segunda-feira, 28 de julho de 2014


A cadeira do “Garrett”


Vou aproveitar e contar a “aventura” de uma cadeira, que envolve um bocado bom de história.
O rei D. Fernando II, marido da D. Maria, também II para não destoar, filha de D. Pedro I e IV (a razão de ser 1º no Brasil e 4º em Portugal tem por base a diferença dos fusos horários entre os dois países, nas épocas do ano em que, oficialmente, no Brasil, o sol nasce três horas depois de Portugal ou de Greenwich), quando o grande poeta Almeida Garrett morreu, terá adquirido a cadeira onde este se sentava para escrever, e querendo homenagear o meu bisavô, o poeta, dramaturgo e o grande biógrafo do Garrett, Francisco Gomes de Amorim (1827-1891) ofereceu-lhe essa cadeira de presente.
E em casa do meu avô tinha lugar de destaque, sempre referida como “a cadeira do Garrett”.
Um dia essa cadeira veio para as minhas mãos, conservado o nome de “batismo” e estimada como sendo verdadeiramente a cadeira do Garrett. Uma cadeira trabalhada, de espaldar, com assento, costas e encostos dos braços estofados, que nos acompanhou para Angola. O estofo, velhinho, entretanto foi-se acabando. Em finais de 1960 comprámos uma bonita seda chinesa, que deveria ter emprestado à dita um ar quase museólogo, e mandámo-la para o estofador.
De repente a Cuca decidiu que eu ia para a Europa fazer diversos cursos e estágios, e a cadeira ficou no estofador e marceneiro, que não a aprontou antes de sairmos de Luanda.
Enquanto estávamos na Europa, em Março de 1961, começou o chamado terrorismo, que no primeiro embate afetou profundamente todas as estruturas, tranquilas, estabelecidas em Angola, e o estofador, comigo ausente, sem sequer saber se eu regressaria a Luanda, como aconteceu com muita gente, pendurou a cadeira no vigamento do telhado da marcenaria à espera de...
Logo após o meu regresso, em Julho, a cadeira que padeceu uns quantos meses ali pendurada, perto das telhas, com o calor e umidade do clima, um dia despencou lá do alto, as peças descoladas, pernas para um lado, braços para outro, encosto... etc., e assim foi deixada pelo confuso e desarrumado chão da tal marcenaria. Com a preocupação do salve-se quem puder que era a lei em Luanda naqueles tempos confusos, meia dúzia de paus do que tinha sido uma cadeira, foram totalmente ignorados. Quando fui saber dela, o homem olhou para o telhado, ar de idiota e diz-me:
- Estava ali!
- E agora?
- Tudo quanto conseguimos salvar foram estes pés.
Corremos a marcenaria toda, mas nada mais apareceu. Confesso que tive um desgosto grande com isso.
Mas como não há bem que sempre dure nem mal que não acabe, acabámos esquecendo a dita cadeira.
Há pouco tempo, entre os papéis do espólio do bisavô que só muitos anos depois do desastre cadeirífero me foram entregues, encontrei a descrição pormenorizada da dita cadeira, e como o D. Fernando lha tinha oferecido.
Analisei e rememorei com cuidado a defunta, e conclui que a descrição não coincidia, porque faltavam algumas características importantes, como os braços terminarem em cabeças de leão, quando a nossa tinha os braços simplesmente torneados.
Moral da história: a cadeira que morreu no estofador de Luanda não era a cadeira do Garrett!
Onde andaria? Não sei que sumiço terá levado, muitos, muitos anos antes, até porque nos apontamentos do meu avô, não o bisavô poeta (isto é um tanto confuso porque era tudo Francisco G. de A.), não consta qualquer móvel que tivesse pertencido a Garrett.
Depois de mais pesquisar acabei descobrindo nos mesmos apontamentos do avô, que ele tinha um cadeirão de braços, a que chamava cadeira Farrobo, por ele comprada em Abril de 1912 por 5.690 reis! Terá sido do Conde de Farrobo, o homem que criou o Jardim Zoológico, e que um dia, como acontece a todos... morreu? Os animais do zoológico ficaram entregues a ninguém, o palácio abandonado e as mobílias devem ter-se vendido. Seria esta cadeira dali?  Qui lo sai?
Que a tal cadeira tinha mais cara de Conde de Farrobo do que de Visconde de Almeida Garrett, lá isso tinha!
Foi minorado o desgosto histórico, tranquilizou-se-me o espírito que se sentia comprometido perante o nosso bisavô, mas ficámos na mesma sem uma cadeira. Bonita e com razoável presença, que se estivesse hoje no meu escritório me emprestaria um ar mais austero, quem sabe se até romântico do século já repassado!
Desse romantismo o único detalhe que me resta é a barba que já tenho há mais de quarenta anos!
Nota.- Salvou-se a seda, linda, que ainda hoje jaz, impecável, numa gaveta... sem qualquer serventia! Mas que é bonita, lá isso é.

Rio, 25/09/00




segunda-feira, 21 de julho de 2014




No Reino do Congo – Séc. XVII


Reinava (também) em Portugal Filipe II (barra III) quando D. Manuel Batista Soares, que fora bispo do Congo até 1619, lhe passou a seguinte informação sobre o estado do “cristianismo naquele Reino”.

