domingo, 22 de novembro de 2015




Lisboetas – IV

As ossadas e o Mosteiro dos Jerónimos

Quem não conhece o Mosteiro dos Jerónimos? Talvez o mais importante, e o mais visitado monumento de Portugal. Uma obra única e bem portuguesa.
Foi mandado construir por Dom Manuel I, no lugar onde o Infante Dom Henrique tinha construído, para os mareantes, uma pequena ermida da Ordem de Cristo à entrada de Lisboa, junto às margens do Tejo. Em 1499 Dom Manuel fez doação do mosteiro aos monges de S. Jerónimo.
Foi o célebre arquiteto francês Jacques Boytac, Diogo Boitaca em português, o grande mestre do manuelino, o encarregado de dirigir tão importantes trabalhos que começaram em 1502, ano em que começou também a traçar o que seria a maravilhosa Torre de Belém.
À frente destas obras se conservou até 1516. No ano seguinte foi João de Castilho o responsável, junto com uma série de grandes artistas portugueses, franceses, espanhóis e outros.
Começa por aqui o mistério do Mosteiro dos Jerónimos.
Num quadro de 1657, que temos que aceitar como uma “foto” autêntica, o estilo manuelino por ali... ainda estaria para ser pensado! Vê-se o pórtico que parece igual ao de hoje e pouco mais.
  


Em uma outra pintura, um pouco mais recente, começa a ver-se um “manuelinho” nascente, mas nada que se possa comparar ao que é hoje.


Em 1833 o Mosteiro era uma ruina e foi entregue à Casa Pia para acolher jovens, mendigos e desfavorecidos. Começa somente a ser reconstruído em 1860, obra, imensa, que foi até ao fim do século.


Isto nos leva a crer que os Jerónimos são uma bela obra do século ... XIX!
Lá estarão sepultados, entre outros, o rei D. Manuel e sua segunda mulher D. Maria de Aragão e Castela, D. João III e sua mulher D. Catarina da Áustria, e... , e dizem também que lá está o triste, inexperiente e eternamente aguardado D. Sebastião que nunca voltou do Magrebe, nem morto, mas interessantes também são os túmulos de Vasco da Gama e de Luis de Camões. Sem dúvida duas belas peças escultóricas, em estilo “manuelininho” ambas do século XIX.

Mas parece que alguns destes túmulos são uma farsa.

Comecemos por Dom Sebastião. Em Julho deste ano escrevi um pouco sobre os Falsos Sebastiões, mas repito aqui uma pequena passagem, relembrando que o povo português ansiava pelo retorno do seu jovem rei, o que prejudicava a aceitação do espanhol Filipe II/I:

“O primeiro fingido a manifestar-se foi El-Rei D. Filipe I de Portugal no ano de 1582, mandando vir de Ceuta um corpo que lá esta­va depositado, dizendo ser o d’El-Rei D. Sebastião e o enterrou no Real Convento de Belém, na capela que está no Cruzeiro, da banda da Epístola e achando-se o dito Rei D. Filipe pessoalmente a todas estas cerimónias.”

Mentira. Mandaram um corpo qualquer e o espanhol enganou uns quantos portugueses. Poucos.

Continuemos pelo túmulo de Vasco da Gama, a quem o rei D. Manuel, em 1519 deu o título de Conde da Vidigueira, o primeiro português a ser nobilitado sem ser de sangue real. Morreu na Índia, em Calicut em 1524 e foi sepultado naquela cidade na Igreja de São Francisco. Em 1539 os seus restos mortais são trasladados para Portugal, mais concretamente para a Convento de Nossa Senhora das Relíquias do Carmo da Vidigueira, onde repousou, tranquilo até... dizem, 1880. Talvez antes, porque com a abolição das ordens religiosas em 1834, talvez, talvez, alguém tenha querido salvar os despojos do grande Almirante e os escondido nalgum outro lugar. Mas oficialmente diz-se que em 1880 foi para os Jerónimos, colocado ao lado de Camões. Terá ido, terá... porque parece que os vidigueirenses na ocasião se opuseram à saída do seu mais ilustre personagem. Aliás em 1884, sem saber qual a data certa e o nome, “um jornal lisboeta afirmou saber onde se encontravam os verdadeiros restos de Vasco da Gama” e que não estariam nos Jerónimos. Mistério!

E muito menos ao lado dos ossos de Camões, porque com o maior vate das letras lusas o caso é mais complicado e.... vigarizado.

Viveu Luis de Camões seus anos finais num quarto de uma casa próxima da Igreja de Sant’Ana, num estado, segundo narra a tradição, da mais indigna pobreza. Seria um exagero romântico, pois ainda podia manter o escravo Jau, que trouxera do oriente, e documentos oficiais atestam que dispunha de alguns meios de vida. Parece que, tendo adoecido com a peste foi levado para o hospital, onde faleceu a 10 de junho de 1579, sendo enterrado numa campa rasa na Igreja de Sant’Ana, ou no cemitério dos pobres do mesmo hospital.

Depois do terramoto de 1755, que destruiu a maior parte de Lisboa, foram feitas tentativas para se reencontrarem os despojos de Camões, todas frustradas. Mas....

Em 1858 uma comissão foi constituída e encarregada por Rodrigo da Fonseca, então ministro do Reino, de encontrar as ossadas do lírico e lhe dar sepultura digna, para coincidir com o tricentenário da sua morte, outro erro, porque terá falecido em 1579. Só nesse ano morreram em Lisboa mais de 40.000 pessoas, e as freiras do convento mais não faziam do que as “encaixar” de qualquer modo, em qualquer canto da igreja ou fora dela, ninguém cuidando de assinalar o que era de quem, e certamente as freirinhas nunca teriam ouvido falar em Camões, Lusíadas nem, quem sabe, na Ilha dos Amores, por quem certamente, muitas suspiravam!

No entanto “até a própria comissão teve dúvidas da autenticidade do que trasladou”.

