domingo, 10 de agosto de 2014



O degredo e os brasileiros – 2

Curioso este “negócio” de degredo! Degredo será pena de banimento, desterro, este será exílio que por sua vez é expatriação forçada ou voluntária.
Quantos e quantos homens, e mulheres, vieram aqui parar forçada ou voluntariamente! Outros daqui saíram como o poeta António Gonçalves Dias que, saudoso, compôs a lindíssima Canção do Exílio. Daqui também se cantou a mesma saudade, a mesma solidão, como aquele jovem de quinze anos, exilado e só na Foz do Rio Negro em 1843, quando escreveu

Como são brancas as flores

Deste verde laranjal!
É doce a sua fragrância
Como a deste roseiral...
Mas têm mais suave aroma
As rosas de Portugal!
Chegou ao Pará com dez anos, pouco mais do que como escravo branco. Chorou as saudades da mãe e da terra, o exílio, o trabalho quase escravo a que comerciantes inescrupulosos o sujeitaram, mas não se deixou vencer. Mais tarde insurgia-se nos jornais e nos livros que escreveu contra essa exploração, mas não abjurou os antepassados nem os descendentes que por aqui ficaram.
Não preou índios, nem foi proprietário de terras ou de escravos. E apesar de ter sido um dos primeiros indianistas, o primeiro romancista em que figura como herói um índio, o seu nome raros conhecem e mal ficou na história.
O Brasil que cultura “respira”? É fácil reconhecer-se um monumento inca, asteca ou maia, bem como uma moderna pintura mexicana sem que se conheça o seu autor. Vê-se logo que é mexicana.
E por aqui? Além da arquitetura colonial de Minas, Bahia, Olinda, etc., pouco mais reconhecemos do que um Di Cavalcanti ou uma Djanira. É pintura brasileira? Ou em vez de brasileira, será unicamente Di Cavalcanti ou Djanira, como se reconhece um Van Gogh ou um Picasso sem que estes representem a cultura dos seus países?
Cadê a nossa cultura? A escola de cultura brasileira?
Lá fora somos conhecidos pelas praias, as gostosas mulheres morenas, o samba e a caipirinha! É isso que os turistas vêm ver ao nosso país. Difícil que venha alguém, turista, conhecer a cultura colonial, que a houve, porque depois desta...
Após a independência passou a ser chic romper com o passado, antepassado, português, de que nem o padinho Cíço nos pode livrar. Trocaram-se nomes da família por outros de origem tupi, nenhum de origem africana (que horror!), começou o desenfreado ataque aos tais Maneis e Jaquins e jogou-se o passado no lixo!
Mas ninguém se preocupou em recuperar as línguas nativas, muito menos torná-las obrigatórias nas escolas! Ainda hoje.
No passado está a base da cultura de todos os povos. Levou séculos, milênios a construir-se, com tudo o que tem de bom e menos bom. Mas é cultura, como por exemplo a língua, esta nossa que hoje é falada por cerca de 200 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo.
Foram os Maneis e Jaquins que a levaram. Navegaram por esses oceanos em cima de cascas de noz, enfrentaram tormentas, doenças, hostilidades, fome, abandono, o tal degredo ou desterro ou exílio, mas não desistiram. Lutaram por um ideal básico que era a sua liberdade. Alargaram horizontes e fronteiras, transformaram uma terra de selvagens ou silvícolas, que nenhuma das palavras pretende ofender quem quer que seja, numa nação que é respeitada pelo mundo inteiro pela abertura e simplicidade do seu povo.
Constituíram família, misturada ou não por gente de todas as origens que voluntária ou forçadamente aqui chegou.
E hoje, os descendentes desses homens, todos misturados, raros são os que terão o tal sangue... puro (!?) abjuram, ridicularizam, condenam, injuriam, difamam, insultam, desonram os seus progenitores!
(Para culminar, agora, há poucos dias, em 2014, surgiram congressistas a quererem “facilitar” a língua portuguesa, como o caso de se “traduzir” os livros do maior escritor brasileiro, Machado de Assis, porque nem os ministros os entendem (!), e para cúmulo propõem tirar o “H” de homem, hoje, habitante, etc., para os reduzirem a omem, oje, abitante, talvez tirem o “h” de hélio (para este perder o gás?) e também tirarem a letra “U” de guerra, guarda, guitarra, querer, queijo, até do “que” que ficará qe, para que os ignorantes melhor aprendam! Ficariam a saber o que é gerra, garda, gitarra, qeijo, etc. e cada vez mais burros, talqualmente o ignorante des-governo que nos leva ao ridículo e perdição).
Sentimento de inferioridade? Muito possivelmente. Esses que se dizem tão miserandos por descenderem de homens determinados... no fundo o que sentem e reconhecem é a sua incapacidade de fazer igual ou melhor!
Houve até quem atribuísse a última ditadura militar a uma herança portuguesa! Não é piada, não. Foi uma professora de História da USP, a melhor universidade do Brasil, que o pronunciou aos microfones de uma das mais importantes rádios do país!
Desonram-se os antepassados, e a cultura... que vá p’ró degredo! 
R. I. P.

