domingo, 18 de janeiro de 2015



Índia
Histórias da história - 3

6. A função do “guarda-sol” e os
Maharajadhiraja


Maharajadhiraja significa o “Grande Rei de todos os Reis”! Época obscura da história da Índia, relata ainda que Mahapadma Nanda, filho de um barbeiro, um dia se revoltou com a classe política dominante, os ksatriyas, os governantes, guerreiros, comandou o maior exército que teria chegado a 200.000 homens de infanteria, 20.000 cavaleiros, 2.000 carros de combate, as bigas, e 3 a 6.000 elefantes de guerra.
Ele e seus descendentes reinaram por cerca de cem anos, um deles por casamento com uma mulher Chandra dando origem à dinastia Maurya.
Mahapadma foi portanto um grande rei e o primeiro a ser descrito como o “Soberano de uma Umbrela”, (guarda-sol)! Um conceito que relaciona com a ideia budista de cakravartin, “governante do mundo”, associando a ideia de que toda a política lhe estaria subordinada, e os historiadores indianos passaram a considerá-lo o primeiro grande “imperador” do Norte da Índia.
Este hábito durou até ao começo do século XX quando alguns dos últimos Maharajas ainda se exibiam montados em elefantes ricamente enfeitados, a cavalo, num automóvel ou mesmo a pé, sempre alguém carregava sob sua cabeça o “guarda-sol real”, o símbolo do poder.

 Maharaja Samarjitsinh Gaekwad

Com essa mania de grandezas os reis Kushanas,que terão vindo da Ásia, central também se davam o título, trazido da China, de Devaputra, filho de Deus!
O livro Mahabharata não é muito favorável aos reis, onde várias vezes aparece o adágio:
“Pior do que dez matadouros é uma prensa para óleo, pior do que dez prensas para óleo é uma hospedaria, pior do que dez hospedarias é uma meretriz e pior do que dez meretrizes é um rei.”

