quarta-feira, 3 de junho de 2015



O Acordo Ortográfico
e as pérolas

Muito se tem discutido sobre o “tal” Acordo Ortográfico! Creio que desde que comecei a escrever as primeiras letras e depois frases, e bota tempo nisso, não sei quantos “Acordos” se terão implantado, desde os célebres “Ph” para transformarem em “f”, como a velha Pharmacia ou as ciências Phísicas, ou até o nome duma tia minha que de repente deixou de ser Christina para ser somente Cristina, que não lhe fez diferença alguma, bem assim o quasi, transformado em quase, como Pai e Mãi, e outras muito mais palavras, e não recordo de terem aparecido “cabras-machos” a dizerem mal do acordo, e a culparem os brasileiros ou os angolanos ou os alentejanos!
E... continuou a escrever-se e as pessoas a entenderem perfeitamente o que a outra escrevia, como agora quando alguém disser, por exemplo que “no Nepal o terremoto (ou terramoto?) foi um fato extraordinário”, ninguém vai pensar que se trata de um fato de alfaiate, mas sim dum facto... sem o tal “c”.
O que nos vale na triste ausência de Camões, Camilo ou Fernando Pessoa ou até do mestre gramático e ortográfico Duarte Nunes de Leão é que sempre aparecem as autênticas pérolas do português, gemas puras, puríssimas como os diamantes... brutos!
Leia-se, por exemplo, com o cuidado que requer tudo quanto diga respeito – e haja respeito nisso – às leis que determinam o modus vivendi de todos os infelizes que se acham sob a alçada das ditas leis, o brilhante texto a seguir reproduzido:

Do preâmbulo do novo Código do Procedimento Administrativo (Decreto-Lei nº 4/2015) que acabou de entrar em vigor:
... "No n.º 2 do artigo 57.º, além de se deixar absolutamente claro o caráter jurídico dos vínculos resultantes da contratação de acordos endoprocedimentais, configura-se uma possível projeção participativa procedimental da contradição antro e pré procedimental e exo ou pós procedimental de pretensões de particulares ou simulativas pessoais nas relações jurídico-administrativas multipolares, polipolares ou poligonais multidimensionais."

Haja acordo ortográfico, ortofónico, ortoépico, ortológico ou qualquer outro orto! Até um horto florestal onde cultivar sementes endoprocidementais do endocéfalo que compôs esta brilhância.
Não acredito que haja juiz, ou até professor de direito que faça a leitura desta pérola e tire, de imediato, a objetividade que o legista quis (será que quis?) alcançar.
Eu, desculpem referir-me em primeiro lugar, confesso a minha completa inguinoranssa em matéria de caráter jurídico-pré-procedimental, pior ainda nas relações polipolares ou poligonais pluridimensionais, fato, ou facto, inexistente em todas as minhas relações, quer de amizade ou professionais. Deo gratias.
Já tive algumas relações um pouco conflituosas, breves, estúpidas, com simulativas pessoais que não deixaram no endocéfalo quaisquer resíduos polipolares.
Lá o pluridimensionais ainda vá, aceita-se bem, porque dá para, por exemplo, medir e calcular o volume dum sólido, visto que haverá no mínimo que determinar o comprimento, a largura e altura do dito, o que se enquadra perfeitamente na pluridimensionalidade do cálculo a efetuar.
Mas configurando uma possível projeção participativa procedimental da contradição antro e pré procedimental, a minha douta opinião sobre o procedimento está em concluir, de acordo com o grande Solnado, dizendo: “Pois! Como dizia a minha prima Josefina que gostava muito de dizer coisas”!
Só penso no espírito dos grandes da escrita portuguesa, com ou sem qualquer acordo, desce o Infante Dom Pedro a Fernão Lopes ou Gil Vicente que teria adorado apanhar uma delícia destas para depois a recitar ao Rei!


Ele que tão bem escrevia como se pode confirmar no autógrafo a seguir:

Estão agora a entender porque um Acordo Ortográfico é tão útil?

