segunda-feira, 2 de novembro de 2015



Reencarnação
Filosofando

É difícil acreditar que o Espírito que baixa nos humanos (nem em todos...) o faça só para desaparecer com os restos, a carcaça, quando estes morrem.
Do mesmo modo parece pouco verosímil que o Espírito baixe nos humanos para com cada um deles ficar apenas um átimo de tempo em relação ao tempo eterno.
Há muito que corre na Tv, como ajuda à conscientização sobre o aquecimento global, o desprezo pelo ambiente, o constante despejar de lixo e químicos nos rios e mares, no dizimar das florestas, e outras barbáries, uma frase:
“A Natureza não precisa dos homens. Os homens é que precisam da Natureza.”
Se considerarmos que a Natureza é obra de Deus ou, porque não, Ele próprio, podemos usar a mesma expressão trocando a palavra Natureza pela palavra Deus.
O triste de tudo isto é vermos que o homem se julga superior à Natureza porque com o maior à vontade a vai destruindo, consciente, ganancioso, alguns se enchendo de dinheiro sujo, conspurcado, para no fim terminar comido pelas lagartas.
Uma seda chinesa, roubada do palácio do imperador da China durante a segunda Guerra do Ópio (1856-1860), representa um tubarão que devora um crocodilo que devora a serpente que devora a águia que devora a andorinha que devora a lagarta.
Toda a natureza se devora, raro no entanto entre indivíduos da mesma espécie, exceto entre aqueles a quem foi concedido o Espírito!
Todas as religiões acreditam numa outra vida, somente porque lhes custa a compreender que os homens tenham recebido um Espírito para se demorar tão pouco tempo nos seus corpos.
Os cristãos acreditam na ressureição dos mortos, e que vão encontrar os seres queridos que partiram primeiro. Naturalmente não vão ressuscitar com os mesmos corpos que tiveram um dia, nem encontrar alguém! Os muçulmanos acham que no céu deles, tipo reserva especial cinco estrelas, vão-se deleitar com um monte de virgens, e que por lá ficarão eternamente... até se enjoarem uns dos outros!
Então o que significará a “Ressurreição” para os cristãos? Qual a compensação depois de morrer, deixando de lado a velha fórmula de “inferno, purgatório, limbo para os recém-nascidos e paraíso”?
O mesmo que para os muçulmanos, em que os “mártires” vão para SPAs cinco estrelas e os outros ficarão a rastejar-se andrajosos e esfaimados comendo os restos que caem das mesas dos Elíseos?
Sem ser espírita, nem nunca ter presenciado uma sessão de espiritismo, e ao fim de muitos anos a pensar no que será a vida post mortem, a resposta mais lógica que encontro é na reencarnação.
Cristão, a ressurreição, nada mais é do que a continuidade da presença do espírito nalgum corpo até que tendo atingido a perfeição, esse Espírito acabe se incorporando à “Legião dos Espíritos Eternos” na Paz total, que esta mesma não se consegue compreender o que seja.
O Buda, que anos passados da sua morte houve quem tenha querido deificar para que criando mestres-sacerdotes budistas estabelecer assim uma hierarquia, afirmava que a sua eterna busca, enquanto na terra, era compreender, encontrar, o que era a Verdade, e lamentava-se que ia morrer sem a ter encontrado e compreendido.
Estes mistérios que não foram, nem são, revelados aos homens, têm pelo menos a vantagem de poder proporcionar àqueles que gostam de pensar, e olhar para dentro de si próprios, a meditação que os leve a distinguir o Eu-Espírito do Eu-Ego, carne que não tarda a apodrecer.
O Além e o Aquém, formam uma unidade indivisível, enquanto o indivíduo permanece como ser vivente na Terra. Por muito que ele queira separar, para destruir tudo que se encontre ao seu redor, quer seja roubando, matando, insultando, desmoralizando a pedra base da sociedade, a família, o Espírito que lhe foi emprestado, sai maculado. E só se limpa se se tornar a incorporar noutro indivíduo.
Os hinduístas consideram que, sendo todos os seres viventes obra da Criação, e são, devem ter os mesmos privilégios dos humanos, e desta forma os respeitam, e assim mantém um equilíbrio entre o Eu e o Ego. Aí está uma forma de respeitar a Natureza... enquanto o dinheiro não lhes acenar com riqueza ou prestígio ou mais comodidades. Nesse momento, na generalidade, o equilíbrio desaparece.
A dificuldade em compreender, se possível, um pouco mais sobre o Além, está na permanente onda de “verdades” jogadas para cima dos homens por “mestres” de todas as religiões. E, como Buda, ninguém sabe o que é a Verdade.
Santo Agostinho, e não se atreveu a conhecer a Verdade, mas deixou dito: “A Verdade está em nós mesmos, e o pecado também!”
Menos teologal, Shakespeare, põe na boca de Júlio César: “A culpa, caro Brutus, não está nas estrelas, se somos seres inferiores, está dentro de nós mesmos.”
E o homem de bem, que procura alcançar a paz, ainda neste mundo, sofre terrivelmente uma permanente luta entre o Bem e Mal. Não adianta isolar-se, refugiar-se num mosteiro ou no alto duma montanha numa miserável ermida, e fazer penitência todo o tempo. Esse isolamento acaba sendo uma demonstração de egoísmo, à procura de se salvar somente a si. E os outros, todos, que precisam de ajuda, que têm que viver o combate, todo o dia, a toda a hora, podendo, por exemplo, dizer como Sócrates ao passar nas ruas dos comerciantes, “quanta coisa aqui de que não preciso”, sabendo que o mal sempre vem de fora.
“É no dar que se recebe.” Não se trata do dar e receber mercadorias ou dinheiro, limpo ou sujo. Fundamentalmente dar Amor. Dar-se. Curioso como os políticos que, em teoria, devia ser isso que era sua obrigação, dar-se, trabalhar pelo bem dos povos, a partir do momento que viram Suas Insolências, esquecem-se completamente do Outro, e só se lembram de aumentar o seu pecúlio!
Esses, segundo os hindus, devem reencarnar em algo execrável, além de, com certeza, na hora da morte ficarem apavorados por saberem que no Além não vão para o salão nobre!
Em chegando a hora, temem por saberem que enquanto neste mundo pouco ou nada deram, ou muito roubaram, e como é dando que se recebe, o máximo que vão receber é a “conta a pagar”.
A vida na Terra nada representa em termos de Tempo, mas o suficiente para cada mostrar o quanto se interessou pelo Outro, quanto Amou.
Vai ser o “Poverello” que lhe irá perguntar:
- Onde viste ódio, levaste amor?
- Quando te ofenderam, perdoaste?
- Onde viste discórdia, procuraste a união?
- Quando encontraste a dúvida, animaste com a fé?
- Onde estavam os erros, mostraste a verdade?
- Aos desesperados, deste-lhes alguma esperança?
- Aos abandonados, velhos, tristes deste alguma alegria?
- E àqueles que viviam nas trevas, mostraste o caminho da luz?
- Procuraste ser mais consolado do que consolar os outros?
- Esforçaste-te para melhor compreender os outros do que te fazeres compreendido?
Por fim ouvirás: “Pois é, se não te deste, nada tens para receber, se não perdoaste, como queres que te perdoem agora? Não morreste para o teu Ego, como queres ganhar a vida eterna?”
E antes da tua alma abandonar o corpo, que vira pó, verás ou o sorriso do Santo ou duas lágrimas que descerão pela cara.