7. A Utopia de Gupta
A visita de Fa Hian ou Fa-hsien, ou Faxian

A perfeição está atingida” declara a última das três inscrições em Junagadh, “enquanto ele, Skanda Gupta, está reinando, em verdade, nenhum homem entre seus súditos cai longe do Dharma, não há ninguém que esteja aflito, na pobreza, na miséria, avaro, ou quem, digno de punição, é mais posto em tortura.” Uma representação tão brilhante da sociedade Gupta é de se esperar de um panegírico real.
No entanto isto é corroborado por um estrangeiro e presumivelmente imparcial testemunha ocular.
As pessoas estão muito bem, sem imposto ou restrições oficiais. Os reis governam sem punição corporal; os criminosos são multados de acordo com a circunstância, levemente ou fortemente. Mesmo nos casos de rebelião repetida, cortam apenas a mão direita. Os atendentes pessoais dos reis, que o guardam à direita e à esquerda, tem salários fixados. Em todo o país o povo não mata nenhum ser vivo, nem bebe vinho, nem comem alho ou cebolas, com excepção dos Chandalas apenas.”
Para Fa Hian (Fa-hsien, Faxian, etc.), um peregrino budista da China, que visitou a Índia entre 400-410 d.C., o reino de Chandra Gupta II era de fato algo como uma utopia. Descendo para a Índia, pela trilha de Karakoram, Fa Hian viajou toda da bacia do Ganges em perfeita segurança, como visitou todos os lugares associados à vida de Buda. Só no lote dos Chandalas encontrou nada invejável; párias devido ao seu degradante trabalho, como trituradores de mortos, eram universalmente afastados e tinham que dar aviso da sua abordagem quando se aproximavam de outras castas para que estas se pudessem abrigar. No entanto, nenhumas outras seções da população foram desfavorecidas, sem mais distinções de casta, atraíram o comentário do peregrino chinês, e nenhum sistema de casta opressivo adiante lhe provocou censura ou surpresa. Paz e ordem prevaleceram. E se a paz era a paz de conquistas passadas, e a ordem da hierarquia social rígida de varna e a exclusividade profissional de jati, ninguém reclamava.
De outras fontes, vislumbramos uma sociedade diligente, bem como contente. Essas associações altamente influentes (sreni) regulavam elaborados sistemas de controle de qualidade, preços, distribuição e treinamento para cada ofício e profissão. Eles também agiam como banqueiros, até mesmo para a corte real; e seus sresthin, ou vereadores, reuniam-se regularmente em um Conselho comum que tem sido comparado a uma câmara de comércio. O comércio continuou a florescer, tanto na Índia como no exterior. Quando Fa Hian voltou à China, foi então não pela rota terrestre mas a bordo de um navio indiano velejando de Tamralipti em Bengala. Depois de um naufrágio próximo ao largo da costa de Burma chegou a ‘Ye-po-ti', que pode ser Java, Sumatra ou Malaya. Lá, como também na Indo-China, ele constatou que os brâmanes floresciam apesar da lei de Buda não ser muito conhecida. Depois de mais alguns percalços náuticos, chegou à China, sempre na companhia de brâmanes e, então, provavelmente, a bordo de um navio indiano.
No que Fa Hian conta da Índia, Magadha aparece como algo especialmente impressionante. Suas cidades eram maiores e o seu povo, o mais rico e mais próspero, bem como os mais virtuosos. Na verdade, budistas já exploravam alguns sítios arqueológicos. Kapilavastu, a antiga capital de Sakyas e o berço de iluminados, era como um grande deserto sem rei nem pessoas; e do Palácio da Ashoka em Pataliputra permaneciam apenas as ruínas. Mas para um budista também havia muito o que comemorar. Stupas aos milhares, algumas de muitos níveis e de proporções gigantescas, pontilhando a paisagem - tanto quanto fazem ainda hoje nos centros fora da Índia, como os pagãos na Birmânia. Então, ao contrário de agora, o budismo ainda recebia o apoio de grandes seções da opinião indiana. Os mosteiros foram bem dotados; os monges poderiam ser contados em milhares. Oito séculos depois de Buda, somente Sri Lanka era mais budista. Para Samudra Gupta foi particularmente gratificante receber uma embaixada do Sri Lanka, cujas ofertas, juntamente com um pedido de autorização para construir um mosteiro no lugar da “Iluminação” de Buda, no Buddha Gaya, ele recebeu os presentes como uma forma de homenagem.
Sem estar muito preocupado com assuntos políticos, Fa Hian nada diz do Tribunal Gupta, nem de Chandra Gupta II, o maharajadhiraja – “O Rei de todos os Reis”. Talvez, como era normal durante a estação seca, a corte estava em movimento, recebendo a reverência e a consumir os produtos dos seus reis subordinados ou na condução de hostilidades com os sátrapas. Em Pataliputra, que juntamente com Ujjain parece ter servido como o capital de Gupta, o visitante chinês ficou mais impressionado com um festival anual. Ele foi marcado por uma magnífica procissão de umas vinte stupas em cima de rodas cujas torres eriçadas acomodavam imagens dos deuses decorados com ouro e prata, bem como a sessão com figuras de Buda e com a presença de Boddhisatvas de pé. Quando a procissão se aproximava da cidade, Hian Fa assistiu aos brahmacharis virem adiante para oferecer seus convites.
Como entre os ortodoxos e as seitas heterodoxas, ecumenismo ainda era a norma, os Guptas, apesar de se identificarem com o Senhor Vishnu e realizando sacrifícios védicos, incentivaram doações aos estabelecimentos budista e brahman com munificência imparcial. Ainda a separação física das duas comunidades, como nos conta Fa Hian, pode ser significativa. Mosteiros budistas eram geralmente localizados fora do centro das populações e influência, mas suficientemente perto para receberem alimento e instruirem leigos, mas também suficientemente longe para terem tranquilidade e isolamento. Os brahmacharis por outro lado, tecnicamente estudantes brahamanes, mas num estabelecimento de todo o ensino brahman, estavam localizados dentro da cidade e perto da corte.

8.- Zero e pi ‘p

Muito se fala sobre os algarismos que hoje usamos e que de uma forma genérica se atribui aos árabes, o que, para um leigo, como eu, não parece uma boa verdade. Aliás não não há boas verdades: ou são ou não são! Os números 1, 2, 3 e 9  ainda se parecem com os árabes – virando os primeiros três 90° para a esquerda – ٩, ٨, ٧, ٦, ٥, ٤, ٣, ٢, ١, ٠ (aqui mostrados do direita para a esquerda), mas os próprios árabes chamam-lhes numeração indiana.
Uma pequena comparação mostra bem que os indianos usavam quase os mesmo sinais matemáticos:

E, talvez o mais importante, foram eles que “inventaram” um novo sinal, o “zero”, representado por um ponto, e usado até hoje.
Desde há muitos séculos que a matemática indiana é conhecida. Já no século IV d.C. sabiam determinar o valor de  p - pi – até à décima casa decimal.
No mundo ocidental, só no século XVIII é que William Jones um matemático galês, propôs o uso do símbolo π para representar a razão entre o comprimento da circunferência e seu diâmetro. Aliás foi esta a sua mais notável contribuição à matemática. Mais de mil e quinhentos anos depois de isso ser feito na Índia.
No século VI registaram-se exemplos do que antigos matemáticos gostavam de perguntar:
“Ó linda senhora, de olhos radiantes, diga-me, se você conhece o método de inversão, que número multiplicado por 3, depois adicionado com três quartos do resultado, a seguir dividido por 7, depois diminuído de um terço do resultado, depois multiplicado por si mesmo e diminuído de 52, extrai a raiz quadrada é depois de somar 8 divide por 10 e o resultado final é 2?”
A resposta parece complicada mas é fácil: é só seguir o caminho inverso:
((2)(10)-8)2  + 52 = 196
√ 196 = 14
(14)(3/2)(70(4/7)28
3