Snor.
Continuando na informação q. V.M.de me manda dar por escrito acerca dos costumes dos moxicongos e naturaes do Reino de Angola, digo que segundo o que alcancey em perto de dez annos q tratei có elles, não tem vertude, vergonha, verdade, nem constancia, senão, em o mal, por q. são de ordinario çençuaes, sem perdoar a parentesco muy chegado, assy de consanguinidade, como de affinidade e per tradição antiga e rito gentilico tomão por mancebas todas as q. os paes e pessoas a que suçedem tinhão por suas, e as netas e tendo trato iliçito com a Irmaã mais velha, o tem com todas as mais, e os Reys se não tirão destes abusos e pecados, antes com mor liberdade, e descompocissão caem nelles; e o que agora Reyna chamado dom Alvaro terceiro, tem por mancebas muitas que o forão de seu pae dom Alvaro segundo, e hua Cunhada Irmã de sua molher, ambas filhas de manibanda que se chama grão duque, e nem amoestado, nem reprehendido a dexa, nem se envergonha de lho dizerem. Esta foi casada; e tem filhos do Duque de Sundy dom Alvaro seu tio, e q. elle matou em guerra por levantado. E quando vay fora a Igreja, ou a escaramussar vão muitas dellas có elle, e chamãolhe damas o quanto mores senhores são, mor numero dellas tem, como fazem os q. são gentios, q. por terem muitas, se dão por poderosos, riquos, honrados, e aparentados, e assy he, porque tem por essas as filhas dos senhores, e fidalgos principais, para cujo effeito lhas dão seus pais, e o duque de Batta que por titolo se chama Aio del Rey de Congo, e he muito seu parente, sendo casado có hua tia Dell Rey Irmã de seu par, ella se foi amançebar cõ hum sova gentio das partes de dande, Vassallo do mesmo Rey, ficando elle, e o Duque cõ isso muy quietos, e porque o duque tomou por manceba principal hua filha de hum fidalgo seu vassallo, e a tratava em publico e na Igreja como duquesa, e como a essa a fazia venerar, indolhe eu a mão e pedindo a El Rey que ho prohibisse, El Rey e o duque me pedirão por vezes que deixasse estar a molher do duque tia delRey cõ o gentio co que estava por manceba principal, e desse liçença ao duque para se casar em vida da molher co a mançeba qo tinha, cuidando que podia ser, e não crendo dizer lhe Eu o contrario, antes escandalisandosse de lhe Eu não dar a liçença que pedião de que se deixa ver o como estão na fé, e como a entendem, e guardão, pois destas cousas ha muitas no Rey, e nos mores senhores que delle tem mais noticia que a outra gente, e neste viçio vevem todos de ordinario, não o tendo por afronta, nem pecado. São tão dados ao vinho que de nenhua manhã custumão falar despois de jantar, nem El-Rey, nem os grandes senhores, por que não ficão para isso nem se correm de assy ser, antes o tem por grandesa, mas sendo elle as vezes de ma calidade lhes fas cometer pecados e alguas vezes, chegou ElRey a escaramussar de guerra contra my, Clerigos e vassallos de V. M.de, dizendo em publico, e em vozes cõ os seus que nos avião de matar a todos, e que já não querião bautismo, Igreja, nem Clerigos, senão viver em sua liberdade e assy se está lá arisquo de o Vinho hua ves acabar cõ tudo, fazem cõ elle, arremedando as escomunhões da Igreja, prohibições de fogo, agoa, lenha, feira, e mais mercados a que chamão escomunhões da terra, e perseverão nellas algús dias com gritos, alaridos, e pregões, de dia e de noite, q atemorisão, e representão acabarsse tudo, padeçendo nisso os vassallos de V. M.de estas vilissimas necessidades, e vexações, e quando lhos passa como se não ouvera nada, se dão per amigos, pedindo vinho e outras cousas, e q lhes perdoem, e tambem elles alguas vezes, perdoão co facilidade os agravos q recebem, e mostrão temer as escomunhões da Igreja, e em quaisquer trabalhos pedem absolvições geraes, não dando numqua satisfação das culpas.
Dão por vaidade, porque tem muita, e por ella não ha cousa que diga grandes a magestade, Estado, que não procurem remedar, tendosse por valentes, não o sendo, por muy nobres e antigos (como são) por gentis homes e avisados, por mais poderosos q todos os monarcas do mundo, motejando de seus poderes, acompanhansse cõ muita gente sem ordem, tem muitos estromentos de musica, e de guerra ao seu modo, e cõ todos juntos saem fora, ainda q seja na Igreja, representando cõ isso e cõ as muitas çerimonias q se lhe fazem húa confusão grandiosa, trasem panos, custosos, e riquos, da sinta ate os pés, em lugar de sintos huás ataduras muy grossas a q chamão empondas, cabayas sobre a carne nua, e os braços de fora, chapeos de Clerigo bem guarnecidos, sapatõens, e as vezes botas, muitos abanos de rabos de cavalos, muitas insignias de suas dignidades, e os seus ministros mais graves e vallidos lhes vão mostrando o caminho, e alimpando e tirando delles qualquer tropeço, e cousa sem limpesa.
Muita da gente milhor criada, sabe ler, quando ElRey vay a Igreja vay muy acompanhado, e quando falta não vay lá gente; os domingos guardão mal, e os santos peor, se não São Sãotiago e são João Bautista, ElRey e os titulos trasem huás carapusinhas a que chamão empua que não tirão, nem ao santissimo sacramento, (posto q eu melhorey este abuso) mas não cõ EIRey, na proçissão das endoenças Vay ElRey descalço, e descoberto, e todos os seus, e assy andão a sesta feira, dá EIRey alguás esmolas e faz merces a muitos e aos Bispos mais q a todos por que tambem lhos pede a meudo o que ha mister.
As suas armas são, arcos, e frechas, espadas largas, e adargas, e adagas, podões, machadinhas, azagaias, e hús ferros ao modo das nossas lanças, ElRey e todos andão apee, e assy vão a guerra, e de hum dia para o outro se junta grande cantidade de gente, sem ordem e sem mantimentos, e se não levão consigo algus portuguezes, fazem pouco mais de nada, temem os jagas de manrª, que de ouvir fallar nelles se desordenão, e fogem.
São folgasões, e preguiçoosos, e por isso tendo terras larguissimas, e excellentes, por não samearem, senão muy poucos mantimentos peressem a fome, os mantimento os de que uzão são groçeiros, comvem saber: maça meuda, maça grossa, luco q he como painsso, felgões, ortalissa, ervas, aboboras, canas de açucar, miçefos e bananas, e alguas frutas do mato, tem alguas parreiras, romeiras, figueiras, çidreiras, larangeiras, limoeiros, e limeiras, e dando isto tudo ao menos duas novidades no anno, todavia he pouco, porque não cultivão. E o mesmo he em galinhas, porcos, ovelhas, cabras, e vaquas em todo o Reino de Congo, e no de Angola, e nos Ambundas tudo sobeja porque são mais trabalhadores e criadores, ha poucas fontes, e muitos Rios de que algus são caudalosos, muita caça, da de qua e outra diferente, e muitos generos de animais em que entrão, empacaças, e em palancas, q são como vacas, porcos monteses, e engallas q são ao seu modo; Zevras, Elefantes, tigres, onças, leões, gatos de Algalea, cobras grandissimas, e lagartos q fazem muito dano, cavallos marinhos, Ageas reaés, e bastardas, e da mesma manra Pilicanos, e muitos outros generos de Aves q esperão muito porque não andão acoçados.
ElRey he hum despençeiro ordinario de todos os seus, e se assy não for dandolhes de jantar lodos os dias, levantarssehão contra elle, e andando sempre em festas, o dia q lhe falta que dar aos fidalgos, escondesse e tudo he malencoria.
Morrendo ElRey dom Alvaro segundo, o duque de Bamba q he muy poderoso, governou tres dias, pondo e dispondo quanto quis, ao cabo delles levantou por Rey dom Bernardo Irmão do Rey morto, e por este despois de jurado o querer ser, se levantou contra elle mesmo manibamba que o tinha feito, e lhe deu guerra, e o constrangeo a que ferido se saísse do seu aposento, e se fosse a hum em que vivia antes de ser Rey, dando lhe palavra que o não matarião, e elle para se sigurar mais, se recolheo na Igreja de santo Antonio co seis ou sete dos mais seus va1idos, levantou então manibamba por Rey dom Alvaro terceiro, que agora reina, filho de dom Alvaro segundo. Este despois de jurado por não ter companheiro no setro, e Croa, entrou de noite na Igreja cõ mão armada, e matou ao tio que estava deposto de Rey, e aos q achou cõ elle, e os descabeçou, e descabeçados os fes levar arastar ate o lugar publico do pelourinho, a onde estiverão quasy tres dias, despois dos quaes por obra de piedade os enterarão algús clerigos as escondidas, e ElRey Emanibamba tomarão tão mal este acto de misericordia, que declarão aos Clerigos por imigos seus, e nesta alteração tão violenta, matarão muitos senhores, e outra gente, em diversas partes a que tinhão oferecido, seguro e perdão.