31/Dez/2002


sábado, 2 de agosto de 2014




AS  COLÓNIAS  PORTUGUESAS
E  A  DIPLOMACIA  BRASILEIRA


Apesar de gostar de guardar muito do que me vem à mão e acho interessante ou útil, desde pregos a medalhas, parafusos a cápsulas e sementes de plantas exóticas, como por exemplo aquilo a que se chama Coco de Sapucaia - castanha-sapucaia, uma lecythidaceae, Lecythis usitata (como pouca gente, rara gente conhece, vou abster-me de explicar, porque resultaria no mesmo do que explicar o paladar de um abiu - fruto de uma Sapotaceae, Pouteria caimito - a alguém que nunca o tenha visto nem provado) não sou colecionador de coisa alguma, talvez porque para se ser colecionador é necessário ter tido desde sempre, ou quase, residência estável e não mudar de casa mais de vinte vezes pela vida fora só depois de casado! De vez em quando aparecem coisas curiosas que vou guardando.
Por muito complexo que tenha havido, e ainda haja, por parte dos brasileiros, contra os portugas, a verdade é que a nível oficial sempre o entendimento foi bom. Quase. Lá bem no fundo dos bastidores é natural que de vez em quando surjam alguns pontos de atrito, mas Portugal sempre fez o que lhe foi possível para manter o Brasil como seu aliado, irmão. Que é.
Bem sei que o miserável contencioso dos dentistas brasileiros ainda navega em turvas águas, mas é das tais coisas: nem tudo pode ser perfeito.
Apesar da política ultramarina portuguesa ter ficado totalmente fora de moda, depois que a França e Inglaterra se viram forçadas a largar as suas colónias, o Brasil tinha que fatalmente estar ao lado das idéias democráticas, apoiando, pelo menos intelectualmente, a independência de todos os países que o pretendessem. Ele mesmo havia lutado por isso!
Portugal, habilidosamente, comandado pelo esperto e inteligente caipira chamado Salazar, ia mantendo o irmão Brasil como aliado, ou no máximo como abstencionista, cada vez que havia votação internacional que procurasse condenar a sua intransigente e incoerente atitude para com as colónias.
Entre as muitas manobras diplomáticas para manter os dois países unidos, e tentar mostrar ao mundo que o Brasil apoiava o governo português, este, teimoso, conseguiu um dia, em 1967, levar a Angola uma esquadra de navios de guerra brasileiros, contra toda a lógica política do Brasil, que não se queria envolver no erro colonial português.
Não sei se seria uma esquadra, apesar de ser a Força Tarefa número 11, composta de dois navios da Marinha de Guerra Brasileira, o cruzador “C Barroso” e outro o contra torpedeiro “Paraná”.

1967
Entre os dias 23 de janeiro e 27 de fevereiro, participou da comissão ASPIRANTEX 67, integrando um Grupo-Tarefa, sob o comando do ComemCh Almirante-de-Esquadra Murillo Vasco do Valle e Silva, formado também pelos C Barroso e Tamandaré e pelo CT Pernambuco. O GT visitou os portos de Recife (PE) e Luanda (Angola). Além dos oficiais instrutores e do Corpo de Alunos da Escola Naval participaram Cadetes da Escola de Aeronáutica e da Academia Militar das Agulhas Negras. As longas travessias nos trechos Rio-Recife, Recife-Luanda, Luanda-Recife e Recife-Rio proporcionaram um bom período de adaptação a longos cruzeiros a todos os alunos participantes.


O cruzador “C – Barroso”  
 Contra torpedeiro “Paraná”

Recebidos com grande pompa e circunstância chegou a Luanda talvez um milhar e meio de marinheiros brasileiros, grande parte deles mestiços ou negros, que por obra e graça de uma capciosa manobra política portuguesa, lhes proporcionou a rara e feliz oportunidade de visitar a terra de grande parte dos seus antepassados. Nem todos teriam ascendentes angolanos ou sequer africanos, mas estavam em África, de uma forma geral terra de todos eles. Das suas raízes. Das raízes de todo um povo.
Luanda, cidade relativamente pequena, foi invadida pelos brasileiros, que ali estiveram quatro ou cinco dias. A cidade, sobretudo a zona dos musseques onde vivia a quase totalidade da população nativa, não dormiu durante todo esse tempo. Ressoavam os ngomas noite e dia, a toda a hora viam-se marinheiros entrarem e saírem dos navios, uns, cara de longa farra, outros ansiosos por tomarem em terra o lugar daqueles, todos sempre em larga companhia de angolanos. Descobriram-se parentes, aprofundaram-se raízes e conhecimentos, e num instante era muito mais do que isso, que não há palavras para descrever. Foi um espetáculo maravilhoso assistir ao encontro de dois povos irmãos, e foi uma das maiores festas generalizadas que aconteceram naquela terra! Nem carnaval alguma vez se lhe comparou pela espontaneidade, emoção e alegria verdadeira.
O zarpar dos navios foi difícil. O cais apinhado com a multidão, compacta, vestida com os panos mais garridos. Velhos e novos. A despedida, entre batuque e lágrimas não terminava, e o horário previsto teve que ser esticado. Também não havia porque, numa rara ocasião como aquela, o comandante se preocupar com a pontualidade britânica. A brasileira era melhor do que ótima!
Foi bonito, esse encontro.
Ao mundo foi dito que os navios não só não eram de guerra, como estavam em manobras no Atlântico Sul, e um deles com problemas técnicos fora obrigado a arribar a Luanda! Ninguém deve ter engolido aquela explicação um tanto esfarrapada, mas não parece ter trazido qualquer problema para o Brasil, até porque os movimentos de luta pela independência de Angola estavam muito longe de dar ao mundo um exemplo de maturidade, não se entendiam entre si, e deixavam prever uma precária luta quase interminável, não fosse o esgotamento da política interna portuguesa. O exemplo dos mesmos partidos, em Angola, ainda hoje, no ano 2000, deixa muito, mutissimo, a desejar. Pobre Angola. Aliás pobres angolanos.
A explicação do Brasil foi mais uma graça da sua diplomacia, aliás sempre hábil. As autoridades portuguesas ficaram muito contentes com aquela prova de confiança e o Brasil livrou-se de ter que, a outros possíveis pedidos menos simpáticos, dizer “não”!
Quem mais gostou de tudo isto foi a população de Luanda!
Os brasileiros, saudosos, seguiram naqueles cascos cinza, atravessando devagar, com preguiça e saudade, a bonita e acolhedora baía de Luanda, rumo às suas manobras.
A bordo, peles de todas as tonalidades, almas coloridas, olhos saudosos vendo formar-se à popa um turbulento rasto na água que parecia querer voltar a ligar os dois povos, separados um dia, à força, na desumana brutalidade da escravatura.

Em 1972 Portugal tinha quase conseguido outra pequena vitória política, com a organização dos V  Jogos Desportivos Luso-Brasileiros, jogos estes a realizar em Luanda, o que pressupunha o reconhecimento, por parte do Brasil de ser Angola um território indiscutivelmente português!
Projeto interessante o comemorar-se em Luanda o sesquicentenário da independência do país formado com o sangue de tantos angolanos, o quarto centenário da publicação dos Lusíadas quando a metrópole deixou quase outros tantos séculos as colónias sem a conveniente instrução e a travessia aérea do Atlântico Sul, onde por acaso Angola se encontra sem nada ter a ver com isso. Importante era o ano da Dupla Nacionalidade a que Angola hoje devia ter direito, não fosse por outra razão seria pela sua paternidade a milhares e milhares de homens que ajudaram a formar o Brasil.
Não sei quem terá buzinado nos ouvidos do Presidente Médici que as condições para amparar a política portuguesa não era a mesma de 1967, e não era, a verdade é que, estando tudo pronto, de repente se desaprontou, e os tais V Jogos e todas as outras comemorações simplesmente não aconteceram.
Pouca gente disso teve conhecimento.
Belas medalhas comemorativas estavam cunhadas. Não foram distribuídas. Talvez destruídas.
Todas não, porque uma, não sei já como, está comigo, a inscrição numa das faces envolvendo a Cruz de Cristo, e na outra, quatro figuras de atletas fazendo jogo com a mesma Cruz.
Hoje esta medalha será uma raridade.
  