No relatório da comissão pode ler-se, referindo os trabalhos de escavação empreendidos em 1858, que “a uma certa altura viram-se ossos em forma que se lhe não tinha mexido. Alguns d’estes eram pois sem dúvida os de Luiz de Camões; mas quais, se nem era possível distinguir a sepultura”! 

A solução encontrada foi carregar uma boa braçada de ossos, quaisquer, e dizer que seriam do vate.

Nada disso impediu a farsa.

“Levaram-se os ossos em procissão, com a máxima solenidade, desde o velho convento de Sant’Ana até ao Arsenal, e dali, numa esquadrilha de vapores, ao cais de Belém, e meteram-se no venerando templo dos Jerónimos, dentro de um caixão, ossos, com que se podiam compor vários esqueletos – até de mulheres – e dizia-se em voz alta que eram os restos do imortal autor dos Lusíadas. Pela boca pequena, afirmavam todos, serem despojos de sapateiros e freiras! Deixaram ir o rei e a rainha pôr flores no caixão das madres de Sant’Ana e dos confrades de S. Crispim, bem como no de Vasco da Gama, igualmente apócrifo; e ninguém na imprensa ergueu a voz para impedir isto! Ainda mais: negou-se lugar a quem quis impedi-lo.

Apenas uma sociedade científica, por instâncias que eu fiz a um dos seus membros, encetou a questão, mostrando a necessidade de se examinarem os ossos, antes da pro­cissão; e neste sentido oficiou a outra corporação sábia. Esta jul­gou prudente atabafar o negócio, dizendo «que deixassem ir tudo na fé dos padrinhos»!                                   
Deixou-se ir. Prosseguiu o ruído entusiástico, as músicas, os foguetes e salvas, as iluminações esplêndidas, os discursos elo­quentes, os versos, que eu também fiz, sem ter nenhuma admiração postiça, mas simplesmente com a que sempre tivera e tenho ainda hoje. Passada a onda de papelão pintado, pareceu conveniente nomear-se uma comissão para ir procurar os ossos de Camões no convento de Sant’Anna! E nomeou-se! E ela, cônscia da imensa responsabilidade que lhe cabia, depois dos estupendos factos que acabo de narrar, procurou, trabalhou com zelo, consciência e pro­bidade, com todas as qualidades e virtudes de que se vêem já tão raros exemplos n'esta terra. Findos os seus estudos fez deles extenso e perfeito relatório, provando, à luz da mais sensata e ri­gorosa crítica, que os restos do imortal cantor das nossas glórias tinham sido tirados desde muitos anos, talvez que até com intuitos criminosos, do lugar onde fora a sua verdadeira sepultura; e que estavam perdidos para sempre. Entretanto, pode ir ver quem quiser – se não os foram tirar já de lá, à capucha, os caixões depositados no mosteiro de Belém, dos quais se afirmou oficialmente que contém os restos de Camões e os de Vasco da Gama.”
Em 2007, dois arqueólogos, Rosa e Mário Varela Gomes escavaram o sítio do antigo convento, e dizem que os ossuários eram fossas escavadas no solo! Trezentos anos depois encontrar naqueles escombros e fossas os ossos de Camões, sempre pareceu uma brincadeira de muito mau gosto.
Mas lá está um lindo túmulo, falso, no Jerónimos.
Até o túmulo de Alexandre Herculano foi alterado. Tiraram-lhe o baldaquino.

Notas:
1.-  O que vai escrito em itálico é tirado do livro “Memórias Biográficas de Garrett” de Francisco Gomes de Amorim, 1827-1891.
2.- No site “oficial” do Governo de Portugal – Secretaria de Estado da Cultura”, http://www.mosteirojeronimos.pt/pt/index.php?s=white&pid=221  tem estes dizeres:
Em 1888, é colocado o túmulo de Alexandre Herculano (que foi modificado no século XX).
Para celebrar o IV Centenário da chegada de Vasco da Gama à Índia (1898), decide-se em 1894 concluir as obras de restauro. Os túmulos de Vasco da Gama e Luís de Camões, da autoria do escultor Costa Mota, são colocados na capela lateral sul (Foi em 1880). No ano seguinte o Mosteiro recebe os restos mortais do poeta João de Deus. Posteriormente, instalam-se também os túmulos de algumas figuras da literatura e política: Almeida Garret (1902), Sidónio Pais (1918), Guerra Junqueiro (1923) e Teófilo Braga (1924).
Nenhum destes últimos está nos Jerónimos. A Secretaria da Cultura (Cultura?) não poderia corrigir estes dados... falsos?

20/11/2015



terça-feira, 17 de novembro de 2015



O que, afinal, tem mantido a humanidade neste globo apesar de todas as calamidades da natureza e todas as falhas trágicas da humanidade, se não a fé em novas possibilidades e coragem para as defender. Jane Adams (1860-1935)