Avera como anno e meo que por presunções mal fundadas, EIRey dom Alvaro terceiro, tem publicado guerra contra manibamba seu sogro e reconciliandosse alguas vezes por terçeiras pessoas, e por my, e por meu Vigairo geral, todavia, se não virão numqua, e agora tem apregoado guerra de parte a parte, a fogo e sangue, de q se entende q Manibamba levara o milhor, porque he velho, sagas e poderoso, e por todas as vias ajunta assy os portuguezes que pode, queixandosse que ElRey o quer matar sem causa, e porque lhe pede que não esteja amançebado co sua filha, pois he casado cõ outra, e he artificio muy ordinario nelles, quando querem derrubar alguem, publicar que he mao christão ainda que assy não seja, e para este effeito, tem manibamba cosiguo todos os que por qualquer via tem pretenção ao Reino.
EIRey dom Alvaro segundo, foi bem quisto, e muy melhor obedecido que os que lhe suçederão, ainda que da mesma vida, chamousse magestade por assy lho meterem em cabeça algús Religiosos, e outras pessoas, tomando para isso motivo de entenderem mal hua carta q o sumo pontifiçe lhe escreveo, e por Eu lhe estranhar a magestade, e lha impedir por vertude de huá carta de V. M.de que para isso tive, e por prender e embarcar o padre deão diogo Roiz pestana, que era muy seu valido por V. M.de assy mo ordenar por outra, recebeo contra my grande odeo, e impedio o effeito desta prizão muitas vezes, de maneira que para a poder fazer, uzei de escomunhões, e interdictos, como V. M.de me mandou que o fizesse, e estas çenssuras, se levantavão huás vezes, e se tornavão a por outras, porque por muitas, mostrou elRey que obedeçia a ellas, tornando logo a desobedesser, e cõ esta sua preçeguissão, e odeo que durou em quanto elle viveo, receby Eu notavel perda, na quietação, Jurisdição, e fazenda, sem me apartar hum ponto do q V. M.de me mandou, como constara de muitos papeis q tenho em meu poder.
EIRey dom Bernardo que lhe sucedeo, e que durou pouco por ser morto por EIRey dom Alvaro terceiro seu sobrinho como he dito, e que Eu não vy por no seu tempo estar em loanda, no principio, correo bem comigo em cartas, e eu cõ eIle, quis tambem chamarsse magestade, e pediome que fosse a Congo para lhe lançar o habito de Christo, ou lhe mandasse licença para lá o receber, respondendo lhe Eu, segundo o q V. M.de me tinha mandado, que nenhua daquelas cousas, podia, nem devia fazer, representandoselhe, que Eu lhas negava plo molestar,e não por não poder, tambem se indinou muito contra my, e durou nisso em quanto viveo, que foi pouco, e numqua tomou o abito de Christo, nem tambem apertou muito sobre o titulo de magestade.
Tem a gente do Congo, e de Angola muitos ritos gentilicos de que assy uzão, os que o são, como os bautisados, e a Christandade pla maior parte he só de nome, porque quando os curas vão correr os districtos de suas capellas, he mais para receber as colheitas, que para ensinar, e assy bautisão a todos os q se lhe offerecem, sem diferença de pessoa, e sem os catequisar, e posto que por este modo ficão bautisados, he o bautismo informe, e tantos sacrilegios cometem, quantos bautismos fazem, e dando Eu distintamente a ordem que isto se devia ter, nem isso foi bastante para tirar este abuso (posto que em parte se melhorou) e para sever qual he a christandade daquellas partes, e como ellas se administra bautismo, digo o q me aconteçeo, indo visitar os presidios, a onde numqua foi outro prelado; e he que achando entre os sovas da obediencia de V.M.de no presidio de Cambambe, sete bautisados, e perguntandolhes publicamente pla doutrina, nem essa, nem o sinal da Cruz sabião, nem se tinhão confessado numqua, nem entrado em Igreja, afirmando que nenhua destas cousas se lhe diçera, quando forão bautisados, e perguntandolhes, se deixarão as mancebas, ou quantas tinhão, o principal respondeo que çento e vinte, outro que çento, outro q sessenta, outro que çincoenta, outro q trinta, outro que vinte, e outro que quinze, e sendo esta a christandade assy querem os governadores que os padres bautisem; entendendo que nisso acertão e poderão alegar que converterão muitas almas, e tambem se não fas este officio cõ a perfeição devida, quando em 1oanda se bautisão os escravos q se embarcão para fora, porque ha aly, só hum Vigario a que pertence, e que alem de não saber a lingua, trata mais de receber o premio, que de acertar em seu officio.
Naquelle Bispado não achey constituições, nem cousa por onde me ouvesse de governar, e por isso as fis com muito trabalho, e he magoa grande que sendo a gente tanta, as terras tão fertis, e tão largas, se perca tudo, por falta de ministros Eclesiasticos, o Porto de Loanda he excelente, mas o territorio cõ seus arredores, sequo, e infrutuoso, e passão dous, tres e mais annos que não chove, sendo muito ao contrario pla terra dentro, os Reys do Congo trasem todos o habito de Christo cá sua seta de são Sebastião, e o mesmo os duques, de batta, e bamba, e os manilouros, tendolhes V.M.de por veses mandado declarar, q não pode ser, por ser cousa Eclesiastica e de grande escrupulo e só concedida a V.M.de, como mestre da ordem, e não há podelos tirar deste abuso, por que crem firmemente que o q hua ves se lhe deu, he para dos os q lhe suçederem, sendo assy, que o que eIles dão, tirão cada ves que querem, e trasem ao pescoso muitas cadeas de ouro, alquime, e aço, cõ muitos habitos, tendo o por grandesa, e loucainha. São os Rey do Congo, univerçaes erdeiros de todos seus vassaIlos, e tomando para ssy, o que querem do q lhes fiqua, o mais dão livremente a quem querem, e os que hoje são duques amanhã os tirão, e ficão servindo a fidalgos ordinarios.
Esteve o Reino do Congo despois de sair deste o capitão mor Anto Glz pita, sem capitão, nem ouvidor de V. M.de algus annos, e despois fis Eu cõ muito trabalho reçeber hum que mandou o governador luis mendes de Vasconcelos, a q se tem muy pouco respeito, porque EIRey se mete em tudo, e trata muy mal os vassallos de V.Mde. levando os consigo a força descarapusados, e o mesmo fazia aos saçerdotes, e ainda os obrigua a que o acompanhe as guerras e a outros caminhos que fas, sem lhes dar o neçessario para isso, aos paçageiros desbalijão, e empendenlhe os caminhos, levanlhe extraordinarios tributos, e peitas, q acressentão, cada dia, e postas e outras, extorções, ha grandes desgostos, queixas, e perdas. Pedem Sol, e chuva aos prelados, e aos sacerdotes, como a pedem aos seus feitiçeiros, e queixãosse de lha não darem, como se isso fora em sua mão.
V.M. de manda que nenhuas fazendas prohibidas pelos Reys de Congo, levem os portugueses, a seus Reinos e q se lhos tomem por perdidas, todas as que não registarem, e porque isto se não guarda ha cada dia, grandes inquietações, tem EIRey de Congo prohibido cõ grandes penas, que não levem os Vassalos de V.M. de a seus Reinos Zimbo do brazil, e de outras partes, porque como essa he moeda que nelles corre, esta cõ a grande cantidade q vay de fora; tão abatido o seu, que perde nelle as duas partes de suas rendas, e o mesmo aconteçe aos Eclesiasticos porque nelle lhe fazem o pagamento de algús dizimos q lã ha, e por este respeito a petição do mesmo Rey, o prohiby Eu por escomunhão, e nem cõ ella, nem cõ as penas q EIRey tem posto, deixa de entrar, em tanta quantidade, que vay deitando aquele Reino a perder, e se EIRey para o atalhar dá algum castiguo alevantáolhe que presegue os vassalos de V.Mde. E não respeitão que elles são os que o perçeguem a elle, levando lã muitas mercadorias falças, e vendendoas por finas, em muy grande perjuiso de suas consçiençias e desacato de hum Rey christão, que V.M.de ampara, e manda amparar sempre.
Todas as materias de Justiça, se julgão por audiencias verbaes, e co muy pouca prova confiscão as fazendas, degredão, matão, empenão, e apedrejão, e se logo se não executão suas resoluções verbaes, por qualquer roguo e peita se perdoão dilictos gravissimos, e pelo liviçemos e mal provados, morrem e padeçem os dos favorecidos, e estão tão entregues a este modo de proceder gentilico que não avera força umana que cõ elles introdusa outro christão, deixãosse entrar de qualquer sospeita, e são façelissimos em levantar testemunhos falços, e em se desdiser delles, e sendo arguidos dos vicios em que caem de maravilha os negão, os principais tenho aprontado, e para os q ficão serião neçeçarios livros inteiros.
Ds. guarde a Catholica pessoa de V. Mde.
De lisboa a 7 de setembro de 1619.