9.- Al Biruni na Índia – século XI

Como al-Biruni, o grande estudioso islâmico do século XI, expôs, os Hindus acreditam que não há nenhum país grandioso, só o deles, nenhuma nação como a deles, nenhum rei como o deles, nenhuma religião como a deles, nenhuma ciência, como a deles, e pensou que eles deviam viajar mais e misturar-se com outras nações; os seus antecedentes não eram tão intolerantes como a geração presente, acrescentou. Menosprezando atitudes do século XI, al-Biruni parece confirmar a impressão dada por escritores muçulmanos anteriores, que nos séculos VIII e IX, consideraram a Índia nada, quando comparada com tempos anteriores. Suas descobertas científicas e matemáticas, embora enterradas em meio a semântica e raramente lançadas para aplicação prática, foram prontamente apreciadas pelos cientistas muçulmanos e então rapidamente apropriadas por eles. Al-Biruni foi quem entendeu isso: a sua celebridade científica no mundo árabe deve muito a sua mestria de sânscrito e acesso à cultura indiana.
Aspectos da Índia do século XI, que al-Biruni omitiu nas suas críticas foram seu tamanho e sua riqueza. Ao contrário dos gregos de Alexandre, invasores muçulmanos estavam bem cientes da imensidão da Índia e imensamente animados pelos seus recursos. Além de produtos exóticos como especiarias, pavões, pérolas, diamantes, marfim e ébano, o país Hindu era famoso por seus fabricantes qualificados e seu movimentado comércial. A economia da Índia foi provavelmente uma das mais sofisticadas do mundo. Corporações regulavam a produção e forneciam crédito; as estradas estavam livres de assaltantes, portos e mercados cuidadosamente controlados e com tarifas baixas. Além disso, o capital era abundante e respeitável. Desde os tempos romanos, pelo menos o subcontinente parece ter desfrutado uma balança de pagamentos favorável. Ouro e prata tinham vindo a acumular muito antes dos Guptas, e eles continuaram a fazê-lo. Figuras em Mamallapuram, esculturas e afrescos de Ajanta são decoradas com jóias. Imagens divinas de ouro maciço são atestadas e os templos reais foram rapidamente se tornando tesouros reais, dotados com os frutos de suas conquistas.
O muçulmano devoto, embora aparentemente empenhado em converter os infiéis, encontraria seu “zelo” muito bem recompensado.


Jan. 2015

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015



Muito interessante o discurso do Presidente do Egito. 
Um enorme passo para o entendimento.
Cada um com sua crença, esteja onde estiver.
Está com legendas em inglês, mas merece ser ouvido com atenção.