3-06-2015





quarta-feira, 27 de maio de 2015



Os Celtas

Que me perdoem os cientistas e investigadores, mas é muito interessante “viajar” pela História! Melhor ainda pela Protohistória.
Muito se ouve falar dos celtas, mas com absoluta certeza não se sabe muito sobre eles.
Dizem que terão “nascido” na Europa Central, mais ou menos onde é hoje o sul da Alemanha, leste da França e Áustria, Boémia e Eslováquia, ao lado da região que já se chamou... Galicia, sobre o que já escrevi em Outubro de 2012 (ver http://fgamorim.blogspot.com.br/search?q=iberia ).
Mais curioso é saber que onde viveram, conforme as regiões, línguas e os tempos, se chamaram gália ou gaulia dos gauleses, galácia dos gálatas, galícia, gaélicos do Norte da Escócia e da Irlanda, os galegos da Galiza, e muitos, muitos outros nomes que se perderam, e ainda tribos comos os Boiens, uma das maiores tribos celtas, cujo nome parece significar “os terríveis”, também conhecidos por boers (em holandês significando paisano ou agricultor). O nome atual de Bohemia vem de Boio, terra dos Boiens.
Até os gálatas, mais conhecidos talvez pelas epístolas de São Paulo, eram “gauleses” que se aventuraram para leste, e após batalhas com uns e outros fundaram a Galátia que seria a parte central da hoje Turquia. Foram eles que fizeram de Ancyra, agora Ankara, o centro, a capital, de todas as tribos celtas que ocuparam a região.


Os celtas foram um povo – ou diversos povos? – extremamente guerreiro. Expandiram-se para o leste, assolando o sul da Rússia, a Grécia, o norte da Itália, praticamente toda a região da França, e mais da metade da Península Ibérica.
Hoje boa parte dos cientistas que se dedicam ao estudo das origens célticas, afirmam, com base em dados antropológicos e até de DNA, que eles foram da Península Ibérica para a Britânia, quando outros creem que terão ido diretamente da região da Germânia ou da Gália.
Entram nas Ilhas Britânicas, por volta do século V a.C.
Na Península Ibérica já se encontravam, segundo alguns autores (Políbio, Estrabão, Homero e muitos outros comparsas) talvez desde antes de 1.000 anos a.C. numa região encostada àquela que os romanos vieram a chamar Tartéssia, dos tartessos ou turdetanos. Esta seria onde hoje a parte ocidental da Andaluzia, e aqueles na Extremadura, estendendo-se pelo Sul do Alentejo e Algarve, como se vê no mapa abaixo.
40.000 anos a.C. os Neandertal já estavam no sul da Península Ibérica. No norte as pinturas de Altamira terão entre sido feitas entre 12.000 e 32.000 a.C.
9.000 a.C. há vestígios de migrações da região da Fenícia para o sul da Península e da expansão dos chamados “indo-europeus” pelo centro da Europa.
Em 1.800 a.C. tribos celtas já ocupavam a maior parte da Península, mesmo que os nomes das tribos fossem muito aleatórios porque quem escreveu sobre eles pouco ou nada sabia!