02/11/2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015



SEQUESTRO VIOLENTO

 DE UM NAVIO FRANCÊS EM LlSBOA

(1561)


Na Biblioteca Nacional de Paris encontra-se um curioso manuscrito, quinhentista, em que é relatado um grave incidente de navegação mercante, ocorrido em Maio de 1561, nas águas do Tejo, assunto em que, não obstante a sua flagrante acuidade, são omissos os nossos cronistas e até o insigne e fecundo Santarém, na sua vasta colectânea do Quadro Elementar.
Conquanto a França e Portugal reciprocamente se houvessem prodiga­lizado, no decurso dos séculos XV e XVI, atitudes de fiéis e leais amigos, tais manifestações de perfeito e mútuo entendimento internacional não os impediam que notoriamente se degladiassem e se exterminassem nos mares, cuja supre­macia ambos disputavam: frequentes e astuciosas surtidas da pirataria francesa, em assanhadas e implacáveis tomadias das nossas abarrotadas caravelas; e os nossos navegantes, em assomos de exacerbada fúria de represálias, sistema­ticamente exercidas nas embarcações francesas, que ousassem abeirar-se das costas da Mina e do Brasil e até, por vezes, do litoral português.
Singular aliança era aquela, em que se alardeavam de ambos os lados óptimas intenções, como se fosse viável e possível conciliar interesses antagó­nicos das duas nacionalidades, porfiadamente ciosas de larga expansão mer­cantil e colonizadora.
Em 1555, mercê do solícito incitamento do prestigioso calvinista e almi­rante Coligny, partia o irrequieto e arrojado Villegagnon para a costa brasi­leira, na qual se apressou em tomar e fortificar uma ilha na baía de Gua­nabara..
Decorridos quase cinco anos sobre aquele memorável e violento esbulho (com o beneplácito do rei Henrique II) e dos consequentes episódios de agres­são, provocadora à nossa soberania no território brasileiro, D. Mendo de Sá decidira investir, com heróico denodo, o celebrado reduto francês, o que con­seguia, em 21 de Fevereiro de 1560, derrubando-se a fortaleza corsária e posta a ferros a sua intrusa guarnição!
A França, assombrada com o feito, simulara indiferença, não reconhe­cendo, na reocupação portuguesa da sua cobiçada posição estratégica, motivo bastante de casus belli, para sustar a sua decantada amisade a Portugal... Pelo contrário, entendeu que a devia robustecer e afervorar, porque, naquele mesmo ano da sua derrota no Brasil, enviava a Lisboa, onde arribou em 10 de Agosto de 1560, uma brilhante esquadra, chefiada pelo seu mais alto e categorizado almirante, Francisco de Lorena, Grão Prior de França e duque de Guise, irmão dos poderosos cardiais de Lorena e de Guise.

