metros.
Mas onde foi parar o tal “cais” a que os testemunhos ingleses (mais do que um) referem que terá “sido engolido... parece que continuará um mistério, visto que o cais encontrado estaria no nível correto para o tempo, o que pode ver-se por mais esta imagem, que mostra o cais uns 6 metros abaixo do nível atual.


Todas as pedras do antigo cais foram desmontadas, identificadas, numeradas e enviadas para o Museu da Cidade de Lisboa, para um dia (quando...?) serem montadas noutro local.
Esperemos que não aguardem, como as do Arco de São Bento, que finalmente se reergueu ao fim de 70 anos, de passiva e pétrea espera, na Praça de Espanha!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016




Há quase 70 anos


É um pouco estranho de repente virem à memória histórias passadas há... bem mais de meio século. Histórias que não foram notícia, não divulgadas, nem nos jornais nem na rádio, já que televisão, nesse tempo, felizmente não havia, o que nos permitia passar as horas de folga, os intervalos das aulas, a jogar o futebol, o pingue-pongue (tênis de mesa, em Terras de Ver a Cruz), conversar e mais tarde já homenzinhos, quando o tempo permitia, andar um pouco pelo campo, na conversa ou a rever alguma matéria!
É estranho, mas agradável porque conseguimos recordar colegas que perdemos de vista mas continuaram a ter o seu cantinho no nosso coração, a maioria deles que estará já “lá” em cima à nossa espera, e vai dar risada quando “se lembrar” de algumas aventuras que vivemos juntos.
Nós tínhamos um professor extraordinário. Um homem bom, inteligente, educado, simpático, dono de uma boa propriedade agrícola, engenheiro agrónomo, pesquisador, enfim, uma figura por quem todos tinham o maior respeito e simpatia.
Mas distraído como ele, não recordo ninguém; sempre aproveitámos para fazer alguma brincadeira. Por exemplo: ele via um de nós, alunos, a ler um livro, perguntava se era bom e se lho emprestávamos. Claro que sim. Mas a malandrice era fingir que tínhamos um livro bom mas que era uma porcaria qualquer, tipo romance barato! Ele pegava no livro, começava a ler, e logo via o logro. Deixava-o no primeiro lugar que calhasse, e depois ainda vinha perguntar porque nós líamos aquelas porcarias!
- Não lemos, senhor engenheiro. Foi uma brincadeira!
Lembro que fumava os cigarros mais baratos que havia naquele tempo – Definitivos – a que chamávamos, para dar um ar de importância “Definitaives”, à inglesa.


Durante as aulas, nunca deixava apagar um cigarro que estivesse a fumar; acendia um novo no que estava gasto, apagava este no cinzeiro e guardava a beata (as guimbas) numa das gavetas da mesa do professor. Nós tentávamos contar quantos cigarros fumava, mas para não perder a atenção à aula, perdíamos a contagem! Um dia, no fim da aula fui abrir a gaveta e contar as tais beatas! Não lembro quantas eram, mas muitas!
O professo viu-me a fazer aquilo e, antes de sair da sala, perguntou-me: “Já contaste? – Já. – Bem, da próxima vez, em vez de brincares com estas coisas, toma mais atenção na aula!”
­­O professor vivia na sua herdade em Monforte, também no Alentejo, a uns 75 quilómetros de Évora.
Ía para a Escola de Regentes Agrícolas, na Herdade da Mitra, às segundas feiras à noite, e regressava a casa quinta, ao fim do dia.

O “Colégio Velho” – Uma jóia
Onde está a capela e o claustro do antigo Convento do Bom Jesus de Valverde