Como é de supor não havia fronteiras fixas entre os diversos povos primitivos naquele tempo, mas não é difícil calcular que entre os que viviam nos limítrofes se entrecruzassem, e assim os romanos, que melhor os descreveram, acabaram por englobar na Tartéssia o Algarve, o Sul do Alentejo e a parte sul da Extremadura, o que significa que os celtas teriam sido “incluídos” numa única região, a Baética.
O primeiro autor antigo a escrever sobre os celtas na Península terá sido Hecateo de Mileto (-548 a -475), que além de os colocar em Marssilia se refere também aos keltoi, keltoi – celtas - o povo da Península.
Os Turdetanos eram considerados, pelos romanos, como os mais sábios dos ibéricos; faziam uso de um alfabeto e possuíam registros de sua história antiga, poemas, e leis escritas em verso com seis mil anos de idade, mas desconhece-se quando o tartessiano deixou de ser falado; Estrabão (c. 7 a.C.) registra que os Turdetanos e particularmente aqueles que vivem sobre o Baetis (Guadalquivir) mudaram completamente ao longo da ocupação romana, nem mesmo lembrando mais de sua própria língua.
Há documentos, sobretudo estelas que remontam a um passado muito remoto, com escrita até hoje indecifrável, com características fenícias e até misturadas com tipos de hieróglifos egípcios.
Ainda pelos antigos historiadores “sabemos” que terão sido os tartessos que, hábeis navegadores, práticos no tráfego sobretudo com a Fenícia, também foram os primeiros a navegar pelo Atlântico até as “Ilhas Cassiterites” (do grego kassiteros, estanho), onde se abasteciam deste metal.
Estas ilhas que mais tarde cartógrafos chegaram a colocá-las no lugar dos Açores, não é difícil concluir, digo mesmo concluir, que serão as Ilhas Britânicas, porque estas ficaram conhecidas por serem o principal fornecedor de estanho de “antanho” na Idade do Bronze.
Pensando neste conhecimento podemos começar a tirar algumas conclusões:
- Primeiro, é bem possível que os celtas tenham começado a ser conhecidos como tal, quando se juntaram (?!) no centro da Europa, Grécia e norte da Itália, apesar de serem inúmeras as tribos, mesmo sem unidade antropológica, a que hoje se lhes dá o nome genérico de celtas;
- Também é sabido que os povos celtas chegaram à Península Ibérica muito antes de às Ilhas Britânicas;
- Começaram por ocupar a Meseta Central da Península Ibérica, estenderam-se depois por quase todo Portugal, com os lusitanos e formando os Celtíberos, e sobretudo no Norte, Minho e Galiza, onde encontraram ricas jazidas de estanho, e dando à região o nome de Galecia ou Galiza;
- Daqui à Britânia... onde encontraram o mesmo estanho, não lhes deve ter sido impossível, até porque exportavam depois esse estanho dali também via Gadis;
- Assim também não custa supor que foi este um dos motivos que os levaram a ocupar a Britânia, tendo saído da Península Ibérica.
Além de todas estas hipóteses, há ainda a considerar a semelhança cultural, definida por espadas de bronze, pontas de lança, caldeirões, “garfos e espetos” estirados dos Tartessos à Galícia, Bretanha, Grã-Bretanha e Irlanda. No oitavo século a.C. uma nova elite levantou-se rapidamente entre os nativos parceiros comerciais dos fenícios.
  


Neste mapa vê-se bem o desenvolvimento da exploração de alguns metais: no sul da Península já se explorava o cobre 3.000 anos a.C.; o estanho, no Norte (entre Minho e margens do Douro) com mais de 2.500 a.C. e nas Ilhas Britânicas e Irlanda, um pouco mais tarde.
No entanto parece terem sido os ingleses que mais nos têm dado menções e elementos da história deste povo, ou grupo de povos que acabaram por falar a mesma língua, ainda hoje viva em muito lugar.
Sempre ferozes guerreiros, lutavam até entre si selvaticamente, mas vaidosos da sua aparência; usavam sabão especial e perfumes, túnicas de tecidos estampados e bordados, e adoravam carregar consigo cornetas e outras joias em ouro, em que eram exímios artistas.
Nas lutas aterrorizavam os inimigos, berrando que nem loucos e fazendo soar longas cornetas. Muitas vezes lutavam completamente nus com as suas longas cabeleiras, as tranças clareadas com limão!
Eram muito fechados nas suas hierarquias. O povo dividia-se em três principais classes:
- o rei ou a rainha;
- a classe superior, os guerreiros, com os seus grandes bigodes;
- e a classe baixa, escravos e trabalhadores, a maioria agricultores.
E os druidas sempre escolhidos entre gente da classe superior; muitos lutavam entre si para se fazerem notar e ganhar um lugar entre estes “sacerdotes”, que por vezes tinham mais poder do que os reis (tal como se passou e ainda passa em muitas outras religiões). O treino para se chegar a poder praticar o culto durava vinte anos!
Não iam à guerra, mas previamente aconselhavam o rei e os guerreiros sobre a melhor data para as batalhas, e sempre participavam do espólio colhido pelos vencedores.
Eram eles que estabeleciam a “ligação” entre o supernatural e os homens, e adoravam sobretudo dois deuses: Sucellos, o deus do céu e Nodens, o deus das nuvens e da chuva.
Vem de um banquete, em 355 a.C. entre Alexandre, o Grande, e alguns celtas no golfo da Jónia, (a caminho da sua invasão na Ásia Menor) a célebre frase que sempre se encontra nos maravilhosos livros do Asterix: Alexandre perguntou-lhes o que mais temiam neste mundo: “Que o céu nos caia sobre a cabeça! ”
 

16/05/2015

segunda-feira, 25 de maio de 2015


Portugas e lisboetas: deixem de se lamentar!