Daesh, a Europa... e todos os outros


Um horror o que aconteceu em Paris. E na Nigéria, onde a raça do Boko Haram já dizimou mais de 2.000 inocentes e destruiu uma povoação inteira?
O Estado Islâmico, o Daesh, atacou o Estado Francês. Mais evidente declaração de guerra do que esta e as do Boko Haram, são difíceis de acontecer.
A França faz parte da NATO. O Capitulo 5º diz “mais ou menos” que quando um país for atacado do exterior, TODOS os membros da NATO têm obrigação de ripostar, mas quando chega o momento de dar a cara... muitos saem de fininho.
Como? Ficam só uns aviõezinhos que vão lá largar bombas? É brincadeira, e até agora só serviu para a França desencalhar os Mirage que estiveram mais de vinte anos sem vender um só. Agora são encomendas de todos os países árabes, sunitas, que estão a ver que o Daesh não respeita nada, nem ninguém.
Os EUA e a França já soltaram mais de 2.000 bombas. Uns soltam aqui, outros além, lembra a história da “Guerra do Solnado”, mas a de 1906. A de 1908 era mais acima. Mataram, certamente uns quantos terroristas e mais outros tantos civis, mas no 9/11 morreram mais de 2 ou 3 mil e agora na França matar kafir virou quase hábito. Os franceses eram todos “Charlie”, muito amigos dos muçulmanos, depois já não eram tanto, agora estão afogados com ondas de refugiados, entre os quais, um deles, participou deste último massacre!
Depois juntam-se cantam “La Marseillaise” ... « Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons! Marchons, marchons »... mas quem forma bataillons, no terreno são os curdos !
A Rússia solta uma bomba no Daesh e 500 nos inimigos do Bashar. A Turquia que está “animadamente” a colaborar, também solta uma bombinha no Daesh e 500 sobre o sofrido povo curdo. Ninguém vê, ninguém reclama, e ainda pensam que a Turquia deva fazer parte da Europa.
Dizem os “experts” que precisavam em primeiro lugar cortar o financiamento ao Daesh. Ótima ideia!
Primeiro têm que cortar o pescoço aos Irmãos Muçulmanos sauditas, e dizer ao rei daquela banda que pare de lhes dar dinheiro (aí os tais irmãos derrubam a monarquia saudita). Depois proibir (proibir tem até graça) o senhor Erdogan de comprar o petróleo roubado da Síria, que passa todos os dias a fronteira, o gás, idem, o algodão e o trigo, idem, idem. O cara vai deixar de comprar? Não vai.
Em terceiro lugar apertar com os bancos TODOS para que deixem de transferir dinheiro para aquela gangue. É evidente que se eles pararem com essas transferências... no dia seguinte o banco sofre uma porção de assaltos, sequestros, kamikazes, etc.    
O problema não parece fácil, mais ainda quando se sabe que os assassinos vivem misturados com uma imensa população que lhes serve de escudo humano... Também no final de II Guerra os americanos destruíram Dresden gratuitamente, matando mais de 250.000 civis, outros tantos em Hiroshima e Nagazaki na solução “encontrada” para acabar a guerra, praticamente somente civis... e Raqqah? (Nota: depois deste texto escrito ele já bombardearam Raqqah)
A França tem 4.000 indivíduos cujas fichas na polícia estão assinaladas com um “S”, que significa que “deveriam estar a ser muito bem acompanhados”! Mas não estão. Isso lembra a II Guerra Mundial. A França viu-se invadida e ocupada pelos nazis, De Gaulle percebeu de imediato que o país não tinha a menor condição de se opor ao fortíssimo invasor, fez a mala, fugiu para Inglaterra e de lá comandou os valentes da Resistência, sempre que podiam limpavam o sarampo aos colaboracionistas!
Esses 4.000 fichados que são potenciais inimigos da França, em contato permanente com os “de gaulles” da Síria, deviam ser desde já encaixotados e mandados para um Auschwitz qualquer, sem necessariamente ter fornos e câmaras de gás, mas guardá-los em segurança máxima.
Não como a “segurança máxima” do Brasil, de onde os prisioneiros fogem por túneis ou até pela porta da frente, às vezes até de helicóptero, a polícia deixa roubar mais de 1.000 armas por ano, o exército um pouco menos, uma tonelada de explosivos foi levada “sem ninguém ter visto” das obras do túnel do metro, o que não é para admirar porque também o lula jamais viu alguma coisa, nem percebeu como ficou, ele, a família, os komerades e outros, bilionários. Não viu nada, não ouviu nada, não falou nada. Parece que os japoneses têm três macacos com uma boa imagem para isso!
Nem o Saramago conseguiria imaginação para escrever um “ensaio sobre a cegueira do Brasil”.
Ora a NATO tem 28 países membros: Albânia, Alemanha, Bélgica, Bulgária, Canadá, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estados Unidos da América, Estónia, França, Grécia, Holanda Hungria, Islândia, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo Noruega, Polónia, Portugal, Reino Unido, Roménia, República Checa e Turquia. A Rússia não faz parte, mas como não tarda a ter lá em Moscovo ou São Petersburgo uns massacritos mais – já teve vários com os muçulmanos chechenos – vai ter que se juntar à festa da NATO.
Se cada país fizer uma forcinha e mandar uns quantos soldados para combaterem no terreno, num instante se junta um exército de 15 ou 30.000 homens, e então sim, o Daesh pode ficar de pernas cortadas. Mas para isso é fundamental que colaborem, com soldados no chão, também os países árabes limítrofes, como, sauditas, emirados, “catarinos e omanos”, kuatianos e iranianos para complicar tudo.
O problema é que a França deixará de vendar aviões, o Japão não venderá mais Toyotas, a Rússia terá que fazer picolés com as Kalashnikov, e outros inocentes países que vivem, bem, de vender armamento... entrariam em depressão!
E então?
Esperar que os franceses (mais os belgas, os espanhóis e os portugas, e o resto dos europeus) sejam obrigados a virar o nariz para Meca cinco vezes por dia e gritar “ allah hu akbar”?
E os curdos, como ficam? Eles que nem árabes são, “levemente” islamizados (e talvez loucos para se livrarem disso), muitos judeus e cristãos, que eram bem tratados na Síria, ficarão mais uma vez enganados e desgraçados, como sempre, desde que foram vergonhosamente traídos pelos franceses e ingleses no Tratado de Lausanne, que deram o maior bolo à Turquia, uma parte à França ( o norte da hoje Síria, que era território curdo) e à Inglaterra o Iraque com mais um “pouco” ao norte, curdo, onde estava o petróleo que eles não estravam dispostos a perder.
O Curdistão amavelmente distribuído pelos amigos de antanho!