Cota: Copia da relação dos costumes, Ritos e usos do Reino do Congo que o Bpo deu a V Mgde, e peccados que nelle se cometem.
(Biblioteca Nacional de Lisboa. Secção Ultramarina Caixa 145 de Angola).


20/07/2014

terça-feira, 15 de julho de 2014



De volta a ZUMBI e a Palmares!


Há mais de uma dúzia de anos que “batalho” contra o mito de “Zumbi dos Palmares”; como é evidente, sem qualquer sucesso, porque a verdade interessa só a uma minoria, normalmente a tal “silenciosa”, e a mentira sobre o assunto tem dado grandes trunfos à politicada.
Recordo agora um texto de Março de 2003, sobre o assunto de que repito algumas passagens:
-                      não há certeza histórica de se ter apanhado o tal Zumbi; dizem uns que lhe cortaram a cabeça depois de vencido e morto, outros que ele se atirou do alto de um morro, outros ainda que muito ferido terá fugido, etc.
-                      não se sabe se Zumbi era o nome de uma só pessoa se o nome genérico dado a chefes ou comandantes daquele quilombo;
-                      foi necessário transformar em “traidor” um dos mais extraordinários chefes de Palmares, Ganga Zumba, que depois de ter lutado durante 30 ou 40 anos contra as forças governamentais acabou derrotado, mas saindo de cabeça erguida e obtendo liberdade, terras e cidadania para os escravos, coisa que nenhum outro escravo, em qualquer outra parte do mundo tinha conseguido.
Aparece agora (2003) mais um livro “Zumbi dos Palmares – A história do Brasil que não foi contada”, de Eduardo Fonseca, que está fazendo muito sucesso e foi até enredo da Escola de Samba Caprichosos de Pilares neste Carnaval do Rio.
Ao analisar com cuidado este sucesso literário encontram-se “novidades” que são admiráveis:
-                     Zumbi, não morreu, como as histórias anteriores o afirmaram! “Ficou vivo, muitas décadas, construiu uma série de outros quilombos e continuou resistindo às truculências dos brancos”!
Mas nunca mais ninguém o viu ou ouviu falar dele!
-                     “Maurício de Nassau (no livro chamado de invasor, vá lá!) era um mecenas amigo dos quilombolas”!
Deve ter sido com base nessa grande amizade que os holandeses mandaram uma esquadra, que saiu de Recife em 1641, ocupar Angola! Certamente para estabelecer relações de intercâmbio amigável, em que os africanos forneciam escravos e os holandeses os transportavam, confortavelmente instalados em navios de luxo, para os engenhos de Pernambuco, sempre sob os amigáveis auspícios do sr. de Nassau que com isso enriqueceu e se mandou daqui para fora!
As tais “truculências” para com os escravos, o amigo Maurício deixava a cargo dos senhores de engenho!
-                     “Uma das primeiras sinagogas em Recife teve como rabino Isaac Abuab da Fonseca, que transformou a sua sinagoga em embaixada dos quilombolas, escondendo negros fugidos de seus patrões torturadores”.
Extraordinária coincidência, sr. Fonseca. Não venha dizer que o rabino era seu antepassado e daí este seu “amor” pelo Zumbi?!
Será que ele escondia os quilombolas com o beneplácito do sr. Maurício que investira tanto dinheiro para os vender aos plantadores de cana?
Cultua-se o período holandês, como se tivesse sido milagroso para o Brasil. Quando aqui chegaram, os holandeses encontraram perto de 300 engenhos produzindo e com isso montaram um rendosissimo negócio através dos seus centros de distribuição lá na Holanda. Quando foram embora do Brasil muitos deles já tinham fechado. Que investimentos fizeram os holandeses por aqui? Limitaram-se a explorar o comércio já existente, e continuam a ser tidos como “saudosos deuses de olhos azuis”!
Alguém uma vez disse: “se tiver dúvida, escreva, porque depois de escrito tudo vira verdade e fonte de referência”!
Uma coisa é romancear, como o fez, melhor que qualquer outro, Alexandre Dumas com os seus famosos mosqueteiros. Outra coisa é falsear a história para agradar a leitores.
Por estas e outras o Brasil acaba ficando sem história, de tão deturpada que a fazem!
Sem história perde, ou nunca ganha, as suas raízes. Sem raízes e sem história, onde ficam os valores culturais a transmitir e unir o povo?
A história, como fica?
O curioso foi ter descoberto há pouco, numa publicação do Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco, na sua Revista nr. X, de 1902, o “Diário da viagem do capitão Jan Blaer aos Palmares em 1645” durante o domínio holandês na região de Pernambuco de 1630 a 1657.
Este capitão Blaer saiu a 26 de Fevereiro de Salgados com soldados holandeses e brasilienses a quem se refere sob este nome como sendo índios, andaram quase um mês até começarem a encontrar roças e plantações abandonadas, e chegado a um “velho” Palmares a 18 de Março. Só a 21 chegaram “à porta ocidental de Palmares, que arrombaram e ao atravessarem encontraram um fosso cheio de estrepes (troncos espetados no chão e de pontas afiadas) em que cairam os nossos dous cornetas; não ou­vimos ruido algum senão o produzido por dous negros, um dos quaes prendemos junto com a mulher e filho, os quaes disseram que desde cinco ou seis dias ali havia ape­nas pouca gente, porquanto a maioria estava nas suas plan­tações e armando mondés (armadilhas) no matto; ainda mataram os nossos brasilienses dous ou três negros no pântano visinho; disseram ainda os negros pegados que o seu rei sabia da nossa chegada por ter sido avisado das Alagoas; um dos nossos cornetas, enraivecido por ter caido nos estrepes, cortou a cabeça a uma negra; pegamos também outra ne­gra; no centro de Palmares havia outra porta, ainda outra do lado do alagadiço e uma dupla do lado de leste; este Palmares tinha igualmente meia milha de comprido, a rua larga duma braça, corria de oeste para leste e do lado norte fícava um grande alagadiço; no lado sul tinham der­rubado grandes árvores cruzando e atravessando-as umas em cima das outras e também o terreno por traz das casas estava cheio de estrepes; as casas eram em numero de 220 e no meio delas erguia-se uma igreja, quatro forjas e uma grande casa de conselho: havia entre os habitantes toda a sorte de artifíces e o seu rei os governava com se­vera justiça, não permitindo feiticeiros entre a sua gente, e quando alguns negros fugiam mandava-lhes crioulos no encalço e uma vez pegados eram mortos, de sorte que entre eles reinava o temor, principalmente nos negros da Ango­la; o rei também tem uma casa distante dali duas milhas com uma roça muito abundante a qual casa fez construir ao saber da nossa vinda, pelo que mandamos um dos nossos sargentos com vinte homens afim de prende-lo; mas, todos tinham fugido de modo que apenas encontraram algumas vitualhas de pouca importância; queimamos a casa do rei e carregamos os víveres; perguntamos aos negros qual o numero da sua gente ao que nos responderam haver 500 homens além das mulheres e crianças: presumimos que uns pelos outros há 1500 habitantes segundo deles ouvimos; nesta noite dormimos nos Palmares.
A 23 do dito pela manhã saiu novamente um sargento com vinte homens a bater o mato, mas apenas conseguiram pegar uma negra côxa de nome Lucrecia pertencente ao capitao Lij que ali deixamos ficar porquanto ela não podia andar e nós não podíamos conduzi-la tendo já muita gente estropeada que era mister fazer carregar; enchemos os nossos bornaes com alguma farinha seca e feijões afim de voltarmos para casa. Ali também feriram-se muitos dos nossos nos estrepes que havia por traz das suas casas. Este era o Palmares grande de que tanto se fala no Brasil; a terra ali é muito própria ao plantio de toda a sorte de cereaes pois é irrigada por muitos e belos riachos; a nossa gente regressou à tarde sem ter conseguido nada; ainda esta noite dormimos nos Palmares.
A 23 do dito queimámos os Palmares com todas as casas existentes em roda bem como os objetos nelas contidos, que eram cabaças, balaios e potes fabricados ali mesmo; em seguida retirámo-nos vendo que nenhum proveito mais havia a tirar: após uma milha de marcha chegamos a um rio, todo cheio de penhascos, denominado Bonguá; ali deixamos de emboscada, junto aos Palmares um dos nossos sargentos com 25 homens, mas não sabemos se conseguiram; nesta tarde, proximo ao referido rio, ainda pegámos um negro com a mulher e um filho e ali pernoitamos.
A 24 do dito pela manhã encontramos um negro cheio de boubas (úlceras, feridas) em companhia de uma velha brasiliense, escrava da filha do rei, os quaes nos disseram que nas vizinhanças ainda corriam outros negros, pelo que acampámos ali e com 20 homens batemos o mato; chegando à casa da filha do rei, que não estava nela, queimamo-la, mas nada conseguimos achar; passamos ali a noite.
Finalmente este “grupo de caça” aos fugitivos de Palmares regressou a casa a 2 de Abril; o “diário” deixado demonstra perfeitamente o quanto os holandeses eram “tão amigos” dos escravos, eles que competiram com os ingleses como os maiores traficantes da história, sobretudo para as Antilhas e América do Norte.
E ainda há quem continue a lamentar esses invasores terem sido corridos do Brasil, depois de vergonhosamente derrotados, na Batalha de Guararapes por 2.200 homens homens do Brasil contra 7.400 holandeses! As baixas do lado dos luso-brasileiros: 84 mortes e 400 feridos contra 1.200 mortos e 700 feridos holandeses.
A história, como fica?
Dane-se a história e a cultura do povo.