Rio -Lisboa


Magnífica crónica do grande jornalista Joaquim Ferreira dos Santos


O bom de descer as ladeiras de Lisboa é que durante alguns dias você está longe da selvageria carioca, pode sentir a nostalgia de sair flanando como fazia antes nas ruas da sua cidade. Zero de medo. Assim como quem não quer nada, um sorvete da Santini numa das mãos, você vai Rua do Carmo abaixo, passa pela luvaria Ulisses e, quando dá com os cornos no Rossio, o largo monumental po­de fazer a surpresa de oferecer uma festa de máscaras ibéricas, comidas e danças por to­dos os lados, mas nunca a cena de um médi­co ensanguentado no chão do Café Nicola, esfaqueado por algum garoto que em segui­da lhe roubou a bicicleta e foi embora.
Isto aqui é Lisboa, opa. Zero de deslumbra­mento. As escolas de Portugal acabaram de ser avaliadas em trigésimo lugar num ranking de 38 sistemas educacionais europeus, há muita coisa a ser feita, mas o bom listo aqui é que se vive em paz com os pequenos valores da existência. Zero de sobressaltos. A delícia antiga de se ir ali à esquina e, a ordem natural da felicidade das coisas, voltar sem que a polícia lhe tenha metido uma bala perdida nas costas.
Agora, por exemplo, você está na ladeira do Príncipe Real e basta pôr os pés na faixa de pedestres para que os carros parem até você legar do outro lado. Aí é só começar a descer a rua por uma calçada de pedras portuguesas, todas postas em seus lugares, nenhuma solta e chamando os pés para um tropeço que pode para sempre lhe estuporar os joelhos e desgraçar a sobrevivência.
Não está acontecendo nada de muito notá­vel, Lisboa está linda, mas não se faz aqui um regis­tro de qualquer grande marco a se exaltar na re­volução civilizatória moderna. É apenas uma ci­dade que tem se descoberto feliz consigo mesma.
Lisboa está coberta dos caminhos simples, ver­dadeiros yellow-brick-roads para se levar a vida com leveza, essa carência carioca, e num deles você desce o Bairro Alto, atravessa o Largo Luís de Camões, pega a Rua Alecrim e, ao final, apesar de todas as modernidades da Rua Nova do Carvalho, é possível encontrar ainda de pé as tascas da tra­dição gastronómica. Tudo convive sem conflito. Ao contrário do Rio onde toda semana fecham uma mesa na memória do paladar e tiram da bo­ca do cidadão um gosto familiar, em Lisboa é pos­sível sentar num tamborete do quase botequim Sol e Pesca para comer as conservas que há sécu­los apetecem ao apetite local. Ninguém mais sabe ao certo o que é antigo e o que é moderno. As sar­dinhas continuam nas latas, o azeite continua de oliva, mas o estilo de tudo isso agora vem embru­lhado em papéis do mais fino design.
Isto aqui é Lisboa, ó pá, e isto não é o anúncio de que o mundo está sendo reinventado a partir de suas oito colinas. Os políticos corruptos tam­bém estão, como os ratos de sua corja internacional, nas capas do "Expresso" e do "Público". Mas na vida real do dia a dia a cidade encontrou um jeito delicado de lustrar os seus casarões magníficos, parecidos com os que todo mês desabam na Lapa carioca e, ao mesmo tempo em que se orgulha deles, reinventa suas funções. Não há mais loja de roupa, mas de "conceito" e portuguesa de bigode era a vovozinha. Agora as garotas são todas "giras” o termo local para traduzir o "cool"
A sensação em alguns momentos é que você vai sair da Rua Augusta, tomar uma ginja no canto da Praça da Figueira e quando dobrar em direção ao Largo dos Intendentes vai dar na verdade nos Arcos da Lapa. Mas é só impressão. As ruas são limpas, os garçons servem às mesas com presteza, os telhados são os mais bonitos do mundo e as praças estão sempre tomadas por se­nhoras que descansam ou jovens, no Quiosque do Refresco, animados por doses de capilé. Taga­relam, paqueram, o de sempre. Ninguém aporrinha o próximo.
O Cais do Sodré, por exemplo, está basica­mente o mesmo de sete anos atrás. Mas se você prestar bem a atenção, andar para a direita e entrar no Mercado da Ribeira, lá sobrevive o co­mércio tradicional das barracas dos tripeiros, convivendo com os stands da nova culinária portuguesa, tudo redesenhado sob o patrocí­nio da revista "Time Out" - e é impossível ao carioca não pensar que um dia, sem precisar ir tão longe, poderia estar assim, curtindo a vida em paz, comprando suas flores, gastan­do pouco, beliscando o que quisesse, na Cadeg de Benfíca. Depois, sem entrar em pâni­co, passaria pela Barreira do Vasco e chegaria em casa para contar aos que ficaram como foi bom.
Ao carioca-da-semana-passada, um dos períodos mais tristes da vida da cidade, foi preciso ir até Lisboa para recolher histórias de não acontecimentos, comer um bacalhau ao sossego e ter a sensação inenarrável de que não corre o risco de ser assassinado na próxima esquina - é em Lisboa esses so­nhos, essas pataniscas simples, parecem cada vez mais fáceis de se realizarem. A cidade se pacificou com suas tradições, entendeu feliz que um bom jeito de avançar é o da refazenda das suas guarirobas. Ao invés de gourmet, os pastéis de Belém procuram resgatar a receita original. E se em algum momento a cidade tentou esquecer Amália Rodrigues, por causa de suas relações com Salazar, Lis­boa agora, em mais um arroubo de orgulho pelas suas referências, está cercada de moto­ristas de táxi com os carros sintonizados na recente Rádio Amália, um chorrilho de 24 horas de fados da grande cantora.
Na chegada ao Galeão, o carioca-da-semana-passada foi cercado pela notória turba­multa de taxistas. Sonhou que uma Rádio Elizete Cardoso iniciava o processo de pacifi­cação geral e convocava a cidade a guardar suas facas.