Estão os curdos a lutar contra o Daesh à espera de terem no final o reconhecimento de uma independência, mas...
Falar em Daesh sem mencionar a Somália, a Nigéria, a Líbia e outras áreas nem sequer é diletantismo. É covardia.
Se mundo, chamado civilizado (??? o que fabrica e vende armamento!!!) fala em acabar com o terrorismo, porque só chorar as vítimas do 9/11, de Madrid, de Londres e Paris? E as do Quénia, Nigéria, etc.? Terrorismo tem: Daesh, Al Shabaab, Al Qaeda de Boko Haram  e na Líbia e...
Disse o grande Papa Francisco: “Isto que aconteceu em Paris faz parte de III Guerra Mundial.”
Muita conversa dos políticos, muito discurso, mas sobretudo muita covardia para enfrentar a sério, o inimigo que cresce, cresce, cresce!
Mas...




15/11/2015





terça-feira, 10 de novembro de 2015




Passam-se “coisas” nesta terra (e em todas as outras), que nós, pobres ignorantes e pagantes só tomamos conhecimento quando um repórter, e uma imprensa livre nos trazem ao conhecimento.
Hoje, uma escandaleira internacional, sempre dos benditos ou malditos bancos – de acordo com a ótica por que são vistos – com aquelas monstruosidades de dinheirama, toda falsa, mas que enganam qualquer comum mortal.
Ainda hoje foi recebida, aqui em casa a conta do cartão de crédito que Deus, em boa hora, nos tem permitido pagar sempre sem ter que ficar a dever, porque o nosso “querido” banco, o Itaú, só cobra 336,78% de juros ao ano. Ninharia. Favor de amigos.
Mas vejamos primeiro as escandaleiras mundiais, para as quais os simples mortais são tragados e, como Jó, só dentro da barriga da baleia é que clamamos por piedade e, porque não, vingança. Inútil.

A  MÁFIA  E  O  CARTEL
Por José Casado – “O Globo” 10/11/2015

Durante seis anos, entre 2007 e 2013, 30 operadores financeiros vinculados a 15 dos maiores bancos globais manipularam um dos principais indicadores económicos do Brasil - a taxa de câmbio, preço-chave para investimentos e comércio exterior. Eles fizeram acordos para influenciar cotações do real, dólar e outras moedas. Dividiam-se em dois grupos no sistema de chat da agência Bloomberg: um autodenominava-se "A Máfia" outro identificava-se como "O Cartel"
Flagradas nos EUA, as casas bancárias acaba­ram multadas em US$ 5,6 bilhões. Em junho uma delas foi à Procuradoria, em São Paulo. Fez acordos de leniência e delação premiada. O caso foi repassado ao Conselho Adminis­trativo de Defesa Económica (Cade), que viu nas provas recebidas "fortes indícios de condu­tas anticompetitivas" e "de infração à ordem económica". O processo avança sob sigilo.
O Cade lista 11 protagonistas da manipula­ção de cotações da moeda brasileira: Banco Standard de Investimentos, Barclays, Citigroup, Deutsche Bank, HSBC, Merrill Lynch, Morgan Stanley, Nomura, Royal Bank of Cana­da, Standard Chartered e UBS.
Atribui a oito as maquinações com moedas es­trangeiras: Banco Tokyo-Mitsubishi UFJ, Barclays, Citigroup, Credit Suisse, HSBC, JP Morgan Chase, Royal Bank of Scotland e UBS.
Indicia por conspiração, via chat, os operado­res Alexandre Gertel Nogueira, Sérgio Correia, Zanini, Alexandre Santos, Christoph Durst, Christopher Ashton, Colin Devereux, Daniel Evans, Daniel Yúzo Shimada Kajiya, Eduardo Hargrea-1 vês, Fábio Ramalho, Felipe Leitão, Fernando Pais, Frank Cahill, James Witt, James Wynne, bhn Erratt, José Aloisio Teles Jr., Marco Christen, ïark Clark, Martin Tschachfli, MatthewJ. Gardí^ jnei; Michael Weston, Niall O'Riordan, Pablo Fri-sanco Oliveira, Paul Nash, Renato Lustosa Giffo-mi, Ralf Klonowski, Richard Gibbons, Richard Usher e Rohan Ramchandaní. (N. Tudo gente fina, finíssima)
Segundo o Cade, eles fizeram acordos para fixar a diferença (spread) entre o valor de compra e venda de moedas, potencializando lucros dos bancos e os prejuízos dos clientes. Combi­naram cotações falsas e negociaram moedas a preços específicos, cartelizados. Atuaram para bloquear outros operadores (brokers) no mer­cado de câmbio do Brasil, concorrentes ou que se recusaram a aceitar influência. Comparti­lharam informações sobre os negócios de clientes, incluindo contratos, fluxo de recursos, ordens de negociação, preços, posições con­fidenciais, estratégias e objetivos.
Coordenaram, também, operações prévias às colheitas de safras agrícolas, para influen­ciar os índices de referência num "movimen­to de mercado” alterando as cotações dos produtos.        
A federação dos bancos alega que a taxa de câmbio (PTax) é apurada e divulgada pelo BC a partir de informações de mais de 180 instituições num mercado com movimentação média de US$ 6 bilhões por dia, "o que torna praticamente impossível sua manipulação”. (Vê-se)
Exportadores que se sentem prejudica­dos vislumbraram manobra governamen­tal para esvaziar a investigação. Recorreram ao senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), que levou o caso ao Senado. Não se co­nhece, ainda, a extensão dos danos às em­presas e pessoas físicas no Brasil. É certo, porém, que o cartel e a máfia causaram perdas bilionárias.

Depois destas belezas “naturais” vejamos outras que a natureza brasílico-tropical nos tem presenteado nos últimos tempos, mercê do pouco que roubam os “lá do topo... e os outros”;
Por enquanto, este ano podemos contabilizar os seguintes aumentos – os mais significativos – no custo de vida para quem tem que comer:
- o alho aumentou 60%, a batata inglesa (produzida no Brasil) 69%, o filé de boi 40%, as peras 28%, carne de segunda 20%, macarrão 11,74%, vinho e bebidas alcoólicas 10% (o que desiquilibra o meu orçamento), pão 8,73% energia elétrica entre 43 e 51% - conforme os Estados (todos os estados... moribundos), fora tudo quanto já por aqui foi informado.