Mas que foi uma boa tentativa do Salazar... foi!


Do meu livro “Se as Minhas Imbambas falassem”, 2000, com ligeira correção.

segunda-feira, 28 de julho de 2014


A cadeira do “Garrett”


Vou aproveitar e contar a “aventura” de uma cadeira, que envolve um bocado bom de história.
O rei D. Fernando II, marido da D. Maria, também II para não destoar, filha de D. Pedro I e IV (a razão de ser 1º no Brasil e 4º em Portugal tem por base a diferença dos fusos horários entre os dois países, nas épocas do ano em que, oficialmente, no Brasil, o sol nasce três horas depois de Portugal ou de Greenwich), quando o grande poeta Almeida Garrett morreu, terá adquirido a cadeira onde este se sentava para escrever, e querendo homenagear o meu bisavô, o poeta, dramaturgo e o grande biógrafo do Garrett, Francisco Gomes de Amorim (1827-1891) ofereceu-lhe essa cadeira de presente.
E em casa do meu avô tinha lugar de destaque, sempre referida como “a cadeira do Garrett”.
Um dia essa cadeira veio para as minhas mãos, conservado o nome de “batismo” e estimada como sendo verdadeiramente a cadeira do Garrett. Uma cadeira trabalhada, de espaldar, com assento, costas e encostos dos braços estofados, que nos acompanhou para Angola. O estofo, velhinho, entretanto foi-se acabando. Em finais de 1960 comprámos uma bonita seda chinesa, que deveria ter emprestado à dita um ar quase museólogo, e mandámo-la para o estofador.
De repente a Cuca decidiu que eu ia para a Europa fazer diversos cursos e estágios, e a cadeira ficou no estofador e marceneiro, que não a aprontou antes de sairmos de Luanda.
Enquanto estávamos na Europa, em Março de 1961, começou o chamado terrorismo, que no primeiro embate afetou profundamente todas as estruturas, tranquilas, estabelecidas em Angola, e o estofador, comigo ausente, sem sequer saber se eu regressaria a Luanda, como aconteceu com muita gente, pendurou a cadeira no vigamento do telhado da marcenaria à espera de...
Logo após o meu regresso, em Julho, a cadeira que padeceu uns quantos meses ali pendurada, perto das telhas, com o calor e umidade do clima, um dia despencou lá do alto, as peças descoladas, pernas para um lado, braços para outro, encosto... etc., e assim foi deixada pelo confuso e desarrumado chão da tal marcenaria. Com a preocupação do salve-se quem puder que era a lei em Luanda naqueles tempos confusos, meia dúzia de paus do que tinha sido uma cadeira, foram totalmente ignorados. Quando fui saber dela, o homem olhou para o telhado, ar de idiota e diz-me:
- Estava ali!
- E agora?
- Tudo quanto conseguimos salvar foram estes pés.
Corremos a marcenaria toda, mas nada mais apareceu. Confesso que tive um desgosto grande com isso.
Mas como não há bem que sempre dure nem mal que não acabe, acabámos esquecendo a dita cadeira.
Há pouco tempo, entre os papéis do espólio do bisavô que só muitos anos depois do desastre cadeirífero me foram entregues, encontrei a descrição pormenorizada da dita cadeira, e como o D. Fernando lha tinha oferecido.
Analisei e rememorei com cuidado a defunta, e conclui que a descrição não coincidia, porque faltavam algumas características importantes, como os braços terminarem em cabeças de leão, quando a nossa tinha os braços simplesmente torneados.
Moral da história: a cadeira que morreu no estofador de Luanda não era a cadeira do Garrett!
Onde andaria? Não sei que sumiço terá levado, muitos, muitos anos antes, até porque nos apontamentos do meu avô, não o bisavô poeta (isto é um tanto confuso porque era tudo Francisco G. de A.), não consta qualquer móvel que tivesse pertencido a Garrett.
Depois de mais pesquisar acabei descobrindo nos mesmos apontamentos do avô, que ele tinha um cadeirão de braços, a que chamava cadeira Farrobo, por ele comprada em Abril de 1912 por 5.690 reis! Terá sido do Conde de Farrobo, o homem que criou o Jardim Zoológico, e que um dia, como acontece a todos... morreu? Os animais do zoológico ficaram entregues a ninguém, o palácio abandonado e as mobílias devem ter-se vendido. Seria esta cadeira dali?  Qui lo sai?
Que a tal cadeira tinha mais cara de Conde de Farrobo do que de Visconde de Almeida Garrett, lá isso tinha!
Foi minorado o desgosto histórico, tranquilizou-se-me o espírito que se sentia comprometido perante o nosso bisavô, mas ficámos na mesma sem uma cadeira. Bonita e com razoável presença, que se estivesse hoje no meu escritório me emprestaria um ar mais austero, quem sabe se até romântico do século já repassado!
Desse romantismo o único detalhe que me resta é a barba que já tenho há mais de quarenta anos!
Nota.- Salvou-se a seda, linda, que ainda hoje jaz, impecável, numa gaveta... sem qualquer serventia! Mas que é bonita, lá isso é.

Rio, 25/09/00




segunda-feira, 21 de julho de 2014




No Reino do Congo – Séc. XVII


Reinava (também) em Portugal Filipe II (barra III) quando D. Manuel Batista Soares, que fora bispo do Congo até 1619, lhe passou a seguinte informação sobre o estado do “cristianismo naquele Reino”.