François de Lorraine, Ier Duc de Guise

E os franceses e portugueses, esquecidos então dos mútuos agravos, rejubilaram perante aquela ostensiva manifestação de inequívoco bom enten­dimento.
No meado de Maio de 1561 soube-se em Lisboa que, já perto do cabo de S. Vicente, haviam sido apresadas pelos franceses duas caravelas portu­guesas, vindas da Madeira, donde traziam, sobretudo, açúcar, carga tomada por aqueles corsários.
Explodiram logo as imprecações em Lisboa, os propósitos de revoltada, de implacável represália sobre os navios franceses. Estes, receiosos da revindita, alegavam que as duas caravelas portuguesas haviam sido saqueadas, não por franceses mas só pelos piratas britânicos: (... .la Royne - refere o aludido ma­nuscrito - entra en sy grande colere que exclamant contre les françois, comme s'ils eussent faict ces pilleries...). Fossem ou não, desta vez, justas as acusações, o que é certo é que foram os franceses alvo da enérgica represália.
Em 21 de Maio de 1561, pelas 8 horas da manhã, surgia e fundeava na baía de Cascais um navio mercante francês, sob o comando do capitão Bastian de Lyard, que vinha de Sevilha, carregado de mercadorias do Peru, algumas das quais, 27 fardos, pretendia desembarcar e negociar em Lisboa.
Foram dadas ordens imediatas para o sequestro do navio francês em Cascais, em cuja baía fundeava, pouco depois, pela 4 horas da tarde, uma nau portuguesa, artilhada («une zabre equipée en guerre, relata o referido documento), comandada pelo capitão Diego Nunes, que logo deteve e embar­gou o navio francês, a sua tripulação e mercadorias, porque declarara ter instruções, precisas e categóricas, da Regente D. Catarina para apresar todas as embarcações francesas que entrassem na barra, fazendo-as conduzir para a Ribeira das Naus.
No dia imediato, 22 de Maio, ainda no porto de Cascais, pelas 10 horas da manhã, mandara o capitão Nunes arrear o velame do navio sequestrado, sendo rebocado para o ancoradouro do Terreiro do Paço da Ribeira.
O arrogante capitão francês recalcitrou, enfurecido de raiva, sendo então espancado “à coups de baston”.
Depois, havendo já ancorado o apresado navio, “vis à vis du Palais du Roy”, ocorreu um lamentável e sangrento incidente: a tripulação francesa, amotinada, em alarido, vociferava doestos contra o capitão português, mani­festação energicamente dominada com uns tiros de canhão.
Para cúmulo de fatalidade, ou de nervosismo na rápida manobra, um tiro foi estilhaçar o mastro grande do navio apresado, e outro fora atingir a coxa direita e a perna esquerda do desventurado capitão Lyard, que morria instantes depois.
A Rainha D. Catarina, contristada pelo trágico incidente, ordenou que se procedesse à respectiva devassa sobre as causas da ocorrência e, depois, condoída da precária sorte em que ficaria a viuva do falecido Lyard, com seis órfãos, pequenos, mandou entregar-lhe avultada quantia em cruzados.
Um exemplo apenas daquela tão exaltada, mas assomadiça amisade franco-portuguesa do século XVI, dessa esplendorosa época do nosso celebrado poderio ultramarino.

Lisboa, Março de 1937.
C. da CUNHA COUTINHO
in Boletim Cultural e Estatístico  da Câmara Municipal de Lisboa


N.- D. Mendo de Sá Barreto foi o 3° Governador do Brasil

sábado, 24 de outubro de 2015

Muita gente no Brasil não sabe se Santo António é de Lisboa ou de Pádua, ou se são dois santos. Na maioria dos lugares invoca-se o de Pádua, com seu nome tem cidades, cooperativa agro-pecuárias, festas, do Norte a Sul, etc. O de Lisboa tem uma paróquia em Florianópolis, terra de açorianos.  Por isso tive vários pedidos para escrever sobre o Santo e esclarecer quem é quem!
Acontece que já tinha escrito há quatro anos. Quem não leu na ocasião pode ler novamente.
Foram dois textos, que resolvi colocar no blog de uma só vez.
A festa dos "dois" celebra-se no mesmo dia: 13 de Junho, dia da sua morte.

1
Santo António

de... Lisboa

Lisboa, 13 de Junho. Feriado Municipal. Festa de Santo António... de Lisboa. O Casamenteiro.
Filho de Martinho de Bulhões e Maria Teresa Taveira, nasceu à volta de 1190, (15 de Agosto?) em Lisboa, um menino que foi batizado com o nome de um tio, cônego, Fernando, Fernando Martins Bolhão, ou Bulhões.
“Seus pais moravam à beira da Sé, e eram gente limpa e remediada”! Talvez o pai fosse ourives, uma vez que o nome Bolhão significava “barra de prata, com liga de outros metais, boa para bular, amoedar”. Bular acabou significando “colocar o selo” em documentos de grande importância, a bula!
Na Sé, havia ao tempo, aula de gramática e de artes, e, ali, Fernando, a partir dos sete anos, muito jovem, excepcional memória e invulgar inteligência, aprendeu as primeiras letras e os rudimentos de humanidades. Desde sempre mostrou uma profunda devoção e o começo de uma mística, profundas, apesar de andar com “amigos estróinas”, que o obrigaram a muito meditar sobre a sua vida.
Até aos 15 anos vive na casa dos pais, entra num período de vida libertina com os tais “amigos” e, para fugir aos chamados mundanos, decide entrar no mosteiro de São Vicente de Fora, dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, com a idade de 18 anos. Logo tomou o hábito da mão do Prior, e feito os votos possivelmente um ano depois. Aí fica dois anos na meditação e estudo e pede depois para ser transferido para o mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde ficaria longe dos amigos que o assediavam para o mau caminho.
Santa Cruz, em Coimbra, junto à Corte, tinha uma rica biblioteca e alguns mestres já formados em diversas cidades da Europa, o que o tornava “uma pequena academia de sábios”.
Em ambiente de estudo e oração permaneceu entre nove a onze anos. No entanto aquela vida de estudo e oração não o satisfaziam. Fernando impressionava-se com a visita dos frades menores de Santo Antão dos Olivais, que de vez em quando iam ao mosteiro de Santa Cruz pedir esmola. Por este mosteiro devem ter passado os cinco frades menores que em Marrocos deram a vida pela fé cristã, em 16 de Julho de 1220, e cujos restos mortais foram recolhidos por D. Pedro, irmão do rei Afonso II, e entregues ao mosteiro de Santa Cruz para aí serem depositados.
“O exemplo destes humildes, pobres, alegres e ardorosos pela causa de Deus, como se mostram os franciscanos de Coimbra e, sobretudo, o magnífico exemplo dos mártires, levam-no a trocar o nome de batismo por Frei António, e a cândida estamenha Agostinha pela estamenha parda dos frades menores, o rico e afamado mosteiro de Santa Cruz, pelo pobre e obscuro de Santo Antão dos Olivais, a vida sedentária de cônego, pela vida errante de frade mendicante e missionário.”