Entretanto no Texas, com o aumento de instalação de energia eólica, há excesso de produção! Solução: entre as 21h00 e as 06H00 a energia é de graça. Copiaram do Brasil.

Mas tem mais belezas endémico-brasilienses:
- nos últimos oito anos foram assassinadas 13.000 mulheres... por ano! Começaram a faltar os indispensáveis elementos do sexo interessante.
- a economia do país deve sofrer uma retração de 5% até ao fim deste anos. E no próximo?

Pelo mundo todo as “coisas também não estão brilhantes: o aumento de temperatura global passou este ano de 1% - foi de 1,02%. Não se preocupem: quando chegar a 2% a rainha Elisabeth vai abrir o Parlamento de barco ou de biquíni! Um show a não perder.
E em Lisboa o pessoal não precisará ir ao Estoril para tomar banho: toma na Baixa. No Rio de Janeiro... também.

E assim vai o mundo, e o pior é que vai muito mal o que, aqui, nos rodeia!


11/10/2015 

domingo, 8 de novembro de 2015



Matadouros
de Lisboa


Nas mais antigas religiões e nos escritos e legislação das primitivas civilizações encontram-se vestígios dos primeiros rudimentos da inspeção de carnes, missão de que se incumbiam os sacerdotes de determinadas castas, que tinham como principal mister velar pela vida humana.  
Referem-se lhe os manuscritos da Índia, principalmente o Código das Leis de Gentoux (?) e o das Leis de Manú.
De entre os povos antigos, destacaram-se os hebreus como legisladores em assuntos de higiene alimentar; a Bíblia e o Thalmud encerram quanto em tal época se sabia sobre a qualidade das carnes. No Levítico acha-se inscrita, no Capítulo IX, a relação dos animais que se podiam consumir.
O antigo Império Egípcio legou-nos interessante documentação como, por exemplo, nas admiráveis pinturas do templo de Thebas onde, entre elas, uma há que apresenta os sacerdotes inspecionando cuidadosamente as reses que se ofereciam a Amon. Parece que os deuses tinham, como os homens, acentuada repugnância pela oferenda de animais doentes.         
Na velha Grécia, diz-nos Homero que os seus heróis se alimentavam principalmente de carne. Na Ilíada descrevem-se inúmeros banquetes onde se sucediam os pratos compostos, quase exclusivamente, das mais variadas carnes. Na História Natural de Plínio e na obra Da Natureza dos Alimentos de Galeno, encontra-se exposto quanto interessava cumprir sobre tão importante assunto.
Até esta época não havia matadouros, isto é, locais privativos desti­nados à matança e preparação das reses destinadas ao consumo dos povos. Deve-se aos romanos a mais admirável organização sobre o comércio dos produtos cárneos, legada pela legislação dos tempos antigos, sendo os pri­meiros que construíram matadouros públicos, destinados ao abate dos ani­mais para abastecimento das grandes cidades. No ano 300 antes de J. C., os romanos sacrificavam as reses diante do Fórum, na presença dos deuses; os fulminantes progressos da sua civilização impeliram a prática de tal acto para locais afastados e a ele exclusivamente destinados.
Assim nasceram os primeiros matadouros, conhecidos no Império sob o nome de Macellus (mercado de carne). Entre os Macellus criados, os mais notáveis foram os de Roma, Macellus Liviae ou Livíanum, compostos de vários Livianae ou com­partimentos destinados à matança do gado e que se chamavam Boani, Suam, Pecuarii, em harmonia com a espécie animal neles abatida.
Um dos mais antigos matadouros de Lisboa terá sido, no ano de 1767, no antigo “Campo do Curral”, onde existiu bem perto a “Praça de Touros de Salitre” e o “Matadouro do Campo do Curral”, Mais tarde e, depois do terramoto que abalou Lisboa em 1755, passou a chamar-se “Campo de Santana”.
 

Campo de Sant’Anna em 1812

Sucederam-se os séculos e, através deles, têm-se sucessivamente melho­rado até atingirem o alto grau de aperfeiçoamento que, no século XX, carac­teriza estes estabelecimentos industriais.
Atualmente, um matadouro moderno é um estabelecimento industrial que visa uma tríplice finalidade: transformar em carne, própria para o con­sumo, os animais que lhe são confiados para abater; preparar os produtos derivados, destinados à pública alimentação; aproveitar os subprodutos, entre­gando-os ao comércio sob o seu mais alto valor industrial.
O aligeiradíssimo esboço histórico que, a largas pinceladas, se esboçou mostra como tão importante assunto tem constituído, desde os mais antigos tempos, motivo para preocupação de todos os povos.
Quando em 28 de Maio de 1926 se implantou a Ditadura Militar foram animadas as autarquias locais por um sopro de vitalidade que entusiasmou as populações do Norte a Sul do País. Os Municípios lançaram-se denodadamente na realização das mais justas, merecidas e ambicionadas aspirações materiais traduzidas por melhora­mentos que, até então, só aos grandes centros populacionais era dado usufruir.
A Câmara Municipal de Lisboa ao contágio da ânsia renovadora imediatamente viu a necessidade imperiosa da construção de um novo Matadouro, fora do centro citadino.
Ao deliberar o Município de Lisboa, em sessão de 22 de Dezembro de 1852, mandar proceder aos estudos para a construção do actual Matadouro, inaugurando em l de Janeiro de 1863, os terrenos que o circundavam encontravam-se totalmente libertos de quaisquer construções, visto que a Cruz do Taboado (onde é hoje a Direção Nacional da Polícia Judiciária, junto à Rua Escola de Medicina Veterinária) constituía, ainda, uma bairro relativamente afastado do centro citadino). Este Matadouro era abastecido pelo Mercado Geral de Gados, que, abatido deu lugar à Nova Feira Popular de Lisboa, em Entrecampos.
 