 Egyptian President Al-Sisi at Al-Azhar:
 We Must Revolutionize Our Religion




Charlie


O meu primeiro impulso ao ver pela Tv o que estava a acontecer em Paris foi de indignação e da sensação de impotência e incapacidade de lutar contra o jihadismo, covarde, que continua a avassalar o mundo. E logo me solidarizei com as vítimas das chacinas perpetradas, a sangue frio, mais ainda com o “tiro de misericórdia” ao polícia que, já atingido, estava estendido na calçada, e no assassinato também a sangue frio, tão covarde quanto este, da jovem polícia.
Esta sensação de estarmos a ser encurralados, fez com que me declarasse de imediato a favor de “Charlie”, se bem que não conhecesse nem o semanário, nem o seu histórico, mas a defesa intransigente da liberdade de expressão.
Depois fui-me apercebendo que o semanário estava há anos condenado por ter feito uma caricatura ridicularizando Maomé. E o Papa. E os judeus. E um sem número de “piadas” que por demasiado ofensivas, deixavam de ter piada, e em vez de levarem ao riso levavam à irritação, ao confronto, atingindo apelos racistas ou homofóbicos.
No Brasil tem um termo que define com precisão o que eles vinham fazendo: “Cutucando a onça com vara curta”. E um dia a onça saltou-lhes em cima. Covarde e friamente, todos sabemos, mas cansada de ser cutucada.
O senhor Hollande com aquela sua carinha de cego perdido no meio dum tiroteio, conseguiu um feito inédito: juntar nas ruas milhões de franceses que se dizem “Charlies”, convidar chefes de outros Estados para a passeata, que acabou tendo, para estes, um aspecto ridículo, mãosinhas dadas e afastados da verdadeira manifestação. Ridículo. Mas ganhou um ponto: abriu a consciência de muitos para a necessidade de convivência entre todos os credos e raças, o que, pode parecer muito bonito, mas se nunca funcionou desde há milhares de anos até hoje... não é natural que resolva alguma coisa. E uma quantidade de muçulmanos a dizerem que repugnam a ação dos jihadistas, porque o Islão é uma religião de entendimento. Não é.
É bem específico o Corão quando diz na Surata 9.29 – Combatei aqueles que não creem em Deus e no Dia do Juízo Final, nem abstêm do que Deus e Seu Mensageiro proibiram, e nem professam a verdadeira religião daqueles que receberam o Livro, até que, submissos, paguem o Jizya.
E continua em 9.30 Os judeus dizem: Ezra é filho de Deus; os cristãos dizem: O Messias é filho de Deus. Tais são as palavras de suas bocas; repetem, com isso, as de seus antepassados incrédulos. Que Deus os combata! Como se desviam!
Só o Deus “deles” é o único! Ninguém mais pode acreditar no que quiser!
A França está em operações de guerra na Síria-Iraque, no Mali, na República Centro Africana a “pedido dos governos democráticos” daqueles países em luta com a jihad. A Nigéria está entregue ao babaca e super corrupto Jonathan Goodluck, que continua enchendo os bolsos sentadão na sua poltrona de presidente enquanto a turma do Boko Haram, que já matou e sequestrou dezenas de milhares de pessoas, domina mais de um terço do país, com 50% de população muçulmana. Para estes o futuro é simples: ou alinham com os terroristas ou são considerados traidores e...
O radicalismo islâmico espalha-se pelo mundo. Todo o mundo. Parece que ninguém quer ou pode parar essa onda de primitivismo e terrorismo.
Hoje não há mais Urbano II que convoque nova cruzada, e resta-nos assistir à continuação dos genocídios dos cristãos e judeus na Síria, Iraque, dos curdos, depois o que sobrou dos arménios, e os ataques na Europa e Estados Unidos.
Na Espanha cresce uma onda libertária que quer que a Junta da Andaluzia retire a Catedral de Córdova da Igreja e a torne um lugar público – como se uma igreja não fosse um lugar público – com o “alto apoio” de uma espécie de ONU islâmica, com sede no Marrocos, que afirma que essa catedral foi uma mesquita. Foi sim. Mas antes de ser mesquita, cerca de 515 os visigodos ali construíram uma capela.
Uns islâmicos do Maranhão vociferam num seu site contra a ida do Papa Francisco à Turquia e à sua visita à ex-Igreja de Santa Sofia. Dizem que é uma afronta aos muçulmanos! É uma tristeza, mas os extremistas islamitas não sabem o que é amor, amizade, entendimento, nem sabem nada de história, porque a Igreja de Santa Sofia - Agia Sophia, que significa "Sagrada Sabedoria” ou “Sopro Sagrado”, o “Espírito Santo” – foi construída entre 532 e 537, mais de um século antes de Maomé ter nascido, e só transformada em mesquita entre 1453 e 1931, quando foi secularizada para reabrir como museu em Fevereiro de 1935. Quase 1.000 anos igreja cristã e menos de 500 mesquita!
“Charlie” parece ter ignorado um princípio fundamental da liberdade: “a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro”.
Mas ninguém lhes pode tirar o a coragem de se terem exposto, ridicularizando o que todas as religiões e todas as políticas têm de negativo. Pisaram em terreno minado. Abusaram da “graça e do riso” ultrapassando as fronteiras que pertencem a cada um dos Outros. Ofenderam, insultaram, consciências cristãs, judaicas e os muçulmanos. Os primeiros viraram-lhes as costas, souberam perdoar, esquecer ou ignorar. Os segundos já têm com que se preocupar na Cisjordânia. Mas com mentecaptos, a quem a lavagem cerebral foi completa, não se pode brincar.
Sou Charlie em favor da liberdade mas não sou Charlie pelo insulto.




12 de janeiro de 2015

domingo, 11 de janeiro de 2015


  
Índia
Histórias da história - 2

3.-RAMA-GUPTA e DHRUVADEVI

Um drama do século sexto conta a história de um Rama-Gupta, que se pensa ter brevemente sucedido a Samudra Gupta e quem tentou arrancar os sátrapas ocidentais de Malwa. A tentativa deu errado. Rama-Gupta foi derrotado, e preso, quando tentou se soltar, foi informado que o preço da fuga seria a rendição e entrega da sua rainha. De acordo com uma biografia muito mais tardia, o sátrapa de Shaka cobiçava ao máximo a adorável rainha Dhruvadevi. Sem dúvida ela tinha sido representada a ele com olhos de lótus, com coxas como hastes de bananeira e todos os outros atributos maduros da feminilidade desejável, como detalhado na tradição textual e ilustrada nas yaksi sedutoras das esculturas de Mathura e Sanchi. O tipo da “mulher-ideal” ou “simbolo sexual” da época! Em chamas, com o desejo, o lascivo rei de Shaka foi inflexível; Rama-Gupta, indigno de uma tão desejada consorte, irremediavelmente admitiu a derrota e concordou em entregar-lha.