Santo António – pintura do séc. XIII, da Pinacoteca de Perugia

Entregue à pobreza e à missionação, Frei António decide partir para Marrocos, onde os cinco mártires tinham sido degolados pelo Emir, Amir al-Mu'minin, o Miramolim. Desta vez porém os muçulmanos deixam Frei António em paz, mas ao mesmo tempo uma doença pertinaz o obriga a voltar a Portugal.
O barco que havia de o levar sofre uma violenta tempestade, é desarvorado, e vai ter às costas da Sicilia, onde, nas imediações da cidade de Messina encontra abrigo num pequeno convento de Frades Menores.
E assim acaba a vida de Frei António em Portugal! E começa o Santo Antonio de Padua!
Num próximo texto continuaremos a seguir a sua vida. Hoje, deixamos um só dos seus sermões, que mesmo parecendo estranho pode ajudar muito a meditar:

Parábola do anel de Ouro
(Jesus tomou o saco das nossas misérias)
Lê-se no Passionário de São Sebastião que um rei possuia um anel de ouro ornado de uma jóia preciosa, que lhe era muito querido. Um dia caiu-lhe do dedo dentro de uma cloaca, o que muito o penalizou. E, não encontrando alguém que lhe pudesse tirar dali o anel, depondo os vestidos da dignidade real, desceu à cloaca vestido de saco, procurou o anel durante muito tempo, até que finalmente encontrou o que procurava e, alegre, trouxe para o palácio o achado. O Reino é o Filho de Deus; o anel, o género humano; a jóia do anel, a preciosa alma do homem. Este caiu no gozo do Paraíso, como do dedo de Deus, na cloaca do inferno. O Filho de Deus muito se doeu desta perda. Para recuperar o anel, procurou entre os anjos e os homens, e não o  encontrou, porque ninguém foi capaz. Então, depôs os vestidos, aniquilou-se a si mesmo, tomou o saco da nossa miséria, procurou por trinta e três anos o anel; finalmente desceu aos infernos e aí encontrou Adão e toda a sua posteridade. Muito alegre, levou o achado consigo para a eternidade.”

N.- Voltaremos ao Santo António, mas... de Padua!
10/06/2011

2
Exulta Lusitania Felix

Santo António

de... Pádua

Primavera de 1221. Frei António, doente, tem que regressar a Portugal, mas levado por um violento temporal, vai dar às costas da Sicilia, onde nas imediações da cidade de Messina, encontra abrigo num humilde conventinho de frades menores.
Está quase com 31 anos. Um erudito teólogo, profundo conhecedor das coisas da Igreja, da Bíblia, dos Santos Doutores, e de tudo quanto os muitos anos de estudo em Coimbra lhe proporcionaram. Até ali tinha sido um estudioso, mas o exemplo dos frades menores, franciscanos, com toda a sua humildade, pobreza e vocação missionária, o levam a ingressar nesta Ordem fundada por Francisco de Assis em 1209.
No final de Maio de 1221 realiza-se em Assis um Capítulo Geral, que ficou conhecido na história como o Capítulo das Esteiras, porque a multidão de frades era tal que a grande maioria teve que dormir no chão! Lá vai o nosso Frei António, desejoso de encontrar o Fundador da Ordem, Frei Francisco de Assis. Ali aprendeu ao vivo o que deve ser o verdadeiro frade menor.
Levado para o eremitério de Montepaolo, na Romagna, onde fica mais de um ano a celebrar missa, ajudar nos trabalhos domésticos, e a vida ativa com que sonhara em Coimbra, converte-se em contemplativa.
Em finais de Setembro de 1222 há ordenações sacras na vizinha cidade de Forli, e o nosso Frei António ali vai. No momento próprio o superior da comunidade dos franciscanos pede aos dominicanos que tinham comparecido à cerimônia, para pronunciarem algumas palavras de circunstância. Perante a escusa destes, manda então a Frei António que anuncie a palavra de Deus. E acontece o inesperado: a revelação. Todos ficam rendidos à sua simplicidade e bom senso, à sua palavra leve e profunda. Frei António revela ser não só um frade santo, pronto a lavar panelas de cozinha, como um sacerdote de vastíssima cultura e brilhante arte da oratória.
Aos sacerdotes mais dotados nomeavam pregadores. Em pouco tempo o Provincial de São Miguel foi informado do que acontecera e “Frei António obrigado a deixar o seu silêncio e sair a público, encarregado do ofício de pregador, o que o fez percorrer cidades, aldeias, castelos e casais espalhando a semente da vida com tanta abundância como fervor”.
A sua doutrina e santidade começou a brilhar em muitos lugares do Norte da Itália. Em 1220 Frei João Strachia organizara uma casa de estudos em Bolonha, e Francisco de Assis ao se aperceber que ela se destinava a “poctius doctos quam piuos”, formar mais doutores do que frades piedosos, acaba com ela. Mas em Bolonha será por fim a primeira casa de formação intelectual da Ordem.
São Francisco viu em António que estudo e piedade podiam não só conviver perfeitamente, como influenciar-se positivamente, e expede o seguinte bilhete:
“A Frei António, meu Bispo, Frei Francisco envia saudações. Apraz-me que ensines Teologia aos frades, contanto que para tal estudo não extingas o espírito da oração e devoção, como está contido na regra.”
Santo António e São Francisco