Mercado Geral de Gados, depois Feira Popular. Entrada pela Avenida da Répública

A cidade foi-se expandindo; como que por encanto rasgaram-se amplas avenidas; os seus progressos delinearam-se precisamente para os lados onde se tinha construído o Matadouro e, hoje (1937), este encontra-se situado numa das mais belas avenidas de Lisboa.
Foi o reconhecimento da sua deslocada situação que, entre outros moti­vos, determinou a resolução, reconhecida como imprescindível, de libertar a cidade de um estabelecimento que, apesar dos cuidados consagrados à manu­tenção da sua higiene, é insalubre por lei e incómodo de facto.
Não foram as acanhadas dimensões do Matadouro, construído para uma cidade que então contava uns escassos trezentos mil habitantes, nem a sua deslocada situação atual os únicos motivos que imperaram no espírito da Câmara para determinar a resolução da sua transferência. Prementes razões de ordem económica impõem a criação dum novo estabelecimento, com as condições precisas para interferir eficazmente na regularização do abastecimento de carnes, caracterizado este pela lamentável alternância de fases de superabundância de gado e de acentuada escassez. A sua construção serve, ainda, para estimular a produção do armentio bovino e ovino, pela garantia dada à lavoura metropolitana de se lhe conceder os meios necessários para colocar as suas reses na época em que as tem cevadas, subtraindo-se à dependência em que atualmente se encontra de só poder desfazer-se dos animais destinados ao mercado de Lisboa em pequenas partidas condicionadas pelas necessidades do consumo diário.
Esta contingência determina demoradas esperas que se traduzem pelo desperdício de milhares de quilos de carne, perdidos durante o período que decorre desde a oferta do gado até ao momento em que é abatido.
A escolha do terreno constituiu a primeira dificuldade a vencer.
Posta de parte a primitiva ideia de construir o matadouro numa pro­priedade municipal em tempos adquirida, mas que não reunia as condições precisas, tanto pela pequenez da área, como pelo acidentado da topografia, caiu a preferência numa propriedade que foi pertença da Manutenção Militar e que obedecia a premissas pré-estabelecidas e que são consideradas indispen­sáveis. Primeira, a área suficiente para nela se instalar: um grande frigorífico, o matadouro e respectivas oficinas de preparação de produtos, os edifícios da administração, o depósito de gados e, ainda, todas as numerosas dependências consideradas imprescindíveis; segunda, proximidade das vias férrea e fluvial; terceira, localização próximo da cidade.
Adquirida a propriedade e completada a área precisa pela expropriação de terrenos que lhe ficam ao Sul, delineou-se o plano geral do futuro matadouro obedecendo a um programa concebido por uma comissão constituída por um engenheiro e dois médicos-veterinários, por forma à satisfazer as exigências de uma cidade como Lisboa, aglomerado atual de 600.000 habitantes e que, como tudo faz prever, verá o seu índice demográfico sensivelmente aumentado dentro de um número de anos relativamente curto. O esquema de conjunto traçado para as instalações do Novo Matadouro abrange não só o espaço bas­tante para todas as secções, como prevê as necessárias ampliações para o futuro, quando o natural aumento da população citadina as exigir.
Reconhecida a vantagem de se fazer a marcha dos serviços, no terreno adquirido, a partir da margem do Tejo, estabeleceram-se as secções em alas paralelas a esta margem, por forma que os animais chegados pelas vias terres­tre, férrea e fluvial se concentrem todos no mesmo departamento, ou seja, no Depósito Geral de Gados (onde mais tarde se fez a Expo 98).
O Matadouro do Largo da Cruz do Taboado encerrou as suas atividades em 30 de Abril de 1954 e o de Cabo Frio inaugurado em 24 de Outubro de 1954... morreu para dar lugar à Expo 98!

E a propósito de carnes: ainda se come “aquele bife” no Nicola? Até o Bocage gostava!