Batalha de Guararapes – óleo de Victor Meirelles de Lima - 1879


08/07/2014

quarta-feira, 9 de julho de 2014




7 e 1


Número cabalístico, e o resultado da surra infringida pela Alemanha ao Brasil.
Número cabalístico, porque 7+1 sendo igual a 8, representa aproximadamente os 8 bilhões de Reais que o governo gastou para construir estádios, a maioria verdadeiros elefantes brancos, para honra e perpétua glória do ex-atual imperador lula e sua semi-imperatriz presidenta, que, ambos juraram a pés juntos que os estádios seriam construidos com dinheiros de particulares, o que significaria que a Copa não traria onus para a res publica, mas prestígio, uma, a mais, das grandes mentiras desta infame desgovernança.
A maior derrota da história da seleção do Brasil! Culpa de...
Para quem, como eu, que nada entende das altas filosofias futebolísticas, uma coisa parece evidente: se todos ou quase todos os jogadores eram jovens, habilidosos, promissores, etc., não se entenderam dentro do campo é porque alguém não lhes explicou que aquilo não iria ser uma “pelada de domingo com churrasco”!
Só lembro que no fim do primeiro jogo do Brasil nesta Copa, arrogante, o tal sapiente filipão, depois duma sofrida e feia vitória, em entrevista coletiva fez a seguinte afirmação: “ninguém tem a qualidade e categoria dos passes que vejo na nossa seleção. A continuar assim ganhar esta Copa não será difícil.” Não foram estas as palavras exatas do “mestre” mas foram o seu significado.
Lá vem o “cabalístico”:  diz o art° 171 do Código Penal: Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento. Daí chamarem-se a todos os poltrões, vigaristas, estelionatários & cia. de “171”!
E lá se arrastou a seleção na primeira fase, sofreu nas oitavas e nas quartas de final, para se estrepar de forma inadmissível e jamais sonhada neste encontro com uma equipa estruturada, disciplinada que deu uma tremenda lição de futebol.
Mas no Brasil tudo, ou quase, assim funciona: o jeitinho brasileiro: vai lá que tu ganha!
Logo de manhã, hoje, dia 9, recebi por email este desabafo, escrito um brasileiro, economista, Cláudio Ortenblad:
Isso representa mais que um simples jogo! Representa a vitória da competência sobre a malandragem! Serve de exemplo para gerações de crianças que saberão que pra vencer na vida tem-se que ralar, treinar, estudar! Acabar com essa história de jeitinho malandro do brasileiro, que ganha jogo com seu gingado, ganha dinheiro sem ser suado, vira presidente sem ter estudado! O grande legado desta copa é o exemplo para gerações do futuro! Que um país é feito por uma população honesta, trabalhadora, e não por uma população transformada em parasita por um governo que nos ensina a receber o alimento na boca e não a lutar para obtê-lo! A Alemanha ganha com maestria e merecimento! Que nos sirva de lição! Pátria amada Brasil tem que ser amada todos os dias, no nosso trabalho, no nosso estudo, na nossa honestidade! Amar a pátria em um jogo de futebol e no outro dia roubar o país num ato de corrupção, seja ele qual for, furando uma fila, sonegando impostos, matando, roubando! Que amor à pátria é este? Já chega!!! O Brasil cansou de ser traído por seu próprio povo! Que sirva de lição para que nos agigantemos para construirmos um país melhor! Educar nossos filhos pra uma geração de vergonha! Uma verdadeira nação que se orgulha de seu povo, e não só de seu futebol!
Um retrato de “corpo inteiro” da mentira que o brasileiro em geral finge que não existe.
Fica desta Copa a ótima impressão que todos os que nos visitaram levam do Brasil: belezas naturais, cartões postais já cansados, mas sobretudo a alegria e afabilidade de um povo que a todos recebe de braços abertos, o povo mais carinhoso que existe no planeta, um povo que enxovalhado pela humilhante derrota sofrida no estádio, aplaudiu a seleção da Alemanha porque mostrou o que era jogar futebol e que deixará na mente de todos esses estrangeiros uma tremenda vontade de voltar para aproveitar este carinho.
E fica a certeza de que tudo, tecnicamente, nesta Copa foi feita “no tapa”: a construção dos estádios, a bestialidade do dinheiro gasto, e roubado, como nenhuma outra Copa gastou, a incompetência na preparação duma equipa e na aposta de um ou outro artista virtuoso “salvador”, e esperamos possa despertar na mente do povo que o Brasil com “jeitinhos” será sempre um país condenado ao fracasso, um país que distribui dinheiro para compra de votos, que não melhora a educação, onde há hospitais que custaram fortunas e não funcionam por falta de verba, ou médicos, ou medicamentos, um país que sonha com os lucros dum futuro petróleo e compra refinarias que valem 40 milhões por 2 bilhões e constroi outra que deveria estar a funcionar há dois anos, orçada em 2 bilhões e não ficará, quando pronta, em menos de 20.
Foi muito boa esta lição da Alemanha, a quem o Brasil, se parar só um segundinho para pensar, deverá ser eternamente grato.