Em 1224 é mandado a França onde a sua santidade de vida e a sua pregação foram de tal forma eficientes, que lhe chamaram “martelo dos hereges”; aproveita o tempo e ensina nas escolas conventuais de Toulouse e Montpellier.
Em 3 de Outubro de 1126 morre Frei Francisco de Assis. Para escolher o seu sucessor são os frades convocados a Capítulo, em começo de 1227, onde Frei António é nomeado Provincial da Itália do Norte, e já não regressa a França.
Em 1228 vai a Roma, e prega, na Igreja de São João de Latrão, diante do Papa Gregório IX, cardeais e muito povo. O Papa tão impressionado ficou, que o chamou de “Arca do Testamento”.
Dois anos depois é-lhe dada a carta geral de pregador e libertado do cargo de Provincial.
Decide então retirar-se para a sua querida cidade de Pádua, para ali continuar a sua missão de pregador e escritor. Aí Santo António, como já era conhecido por todo o norte da Itália, escreve uma série de textos, tentando levar a paz onde reinava o ódio, sobretudo em Florença entre os guelfos e os gibelinos, a libertar os presos por dívidas, o que levou a um estatuto publicado pela edilidade de Pádua em 1231, luta contra as usuras e bens obtidos pela violência, procura afastar as prostitutas da sua degradante vida, e até se esforça para convencer os ladrões profissionais a não tocarem no alheio e a trabalharem honestamente.
Escreve entretanto muita coisa mais, e também os seus famosos “Sermões”.
Com quarenta anos, sente-se cansado e vai descansar uns dias em Camposampiero, perto de Pádua. Durante a refeição do meio dia, 13 de Junho de 1231, sente-se desfalecer. Vendo-o tão mal levam-no para a casa dos Frades de Arcella, onde recebe os últimos sacramentos. Já com o Senhor à vista, disse aos que o assistiam: “Video Dominum meo!” e entregou a alma a Deus.
E apesar do silêncio guardado pelos Frades, logo correu a notícia pelo povo: “Morreu o padre santo” Morreu o Santo António!”
Em 17 de Junho foi sepultado em Pádua.
Nem um ano passado era canonizado pelo Papa Gregório IX.
Em 1934 foi declarado Padroeiro de Portugal.
E finalmente em 16 de Janeiro de 1946 o Papa Pio XII, em sua Carta Apostólica, que começa
Exulta Lusitania Felix,
o Felix Padua gaude
declara Santo António Doutor da Igreja, Doutor Evangélico.
Lisboa tem imensos ciúmes de Padua, que guarda lá os ossos do Santo, e nem se atreve a, alguma vez, dizer que o Santo é de Lisboa.
Com estes breves textos se pode ver que enquanto em Portugal, Santo António foi um frade desconhecido, mas onde estudou e se “encheu” de toda a bagagem que o tornaria famoso em Itália. Foi aqui que pregou, ensinou aos frades, pode considerar-se o primeiro lente franciscano, e ainda em vida já era chamado de santo.
Preparou-se em Portugal e revelou-se na Itália.
Deve ser o único Santo da igreja que tem dois nomes!

16/06/2011

terça-feira, 20 de outubro de 2015



Igreja de Santo António - Lisboa


Em 1195 Fernando Martins de Bulhão nasceu em casa de seus pais, comerciantes abastados, no lugar onde hoje se encontra a Igreja de Santo António, frente à Sé Catedral de Lisboa.
Ali ao lado havia a pedreira da Sé e o Arco, ou Porta de Ferro, onde esteve instalada uma Ermida de Nossa Senhora da Consolação, cuja imagem, havia sido levada de França pelo General Martim Afonso de Sousa (herói da Batalha de Aljubarrota).
Em 1431 já existia, porque para terem ali sido trasladados, de São Vicente de Fora, os restos mortais de dona Teresa Taveira, mãe do Santo, conforme inscrição que estava do lado da Epístola e que o terremoto de 1755 destruiu.
Por isto se confirma que a igreja já existia antes de 1495, ano em que o Senado, satisfazendo os desejos de D. João II, confirmado por disposição testamentária por D. Manuel I, de construir neste local uma nova igreja, decidiu erigir um templo que abrangesse toda a casa dos Bulhões, e a que se deu o nome de Real Casa de Santo António
Cerca de 1300, esta casa, solar ao que parece, por ter sido berço do Santo havia sido adquirida pelo Senado da Câmara e transformada em capela, conhecida de início por Santo Antoninho da Sé, servindo ao mesmo tempo de Senado Camarário desde 1326 a 1753.
Foi ali que D. João III recebeu a bandeira da cidade que havia de ser arvorada em Ceuta, bem como foi dali que saiu a bandeira empunhada pelo Conda de Castanhede, a que se juntou ao Senado e o povo em 1 de Dezembro de 1640 para correrem com os espanhóis.
Parece não se se saber ao certo quando esta casa-capela foi transformada em igreja em homenagem a Santo António. Freire de Oliveira atribui a fundação da primeira igreja entre o primeiro e segundo quartel do século XIII.
Perto da primeira capela mór ainda existe a mesma porta de que se servia Martim de Bulhão, pai do Santo.
Entretanto a primeira capela foi absorvida, ou completamente substituída pela igreja que D. João II e D. Manuel mandaram levantar.
Todos os reis de Portugal contribuíram para o esplendor deste templo, mas foi D. João V que converteu a basílica num dos mais sumptuosos templos da Europa. O terremoto de 1755 e o incêndio que se seguiu pela cidade quase a destruíram completamente, só se tendo salvo a capela-mór e a venerada e veneranda imagem do Santo.
Após esta catástrofe a Câmara ordenou que se edificasse, entre as ruinas da antiga basílica, uma capela provisória, cuja abertura coincidiu com o primeiro aniversário da tragédia.
Entretanto Mateus Vicente que planeara a basílica da Estrela, substituiu o estilo manuelino por barroco.

Interior da Igreja

Existe ainda a cripta, por baixo do altar-mór, onde, segundo a tradição seria o quarto onde nascera o Santo casamenteiro.
A igreja esteve fechada desde 1910 a 1926, os anos escuros dos carbonários revoltosos, só foi reaberta ao público a 14 de Setembro.
Muitas modificações têm sendo efetuadas nesta igreja, como restauros e melhoras. A meio da parede nota-se uma lápide de mármore, ali mandada colocar pela Câmara em 1859:

Nascitur.Hac.Ut.Tradunt.Antonius. Aede.
Quem.Coeli.Nobis.Abstulit.Alma.Domus

(Nesta casa, segundo a tradição, nasceu António, aquele que nos foi arrebatado por missão celeste)
  



20 out. 15

quarta-feira, 14 de outubro de 2015



Como estocar o vento

Carta aberta à dona Presidenta Dilma

Com todo o respeito!