O “símbolo sexual”: a bela e tão desejada Dhruvadevi ?
(Vejam bem a perninha estilo tronco de bananeira!)

Mas a ignomínia foi demais para o irmão mais novo de Rama-Gupta. Este irmão de alguma forma se disfarçou como Dhruvadevi, toda bem torneada, e foi dando entrada no campo inimigo onde prontamente matou o sátrapa. Ele também deve ter auxiliado a fuga de seu irmão Rama-Gupta, tendo este sido irrevogavelmente desonrado por este caso; era o irmão honrado que agora assumia as rédeas do Império como Chandra Gupta II. Ele pode ter tido que matar Rama-Gupta no processo; mas certamente, foi ele quem eventualmente ficou com a mão de escultural Dhruvadevi.

Chandra Gupta II

Não surpreendentemente, a ofensiva principal de Chandra Gupta II foi uma continuação da luta contra os sátrapas de Shaka. A julgar pelas inscrições em torno de Sanchi ele parece ter sido de Malwa Oriental alguns anos antes, presumivelmente enquanto conduzia as necessárias campanhas. A sua paciência foi recompensada. No ano de 409 d.C. Chandra Gupta II emitiu moedas de prata para substituir as dos sátrapas. E depois de ouro. Os territórios de Shaka na Índia ocidental foram anexados aos Guptas, e dos sátrapas ocidentais não mais se ouviu falar.
Assim, os Guptas garantiram sua fronteira ocidental e herdaram tudo o que restou das tradições culturais estabelecidas pelo sânscrito Rudradaman e seus sucessores. Na evidência de um site arqueológico budista em Gujarat norte (Devnimori) que pode datar-se de cerca de 375 d.C., tem sido sugerido que a arquitetura e escultura Gupta deviam vários motivos e características de design ao oeste da Índia. Também pode ser significativo que as realizações culturais associadas geralmente aos Guptas são pouco em evidência no século IV e só se tornaram estabelecidas após a conquista dos sátrapas por Chandra Gupta II.
Este sucesso contra os sátrapas também deu aos Guptas acesso aos portos de Gujarat e aos lucros do seu comércio marítimo internacional.

4. – ALEXANDRE  e  BUCÉFALO

Alexandre, como se sabe, foi o maior general de toda a história, de onde lhe vem o sobrenome, o Grande.
No seu caminho de batalhas e conquistas percorreu mais de 25.000 quilómetros, e acabou morrendo muito jovem, 32 anos, possivelmente por ferimentos recebidos num dos muitos combates que enfrentou quando descia o Hindus, hoje Paquistão, em barcos, descida essa que levou seis meses até ao mar, no regresso à Mesoptâmia, vindo a falecer na Babilónia. Uma seta ter-lhe-á acertado no peito e talvez tenha atingido os pulmões.
No mesmo dia em que Alexandre nasceu terá nascido um cavalo, magnífico, indomável que, segundo a tradição, havia sido comprado por Filipe II da Macedónia, pai de Alexandre, mas afastado por ordens do próprio rei pois não se deixava montar. Alexandre, depois de muito implorar, no dia em que fez treze anos, recebeu esse magnífico presente com permissão para tentar domá-lo, que parecia fadado a ser o grande companheiro do príncipe. Alexandre notou então que o cavalo se assustava com a própria sombra e o conduziu contra o sol de forma que ele não pudesse vê-la. Contra todas as expectativas conseguiu assim domar o cavalo, que ninguém conseguia. O cavalo só permitia ao seu treinador montá-lo mas, depois foi coberto por vestes reais, e permitia ser montado por Alexandre, e ainda se curvava para ajudar o rei.