9/7/2014

quarta-feira, 25 de junho de 2014



Reduções e Bandeiras
Brasil – século XVII

Em março de 1549, chegaram ao Brasil os primeiros padres jesuítas que de depararam com enormes dificuldades em iniciarem o processo de catequização indígena em massa.
Não tardou muito a perceberem o interesse dos portugueses em escravizar os índios, e o modo de melhor os defenderem foi migrarem as missões para cidades interioranas. Além de ensinar a doutrina católica, os jesuítas iniciaram o trabalho de orientação agrícola para que vivessem independentes e afastados dos colonizadores portugueses.
Os índios, que viviam como nômades percorrendo grandes distâncias em busca do melhor lugar para ficarem, passaram a sedentários com o cultivo da terra, já que conseguiam alimentar tribos inteiras com o trabalho agrícola.
Entretanto, graças a isso, os colonizadores descobriam e mandavam prender e torturar grandes aldeias, que se chamaram às missões de “reduções”, na intenção de obterem mais escravos para negociarem.
A esses ataques de rapina humana passou a chamar-se “bandeiras”.
Na época em que Portugal e Espanha estavam governados por um mesmo rei, foi publicada a partir de 1607 uma série de decretos que protegiam as missões, dando-lhes total autonomia desde que houvesse ali um representante da Coroa. Ao mesmo tempo se proibiu o acesso de mestiços e negros, e se deram salvaguardas para os índios reduzidos a fim de que não pudessem ser capturados pelos encomenderos, os caçadores de escravos. O resultado dessas novas medidas foi que grande número de indígenas buscou proteção dentro das reduções, num período em que crescia aceleradamente a demanda por escravos, e os ataques ilegais aos aldeamentos também se multiplicavam. Calcula-se que somente na década de 1630 tenham sido mortos ou aprisionados cerca de 30 mil nativos na região do Paraguai. Em todas as reduções foram aldeados muitos indígenas, atingindo 10.000 almas a de São Cristóvão e em outras a 8 e 7 mil.
As reduções jesuíticas no território riograndense chamaram a aten­ção dos bandeirantes que viram nesses centros de população viveiros de indígenas propícios às suas caçadas.
Era, além disso, voz corrente na época, que o solo riograndense encerrava ricas minas de metais preciosos.
Para ali se dirigiu e penetrou a primeira bandeira paulista, em 1636, pelo «caminho marítimo», como dizem duas grandes autoridades nesse assunto.
A bandeira que penetrou no território riograndense era chefiada pelo famoso paulista António Raposo Tavares. Saíra de São Paulo em Janeiro, constituída por 120 paulistas e 1.000 tupis, tendo sido engrossada na sua travessia.                                                                 
Em Novembro penetrou no território que demandava e a 3 de Dezembro seguinte atacou a redução de Jesus Maria, onde penetrou triunfante, depois de seis horas de encarniçada e sangrenta luta. Os habitantes da redução, que orçavam em cerca de 10.000, retiraram-se em desordem.
Avançou em seguida para São Cristóvao, que foi abandonada pre­cipitadamente.
Aí retornaram os padres, à frente de grande número de neófitos, e travaram a 25 de Dezembro formidável combate com os bandeirantes. Estes obtiveram vitória no fim de cinco horas de luta, já ao cair da noite, de cujas sombras se aproveitaram os vencidos para hábil retirada.
Os governadores de Buenos Aires e do Paraguai negaram-se a socorrer os jesuítas e, por isso, estes, sem elementos para uma resistência eficaz, resolveram abandonar as povoações que haviam estabelecido nas margens do Jacuí e dos seus afluentes e foram-se localizar com os catecúmenos que puderam salvar, na mesopotâmia argentina (entre os rios Uruguai e Paraná).
Em Junho de 1637 já estava Raposo Tavares de regresso a São Paulo, com enorme botim e grande número de aborígenes apresados durante a sua aterradora incursão.
A segunda bandeira rumo ao Sul, foi a de Francisco Bueno que, saindo de São Paulo em começo de 1637, penetrou, em Maio, no território riograndense e em Dezembro atacou a redução de Santa Teresa, que ofereceu fraca resistência.
Os indígenas, pelo temor que tinham dos paulistas, preferiram fugir ou entregar-se, sem combater.
Daí marchou o chefe bandeirante para as reduções localizadas nas margens dos tributários orientais do Uruguai, atacando, no começo de 1638, Todos os Santos, São Carlos, Candelária, e São Nicolau, onde houve sangrento combate, o último dessa cruzada que obrigou os jesuítas a abandonarem todas as povoações do Noroeste riograndense, para, com os seus catecúmenos se localizarem, juntamente com os que abandonaram as do Jacuí, entre os rios Uruguai e Paraná, no actual território da Provín­cia de Comentes, na República Argentina.       
Uma parte desta bandeira voltou para São Paulo em fins de 1638 e a outra em começo de 1639, tendo, assim, permanecido nos sertões cerca de dois anos, em lutas contínuas com o homem e com a natureza.
Foi a bandeira de Francisco Bueno que anulou o poderio dos jesuí­tas e a posse espanhola na margem esquerda do Uruguai ou seja no terri­tório que havia de constituir mais tarde a Capitania de São Pedro.
Outras bandeiras penetraram no território riograndense no decurso do século XVII – entre elas a que teve como chefes Domingos Cordeiro e Pascoal Leite Pais. este irmão do Caçador de Esmeraldas e que foi derro­tado pelo cacique Nicolau Nienguirú, no combate travado em Caaçapa-guassú em 1639 onde morreu o padre Alfaro.
Este sacerdote, que era dotado de espírito combativo, vendo a indecisão e receio do governador paraguaio Pedro de Lugo, que procurava evitar combate com o inimigo à vista, enfrentou este, a cavalo, encora­jando os indígenas. Foi por essa ocasião atingido por uma bala no olho esquerdo e teve morte instantânea.
Esse acontecimento encheu de cólera os indígenas e, sob as ordens de Nienguirú, como feras raivosas, caíram sobre os bandeirantes e os des­troçaram completamente.
A bandeira de Jerónimo Pedroso, derrotada no Mbororé a 11 de Março de 1641, transitou pelo território riograndense, embora não fosse este o seu objectivo nem aí o seu campo de acção, como asseveram alguns historiadores, na suposição de que o Mbororé corre, como eles dizem, «no sertão sulino do Rio Grande».
Aquele arroio é tributário da margem direita do Uruguai. Aí foram, mais tarde, atacados pelos indígenas capitaneados pelos jesuítas.
As razias dos bandeirantes convenceram aos jesuítas de que lhes era impossível manterem-se no território da margem esquerda do Uruguai e, por isso, tomaram a resolução de abandonar essa região, levando os indígenas para as reduções na argentina.
O aborígene riograndense teve então oportunidade de revelar entra­nhado apego ao solo natal.
Tão forte era nele esse sentimento que, a despeito da obediência servil em que fora educado, desatendeu aos padres, recusando-se a segui-los, preferindo o cativeiro sob o domínio dos paulistas ou o retorno às selvas, ao abandono da terra em que nascera e vivia.
Este sentimento tão altamente revelado e que tanto impressionou. os padres foi por estes explorado mais tarde, para se oporem ao tratado de 1750, originando esse procedimento a guerra guaranítica.
Foi um espectáculo impressionante e selvagem o abandono daquele território: as povoações foram incendiadas pelos próprios habitantes que, em seguida, dirigidos pelos padres, iniciaram a retirada, tardos, tristonhos, chorosos, como um rebanho tangido pelos padres.
Muitos se desgarraram durante a marcha e se internaram nos matos, onde foram respirar desafogados e satisfeitos, pela liberdade e pela alegria de ficarem.
Outros levaram a desobediência até ao sacrilégio, como aconteceu. com os que eram conduzidos pelo padre Alfaro, que chegaram ao ponto de quebrar o altar portátil deste sacerdote.
Um tuxava da redução de São José ameaçou de morte o padre Cataldino, que se prostrou de joelhos, entregando-se ao golpe que o cacique não quis desferir, impressionado com aquela atitude ou condoído da humildade.
Os que maior resistência ofereceram ao abandono da terra natal foram os da Província do Tape.
Foi uma luta tenaz e hercúlea a dos jesuítas durante esta emigração e, a despeito da energia inquebrantável, da coragem inexcedível, da grande ascendência que tinham sobre os indígenas, poucos, relativamente ao nú­mero de aldeados, foram os que chegaram à margem direita do Uruguai.
A maioria ficou no território natal, refugiada, dos padres e dos ban­deirantes.
Aí retornaram os jesuítas, durante alguns anos, com o seu notável e jamais igualado poder de persuasão, a fim de convencerem os recalci­trantes ao abandono da terra natal.
O resultado dessa tenacidade sem par, não foi nulo - mas não cor­respondeu ao esforço empregado.             
O apego do aborígene à terra do nascimento obrigou os jesuítas a transportarem-se novamente para a margem esquerda do Uruguai.
Aí fundaram, a partir de 1687, os sete povos de Missões, onde desen­volveram notável progresso industrial e agrícola, com a utilização do braço indígena.
Foi adoptada uma planta única para todas as reduções: uma praça quadrada, com 250 metros em cada face. A frente ficava para o Norte. Na face do Sul erguia-se o templo, sumptuoso, de 3 ou 5 naves, ficando a entrada voltada para a parte interna da praça.
O templo era ladeado pelo cemitério e pelo Colégio, onde residiam os padres e ao seu lado estavam as oficinas, os asilos, a sala de música e os depósitos. Ao fundo, abrangendo em largura as repartições mencionadas, ficava a horta.
Do lado oposto, isto é: no alinhamento do cemitério, ou seja na face de leste, fica­vam: o hospital, a cadeia e o quartel. Tanto na face da entrada da praça como nas que lhe eram laterais ficavam os alojamentos dos indígenas, com amplas salas sem repartições, destinadas às famílias, que aí dormiam e preparavam os seus alimentos.
As reduções eram constituídas por seis, doze e até mais quadras ou quarteirões paralelos, com diversas ruas.
Os quarteirões eram de cem metros de frente por quinze de fundo. Tinham duas frentes e em cada uma destas vinte salas, com uma porta e uma janela. Essas salas eram separadas no sentido longitudinal por uma parede de um metro de espessura, onde assentava a cumieira. Os quartei­rões eram circundados por alpendre. Os edifícios eram cobertos de telha.
Na sede das estâncias de cada redução havia pequenos ranchos para o alojamento do pessoal aí destacado. Todas as estâncias tinham a sua capela, construída de pedra e coberta de telha.
Nas reduções, antes de clarear o dia, rufavam-se os tambores para dispertar os indígenas, mas somente uma hora depois lhes era permitido deixarem o leito. Fazia-se isso em observância aos preceitos que Tomás Campanella julgava necessários para o aperfeiçoamento da raça!
Ao ser tangido, porém, o sino grande do campanário, todos se levan­tavam para as suas orações matinais e iam depois tomar o primeiro alimen­to, isto é, o mate e em seguida fumar.
Às 7 horas no verão, e às 8 no inverno, todos principiavam a traba­lhar: os artífices nas diversas oficinas, sendo as mulheres nos teares.
Os trabalhadores agrícolas reuniam-se em frente à igreja e daí partiam encorporados para a lavoura, conduzindo em andor a imagem de Santo Izidro - o padroeiro dos agricultores.
O regresso e o retorno eram também feitos em procissão. Ao meio dia todos almoçavam nas suas casas. Finda a refeição retornavam ao trabalho, até ao pôr do Sol.
Cada casal dispunha de pequeno trecho de terra onde trabalhava para si dois dias na semana.
A sobra do fruto que aí colhia, não podia vendê-la - era trocada com seus irmãos de raça ou recolhida aos depósitos da redução.
Os indígenas sob o domínio dos jesuítas não possuíam dinheiro.
Depois do toque de silêncio na redução, às 8 horas no inverno, e às 9 no verão, não era permitido o trânsito pelas ruas e ninguém saía dos seus dormitórios.
É longa e triste a história destas reduções e das bandeiras. Todo o magnífico trabalho dos missionários terminou quando foram expulsos da colônia portuguesa do Brasil em 1759 através de um decreto do Marquês de Pombal.