Snor.
Continuando na informação q. V.M.de me manda dar por escrito acerca dos costumes dos moxicongos e naturaes do Reino de Angola, digo que segundo o que alcancey em perto de dez annos q tratei có elles, não tem vertude, vergonha, verdade, nem constancia, senão, em o mal, por q. são de ordinario çençuaes, sem perdoar a parentesco muy chegado, assy de consanguinidade, como de affinidade e per tradição antiga e rito gentilico tomão por mancebas todas as q. os paes e pessoas a que suçedem tinhão por suas, e as netas e tendo trato iliçito com a Irmaã mais velha, o tem com todas as mais, e os Reys se não tirão destes abusos e pecados, antes com mor liberdade, e descompocissão caem nelles; e o que agora Reyna chamado dom Alvaro terceiro, tem por mancebas muitas que o forão de seu pae dom Alvaro segundo, e hua Cunhada Irmã de sua molher, ambas filhas de manibanda que se chama grão duque, e nem amoestado, nem reprehendido a dexa, nem se envergonha de lho dizerem. Esta foi casada; e tem filhos do Duque de Sundy dom Alvaro seu tio, e q. elle matou em guerra por levantado. E quando vay fora a Igreja, ou a escaramussar vão muitas dellas có elle, e chamãolhe damas o quanto mores senhores são, mor numero dellas tem, como fazem os q. são gentios, q. por terem muitas, se dão por poderosos, riquos, honrados, e aparentados, e assy he, porque tem por essas as filhas dos senhores, e fidalgos principais, para cujo effeito lhas dão seus pais, e o duque de Batta que por titolo se chama Aio del Rey de Congo, e he muito seu parente, sendo casado có hua tia Dell Rey Irmã de seu par, ella se foi amançebar cõ hum sova gentio das partes de dande, Vassallo do mesmo Rey, ficando elle, e o Duque cõ isso muy quietos, e porque o duque tomou por manceba principal hua filha de hum fidalgo seu vassallo, e a tratava em publico e na Igreja como duquesa, e como a essa a fazia venerar, indolhe eu a mão e pedindo a El Rey que ho prohibisse, El Rey e o duque me pedirão por vezes que deixasse estar a molher do duque tia delRey cõ o gentio co que estava por manceba principal, e desse liçença ao duque para se casar em vida da molher co a mançeba qo tinha, cuidando que podia ser, e não crendo dizer lhe Eu o contrario, antes escandalisandosse de lhe Eu não dar a liçença que pedião de que se deixa ver o como estão na fé, e como a entendem, e guardão, pois destas cousas ha muitas no Rey, e nos mores senhores que delle tem mais noticia que a outra gente, e neste viçio vevem todos de ordinario, não o tendo por afronta, nem pecado. São tão dados ao vinho que de nenhua manhã custumão falar despois de jantar, nem El-Rey, nem os grandes senhores, por que não ficão para isso nem se correm de assy ser, antes o tem por grandesa, mas sendo elle as vezes de ma calidade lhes fas cometer pecados e alguas vezes, chegou ElRey a escaramussar de guerra contra my, Clerigos e vassallos de V. M.de, dizendo em publico, e em vozes cõ os seus que nos avião de matar a todos, e que já não querião bautismo, Igreja, nem Clerigos, senão viver em sua liberdade e assy se está lá arisquo de o Vinho hua ves acabar cõ tudo, fazem cõ elle, arremedando as escomunhões da Igreja, prohibições de fogo, agoa, lenha, feira, e mais mercados a que chamão escomunhões da terra, e perseverão nellas algús dias com gritos, alaridos, e pregões, de dia e de noite, q atemorisão, e representão acabarsse tudo, padeçendo nisso os vassallos de V. M.de estas vilissimas necessidades, e vexações, e quando lhos passa como se não ouvera nada, se dão per amigos, pedindo vinho e outras cousas, e q lhes perdoem, e tambem elles alguas vezes, perdoão co facilidade os agravos q recebem, e mostrão temer as escomunhões da Igreja, e em quaisquer trabalhos pedem absolvições geraes, não dando numqua satisfação das culpas.
Dão por vaidade, porque tem muita, e por ella não ha cousa que diga grandes a magestade, Estado, que não procurem remedar, tendosse por valentes, não o sendo, por muy nobres e antigos (como são) por gentis homes e avisados, por mais poderosos q todos os monarcas do mundo, motejando de seus poderes, acompanhansse cõ muita gente sem ordem, tem muitos estromentos de musica, e de guerra ao seu modo, e cõ todos juntos saem fora, ainda q seja na Igreja, representando cõ isso e cõ as muitas çerimonias q se lhe fazem húa confusão grandiosa, trasem panos, custosos, e riquos, da sinta ate os pés, em lugar de sintos huás ataduras muy grossas a q chamão empondas, cabayas sobre a carne nua, e os braços de fora, chapeos de Clerigo bem guarnecidos, sapatõens, e as vezes botas, muitos abanos de rabos de cavalos, muitas insignias de suas dignidades, e os seus ministros mais graves e vallidos lhes vão mostrando o caminho, e alimpando e tirando delles qualquer tropeço, e cousa sem limpesa.
Muita da gente milhor criada, sabe ler, quando ElRey vay a Igreja vay muy acompanhado, e quando falta não vay lá gente; os domingos guardão mal, e os santos peor, se não São Sãotiago e são João Bautista, ElRey e os titulos trasem huás carapusinhas a que chamão empua que não tirão, nem ao santissimo sacramento, (posto q eu melhorey este abuso) mas não cõ EIRey, na proçissão das endoenças Vay ElRey descalço, e descoberto, e todos os seus, e assy andão a sesta feira, dá EIRey alguás esmolas e faz merces a muitos e aos Bispos mais q a todos por que tambem lhos pede a meudo o que ha mister.
As suas armas são, arcos, e frechas, espadas largas, e adargas, e adagas, podões, machadinhas, azagaias, e hús ferros ao modo das nossas lanças, ElRey e todos andão apee, e assy vão a guerra, e de hum dia para o outro se junta grande cantidade de gente, sem ordem e sem mantimentos, e se não levão consigo algus portuguezes, fazem pouco mais de nada, temem os jagas de manrª, que de ouvir fallar nelles se desordenão, e fogem.