05/11/2015



segunda-feira, 2 de novembro de 2015



Reencarnação
Filosofando

É difícil acreditar que o Espírito que baixa nos humanos (nem em todos...) o faça só para desaparecer com os restos, a carcaça, quando estes morrem.
Do mesmo modo parece pouco verosímil que o Espírito baixe nos humanos para com cada um deles ficar apenas um átimo de tempo em relação ao tempo eterno.
Há muito que corre na Tv, como ajuda à conscientização sobre o aquecimento global, o desprezo pelo ambiente, o constante despejar de lixo e químicos nos rios e mares, no dizimar das florestas, e outras barbáries, uma frase:
“A Natureza não precisa dos homens. Os homens é que precisam da Natureza.”
Se considerarmos que a Natureza é obra de Deus ou, porque não, Ele próprio, podemos usar a mesma expressão trocando a palavra Natureza pela palavra Deus.
O triste de tudo isto é vermos que o homem se julga superior à Natureza porque com o maior à vontade a vai destruindo, consciente, ganancioso, alguns se enchendo de dinheiro sujo, conspurcado, para no fim terminar comido pelas lagartas.
Uma seda chinesa, roubada do palácio do imperador da China durante a segunda Guerra do Ópio (1856-1860), representa um tubarão que devora um crocodilo que devora a serpente que devora a águia que devora a andorinha que devora a lagarta.
Toda a natureza se devora, raro no entanto entre indivíduos da mesma espécie, exceto entre aqueles a quem foi concedido o Espírito!
Todas as religiões acreditam numa outra vida, somente porque lhes custa a compreender que os homens tenham recebido um Espírito para se demorar tão pouco tempo nos seus corpos.
Os cristãos acreditam na ressureição dos mortos, e que vão encontrar os seres queridos que partiram primeiro. Naturalmente não vão ressuscitar com os mesmos corpos que tiveram um dia, nem encontrar alguém! Os muçulmanos acham que no céu deles, tipo reserva especial cinco estrelas, vão-se deleitar com um monte de virgens, e que por lá ficarão eternamente... até se enjoarem uns dos outros!
Então o que significará a “Ressurreição” para os cristãos? Qual a compensação depois de morrer, deixando de lado a velha fórmula de “inferno, purgatório, limbo para os recém-nascidos e paraíso”?
O mesmo que para os muçulmanos, em que os “mártires” vão para SPAs cinco estrelas e os outros ficarão a rastejar-se andrajosos e esfaimados comendo os restos que caem das mesas dos Elíseos?
Sem ser espírita, nem nunca ter presenciado uma sessão de espiritismo, e ao fim de muitos anos a pensar no que será a vida post mortem, a resposta mais lógica que encontro é na reencarnação.
Cristão, a ressurreição, nada mais é do que a continuidade da presença do espírito nalgum corpo até que tendo atingido a perfeição, esse Espírito acabe se incorporando à “Legião dos Espíritos Eternos” na Paz total, que esta mesma não se consegue compreender o que seja.
O Buda, que anos passados da sua morte houve quem tenha querido deificar para que criando mestres-sacerdotes budistas estabelecer assim uma hierarquia, afirmava que a sua eterna busca, enquanto na terra, era compreender, encontrar, o que era a Verdade, e lamentava-se que ia morrer sem a ter encontrado e compreendido.
Estes mistérios que não foram, nem são, revelados aos homens, têm pelo menos a vantagem de poder proporcionar àqueles que gostam de pensar, e olhar para dentro de si próprios, a meditação que os leve a distinguir o Eu-Espírito do Eu-Ego, carne que não tarda a apodrecer.
O Além e o Aquém, formam uma unidade indivisível, enquanto o indivíduo permanece como ser vivente na Terra. Por muito que ele queira separar, para destruir tudo que se encontre ao seu redor, quer seja roubando, matando, insultando, desmoralizando a pedra base da sociedade, a família, o Espírito que lhe foi emprestado, sai maculado. E só se limpa se se tornar a incorporar noutro indivíduo.
Os hinduístas consideram que, sendo todos os seres viventes obra da Criação, e são, devem ter os mesmos privilégios dos humanos, e desta forma os respeitam, e assim mantém um equilíbrio entre o Eu e o Ego. Aí está uma forma de respeitar a Natureza... enquanto o dinheiro não lhes acenar com riqueza ou prestígio ou mais comodidades. Nesse momento, na generalidade, o equilíbrio desaparece.
A dificuldade em compreender, se possível, um pouco mais sobre o Além, está na permanente onda de “verdades” jogadas para cima dos homens por “mestres” de todas as religiões. E, como Buda, ninguém sabe o que é a Verdade.
Santo Agostinho, e não se atreveu a conhecer a Verdade, mas deixou dito: “A Verdade está em nós mesmos, e o pecado também!”
Menos teologal, Shakespeare, põe na boca de Júlio César: “A culpa, caro Brutus, não está nas estrelas, se somos seres inferiores, está dentro de nós mesmos.”
E o homem de bem, que procura alcançar a paz, ainda neste mundo, sofre terrivelmente uma permanente luta entre o Bem e Mal. Não adianta isolar-se, refugiar-se num mosteiro ou no alto duma montanha numa miserável ermida, e fazer penitência todo o tempo. Esse isolamento acaba sendo uma demonstração de egoísmo, à procura de se salvar somente a si. E os outros, todos, que precisam de ajuda, que têm que viver o combate, todo o dia, a toda a hora, podendo, por exemplo, dizer como Sócrates ao passar nas ruas dos comerciantes, “quanta coisa aqui de que não preciso”, sabendo que o mal sempre vem de fora.
“É no dar que se recebe.” Não se trata do dar e receber mercadorias ou dinheiro, limpo ou sujo. Fundamentalmente dar Amor. Dar-se. Curioso como os políticos que, em teoria, devia ser isso que era sua obrigação, dar-se, trabalhar pelo bem dos povos, a partir do momento que viram Suas Insolências, esquecem-se completamente do Outro, e só se lembram de aumentar o seu pecúlio!
Esses, segundo os hindus, devem reencarnar em algo execrável, além de, com certeza, na hora da morte ficarem apavorados por saberem que no Além não vão para o salão nobre!
Em chegando a hora, temem por saberem que enquanto neste mundo pouco ou nada deram, ou muito roubaram, e como é dando que se recebe, o máximo que vão receber é a “conta a pagar”.
A vida na Terra nada representa em termos de Tempo, mas o suficiente para cada mostrar o quanto se interessou pelo Outro, quanto Amou.
Vai ser o “Poverello” que lhe irá perguntar:
- Onde viste ódio, levaste amor?
- Quando te ofenderam, perdoaste?
- Onde viste discórdia, procuraste a união?
- Quando encontraste a dúvida, animaste com a fé?
- Onde estavam os erros, mostraste a verdade?
- Aos desesperados, deste-lhes alguma esperança?
- Aos abandonados, velhos, tristes deste alguma alegria?
- E àqueles que viviam nas trevas, mostraste o caminho da luz?
- Procuraste ser mais consolado do que consolar os outros?
- Esforçaste-te para melhor compreender os outros do que te fazeres compreendido?
Por fim ouvirás: “Pois é, se não te deste, nada tens para receber, se não perdoaste, como queres que te perdoem agora? Não morreste para o teu Ego, como queres ganhar a vida eterna?”
E antes da tua alma abandonar o corpo, que vira pó, verás ou o sorriso do Santo ou duas lágrimas que descerão pela cara.