N.- Texto recolhido do trabalho “A Capitania de São Paulo” do escritor, historiador e general brasileiro Emílio Fernandes de Sousa Docca (1884-1945) 

22/06/2014


quarta-feira, 18 de junho de 2014





Relações Norte Sul
Rainhas de Portugal
os Dhugail e os Fingail

De vez em quando uma viagem pela história luso-árabe-viking, mesmo parecendo atrevimento por parte dum não pesquisador ou professor, não faz mal a ninguém, e terá no mínimo uma vantagem: se alguém discordar e sobretudo comentar, todos os que lerem essa “polémica” mais informados ficam.
Os chamados Homens do Norte, os vikings, começam a expandir-se no século VIII, navegando nos seus magníficos barcos  “drakkars” - dragão - invadem e ocupam a Islândia, Irlanda, Escócia, Inglaterra, Bretanha na França, além da expansão para leste onde formaram o primeiro estado russo.
Era uma “turma da pesada”, sabe-se que chegaram até à Groelândia e muito possivelmente ao Canadá, e para sul às Asturias, Galiza, Portugal (de hoje), à Espanha muçulmana, Baleares, Sicília, Grécia e até ao Líbano e Palestina.
   A cristianização dos escandinavos começa quando o rei Harald Klak Halfdansson (c. 785 – c. 852) da Jutlândia – Dinamarca e parte sul da atual Suécia, rei dos dhugail – se sente ameaçado e pede proteção a Luis I, o Piedoso (778-840), rei da Aquitânia desde 813, mas é Olavo Tryggvason, rei da Noruega de 995 até 1000, bisneto de Haroldo, primeiro rei da Noruega, rei dos fingail, quem teve um papel importante na conversão dos vikings ao cristianismo. Antes do cristianismo adoravam Odin, Thor e outros.
 Quando começam a expansão para sul encontram pelo caminho duas religiões monoteístas bem estabelecidas, a cristã e a islâmica, mas o respeito pelos cristãos era bastante “frágil”!
Cerca de 844 chegam à costa da Galiza que começam a saquear. Ramiro I (o meu antepassado muito estimado!) reune um exército, corre com eles, que entram nos barcos e seguem para o sul. Quando passam por Lisboa saqueam a região, conforme carta de Wahballâh ibn-Hazun, governador de Lisboa, avisando todos os governadores  muçulmanos a prepararem a defesa; “ali tinham passado cinquenta e quatro navios e outras tantas barcaças, o mar parecia cheio de aves vermelhas”! Eram as cores das velas dos drakkars.