São folgasões, e preguiçoosos, e por isso tendo terras larguissimas, e excellentes, por não samearem, senão muy poucos mantimentos peressem a fome, os mantimento os de que uzão são groçeiros, comvem saber: maça meuda, maça grossa, luco q he como painsso, felgões, ortalissa, ervas, aboboras, canas de açucar, miçefos e bananas, e alguas frutas do mato, tem alguas parreiras, romeiras, figueiras, çidreiras, larangeiras, limoeiros, e limeiras, e dando isto tudo ao menos duas novidades no anno, todavia he pouco, porque não cultivão. E o mesmo he em galinhas, porcos, ovelhas, cabras, e vaquas em todo o Reino de Congo, e no de Angola, e nos Ambundas tudo sobeja porque são mais trabalhadores e criadores, ha poucas fontes, e muitos Rios de que algus são caudalosos, muita caça, da de qua e outra diferente, e muitos generos de animais em que entrão, empacaças, e em palancas, q são como vacas, porcos monteses, e engallas q são ao seu modo; Zevras, Elefantes, tigres, onças, leões, gatos de Algalea, cobras grandissimas, e lagartos q fazem muito dano, cavallos marinhos, Ageas reaés, e bastardas, e da mesma manra Pilicanos, e muitos outros generos de Aves q esperão muito porque não andão acoçados.
ElRey he hum despençeiro ordinario de todos os seus, e se assy não for dandolhes de jantar lodos os dias, levantarssehão contra elle, e andando sempre em festas, o dia q lhe falta que dar aos fidalgos, escondesse e tudo he malencoria.
Morrendo ElRey dom Alvaro segundo, o duque de Bamba q he muy poderoso, governou tres dias, pondo e dispondo quanto quis, ao cabo delles levantou por Rey dom Bernardo Irmão do Rey morto, e por este despois de jurado o querer ser, se levantou contra elle mesmo manibamba que o tinha feito, e lhe deu guerra, e o constrangeo a que ferido se saísse do seu aposento, e se fosse a hum em que vivia antes de ser Rey, dando lhe palavra que o não matarião, e elle para se sigurar mais, se recolheo na Igreja de santo Antonio co seis ou sete dos mais seus va1idos, levantou então manibamba por Rey dom Alvaro terceiro, que agora reina, filho de dom Alvaro segundo. Este despois de jurado por não ter companheiro no setro, e Croa, entrou de noite na Igreja cõ mão armada, e matou ao tio que estava deposto de Rey, e aos q achou cõ elle, e os descabeçou, e descabeçados os fes levar arastar ate o lugar publico do pelourinho, a onde estiverão quasy tres dias, despois dos quaes por obra de piedade os enterarão algús clerigos as escondidas, e ElRey Emanibamba tomarão tão mal este acto de misericordia, que declarão aos Clerigos por imigos seus, e nesta alteração tão violenta, matarão muitos senhores, e outra gente, em diversas partes a que tinhão oferecido, seguro e perdão.
Avera como anno e meo que por presunções mal fundadas, EIRey dom Alvaro terceiro, tem publicado guerra contra manibamba seu sogro e reconciliandosse alguas vezes por terçeiras pessoas, e por my, e por meu Vigairo geral, todavia, se não virão numqua, e agora tem apregoado guerra de parte a parte, a fogo e sangue, de q se entende q Manibamba levara o milhor, porque he velho, sagas e poderoso, e por todas as vias ajunta assy os portuguezes que pode, queixandosse que ElRey o quer matar sem causa, e porque lhe pede que não esteja amançebado co sua filha, pois he casado cõ outra, e he artificio muy ordinario nelles, quando querem derrubar alguem, publicar que he mao christão ainda que assy não seja, e para este effeito, tem manibamba cosiguo todos os que por qualquer via tem pretenção ao Reino.
EIRey dom Alvaro segundo, foi bem quisto, e muy melhor obedecido que os que lhe suçederão, ainda que da mesma vida, chamousse magestade por assy lho meterem em cabeça algús Religiosos, e outras pessoas, tomando para isso motivo de entenderem mal hua carta q o sumo pontifiçe lhe escreveo, e por Eu lhe estranhar a magestade, e lha impedir por vertude de huá carta de V. M.de que para isso tive, e por prender e embarcar o padre deão diogo Roiz pestana, que era muy seu valido por V. M.de assy mo ordenar por outra, recebeo contra my grande odeo, e impedio o effeito desta prizão muitas vezes, de maneira que para a poder fazer, uzei de escomunhões, e interdictos, como V. M.de me mandou que o fizesse, e estas çenssuras, se levantavão huás vezes, e se tornavão a por outras, porque por muitas, mostrou elRey que obedeçia a ellas, tornando logo a desobedesser, e cõ esta sua preçeguissão, e odeo que durou em quanto elle viveo, receby Eu notavel perda, na quietação, Jurisdição, e fazenda, sem me apartar hum ponto do q V. M.de me mandou, como constara de muitos papeis q tenho em meu poder.
EIRey dom Bernardo que lhe sucedeo, e que durou pouco por ser morto por EIRey dom Alvaro terceiro seu sobrinho como he dito, e que Eu não vy por no seu tempo estar em loanda, no principio, correo bem comigo em cartas, e eu cõ eIle, quis tambem chamarsse magestade, e pediome que fosse a Congo para lhe lançar o habito de Christo, ou lhe mandasse licença para lá o receber, respondendo lhe Eu, segundo o q V. M.de me tinha mandado, que nenhua daquelas cousas, podia, nem devia fazer, representandoselhe, que Eu lhas negava plo molestar,e não por não poder, tambem se indinou muito contra my, e durou nisso em quanto viveo, que foi pouco, e numqua tomou o abito de Christo, nem tambem apertou muito sobre o titulo de magestade.