Senhora Dona Presidenta Dilma

Devo confessar, humildemente, que me extasiei ouvindo a comunicação que a Senhora fez perante os ignorantes delegados de outros países à reunião na ONU, incapazes de, até hoje, terem solucionado tão simples quanto indispensável problema levantado, fiz a mim mesmo a pergunta:
- Porque ninguém ainda inventou uma maneira de estocar o vento?
Perante tal situação pensei muito sobre o assunto, e posso agora afirmar, com toda a certeza que descobri uma maneira de satisfazer o desejo de V. Excelência: estocar o vento.
Dependendo da quantidade de vento que se pretenda estocar, e do conveniente espaço para o armazenar para quando e como for solicitada a sua colaboração, os meus planos comportam diferentes equipamentos, que se diferenciam unicamente pela sua capacidade.
Como a Senhora afirmou que a energia elétrica é muito barata, que é só estender uma linha de cá para lá e de lá para lá, e o que produz essa energia é a água que é de graça, é óbvio que o equipamento estudado é acionado por eletricidade, que ao fim e ao cabo o custo será quase de graça, porque provém da água.
(Só um pequeno lembrete, a propósito: se é tão barata porque aumentou 70% ? – Pura curiosidade e nada de reclamação).
Voltemos ao equipamento. Se a quantidade a estocar for, por exemplo para uma família monoparental, com um filho só, o equipamento pode até ser portátil, como se apresenta na foto número 1, muito económico e fácil de manusear.

No caso de ter que estocar, digamos, industrialmente, como por exemplo o vento que diariamente refresca a orla marítima do Brasil, então se exigirá equipamento mais potente, conforme a foto 2, e que requer técnico experimentado, podendo ser nomeado simplesmente por indicação do PMDB ou do PT, com ordenado compatível, já que terá de o dividir com quem o indicar.


V. Excelência certamente gostaria de saber quanto custaria uma instalação como esta última, mas neste caso seria necessário saber quem seria o comprador, quanto vai levar de propina, quem vai levar essa propina a algum membro do governo, etc. Enfim esses pormenores comezinhos que a Senhora deve conhecer muito bem.
Guardar o vento, estes equipamentos guardam, e muito bem, trabalham com energia quase gratuita – a água, transformada em eletricidade – mas há ainda que prever onde armazenar, e são conhecidos como compressores de ar comprimido.
Reza a história que Zeus, o deus grego (que não era simpatizante do Syriza) fizera de Éolo o senhor dos ventos, sabendo que Éolo era um sábio que conhecia tudo sobre os ventos, sendo por isso chamado de Senhor dos Ventos. Quando Odisseu chegou à sua ilha, a ilha Eólia, a de todos ventos, e lá passou um mês, contando as suas aventuras, Éolo entregou-lhe um saco de couro de um novilho de nove anos de idade, em que estavam presos todos os ventos, que ajudariam a regressar a casa, a igualmente famosa ilha de Ítaca. 
O engenhoso e culto povo brasileiro, entrementes, baseado nessa maravilhosa invenção de há mais de 4 ou 5.000 anos, encontrou uma solução a todos os tipos impecável, e de muito mais baixo custo (a menos que seja a Petrobrás a pagar), porque em vez de couro de novilho usou plástico, uma matéria horrível e poluente, mas muito mais barata, e esses “armazéns de ar” podem  ser confeccionados em tamanhos diferentes, consoante a capacidade exigida, quase sem limite. Na foto abaixo mostram-se dois modelos, muito económicos que, temos a certeza, agradarão a V. Excelência.

Como ao lado dos reservatórios está muita gente, dá para ter uma ideia da sua capacidade. O maior, e mais poderoso, terá cerca de 250 m3 de capacidade. Muito vento. O da direita, mais modesto e menos poderoso, pouco mais da metade.
Podem executar-se outros modelos, até maiores, mas que evito indicar quais para não causar inconvenientes às negociações que sabemos estão em curso para evitar o impeachment.
Aguardo as encomendas de V. Excelência, na certeza de que não serão esquecidos todos os intermediários.
Cumprimentos de um brasileiro muito interessado no póbrema do bento, perdão, do vento.

13/10/2015



terça-feira, 13 de outubro de 2015




Curiosidades (?) brasiliânicas desastradas


Está na altura de dar uma folga às Curiosidades Lisboetas e voltarmos ao “Cone Sul”. Lisboa voltará em breve!