 Em todo o Oeste ninguém conseguia opor-se-lhes. Era inimigo duma bravura pouco comum!
Os melhores relatos dos ataques dos vikings à Península foram deixados pelos árabes. O mais antigo, de Ibn al-Koutia, do século X, cujo nome significa filho de Godo, nascido na Andaluzia,
descendente de Sara, filha de Witiza, que casou com um escravo forro do Califa Omar II de
Damasco, foi o maior filólogo da Espanha. Seu nome completo Abu-Bekr Mohammed ibn-Omar ibn Abdo’l-aziz, faleceu em Córdova em 367 (989 da era cristã).
Deixou-nos o relato da primeira das invasões dos normandos a quem chamavam Madjous.
“Abd ar-Rahman (também meu estimado antepassado!) mandou construir a grande mesquita de Sevilha e reconstruiu as muralhas desta cidade destruidas pelo ataque dos Madjous em 844. A chegada destes bárbaros semeou o terror entre os habitantes que fugiram para as montanhas. Adb ar-Rahman teve que pedir auxílio a todos os vizires que se uniram e foram emboscar os invasores na vila Quintos Maãfir (Maãfir, o nome de uma tribu árabe que se apossou da antiga vila Quintos, perto de Sevilha). Puseram um vigia na torre da antiga igreja com um molho de lenha, para avisar quando o inimigo passasse. Deixaram passar os infiéis polígamos e atacaram-nos pelas costas de modo que lhes impediu a retirada e mataram 16.000.” (É evidente o gosto dos árabes no exagero das vítimas das guerras, e aqui haverá, no mínimo um zero a mais!)
Todo o tempo que estiveram à volta de Sevilha foi de cerca de quatorze dias, quando, depois de perderem muita gente foram embora, apesar de estarem constantemente a receber reforços.
Os Madjous saíram de Sevilha, voltaram por Lisboa sem mais ataques e sumiram.
Abd ar-Rahman a seguir mandou construir em Sevilha um arsenal para construção de navios, contratou marinheiros em toda a costa da Andaluzia e a todos forneceu “máquinas de guerra” e nafta. Quando os Madjous voltaram, quatro a cinco anos depois, foram batidos e perderam vários navios que foram queimados.
Durante bastante tempo os vikings deixaram a Espanha em paz. Até 1014, quando o jovem príncipe Olaf Haraldsson por espírito de aventura (e pilhagem) voltou a assolar a costa da França, Astúrias, Galiza, onde destruiu Tuy, e a costa do Mediterrâneo, sempre à procura de ricos espólios. Mais tarde Olaf tornou-se rei da Noruega, foi beatificado em 1031 três anos pós a sua morte e canonisado em 1164 pelo Papa Alexandre III. Recebeu ainda o título de Rex Perpetuus Norvegiae.
Mais cem anos se passam e agora é o jovem rei Sigurd I, que em 1107 sai de Bergen para a Terra Santa com 60 drakkars levando 10.000 homens. Desta vez não foi pela pilhagem mas à procura de glória pessoal!
Pouco depois Portugal torna-se um reino independente e, como em todo o lado, o primogénito é o príncipe herdeiro e os outros tinham que ir à vida, como fez o terceiro filho de Sancho I, Fernando, que se tornou Conde da Flandres quando, em 1211, casou com Joana da Flandres, filha mais velha e herdeira de Balduíno I, Imperador Latino de Constantinopla e Conde da Flandres.
Este Dom Fernando foi peça importante no jogo de interesses da França e Inglaterra sobre as Flandres e um nobre conhecido lá pelas terras do Norte.
Waldemar II, rei da Dinamarca enviuvara da sua primeira mulher Margreta Dankmar, Princesa da Bohémia, filha de Przenihl-Ottocar I, rei da Boémia, em 1212 e, certamente por influência do Infante Dom Fernando, voltou a casar com a irmã mais nova deste, Berengária, em Maio de 1214. Tem-se como provavel que esta Infanta estaria a viver em casa do irmão.
Deste casamento nasceram três filhos que todos foram reis da Dinamarca, e uma filha.
Talvez porque a primeira mulher do rei Waldemar II fosse simpática, a nova rainha portuguesa, que morre muito nova, em 1221, deixou mau nome, tanto que ainda hoje o seu nome, Bengierd, em dinamarquês, é sinónimo de mulher má! A má fama vem pela superstição da série “negra” da família.
Começa quando, já morta a rainha, o rei Waldemar II é feito prisioneiro e entrega o trono ao único filho do primeiro casamento, Waldemar III, que casou com uma sobrinha de Berengária, Leonor, filha do rei Afonso II de Portugal. O casamento durou somente dois anos; a rainha Leonor morre dando à luz, em Agosto de 1231, e a criança teve vida curta. Pouco tempo depois, em Novembro do mesmo ano, Valdemar III morre, acidentalmente atingido por uma flecha enquanto caçava.
Com a morte do pai, assume o trono o filho mais velho de Berengária, Erik V, que em lutas pelo trono com o irmão Abel, é por este feito prisioneiro e assassinado. Abel morre dois anos depois durante uma revolta dos frísios na Dinamarca. O trono passa ao mais novo, Cristovão I, que vive em constante luta com o clero e parece ter sido envenenado.
Com tanta desgraça, razão teve Shakespeare quando escreveu tem algo de podre no reino da Dinamarca! (Será que Hamlet é inspirado nesta família?)
E a culpa desta saga, estupidamente assumida em trovas impressas no final do século XVI, é atribuida à rainha portuguesa! E ainda se devem queixar do “azar” da segunda rainha, Leonor, também portuguesa, ter morrido com dois anos de casamento sem deixar herdeiro.
O que se consegue apurar é que, segundo antropólogos que abriram o seu túmulo sete séculos depois, Dona Berengária era uma mulher linda. “O esqueleto de Berengária assim como a sua caveira são de linhas nobres e belas, donde se deduz que esta princesa deve ter sido raramente formosa e de corpo escultural. Ao lado da caveira estavam duas tranças fartas que atualmente se conservam entre duas chapas de cristal no Museu da Igreja dos Waldemares, em Ringsted, que em 1915 inspiraram o poeta Waldemar Rordam:

Neste escrínio de cristal, repousam cabelos de mulher
Separados da minha mão, unicamente pelo vidro.
Ali jaz uma trança farta, espantosamente conservada
Das trevas da morte e da poeira de 700 anos.
Está frágil e desbotada, no seu entrançado,
Com esta trança, o rei Waldemar brincou.
Nas ondulações desta trança enroscou-se
A felicidade da Dinamarca.
Sustentámos batalhas gigantescas
As nossas vitórias caíram, quais frutos corridos
Pela traição dos duques, e discórdia fraternal.

Na época, o nome das rainhas de Portugal, seria ser lembrado com admiração, o que deve ter levado a princesa Cristina da Noruega, filha do rei Hakon IV, a empreender em 1256 uma viagem, “acompanhada de cento e vinte pessoas, muitas damas da nobreza e um grande dote de ouro, prata e peles brancas e cinzentas”, para ir casar-se com um dos irmãos do rei Afonso X de Leão e Castela.
Escolheu Filipe, vinte e cinco anos, arcebispo de Sevilha que entrega o arcebispado ao irmão Sancho, promete à noiva construir uma igreja dedicada a Santo Olaf e casam em 1257.

Notas
1.- Se alguém for à Dinamarca deve visitar a Igreja dos Beneditinos em Ringsted, onde estão sepultadas as duas rainhas e seus maridos.
2.- Ramiro II e Adb ar-Rahman foram mesmo meus antepassados!


12/06/2014