sexta-feira, 22 de maio de 2015

_Sortes de Gaiola_: Homenagem ao SENHOR António Paim...

_Sortes de Gaiola_: Homenagem ao SENHOR António Paim...: Foi hoje sepultado um Senhor que muito estimava e considerava, e ao qual há uns anos escrevi esta carta pública que hoje volto a publicar c...

terça-feira, 19 de maio de 2015



As pedras dos “Sarracenos”

Esta coisa de ser curioso, de ir atrás do que se apresenta um tanto nebuloso, é uma “atividade” que me dá prazer e por vezes muita luta.
Uma delas, como já tenho mostrado é o “porque” das palavras significarem “o que”, isto é cutucar na etimologia até encontrar o que procuro ou... ficar por isso mesmo.
A propósito, “curioso” vem do latim, com base em cura, atenção, cuidado. E depois vem curiosidade, misericórdia, saúde (cura), o padre cura da aldeia, etc. Que dá muito gozo, a mim, dá.
Há uns anos ao ler uns livros da história antiga das Ilhas Britânicas, deparei com algo que me cutucou (desta vez, cutucar é uma palavra brasileira, do tupi cotuca, picada, ferroada).
Em Avebury, Wiltshire, há um sítio arqueológico sensacional, cuja “construção” se situa em cerca de 3.000 anos a.C., com uma elevada quantidade de blocos de pedra, pesando por vezes dezenas de toneladas, dispostas em circunferência por dentro de um henge.
Henge a Neolithic or Bronze Age structure found in British Isles, consisting of a large circular earthwork often enclosing an arrangement of standing stones, wooden posts, mounds or buri at pils.
Uma vala de três ou mais metros de profundidade, normalmente circular, por vezes oblonga, em que a terra dela retirada foi colocada na parte exterior da vala.