1.- O lavador de dinheiro

“Sou réu confesso e colaborador” – anuncia, para não deixar dúvidas. Aos 40 anos, o bacharel em direito
Leonardo Meirelles acumula uma condenação a cinco anos de prisão e varia­dos processos.
Poucos lavaram tanto quanto ele: em ape­nas cinco anos (de 2009 a 2014), Meirelles comprovadamente retirou do Brasil e pulve­rizou no exterior US$ 444,6 milhões — o equivalente a R$ 1,7 bilhão. É dinheiro sufici­ente para se erguer um novo Maracanã.
Quase um terço (US$ 120 milhões, ou R$ 480 milhões) já tem origem rastreada: propi­nas pagas por fornecedores da Petrobras.
Foram 3.649 operações de lavagem a partir de seis empresas de fachada, três de informáti­ca e três de química-farmacêutica, todas lastreadas em contratos fraudulentos de exportação e importação – um atestado da vulnerabilida­de das regras adotadas em 2006, na gestão do ex-ministro da Fazenda António Palocci.
Para ocultar a origem e distribuir o dinheiro em contas externas, indicadas por fornecedo­res da Petrobras e seus intermediários, como Alberto Youssef, ele cobrava 1% do valor.
Em seguida, levava o dinheiro da propina pa­ra um passeio por contas bancárias em duas dúzias de países: Suíça, China, Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Alemanha, Itália, Bélgi­ca, Espanha, Holanda, Liechtenstein, Índia, Hong Kong, Coreia, Malásia, Nova Zelândia, Formosa/Taiwan, Cingapura, Ucrânia, Angola, Costa Rica, Panamá, Paraguai e Uruguai.
Se alguém precisava pagar a um político no exterior, encomendava a Meirelles a transfe­rência. Youssef registrava esse tipo de operação numa planilha intitulada “Band”, em franca alusão à palavra “bandido” (“Era uma brinca­deira entre nós”), contou Rafael Ângulo, assessor de Youssef, ao juiz Sérgio Moro, em agosto.
Recentemente, Meirelles viajou com autorização judicial à Suíça, China, Hong Kong, Taiwan e Coreia do Sul. Coletou extratos e registros específicos de seus negócios emitidos pela Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (Swift), uma espécie de cooperativa mantida por duas centenas das maiores casas bancárias globais.
Voltou com uma pilha de papéis. Entre eles demonstrativos da sua contribuição a Youssef e Júlio Camargo, representante do grupo Samsung, na lavagem de propina supostamente paga ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), por contratos de plataformas marítimas para a Petrobras. Duas semanas atrás, na CPI, Meirelles ou­viu o deputado Ivan Valente (PSOL-SP) fazer a leitura de um trecho da denúncia da procu­radoria contra o presidente da Câmara.
— O senhor tem conhecimento disso? – Sim – respondeu Meirelles, monossilá­bico. Pressionado, acrescentou:
— Todos os extratos e as informações perti­nentes já foram entregues e fazem parte de um acordo. Não posso responder por força disso.
— É colaboração premiada? — insistiu o deputado Aluísio Mendes (PSDC-MA).
— É. É colaboração premiada, sim — retru­cou o homem que lavava propina para os “Band” de Youssef. Ele se tornou a sexta tes­temunha contra o presidente da Câmara.
O deputado Eduardo Cunha segue na autoimolação. Aparentemente, escolheu a ope­reta do impeachment de Dilma Rousseff co­mo epílogo da própria tragicomédia.
Do jornalista José Casado

2- Criou-se um monstro

Corria o início da década de 90, Collor havia disparado a bala de prata do sequestro da poupança e atingira o país. Felizmente, viria o Plano Real, a partir do impeachment do presidente, da pos­se do vice Itamar Franco e da ida de Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fa­zenda. Ali começaria uma escalada da carga tributária, ainda por volta de 25% do PIB à época. No processo de estabilização da eco­nomia, era essencial, por óbvio, o equilíbrio fiscal. O país padecera a "década perdida quando a superinflação destro­çara a contabilidade pública. Dentro da tradição brasileira, o governo FH começou a reconstruir o sistema de financiamento dos gastos públicos es­sencialmente por meio de im­postos, e o peso dos tributos não parou de aumentar, inclusi­ve na sequência dos dois governos Lula. Ainda com Itamar, foi instituído o Imposto Provisório sobre Movimentação Financei­ra (IPMF), muito devido ao em­penho pessoal e político do ministro da Saúde, o respeitado Adib Jatene.
Surgia um monstro. O "p" de "provisório” não seria respeitado, pois, após curto período em que foi revogado, o imposto voltou como "contribuição" (CPMF), para o Executivo não o dividir com estados e municípios. E o di­nheiro, que era para ser destinado à Saúde, en­trou no caixa único do Executivo e financiou inclusive gastos de custeio. Até que o Senado, em dezembro de 2007, extinguiu o imposto. O governo Dilma II quer ressuscitá-lo, mas enfrenta grande resistência. Justificada, por­que o longo tempo de convivência com a CPMF demonstrou a péssima qualidade de um gravame que, ao incidir em todas as fases de elaboração de qualquer bem ou serviço, por taxar qualquer movimentação financeira de empresa ou pessoa física, tem um efeito devastador nos custos de produção. As baixas alíquotas da CPMF são ilusórias, pois seu pe­so é crescente e exponencial no sistema pro­dutivo. Mas os governos são atraídos pelo imposto devido ao seu dom de iludir o contribuinte - apenas "dois milésimos” costuma dizer o ministro Joaquim Levy, na defesa da CPMF de 0,2% -, embora tenha enorme capacidade| arrecadadora. Esse 0,2% transferiria pouco mais de R$ 30 bilhões por ano para o Erário.
Outro efeito deletério é o social: ao comprar bens de primeira ne­cessidade, as pessoas de baixa renda também pagam o imposto, mas que para elas pesa proporci­onalmente mais que nos estratos sociais mais altos. Entende-se por que raros países usam este tipo de imposto. Há também a questão da carga tributária. Hoje, ela está mais de dez pontos de PIB aci­ma daquela de 1993. É compreensível que ha­ja resistências, considerando, ainda, que o governo propõe a volta do imposto embora tenha um gasto total de cerca de 40% do PIB, uma enormidade. É impossível que não haja margem para fazer redução de despesas. Há, mas o Planalto não quer contrariar aliados políticos. Prefere penalizar o já assoberbado contribuinte.»
Em Opinião – O Globo

3.- Diversões financeiras

a.- Em nome de Jesus
Os evangélicos se dividiram no Senado. Magno Malta (PR) acusa Marcelo Crivella (PRB) de negociar apoio à CMPF com o governo em troca de as igrejas serem isentas do imposto. Crivella se reuniu com a presidente Dilma para fazer o apelo. Amén.

b.- Petrobrás é 10
A conta é do consultor Adriano Pires. O valor de mercado (Market cap) da Petrobrás declinou 89%, de US$ 298,6 bilhões, em maio de 2008, para US$ 32,4 bilhões em outubro de 2015. Este valor da empresa em 2015 é o mesmo de agosto de 2005.
Ou seja: a estatal retrocedeu 10 anos.