Alexandre Magno e seu cavalo Bucéfalo, na Batalha de Isso.
Mosaico encontrado em Pompeia, hoje no Museu Arqueológico Nacional, em Nápoles

Bucéfalo era o nome deste famoso cavalo de guerra de Alexandre, rei da Macedônia depois de, com a ajuda da mãe, ter assassinado o pai!  
Com o seu dono percorreu milhares de quilómetros, sempre se impondo pela sua postura, força e elegância. Quando Bucéfalo ficou velho, Alexandre o poupava das atividades de menor importância: durante a revista das falanges, antes da batalha, Alexandre montava outros cavalos, apenas montando Bucéfalo na hora de atacar o inimigo.
Bucéfalo viria a morrer por ferimentos e pela idade durante a campanha de Alexandre no norte da Índia. No local de sua morte, o imperador prestou-lhe uma última homenagem, fundando a cidade de Bucéfala próxima a Taxila (30 km a NE de Islamabad), no atual Paquistão.
Taxila tem uma história incrível. Foi a capital de uma série de reinos, inclusive de Alexandre, e sabendo-se, pela arqueologia, que a sua fundação remonta a uns cinco milénios a.C., no século V a.C. tinha já uma universidade onde se ensinavam os princípios budistas. Hoje o sítio, espetacular, é Património Mundial da Unesco.
5.- Tanque

Se procurarmos a etimologia desta palavra tanque, nos vários dicionários de português, encontram-se as “probabilidades mais absurdas” que se possam imaginar. Dizem que “talvez” venha de “estancar”! Mas explicar... nada. Estancar a água?
A história calcula que os arianos terão chegado à Índia cerca de 1500 a.C., passados dois séculos da há pouco descoberta civilização Harapana. Civilização que se terá iniciado mais de 3.000 anos a.C.
Agricultores, já trabalhavam e transformavam de forma magnífica o algodão, que os arianos, espantados por que o desconheciam começaram por chamar de “lã vegetal”!
Poucos animais estavam domesticados de modo que sobreviviam, e bem da agricultura, e de alguns animais selvagens, como o porco.
Os remanescentes desta civilização ao longo do Hindus, se viram obrigados, possivelmente por desertificação da região, a mudar-se para as margens do Ganges, onde a agricultura se fazia com a fácil irrigação na planície gangética, entre os rios Ganges, Gahara e Jumuna, sempre cheios de água.
Quando mais tarde alguns governantes ou rajas, quiseram expandir-se para a região central da atual Índia, os povos dali sobreviviam mal à época inter monções. Chovia torrencialmente durante os meses das chuvas – entre Junho e Agosto – e depois no resto ano chegava uma canícula que tudo queimava.
Era preciso alimentar aquele povo.
O governante mandou construir uma série de tanques onde se pudesse guardar boa parte das chuvas imensas que depois eram utilizadas para regas e assim desenvolver a agricultura.
Quer isto dizer que tanque é uma palavra de origem indiana, levada para a Europa pelos portugueses e adoptada bem mais tarde pelos ingleses. Isto dizem os próprios ingleses.
Estes, quando começaram a fabricar umas novas “máquinas de guerra”, no início da I Guerra Mundial, criaram uma palavra código para se referirem a estas máquinas. O nome escolhido foi Tank.
Mas, até em Inglaterra, como em Portugal, a palavra tanque aqui, ou tank lá, significa um reservatório de água, por exemplo para lavar a roupa, ou o tanque de combustível dos veículos e só mais tarde se vulgarizou como a máquina de guerra!


Qual tanque você prefere?


23/12/2014

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015


J’ai eté
toujours
CHARLIE
Je suis
CHARLIE
et je serai
toujours

CHARLIE

domingo, 4 de janeiro de 2015

Comecemos o ano com coisas do passado longínquo!
As do recente, muitas delas, são como feridas, para nós.


Histórias da história
Índia - 1

1.- A QUEBRA DAS ÁGUAS

Na tradição hindu, como na tradição judaica, na cristã e até nos maias, a história de uma antiguidade “gerenciável” começa com um dilúvio. Renovando as obscuridades de uma velha ordem, a inundação serve um propósito universal em que estabelece seu único sobrevivente como o fundador de uma sociedade nova e homogênea, em que todos partilham a descendência de um ancestral comum. Um novo começo é sinalizado.
Na Bíblia a inundação é o resultado de descontentamento divino. Enfurecido pela desobediência e maldade dos homens, Deus decide cancelar a sua criação mais nobre; só o justo Noé e seus dependentes são considerados dignos de sobrevivência e dar à humanidade uma segunda chance. Muito diferente, à primeira vista, é o dilúvio indiano. De acordo com o mais antigo de várias contos, a inundação que afligiu o povo da Índia foi um acontecimento natural.
Manu, equivalente a Noé, sobreviveu graças a um simples ato de bondade. E, surpreendentemente para uma sociedade que adorava deuses do vento e da tempestade, nenhuma divindade recebe menção.
Quando Manu foi lavar as mãos numa manhã, um pequeno peixe veio ter às suas mãos junto com a água. O peixe implorou a proteção de Manu dizendo ‘dá-me guarida”. Vou te salvar.’ A razão que apresentou foi que os peixes pequenos eram susceptíveis de ser devorados pelos maiores, e precisava de proteção até crescer. Ele pediu para ser mantido num frasco e, mais tarde, quando superou isso, voltou para uma lagoa e finalmente ao mar. Manu agiu em conformidade.
Um dia o peixe avisou Manu de uma inundação iminente e aconselhou-o a preparar um navio e entrar nele, quando veio o dilúvio. O dilúvio começou a surgir na hora marcada, e Manu entrou no navio. O peixe então nadou até ele, amarrou a corda do navio para seu chifre - talvez fosse um espadarte – e passaram rapidamente para a montanha lá do Norte. Aí Manu foi orientado para subir a montanha, depois de amarrar o navio a uma árvore, e desembarcar somente após a água ter abrandado.
Daí foi descendo, e, assim a encosta da montanha do Norte passou a chamar-se Manoravataranam, ou descida de Manu. As águas varreram todos os três céus, e Manu sozinho foi salvo.