Tem a gente do Congo, e de Angola muitos ritos gentilicos de que assy uzão, os que o são, como os bautisados, e a Christandade pla maior parte he só de nome, porque quando os curas vão correr os districtos de suas capellas, he mais para receber as colheitas, que para ensinar, e assy bautisão a todos os q se lhe offerecem, sem diferença de pessoa, e sem os catequisar, e posto que por este modo ficão bautisados, he o bautismo informe, e tantos sacrilegios cometem, quantos bautismos fazem, e dando Eu distintamente a ordem que isto se devia ter, nem isso foi bastante para tirar este abuso (posto que em parte se melhorou) e para sever qual he a christandade daquellas partes, e como ellas se administra bautismo, digo o q me aconteçeo, indo visitar os presidios, a onde numqua foi outro prelado; e he que achando entre os sovas da obediencia de V.M.de no presidio de Cambambe, sete bautisados, e perguntandolhes publicamente pla doutrina, nem essa, nem o sinal da Cruz sabião, nem se tinhão confessado numqua, nem entrado em Igreja, afirmando que nenhua destas cousas se lhe diçera, quando forão bautisados, e perguntandolhes, se deixarão as mancebas, ou quantas tinhão, o principal respondeo que çento e vinte, outro que çento, outro q sessenta, outro que çincoenta, outro q trinta, outro que vinte, e outro que quinze, e sendo esta a christandade assy querem os governadores que os padres bautisem; entendendo que nisso acertão e poderão alegar que converterão muitas almas, e tambem se não fas este officio cõ a perfeição devida, quando em 1oanda se bautisão os escravos q se embarcão para fora, porque ha aly, só hum Vigario a que pertence, e que alem de não saber a lingua, trata mais de receber o premio, que de acertar em seu officio.
Naquelle Bispado não achey constituições, nem cousa por onde me ouvesse de governar, e por isso as fis com muito trabalho, e he magoa grande que sendo a gente tanta, as terras tão fertis, e tão largas, se perca tudo, por falta de ministros Eclesiasticos, o Porto de Loanda he excelente, mas o territorio cõ seus arredores, sequo, e infrutuoso, e passão dous, tres e mais annos que não chove, sendo muito ao contrario pla terra dentro, os Reys do Congo trasem todos o habito de Christo cá sua seta de são Sebastião, e o mesmo os duques, de batta, e bamba, e os manilouros, tendolhes V.M.de por veses mandado declarar, q não pode ser, por ser cousa Eclesiastica e de grande escrupulo e só concedida a V.M.de, como mestre da ordem, e não há podelos tirar deste abuso, por que crem firmemente que o q hua ves se lhe deu, he para dos os q lhe suçederem, sendo assy, que o que eIles dão, tirão cada ves que querem, e trasem ao pescoso muitas cadeas de ouro, alquime, e aço, cõ muitos habitos, tendo o por grandesa, e loucainha. São os Rey do Congo, univerçaes erdeiros de todos seus vassaIlos, e tomando para ssy, o que querem do q lhes fiqua, o mais dão livremente a quem querem, e os que hoje são duques amanhã os tirão, e ficão servindo a fidalgos ordinarios.
Esteve o Reino do Congo despois de sair deste o capitão mor Anto Glz pita, sem capitão, nem ouvidor de V. M.de algus annos, e despois fis Eu cõ muito trabalho reçeber hum que mandou o governador luis mendes de Vasconcelos, a q se tem muy pouco respeito, porque EIRey se mete em tudo, e trata muy mal os vassallos de V.Mde. levando os consigo a força descarapusados, e o mesmo fazia aos saçerdotes, e ainda os obrigua a que o acompanhe as guerras e a outros caminhos que fas, sem lhes dar o neçessario para isso, aos paçageiros desbalijão, e empendenlhe os caminhos, levanlhe extraordinarios tributos, e peitas, q acressentão, cada dia, e postas e outras, extorções, ha grandes desgostos, queixas, e perdas. Pedem Sol, e chuva aos prelados, e aos sacerdotes, como a pedem aos seus feitiçeiros, e queixãosse de lha não darem, como se isso fora em sua mão.
V.M. de manda que nenhuas fazendas prohibidas pelos Reys de Congo, levem os portugueses, a seus Reinos e q se lhos tomem por perdidas, todas as que não registarem, e porque isto se não guarda ha cada dia, grandes inquietações, tem EIRey de Congo prohibido cõ grandes penas, que não levem os Vassalos de V.M. de a seus Reinos Zimbo do brazil, e de outras partes, porque como essa he moeda que nelles corre, esta cõ a grande cantidade q vay de fora; tão abatido o seu, que perde nelle as duas partes de suas rendas, e o mesmo aconteçe aos Eclesiasticos porque nelle lhe fazem o pagamento de algús dizimos q lã ha, e por este respeito a petição do mesmo Rey, o prohiby Eu por escomunhão, e nem cõ ella, nem cõ as penas q EIRey tem posto, deixa de entrar, em tanta quantidade, que vay deitando aquele Reino a perder, e se EIRey para o atalhar dá algum castiguo alevantáolhe que presegue os vassalos de V.Mde. E não respeitão que elles são os que o perçeguem a elle, levando lã muitas mercadorias falças, e vendendoas por finas, em muy grande perjuiso de suas consçiençias e desacato de hum Rey christão, que V.M.de ampara, e manda amparar sempre.
Todas as materias de Justiça, se julgão por audiencias verbaes, e co muy pouca prova confiscão as fazendas, degredão, matão, empenão, e apedrejão, e se logo se não executão suas resoluções verbaes, por qualquer roguo e peita se perdoão dilictos gravissimos, e pelo liviçemos e mal provados, morrem e padeçem os dos favorecidos, e estão tão entregues a este modo de proceder gentilico que não avera força umana que cõ elles introdusa outro christão, deixãosse entrar de qualquer sospeita, e são façelissimos em levantar testemunhos falços, e em se desdiser delles, e sendo arguidos dos vicios em que caem de maravilha os negão, os principais tenho aprontado, e para os q ficão serião neçeçarios livros inteiros.
Ds. guarde a Catholica pessoa de V. Mde.
De lisboa a 7 de setembro de 1619.