 Avebury, Wiltshire

Nesta foto vê-se bem a vala (henge) e os blocos de pedra que permanecem no local, uma vez que se sabe que ao longo de tantos milénios muitas foram dali retiradas para...
Compare-se o tamanho de algumas pedras com as pessoas que lhes estão ao lado!
A estas pedras, lá em Avebury chamam-lhes sarcens: Only twenty seven of the original stones now remain. These stones, called “sarsens” (meaning “saracen” or foreign to the indigenous chalk), o que será sarracenos no dialeto local.
Sarracenos? Para pedras que ali foram colocadas há uns 5.000 anos? Não pode ser. E comecei a perguntar a alguns ingleses, sem que algum fosse capaz sequer de me responder.
Há pouco tempo, noutro livro sobre o mesmo período aparece Stonehenge, mais do que famoso, mas com uma nota que me veio inflamar outra vez a curiosidade:
“Os sarcens, do anel exterior pesam cerca de 25 toneladas cada.”


 Tu quoque, Stonehenge? Volta à baila o porque dos sarracenos!
“Histórias” de sarracenos só poderiam ter chegado à Britânia, por volta do ano 1000, possivelmente depois que se tomou conhecimento dos desaforos que o tal Al-Hakim fez em Jerusalém em 1009.
Aqueles pedregulhos eram, mais para trás, conhecidos por heaten stones, o que significa pedras dos pagãos, idólatras, selvagens.
Os historiadores são unânimes em afirmar que estes henge (chamado ao conjunto do local) não teriam finalidades cerimoniais, apesar de encontrarem evidências que mostram preciso conhecimento, por exemplo, de solstícios. Mas atribuir a culto de druidas, quando os druidas foram para às Ilhas Britânicas com os celtas, cerca de cinco séculos antes da nossa era, é demais. Ninguém sabe para que serviriam estes monumentos, mas atendendo a que têm no máximo três entradas, normalmente uma e mais raro duas, pode-se imaginar que seriam praças para mercados, por exemplo, até pelas largas centenas que se encontram espalhadas pelas ilhas.
Pergunta, pesquisa, diversos prestimosos colaboradores dando dicas, até que um dia chegou a resposta.
No final encontramos, por indicação de um clever inglês, Philip Masheter, em www.sarsen.org:
The country folk, always picturesquely minded, call them "Grey Wethers," and indeed in North Wilts, it is not hard to conjure up their poetic resemblance to a flock of titanic sheep, reclining at ease upon the pasturage of the Downs. The alternative name Sarsen, has an interesting derivation. It is a corruption of the word "Saracen." But what have Saracens to do with Wiltshire? Frankly nothing. The name has come to the stones from Stonehenge itself, and is a part of that ever interesting confusion of ideas, which has been bequeathed to us by our ancestors of the Middle Ages. To them all stone circles and megalithic monuments were the work of heathens, if not of the devil himself. Heathenism and all its works was roundly condemned, whether it be Celtic, Mahomedan, or Pagan; and the condemnation was as concise and universal as the phrase "Jews, Turks, Infidels, and Heretics" of the Christian Prayer Book to-day. In the early days of the Moyen Age, the Saracen stood for all that was antagonistic to Christianity. Consequently the stones of Stonehenge were Saracen or heathen stones, which the Wiltshire tongue has shortened in due time to Sarsen.
Traduzindo:
A gente do campo, na sua mentalidade pitoresca chamava-as de Grey Wethers, “Carneiros Cinzentos” e não é difícil imaginar a sua semelhança “poética” com um rebanho de ovelhas titânicas, descansando à vontade nas pastagens das terras planas do Norte de Wilt. A alternativa para “sarcens” é uma corruptela da palavra Saracen. Mas o que tem sarracenos a ver com Wiltshire? Francamente, nada. O nome veio para as pedras de Stonehenge, e é parte dessa confusão já interessante de ideias, que tem sido legada por nossos antepassados da Idade Média. Para eles todos os círculos de pedra e monumentos megalíticos foram obra de pagãos, se não do próprio diabo. Paganismo, e todas as suas obras, foi severamente condenado, seja celta, maometano ou pagão; e a condenação foi tão concisa e universal, como a frase judeus, turcos, infiéis e hereges do livro cristão de orações de hoje. Nos primórdios da Idade Média, o sarraceno ficou por tudo o que era antagônico ao cristianismo. Consequentemente as pedras de Stonehenge passaram de “pedras de pagãos” a “sarracenos”, que na língua de Wiltshire se encurtou para sarcens.