02/11/2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015



SEQUESTRO VIOLENTO

 DE UM NAVIO FRANCÊS EM LlSBOA

(1561)


Na Biblioteca Nacional de Paris encontra-se um curioso manuscrito, quinhentista, em que é relatado um grave incidente de navegação mercante, ocorrido em Maio de 1561, nas águas do Tejo, assunto em que, não obstante a sua flagrante acuidade, são omissos os nossos cronistas e até o insigne e fecundo Santarém, na sua vasta colectânea do Quadro Elementar.
Conquanto a França e Portugal reciprocamente se houvessem prodiga­lizado, no decurso dos séculos XV e XVI, atitudes de fiéis e leais amigos, tais manifestações de perfeito e mútuo entendimento internacional não os impediam que notoriamente se degladiassem e se exterminassem nos mares, cuja supre­macia ambos disputavam: frequentes e astuciosas surtidas da pirataria francesa, em assanhadas e implacáveis tomadias das nossas abarrotadas caravelas; e os nossos navegantes, em assomos de exacerbada fúria de represálias, sistema­ticamente exercidas nas embarcações francesas, que ousassem abeirar-se das costas da Mina e do Brasil e até, por vezes, do litoral português.
Singular aliança era aquela, em que se alardeavam de ambos os lados óptimas intenções, como se fosse viável e possível conciliar interesses antagó­nicos das duas nacionalidades, porfiadamente ciosas de larga expansão mer­cantil e colonizadora.
Em 1555, mercê do solícito incitamento do prestigioso calvinista e almi­rante Coligny, partia o irrequieto e arrojado Villegagnon para a costa brasi­leira, na qual se apressou em tomar e fortificar uma ilha na baía de Gua­nabara..
Decorridos quase cinco anos sobre aquele memorável e violento esbulho (com o beneplácito do rei Henrique II) e dos consequentes episódios de agres­são, provocadora à nossa soberania no território brasileiro, D. Mendo de Sá decidira investir, com heróico denodo, o celebrado reduto francês, o que con­seguia, em 21 de Fevereiro de 1560, derrubando-se a fortaleza corsária e posta a ferros a sua intrusa guarnição!
A França, assombrada com o feito, simulara indiferença, não reconhe­cendo, na reocupação portuguesa da sua cobiçada posição estratégica, motivo bastante de casus belli, para sustar a sua decantada amisade a Portugal... Pelo contrário, entendeu que a devia robustecer e afervorar, porque, naquele mesmo ano da sua derrota no Brasil, enviava a Lisboa, onde arribou em 10 de Agosto de 1560, uma brilhante esquadra, chefiada pelo seu mais alto e categorizado almirante, Francisco de Lorena, Grão Prior de França e duque de Guise, irmão dos poderosos cardiais de Lorena e de Guise.

François de Lorraine, Ier Duc de Guise

E os franceses e portugueses, esquecidos então dos mútuos agravos, rejubilaram perante aquela ostensiva manifestação de inequívoco bom enten­dimento.
No meado de Maio de 1561 soube-se em Lisboa que, já perto do cabo de S. Vicente, haviam sido apresadas pelos franceses duas caravelas portu­guesas, vindas da Madeira, donde traziam, sobretudo, açúcar, carga tomada por aqueles corsários.
Explodiram logo as imprecações em Lisboa, os propósitos de revoltada, de implacável represália sobre os navios franceses. Estes, receiosos da revindita, alegavam que as duas caravelas portuguesas haviam sido saqueadas, não por franceses mas só pelos piratas britânicos: (... .la Royne - refere o aludido ma­nuscrito - entra en sy grande colere que exclamant contre les françois, comme s'ils eussent faict ces pilleries...). Fossem ou não, desta vez, justas as acusações, o que é certo é que foram os franceses alvo da enérgica represália.
Em 21 de Maio de 1561, pelas 8 horas da manhã, surgia e fundeava na baía de Cascais um navio mercante francês, sob o comando do capitão Bastian de Lyard, que vinha de Sevilha, carregado de mercadorias do Peru, algumas das quais, 27 fardos, pretendia desembarcar e negociar em Lisboa.
Foram dadas ordens imediatas para o sequestro do navio francês em Cascais, em cuja baía fundeava, pouco depois, pela 4 horas da tarde, uma nau portuguesa, artilhada («une zabre equipée en guerre, relata o referido documento), comandada pelo capitão Diego Nunes, que logo deteve e embar­gou o navio francês, a sua tripulação e mercadorias, porque declarara ter instruções, precisas e categóricas, da Regente D. Catarina para apresar todas as embarcações francesas que entrassem na barra, fazendo-as conduzir para a Ribeira das Naus.
No dia imediato, 22 de Maio, ainda no porto de Cascais, pelas 10 horas da manhã, mandara o capitão Nunes arrear o velame do navio sequestrado, sendo rebocado para o ancoradouro do Terreiro do Paço da Ribeira.
O arrogante capitão francês recalcitrou, enfurecido de raiva, sendo então espancado “à coups de baston”.
Depois, havendo já ancorado o apresado navio, “vis à vis du Palais du Roy”, ocorreu um lamentável e sangrento incidente: a tripulação francesa, amotinada, em alarido, vociferava doestos contra o capitão português, mani­festação energicamente dominada com uns tiros de canhão.
Para cúmulo de fatalidade, ou de nervosismo na rápida manobra, um tiro foi estilhaçar o mastro grande do navio apresado, e outro fora atingir a coxa direita e a perna esquerda do desventurado capitão Lyard, que morria instantes depois.
A Rainha D. Catarina, contristada pelo trágico incidente, ordenou que se procedesse à respectiva devassa sobre as causas da ocorrência e, depois, condoída da precária sorte em que ficaria a viuva do falecido Lyard, com seis órfãos, pequenos, mandou entregar-lhe avultada quantia em cruzados.
Um exemplo apenas daquela tão exaltada, mas assomadiça amisade franco-portuguesa do século XVI, dessa esplendorosa época do nosso celebrado poderio ultramarino.

Lisboa, Março de 1937.
C. da CUNHA COUTINHO
in Boletim Cultural e Estatístico  da Câmara Municipal de Lisboa


N.- D. Mendo de Sá Barreto foi o 3° Governador do Brasil