Manu salvo pelo peixe

Tal é a versão mais antiga do dilúvio conforme consta no Satapatha Brahmana, dentre vários apêndices prolixos para os hinos sagrados conhecidos como os Vedas, que eles próprios estão entre as composições religiosas mais antigas do mundo. Redigidos na língua clássica do sânscrito, alguns dos Vedas datam de antes do primeiro milênio a.C. Juntamente com obras posteriores como os Brahmanas, além de dois grandes épicos em sânscrito, o Mahabharata e Ramayana, eles constituem uma gloriosa herança literária de onde todo o conhecimento da história da Índia antes de a.C. 500 tradicionalmente tem sido derivada.
Direto e claro, a história de Manu e o dilúvio serviu seu propósito de introduzir um novo progenitor da raça humana e, a aproveitou-se para explicar o nome de uma montanha. Tal, no entanto, era uma interpretação demasiado modesta para as gerações posteriores. Mito, a fumaça da história, é visto para sinalizar significados novos e mais relevantes, quando visto à distância de milênios mais tarde. Em tempo, a situação dos pequenos peixes susceptíveis de serem devorados por peixes maiores tornou-se uma metáfora em sânscrito para um estado anárquico de assuntos (matsya-nyaya) equivalentes à lei da selva em português. O dilúvio de Manu, como Noé, veio a ser visto como o meio de acabar com este caos. E quem melhor para orquestrar a matéria e para salvar a humanidade do que o Senhor Vishnu? Uma divindade menor quando os Vedas foram compostos, Vishnu desde então subiu como o grande salva-vidas do mundo no panteão Hindu e o segundo membro da sua Trindade. Assim, oportunamente, a inundação se tornou um símbolo da ordem-fora-do-caos através de intervenção divina e o peixe (matsya) reconhecido como o primeiro (avatar) das nove encarnações do deus Vishnu. Mito, seja qual for e quão remoto, serve as necessidades do momento. Assim na história da Índia, como em outros lugares.
Alguns historiadores dataram a inundação muito precisamente em 3102 a.C., sendo este o ano em que, pela computação elaborada, concluem que a nossa era atual, o Kau Yug na cosmologia indiana, começou quando Manu se tornou o progenitor de um novo povo, bem como o seu primeira grande rei e doador de leis. É provavelmente a primeira data credível na história da Índia, e, mesmo sendo um dos tais improváveis de exatidão, merece respeito.

2.-AJATASHATRUS e a LINDA KOSHALAN
Século V a.C.