Não admira que lhes chamassem pedras do diabo. Pode-se imaginar o trabalho que deu para as colocarem onde estão. Milhares de trabalhadores, milhares de horas, dias e anos, só obra dos demónios. Algumas das pedras de Stonehenge foram levadas de Wales a mais de 240 quilómetros de distância.
São obras da grandeza das pirâmides, pela sua monumentalidade.
E assim finalmente “descoberto” o mistério dos sarcens, numa altura em que os tais fundamentalistas sarracenos estão a dar tanto que falar, e até de chorar.
Pena não se poderem pô-los a carregar “pedrinhas” daquelas nas costas!

28/04/2015


quinta-feira, 14 de maio de 2015



O velho Januário


Fazia um calor do cão. Seco, de torrar a cabeça de quem não usasse chapéu.
Na casa onde nascera, no sertão da caatinga, o velho Januário, que há anos vivia sozinho, festejava com a família os seus 100 anos, com o sol, implacável como sempre, a castigar os valentes que por ali se atrevessem a estar, pior, a ficar. A perder de vista um juazeiro aqui outro mais além, espinhosas anãs e corcundas com os galhos secos a desafiarem a canícula, a terra vermelha.
Casa velha, velhinha, cheia de remendos, sempre cuidada e limpa, telhado sem goteiras, aliás inúteis porque a chuva ali o seu Januário dizia que não caía coisa que se visse há mais de ano, numa tosca mesa umas imagens da Senhora da Conceição e de Aparecida, ao lado das fotos da mulher e dos filhos e uma em que quase nada já se via, do dia do seu casamento. Na parede um velho crucifixo e um poster amarelado do Bom Papa João XXIII.