Sempre de autocarro entre as cidades, tomava o seu cafezinho da noite no vetusto Café Arcada, e depois ia procurar o taxista favorito, o Zigoni, que tinha, no final dos anos 40, um belo Plymouth cinza. Atencioso, levava-o à Mitra, mais 12 quilómetros, e como nem sempre o professor levava a esposa, sempre o Zigoni perguntava se a senhora estava bem. Aquelas amabilidades triviais.
- Ficou muito bem obrigado!
Alguns quilómetros andados...
- Pára aí, Zigoni. Volta atrás. Esqueci a minha mulher no Café!
Voltaram; a senhora, que conhecia bem o marido não estava preocupada!
Era professor de hidráulica, mecânica e máquinas agrícolas, três das disciplinas que eu mais gostava e, sem querer fazer figura, sempre tirava notas altas, e foi por aí que segui a minha vida profissional.
No último ano em que tínhamos simultaneamente “conhecimentos” gerais, como matemática, também era ele o professor.
Aproximava-se o fim do ano lectivo e, como sempre existe, alguns colegas estavam mancos nalguma disciplina e arriscavam-se a perder o ano. O José Carrilho era um deles. Um tio deste, irmão de sua mãe, de sobrenome Gueifão, também fazendeiro e amigo do professor, foi-lhe dizer que o sobrinho estava mal... e pedir uma mãozinha. O bondoso professor disse que ia fazer o que pudesse.
Quando chegou a Évora andou a procurar na caderneta e não encontrou nenhum Gueifão. Foi perguntar ao Diretor, com quem eu estava nesse momento.
­- Quem é o Gueifão? Um tio deste, e meu amigo veio pedir para ver dava uma mão ao sobrinho, mas não encontro nenhum Gueifão!
O Diretor riu-se, todos conheciam bem aquela figura simpática, e eu disse que devia ser o José Gueifão Carrilho, do meu ano.
- Parece que o rapaz está mal em matemática.
­Eu sabia que sim, que estava, e o Zé Carrilho que era todo “macho” já encarava o perder o ano com a mesma disposição com que encarava os touros que pegava, e era um grande pegador.
- O que podemos fazer por ele?
- O senhor engenheiro dá-me duas ou três questões que lhe queira pôr numa aula, para tentar levantar a nota, eu vou meter-lhe na cabeça que eu sei que é tradição o senhor sempre perguntar isso, vou pegar nele ensinar-lhe a solução dessas fórmulas, e daqui a uns dias eu lhe digo quando ele estiver pronto.
-Boa idéia; concordou o professor.
Meter isto na cabeça do colega Carrilho foi duro. Ele era macho e teimoso, e eu nem sequer tinha físico suficiente para lhe bater!!! Mas não o larguei. Ele dizia que não era capaz, eu dizia que sim, lutámos durante uns dias, convenci-o a não estudar outros programas da matemática, e quando vi que estava apto disse-o ao professor.
Na aula. O professor queria mesmo ajudá-lo mas, para variar, tinha já esquecido que o nome dele era Carrilho e não Gueifão. Abre a caderneta, vira umas páginas como quem procura um nome ao acaso para chamar ao quadro, sabendo que só tinha um objetivo, chama:
- Gueifão!
O Zé Carrilho, levanta-se, devagar, apavorado, como quem sai da tumba, e fica hirto.
- És tu, o Gueifão?
- Não... não! Falto.
Os colegas não aguentaram o riso. “Falto” jamais se tinha ouvido!
No fim da aula, todos tinham saído, fui falar com o professor. Eu tinha-me comprometido.
- Então o gajo faltou? (Usava muito o termo gajo, apesar de ser educadíssimo!)
- Não senhor engenheiro. Foi aquele que se levantou e disse “Falto”!
- E agora? Foi a última aula. Mas ao menos ele aprendeu o que lhe ensinaste.
- Aprendeu sim. Pode dar-lhe o 10 que ele precisa.
- Vou pensar nisso.
Deu-lhe o 10, o Carrilho passou de ano, e só uns 30 anos depois, quando juntámos os colegas do curso, é que eu lhe contei esta história! Creio que ele não acreditou muito nisto!
Já no fim do curso prova escrita de Hidráulica, uma das cadeiras minhas preferidas, e em que tinha sempre a melhor nota de todos (não é gabarolice; em Entomologia... eu tinha uma das piores!).
Faço a prova muito rapidamente e atrás de mim o José Ravasco cutucava-me para lhe passar o ponto porque ele estava quase a zero!
Consegui escrever tudo num pedaço de papel, passar-lhe para trás, sem o professor ver, o que é óbvio, entreguei a minha prova e saí.
Esperei pelo Zé Ravasco.
- Passaste tudo? Tiveste tempo?
- Tudo. Tens a certeza que estava tudo certo?
Tinha. Aguardámos as notas. Eu sempre tinha a melhor nota, estava mais do que tranquilo. Ele nervoso.
Para espanto de ambos o Zé Ravasco teve uma nota melhor do que a minha!
Muito rimos com esse desfecho. Pela vida fora, poucas vezes nos encontrámos mais, por causa da minha vida de imigrante constante. Mas sempre falámos nisto. E ele fazia questão me dizer:
- Eu era melhor do que tu em Hidráulica!
Saudade. Muita. Dos colegas e de praticamente todos os professores, neste caso do
Engenheiro António José Sardinha de Oliveira
De quem sempre lembro com saudade, admiração e carinho.


Página dedicada a este professor no livro de fim do Curso de 1951. Tinha o professor 39 anos!

27/01/2015