Licchavis e Koshalans eram dois povos do Norte da Índia na base das montanhas do Everest. Os Koshalans seriam de origem “além montanhas”, da área central da China.
Ajatashatrus, do grupo Magadha, sem ser contestado, e respeitado pela sua conduta, foi elevado a rei em 460 a.C., quando seu pai, velho, não tinha mais possibilidade de exercer o comando. Logo foi envolvido em uma guerra com Koshala e uma poderosa coalizão de repúblicas liderada pelos Licchavis. Magadha estava prestes a dar mais um passo gigante em direção à hegemonia na região média do Ganges.
O problema com Koshala parece ter surgido sobre um pedaço de terra nos arredores de Varanasi que Maha-Koshala tinha passado a Bimbisara, rei de Magadha, talvez o mais poderoso raja da região, como dote da sua filha Devi, irmã de Prasenajit. Além desta, Bimbisara tinha outras “rainhas principais”, como Chetaka, filha do raja Licchavi e uma terceira, Kema, filha do raja Madda de Punjab. Quando Devi morreu de desgosto pela morte de Bimbisara, Prasenajit de Koshala, seu irmão, revogou a concessão da terra e quis controlá-la. Ajatashatru, o filho de Bimbisara, tentou retomá-la, mas parece inicialmente ter sido derrotado. Sua reivindicação para o disputado enclave foi, no entanto, reforçada quando o Prasenajit envelhecido, foi presa fácil do seu próprio filho, a caminho de Magadha como um suplicante. Sozinho, o velho rei chegou as paredes de Rajagriha e lá, enquanto esperava a noite para abrirem os portões, morreu de exaustão e exposição. Apesar de suas diferenças, Ajatashatru de Magadha prontamente honrou a memória de Prasenajit e jurou vingar seu tratamento pelo Koshalans. Aguardou a ocasião para primeiro lidar com outra grande ameaça ao seu reino e em seguida se beneficiar com a aniquilação do exército Koshalan; acampado no leito seco do Rio Rapti, foi subitamente apanhado por uma enchente. Daí em diante, embora as fontes tenham silenciado sobre os detalhes, Ajatashatru parece ter superado Koshala, que prontamente desaparece dos registros.
Esta importante conquista foi viabilizada por uma vitória decisiva de Magadhan na luta prolongada com seu principal vizinho, a República de Licchavi. Os Licchavis, com capital Vaisali eram a cabeça de uma confederação de repúblicas, ao norte de Magadha. Aqui novamente, porém, o problema dos Magadhas parece ter começado no reinado de Bimbisara e de ter sido extremamente complicado por um assunto do coração... ou de saias! Aliás saris!
Como se poderia esperar numa república, a bela Amrapali (ou Ambara-pali) não era uma princesa. Na verdade, ela era uma cortesã cuja perfeição física e contornos proeminentes assegurara sua elevação ao estatuto de um património nacional. Em outras repúblicas realizavam-se concursos de beleza elaborados para selecionar a principal cortesã, e isto também pode ter sido o caso em Vaisali. Mas Amrapali, como convinha a uma das mais devotadas seguidoras de Buda, era astuta, bem como graciosa. Embora seus favores supostamente fossem reservados “exclusivamente” para os 7707 cavaleiros Licchavi-raja, ela também exercia grande influência política e tornou-se, com efeito, a primeira-dama dos Vaisalis.
A bela Amrapali, cujos favores estariam “reservados” para 7707 nobres Licchavis!

Foi, portanto, um golpe esmagador na auto-estima de Licchavi quando se descobriu, no meio de uma luta com Magadha, que o rei de Magadhan entrara em Vaisali disfarçado e, sem ser detectado, ali estivera em amores na deliciosa companhia da lindissima e generosa Amrapali. O rei Magadha teve que pagar por sua indiscrição, e os Licchavis multiplicaram seus ataques no território de Magadhan.
Reconhecidamente, o detalhe desta história sobrevive apenas em uma fonte mais tarde tibetana que certamente teria inspirado versos pungentes e libretos de óperas. Mas a partir de outros textos budistas é claro que Bimbisara realmente incorreu na ira dos Licchavis e que algo nocivo e prejudicial provocou seu filho Ajatashatru em busca de vingança. A subseqüente guerra parece ter durado pelo menos doze anos. Inicialmente ela foi agravada por uma luta de sucessão entre Ajatashatru e um dos seus irmãos. O irmão, que residia na Anga (presumivelmente como seu governador), recusou uma oferta generosa para ceder um colar de valor inestimável. Ele também reteve um elefante ainda mais admirável, que tinha sido treinado para agir como uma mangueira de chuveiro, polvilhando as senhoras da casa Magadhan com um spray deliciosamente perfumado quando elas fossem tomar banho. Sem dúvida tanto o colar como o elefante foram visto como uma grande regalia e símbolos de poder. A aquisição deles por Ajatashatrus foi, portanto, essencial para maior legitimidade de seu governo. Mas o irmão permaneceu desafiador e, temendo qualquer ataque, refugiou-se em Vaisali onde garantiu o apoio dos Licchavis.
Outro conto diz que outro item de disputa era uma montanha de onde escorria um unguento altamente valorizado, porque muito perfumado; ainda outro parece indicar uma ilha disputada no Ganges, que formou a fronteira de Magadha-Licchavi.
Sabemos de tais detalhes porque Ajatashatru decidiu consultar o Buda sobre iminentes hostilidades, e comentaristas mais recentes, budistas, decidiram gravá-las, embora vários a tenham aprimorado. Escultores de budistas seguiram o tema. Num painel do segundo século em Barhut (agora no Museu de Calcutá), um recatado e mais pacífico Ajatashatru é retratado chegando num elefante com um séquito de esposas e depois fazer a reverência diante do trono do Buda. Bem preservado no arenito castanho-avermelhado de Barhut, esta cena eloquente pode ser taxada como a mais antiga representação na arte indiana de uma figura histórica genuína. Textos budistas também mencionam que na sua última viagem ao norte, Buda, após seu encontro com o rei, mas antes de cruzar o Ganges, passou num canteiro de obras onde um novo forte de Magadhan estava sendo erguido. O lugar chamava-se Pataligrama.

Dez. 2014