Tava rijo e são o bom do velho, cabelinho branco, ralo e de uma alvura linda, calejado e tisnado, cara bem enrugada, sabia que aquela figura, esquelética, escondida debaixo dum capuz e com a foice na mão, há tempos lhe rondava a vida. Não se amedrontava, nem pensava nisso. Esperava, tranquilo, a hora para ir ter com a sua saudosa e querida esposa com quem vivera perto de setenta anos e também com alguns dos filhos que se lembraram de partir mais cedo. Mas continuava todos os dias, sem jamais descansar, a procurar desde antes do raiar da aurora, um pouco de grama ou o que pudesse não deixar morrer de fome três ou quatro de cabeças de gado, já que as cabras bem se desenvencilhavam comendo tudo, e as galinhas ciscavam em todo o canto.
Nesse dia juntou quase toda a família. Filhos e filhas, noras e genros, netos e bisnetos, vieram de todo aquele sertão, uns quantos da cidade, dois até da capital, juntar-se à festa. Naquele grupo havia já um médico, advogados e comerciantes. Raros os que se mantiveram agarrados a um pedaço inóspito e ingrato daquelas terras. Não trouxeram presentes que o velho desprezava, mas comida e bebida para que todos vivenciassem com alegria tão importante momento. Vô Januário matara até o último porco, magro, que comprara ainda leitãozinho já a contar com este dia.
Netos e bisnetos nem todos se conheciam, e o encontro foi motivo de grande satisfação.
Os mais velhos, idosos, aposentados, procuravam relembrar momentos da infância e adolescência vivida naquele casebre onde se criaram, as brincadeiras que inventavam e os trabalhos para ajudar os pais, enquanto a garotada não parava de brincar e correr em volta da casa, procurar “novos” bichinhos pelo ralo mato em derredor, e o anfitrião feliz e agradecendo a vida que teve, dura, privado de conforto, mas que lhe dera uma prole magnífica. Revia-se nos filhos, admirava o tamanho dos netos já adultos e enchia-se de ternura com os bisnetos a quem acariciava e abençoava com as suas mãos calejadas.
Fora da casa estacionavam, pacientes, os vários meios de transporte que os descendentes usaram para ali chegar: uns jegues, uma mula, duas carroças e até, para espanto de alguns, três automóveis.
Bem comidos e bebidos, a conversa começava a perder a vivacidade e diminuir de volume sonoro porque o estômago lhes absorvia parte da necessária energia, alguns roncando num canto do casebre.
Vô Januário desde o ano anterior havia começado a preparar uma boa pinga, da melhor, porque 100 anos não se festejam sem grande festa, e não deixava de acompanhar os vários brindes de “saúde” e os “tchim-tchim” com que os presentes o brindavam, desejando-lhe ainda muitos anos de vida.
Aguentava ele bem o tranco, as peles da face mudavam do tisnado para um bonito tom de rosa escuro, quando pediu que todos se calassem. Queria dizer-lhes alguma coisa que era importante.
Fez-se silêncio, mandaram que se aquietassem as crianças ou fossem para longe, o avô ia falar!
Vô Januário, sentado num banco um pouco mais alto, a família como que em anfiteatro, olhou para todos com um sorriso de alma limpa, e na sua foz rouca:
Meus filho, netos e bisneto. Todos sabem, ou deviam saber que nesta casa, construída com muito suor e sacrifício pelo meu pai que Deus tem, foi onde eu nasci. Nunca daqui saí a não ser as poucas veiz que fui à cidade, onde sentia que não era lugar para mim, habituado a esta simplicidade, pobreza, sim, também, mas onde nunca se viu alguém faltar ao respeito aos pais ou até entre irmãos. Todos cresceram à sombra da palavra que sempre honraram. Nesta casa nasceram os nove filhos, que só seis ainda aqui estão porque o Pai do Céu achou que precisava lá no Alto de mais alguns anjinhos para o ajudarem.
Há algum tempo, que para mim tem sido muito e difícil de suportar, a vossa mãe foi encontrá-los e sei que estão todos Lá à minha espera. Irei quando o Senhor Deus, o Pai do Céu, quiser.
Desta terra seca, cheia de pó voando quando entram os ventos, terra de retirantes e pobreza, com muito esforço e muita fé conseguimos tirar o suficiente para criar os seis filhos e filhas que sobreviveram. E que foram à escola aprender o que os mais velhos nunca conseguimos.
Foi a natureza que nos deu tudo, até a coragem para não baixar os braços e não desanimar na luta permanente.
Falta pouco para a “malvada com a foice” me vir buscar. Há muito que a aguardo, e às vezes, de noite, sonho com ela e sorrio, o que a deve deixar muito desanimada. Prova disso é que não aparece! (Risos da família). Mas ela é teimosa e ninguém pode fugir dela muito tempo.
Uma coisa vos quero pedir, e que levem muito a sério.
Foi esta natureza, seca e dura, que, como disse, nos deu toda a vida que levámos. A ela devo tudo quanto fui e quanto tenho.
Quando eu fechar os olhos, quero que me prometam que me ajudarão a pagar-lhe o muito que recebi.
Não quero funeral, nem caixão, nem velório, nem velas acesas, nem cemitério. Nada disso.
Envolvam o meu corpo, nu, nuzinho, pelado de tudo, num pano velho e vão depositar-me lá no alto daquela elevação. Deitam-me de barriga para o ar, tragam o pano de volta e deixem-me ali ficar.
Aquilo que recebi vou devolver aos urubus, corvos, formigas, minhocas e quem sabe até a um lindo lobo guará, ou mesmo à rainha do mato, a onça pintada. Assim conseguirei saldar parte da minha dívida.
Os ossos, com o sol forte e inclemente e o tempo quente, acabarão também em poeira.
Para o caso da papelada, vocês vão dizer que quando aqui voltaram não me encontraram, ninguém sabia de mim, que há muito não me viam, e que eu deveria ter morrido andando lá no meio do nada.
Também tudo quanto tenho para vos deixar é este pedaço de terra que não vale um mirréis furado!
Não se preocupem. A partir do momento que fechar os olhos, o velho Januário não vai preocupar-se mais com as coisas deste mundo. E vocês, quando pensarem em mim não é para se lembrarem dum velho quase sem dentes, mas do que vos ensinei e do exemplo que procurei dar-vos.
Sois todos gente honrada.
Que mais posso eu pedir a Deus?


31/03/2015