Cota: Copia da relação dos costumes, Ritos e usos do Reino do Congo que o Bpo deu a V Mgde, e peccados que nelle se cometem.
(Biblioteca Nacional de Lisboa. Secção Ultramarina Caixa 145 de Angola).


20/07/2014

terça-feira, 15 de julho de 2014



De volta a ZUMBI e a Palmares!


Há mais de uma dúzia de anos que “batalho” contra o mito de “Zumbi dos Palmares”; como é evidente, sem qualquer sucesso, porque a verdade interessa só a uma minoria, normalmente a tal “silenciosa”, e a mentira sobre o assunto tem dado grandes trunfos à politicada.
Recordo agora um texto de Março de 2003, sobre o assunto de que repito algumas passagens:
-                      não há certeza histórica de se ter apanhado o tal Zumbi; dizem uns que lhe cortaram a cabeça depois de vencido e morto, outros que ele se atirou do alto de um morro, outros ainda que muito ferido terá fugido, etc.
-                      não se sabe se Zumbi era o nome de uma só pessoa se o nome genérico dado a chefes ou comandantes daquele quilombo;
-                      foi necessário transformar em “traidor” um dos mais extraordinários chefes de Palmares, Ganga Zumba, que depois de ter lutado durante 30 ou 40 anos contra as forças governamentais acabou derrotado, mas saindo de cabeça erguida e obtendo liberdade, terras e cidadania para os escravos, coisa que nenhum outro escravo, em qualquer outra parte do mundo tinha conseguido.
Aparece agora (2003) mais um livro “Zumbi dos Palmares – A história do Brasil que não foi contada”, de Eduardo Fonseca, que está fazendo muito sucesso e foi até enredo da Escola de Samba Caprichosos de Pilares neste Carnaval do Rio.
Ao analisar com cuidado este sucesso literário encontram-se “novidades” que são admiráveis:
-                     Zumbi, não morreu, como as histórias anteriores o afirmaram! “Ficou vivo, muitas décadas, construiu uma série de outros quilombos e continuou resistindo às truculências dos brancos”!
Mas nunca mais ninguém o viu ou ouviu falar dele!
-                     “Maurício de Nassau (no livro chamado de invasor, vá lá!) era um mecenas amigo dos quilombolas”!
Deve ter sido com base nessa grande amizade que os holandeses mandaram uma esquadra, que saiu de Recife em 1641, ocupar Angola! Certamente para estabelecer relações de intercâmbio amigável, em que os africanos forneciam escravos e os holandeses os transportavam, confortavelmente instalados em navios de luxo, para os engenhos de Pernambuco, sempre sob os amigáveis auspícios do sr. de Nassau que com isso enriqueceu e se mandou daqui para fora!
As tais “truculências” para com os escravos, o amigo Maurício deixava a cargo dos senhores de engenho!
-                     “Uma das primeiras sinagogas em Recife teve como rabino Isaac Abuab da Fonseca, que transformou a sua sinagoga em embaixada dos quilombolas, escondendo negros fugidos de seus patrões torturadores”.
Extraordinária coincidência, sr. Fonseca. Não venha dizer que o rabino era seu antepassado e daí este seu “amor” pelo Zumbi?!
Será que ele escondia os quilombolas com o beneplácito do sr. Maurício que investira tanto dinheiro para os vender aos plantadores de cana?
Cultua-se o período holandês, como se tivesse sido milagroso para o Brasil. Quando aqui chegaram, os holandeses encontraram perto de 300 engenhos produzindo e com isso montaram um rendosissimo negócio através dos seus centros de distribuição lá na Holanda. Quando foram embora do Brasil muitos deles já tinham fechado. Que investimentos fizeram os holandeses por aqui? Limitaram-se a explorar o comércio já existente, e continuam a ser tidos como “saudosos deuses de olhos azuis”!
Alguém uma vez disse: “se tiver dúvida, escreva, porque depois de escrito tudo vira verdade e fonte de referência”!
Uma coisa é romancear, como o fez, melhor que qualquer outro, Alexandre Dumas com os seus famosos mosqueteiros. Outra coisa é falsear a história para agradar a leitores.
Por estas e outras o Brasil acaba ficando sem história, de tão deturpada que a fazem!
Sem história perde, ou nunca ganha, as suas raízes. Sem raízes e sem história, onde ficam os valores culturais a transmitir e unir o povo?
A história, como fica?
O curioso foi ter descoberto há pouco, numa publicação do Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco, na sua Revista nr. X, de 1902, o “Diário da viagem do capitão Jan Blaer aos Palmares em 1645” durante o domínio holandês na região de Pernambuco de 1630 a 1657.
Este capitão Blaer saiu a 26 de Fevereiro de Salgados com soldados holandeses e brasilienses a quem se refere sob este nome como sendo índios, andaram quase um mês até começarem a encontrar roças e plantações abandonadas, e chegado a um “velho” Palmares a 18 de Março. Só a 21 chegaram “à porta ocidental de Palmares, que arrombaram e ao atravessarem encontraram um fosso cheio de estrepes (troncos espetados no chão e de pontas afiadas) em que cairam os nossos dous cornetas; não ou­vimos ruido algum senão o produzido por dous negros, um dos quaes prendemos junto com a mulher e filho, os quaes disseram que desde cinco ou seis dias ali havia ape­nas pouca gente, porquanto a maioria estava nas suas plan­tações e armando mondés (armadilhas) no matto; ainda mataram os nossos brasilienses dous ou três negros no pântano visinho; disseram ainda os negros pegados que o seu rei sabia da nossa chegada por ter sido avisado das Alagoas; um dos nossos cornetas, enraivecido por ter caido nos estrepes, cortou a cabeça a uma negra; pegamos também outra ne­gra; no centro de Palmares havia outra porta, ainda outra do lado do alagadiço e uma dupla do lado de leste; este Palmares tinha igualmente meia milha de comprido, a rua larga duma braça, corria de oeste para leste e do lado norte fícava um grande alagadiço; no lado sul tinham der­rubado grandes árvores cruzando e atravessando-as umas em cima das outras e também o terreno por traz das casas estava cheio de estrepes; as casas eram em numero de 220 e no meio delas erguia-se uma igreja, quatro forjas e uma grande casa de conselho: havia entre os habitantes toda a sorte de artifíces e o seu rei os governava com se­vera justiça, não permitindo feiticeiros entre a sua gente, e quando alguns negros fugiam mandava-lhes crioulos no encalço e uma vez pegados eram mortos, de sorte que entre eles reinava o temor, principalmente nos negros da Ango­la; o rei também tem uma casa distante dali duas milhas com uma roça muito abundante a qual casa fez construir ao saber da nossa vinda, pelo que mandamos um dos nossos sargentos com vinte homens afim de prende-lo; mas, todos tinham fugido de modo que apenas encontraram algumas vitualhas de pouca importância; queimamos a casa do rei e carregamos os víveres; perguntamos aos negros qual o numero da sua gente ao que nos responderam haver 500 homens além das mulheres e crianças: presumimos que uns pelos outros há 1500 habitantes segundo deles ouvimos; nesta noite dormimos nos Palmares.
A 23 do dito pela manhã saiu novamente um sargento com vinte homens a bater o mato, mas apenas conseguiram pegar uma negra côxa de nome Lucrecia pertencente ao capitao Lij que ali deixamos ficar porquanto ela não podia andar e nós não podíamos conduzi-la tendo já muita gente estropeada que era mister fazer carregar; enchemos os nossos bornaes com alguma farinha seca e feijões afim de voltarmos para casa. Ali também feriram-se muitos dos nossos nos estrepes que havia por traz das suas casas. Este era o Palmares grande de que tanto se fala no Brasil; a terra ali é muito própria ao plantio de toda a sorte de cereaes pois é irrigada por muitos e belos riachos; a nossa gente regressou à tarde sem ter conseguido nada; ainda esta noite dormimos nos Palmares.
A 23 do dito queimámos os Palmares com todas as casas existentes em roda bem como os objetos nelas contidos, que eram cabaças, balaios e potes fabricados ali mesmo; em seguida retirámo-nos vendo que nenhum proveito mais havia a tirar: após uma milha de marcha chegamos a um rio, todo cheio de penhascos, denominado Bonguá; ali deixamos de emboscada, junto aos Palmares um dos nossos sargentos com 25 homens, mas não sabemos se conseguiram; nesta tarde, proximo ao referido rio, ainda pegámos um negro com a mulher e um filho e ali pernoitamos.
A 24 do dito pela manhã encontramos um negro cheio de boubas (úlceras, feridas) em companhia de uma velha brasiliense, escrava da filha do rei, os quaes nos disseram que nas vizinhanças ainda corriam outros negros, pelo que acampámos ali e com 20 homens batemos o mato; chegando à casa da filha do rei, que não estava nela, queimamo-la, mas nada conseguimos achar; passamos ali a noite.
Finalmente este “grupo de caça” aos fugitivos de Palmares regressou a casa a 2 de Abril; o “diário” deixado demonstra perfeitamente o quanto os holandeses eram “tão amigos” dos escravos, eles que competiram com os ingleses como os maiores traficantes da história, sobretudo para as Antilhas e América do Norte.
E ainda há quem continue a lamentar esses invasores terem sido corridos do Brasil, depois de vergonhosamente derrotados, na Batalha de Guararapes por 2.200 homens homens do Brasil contra 7.400 holandeses! As baixas do lado dos luso-brasileiros: 84 mortes e 400 feridos contra 1.200 mortos e 700 feridos holandeses.
A história, como fica?
Dane-se a história e a cultura do povo.