Nota: Tudo isto, acima transcrito vem de “O Globo” de 13/10/2015

Em julho de 1999 escrevi, (Carta nr. 18 do meu livrinho “30 Cartas do Brasil”) e foi publicado no defunto “O Dia”, de Lisboa, o seguinte, sobre o famigerado imposto:

C P M F

Esta sigla significa, aproximadamente Como Passam a mão nas Minhas Finanças.  Deveria ser C N R D - Como Nos Roubam Descaradamente. Em Portugal seria mais ou menos PNB - Pagas Não Bufas. Na verdade trata-se de uma Contribuição Provisória sobre Movimento Financeiro. Só que esta provisoriedade já dura há uns anos. De repente, parou. Deu-se um pequeno descanso ao povo, que era espoliado em 0,2% sobre todo o movimento feito através dos bancos, e poucos meses depois a Provisória Contribuição regressou, furiosa, ensandecida, dizem alguns juristas que até inconstitucional, mas está aí de novo. De novo só porque a taxa mudou. De 0,2 para 0,38! Um ligeiro aumento de noventa por cento! Todo o dinheiro que passa por qualquer banco é defraudado em 0,38%! Violentado, espoliado, roubado, porque o governo assim o determina!
Para se ter uma idéia: o dinheiro corre, não é verdade? Então, a empresa paga ao trabalhador por crédito em conta, porque se fizer o pagamento em dinheiro, no segundo dia em que o tentar fazer a empresa é assaltada e lá vai a grana toda! Mas, voltando ao correr do dinheiro, o trabalhador cada vez que vai ao banco buscar o seu salário já se vê defraudado em 0,38%. ! Depois compra e paga no supermercado, e este deposita o dinheiro no banco, claro está, e quando paga a fornecedores, lá vão outros 0,38%. O fornecedor por sua vez compra matéria prima e paga com cheque. Mais uma contribuição provisória. O fornecedor da matéria prima, idem. O produtor de base, idem, idem. O dinheiro rola e...
Como hoje em dia todo o dinheiro que se movimenta passa pelos bancos, salários, compras, pagamentos de tudo quanto há, os tais 0,38% acabam fornecendo ao governo um volume imenso de dinheiro, e parte dele, como de muito outro, acaba nos bolsos da corrupção! Infelizmente é verdade.
São juízes, administradores públicos, políticos e outros quejandos a dar chorudos empregos públicos, claro está, aos filhos, genros, noras, sogras, tias, avós, irmãos, cunhados, amantes, filhos, irmãos, pais, sogros e cunhados das ditas, etc. etc. etc. além das outras formas tradicionais de se locupletarem com os dinheiros públicos.
Como o Deus é brasileiro, desculpem a insistência, mas é bom que nunca se esqueça este detalhe, importante, e assim vela pelos seus compatriotas, a sorte do contribuinte, do pagante é que o governo teve duas meritórias atitudes ao impor, ditatorialmente, como nos tempos feudais, do fascismo, da China imperial, e outros, este roubo.
Primeiro chamou-lhe carinhosamente Contribuição, tal como se faz por exemplo quando se contribui com alguma dádiva para ajudar um asilo de velhinhos, e Provisória, o que significa que deveria ter sido por tempo limitado.
Depois, graças a Deus, o Tal, limitou essa contribuição a 0,2 que agora aumentou para 0,38%. Com o mesmo senso de bondade para com o povo, e afim de solucionar mais rapidamente os problemas financeiros do país - que se agravam a cada dia - o governo podia ter decidido roubar dez, vinte, trinta por cento! Porque não? Quando baixou esse castigo sobre a população podia tê-lo feito com mais violência! A moral para o fazer não ficaria em nada alterada.
Este método de alienar o povo não é novo, claro. Todos conhecem as aventuras de Robin Hood, que se revoltou contra o rei de Inglaterra porque estava a esmagar o povo com impostos sobre impostos. O grande Dom João I, o primeiro da dinastia de Avis, também entendeu que devia deixar grossa fortuna para cada um dos seus filhos, porque a sua condição de príncipes não podia ser mantida com pouca fortuna, e determinou aumentar os impostos a um bom número de cidades, para encher os bolsos dos filhos, que ficaram, todos, muito ricos!
Lembro-me de uma velha, velhíssima, anedota que ajuda a ilustrar estas situações: na 1ª classe dum vôo para Nova York um homem e uma mulher, jovens, que não se conhecem. Mais jantar, mais champanhe, mais conversa, mais intimidade, mais.... Pergunta ele: quando chegarmos a N. York, se eu lhe der um milhão de dólares você passa a noite comigo no hotel? Ela pensou, rápido, mas parecendo hesitar responde: Por um milhão de dólares, vou, sim. - E se em vez de um milhão eu lhe der só dez dólares? - Ela, enfurecida: Quem pensa você que eu sou? - Quem você é eu já sei. Só o preço é que está em discussão!
Estes impostos têm o mesmo fundo moral! Que nos roubam esse dinheiro, toda a gente sabe, só que o governo para nos ir levando devagarinho, e aparentemente sem dor, começou por 0,2 a seguir passou para 0,38 e... o que virá a seguir?
Eu não sei que mal é este: os governos nunca parecem ter dinheiro bastante para gastar. Gastam mais do que arrecadam em impostos, mas em vez de cortarem nas despesas, tantas delas, tantas, tantas, inúteis, aumentam as contribuições. A história mostra-nos alguns casos que deram certo nas economias, quando os governantes fizeram o oposto: reduziram os impostos! Mas há muito político que ainda não leu esse capítulo!
E assim o dinheiro rola, continua a rolar, a gente paga, continua a pagar, e o governo enrola. Enrola mesmo.
Que diabo! Onde está o nosso Deus?
Julho 1999

13 out. 15