Batalha de Guararapes – óleo de Victor Meirelles de Lima - 1879


08/07/2014

quarta-feira, 9 de julho de 2014




7 e 1


Número cabalístico, e o resultado da surra infringida pela Alemanha ao Brasil.
Número cabalístico, porque 7+1 sendo igual a 8, representa aproximadamente os 8 bilhões de Reais que o governo gastou para construir estádios, a maioria verdadeiros elefantes brancos, para honra e perpétua glória do ex-atual imperador lula e sua semi-imperatriz presidenta, que, ambos juraram a pés juntos que os estádios seriam construidos com dinheiros de particulares, o que significaria que a Copa não traria onus para a res publica, mas prestígio, uma, a mais, das grandes mentiras desta infame desgovernança.
A maior derrota da história da seleção do Brasil! Culpa de...
Para quem, como eu, que nada entende das altas filosofias futebolísticas, uma coisa parece evidente: se todos ou quase todos os jogadores eram jovens, habilidosos, promissores, etc., não se entenderam dentro do campo é porque alguém não lhes explicou que aquilo não iria ser uma “pelada de domingo com churrasco”!
Só lembro que no fim do primeiro jogo do Brasil nesta Copa, arrogante, o tal sapiente filipão, depois duma sofrida e feia vitória, em entrevista coletiva fez a seguinte afirmação: “ninguém tem a qualidade e categoria dos passes que vejo na nossa seleção. A continuar assim ganhar esta Copa não será difícil.” Não foram estas as palavras exatas do “mestre” mas foram o seu significado.
Lá vem o “cabalístico”:  diz o art° 171 do Código Penal: Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento. Daí chamarem-se a todos os poltrões, vigaristas, estelionatários & cia. de “171”!
E lá se arrastou a seleção na primeira fase, sofreu nas oitavas e nas quartas de final, para se estrepar de forma inadmissível e jamais sonhada neste encontro com uma equipa estruturada, disciplinada que deu uma tremenda lição de futebol.
Mas no Brasil tudo, ou quase, assim funciona: o jeitinho brasileiro: vai lá que tu ganha!
Logo de manhã, hoje, dia 9, recebi por email este desabafo, escrito um brasileiro, economista, Cláudio Ortenblad:
Isso representa mais que um simples jogo! Representa a vitória da competência sobre a malandragem! Serve de exemplo para gerações de crianças que saberão que pra vencer na vida tem-se que ralar, treinar, estudar! Acabar com essa história de jeitinho malandro do brasileiro, que ganha jogo com seu gingado, ganha dinheiro sem ser suado, vira presidente sem ter estudado! O grande legado desta copa é o exemplo para gerações do futuro! Que um país é feito por uma população honesta, trabalhadora, e não por uma população transformada em parasita por um governo que nos ensina a receber o alimento na boca e não a lutar para obtê-lo! A Alemanha ganha com maestria e merecimento! Que nos sirva de lição! Pátria amada Brasil tem que ser amada todos os dias, no nosso trabalho, no nosso estudo, na nossa honestidade! Amar a pátria em um jogo de futebol e no outro dia roubar o país num ato de corrupção, seja ele qual for, furando uma fila, sonegando impostos, matando, roubando! Que amor à pátria é este? Já chega!!! O Brasil cansou de ser traído por seu próprio povo! Que sirva de lição para que nos agigantemos para construirmos um país melhor! Educar nossos filhos pra uma geração de vergonha! Uma verdadeira nação que se orgulha de seu povo, e não só de seu futebol!
Um retrato de “corpo inteiro” da mentira que o brasileiro em geral finge que não existe.
Fica desta Copa a ótima impressão que todos os que nos visitaram levam do Brasil: belezas naturais, cartões postais já cansados, mas sobretudo a alegria e afabilidade de um povo que a todos recebe de braços abertos, o povo mais carinhoso que existe no planeta, um povo que enxovalhado pela humilhante derrota sofrida no estádio, aplaudiu a seleção da Alemanha porque mostrou o que era jogar futebol e que deixará na mente de todos esses estrangeiros uma tremenda vontade de voltar para aproveitar este carinho.
E fica a certeza de que tudo, tecnicamente, nesta Copa foi feita “no tapa”: a construção dos estádios, a bestialidade do dinheiro gasto, e roubado, como nenhuma outra Copa gastou, a incompetência na preparação duma equipa e na aposta de um ou outro artista virtuoso “salvador”, e esperamos possa despertar na mente do povo que o Brasil com “jeitinhos” será sempre um país condenado ao fracasso, um país que distribui dinheiro para compra de votos, que não melhora a educação, onde há hospitais que custaram fortunas e não funcionam por falta de verba, ou médicos, ou medicamentos, um país que sonha com os lucros dum futuro petróleo e compra refinarias que valem 40 milhões por 2 bilhões e constroi outra que deveria estar a funcionar há dois anos, orçada em 2 bilhões e não ficará, quando pronta, em menos de 20.
Foi muito boa esta lição da Alemanha, a quem o Brasil, se parar só um segundinho para pensar, deverá ser eternamente grato.


9/7/2014